História Pecado Original - Dramione - Capítulo 13


Escrita por: ~

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Categorias Harry Potter
Personagens Draco Malfoy, Gina Weasley, Harry Potter, Hermione Granger, Lucius Malfoy, Narcissa Black Malfoy, Ronald Weasley
Tags Abandono, Drama, Dramione, Medo, Paixão, Romance
Visualizações 129
Palavras 5.207
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Fluffy, Magia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Postando um pouquinho mais cedo porque amanhã eu não serei capaz de postar. Aproveitem!! <3

Capítulo 13 - Ao próximo como a ti mesmo


Eu odiava a primavera. E, além de odiar a primavera, eu odiava o baile que o Ministério organizava todos os anos para celebrar seu final. Além de achar uma tentativa ridícula de comemorar coisas ridículas como o amor ao próximo, fora intimado a recebê-lo naquele ano, com um monte de pessoas alegando que já era hora da família Malfoy arcar com um evento de tamanha estirpe. A família Malfoy que podia responder por tamanho absurdo, ou seja, apenas eu, não queria receber o evento, mas não teve escolha sob o olhar cheio de repreensão do ministro Kingsley. Por culpa daquele evento idiota, passara as últimas semanas gritando com pessoas que não sabiam fazer nada direito, entrando em contato com minha mãe mais vezes do que o necessário para que ela me ajudasse a escolher os tons dos panos, o papel para os convites e mais um monte de detalhes, como minha roupa para aquele evento estúpido.

Estava lutando com um dos botões das minhas vestes quando a dita cuja adentrou meu quarto a passos largos, dizendo que os convidados chegariam em breve e eu deveria, como um bom anfitrião, recebê-los na porta de entrada. Lhe lancei um olhar penoso, mas fui tão bem ignorado quanto era pela Granger, e me vi obrigado a ficar plantado na frente da minha casa por quarenta minutos até que a primeira alma viva resolvesse dar o ar da graça, mesmo vinte minutos antes do horário estipulado. Bruxos eram criaturas habilidosas em romper com horários, e isso me estressava profundamente. Qual era a dificuldade de olhar para um relógio antes de sair de casa?

Fosse como fosse, ali estava eu, cumprimentando cada um dos “meus” convidados com um aperto de mão e um semblante sério. Quanto mais pessoas chegavam, maior era o barulho às minhas costas, e mais perto do fim daquele pesadelo eu me encontraria. Tudo o que eu desejava era acabar com aquela palhaçada e voltar para os braços de Hermione, de quem fora obrigado a me afastar naqueles últimos tempos por conta do baile, e talvez fosse por isso que eu o detestasse tanto. Maldita primavera e suas flores cheias de pólen. Já sentia meu braço ficar dormente pelo gesto repetitivo de apertar a mão, colocar o braço ao lado do corpo e depois indicar a entrada para as pessoas que chegavam. E, a cada mão que eu apertava, me entristecia ainda mais por não ter a minha frente a única pessoa que eu queria. Onde estaria Hermione?

Escutei o relógio às minhas costas bater nove e quinze, e franzi o cenho ao apertar outra mão desconhecida sem lhe dar a devida atenção. A essa hora, já devia ter chegado, eu já deveria ter sido agraciado com seu sorriso e sua presença, mesmo que isso me assustasse em demasia: o que as pessoas fariam quando me vissem sorrindo para a Granger? Quem não acharia esquisito ver meu peito se descontrolar por aquela mulher? Engoli em seco, passando uma das mãos pelos meus fios soltos, escorrendo-as até as pontas do meu cabelo e acabando por ajeitar o tecido sobre meus ombros angulosos, mesmo que não houvesse nada para ajeitar por ali. Mordi o lábio inferior enquanto pensava, encarando a noite escura: será que os outros permitiriam que eu a chamasse de minha?

