História Perdition - Capítulo 16


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Categorias Originais
Tags Originais
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Hey ;)

Capítulo 16 - Gaveta Emperrada


Fanfic / Fanfiction Perdition - Capítulo 16 - Gaveta Emperrada

Cass estava sentada na cama, teve que trocar de blusa, tinha sujado a outra de sangue. Mei estava ao seu lado, enfaixando suas mãos cortadas. Cassandra queria falar, sentia uma necessidade quase sufocante de contar tudo o que ela havia passado. Era como se as palavras fossem puxadas a força por um anzol invisível.

-Sabe Cassandra – Começou Tia Mei, ainda de cabeça baixa, muito concentrada na tarefa de cuidar das minhas mãos, levantei meus olhos e fitei seu rosto. – Quando você passou pela porta de entrada, a primeira vez que te vi, pensei comigo mesma, “essa menina deve ter passado por um tremendo inferno”, e tudo o que ouvi depois comprovou minha primeira impressão.

Eu apenas a observava em silêncio. Gostava de ouvir ela falar. Era como conversar com a minha mãe de verdade. Quem Lorene era antes de se tornar aquele monstro.

O mesmo monstro que você se tornou Cassandra?

Apertei os olhos. Sorte que Mei não percebeu.

- Em sua primeira noite aqui, fui dormir me perguntando o que aconteceu com você. E se em algum momento você gostaria de me contar, pois só assim eu poderia ajuda-la. – Ela olhou para mim, seus olhos cor de chocolate pareciam cobertos por uma véu de memórias, como se ela estivesse vendo dentro da minha cabeça. – Pode me contar Cassandra, pode me contar tudo.

Você vai assusta-la Cassandra.

Senti um sentimento de dúvida crescendo em mim, de medo. Será que realmente devo contar? Ela vai passar a me olhar diferente? Vai continuar sendo tão doce comigo?

Espantei esses pensamentos poluentes, sabia que eles vinham do monstro que despertou. Acenei com a cabeça. E respirei fundo, era a hora de começar a falar. Mei soltou minhas mãos e eu me abracei, direcionando meus olhos para a janela. O dia estava chegando ao fim, pude ver uma parte do céu tingida de laranja.

Respirei fundo e voltei a soltar o ar com força, me perguntava o que meus irmãos estariam fazendo. Se eles achavam que eu estava morta, se sentiam minha falta... Então comecei a falar, deixei que aquela inquietação fosse liberada de mim. Era como se eu soubesse exatamente o que dizer. Como se isso fosse um roteiro, e eu já tivesse lido o texto vária vezes. Estava aqui esperando a muito tempo para ser falado.

-Em uma noite, logo após a minha formatura, sai para comemorar com meus amigos. Estava frio, eu tinha pegado uma carona ir, mas teria de voltar para a casa sozinha. – Suspirei, a lembrança da noite voltou aos meus pensamentos. – Eu estava caminhando rápido, não queria que minha mãe brigasse comigo. Sabe, eu poderia ter chamado um táxi, poderia ter ligado para meus pais... Mas nem pensei nisso.

Olhei para Tia Mei, ela estava me observando muito atentamente. Tentei continuar mas não sabia como falar. As palavras se embolavam em minha garganta, como se estivessem se atropelando mas não conseguissem sair.

-Naquela noite... E-e-eu... Fu-fui...

 Mei balançou a cabeça e fechou os olhos.

-Eu sei querida. Eu entendi. –Ela suspirou e novamente colocou a mão sobre o peito. Sabia que ela sentia pena de mim. Me senti fraca por isso, por ser motivo de pena.

Acenei com a cabeça. Eu tinha que continuar. Não podia parar agora.

-Eu fiquei grávida dele Tia Mei.

Ela soltou um grunhido baixo, como o de uma animal sendo estrangulado. Ela me olhava com um misto de tristeza e espanto. Essa reação era inevitável, eu já estava me preparando para isso. Mesmo assim, não pude evitar, as lágrimas vieram.

