História Penas, Plumas, SANGUE e Paetês - Capítulo 24


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Carnaval, Escola De Samba, Investigação, Jornalista, Policial, Rio De Janeiro, Romance Policial, Samba, Serial Killer
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Palavras 2.355
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Mistério, Policial, Suspense
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 24 - Avenida Marquês de Sapucaí


“A Avenida Marquês de Sapucaí é o endereço do Sambódromo do Rio de Janeiro. A passarela de setecentos metros, inaugurada em 1984, foi concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Antes os desfiles das escolas de samba ocorriam na Avenida Presidente Vargas, com arquibancadas desmontáveis.”

Sexta-feira, 13 de janeiro de 2017.

— Então o senhor só soube da morte da passista Alessandra ontem, senhor Maxwell?

— Sim, caro detetive. Estava viajando a negócios. Ontem fui reencontrar Alessandra e recebi essa triste notícia.

Alan olhou para o homem prestando o depoimento. Não soube dizer se o amante estava realmente sentido pela morte da sambista, pois não houve esboço de mudança facial. O homem não possuía expressão alguma, essa era a verdade. Seu nome era Filipe Maxwell. O uso do português da parte depoente era explicado por ele possuir mãe brasileira. Às vezes, transparecia o sotaque herdado pelo uso da língua do pai irlandês. O detetive Nogueira conduzia as perguntas, pois Sampaio não tinha condições de praticar essa tarefa devido ao cansaço.

— Nós não tínhamos nada sério, policial. Só saíamos de vez em quando — esclareceu o meio gringo. — Sabem como é, ela não era mulher para ter algo sério — completou a parte, tentando ganhar a simpatia dos policiais.

Alan olhou para o homem. Conhecia aquele tipo de babaca que achava que passista era uma mulher apenas para diversão. Aquela era uma das generalizações repletas de preconceito presentes no mundo do samba. Alan ouviu aquilo quando começou a se relacionar com Amanda. As passistas sofriam prejulgamento tal como os sambistas, rotulados de vagabundos. O grande problema das pessoas era falar sem conhecer sobre um assunto. Sampaio pensou em não dizer nada, mas não se aguentou:

— O que quer dizer com isso, senhor?

— Ah, detetive, essas mulheres não se dão o respeito.

—Elas servem para você fazer sexo e não para se relacionar seriamente, não é? Francamente, eu... — Nogueira colocou a mão no ombro do colega, percebendo que Alan estava um tanto alterado.

— Sampaio, calma. Isso não vem ao caso — disse o policial oriental. — Qual foi a última vez que viu a passista Alessandra?

— Posso olhar aqui na agenda? — pediu Maxwell, percebendo que o detetive Sampaio ainda o encarou revoltado. — Foi num domingo, já para o fim do ano passado. — O homem passou o dedo na tela do celular. — Aqui! Dia dezoito de dezembro. Foi na véspera da minha viagem.

— Que ótimo, senhor. Esse foi o dia da morte dela — recordou Alan, dando um sorriso discreto, com os braços cruzados, evidenciando os músculos. Aquela postura geralmente assustava as testemunhas. Aparentemente, o grandão também se sentiu acuado, pois se ajeitou na cadeira onde estava sentado. — Vocês chegaram a se falar nesse ensaio?

A polícia sabia que o homem havia procurado Alessandra durante aquele ensaio, informação dada pela namorada de Santos, mas até onde conseguiram apurar, eles não se encontraram.

— Sim — o homem pareceu pensar se deveria continuar a falar —, eu dei carona para Alessandra.

Sampaio quase vibrou. Conheceriam mais alguns passos da vítima, mesmo que da boca daquele homem desprezível. A falta de sono o deixava com mau humor, mas machistas o tiravam do sério. Não fora apenas a esposa uma vítima, a mãe do detetive também havia sofrido com aquilo. Não foram poucas as vezes que a mãe sofreu com a fofoca de vizinhos de mente fechada. Principalmente quando começou a levar a casa sozinha após a morte do pai. Os mesmos eram seguidores da filosofia atualmente denominada por “belas, recatadas e do lar”.