Respirei fundo, virando meus olhos para as figuras que tinham acabado de aparatar ao meu lado. Tive de me controlar para não franzir o nariz, um gesto automático dos últimos quinze anos, e para que eles não notassem meu coração descompassado com a presença deles por ali. Sabia que ainda não tinham ideia da minha relação com a Granger, mas era sempre um risco estar perto dos dois – Senhor e senhora Potter... – eu cumprimentei com um aceno de cabeça o homem, levando a mão de sua esposa aos meus lábios por pura educação. Meus olhos pousaram sobre a criança que não tardou a correr para dentro da casa, tropeçando em suas vestes bem cortadas e fora do alcance dos olhos paternos, que já tinham ido conversar com um outro convidado – E Potter em miniatura. – nunca tinha visto a criatura que saíra do casamento daqueles dois, mas era relativamente engraçadinha e esquisita ao seu modo. Parecida demais com o pai para que eu me afeiçoasse, e por que mesmo eu queria me afeiçoar a algum dos Potter? Indiquei o interior dos meus aposentos com o braço estendido, mesmo que não fosse necessário, logo observando-os sumir do meu campo de visão, o que ajudou a clarear minha mente.

Fui obrigado a ficar ali por pouco mais de cinco minutos depois da chegada do casal, até que minha mãe decidiu que eu não estava sendo cortês o suficiente e me expulsou do posto, forçando-me a ver como que as coisas estavam dentro do salão. A quantidade de pessoas perambulando em minha casa, todas com pés sujos e muitas com roupas de extremo mau gosto, me dava nos nervos, em especial porque eu não via a única que eu desejava. Sequer sabia quais vestes tinha escolhido, se estaria com um terno ou um vestido de gala, e não ter perguntado antes me fez sentir um idiota completo. Passei meus olhos por todo o salão, sentindo alguns pares de olhos me encararem de volta de soslaio, e presumi que era simplesmente por estar muito bem vestido, naquela noite. Descobrira um pouco tardiamente, mas eu ficava extremamente glamoroso quando vestia branco.

Sem aviso prévio fui puxado para conversar com algumas pessoas do ministério, que foram responsáveis pela minha atenção por uma hora que deve ter durado três dias, tamanho era meu tédio. Se já não estivessem previamente acostumados com minha expressão vazia, teriam achado que estavam conversando com um morto, e eu pensava que um cadáver seria mais amigável. Eu já não aguentava mais ouvir aquelas quatro figuras falando sobre política no mundo bruxo e como o investimento da família Malfoy era necessário para resolver alguns problemas com os quais eu não me importava quando algo, alguém, me chamou atenção. Passando a poucos metros de distância de mim, divina no vestido de pedrarias que eu mesmo escolhera para ela, Hermione desfilava em direção a saída, disparando meu coração e colocando-me alheio a todo o resto.

Franzi meu cenho, me despedindo de forma nada delicada das pessoas com quem fora obrigado a conversar, indo atrás da mulher que prendera minha atenção durante toda a noite, mesmo quando eu não podia vê-la. Por onde ela chegara? Será que estava tão atrasada que fora recepcionada por minha mãe? Qual era a razão de não ter me procurado assim que pisou naquela casa? Todas essas perguntas martelavam com o compasso do meu coração acelerado enquanto eu me desviava da melhor forma possível dos convidados, sem retirar meus olhos de sua nuca. Foi por isso, por estar tão imerso em sua figura, que sequer notei as outras três que a seguiam senão quando atravessaram a porta logo após ela, focando em uma em especial. Engoli em seco, parando onde estava; o rubor da raiva começou a consumir meu rosto, fechando minhas mãos em punhos ao lado do corpo. Weasley.

