História Primavera de Rulim - Capítulo 14


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ansiedade, Depressão, Drama, Drogas, Escolar, Machismo, Romance, Trafico, Violencia, Yaoi
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Palavras 2.444
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 14 - Eu do futuro!


Enquanto voltava para casa, Elise finalmente recebeu as ligações e mensagens e notou que eu ainda existia e talvez (só talvez, porque qual deve ser o nível de desespero de alguém que liga, manda mensagem, deixa até caixa postal) precisasse de ajuda.

Combinamos rapidamente de nos encontrarmos e marcamos o local.

Parei para esperar ela na sorveteria. A mesma que dias atrás tínhamos ido e só ela comprou. Enquanto esperava percebi que a moça no caixa me olhou algumas vezes, aquele olhar que eu não sabia decifrar, ela podia estar me achando com cara de ladrão ou tentando chamar minha atenção na esperança que eu fosse pedir o número dela... como eu saberia? Evitei encarar de volta. Nunca fui bom em ler pessoas.

Só depois que pensei, talvez ela se lembrasse de mim, talvez ela estivesse me encarando porque nem quinze dias atrás eu e Elise estávamos ali, eu todo encolhido, recluso em mim mesmo, trancado no meu universo particular com o rosto arranhado e sem nenhuma ação. Hoje eu estava ali, com uma regata, cabelo bagunçado, short nike de corrida, exalando uma autoconfiança que eu sequer tinha.

Como eu mudei desde lá. Percebi enquanto esperava. Não fazia tanto tempo. Na verdade, fazia pouquíssimo tempo. Talvez por isso eu estivesse amedrontado, foi tudo tão rápido que eu não tive tempo para lidar.

Eu poderia tentar recapitular tudo que aconteceu, mas foi tanta coisa em tão pouco tempo que me dava dor de cabeça só de pensar. E eu não estou com ânimo para rever meus problemas passados, não quando o maior dos meus problemas surgiu na véspera.

 

Quando chegou, Elise usava uma blusa de mangas compridas arregaçadas até os cotovelos e uma calça legging cinza escura. Puxou os fones e sorriu para mim enquanto enrolava e guardava o auricular no bolso.

Não tínhamos o costume de nos cumprimentarmos com beijos na bochecha ou abraços, não que não fossemos íntimos para isso, mas acho que por sermos tão íntimos não sentíamos a necessidade de tal formalidade e trivialidade (e depois da tentativa de namoro acho que isso seria estranho).

— Desculpa o lance da festa. — Foi a primeira coisa que ela disse. — Foi mancada, mas queria só ajudar você com essa coisa toda, achei que era o melhor a fazer.

— Queria falar para esquecer, mas é justamente sobre isso que eu quero falar com você! — Respondi enquanto pegávamos nossos picolés, discutimos sobre os sabores, então fomos indo para o caixa. — Deu tudo errado, Elise.

— Nove reais. — A dona da sorveteria disse olhando para mim quando mostramos os picolés que escolhemos. Nesse momento percebi que ela não lembrava de mim, a indiferença foi tamanha que ela devia só estar com medo que eu roubasse a sorveteria mesmo.

— Separado. — Dissemos juntos. Nunca tivemos esse problema eu e Elise, tudo sempre foi separado.

— Quatro o seu e cinco o da moça. — A mulher informou e nós pagamos.

— Pra praça? — Perguntei quando saímos da sorveteria.

— Pode ser. — Elise soou indiferente, embora alegre.

Em silêncio atravessamos a rua, mordiscando os picolés. O meu era leite condensado e o de Elise era de chocolate coberto com uma casca de chocolate branco e nozes.

Quando ela mordeu, um pedaço equivalente a quase metade da casca de chocolate se separou do picolé e caiu no chão. Rimos e ela fez uma cara de tristeza enquanto atravessamos a rua para a praça no meio da rotatória onde tempos atrás eu estava com ela, meu rosto arranhado. Pensei se ela tinha algum hematoma escondido com maquiagem hoje, como saber? Ela nunca deu nenhum sinal, sempre foi tão forte.

Atrás de nós um cachorro de rua pegava o chocolate que caiu.

— Você ficou muito bravo comigo por causa do que fiz ontem? — Ela perguntou enquanto olhávamos ao redor, não tinha ninguém ali, já estava para escurecer.

— O quê? Me deixar sozinho com David o dia todo, depois ir à festa sem sequer ter me contado que foi convidada, então me ignorar durante a festa toda enquanto eu também não tinha contado e também te ignorei? Não... nós dois armamos um pro outro, só que você ganhou. Bem jogado, Elise! — Carreguei no sarcasmo.

— Você tá bem? — Ela me olhou enquanto chegávamos no banco. — Tá falando estranho.

— Eu só acho que não preciso mais ficar me desgastando pelas coisas que você faz! No final saiu tudo como você planeja, não? — Saiu até mais do jeito que você planejou do que você está imaginando. Eu queria ficar bravo com ela, mas alguma coisa me impedia de fazê-lo, nunca fico realmente bravo com Elise.

