História Parece Mais Fácil Nos Filmes - Capítulo 55


Escrita por: ~

Postado
Categorias Fifth Harmony
Tags Camren
Exibições 2.879
Palavras 9.809
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, FemmeSlash, Romance e Novela
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Oi. Obrigada pelor favoritamentos e comentários. Sou e serei grata até quando isso aqui acabar.

Capítulo 55 - I Heard The Ringing On The Telephone


Quinta-feira.

   Hoje decidi falar sobre relações sociais. Na última semana tive que ler um livro que o Sr. Cavanaugh nos passou e exigiu que dissertássemos sobre ele, mas antes de falar sobre relações sociais, quero deixar um recado para esse meu professor, mesmo sabendo que ele jamais lerá.

   Caro Sr. Cavanaugh

    Seu gosto para livros e textos é parecido com o da sua namorada, a Srta. Hastings. Não. Não estou falando que vocês têm bom gosto, é completamente o contrário. O gosto de vocês para a literatura está para o gosto de Camila para filmes. Ou seja, é péssimo. Vocês só escolhem coisas que mexem com o íntimo inquietante do ser humano, mas que estava quieto!!!! Se algo está quieto, eu imploro, não o faça acordar! Sua namorada fazia uma guerra mental sobre sentimentos em mim, Camila me faz dormir com filmes ruins e o senhor me faz pensar sobre minhas relações humanas!!! 

   O que quero dizer, maldito e incrível professor, é que não preciso refletir mais do que minha cabeça ferrada já pensa!

   

   PS: Sua namorada tem culpa e glória por ter me feito estar aqui.

 

       Com toda ingratidão grata,

                         Lauren Jauregui.

 

   Agora voltando ao tal livro, deixe-me citar aqui uma das partes que mais achei ofensiva para o meu interior:

“A intimidade requer coragem porque o risco é inevitável. Não é possível saber, logo no início, de que forma o relacionamento nos irá afetar. Crescerá, transformando-se, em auto-realização, ou nos destruirá? A única coisa certa é que, se nos entregarmos totalmente, para o bem e para o mal, não sairemos ilesos.”

   Aposto que até você sentiu um pinicar no fundo do seu interior. Sim. Na parte mais profunda dos seus sentimentos e emoções. Esse é o problema do ser humano: saber que sente e querer não sentir; ter noção e consciência, mas desejar não ter.

   Às vezes queria poder ser uma borboleta só para não ter consciência, mas se eu fosse borboleta eu iria querer nada. Se bem que... as borboletas devem ter um outro tipo de consciência, uma diferente.

   É por isso que só me/nos resta aceitar que temos essa tal noção e aprender a lidar com ela para não sofrer muito, mas sempre lembrar que as relações humanas vão te afagar e ao mesmo tempo apedrejar. 

   — O que você acha de a gente fazer algo diferente hoje? — Perguntei jogando meu corpo sobre o dela, encaixando meu rosto em seu pescoço e sentindo meu perfume favorito, mesmo que ela não usasse sempre o mesmo, mas era dela e estava nela.

   Era só mais uma tarde que chegamos cedo de nossas aulas. Na verdade, cheguei mais cedo do que Camila, já que estávamos na reta final de mais um semestre.

   — Eu tentei fazer isso, Lauren. — Ela resmungou acariciando meu cabelo.

   Ao escutar sobre isso, bufei e perdi um pouco da minha paciência.

   Camila estava um pouco chata naquela tarde. Minha liberação mensal de óvulos inutilizados pelo meu sistema reprodutor feminino havia chegado e Camila, impaciente que é, chateou-se alegando que eu fiz tudo planejado, que eu não estava disposta a cumprir o que prometi quando estávamos em Miami e que se eu quisesse terminar com ela, deveria falar logo.

   Até esse ponto eu soube lidar e consegui acalmá-la. Em seguida Camila começou a reclamar sobre como estava com peso além do normal, que sua pele não estava boa o bastante e que seu cabelo precisava de um corte moderno.

   — Não precisa de nada disso... — Eu disse com toda a sinceridade que há em mim.

   — Claro! Por que é que você vai querer me ver bonita? Eu não sirvo mais para você, não é?! — Falou com uma mágoa desnecessária.

   No fundo eu sabia o que ela tinha, mas seria arriscado ela gritar comigo e eu com ela se eu falasse.

   — Camz... Você quer um chá? Eu faço! — Ofereci.

   Ela respirou fundo e revirou os olhos.

   — Qual foi a última cor de esmalte que usei, Lauren?

   Rapidamente olhei para suas mãos e só então vi as graciosas unhas pintadas de azul.

   — Tinha esmalte antes desse aí? — Ri coçando minha bochecha.

   Eu estava nervosa, sim.        

   — ESTÁ VENDO? Você não repara em mim! — Ela explodiu e eu encolhi os ombros.

   — Mas é só um esmalte...

   É só um esmalte, certo?!

  Pela cara que Camila fez, não era só um esmalte.  Ela parecia realmente chateada com aquilo, mas resolvi engolir minha própria impaciência para cuidar da dela.

   Suspirei e aproximei-me dela com cuidado.

   — Me desculpe. — Pedi segurando o rosto dela entre minhas mãos. — Vou reparar mais em suas unhas... Se você quiser podemos marcar um horário no salão. Apenas saiba que você não precisa melhorar nada. — Fitei seu rosto por inteiro enquanto deixava que uma de minhas mãos passeasse por seu cabelo. — Já é adorável o bastante assim e eu só tenho olhos para você.

   Ela gemeu e afundou o rosto em meu pescoço, abraçando-me forte.

   — Eu, definitivamente, amo você. — Murmurou me fazendo sorrir.

   — Igualmente. — Apertei-a em meus braços.

   Camila ao ouvir minha resposta começou a muxoxar até suspirar alto.

   — Eu quero brigar por você ter falado esse igualmente, mas estou me controlando. Juro!

   Nossa pequena discussão seguiu até eu conseguir acalmar Camila de uma vez por todas. Por fim nos deitamos em minha cama e chegamos ao início de mais uma discussão, aquela que me fez levantar no início do relato.

   — Não estou falando sobre coito... E me desculpe se estou naqueles dias do mês, Camila. — Revirei os olhos levantando-me e desistindo por completo de acalmar Camila.

   — Não estou falando que você tem culpa sobre isso. Apenas que você tem culpa por ter adiado isso! — Ela ainda teve coragem de argumentar.

   — Ok. — Respondi.

   — Lauren, não estou te culpando!

   — Está sim. Não minta! — Falei procurando por meu celular. — Tudo o que você fez hoje foi me acusar e me culpar!

   — Certo. Estou te culpando em apenas um lado! É que depois da sua, vem a minha...

   Atingi meu limite e interrompi o argumento dela.

   — Bem-vinda ao mundo de namoradas, Camila! Desculpa se não é tão bom como você achou! Desculpa se nossos ciclos podem ser seguidos, desculpa se sou uma garota que não repara no esmalte das outras! — Encarei-a jogando uma camiseta minha ao chão que estava por cima de meu celular sobre a cama.

   — Ei! Eu não estou reclamando!

   Ri com raiva.

   — Claro, claro! Eu que estou! — Finalizei minha parte da discussão e saí do quarto, indo para a sala.

   Quando saí do quarto respirei fundo e recuperei a calma, passando pelo pequeno corredor, ao chegar à sala notei Normani sentada sobre o sofá com o Sparky em seu colo e, por mais estranho que pareça, ela estava colocando os próprios fones de ouvido nas orelhinhas do cachorro.

   — O que você está fazendo? — Perguntei sem entender.

   — Uma aposta. Temos que ver qual é o estilo musical favorito dele. — Ela explicou parecendo frustrada quando Sparky, com seu jeito animal, bateu a patinha em um dos fones, para retirá-lo. — Bebê, você tem que gostar de alguma! Já te mostrei quase o CD todo!

   — Quem está nessa aposta? — Eu quis saber, mas já prevendo.

   — Dinah ao meu lado e Ally insistiu que era contra nossa ideia.

   — Qual ideia? — Perguntei já sabendo que viria besteira. Elas três nunca faziam apostas úteis.