 Apressei o passo, andando com mais raiva ao seu encontro, começando a empurrar as pessoas que não se moviam quando eu pedia. O que aquele traste ousava fazer dentro da minha casa? Ele sequer estava na merda da lista de convidados, como tinha colocado seus pés imundos sobre meus tapetes e meu piso de mármore sem minha permissão? Assim que consegui sair do salão principal, virei meu rosto para todas as possíveis saídas que eles teriam tomado, vislumbrando algumas sombras no corredor abaixo das escadas. Rumei imediatamente para lá, meus passos sendo abafados pelos ruídos estridentes que vinham do lugar da festa. Conheceria a figura de Hermione em qualquer lugar, ainda mais escolhendo a porta que escolheu, o que foi motivo de um sorriso de minha parte. Aquela sala era nossa favorita, sempre escolhíamos passar o tempo livre que tínhamos ali ou em um dos quartos da casa. Eu me encantara quando soube de seu dom para o piano, e não medira esforços para ter um o quanto antes, ou seja, em menos de vinte e quatro horas.

Assim que vi o quarteto adentrando a sala, corri para mais perto, posicionando-me atrás da porta entreaberta para escutar a conversa. Não ligava minimamente para os quesitos “pudor”, “decência” e muito menos para a superestimada “privacidade”. Estando ela com o Weasley, já era motivo suficiente para que eu não confiasse em nada. O que infernos ela estava tramando? Não pude deixar de imaginar que ela talvez estivesse ali para reatar com ele, minha imaginação fértil criando mil e uma teorias para estarem juntos enquanto meu ouvido quase escapava para dentro daquela sala no instante em que comecei a escutar Potter, o primeiro, dar um chilique. Um sorriso sem qualquer traço de divertimento rondou meu rosto; sabia que seria assim, se ela contasse, coisa que aparentemente tinha feito. Eu, que na boca suja do Potter sequer merecia um nome, era um monstro que sua preciosa amiga tinha aprendido a amar.

Me apoiei na madeira, tentando extrair cada parte da conversa que estava sendo feita ali, embora, ao contrário da voz estridente do menino, Hermione falasse tão baixo que eu mal entendia suas palavras, tendo de conectá-las por conta própria. A única coisa que eu entendi perfeitamente, ou talvez que eu quis entender com perfeição, foram seus últimos dizeres “Sim, eu amo o Malfoy”. Senti meu coração pular duas ou três batidas, e eu tive de levar a mão no peito para controlá-lo, agradecendo mentalmente o silêncio que se instalara dentro daquele quarto. Ela me amava. Puta que pariu, ela me amava e tinha dito isso em alto e bom som para Potter e sua laia escutarem, para que soubessem que eu... que ela... Um sorriso estúpido estava em minha face e ele se desmanchou apenas quando escutei uma risada rouca escapar pela fresta da porta, meus dentes sendo encobertos pela tristeza que aquele riso me proporcionou. Eu conhecia muito bem o escárnio, e ele estava ali, dentro daquela risada.

Encostei-me mais perto, o suficiente para que percebesse que era o maldito do Weasley que ria daquela forma, debochando de meu amor. O ódio pulsava em meus ossos, trincando-os com toda a força que eu tinha. Eu poderia matar aquele infeliz por todos os crimes que ele tinha cometido contra mim durante todos aqueles anos. Fora ele, ele fora o responsável por me suprir do amor, para início de conversa. Percebi que ele começaria a falar quando sua risada cessou, mas nunca estaria preparado para o que ele disse. Senti aquela frase rasgar meu corpo aos poucos, um furo que começava na garganta e terminava no peito, derramando meu sangue por todo o soalho branco. Como ele... Como ele ousava dizer aquele tipo de coisa na minha casa, para a mulher que eu amava, na presença das pessoas que ela chamava de amigos, como ele... Aquele miserável aquele... “Por que ele te amaria, Hermione? Você é uma sangue-ruim!”. Não. Aquilo era demais. Não na minha casa.