— Interessante — comentou Alan, voltando olhar o depoente. — Para onde a levou, senhor Maxwell?

— Ela disse que iria para casa de uma amiga que estava com os seus filhos. Talvez ela tenha dito o nome, mas confesso não lembrar, detetive.

— Vivianne? — Alan sugeriu, mencionando o nome da mulher que tomou conta de seus pensamentos enquanto ficou de guarda durante a madrugada na Cidade do Samba.

O policial se lembrou do amasso dado antes da ligação do oficial de cartório. Conforme ia para a região da Gamboa, dois lados do detetive se digladiavam em sua mente: um havia adorado aquilo, desejava por mais e queria matar Santos pela interrupção; o outro, racional, o reprimiu pelo ato falho. Ele não podia baixar guarda com a jornalista. Ela não era confiável e Alan não queria se envolver com ninguém com a memória de Amanda tão presente.

— Sim, esse mesmo — disse o grandão, depois de refletir um pouco.

— Nós sabemos que a Alessandra não foi para lá. O que você fez com ela?

— Eu? Nada, policial. Deve ter sido aquela ligação que ela recebeu quando estávamos no meio do caminho da casa dessa Vivianne.

Alan analisou as reações do gringo. Ele pareceu dizer a verdade. No fundo, o detetive estava se deixando levar pela antipatia. Sampaio era um homem justo, não poderia prejudicar o homem à sua frente, mesmo não concordando com os pensamentos do outro. Não podia deixar seu lado passional aflorar, ele estava trabalhando. Apesar de achar uma injustiça aquele julgamento feito pela testemunha.

— Conte sobre essa ligação — exigiu Sampaio.

— Bem, só consegui entender que a Alessandra havia marcado um encontro com alguém e havia esquecido. Aí o senhor me diz se ela pode ser uma mulher de respeito, detetive. — Alan respirou fundo. O senhor Maxwell estava querendo testar a paciência dele. — Você sabia que ela estava saindo comigo e com outro cara, policial? E, aparentemente, tinha mais um na jogada.

— Chega! — Alan bateu na mesa. Os outros policiais nem olharam para o arroubo do investigador. Era comum algum agente ter que se impor com a parte interrogada. — Quem o senhor pensa que é para falar assim dela? Por acaso vocês estavam namorando? — rosnou o investigador, fazendo o declarante negar veementemente. — Então, ela poderia sair com dez, cem ou mil! Ou vai me dizer que o senhor estava saindo apenas com ela? Nem pense em dizer que é diferente, senhor Maxwell — completou Sampaio, impedindo o gringo de araque responder algo do tipo.

— Vamos nos ater a essa ligação, Sampaio, por favor. Você quer beber um café? — intercedeu Nogueira. — Talvez seja melhor você ir para casa, companheiro.

— Japa, eu quero ouvir o que esse senhor vai dizer. Qualquer escorregada — Alan disse olhando o declarante —, eu te pego. Está avisado, senhor Maxwell.

— Caros detetives, não sei quem era a pessoa do outro lado da linha. Alessandra disse apenas que iria ao encontro dela. Nós discutimos quando ela desligou. Eu já queria pô-la contra parede quando soube do caso com o harmonia.

— Muito bem, continue. Estamos ansiosos pelo seu relato.

---***---

O domingo chegou. Aquele quinze de janeiro pareceu normal a qualquer pessoa: dia de dormir até mais tarde ou de acordar bem cedo para praticar exercícios, de ir à igreja ou à praia. Quem sabe, talvez, propício para um almoço preguiçoso de família acontecendo no meio da tarde. Entretanto, era diferente para os sambistas.