   — Ela diz que o Sparky gosta de músicas country porque, segundo ela, os animais parecem gostar disso.

   — Claro que nós duas temos senso e apostamos no pop! — Dinah gritou da cozinha. — Quem não gosta de pop?

   — Acho que o Sparky. — Apontei o Sparky que se remexia de um lado para o outro, tentando fugir dos fones.

   — Ele está dançando, se você não notou. — Normani disse chateada, me fazendo rir.

   — Claro... A propósito, ele já comeu hoje? — Perguntei.

  — Acho que não. Não vi ninguém chamá-lo pra isso. — Minha amiga deu de ombros muito concentrada em fazer o Sparky escutar alguma coisa nos fones.

   Assenti tranquilamente e segui para a cozinha. Dinah estava mexendo alguma coisa no fogão, inclinei-me um pouco sobre ela, recebi um empurrão, mas consegui ver que era uma sopa ou algo assim.

   — Isso de novo?

   — Está achando ruim? Venha aqui e faça algo diferente. Não sou sua cozinheira, Zangada! — Ela respondeu em seu já conhecido tom um pouco exaltado.

   — Não! Eu adoro sopa quando não preciso cozinhar. Posso comer sopa até me formar, se você quiser. — Tratei de argumentar antes que sobrasse para mim e segui para o armário embaixo da pia, procurando a ração do Sparky.

   Não falei sobre isso ainda, mas há algum tempo nós cinco decidimos que cada uma cozinharia por uma semana inteira, assim seria mais justo. Dinah sempre faz sopa em sua semana e se sobrar de um dia para o outro ela não se dá o trabalho de mudar o sabor, apenas faz mais e completa com o resto, por isso as outras meninas e eu temos a tática de comer o máximo que conseguirmos na noite, só pra não sobrar. Normani aprendeu a fazer risoto e esse se tornou o nosso segundo prato mais feito, às vezes ela varia e faz alguma salada para acompanhar. Allyson comprou um livro de receitas que só tinha tortas. Então durante uma semana inteira nós só comemos isso, a parte boa é que varia entre a doce e a salgada. Já Camila era a que menos tinha habilidades, então sua tática foi a seguinte: em um dia da semana ela pede pizza, nos outros ela simplesmente compra comida congelada e esquenta. Nós não reclamamos. Eu também não tenho muitas habilidades, mas para não ser como Camila, decidi que minha parte do cardápio seria o mais simples que eu conseguisse, ou seja um sanduíche diferente a cada dia.

   Ninguém nunca passou mal, só reclamava mesmo, mas estamos vivas e nutridas, até onde eu sei.

   — Ei... O que é que vocês têm? — Dinah perguntou dando-me espaço suficiente para conseguir puxar o saco vazio de ração. — Escutei alguns gritos quando estava acidentalmente passando para meu quarto...

   A ração havia acabado.

   — Pergunta para sua amiga qual é o problema dela. — Fechei a porta do armário com certa agressividade e me dirigi para a sala, pegando minhas chaves na bancada que dividia a cozinha e a sala.

   — Aonde você pensa que vai?! — Vi Camila parada na entrada do corredor que dava para os quartos. Rapidamente me assustei, pois não a havia visto.

   — Comprar a ração que você esqueceu de comprar para o seu filho. — Respondi naturalmente.

   — Mas a Mani é quem iria comprar...  — Minha namorada franziu o cenho, mas como eu estava irritada, não dei ouvidos.

   — Ops... — A garota morena disse enquanto ria e largava o Sparky sobre o sofá para então vir em minha direção. — Vamos agora mesmo resolver isso, amiga! Vou com você! Apenas espere eu colocar uma roupa melhor!

   Fingi que Camila não existia e também ignorei o disfarce sobre o erro da minha amiga. Esperei por Normani e enquanto isso ignorei por completo a existência de Camila, ela também parecia não querer saber de mim, já que passou direto para a cozinha.

   — Cheechee, eu quero comer logo. — Reclamou.

   — Vai ter que esperar. Não terminei ainda!

   — Tudo bem. Eu posso esperar. — Disse indo até a bancada e pegando uma banana.

   Ela descascou a fruta, mordeu e mastigou com uma irritação evidente no rosto enquanto me encarava. Cruzei os braços e estreitei os olhos. Em resposta, Camila colocou sua língua para fora como uma afronta, então mostrei meu dedo do meio. Ela estava prestes a fazer mais alguma coisa quando recebeu um empurrão.

   — Sejam maduras! — Dinah disse para ela.

   — Cheechee, você me empurrou!

   — Foi pouco pra essa infantilidade de vocês! — Dinah bufou, balançando uma colher no ar.

   — O que aconteceu? — Normani perguntou parando ao meu lado.

   — Essas duas não sabem nem brigar, Mani! — Dinah explicou puxando Camila para perto de nós.

   — Achei que fosse alguma novidade. — A morena respondeu.

   — Vão fazer as pazes? — Dinah perguntou como se fossemos duas crianças.

   Nós duas negamos com a cabeça e pude escutar as outras duas grunhirem.

   — Vamos, amiga. Vamos. — Normani disse puxando-me para fora do apartamento.

   Assim, fomos diretamente para o mercado.

   Ao passar pelar portaria com a minha amiga, avistamos Caleb, mas ele estava muito ocupado explicando sobre o recolhimento do lixo para uma moradora, apenas nos disse que falaria conosco no próximo dia. Assentimos e seguimos nosso caminho.

  Compramos a ração do Sparky, alguns produtos de higiene e limpeza que estavam quase acabando e então voltamos para o apartamento. Camila não estava na sala, nem Dinah. Allyson estava falando com alguém pelo telefone, na sala. Normani perguntou se eu queria ajuda com a arrumação das compras, mas neguei. Guardei tudo em seus devidos lugares, alimentei o Sparky, limpei alguma sujeira que ele havia feito e então joguei-me na poltrona para ver TV com Normani e Allyson, que já não falava mais ao telefone.

   — Lauren, preciso perguntar uma coisa a você. — Brooke disse enquanto víamos o programa de modelos que elas gostavam.

   — Fala.

   — Você sabe se está acontecendo alguma coisa com a Vero? — Perguntou e então encarei-a sem entender.

   — Não...

   — Bem... É que a Lucy perguntou essa mesma coisa pra mim. Ela disse que a Vero tem agido de forma muito estranha.

   Olhei rapidamente para Normani e a mesma deu de ombros.

   — Não sei... Mesmo. Para mim a Veronica está normal. Exceto pelo fato de... — Eu ia falar uma coisa que não precisava ser dita até porque nem eu sabia o que era ao certo, por isso preferi não falar.

   — De? — Ela fez para que eu continuasse.

   — Hum... Nada, não. Na verdade, ela está muito normal. — Neguei.

   — Então deve ser coisa da Lucy. Alguma impressão errada.

  Apenas assenti e me tornei ouvinte de uma conversa sobre como algumas pessoas ficam estranhas após relacionarem-se com outras. Eu tinha minha própria teoria sobre o motivo de Veronica estar agindo de forma estranha com a Lucy, mas preferi guardar somente para mim, pois não queria ser precipitada, nem espalhar mentiras.

   Após um tempo, estava mexendo em meu celular, escutei as garotas falarem que iriam sair, mas só assenti, sem desviar da tela. Não perguntei se iriam sair para a rua ou da sala.  

   — Amor? — Camila chamou e então olhei-a

   Só então entendi o porque de as outras terem saído.

   — O que é? — Respondi sem vontade.

   Ela revirou os olhos e bateu um pé no chão.

   — Estúpida! Grosseira! Arrogante! 

   Confesso que no meio de minha irritação, a achei adorável e graciosa me xingando.

   — É isso que você tinha pra dizer? — Eu quis saber.

   — Eu estava tentando dizer que aceito sair com você pra fazer qualquer coisa, mas você tinha que estragar! — Bradou.

   Como eu não esperava por algo daquele tipo, fiquei surpresa e baixei minhas guardas.

  — Oh... Desculpe-me... Eu só... Eu não devia ter falado assim com você. — Falei com sinceridade ao mesmo tempo que me levantava.

