História Precipício - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Naruto
Visualizações 10
Palavras 1.480
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia)

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Capítulo único


Entro na sala principal e a primeira coisa que noto é a bagunça. Uma bagunça tão caraterística que sinto meu corpo se aquecer minimamente. A segunda coisa é uma figura parcialmente coberta pela escuridão.

Naruto está deitado sobre uma considerável pilha de documentos.

 Aproximo-me com cautela, mesmo sabendo que o seu sono é deveras pesado. Depois de alguns segundos me acostumando a pouca luz, consigo ver suas feições mais claramente. Eu não deveria ficar mais surpreso, mas ainda fico atormentado ao ver quão inexpressivo seu rosto se tornou.

Antes, seu rosto apresentava varias marcas de expressão, que mostravam que as rugas eram consequência de seus sorrisos abertos. A boca também era cercada por finas linhas, até mesmo as bochechas pareciam ter uma tendência de formar um sorriso. Agora, ao olhar minuciosamente a procurar de alguma delas, sinto que ele colocou um daqueles produtos que deixa o rosto jovem, mas sem historias pra contar.

Meu coração afunda ainda mais, se é que é possível. De todos os erros que cometi, talvez esse tenha sido um dos maiores.

Eu vim aqui apenas com um proposito, mas olhar para sua expressão me faz querer desistir, mesmo que isso seja impossível. Sinto um sorriso pesaroso se formar em meu rosto, junto com um sabor um tanto amargo na boca.

 Estalo a língua, em um teste para vê se consigo, pelo menos, um pouco de coragem pra dizer algo, mas, infelizmente pra nós, vou ter que me contentar em apenas ter fé que você vai saber disso meio institivamente.

Vou à segunda gaveta do compartimento de arquivos e pego uma caixa branca, ao abrir constato algo que já sabia: Você não está tomando seus remédios como deveria. Na verdade, você não está tomando o remédio de maneira alguma.

A balanço um pouco, testando seu peso, sabendo que o simbolismo disso é muito maior que aparenta. Ironicamente, você deixa dezenas de fotos em cima dessa gaveta. Desde quando nós éramos um time até a última, que foi tirada depois de nossa batalha com os Otsutsuki. A maioria foi tirada em uma época em que éramos felizes. Mesmo que, em nossa ingenuidade juvenil, achássemos que não.

Passo a mão de leve pela foto que tiramos ao descobrir que formaríamos o time 7. Meu sorriso causaria espanto caso alguém me visse agora.

— Usuratonkatchi — Meu murmúrio sai mais alto do que eu gostaria, sobressaltando a mim mesmo.

Olho de soslaio pra vê se o acordei, mas ele não faz nenhum movimento. Solto o suspiro que estava segurando. Com cuidado, pego a foto e a aproximo de meu rosto, me permitindo recordar uma das épocas em que era mais feliz.

Como a vida pode ser mais cruel ainda com o passar dos anos?

Eu descobri o que era sofrimento em terna idade. Achei que não poderia ser pior, que nada poderia se comparar ao que senti ao perder toda minha família e achar que meu irmão fosse o causador de todo mal, mas eu, mais uma vez, me enganei.

Eu deveria ter sido mais compreensivo com Itachi ao descobrir suas reais motivações. Eu deveria ter entendido o porquê dele ter morrido com um sorriso suave no rosto, mas, outra vez, eu era jovem demais para saber que a pior dor é a da culpa.

Já perdi as contas de quantas vezes olhei para o céu, buscando ver beleza nas estrelas e na lua. Quantas vezes ousei tentar fazer poesia com a natureza, e encontrar uma justiça poética, que me fizesse aplacar um pouco meus pesadelos.

E olhar pra você já me faz mais mal do que bem.

Eu falhei com meus pais, meu irmão, com Naruto, com o time sete, com o time hebi e com mais outras tantas pessoas. Eu falhei com alguém ainda mais importante. Alguém que, nesta historia, sempre foi a mais inocente. Falhei com Sarada.

Falhei ao não conseguir deixar meu próprio mártir para cuidar dela. Falhei ao não ser um pai presente, ao não demonstrar que a amo. Falhei e ainda falharei mais, e isso é o que mais doí.

— Uma maçã podre sempre acaba contaminando as demais...

Torço para que Naruto acorde e me faça ver algum sentido no meio disso tudo, mas sei que ele está mais perdido do que eu, que já tive tempo para me acostumar com toda essa montanha russa de negatividade.

Com todo o cuidado que consigo, sento ao lado dele e passo a mão nos seus fios curtos. Eu falhei com Naruto de infinitas formas: Seja quando reneguei nossa amizade, seja quando reneguei nosso amor, mas minha pior falha foi não ter percebido.