— Foi... eu acho! Não tinha planejado esse mau humor todo, mas tudo bem. — Elise virou para frente e mordeu mais um pedaço de seu picolé, sentávamos no mesmo banco da outra vez, mesmas posições, mas tanto havia mudado.

Eu estava sendo chato, mas era a única forma de não falar tudo. Elise merecia saber, mas estava sim bravo com ela, e por isso não queria contar, pura pirraça. Depois de um tempo em silêncio me convenci que era melhor contar algumas coisas, mesmo que fora de ordem.

— Quando cheguei em casa hoje cedo...

— Você dormiu na casa do David? — Droga! Ela me encarou com aquela voz afinada e alegre de quem vai começar um discurso e perguntas e ideias e teorias. — Lucas...

Senti as bochechas corando e virei a cara tentando esconder a verdade do meu próprio olhar. Sabia que Elise desvendaria tudo só de me encarar. Ela ao ver que eu virei, se calou.

— Deixa eu falar! — Rebati, bravo com ela. — Eles queriam que eu fosse à igreja, mas disse que não, a gente discutiu. Eu tentei dormir, mas não consegui, — Temi o sonho que voltou por completo como um clarão na tempestade para minha mente — então fui andar de skate com os meninos. Agora eu tenho que voltar para casa, e por isso te chamei. — Então respirei fundo, sabendo que essa era uma verdade dura, e Elise entenderia se soubesse toda a verdade. — Não quero voltar.

— Você já cabulou a missa outras vezes, Lucas. Qual o problema agora? — Por que você já está supondo que existe um problema? Não era como se Elise estivesse errada (ela nunca está), mas rápido assim?

— Eu to morrendo de sono, não dormimos, eu e David... — Vi um olhar muito sobrecarregado de pensamentos maliciosos no rosto de Elise. — Voltamos da festa de manhã, e eu ia dormir lá, passar o dia lá, e não ir à igreja de qualquer jeito...

— Mas acabou voltando para casa, e frustrado. Por isso foi andar de skate. E agora falar comigo... Lucas, o que aconteceu para você ter deixado a casa de David sem dormir se voltaram pela manhã? — Elise colocou a mão na minha coxa, me olhando, senti aquele olhar forte penetrando lentamente em mim. Não era como o olhar de David, que me desejava e causava pensamentos mistos e descontrolados, era um olhar distinto, único, um olhar amigo. O tipo de olhar ao qual eu simplesmente não tinha como negar a verdade, Elise não causava em mim confusão, Elise me dava confiança.

— Ele me beijou. — Falei muito baixo.

— Como? — O.k. Eu quase não pronunciei som algum, mas ela ouviu! Se não tivesse ouvido não teria aquele sorriso bobo na cara.

Continuei calado me negando a repetir, era aquela a primeira vez que falava sobre isso, ainda sobrecarregado demais, com medo de tornar real.

— Lucas, isso é ótimo...

— Não, não é! — Eu levantei do banco interrompendo, e Elise levantou os braços para me segurar, mas eu me desvencilhei dela e me distanciei uns passos, a voz elevada, já começava a escurecer e não tinha ninguém ali mesmo. — Sabe o que isso significa? A merda que eu fiz? Eu já até pensei em tomar os remédios de novo e acabar...

Elise me olhou fazendo que não com a cabeça.

— Você só fez o que queria fazer...

— Eu não fiz nada! Ele fez, eu nem queria. — Menti, se o sonho tinha provado alguma coisa era que eu queria sim. Devo contar do sonho? — David que me agarrou... o pior de tudo é que hoje é dia dos pais, e eu não vou sequer olhar pro meu. Como conseguiria? Olhar para ele e não falar que o filho dele é uma bicha!

— Para. — Ela soou séria como raramente se fazia crer. A felicidade na cara sumiu, o sorriso, tudo. Era outra Elise, uma Elise que não toleraria eu falando daquele jeito.

— Parar? Agora que já deu tudo errado seria muito fácil parar! — Eu comecei a chorar enquanto a voz falhava e Elise olhava ao redor, ainda sentada, mas percebia que ela estava prestes a fazer algo. — Não foi você quem virou essa... essa... — De novo, não podia falar, não podia tornar real, mais real do que já estava!

Elise se levantou e agarrou meus pulsos, me puxou contra o banco e de repente eu estava sentado ao lado dela, e os braços dela em volta dos meus ombros...

— Você é lindo, Lucas. Só precisa parar de se culpar pelo que é, e começar a se aceitar como é!

Chorei com a cabeça apoiada no ombro dela enquanto tentava me recompor em todos os níveis, fosse emocional, fosse físico, psíquico, ou qualquer outro. Eu estava um caco por completo.

— Você não entende. Eu quero os remédios de novo. — Eu empurrei Elise para olhar ela nos olhos, queria que ela visse nos meus olhos a verdade, sabia que ela veria, veria que eu não estava mentindo, era isso o que eu queria fazer. — Não é para me matar, eu quero porque eles me fazem parar, eles fazem isso... essa... dor, parar!

Pontuei a última palavra com uma dor tão forte que me calei enquanto as lágrimas escorriam quentes pelas minhas bochechas coradas, o vento gelado do começo da noite me fazendo começar a tremer.