Estou tão cansada de chorar...

Respirei fundo e continuei.

-Meus pais, Benedickt e Lorene, são advogados. A única coisa que supera a lei para eles, é a reputação. É o quanto são expostos, o quanto parecem fortes, o quando eles ou seus filhos são bem vistos. Tudo para eles, é o status. O que as pessoas falariam se descobrissem que sua filha foi violada sobre um monte de sacos de lixo, enquanto estava meio bêbada?

Soltei uma risada abafada, mas Mei estava apavorada. Vi que ela apertava de leve o cobertores da cama, estava com raiva. Pode acreditar, eu também estava. Suspirei, vou dar alguns segundos para ela absorver o que eu falei, antes de continuar.

-Ah Cassandra... -Sua voz era carregada de angustia.

-Tudo bem. - Respondi, tentando demonstrar que já havia superado. É claro que eu não consegui.

Ela só balançou a cabeça em negativa e fechou os olhos por um momento. Depois acenou, indicando que eu deveria prosseguir.

-Benedict era o principal doador financeiro do hospital St. Kelman’s. Eu fui examinada lá quando me encontraram. O hospital não podia perder um de seus maiores fornecedores, por isso, quando meu pai exigiu sigilo, eles ficaram em silêncio. O assunto tornou-se confidencial para a maioria. Nunca fizemos um boletim de ocorrência. Nenhum dos meus familiares ficou sabendo. Alguns dos meus amigos desconfiavam, mas sem provas não podiam falar nada. Fiquei no meu quarto muito tempo. Eu estava deprimida, era obvio. Meus pais não deixavam meus amigos me verem, eu também não insistia para que isso acontecesse, e com o tempo, eles pararam de vir. Acho que ficaram bravos ou decepcionados, pensando que eu não queria mais fazer parte da vida deles, não sei, mas eu me sentia muito sozinha. Uma noite, meus irmãos, Jane e Josh, gritaram comigo me forçando comer ao menos um prato de sopa. Vomitei tudo. Não segurava mais nada na barriga. Meus irmãos achavam que era por que eu não tinha mais suporte algum no estomago, por ter passado tantos dias sem comer nada, eu acreditei neles no início. Mas, parte de mim sabia, sabia que aquele não era o verdadeiro motivo.

Mei apenas balançava a cabeça, concordando e me incentivando a falar. A cada revelação que eu colocava para fora, a ansiedade ia diminuindo, e era como se um peso saísse das minhas costas. Como se a verdade passasse a ser mais diluída, mais fácil de engolir.

-Passei os nove meses de gestação trancada em casa. Tinha a boa companhia de meus irmãos, estavam sempre comigo quando podiam, meus pais até falavam comigo, mas só sobre coisas que eu não queria ouvir, como por exemplo que quem fez isso comigo era um monstro, e sobre eu dar o bebe para a adoção. Eles diziam que a decisão era minha. Mas sabe Tia Mei, eu nunca fui como a maioria, sempre fui diferente. Sempre vi as coisas por um outro ângulo, de uma outra maneira. Seria tão mais fácil se eu... – Respirei fundo. Fechei os olhos, minha voz tremia quando eu continuei. – Seria tão mais fácil, se eu simplesmente odiasse aquela criança...

Tive de parar por um segundo, o que falei foi como uma revelação pra mim mesma. Foi como revelar uma grande verdade ou dizer um grande mistério em voz alta. Abracei meus ombros com mais força, e me deixei chorar um pouco. Alguns soluços vieram. Comecei a sacudir um pouco, mas me acalmei a sentir a mão de Mei passando por minhas costas.

-Está tudo bem querida. Não tem nada de errado em amar seu filho, você tem esse direito.

A voz dela era tão compreensiva, tão cheia do conforto que eu queria receber, que eu apenas conseguia concordar com a cabeça enquanto chorava. Era tão inexplicável falar. Era como se um cano invisível puxasse parte dessa angustia para fora de mim, drenando toda essa tristeza.