Aquela data marcou a abertura da temporada dos ensaios técnicos, treinos de canto e de coreografias no lugar do desfile das escolas, localizado na Avenida Marquês de Sapucaí. Praticamente, todos os componentes compareciam e trajavam camisas temáticas do enredo da agremiação. A blusa informava o nome ou número da ala do desfilante, facilitando a organização no momento da armação da escola.

Casais de mestre-sala e porta-bandeira e a comissão de frente não entregavam seus segredos, fazendo apenas a marcação do espaço na pista. O mais comum era a realização de coreografias antigas para entreter o público. Algumas vezes, eles iam com as vestimentas de anos anteriores para apreciação da plateia. O que era positivo, pois esses dois segmentos sempre vinham com roupas luxuosas, muitas vezes não observadas com tanto apreço durante a euforia do desfile oficial.

O evento já fazia parte do calendário da Cidade Maravilhosa, atraindo grande contingente de sambistas e turistas. As arquibancadas tinham acesso gratuito, mas eram liberadas para o público conforme a lotação. Os setores iniciais preenchidos pela população ficavam perto da Avenida Presidente Vargas. As agremiações com grandes torcidas pressionavam a LIESA para permitir o ingresso nas arquibancadas próximas à Praça da Apoteose.

As frisas eram bastante disputadas por serem locais privilegiados para acompanhar o desempenho das escolas de samba pelo fato de ficarem à mesma altura da pista de desfile. Os portões eram abertos bem antes do início, mas as frisas sempre lotavam rapidamente. Isso se devia também ao fato de que não era necessário subir diversos lances de escada como nas arquibancadas.

O primeiro dia desses ensaios técnicos contou com o Império Serrano, Paraíso do Tuiuti e União da Ilha. As comunidades de Madureira, São Cristóvão e Ilha do Governador marcaram presença. Alan fora intimado a ir pela mãe, baiana imperiana. Depois de ter ido ao almoço na sexta-feira na casa de Dona Sonia, que rendeu até o encontro de uma caixa de lembranças e recordações do pai, o policial prometeu prestigiar o treino do Menino de 47, cognome da agremiação de sua mãe.

O Sambódromo possuía treze setores para acomodação do público: os ímpares ficavam do lado esquerdo e os pares, no direito, tomando como referência o sentido de desfile. Caso estivessem lotados, seriam por volta de setenta e sete mil pessoas. O detetive Sampaio estava na fila A das frisas do setor quatro, a mais próxima da pista, permitindo observar como seria o comportamento dos quesitos harmonia e evolução das escolas daquela noite. Esses, juntamente com samba-enredo e bateria, eram os principais quesitos a serem trabalhados naquele treino. Os outros quesitos, como mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente, fantasias, alegorias e adereços e enredo só podiam ser vistos no dia oficial.

Alan estava acompanhado de Santos, que parecia ter adotado o mundo do samba como estilo de vida. O oficial de cartório se vestiu de branco e colocou um chapéu, parecendo a figura de Zé Pelintra, faltando apenas os sapatos bicolores. Talvez estivesse parecendo um turista, mas Sampaio achou melhor não comentar isso com o colega para não acabar com a alegria do mesmo, que estava se sentindo o próprio malandro carioca. Bianca e o casal de padrinhos de Sampaio, Chico e Nádia, também dividiam o espaço da frisa.

A presença dos padrinhos foi incentivada por Dona Sonia ao saber da confusão ocorrida na Praça da Bandeira. A mãe do detetive disse que ele precisava se cercar de pessoas que o faziam bem. O policial resolveu dar mais um passo. Aos poucos, ele iria parecendo mais o Alan de tempos atrás. Sonia insistiu que o filho saísse com alguém, mas ele não estava preparado para isso. Ainda mais quando viu a jornalista Medeiros se aproximando da frisa onde estavam, acompanhada pelo fotógrafo Jonas e outro homem.