   — Tudo bem. Então... — Chegou mais perto de mim. — consegui ingressos pra essa noite em um musical.

   — Mesmo? — Sorri para o gesto dela de tentar consertar as coisas.

   — Sim. Quero que você perceba que não importa o que eu vá fazer em meu tempo livre, contanto que seja com você.

   Após escutar isso e como a namorada otária que sou, sorri para ela e abri meus braços, onde ela logo alojou-se.

   De uma coisa eu tinha certeza: Camila e eu somos péssimas ao tentar corrigir nossos próprios erros. Acho que acostumamos tanto a viver em guerra e paz que se algo for somente paz ou somente guerra, não irá nos satisfazer.

   Não demorou para que nós duas fôssemos nos arrumar. Perguntei a Camila como ela iria se vestir e, somente depois de saber, decidi o que vestiria também.

   Eu sei que meses e mais meses atrás eu disse “Nunca vou estar em um relacionamento como os desses casais que se vestem iguais!”. No fundo eu realmente acreditava nisso, mas agora vejo que é impossível escapar desse tosco/vergonhoso/romântico ato. Ainda mais quando você é uma garota e namora uma outra garota ou é um garoto e namora um garoto. Inconscientemente acaba adquirindo o jeito de se vestir do outro e até mesmo roupas do outro.

   Minha resposta para isso é: você se apega tanto à pessoa, que uma simples roupa que você use já serve para tê-la sempre com você.

   — Mani, por favor, lembre-se de alimentá-lo no horário correto. — Camila lembrou, pela terceira vez seguida quando estávamos perto de sair.

   — Mila, eu vou lembrar!

   — Por segurança eu vou acordar a Ally e avisar. Você e Dinah certamente não lembrarão do meu filho.

   — A gente não vai esquecer, Chancho! — Dinah, que estava com Normani, confirmou.

   Camila não confiou de forma alguma nas duas garotas que jogavam cartas no chão da sala, então foi acordar Ally, que havia tido um dia cansativo de estudos no laboratório, para lembra-la da refeição do Sparky.

   — Por que sua namorada não confia que lembraremos? — Dinah bufou jogando uma carta em uma das várias pilhas ordenadas.

   — Jane, nem eu confio. Vocês estão jogando e pod-

   Antes que eu terminasse de falar, o celular de Normani tocou.

   — Oi, Vero! — Ela atendeu. — Mesmo? Aceitamos, sim! Não... Elas duas vão pra um programa de casal. OK!

   A conversa foi curta.

   — O que foi? — Dinah perguntou.

   — Levanta. — Normani disse levantando e deixando o baralho no chão. Fingi não ver. — A Vero vai passar aqui com uma carona pra gente ir a um barzinho novo.

   — Normani, amanhã temos aula! — Falei.

   — Amanhã você tem aula, Zangada. Podemos chegar um pouco mais tarde. E quem é a carona? A Lucy? — Dinah reclamou comigo, mas logo voltando a atenção para Normani.

   — Não. — Respondeu.

   Rapidamente estranhei, já que Lucy sempre era a carona.

   — Mas Veronica tem aula! — Falei.

   Não é que eu quisesse atrapalhar a alegria dela, até porque eu estava saindo também, mas elas certamente ingeririam bebidas alcoólicas.

  — Ela já está acostumada. Você namora, Camila namora, até a Ally tem esse flerte com o Caleb. Eu preciso de alguém! — Dinah rebateu.

   — Se você achar alguém vou ter que torcer pra Vero não achar ninguém... Não posso sobrar! — Normani revirou os olhos.

   Ri da conversa boba das duas e dei de ombros. Logo Camila apareceu e elas duas começaram a falar sobre o “passeio” que iriam fazer, sumindo no quarto de Allyson. Em seguida, Camila voltou.

   — Definitivamente não confio nelas duas com a Vero. Você ouviu que a Lucy não vai? — Ela comentou, provavelmente já sabendo de tudo.

   — Ouvi... Mas a Brooke deve ir, não?

   — Não sei. Acho que não. Alguém precisa alimentar o Sparky.

   Deixei de pensar sobre a complicada vida das minhas colegas e caminhei com Camila para fora do prédio. Pegamos o metrô e fizemos o restante do caminho a pé mesmo.

 

   O musical que Camila havia escolhido não era nada da Broadway, até porque algo assim levaria todo o dinheiro que não temos, ou que ela tem, já que foi ela quem pagou. Mas foi algo legal. Uma releitura de um filme já conhecido e um pouco antigo. Durante todo o tempo notei que ela estava atenta, mas nem tanto. Parecia que ela não estava gostando tanto assim, principalmente quando tentava me beijar, mas eu neguei todos porque não me sentia confortável em fazer isso quando tinha pessoas atrás de nós, aos lados e à frente!

   Antes que você ou ela mesma reclame sobre minha covardia, deixo claro que passamos o tempo todo com as mãos dadas e os dedos entrelaçados.

   Assim que terminou, esperamos a maioria das pessoas sair e então saímos também do local. No hall do teatro tinha algumas imagens do musical e curiosidades. Camila e eu paramos em frente a uma para ler, mas logo fomos interrompidas.  

   — O que achou do musical? — Um rapaz perguntou aproximando-se de nós, mas direcionando-se a Camila.

   — Hã... — Senti Camila vacilar. — Surpreendentemente legal. E você?

   — Tem certeza? Observei que você estava entediada demais e preferiu conversar com sua amiga.  — O rapaz riu tentando parecer charmoso.

   Esse detalhe pode ter sido acrescentado apenas por minha mente, um pouco, ciumenta.

   — Ah... Acho que teatro não faz muito meu tipo... Ainda acho cinema mais legal, mas ela gosta. — Ela respondeu segurando em meu braço com firmeza suficiente para dizer “Lauren, fica calma”. Mas eu não queria ficar calma!

   Eu não estava hormonalmente bem para ficar calma.

   — Já que acha cinema mais interessante, aceita ir comigo qualquer dia desses?

   Nesse momento eu não pude controlar meu instinto de namorada um POUCO, BEM POUCO, MINIMAMENTE ciumenta.

   Como assim acaba de falar com a pessoa e já a chama para sair?!

   — Ela tem DVD em casa, tem os filmes que passam na TV, tem a internet... Pra quê cinema? Ela não aceita. — Falei tomando a frente de Camila.

   Ele simplesmente uniu as sobrancelhas e riu.

   — Desculpa, mas...

   — Ela é a minha namorada. — Camila respondeu sem perder sua simpatia que às vezes era desnecessária.  

   — Ah... Você namora? — Ele perguntou.

   NÃO! A GENTE ESTÁ BRINCANDO DE NAMORAR AQUI!

   — Namora e tem com quem ir ao cinema. Tchau. — Falei antes que outra conversa se estendesse.

   Nem esperei pela resposta dele e arrastei Camila dali. Confesso que mal prestei atenção ao caminho que fizemos para chegar até o lado de fora do teatro.

   — Lauren... — Ela resmungou entediada enquanto se deixava levar por mim. 

   — Shhh! Vou mantê-la longe de pessoas intrusas. — Falei completamente decidida.

   — Me larga. Eu nem queria conversar com ele! — Ela disse e no mesmo instante a larguei, parando de andar já do lado de fora, na calçada.

   — Pelo menos isso! Mas, veja bem, eu existo e eu vi aquela cena e eu não gostei e por isso vamos sumir antes que eu volte lá e faça uma besteira! — Avisei.

   — Amor, você não é nem um pouco corajosa. — Ela riu envolvendo os braços em meu pescoço, beijando o canto da minha boca. — Duvido que fizesse alguma besteira... — Beijou meus lábios, sugando vagarosamente o inferior.

   — Mmmmm... Ok. — Murmurei antes de beijá-la de verdade, colocando minhas mãos em sua cintura e puxando-a para muito mais perto.

   Iniciamos um beijo lento, sem pressa alguma, mas que não durou muito, uma freada de carro na via nos assustou.

   — A propósito, obrigada por me chamar de covarde. — Agradeci ironicamente enquanto fungava em seu pescoço.

   — Foi alguma mentira? — Ela perguntou rindo e eu fiz questão de encará-la ao rir.