Respirei fundo:

-Eu o amava tanto... –Minha voz estava embargada, entrecortada pelo choro escandaloso que saia desenfreadamente de mim.

-Como era o nome? – Perguntou Tia Mei de forma doce e cautelosa quando comecei a me acalmar, ela ainda acariciava minhas costas.

-E-eu, o chamei de Ethan. –Apertei os olhos e chorei mais, já não conseguia controlar o quanto o meu corpo balançava. Os grunhidos de choro saiam de mim involuntariamente, mesmo doendo tanto era uma dor boa. E naquele momento não me importei em chorar na frente de Mei. Senti que tinha motivos para ficar triste. Tinha motivos para chorar.

Mei me abraçou, consolando minha alma quebrada.

-Está tudo bem querida. Continue.

Enxuguei algumas lágrimas, o contato das ataduras com minha pele fez meu rosto arder quando as sequei, mas não me importei. Respirei fundo de novo.

-Ethan era o nome do meu avô. Pai da minha mãe. Ele era incrível, gentil, brincalhão... Eu o amava. Dei o nome do meu filho em sua homenagem. Só minha mãe que não entendeu isso. Ela ficou ofendida.

-Então ela era uma idiota. – Falou Mei de um jeito bruto que me fez rir, nunca conseguiria imaginar a doce Tia Mei falando assim de alguém.

-Era mesmo. – Dei um último sorriso e funguei antes de continuar. – Quando entrei em trabalho de parto, eles me levaram para o confiável St. Kelman’s. Não deixei ninguém ficar comigo na hora. Tive medo que o arrancassem de mim, que eu não conseguisse vê-lo. Eu sabia que a assistência social já estava esperando do lado de fora do quarto. Ninguém achava que eu ficaria com o bebe, por que eu não contei da minha decisão para ninguém. Em nenhum momento eu disse que o amava. Isso traria uma briga dentro de casa, uma guerra que impediria que eu o pegasse no colo quando nascesse. Acho que se ela tivesse descoberto antes, arrancaria ele de mim a força. - Sacudi a cabeça antes que a raiva me impedisse de continuar- E mesmo que ainda existisse um sentimento de dúvida, algo que segurasse minhas mãos... Esse sentimento terminou quando Ethan abriu os olhos. Ele tinha olhos iguais aos meus. Quando olhei para ele, vi a mim mesma. Como eu poderia deixar essa parte de mim para trás? Não era possível. Eu ia lutar por ele.

Mei acenou com a cabeça. Parecia impressionada com a minha determinação.

-Porém, eu não pude lutar. Na primeira noite que passamos em casa, minha mãe me deu um chá. E ele estava misturado com uma substancia sonífera que não tinha gosto, cheiro ou cor. É um remédio difícil de conseguir. Ou ela gastou um bom dinheiro com ele, ou planejou bem a coisa.

Mei bufou de raiva atrás de mim.

-Eles levaram meu filho embora durante a noite. Quando acordei estava sozinha na cama. Então, eu também fui embora.

Tia Mei acariciou minha cabeça com delicadeza. Eu já não conseguia mais chorar. Acho que esgotei todas as minhas lágrimas. Quando olhei para ela, vi que estava chorando. Então ela disse:

-Você é realmente uma menina bem forte.

-Como assim?

Ela riu, mas não entendi o porquê.

Algumas horas depois eu estava sozinha no meu quarto, sentia o peito muito leve, e a cabeça tão clara como a luz do dia. Mei me fez jantar alguma coisa, eu não reclamei, comi em meu quarto e não encontrei ninguém da casa quando desci para lavar meu prato. Me sentia tranquila, como se só agora eu pudesse seguir em frente.

Compreendia agora. Fui uma idiota em não querer contar para ninguém o que havia acontecido. Achava que contando para um, contaria para todos. Uma burrice do caralho. Eu só precisava contar para uma pessoa. Uma pessoa que me ouvisse.

