História Penitência - Capítulo 1


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ficção, Mistério, Romance e Novela, Seinen

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo 1


Os humanos se foram. Não existe sequer alguma pessoa nesse vasto planeta conhecido como Terra. Apenas um garoto. Ele tem quinze ou quatorze anos, não se sabe ao certo. O que se sabe acerca dele é que ele caminha sem um objetivo. O motivo da sua “marcha” pela Terra é para se sentir vivo.

Afina, se ele parasse naquela imensidão, agora sem nenhum resquício humano, ele definitivamente morreria, mas não biologicamente, e sim mentalmente.

É engraçado como, embora agora ele tenha toda a liberdade do mundo para fazer o que quiser e for para onde quiser, ele não se sinta assim. Agora ele está andando pela 569ª cidade. Parece absurdo? Talvez, mas é plausível. Em cada lugar que ele passa, as paisagens parecem as mesmas para ele. Ele até chegou a uma conclusão sem lógica de que “as pessoas fazem o mundo” e que, por não existir ninguém mais, todo lugar parece o mesmo, ou seja, sem vida e sem beleza.

– As comidas desse lugar estão melhores que a da cidade anterior. – sussurrou o garoto enquanto comia, dentro de um supermercado, um pacote de bolachas e um bolo de chocolate.

O motivo dele ainda exercer suas atividades diárias, mesmo sendo, de fato, o último humano da Terra, é por que é algo necessário. Comer, dormir, falar, ir ao banheiro, pensar e andar são algumas das coisas que definem um ser vivo… talvez, e por isso, ele não podia simplesmente parar. Qual o sentido de continuar suas atividades básicas como um humano nesse mundo vasto, agora tão grande e, ao mesmo tempo, solitário para o garoto? Nem ele sabe. Ele apenas vaga pela Terra, visitando cidades diferentes, de países e continentes diferentes, fazendo o que precisa para viver, ou melhor, sobreviver.

Algumas horas depois, ele já havia andando praticamente por toda a cidade. Era como se fosse um “tour” por uma cidade que ele nunca tinha visitado antes. Mas mesmo assim ele não conseguia apreciar. A falta de pessoas havia destruído esse mundo, a tal ponto que ele nem mesmo se considerava mais um humano, por viver já nesse mundo quebrado. Tal coisa é realmente possível?

Pense em um animal vivendo em um habitat diferente do seu. A natureza daquele lugar é esplêndida, com rios limpos transparecendo a imagem de quem olhasse por, várias florestas com suas árvores de mais de 5 m de altura e vários tipos de vegetações e climas diversos durante o ano. Nesse habitat existem várias espécies únicas e diferentes, e todas vivem em harmonia. Mas naquele local, aparentemente perfeito, tem um animal “peculiar”. Ele, de alguma forma, veio parar lá. Mas seu habitat não é aquele. A princípio ele se sente maravilhado pela perfeição daquele habitat, várias vezes melhor que o dele, que era um local gélido quase a maior parte do tempo, rios congelados e solitários, florestas desmatadas, com neve sobre seus galhos secos e nus.

Mas depois de um tempo, ele começa a se sentir estranho. Eu não pertenço a esse lugar é o que ele pensa. E de fato é a verdade. Aos poucos ele começa a enxergar a realidade que é para ele. Ele não consegue e nem pode viver naquele lugar perfeito.

Parece uma comparação sem sentido em relação a Terra e o garoto, mas não necessariamente. É difícil dizer o que ele sentiu ao descobrir que era o único humano da Terra. Estranhou, a princípio. Depois, começou a pensar na maravilha que podia ser. Mais depois, o êxtase de emoções como confusão, dúvida, alegria, etc. Eram tantos sentimentos distintos que o garoto quase teve um treco. Ainda sobre o êxtase, ele decidiu andar pelo mundo. No lugar aonde ele estava havia comida boa o suficiente, por algum motivo, eletricidade, e por isso, podia assistir TV e jogar videogame, embora, obviamente, não tivesse passando nada na TV, e jogos online também estavam fora de cogitação. Mas, mesmo com tudo isso, embora limitado, ele decidiu sair dali. Sua cidade natal, o qual viveu por quinze ou quatorze anos, não se sabe direito era, de fato, o único lugar que ele havia estado. Não tinha a mínima noção de como seria os outros lugares, mas sabia que seria algo incrível.

Passou pela primeira cidade após sair de sua cidade natal. Fantástico. Uma paisagem diferente do usual, construções grandes, diferente de sua cidade natal de certa forma rural, e muita comida diferente. Saques a restaurantes e supermercados foram feitos sem culpa, de fato, afinal não haveria ninguém para culpá-lo por isso.

Passou pela segunda cidade. A outra cidade era exuberante, mas essa não deixa de impressionar um pouco, foi o que o garoto pensou. Dessa vez, havia um rio que passava pela cidade. Curioso, ele foi até onde seria possível de se ver o rio, chamado Rio Fartum. Resumindo a história, ao chegar lá, ele entendeu perfeitamente o porquê de se chamar assim.