— Bia, eu quero dar na cara de alguém hoje! — reclamou Vivianne, gesticulando bastante. — Foi um porre para entrar na pista. Bem que me avisaram, entra um monte de bicão e a gente que quer trabalhar tem que mendigar para fazer nosso trabalho. — Infelizmente, muitas pessoas que não tinham a ver com a cobertura jornalística circulavam na pista, atrapalhando o fluxo da escola. A situação era pior no dia dos desfiles, pois muitos entravam com credenciais de outras pessoas para assistirem os desfiles na pista. — Quando der merda, aí eles vão ver. As coisas nesse país só funcionam quando estoura uma bomba.

— Amiga, relaxa. — Bianca abraçou a jornalista, por cima da grade que separava as duas, tentando acalmá-la. — Você não está aí dentro? — A repórter confirmou. — Então, relaxa, gata.

— Bia, querida, eu disse para ela não se estressar — o homem loiro que Alan não sabia quem era abraçou a jornalista e deu um beijo na testa —, mas você conhece essa daí. Quase saiu no tapa com a segurança. Você parece um moleque, Vivi.

— Não enche, Caco. — Ela empurrou o homem, rindo. O detetive Sampaio não estava gostando daquela intimidade toda. Ele pensou em ter ouvido aquele nome antes. — Vai tirar foto e me esquece. Ah — Vivianne viu o investigador, percebendo também as outras pessoas que estavam na frisa —, oi, Sampaio.

Alan respondeu o cumprimento com um aceno da cabeça. O contato entre eles desde quinta foi através de algumas mensagens por aplicativo, nas quais, a jornalista havia mandado o link da notícia no site do Jornal da Matina. Vivianne havia cumprido o prometido. Ela escrevera tão bem que ele mesmo se convenceu que a informação vaga noticiada na matéria parecia muito importante e deve ter saciado a curiosidade dos leitores. Eles encararam um pouco até que Santos questionou se estava bem vestido de sambista.

— Thiago, você chegou meio atrasado, o Zé Pelintra foi homenageado pelo Salgueiro ano passado. — Em 2016, a Academia do Samba havia homenageado a malandragem carioca, inspirada na Ópera do Malandro, de Chico Buarque. — “Refletida em meu chapéu/O rei da noite eu sou/Num palco sob as estrelas/De linho branco vou me apresentar/Malandro descendo a ladeira... Ê, Zé!/Da Ginga e do bicolor no pé” — cantarolou a jornalista, sendo seguida pelos outros.

— Vocês estão juntos? — questionou Nádia, com os braços cruzados, parada ao lado de Alan, enquanto a jornalista zoava que talvez Santos estivesse mais para Zé Carioca. — Ela é muito bonita.

— Não sei de onde você tirou isso, Nádia.

— Você não para de olhar, Alan — reparou Chico. — Não acha que está na hora de ir em frente?

Alan não precisou responder, pois foi chamado pelo assunto da conversa.

— Vocês já descobriram onde está a passista desaparecida? — sussurrou Medeiros, falando perto do detetive. O cheiro do perfume dela fascinou Alan.

— Não vou nem perguntar como você soube disso. — Alan olhou para Santos. Com certeza, o telefone sem fio havia começado ali. Ele precisava ter uma conversa com o amigo. — Não, nós não temos informações dela. Eu convoquei o marido para ir à delegacia, mas ele não apareceu.

— Chegamos ao ponto. Eu posso ajudar você com isso.

— O que você vai querer em troca?

— Você me deve uma explicação sobre o depoimento do grandão. Talvez a gente possa dividir umas cervejas. — Vivianne deu um olhar que Alan caracterizaria como sapeca. O detetive sabia que ela não queria beber. Ele também não, pensou. — Tenho que ir, vai começar o esquenta do Império. A gente se fala depois do ensaio. — Ela se afastou, puxando os dois fotógrafos em direção ao primeiro recuo da bateria.


Notas Finais




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