Adentrei o aposento com toda a força que tinha, escutando a porta ricochetear na parede com um baque frio, e antes mesmo que eu pudesse pensar já tinha sacado minha varinha e apontado para aquele ruivo infeliz, erguendo-o do chão com o primeiro feitiço que me veio à mente. Vi quando ele colocou as mãos ao redor do pescoço, perdendo o ar, e nem mesmo sua expressão de dor foi suficiente para apaziguar os demônios que acordaram dentro de mim. Eu encarava aqueles olhos verdes nojentos, querendo a todo custo que ele morresse, morresse ali mesmo... Eu queria matá-lo por toda a dor que ele já nos causara, e por sua indiferença a tudo. Eu não era o mesquinho, eu não era o vilão, ali estava a prova: o bendito Weasley tinha tudo para ser bom, para ser imaculado, e não passava de um traste que só pensava no próprio umbigo. Eu era um anjo perto de todos os seus males, e foi só depois de ir ao inferno e voltar que fora capaz de perceber isso. A culpa nunca tinha sido minha. Bom, ao menos não toda ela.

Notei que Potter falava alguma coisa, mas eu sequer consegui escutar, tamanho era meu ódio, faiscando junto com aquele filete de luz azul que prendia o Weasley acima da minha cabeça e sufocava-o lentamente. Se o testa rachada estava dizendo que eu podia matá-lo, sim, era exatamente essa a intenção, eu queria vê-lo sofrendo como eu sofrera. Meus olhos o queimavam de baixo: é bom, não é? Sentir-se sem ar, sem chão, saber que tem um monte de gente ao seu redor e que ninguém vai te ajudar. Pouco depois de vislumbrar o moreno tentar me falar o que quer que fosse, senti os dedos suaves de Hermione em meu ombro, e tive de lutar para não me desvencilhar deles, porque não sentia que os merecia, naquele momento. Escutei o que ela disse, e tudo o que pude fazer foi gritar em desespero - Eu não me importo! Eu não me importo de ir para Azkaban, Hermione! Existem lugares piores nos quais podem me prender. – naquele momento, eu não queria que ela soubesse que eu falava da minha própria mente.

A varinha estava em riste, tão próxima de sua garganta imunda como uma faca, e minha ameaça final saiu como o rosnar de uma besta “não vou me arrepender por nem um segundo”. Meu coração batia tão forte que eu podia sentir o sangue correr por minhas veias, e doía. A marca em meu antebraço parecia pulsar com meu ódio, entrelaçar-se em minhas artérias para que seu veneno viajasse mais rapidamente até minha boca, onde deixou um gosto amargo. Sabia que Hermione tentava me olhar de qualquer forma, querendo minha atenção, mas eu tinha olhos apenas para o antigo grifinório suspenso nos ares por conta de uma frase infeliz que fora o fogo para toda minha pólvora. Este, por acaso, me fuzilava com os olhos verdes esbugalhados, lutando para conseguir uma mísera quantidade de ar, e o mundo parecia se resumir naqueles olhos cheios de ódio por mim. Ah, eu também o odiava. O achava miserável, nojento, muito mais do que qualquer trouxa ou até mesmo um sangue ruim. Eu o odiava tanto que meu corpo agia sem pensar, ameaçando aniquilá-lo a qualquer instante. De alguma forma, mesmo roxo como uma berinjela, conseguiu:

- Você vive a chamando de sangue-ruim, quem deveria retirar as palavras era você! – ganiu o mais novo, tossindo entre quase todas as palavras. Falar era difícil, respirar era difícil, e a única coisa que eu queria era que sentisse a dor que Hermione tinha sentido quando ele disse que não a amava mais, e aquilo me fez sentir uma pessoa horrível, mas eu era uma pessoa horrível, um monstro com uma serpente rondando meu braço e um pássaro morto no meu coração. Antes que me perdesse nesses pensamentos, Granger resmungou alguma coisa, mordendo seu lábio inferior com força, o que me fez voltar a atenção pra ela. Ela estava sofrendo, e eu não queria que ela sofresse... Pela reação de Ronald, percebi que o nó em seu pescoço ficara mais apertado mesmo sem ter percebido: eu não queria que ele a machucasse nunca mais. Com o canto dos olhos, porque não podia ver mais nada senão aquela mulher deslumbrante à minha frente, percebi a Weasley fêmea se movimentar, seus cabelos ruivos balançando com o vento que vinha da janela. Havia desespero em seus gestos. Um desespero frio por não querer encarar a morte mais uma vez.