— Você não precisa de nada disso, só precisa escolher a verdade. Para de viver essa mentira, para de usar as máscaras, e a dor vai passar, toda essa dor. — Elise segurava minhas mãos e sorria para mim.

Me lembrei do ponto em que os calmantes e os antidepressivos já não faziam mais efeito. Não quero voltar a isso. Não queria voltar àquela dependência para evitar dor, e no final sentir o vazio de novo, o poço sem fundo na escuridão.

— Eu queria ser normal. — Disse para ela, levantando a cabeça e enxugando as lágrimas com uma das mãos. — Como uma pessoa comum. Gostar de coisas normais, e não ser doente e fraco assim, eu não quero ser assim, Elise, não quero mais ser assim.

Ela anuiu com a cabeça, mas não falou nada, não sabia se pela primeira vez Elise estava sem palavras, ou se ela havia escolhido que o silêncio seria melhor, não sabia dizer.

Então ela se aproximou e cochichou na minha orelha;

— Eu discordo. Você é ótimo sendo estranho assim! — Ela sorriu recuando e eu ri também, mas sem muita vontade.

— Eu sou fraco e patético. Dependo de tudo...

— Só você pode mudar isso, Lucas. Só você pode parar de depender dos outros, dos remédios, de mim, dos seus pais... só você! E você consegue. Sabe que os remédios não te ajudam, você vai se entupir e ficar alto por algumas horas, fingir que está tudo bem, e depois quando a dor voltar? Mais remédios? Me promete que não vai usar diazepam.

Eu abaixei a cabeça sorrindo de lado.

— Sabe que um dos efeitos possíveis é perda de memória recente? Se eu tomar muito, talvez esqueça disso...

— Eu vou te ligar hoje à noite. Se você não me atender vou assumir que você tá dopado. Então vou ligar pra sua mãe! — Elise disse séria levantando minha cabeça pelo meu queixo. — To falando sério, Lucas.

— Desculpa. — Eu retorqui respirando fundo. — Não vou usar o valium, relaxa.

— Nem os outros lá.

— Pasalix, iperisan, rivotril, fluoxetina, citalopram...

— Nenhum! — Elise me cortou, ainda séria, eu poderia seguir por um bom tempo citando nomes de remédios.

Fiz que sim para ela.

E então silêncio. Não tínhamos mais o que falar um com o outro, ou na verdade tinha, mas eu estava agora tão quebrado que só não queria me esforçar mais.

— Eu vi isso em um filme, talvez te ajude. — Ela então falou. — Escreve uma carta para você mesmo, nessa carta seja brutalmente honesto consigo mesmo. Diga tudo que acha que precisa dizer, quem é, o que é, o que quer ser e o que não quer ser, coloque perguntas especificas e respostas para elas.

— Para que...

— Você vai escrever a carta, vai guardar ela por um, dois, três anos! E então quando tiver se refeito, quando tiver se aceito, vai abrir a carta e ler como você era antes!

— Para que isso? — Disse de novo sem entender o ponto daquela carta.

— Porque não vai adiantar agora eu falar como você está errado, Lucas. Você não vai entender, não agora, mas dia após dia você vai mudar, eu vou te ajudar, todos os dias, como fiz ontem. — Ela sorriu um breve sorriso. — Você vai ficar bravo comigo, mas é para isso que eu me candidatei ao cargo de melhor amiga. Você vai me xingar muito ainda, e eu não me importo. No final você vai mudar, vai ver. Todos mudamos! E aí você vai abrir essa carta e ver o quão idiota você está sendo hoje! E então vai entender, lá na frente, tudo isso que eu to te falando agora. Você é lindo Lucas Jorge Rulim!

— Obrigado. — Limpei as lágrimas de novo, olhando para Elise que sorria para mim em retorno.

— Quer que eu vá com você até sua casa? Falo que vamos pesquisar alguma coisa que devido a festa não fizemos...

— Acho que não precisa. — Respondi para ela, nossas mãos dadas, eu sentia conforto novamente. Foi o curto momento naquele dia em que a dor passou. Mesmo andando de skate com os meninos eu estava só criando camadas acima da dor, fingindo que ela não existia, ignorando o monstro do meu lado. Mas só agora, com Elise, que a dor realmente havia partido.

Embora a proposta dela ir comigo fosse tentadora, eu devia enfrentar aquilo sozinho. Elise estava certa. Eu tinha que mudar. Eu estava certo. Sou fraco. E ter alguém ao meu lado para segurar o impacto dos tombos por mim não vai me ajudar em nada. Eu devia enfrentar fosse o que fosse sozinho, depois voltaria para ela, contaria tudo, e talvez chorarei ou talvez rirei...

Só o tempo poderá dizer.

— Tem certeza? — Ela rebateu enquanto nos levantávamos, estava escurecendo depressa, e era bom ela ir para casa, as ruas em São Paulo são mais perigosas que aparentam, ainda mais no subúrbio.

— Tenho sim. Além do que, tenho uma carta para escrever!


Notas Finais


Fiquem espertos com essa carta!!!


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