Percebido que ele escondia tão bem seus anseios ao falar abertamente sobre o que estava sentindo, por chorar e lutar e nunca ter vergonha do que sentia. Eu não vi que ele, assim como eu, nunca iria ter as feridas cicatrizadas. Eu acreditei que ele conseguiria, que já estava conseguindo. Que sua cura era se tornar Hokage, ser reconhecido por todos. Acreditei que sua perseverança era combustível para suportar qualquer coisa... mas uma hora a bomba sempre explode.

E quando ele percebeu que não importava ter seu sonho realizado, ainda continuaria sentindo aquele vazio esmagador no peito, deve ter sentido o chão sumir. Eu o conheço bem demais e sei que ele minimizava toda a dor ao pensar que, ao se tornar Hokage, tudo iria melhorar.

Mas os pesadelos não passaram. O vazio ficou ainda maior. E sua mente já não tinha mais nada para deturpar a realidade.

Então veio a culpa: Culpa por não ser feliz mesmo tendo uma bela família. Culpa por não ter conseguido me convencer a largar tudo e aceitar nosso amor. Culpa por arrastar Hinata, as crianças e Sakura para essa maré de infelicidade.

E eu sei mais do que ninguém que a culpa é o sentimento mais devastador que alguém pode sentir. Ela corrói a alma de forma implacável, não deixando se deixando ser ignorada. Porque quando você a ignora, ela te faz ficar paranoico, sem o controle das próprias ações. Ela deixa seu coração queimando e a garganta entalada, cheia de coisas não ditas. Faz você acordar de pesadelos, faz você querer voltar no tempo a todo custo. Faz você se sentir inútil e te tira toda a essência de tudo àquilo que um dia você já foi.

Ela te tira os sentidos e não te dá um meio de voltar.

E quando eu percebo, estou segurando a capa que diz “sétimo hokage” com força. Querendo rasga-la. Querendo atirar pra longe tudo que o faz sofrer. A capa que ajudou a limitar um vício chamado esperança.

Certa vez escutei de uma pessoa próxima que Naruto seria mais feliz seguindo o caminho de Jiraya, se tornando um andarilho. Eu debochei da insanidade da pessoa e ridicularizei sua inteligência. Talvez se eu tivesse prestado atenção e escutado.

Talvez nós estivéssemos compartilhando um futon em uma caverna em uma noite chuvosa, falando aos sussurros, sentido nossos corpos deslizando enquanto você me vergonhasse com comentários impróprios. Talvez nós só tivéssemos que lidar com a fúria de alguns.

Mas, novamente, eu só estou querendo me desfazer dessa realidade. Acho que, no fim, o único modo de não termos sofrido e ficados juntos era nascendo em outra ocasião, sem tamanho fardo nas costas. Era ter morrido quando deveríamos. Era não ter prolongado tanto sofrimento.

Meu coração coleciona rachaduras demais para que eu sonhe com um amor calmo e pleno. Minhas batalhas diárias pra encontrar coisas boas pra continuar respirando consomem toda minha energia. E nem mesmo ele, nem Sarada podem consertar tamanho estrago.

Eu fui quebrado em partículas pequenas demais para ser mesmo que parcamente reconstruído. A única coisa que se pode fazer com vidros pequenos demais é jogar fora e substituir por outro.

Porque se eu sempre fui invejoso e rancoroso, Naruto sempre foi ingênuo. E essas características somadas a nossa trajetória, selaram o nosso destino.

Minhas lagrimas mancham os papéis sobre a mesa, minha garganta coça com vontade de gritar e, ainda sim, não consigo falar nada.

Eu nunca fui bom em expressar sentimentos. Minhas palavras sempre soaram vazias, mesmo em cartas. Como se houvesse alguma parede de vidro impedindo que eu fosse compreendido.

Se a vida fosse como em um livro, eu encontraria palavras no momento final. Eu deixaria tudo esclarecido e encontraria forças para continuar. Nós viveríamos felizes, nossos filhos entenderiam depois de um tempo, nossas esposas encontrariam novos amores. Nós sentaríamos ao redor de uma fogueira parar contar aos risos aos nossos netos.

Só que não a vida só nos faz colecionar pequenas rachaduras. E eu decidi que quero tomar a iniciativa enquanto ainda estou lucido, enquanto não sou consumido pela minha própria mente.

Deixo minha bandana jogada em um canto da sala e me inclino pra dar um ultimo beijo casto no grande amor da minha vida. 

Meu adeus tem um gosto salgado e de palavras não ditas.


Notas Finais


♣ Naruto e Sasuke sofrem de transtorno pós-traumático e depressão nesta one.


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