   — Eu não gostei do que vi e ouvi, poderia tomar uma atitude bem... drástica! Eu sei ser drástica, sabia? — Indaguei.

   Camila revirou os olhos e apertou minhas bochechas.

   — Para com esse ciúme... Eu não tenho mais paciência de ter outro alguém.

   — Não fale como se você fosse controlada em situações assim. Você é péssima, Camz.

   — É... eu sei disso... Precisamos tratar esse nosso lado psicopata do ciúme.

   — Você quer ir parar numa clínica? — Sugeri já imaginando que Camila e eu faríamos terapia de casal antes dos 50 anos.

   — Não! Sem mais clínicas com você. E eu sou uma quase psicóloga. Posso tratar tudo isso!

   Ri lembrando de nossa primeira vez em uma clínica.

   — Ok. Então me beija porque já é uma terapia. — Confessei.

   Ela mordeu o lábio inferior e sorriu.

   — Vai pagar um lanche pra mim?

   Revirei os olhos e bufei, começando a andar.

   — Esquece o beijo. Vamos pra casa. — Anunciei, mas não estava brava. Apenas dramatizando um pouco.

   — LAUREN!

   Camila logo me alcançou, mas não disse nada. Adiantou os passos, ficando à minha frente, me arrastando para longe do teatro. Se eu estava entendendo? Não muito. Apenas deixei-me ser guiada, passando por pessoas que vinham em direção contrária a nossa. Paramos na entrada do que parecia ser uma viela, mas não tive tempo de olhar para o final da pequena rua, pois Camila me empurrou para lá, encostando-me na parede da direita. Abri a boca para falar que o local estava um pouco escuro e que achava perigoso, mas Camila me impediu quando trouxe seus lábios para os meus. Especificamente, prendeu o meu inferior entre os seus. Fechei os olhos e senti meu estômago embrulhar com a sensação boa. Boa e perigosa.

   Estar em uma suposta viela era perigoso, mas Camila estava sendo mais perigosa no momento.

   Camila interrompeu nosso contato apenas para voltar a ele de forma mais intensa, buscando com urgência um encontro de línguas. Suas mãos foram diretamente para minha cintura, apertando o local. Senti um arrepio passar por minha espinha dorsal e, como reação, levei minhas mãos para o pescoço da minha namorada.

   Nosso beijo estava completamente fervoroso, os toques de Camila arrastavam-se por minha pele, abaixo da minha blusa, como formigas nervosas ao encontrarem uma casca de inseto morto. Mas eu não sou um inseto... E... Enfim! O que quero dizer é que as mãos de Camila estavam causando uma espécie de insanidade mental em mim ao tocarem de maneira tão possessiva e certa o meu corpo. Já haviam passado por minha barriga, costas e até por minhas vergonhas superiores. Eu sequer havia lembrado que poderia correr e fugir, só me deixei levar, escutando nossas respirações pesadas e meus gemidos sussurrados que denunciavam “Camila, você é, ferradamente, boa no que faz!”. Claro que ela notava isso, já que cada vez mais investia em apertos certeiros nas partes mais sensíveis de meu corpo.

   Já não aguentando e nem me contentando mais com o beijo, comecei a tracejar um caminho, com meus lábios, da bochecha de Camila até o pescoço dela, onde passei a minha língua demoradamente antes fechar meus lábios sobre a pele, sugando para aliviar a boa sensação que era ter as mãos de Camila em minhas vergonhas inferiores traseiras e sua perna esquerda pressionando o lugar bastante sensível entre as minhas pernas...

   Não estava bonita a minha situação, mas ruim também não estava! Tudo só piorou quando Camila arrastou as pequenas unhas por minha cintura até o cós da minha calça e ousou abrir o zíper. No mesmo instante impedi-a.

   — C-camz, não posso...

   Ela suspirou e ergueu o rosto.

   — Você ainda está... né? — Perguntou ofegante.

   — Camila, só mudou de tarde para a noite. Não foi embora... — Expliquei tentando me recuperar do amasso que havíamos acabado de ter.

   — Grrrrrr! Isso me revolta porque eu prec-

   Beijei-a sem aviso prévio, mas nada mais que um encostar de lábios.

   — Eu pago seu lanche. Pode escolher o lugar agora mesmo!

   Ela sorriu vitoriosa para mim e me puxou dali, sem tentar nada mais profundo naquela noite.

 

Terça-feira.

   Dizem que uma ligação pode mudar o seu dia e nesse dia eu tive a primeira prova disso.

   — Lauren, estamos indo pro hospital. Encontra a gente lá. — Dinah disse assim que atendi a chamada.

   Estava em meu horário de almoço, mas minha comida quase não passava mais pela garganta ao escutar “hospital” e “a gente”.

   — Hospital? Por quê? — Perguntei já sentindo a preocupação tomar conta de mim.

   — Sua namorada é uma retardada.

   Se eu já estava temendo algo ruim com alguma delas três, piorei ao saber que era Camila.

   — O que a Camila tem, Dinah?!

   — Nada de grave. Tem drama! Só vá pra lá quando sair daí. Estou te passando o endereço por mensagem.

   Essa foi a ligação que QUASE acabou com minha saúde. Saúde física e mental.

   Quando Dinah desligou sem falar nada, só tive o tempo de segurar o braço da Brooke e falar “precisamos ir”.

 

   Não consigo fixar muita coisa em minha mente, pois lembro apenas de ter visto Veronica dizer que iria nos acompanhar. Se as outras duas garotas não estivessem me acompanhando, juro que não saberia como pegar o metrô.

   Agora deixe-me explicar que durante a manhã não havia NADA de errado e explicando vou tentar achar a mínima falha que seja.

  Acordamos no mesmo horário, já que eu havia dormido no quarto de Camila. Ela tomou banho depois de mim, se arrumou, alimentou o Sparky, depois levou ele para a porta do prédio rapidamente, voltou, se alimentou, escovou os dentes e então partimos, as cinco, para a estação de metrô. Ela me abraçou antes de irmos para nossos vagões e... só.

   Esse é meu relato detetive e, como detetive amadora, não vejo pistas de coisas ruins que possam ter acontecido com Camila. Ao menos que... fosse um acidente.

   Assim que chegamos à recepção do hospital informei para uma das mulheres que estavam ali sobre Camila, mas não nos deixaram entrar.

   — Senhorita, nós somos amigas dela. — Tentei argumentar.

   — Não posso permitir pessoas que não são da família, exceto pelas acompanhantes que ela já tem.

   Respirei fundo, fechei os olhos rapidamente e os abri.

   — Moça, deixa eu expli- — Brooke, com toda calma, começou a falar.

   — Somos as únicas pessoas que ela tem por aqui!! — Veronica interrompeu Allyson, perdendo a paciência também. — Essa é a namorada dela! — Apontou para mim.

   — Não posso deixa-la entrar. Nem você. Nem você. — Apontou uma por uma de nós. — Ela já está com duas acompanhantes.

   Veronica bufou alto e sacou o celular do bolso, discou para alguém e ergueu uma mão para nós.

   — Dinah, estão me barrando aqui na recepção! Ok! — Veronica guardou o celular voltou-se para a mulher sorrindo satisfeita. — Vai poder logo, logo!

   Não demorou mais do que 5 minutos para que Jane surgisse com o semblante sério.

   — Essas três podem entrar. — Disse para a recepcionista abusada.

   — Mas não pode... — A mulher ia falar alguma coisa, mas Dinah e Veronica cruzaram os braços ao mesmo tempo, encarando-a ferozmente. — Tudo bem. Podem entrar.

   Respirei aliviada e segui Jane, assim como as outras duas. Particularmente, não gosto de estar em hospitais, clínicas são menos ruins, mas locais onde você pode ver uma aglomeração de doenças não me deixam confortável.

   — Ela está na enfermaria. — Dinah explicou. — Não foi nada grave, como eu disse.

   — E o que foi exatamente? — Brooke perguntou.

   — Vocês já vão ver que não passa de drama... Sério. Ela está agindo como se tivesse levado um tiro! — Dinah riu.

   Eu não conseguia falar nada, só precisava ver minha namorada viva.