- Não estou falando disso, inútil! – prossegui para surpresa geral, finalmente desviando minha atenção do magnetismo da Granger e o encarando com nojo. Os olhos verdes de Ronald pareceram confusos, o que apenas me deu mais ódio, o laço invisível em seu pescoço ficando mais firme, o que o fez tossir violentamente – Amor! Estou falando de amor! – Não sabia como aquelas palavras tinham saído de mim, não esperava ser capaz de dizê-las, de anunciar para aquela ralé que eu amava a mulher vestida de joias ao meu lado, e mesmo que aquilo fosse verdade, me trazia um gosto ruim na boca, porque não fora daquele jeito que eu imaginara confessar meu amor por Hermione, mas era o que tinha no momento. O riso do Weasley pareceu com algo morto tentando voltar à vida, e a forma como foi trágico, como seus olhos verdes saltavam da pele arroxeada e como ele simplesmente parecia não dar a mínima... A forma como ele sequer olhou para Granger, foi o que doeu mais, eu sabia: ele nunca a amara suficiente para se importar com o que ela sentia, eu conhecia muito bem aquele sentimento.

- Amor? – ele conseguiu ganir, mesmo quase morto. Seu peito mal se movia, e não parecia ter mais forças para debater as pernas. Me perguntei a quanto tempo ele estava morto e ninguém havia se dado conta. Até eu, com minha pele esbranquiçada e olheiras enormes, parecia mais vivo do que aquele ignóbil – Amor?! – ele repetiu, cuspindo essa palavra com nojo, e isso lhe rendeu um filete de cuspe que ficou preso em seu queixo vermelho; ninguém se mexeu para tirá-lo dali – Você só a ama porque não tem mais ninguém para amar! É por isso! Você não tem mais ninguém que te ame!

Aquelas palavras ricochetearam no meu rosto como um tapa. Por um momento, um momento terrível, quase me lembrei do baile de inverno, o calor daquela mão que agora eu beijava assolando minhas bochechas. Meu rosto ficou vermelho de raiva e de vergonha, porque eu sabia que, lá no fundo, ele estava falando a verdade. Quem mais eu amava, além da minha mãe? Nem meu pai eu fora capaz de amar, e aí apareceu Hermione, que durante tanto tempo eu amei sem saber o que era amor. Não soube como não comecei a chorar, porque eu sentia as lágrimas atrás dos meus olhos e a força do pesar subir por meu peito inflado. Eu queria matá-lo naquele momento, simples assim: queria que ele provasse o que era estar morto para depois tentar falar qualquer coisa sobre meu amor pela mulher que ele não fora capaz de amar. Não era porque ele não fora capaz que eu não seria. Em posse da minha varinha, cheguei tão perto que nossas respirações entrelaçavam, embora eu fizesse de tudo para não compartilhar do mesmo ar que aquela criatura, e falei numa calma digna do Deus vingativo que eu tanto temia, pronto para anunciar meus pecados ao mundo, encarando seus olhos verdes e quase inertes – Não. É você que está tão acostumado a ser amado, que se esqueceu de como é importante amar de volta. 

                Dizendo isso, percebi que não havia mais nada a fazer naquele quarto senão deixá-lo, não antes de lançar a Harry um olhar firme. Ele que entendesse tudo o que eu tinha a dizer sem palavras. Recolhi minha varinha e escutei o corpo do Weasley cair no chão com um barulho desengonçado, dando as costas para toda aquela loucura. Eu esperava que estivesse enfim se afogando nas próprias palavras e mentiras, que aquele fosse o preço que ele devia pagar por ferir a pessoa mais importante da minha vida. Não era assim. Não era assim que devia ter acontecido. Meus passos eram rápidos e firmes pelo chão daquela enorme casa, indo em direção contrária ao barulho da festa que acontecia normalmente mesmo sem seu anfitrião. Levei uma das mãos ao meu rosto, tentando perceber se estava chorando, mas encontrei minhas bochechas secas. Doía tanto que eu achei que pudesse estar derramando lágrimas sem saber. – Draco! – eu parei onde estava, mordendo o lábio inferior. Meu nome saído daquela boca era o suficiente para me fazer jogar a cabeça para trás e fechar os olhos. Repita, repita, por favor – Draco! – quase como se escutasse meus pensamentos e meu Merlin, eu adorava quando ela fazia isso, quando ela fazia meu coração arregaçar meu peito, querendo ser escutado a todo custo: Eu te amo!