Indo embora, após quase vomitar pelo caminho e ainda com náuseas, ele viu algo que fez seu desconforto no abdômen parar imediatamente, e nisso se sucedeu um calafrio e ansiedade enorme. Um par de sapatos estava diante dele. Ele se aproximou dos sapatos, jogados de qualquer jeito no chão. Eram sapatos sociais, já bem desgastados. Olhando-os de perto, outro calafrio percorreu pelo corpo do garoto.

– Não pode ser… – sussurrou o garoto. Uma mistura de sentimentos passou pelo garoto. Esperança. Medo. Dúvida. Remorso. Um pouco de felicidade. Mais esperança.

Acabou que, no final, não era nada. Ele procurou ao redor de onde os sapatos foram originalmente encontrados, e nada. Ao terminar a busca, sendo que já era de noite e ele estava cansado, suando um pouco a ponto da camisa grudar nas costas, decidiu parar busca. Uma única lágrima caiu do rosto do garoto. Talvez, mesmo ele se divertindo de “viajar pelo mundo”, ele já estava começando a sentir falta de pessoas. Como disse um certo alguém uma vez na história, “os humanos não foram feitos para viver individualmente, e sim coletivamente”. Esse era o exemplo perfeito disso. A falta de socialização estava, aos poucos, afetando o garoto.

Dias depois, ele já estava na quinta cidade. O ideal seria passar pelo menos um ou dois dias em uma cidade e depois partir. O garoto chegou a conclusão de que permanecer muito tempo em uma cidade fazia mal para ele. Um sentimento melancólico parecia entrar no âmago do garoto, a tal ponto de parecer destruir ele por dentro.

A quinta cidade para ele foi um tanto quanto diferente. As outras cidades eram cidades muito boas. Um tinha um rio, embora não muito agradável, outra possuía construções muito bem projetadas e gigantescas, e outra uma padaria excepcionalmente boa.

Casas de madeira. Foi isso que o garoto viu dando a primeira olhada pela cidade. A princípio ele não acreditou muito no que viu, mas, ao adentrar na cidade de fato, ele percebeu algo. Uma cidade inteira de casas e construções de madeira, velha por sinal. Aquilo não parecia uma cidade e sim uma favela em larga escala. O garoto não sabia que havia algo desse tipo a mais ou menos 50 quilômetros de onde ele sempre viveu.

O chão não era asfaltado, e isso era o pior do que as casas feitas de madeira caindo aos pedaços. Lama e sujeira por todo lado. É possível alguém viver aqui? O garoto pensou. A verdade é que os humanos se adaptam a condições extremamente miseráveis, a fim de sobreviverem. “Tudo para viver, não importa se doer!” seria algo desse tipo.

O garoto, enquanto andava pelo que era possível de pisar, é claro, se sentia mal caminhando naquela cidade. Repulsa e nojo era o que sentia. Nojo por causa do terreno lamacento e o bafio presente nas madeiras fechadas e úmidas por causa da lama e provavelmente de chuva também.

Quero sair daqui logo, pensou o garoto. Aquele ambiente fazia mal para o garoto que já não estava muito bem. Ele ficou poucas horas naquela cidade. Tempo suficiente para procurar mantimentos e algo que pudesse ser útil para ele mais tarde. Não achou quase nada, e então decidiu ir embora logo dali.

Foi difícil sair daquela cidade. O terreno lamacento especialmente aumentou e piorou ao longo da saída. O garoto escorregou várias vezes na lama, sujando seu casaco de lã, e que, em um ataque de raiva, o jogou fora imediatamente. Finalmente saindo da cidade, e sem seu casaco, apenas com sua camiseta preta de manga longa, uma brisa fria passou por ele. Na hora ele tremeu, pensando no azar daquela brisa passar justamente quando ele estava sem seu casaco.

O garoto passou a noite dentro em uma barraca que ele havia achado na segunda cidade. Mais um dia, mais uma noite se passou, e ele sobreviveu mais um dia, sendo o único homem na Terra.

O dia estava amanhecendo assim como o garoto. Ele finalmente se levantou, comeu algumas bolachas e um pouco de pão seco, que fazia parte dos seus, agora poucos, mantimentos, bebeu um pouco de água, e já estava pronto para partir.

Andando mais algumas horas, ele finalmente chegou na próxima cidade. Era irônico quando ele olhou pela cidade. Prédios enormes, vários outdoors espalhados pela cidade, um vasto parque bem no meio dela, pelo que parecia, com uma pequena floresta do lado esquerdo e um lago tão azul que parecia tentar copiar o céu, no lado direito.