   Chegamos em frente a uma passagem de porta dupla. Dinah indicou que era por ali, mas me mandou ir na frente. Agradeci a ela e segui olhando leito por leito até avistar Normani sentada na ponta de uma cama. Uma cortina azul me impedia de ver Camila, mas logo agilizei meus passos para lá. Parei ao lado da cama, minha amiga ergueu a cabeça e sorriu para mim. Sorri rapidamente para ela, mas tive minha total atenção voltada para Camila.

   — Camz? — Chamei-a.

   Camila estava com a cabeça baixa, mas logo ergueu.

   — Amor, foi horrível! — Minha namorada exclamou assim que me viu.

   Logo imaginei Camila sofrendo um ataque de bandidos, um atropelamento, uma queda do sexto andar de algum lugar, um infarto, uma briga de gangues, um atentando de bombas... só pensei o pior!

   — O que você teve?! — Aproximei-me tocando seu rosto. Ela me encarou com os olhos úmidos e suspirou. Foi aí que pensei em alguma doença maligna. — Camila, fala comigo!!

   — Eu vi a morte! — Formou o bico com seus lábios, fazendo meu coração se desesperar.

   — Para de drama. — Dinah nos interrompeu. — Você estava correndo enquanto descia as escadas e caiu no último degrau quando tentou pular dois!

   Ao escutar isso virei-me para Dinah que deu de ombros e Normani que assentiu. Meu corpo inteiro relaxou e eu pensei que fosse cair, já que só estava de pé pela tensão. Então lembrei que o ato de Camila foi completamente imaturo.

   — Camila, quanta irresponsabilidade! — Falei para minha namorada que agora sorria amarelo.

   Camila, tome mais cuidado! Não me dê sustos assim! Foi o que eu quis dizer.

   — Não reclame. — Suspirou e escorou a cabeça em minha barriga. — Só me abrace.

   Suspirei também e me rendi aos braços dela que já me esperavam, beijando demoradamente sua cabeça.

   Tudo bem que ela estava errada por agir com uma criança, mas e daí?! Uma perna estava quebrada e não podíamos voltar atrás. Pelo menos ela não iria morrer, só se POR UM ACASO uma infecção surgisse, mas preferi não pensar sobre isso. Porque, POR UM ACASO, estávamos em uma enfermaria com mais adoentados ao nosso redor. Além deles, as bactérias estavam lá, os fungos também e... ah... os vírus! POR UM ACASO só o ar-condicionado “ventilava” o local FECHADO.

   Mas eu não precisava focar nisso. É só um osso fraturado. INTERNO!

   — Mila! Ah... Que susto você deu em todas nós! — Allyson disse.

   — Pela cara que Lauren Michelle fez quando recebeu a ligação, parecia que já estávamos vindo para um velório. — Veronica riu.

   Enquanto eu não largava Camila, a mesma mantinha uma conversa cheia de risos com as outras garotas.

   — Tá doendo? — Perguntei em seu ouvido enquanto meus dedos acarinhavam seu cabelo no único segundo em que ela ficou fora da conversa.

   — Um pouco. — Murmurou dengosa.

   — Vai passar. Em algumas semanas suas fibras ósseas estarão fazendo o trabalho delas... E então você estará livre. — Falei tentando confortá-la, mas a mim mesma também.

   — Hum. Semanas? — Ela pareceu gostar.

   — É. Você nunca leu sobre isso? — Perguntei.

   — Nunca quebrei nada... até hoje. Você já? — Ela devolveu a pergunta me puxando para sentar ao seu lado.

   — Não. Só li por curiosidade. — Dei de ombros sentando-me naquela cama, mas sentindo uma ânsia subir por minha garganta ao imaginar o tanto de vezes que aqueles lençóis haviam sido "esterilizados".

   — Tá. Mas quero ir embora.

   — Você já está liberada? — Eu quis saber.

   Ela deu de ombros e olhou para Dinah.

   — Vou procurar saber isso. Já volto. — A maior de todas avisou saindo.

   — Acho que vou precisar faltar aula por uma semana... — Camila disse como quem não quer nada.

   — Eu faltaria por um mês! — Normani disse em seguida.

   — Eu nem voltaria mais. — Veronica completou.

   Revirei os olhos para todas elas e voltei a encarar Camila.

   — Você quebrou a perna, não a cabeça. — Olhei-a com os olhos estreitos.

   — Realmente, Mila. Você não vai conseguir escapar das aulas. Não enquanto estivermos aqui para impedir. — Brooke confirmou, do outro lado da cama.

   — Não cortem minha alegria!

   Eu até estava tentando manter minha postura, mas ver minha namorada naquela situação estava deixando minha parte racional completamente oculta.

   — Em breve teremos o Natal, Camila... A gente dá um jeito de te levar até o metrô... Não sei. — Suavizei minha expressão.

   — Tudo bem.

   Não demorou para que o médico de plantão chegasse e olhasse feio para a pequena aglomeração que estava no leito de Camila. Mas o que poderíamos fazer? Eu sou a namorada dela, só sairia à força. Dinah e Veronica estavam no papel de “encarar feio qualquer enfermeira que aparentasse reclamar de nós 6 ali”. Allyson tentava manter a calma de todos e Normani... Bem, Normani estava ocupada fazendo desenhos no gesso de Camila.

   Minha namorada foi liberada após algumas recomendações médicas, recebeu uma receita com um analgésico prescrito e só.

   Nosso caminho para fora do hospital foi muito lento. Camila queria aceitar a cadeira de rodas que ofereceram, mas POR UM ACASO eu fui muito esperta e pensei em todos que poderiam ter sentado ali e decidi que não haveria problema em seguirmos andando lentamente.

   O caminho para a estação foi pior.

   — Eu não aguento mais. Me carrega, Lauren! — Ela pediu enquanto estávamos indo para a estação de metrô. Normani e Veronica estavam mais a frente, já Dinah não saía do lado de Camila e nem eu. Allyson conferia cada passo que minha namorava dava.

   — Camz, eu não vou aguentar!

   Eu, sinceramente, não iria aguentar carregar uma pessoa do meu tamanho. É como eu já disse uma vez, isso só funciona nos filmes! Porque quando a pessoa estiver pesada demais só precisa parar de encenar.

   Camila reclamou um pouco, mas acabou se apoiando em mim para conseguir andar. Passei um braço pela cintura dela e deixei que um braço dela viesse para meu pescoço. Dinah carregou a bolsa e os livros de Camila enquanto seguia ao lado da amiga.

   — Quanta lentidão! — Dinah reclamou. — Ainda vamos apssar em alguma farmácia!

   — Cheechee, não posso ir mais rápido!

   — Estou quase te carregando. — A outra respondeu impaciente.

   — Você faria isso? — Ela sorriu já abrindo os braços para Dinah.

   — Para não ter que esperar até o anoitecer pra chegar em casa, faria sim.

   — Não precisa esperar.

   Então Dinah me deu os materiais de Camila e os dela também, para então segurar Camila em seus braços.

   — Desculpa, Zangada. Mas se você não consegue, tem quem consiga. — Zombou de mim, mas eu apenas dei de ombros.

   Ajeitei a mochila de Camila em meu outro ombro e Allyson me ajudou com a de Dinah. Assim seguimos para o metrô, Veronica e Normani foram para a farmácia mais próxima do apartamento e nós quatro chegamos antes ao mesmo.

    O percurso até o nosso prédio foi complicado, principalmente por termos pegado um horário ruim, de muita gente no metrô. Porém a melhor parte, certamente, foi ver a expressão assustada de Caleb ao nos ver.

   — O que aconteceu?! — Perguntou correndo para perto de nós.

   — Um pequeno acidente. Estou bem! — Camila sorriu.

   — Quero saber sobre isso. Esperem só eu terminar meu turno.

   Enquanto íamos para o elevador, Normani e Veronica conseguiram nos alcançar a tempo, já com o remédio de Camila.

   Ao fim da tarde o nosso apartamento estava uma agonia sem tamanho. Veronica disse que iria dormir por lá mesmo, Caleb alojou-se no sofá ao lado de Brooke enquanto Camila estava na poltrona com a perna sobre uma cadeira, eu estava em oura cadeira ao seu lado. Dinah e Normani optaram pelo chão, com Veronica, onde começaram a jogar baralho.