                Não me virei para ela, esperei que estivesse perto o suficiente até sentir sua respiração pesada às minhas costas. Não sabia se conseguia encarar seus olhos naquele instante, então preferi ficar em silêncio, sentindo suas mãos sobre meus ombros, descendo pelas minhas costas, que se arrepiaram mesmo com o toque sobre a roupa, meu corpo tenso abaixo dos seus dedos. Cerrei bem os olhos: se eu fosse morrer, eu queria que fosse com suas mãos sobre mim. – Draco, o que ele disse não é... – ela começou, sua voz soando como a de um pássaro aos meus ouvidos treinados para escutá-la. Não pude deixar de sorrir, colocando minhas mãos sobre as dela, que agora tinham voltado para meus ombros tensionados – Ele tem razão, Granger. – não podia ver seu rosto, mas sabia que ela abriu e fechou a boca duas vezes antes de tentar me interromper outra vez, quando não deixei.

Virei meu rosto para ela: seus olhos eram ondas tristes que quebravam em uma praia fria. Levei minhas mãos até sua face, tão próxima da minha por conta dos saltos dourados que usava. Era um pecado ela estar tão deslumbrante ou eu que realmente nunca soubera o que era beleza até vê-la? Eu não podia... Sua pele tão próxima da minha, seu calor de verão interrompendo minha primavera, seus lábios entreabertos deixando escapar todos os segredos do mundo. Inclinei-me miseramente para mais perto dela, até que nossas bocas quase se encontrassem: seria assim que começou o mundo? Duas coisas quase se encontrando até que colidissem em um beijo? Passei meus lábios quentes sobre os dela, sem me importar se alguém mais veria nossa invisibilidade, e escutei quando ela suspirou por mim, minhas mãos tão delicadas quanto no instante em que a tocaram pela primeira vez, enquadrando-a com todo o carinho que eu tinha – Ele está certo. Eu não tenho ninguém para amar. – ela tentou me interromper de novo, e eu sorri tristemente para sua teimosia. A maré de seus sonhos parecia estar alta – E durante muito tempo eu não amei nada senão eu mesmo, mas há anos que nem isso eu tive. Eu não amo nada, absolutamente nada, senão você, Granger. E o que eu amo em mim é a parte que te ama, porque é a única coisa boa que ainda me resta.

                Meus olhos estavam fechados enquanto eu pronunciava aquelas palavras, e o ar quente da minha respiração se misturava ao dela, tão perto. Os pais dela não nos separaram. Meus pais não nos separaram, mas os amigos... Os amigos dela poderiam fazê-lo, se quisessem? Meu peito doía com aquela possibilidade, afinal ela poderia muito bem escolhê-los no lugar de me escolher, como fizera anos atrás, e tudo o que eu seria capaz de fazer seria ficar parado em um corredor escuro, sozinho. Eu não queria que ela me deixasse, mas o que poderia fazer se fosse sua escolha? O que eu poderia fazer se aqueles olhos maravilhosos dissessem que eu deveria ir embora? Eu era bem capaz de deixar minha própria casa, se ela pedisse – Você é muito mais do que o que sente por mim, Draco. – ela suspirou, o que finalmente me fez abrir os olhos. Ela continuava ali, sorrindo para mim. Eu queria emoldurar aquele sorriso e colocá-lo na maior parede que tivesse dentro de casa. Neguei, mas ela apertou minhas mãos com força contra seu rosto, e eu sabia que não adiantava de nada dizer alguma coisa que fosse contrária ao que ela pensava. Era a pessoa mais teimosa que eu conhecia.