A cidade era absurdamente um contraste em relação a cidade anterior a qual o garoto havia passado. Por algum motivo, o garoto firmou seu punho direito por conta da raiva. Esse mundo é injusto, ele pensou. De fato, ele não está errado. O mundo é injusto. Vamos pôr em fatos. Antes do “desaparecimento” repentino da humanidade, limitado apenas a um garoto que continuou existindo, sabe-se lá por quê, vamos falar sobre a vida da população das duas cidades.

Para explicar melhor, vamos falar que a cidade das casas de madeiras e chão lamacento, e cheiro de mofo presente por toda área é a cidade A. Já a cidade em frente ao garoto agora, com prédios enormes e luxuosos, com outdoors com propagandas abusivas, e um grande parque para fins de entretenimento bem no meio dela. O parque deveria ser um local para relaxar com a família nos fins de semana e feriados, com a presença da natureza em sua forma mais bela, que é claro, a forma natural e sem modificação. Essa é a cidade B.

Agora vamos falar da população na cidade A; provavelmente pobres, miseráveis, trabalhando com serviços possivelmente perigosos, mal pagos e, uma chance muito grande disso ter acontecido, trabalhos praticamente escravos por que não havia outra opção. O patriarca da família dedica quase 80% do seu tempo trabalhando, talvez até mais, para ganhar uma mísera, e levar essa mísera para sua família, que por sua vez, vê aquela pequena quantidade de dinheiro como o paraíso, para que, em algumas horas, aquele “capital” acabe rapidamente como doce na mão de criança.

Agora, vamos falar da cidade B. O garoto passou o olho pela cidade e notou várias coisas. Carros. Automóveis são claramente normais em cidades. Mas e carros luxuosos? Mercedes, Ferrari, BMW, apenas alguns exemplos do que poderia ser visto em alguns quarteirões da cidade B. Naqueles prédios enormes, antes de tudo acontecer, possivelmente havia empresários em seus ternos caríssimos, vomitando dinheiro facilmente enquanto as pessoas da cidade A, se fosse possível, vomitariam também para obter alguns trocados.

Foi toda essa situação que passou mais ou menos pela cabeça do garoto, e o irritou profundamente. Agora que ele teve a chance de sair e ver o mundo de outra forma, ele percebeu a realidade das coisas. Aonde ele morou seu quinze ou quatorze anos, ele viveu em conforto. Sua família não era nem rica nem pobre, e isso o fez ter uma vida distorcida. Tinha tudo que queria, mas não abusava disso. Estudou nas melhores escolas que podia ser paga, seus pais sempre preocupado com sua educação e formação. Mas ele? Apenas jogou fora tudo isso, afinal, ele nunca deu a mínima para os estudos. Não era só a fúria que o atingiu. Foi autocomiseração também. Tinha tudo e não aproveitou. Tinha tudo, não aproveitou e jogou fora. Tinha tudo, não aproveitou, jogou fora e, no final, pisou em cima sem piedade.

Depois dessa reflexão, o garoto apenas passou pela cidade como um fantasma. Pegou o que precisava pegar pela cidade, como mantimentos e talvez algumas coisas úteis.

Tendo se abastecido, finalmente saiu daquela cidade, que o fez passar mal tanto quanto a cidade anterior.

No fim daquele dia, ele teve um sonho, que foi dividido em duas partes; em um, ele havia nascido como filho de um grande magnata, e por isso possuiu, desde criança, tudo que quisesse ter, apenas pedindo. Por causa disso, ele virou arrogante e egoísta, mas pelo menos, ele tinha tudo que quisesse, certo?

A segunda parte foi um contraste total; ele havia nascido como filho de catador de lixo de uma capital. Ele era o quarto de cinco filhos. Eventualmente, por não ter condições de sustentar cinco filhos, o pai dele o abandonou, até que, alguns meses depois, a mãe também. Eles simplesmente fizeram aquelas cinco pobres crianças para depois jogarem fora como lixo. O que aconteceu como os cinco? Um conseguiu, achando livros no lixo, estudar e estudar até conseguir bolsa em uma escola, até que, mais a frente, passou em uma universidade renomada de medicina. Ele quis e alcançou. Outro virou um bandido. Outro virou catador de lixo, como pai. Outro morreu poucos meses depois, de inanição, por ser o mais novo e por isso o menos alimentado dos cinco filhos. Na verdade, não houve um funeral. Acredito que ele tenha sido pego pelo irmão que havia virado catador de lixo, afinal, seu corpo foi jogado nas ruas dentro de um grande saco preto.

O último, no caso o garoto, o quarto dos cinco filhos, sempre foi muito amigo do irmão que estudava muito, por isso, teve muitas chances de estudar e possivelmente virar alguém importante como o próprio irmão viraria nos próximos 10 anos. Mas a verdade cruel é que isso ficou, de fato, apenas no papel. Ele esculachou e não aproveitou suas chances. Depois de alguns anos, ele morreu assim como um dos irmãos. Mas dessa vez teve um funeral, pago inteiramente pelo irmão dele, que havia se tornado médico. Que hilário essa história. Dois lados da moeda, intimamente relacionados ao garoto.



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