   Já era noite quando Shomo decidiu ir embora. Brooke disse que o acompanharia até a portaria. O resto de nós continuou na sala.

   Levantei-me rapidamente e ajudei Camila a fazer o mesmo.

   — Senta aqui, Camz. Aí vai ficar ruim. — Falei colocando-a de forma cuidadosa no sofá. Em seguida corri para a mesa e busquei uma cadeira, corri para o quarto e peguei o travesseiro dela, coloquei-o sobre a cadeira e com muita calma apoiei a perna dela ali. — Está bom?

   — Está, amor. Mas sinto sede. — Ela disse.

   — Eu busco água para você. Não se mexa! — Avisei.

   Fui diretamente para a cozinha e quando enchia o copo com água, escutei Dinah rir acompanhada por Camila. Quando voltei pude entender o motivo.

   — Vero, não tenho culpa se minha namorada é maravilhosa. — Camila deu de ombros pegando o copo de minha mão e me mandando um beijo no ar.

    — Quer mais alguma coisa? — Perguntei.

   — Quero minha namorada aqui ao meu lado. — Ela respondeu batendo no lugar vazio do sofá.

   — Estou aqui. — Sentei-me com rapidez ao lado dela, passando um braço por seus ombros.

   — Falando nisso de namorada maravilhosa, estive escutando que você e Lucy não estão bem, Vero. — Normani comentou.

   — É? Não sabia... — A garota deu de ombros, fingindo misturar as cartas.

   — O que você aprontou? — Normani insistiu.

   — Eu não aprontei nada. Lauren Michelle sabe.

   — Você está com outro alguém? — Dinah perguntou.

   Veronica riu e olhou para cada uma de nós.

   — Talvez.

   O coro de surpresa foi unânime entre nós.

   — Mas você estava apaixonada pela Lucy! — Camila afirmou, colocando o copo vazio no canto do sofá.

   — Então, posso ter me enganado... — Veronica riu novamente.

   — Já falou isso para ela? — Normani quis saber.

   — Não... Algumas coisas simplesmente não precisam ser ditas.

   Veronica passou mais algum tempo desviando completamente o assunto. Essa atitude dela só me fez acreditar ainda mais na minha teoria absurda. Absurda, mas que fazia muito sentido. Eu até que queria compartilhar com alguém, porém se eu contasse para Camila ela me mataria por entender errado. Caleb contaria para Brooke que espalharia para Dinah e ela me mataria também. Normani também contaria para as garotas e eu me daria mal.

   — Você realmente não sabe sobre nada? — Camila perguntou ao me puxar para que pudesse sussurrar em meu ouvido.

   — Sim. Ela não me contou. — Sussurrei de volta.

   Ela assentiu e voltou a prestar atenção à conversa. Algum tempo depois o celular de Camila tocou, mostrando o nome “Mãe” na tela.

   — Oi, mãe! — Atendeu animada. — Mãe, foi horrível! Eu estava descendo os degraus quando, do nada, caí direto no chão. Eu nem sei como caí!

   — Sua filha estava brincando de pular degraus, Sinu! — Dinah gritou para que Sinuhe escutasse do outro lado.

   — Dinah! Sim, mãe. Estão todas sendo um amor comigo... é! Até sopa vou ganhar... Dinah até me carregou! Não vou faltar aula... É, Lauren e Ally decretaram isso. Tá, mãe. Sabemos que sua nora é mais consciente que sua filha. Mandei uma foto da minha perna engessada para meu pai, ele viu? A Mani que desenhou! Eu sei! Meus feriados serão péssimos... Eu sei...

   Camila passou mais algum tempo conversando com a mãe, até Sinu avisar que precisava desligar.

   Não demorou para que as garotas falassem que iriam dormir e, Camila e eu também, na cama dela. Dinah disse que estaria no meu quarto, com as outras quatro. Antes de deitarmos, Dinah ajudou Camila com o banho, o que foi um alívio, pois se tivesse que ser eu algo bem constrangedor teria acontecido. Esperei todas as outras tomarem seus banhos e fiquei por último.

   Na hora de deitarmos tomei o máximo de cuidado para que Camila se sentisse confortável. Até ofereci dormir no sofá para que ela tivesse espaço, mas não aceitou e acabamos na cama dela mesmo. Ela virada com a cabeça para cima e a perna engessada em cima de um travesseiro, eu espremida ao seu lado e Sparky no chão, ao nosso lado, já que ele se recusou a dormir em outro lugar. Ele deve estar sentindo que estou mal, disse Camila. E eu acreditei.

   Ela estava mexendo no celular enquanto eu jogava no meu. Até que um lembrete tocou, era hora do remédio dela. Nem a própria engessada colocou um alarme, mas é claro que a namorada boba colocaria!

   Levantei, busquei o remédio e água, entreguei e ela agradeceu. Em seguida voltei a deitar-me ao seu lado.

   Camila podia não saber, mas qualquer coisa que comprometesse sua saúde, comprometeria a minha também. Ela poderia estar com um dente quebrado, mas eu ainda me sentiria inquieta. Acho que isso é porque eu não gosto da ideia de que somos humanos e podemos — vamos — morrer. Em minha mente, Camila não pode morrer. Não antes de mim. O que seria de mim sem ela? Desculpe-me falar um absurdo, mas eu, definitivamente, não sei mais viver em um mundo onde ela não possa estar.

   — Amor, — Ela chamou-me ao mesmo tempo em que bloqueava a tela do celular e o colocava sobre a barriga. —  jamais vamos morar em uma casa de andar. Escadas são um perigo!

   Ri do cinismo dela.

   — Você que é o perigo, querida... — Beijei-lhe a bochecha.

   — Por precaução nossa casa será completamente no térreo. — Rebateu virando o rosto e me beijando.

   — Como quiser. — Concordei antes de aprofundar o nosso beijo.

    Cogitei encerrar nosso beijo, mas Camila segurou a gola de meu moletom e não deixou que eu parasse aquilo. Calmamente levei minha mão esquerda para o rosto dela fazendo um leve carinho enquanto nossas línguas deslizavam uma contra a outra. A mão de Camila, que estava em meu moletom, arrastou-se por meu pescoço até chegar em minha nuca, a qual foi arranhada de leve. Desci meus dedos por seu rosto, pescoço, barriga até atingir a barra da camisa de mangas longas que ela usava. Levantei o tecido apenas para tocar sua barriga, que contraiu-se com o contato. Vaguei minha mão por toda a pele daquela região. A respiração de Camila descompassava a cada segundo mais.

   Não contente com minha calma, a garota tirou a mão que estava em minha nuca, levou para cima da minha, com o tecido entre as duas, e levou-a até um de seus seios.

   Eu iria chegar lá, ela só não teve calma! Qualquer outro dia iria explica-la que a calma é necessária e faz bem.

   Movi meu corpo e me preparei para passar uma perna por cima de uma das pernas de Camila, no caso a esquerda, já que a direita era a quebrada.

   — Ai... — Camila gemeu, mas não foi um gemido próprio do momento.

   Então parei de beijá-la e uma luz acendeu em minha mente.

   — Sua perna! — Lembrei.

   — Ela não atrapalha, não... — Disse me impedindo de parar. — Vamos continuar.

   — Não...

   Lutando contra minha própria vontade, joguei-me para o lado.

   — Juro que estou bem! Vem aqui.

   — Devo lembra-la que você está...? — Ergui uma sobrancelha para que ela lembrasse que, além de ter uma perna engessada, estava em um daqueles momentos mensais.

   — Mas você não, gracinha. Vem aqui. ­— Chamou-me mordendo o lábio inferior.

   Se a intenção dela era soar galante, o resultado foi completamente desastroso, pois eu comecei a rir.

   — Lauren! — Reclamou.

   — Desculpa... Fala isso mais uma vez?

   — Gracinha?

   Continuei rindo, mas a essa altura Camila já havia estapeado o meu braço.