                Senti que ela me puxava por uma das mãos até ficarmos mais próximos ao salão, passando pela porta da sala de música, fechada, e parando logo abaixo da escadaria que dividia a entrada principal da casa. Engoli em seco, meus olhos se ancorando aos dela em busca de qualquer explicação que fosse. Ali já havia um movimento maior de pessoas, algumas paravam para nos encarar sem qualquer pudor: o que o herdeiro Malfoy fazia com Granger, a futura ministra da magia? Passei a língua pelos meus lábios secos, e notei que nossas mãos estavam entrelaçadas. Fiz menção de me desvencilhar, coisa que Hermione não permitiu: sua determinação era invejável. Eu lhe lancei um pequeno sorriso enquanto ela observava minhas roupas brancas e a camisa perolada por baixo das vestes mais pesadas: havia escolhido aquele conjunto no tolo desejo que ela viesse com o vestido que lhe dera de presente, para que... combinássemos. Eu era ridículo, mas aquela mulher a minha frente não parecia se importar, avaliando os detalhes do meu casaco – Isso é... – ela murmurou, brincando com um dos meus botões dourados – Isso é ouro?

                Não pude deixar de rir, tirando um pouco do peso que ainda assolava meu corpo. Assenti, acariciando a palma de sua mão com meu polegar. Aquilo me encantava nela, sua simplicidade. O que será que ela faria se soubesse que estava coberta de diamantes e turmalinas? Não ousava saber, portanto, mantive isso em segredo para o momento. Vi quando ela soltou uma exclamação de surpresa pelas abotoaduras maciças e negou com a cabeça, erguendo seus olhos para mim. Eu conhecia aquele olhar. Ela não... Ela não faria... Ficou na ponta dos pés, e tão rápido quanto pôde, encontrou-se em meus lábios. Embora eu tenha escutado diversas exclamações de surpresa ao meu redor, quando meus olhos ainda estavam arregalados, não tive outra reação senão envolver sua cintura com meus braços e apertá-la contra meu corpo. Que fossem para o inferno toda a postura, todo o preconceito, todas as regras de etiqueta, todas as línguas afiadas que difamariam nossos gestos. Pro inferno com todos os nossos pecados. Ela era minha! Eu era dela. Totalmente dela, sem nada ou ninguém que nos impedisse de amar um ao outro. O pássaro em meu peito cantou e sobrevoou minha alma em deleite, extravazando os limites do irreal e atingindo minha pele com inúmeros arrepios. Que o mundo inteiro soubesse que eu a amava, mesmo que isso significasse enfrentar meu medo de ser julgado por tudo e todos.

                Quando deixamos nossos lábios soltos, havia dois sorrisos delicados nos envolvendo, e ela me disse, quase tão baixo que poderia duvidar da existência daquele sussurro – Eu vou mostrar para todos naquele salão que eu te amo, Draco Malfoy. E eu não me arrependo por nenhum instante de fazê-lo. – meu coração bateu forte, e eu só pude assentir, balbuciando coisas sem sentido até que conseguisse falar com coerência – Eu não tenho vergonha de você. – poderia não ser a coisa mais romântica a se dizer, eu sabia, mas era o que ela precisava escutar. Ela tinha que saber que eu, mesmo da forma como fora criado, não tinha mais vergonha de dizer que estava com ela, e que tinha toda a disposição do mundo para assumir isso para quem quer que viesse a minha frente. E, pela forma com a qual ela me arrastava até a porta entreaberta do salão, eu sabia que, se tivesse algum medo, ele teria de ser enfrentado naquela hora.