E eu não poderia ter escolhido alguém melhor que Tia Mei.

Mesmo sem ter precisado pedir, sabia que ela não contaria para ninguém, Mei era uma mulher que sabia guardar segredos e eu sou incapaz de imaginar quantos ela ainda carrega em suas costas. Tirei algumas horas para explorar o quarto. Na primeira noite que passei aqui, nem me interessei em abrir as portas dos armários ou remexer nas gavetas. Sentia que as coisas não eram minhas de verdade, mas agora, esse sentimento sumiu.

O guarda-roupa inteiro é cheio de peças simples que valem tanto para menino quanto para menina, engraçado como todas parecem servir em mim. A cômoda fui preenchida com peças intimas femininas no momento em que recebi o quarto, mas notei que a última gaveta estava emperrada quando Mei tentou abri-la.

Coloquei o cabelo atrás da orelha e me ajoelhei diante dela. Puxei com muita força para tentar abrir mas ela estava bem presa. Bufei com raiva.

Você não consegue abrir uma gaveta Cassandra?

-Ah, fala sério que até nisso...

Ouvi uma risada abafada atrás de mim e me virei tão depressa que meu pescoço estralou. Fiz uma careta de dor e coloquei a mão sobre a parte que estava quente. Logan estava parado na porta no quarto. Encostado ali com um braço cruzado e a outra mão sobre a boca, com um brilho travesso nos olhos.

-Não achei que você era do tipo que fala sozinha. – Ele diz sorrindo.

Não pude segurar minha língua, as vezes acho que esse monstro fala por mim, apertei os olhos e falei afiada como uma faca.

-Não estou falando sozinha, estou falando com os demônios dentro de mim.

Me arrependi assim que terminei de falar, mas não posso recolher as palavras, então apenas esperei a reação dele.

Logan apenas lançou seu sorriso inclinado e provocador, seus olhos pareceram brilhar, tão sombrios quanto minhas palavras. E eu gostei disso. Mas que merda, eu gostei disso. Meu sorriso se esticou em meu rosto como se fios invisíveis puxassem os cantos da minha boca para cima.

Você gosta de coisas sombrias não é Cassandra?

Logan olha de mim para a gaveta e pergunta:

-Estava xingando a gaveta? Acha que pressão psicológica funciona?

-Ela não quer abrir. - Dei de ombros e indiquei a gaveta com a cabeça – Quer tentar?

Ele veio e se sentou em frente a ela, cheguei um pouco para o lado e dei espaço pra ele, que fez o mesmo esforço para abrir mas sem sucesso. Ele suspirou é bateu com as mãos no joelhos.

-É, ta emperrada. - Sufoquei uma risada, notei que ele fez força para não rir também. – E se a gente puxar juntos?

-Acha que vai funcionar?

-Talvez...

Nós dois seguramos na gaveta e puxamos com muita força, Logan achou melhor não segurar pelo puxador, já que a força de nós dois poderia fazer a alça quebrar, então puxávamos pelas laterais. Enquanto tentávamos tirar me perguntei se ela estava vazia, o que seria um desperdício de trabalho em equipe, mas tentei afastar esse pensamento.

-Vamos porra... –Ouvi Logan murmurar, mas não tive tempo de ter nenhuma reação, a gaveta simplesmente soltou, como se alguma coisa a empurrasse do outro lado, então, nós dois despreparados pra isso fomos lançados para trás e caímos de costas no chão, com a gaveta nos nossos pés.

Dessa vez não sufoquei a risada. Eu e Logan rimos no chão como loucos. Como loucos que somos. Me levantei procurando o ar e puxei ele pelo braço para sentar também.

Olhei dentro da gaveta e prendi a respiração.

-Ela estava mal encaixada, alguma coisa estava prendendo ela no fundo... –Ouvi Logan falando mas o interrompi.

-Acho que sei o que foi... Ela está cheia de materiais de desenho.


Notas Finais


:3


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