   — Você é a melhor. — Falei, tomando fôlego e dei um beijo em seus lábios. — Sem dúvidas!

   Ela bufou e, lentamente, virou-se com o intuito de deitar a cabeça em meu peito. Não deu certo. A única forma que encontramos foi Camila continuar deitada com a barriga para cima e eu dormir de lado, mas ela notou que não estava muito confortável para mim, então puxou-me para que, ao menos, eu pudesse deitar em seu peito. Abracei-a da forma que pude e logo adormecemos.

 

 

Quarta-feira.

   Dizem que uma ligação pode mudar o sua vida e nesse dia eu tive a primeira prova disso.

   Faltava exatamente uma noite para que voltássemos a Miami. Todas nós estávamos prontas, já que sairíamos durante a madrugada. Foi enquanto eu terminava de organizar minha bagagem de mão que minha mãe me ligou. Atendi de forma preguiçosa, apenas com um “oi, mãe”, esperando pelas recomendações que ela passaria. Mas o que veio não foi entediante. Pelo contrário.

   — Lauren, hoje me contaram algo que me assustou. — Disse, sem sequer perguntar sobre mim.

   — O quê? — Indaguei conferindo meu kit emergência.

   Nunca poderei saber quando uma tragédia acontecerá, certo? Por isso é bom ter um kit emergência para realizar os primeiros socorros, um curativo antes de alguns pontos.

   — Estava conversando com a Judith enquanto ela regava o canteiro dela... Ela tem plantado rosas.

   — Hum... Legal.

   Jardinagem ainda não me interessa! Talvez quando eu ficar entediada o suficiente para querer mexer com terra.

   — E então ela disse algo que eu não acreditei ser verdade, mas só quero confirmar com você... — Houve uma pausa longa e um suspiro. — Aquela mulher estava se gabando que não era a única sujeita à derrota como mãe!

   Parei o que estava fazendo e fitei a parede à minha frente. Logo pensei em algo ruim que meus irmãos pudessem ter feito.

   — Mãe, fala logo o que é. — Pedi já nervosa, mas fingindo-me de impaciente. — Eu pretendo dormir cedo...

   — Lauren, a Judith disse que viu você com uma... amiga.

   O problema não era Chris, muito menos Taylor.

   Segurei meu kit de emergência com força.

   Meu coração, que ia bem, começou a palpitar alucinadamente.

   — Amiga? E daí? — Eu quis manter a calma, mas sabia que coisa boa não estava por vir.

   — Disse que você estava abraçada com essa amiga e que, bem...

  Minhas mãos começaram a suar, minha visão falhar.

   — Elas me abraçam o tempo todo! Não tenho como fugir. — Expliquei o que não deixava de ser verdade, mas não era a verdade que minha mãe queria.

   — Terminou dizendo que essa tal amiga beijou você... — Ela disse e riu nervosa ao final;

   — A Allyson é meio carinhosa mes...

   — Na boca, Lauren! A Judith disse que você e sua amiga beijaram-se na boca, como um casal! Par, quero dizer. Um par!

   Foi então que fiquei em silêncio. Como eu poderia explicar algo quando esse argumento de “beijo na boca” surgiu?!

   Abri a boca.

   Fechei a boca.

   Abri a boca.

   Estalei o polegar esquerdo, cocei o pescoço, mas a bochecha também. Engoli em seco, olhei meu kit de emergência, desejei que ali tivesse uma lobotomia em pílulas.

   Uma amiga beijando uma amiga? Um par?

   Eu sabia o que aquilo significava! 

   — Lauren, é verdade? — Clara perguntou receosa.

   Fechei a boca. Pigarreei. Abri a boca. Não consegui falar.

   — Eu estou falando com você! — Ela gritou.

   Ri rapidamente.

   — Não é verdade, não... — Minha voz saiu em um fio.

   — Eu sinto que você está mentindo. Eu sou sua mãe!

   Inspirei profundamente e falei rápido a minha defesa.

   — Que absurdo essa vizinha te contou. É mentira. Eu jamais beijaria uma menina na boca! Eu não sou esse tipo de garota, mãe! Nem beijo na boca!

   Eu sou esse tipo de garota, mãe. Eu beijo a minha namorada na boca. Eu namoro uma garota. E sou uma garota!

   — Pela forma que ela contou não parecia mentira. Ela até descreveu a outra garota... me pareceu ser a Camila.

   INFERNO!

   Eu precisava me transformar numa toupeira e correr para debaixo da terra!

   Então comecei a rir nervosamente. Gargalhei desesperadamente.

   — Eu e Camila?! Somos só amigas! Essa Judith mente... Nunca confiei nela!

   — Minha filha... Ela estava certa, não estava? — Clara riu, então grunhiu. — COMO NUNCA NOTEI A APROXIMAÇÃO DE VOCÊS?! Eu já devia desconfiar! Vocês sempre saíam juntas! Meu Deus! MEU DEUS, LAUREN!

   Meus disfarces e tentativas de escapar não funcionaram, por isso suspirei.

   — Mãe, calma. — Pedi com a alma de um soldado jogado ao chão com a conformação de que perdeu a batalha.

   — Calma?! Você está esse tempo todo com uma garota, mentindo para mim!

   Eu tremia, suava frio, mas não havia como fugir, não dela.

   — O que a senhora queria que eu falasse? Olha só sua reação! Não seria diferente se eu tivesse contado antes!

   — Não acredito. É verdade então?! Você é gay?!

   Eu sou gay?!

   — É, dona Clara. Sua filha deu o desgosto de namorar uma garota! Eu beijo a minha namorada na boca também!

   Falei, sabendo que me arrependeria desses segundos de coragem que tive.

   — Como isso foi acontecer?! Em qual parte eu errei?!!! Eu te dei tudo, Lauren. Inclusive conselhos sobre garotos! Te tratei como qualquer garota deve ser tratada!

   — Pensei que a senhora soubesse que a gente não escolhe de quem gostar e é dela que eu gosto. Deve ter errado ao me dar a luz. Desculpe. — Foi o que consegui dizer, deixando meu kit de emergência cair de minha mão.

   — Eu não consigo falar sobre isso agora.

   — Tudo bem.

  Um breve silêncio tomou conta da ligação.

   — É a Camila? A garota que passou uma tarde comigo? MENTINDO?

   — Sim, mãe. É a Camila. Ela não mentiu! Se for culpar alguém, me culpe. Mas não ouse coloca-la como a errada disso tudo!

   Ela muxoxou coisa como “isso não pode estar acontecendo”.

   — Há quanto tempo?

   — Juntas ou namorando?

   — Os dois.

   — Juntas desde a época da escola e namorando há nove meses.

   Ela muxoxou ainda mais e riu.

   — Eu vou desligar. Não estou me sentindo muito bem. 

   E então minha mãe encerrou a chamada. Fiquei algum tempo com o telefone no ouvido escutando o silêncio da minha mente que adormeceu.

   K.O, foi o que surgiu em minha mente.

   Não tive nem tempo de respirar ou surtar ou pensar, meu celular tocou novamente. Pensando ser minha mãe, conferi a tela, mas era Veronica.

   — Oi, Veronica...

   Minha mente estava na ligação que eu havia acabado de ter com minha mãe.

   — Tem como você me esperar na esquina da sua rua?

   — O que aconteceu? — Me preocupei.

   Veronica pedindo uma espécie de ajuda? À noite?

   — Eu não posso passar essa noite em meu dormitório. Só isso. Vou com vocês ao aeroporto.

   — Mas você não iria mais tarde?

    — Prometo te explicar depois tudo isso, mas acontece que consegui mudar o horário para o de vocês. Estou no trem já, me espere em algum lugar só pra me ajudar com as malas.

   Concordei com ela e percebi que sair do apartamento seria uma ótima alternativa. Normani não estava lá, já que havia ido comprar um presente de última hora para sua avó. Mas eu precisava dela!

   Passei pela sala e vi Camila dormindo no sofá, não esperei nada e saí. Quando estava descendo as escadas, saquei meu celular e disquei para a minha amiga.

   — Normani, preciso de você. — Foi o que consegui falar.

   — O que aconteceu, amiga?

   — Minha mãe descobriu sobre minha situação.