                Com a ajuda de dois elfos sorridentes, as portas pesadas foram escancaradas para anunciar o anfitrião. Todos naquele salão pararam para me receber, e a cacofonia cessou pelo tempo necessário para que os convidados abrissem suas bocas em surpresa, as mãos paradas no instante antes de começar uma salva de palmas, todo o salão inundado em um silêncio mortal para me observar. Ou melhor, para observar eu, Draco Malfoy – que deveria ter entrado sozinho, como de praxe para anfitriões solteiros –, de braços dados com Hermione Granger. Cruzei meu olhar com o da mulher ao meu lado, que me assentiu levemente antes de começar a andar pelo corredor vazio que se formara a nossa frente, seus lábios se contorcendo em um sorriso que se refletiu nos olhos castanhos. Ela era divina. Abri um sorriso mais para mim do que para qualquer coisa, sentindo todo meu corpo gritar de felicidade enquanto eu olhava para meus convidados com os dentes reluzindo com a força das luzes dos enormes candelabros de cristal.

                Os aplausos começaram logo após o início de nossa caminhada, assim como os cochichos desesperados. Minhas palmas suavam e minhas pernas tremiam, mas isso não era capaz de me fazer parar de andar. O que pensariam? O que fariam? Quem se importava? Quem caralhos se importava quando eu tinha a mulher mais bonita, inteligente e importante do salão ao meu lado? Inconscientemente encontrei os Potter na multidão, próximos ao palanque no qual eu deveria falar como orador naquela noite. Ronald não estava em nenhum lugar a vista, e não podia dizer que estava triste por isso. Não foi o homem que me atraiu a atenção, no entanto, foi a ruiva de olhos verdes e brilhantes, com a criança encarapitada na barra do vestido: ela podia ler minha alma com aqueles olhos, eu não duvidaria, e, mesmo assim... Ela me sorriu. Seus lábios tintos com um batom escuro se abriram em um sorriso gigantesco enquanto ela batia palmas com força, e uma centelha de simpatia cresceu em meu peito antes de subir os pequenos degraus logo após Hermione, que se postou ao lado de um perplexo Ministro da Magia, piscando um dos olhos cintilantes para mim antes de falar qualquer coisa com um dos assessores ao seu lado.

                - Boa noite a todos. – eu comecei, minha voz falhando um pouco. Respirei fundo, encarando a multidão silenciosa ao meu redor. Meu coração batia com tanta força que eu me perguntava se ele era capaz de ser ouvido por toda aquela sala. Ainda tremendo, cruzei os braços atrás do corpo e prossegui, erguendo o queixo – Espero que estejam bem acomodados e sendo bem tratados pelos meus funcionários nessa noite. – escutava minha voz ecoar pelas paredes, o peso de cada vogal ressoando em mim – Serei breve, afinal. O baile do final da Primavera tem um objetivo claro: celebrar as flores, as coisas que amadureceram, os desabrochares após a Grande Guerra. Durante muito tempo, acredito que o preconceito e a ganância falaram mais alto para muitos de nós da comunidade bruxa tradicional. No entanto, a primavera sempre vem, e, neste ano que se passou, desabrochou algo em mim, seu anfitrião desse baile. Até as árvores secas podem voltar a florir, se forem cuidadas corretamente. E é para essas árvores, para as máculas em nosso passado e para os erros a serem consertados, que ofereço esse brinde. Para o futuro das flores.

                Enquanto falava, vinham na minha cabeça flashes de Hermione em todos os momentos possíveis: desde Hogwarts até a alguns meses, com seus cachos repletos de flores em Paris, com sua pele nua em busca da minha. Me via com dezesseis anos, chorando e clamando por cuidados, afogado em tudo o que me forçaram a engolir e repetir por tanto tempo, e agora, onze anos depois, erguendo uma taça e sendo copiado por todos. No entanto, a única pessoa para quem olhei enquanto tomava daquele líquido dourado, ignorando os aplausos e todo o resto, era uma mulher coberta de diamantes, que me sorria com lágrimas nos olhos. Eu movi meus lábios para ela, sem emitir nenhum som: para o futuro das flores.

                E ela riu para mim. 



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