   Uma pausa foi feita.

   — Camila?

   — Por favor, me encontra em frente ao museu perto do nosso apartamento quando puder.

   Encerrei a chamada e caminhei até o tal museu. Alguns minutos depois Veronica me ligou e eu expliquei onde estava, ela logo tratou de ir me encontrar, mas nem tive tempo de perguntar ou contar nada, já que ela e Normani chegaram quase que ao mesmo tempo.

   — Você está bem? — Perguntei para minha colega de classe, que assentiu deixando as malas no chão e sentando-se em um degrau da escadaria. — Então, fica aqui. Eu preciso falar com você e com a Normani, que já está vindo ali.

   Apontei para o outro lado da rua, onde Normani esperava para atravessar.

   — Aconteceu algo ruim? — Veronica perguntou.

   Assenti e então esperamos por minha amiga.

   — Vero? — A outra chegou.

    Veronica,  percebendo a confusão da morena ao ver as malas, rapidamente explicou, da mesma forma que explicou a mim, o motivo de ela estar ali. Normani assentiu, mesmo sem entender, e me encarou.

   — Ei... Quer me contar o que aconteceu?

   Assenti, respirei fundo e contei toda a conversa que tive com a minha mãe.

   A conversa estava em minha mente como uma gravação. Eu não conseguia esquecer o desespero interno ao saber que havia sido descoberta pela única pessoa que não deveria saber.

   “Um par!”

   “Em qual parte eu errei?”

   “Você é gay?”

   — ... E então ela desligou, parecia transtornada... decepcionada, melhor dizendo.

   Falei e olhei para o chão.

   — Nós já esperávamos por algo assim, certo? — Veronica perguntou.

   — Caramba... Eu não sabia que aconteceria tão rápido! — Normani disse.

   — Uhum. Não sei o que fazer. Vou encontrá-la em algumas horas... Eu não tenho coragem de olhar para ela.

   — Você pretende contar a Camila? — Normani perguntou e meneei a cabeça horizontalmente de forma rápida.

   — Não. Não posso. Não quero ouvir aquelas frases de efeito que ela sempre diz. Eu acabaria brigando com ela... 

   — Isso se chama otimismo, Lauren Michelle.

   — Então não o tenho e o odeio, Iglesias. Prefiro a realidade que está me cobrindo agora.

   Mas... qual era a verdadeira realidade? A que eu encarei minha mãe ou aquela que eu estava fugindo por ter encarado minha mãe?

   — Eu sei. — Normani deu dois tapinhas em minhas costas. — Então vamos manter isso longe da Camila. E saiba que sua realidade é uma fantasia.

   — De todas as outras pessoas também. Por favor. Deixem isso apenas entre nós três e minha família. — Pedi.

   — Tudo bem, amiga. Tudo bem. Vamos achar uma forma de resolver isso.

   — Eu não quero fazer a coisa errada. — Confessei.

   Normani passou um braço por minhas costas, abraçando-me de lado.

   — Eu queria acreditar que você vai fazer certo dessa vez. Mas algo me diz que não.

   — Obrigada. Realmente gosto quando é sincera. — Sorri.

   — Por nada. Agora vamos traçar um plano pra você evitar a besteira que normalmente faria.

   — Plano? Ok. Eu vou tentar pensar em algo. — Veronica disse.

   Ficamos minutos e mais minutos tentando encontrar uma forma de driblar o meu inevitável encontro com a minha mãe. Elas falavam e eu só me sentia pior por não conseguir decidir se iria assumir a verdade e vestir minha coragem escassa ou se iria fingir que nada havia acontecido.

   — Posso dizer que você foi extraviada e você fica lá em casa escondida. — Minha colega de classe disse.

   — Ha.ha.ha

   — Brincadeira! Mas não tem jeito, Lauren Michelle. Você vai ter que encarar a sua mãe.

   — É, amiga. Chegou a hora de você ter coragem.

   Suspirei me sentindo vencida e, mais uma vez, senti meu celular vibrar. Ao ler o nome no visor, senti uma calma e um desespero em conjunto.

    — Oi, namorada... — Atendi.

   — Cadê você, Lauren?!

   — Estou aqui com Normani e Veronica na lanchonete... que... tem aqui... nessa rua aqui... Quer alguma coisa daqui?

   — Quero só que você volte... Vê se não demora. Eu não posso andar e ninguém quer ficar vendo TV comigo! Acredita que Ally preferiu confiar em Dinah cortando o cabelo dela a ver TV? Achei horrível.

   — Tudo bem. Já vou! E, a propósito, Veronica conseguiu mudar o voo dela. Vai com a gente.

   — Onde ela está?!

   — Está comigo. Já, já chegamos.

   Encerrei a chamada e voltei-me para as garotas.  

   — Camila não te sufoca não? — Normani perguntou.

   Senti a pergunta como um teste, então decidi ser sincera. Eu queria ajuda e sabia que ela viria de alguma forma. Precisava arriscar.

   — Sinceramente? Um pouco. Mas não me importo... Ruim seria se ela sequer notasse a minha falta, não é? — Ri sentindo um aperto no peito.

   — Verdade... Mas a acho um pouco possessiva, ciumenta... É minha amiga também, mas sejamos sinceras.

   — Naaah. — Balancei uma mão no ar.

   — Você concorda porque você é igual. — Veronica disse.

   — Isso é verdade. Só não escancara tanto. — A outra concordou. — Mas são iguais nesse sentido.

   — Gente, acontece... — Eu dei de ombros. — Nesse momento o que eu mais quero é sentir que ela me quer.

   — Você tem medo que a sua mãe separe vocês duas? — Iglesias quis saber.

   Tenho medo que eu separe nós duas, quis falar.

   — Tenho. — Falei.

   — Não pense nisso agora. Temos uma viagem com dois seres que dependerão de nós para sair do apartamento, a Camila e o Sparky. — Normani falou, por fim, levantando e ajudando Veronica com uma das duas malas.

   — Vamos.

   — Eu ainda não estou acreditando. Sua vizinha nos viu aonde? Naquele dia da praia? — Veronica perguntou pegando a outra mala enquanto eu ia com as mãos vazias.

   Só então lembrei que não tive tanto cuidado assim ao estar na praia com Camila e com todas as garotas que convivo diariamente. Naquele dia, em especial, eu estava apenas me sentindo eu mesma no meio de pessoas que propiciam isso.

   — Como eu iria saber que minha vizinha veria?! — Grunhi.

   — Me mostra quem é essa mulher quando estivermos lá. — Veronica ergueu um punho no ar. — Eu quero ter uma séria conversa com ela!

   — Não sei se quero aparecer naquela rua.

   E não queria mesmo! Se eu pudesse evitar, não voltaria para casa.

   — Quer sim. Você vai encarar!

   Revirei os olhos e ignorei minha colega de classe.

    Voltamos para o apartamento, mas tivemos que levar alguns bolinhos para fingir que realmente estávamos onde falei que estava.

   Normani foi dormir assim que chegamos e Veronica foi escolher onde dormiria, já que, provavelmente, Camila e eu não sairíamos do sofá.

   Passei o resto da noite vendo TV com Camila enquanto ela comia os bolinhos. Dei o meu melhor para não demonstrar meu estado emocional para ela.

   — Namorada? — Ela chamou quando terminou de comer o último bolinho e jogou o saco de papel no chão, para então ajeitar-se sob mim, com minha cabeça em seu peito.

   — Hum? — Murmurei me sentido fora de toda a realidade.

   — Me acorda quando estiver na hora de irmos? Não vou aguentar ficar acordada.

   Ergui minha cabeça e fitei o rosto da minha namorada. Ela já tinha os olhos fechados e uma expressão serena. Acariciei sua bochecha e recebi um pequeno sorriso como resposta. Tomei um pequeno impulso para depositar um beijo nos lábios dela.

   — Tudo bem. Pode dormir.

 

   E, naquela noite, enquanto Camila dormia, eu me via sem saída alguma ao imaginar o desastre que seria feito em nossas vidas se eu tivesse longe de mim a única pessoa que conseguiu alavancar a minha própria vida. 


Notas Finais


Saudações!


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