História Primavera de Rulim - Capítulo 15


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ansiedade, Depressão, Drama, Drogas, Escolar, Machismo, Romance, Trafico, Violencia, Yaoi
Visualizações 3
Palavras 1.538
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Esse capítulo é tipo um tiro!!! boa leitura :)

Capítulo 15 - Meus Demônios!


Eu só terminei de escrever aquela carta quase três dias após ter começado. Fiz dezenas de versões diferentes até achar a perfeita onde eu consegui falar tudo o que queria em poucas palavras, onde eu conseguia me avisar, colocar metas e planejar o futuro que eu deveria fazer o possível para seguir!

Então selei e guardei.

Cada dia que passava, porém, se mostrava o contrário às minhas predições e eu talvez só tenha desejado que no fundo eu estivesse errado e tudo não passasse de um engano, que eu estivesse doente, que talvez fosse coisa do tempo, que em um ou dois meses eu voltasse a ser normal, mas a cada dia que passava aquela carta se tornava uma lembrança de que eu estava errado. A cada dia que passava eu me perdia mais e mais naquilo... nessa... nisso.

A verdade é que eu sempre planejei minha vida. Eu sei que faculdade quero fazer, sei que não quero servir o exército, sei que partido político prefiro, sei a qual religião eu pertenço, sei o que gosto e o que não gosto... sei?

Eu deveria provavelmente voltar a prestar atenção na realidade, mas a realidade perdeu a graça porque eu ando sabotando a mesma para não ter que vivenciar ela. Eu deveria estar sendo fiel a mim mesmo, mas não consigo fazer isso sem me ferir... não fisicamente, antes fosse. As feridas agora são internas, são na minha própria consciência.

Eu queria pôr um basta, fingir que nada aconteceu, seria mais fácil, na verdade eu estaria até mesmo atendendo minhas predições na carta, mas como disse: A cada dia que passa menos eu tento manter quem eu era. Cada dia que passa eu mudo mais, e essa mudança incomoda, não vou mentir (não para você pelo menos), mas eu preciso conciliar isso com a verdade e está cada vez mais difícil usar a máscara.

Tento fingir não ter mudado em casa com meus pais. Tento ignorar David na escola para não termos que conversar sobre o que aconteceu. Tento fingir que está tudo bem e eu estou me aceitando como sou, para Elise. Tento continuar agindo normalmente com Pedro, Gui e Dido, ou seja, agindo de forma falsa, porque isso não é mais quem eu sou. Eu mudei, mas não posso ser aquilo que me tornei sem largar as máscaras, mas já são tantas que sinto-as escorregando pelos meus dedos, caindo lentamente, inevitavelmente.

E estando tão ocupado fingindo ser tantas coisas distintas eu acabei esquecendo quem eu mesmo sou e o que estou me tornando... ou me revelando. Tão ocupado fingindo eu dei espaço para isso dentro de mim crescer descontroladamente.

 

A realidade é algo terrível no final.

A realidade dói tanto. Eu preferiria falar com vocês do que realmente falar. Mas estou quieto a muito tempo, preciso falar, não importa o quanto doa. Preciso parar de mentir!

 

— Jorge? — Padre Silviano questionou meu silêncio duradouro.

Era 17 de agosto, uma semana depois da festa, eu tinha preferido não dizer ‘não’ para meu pai de novo. Agora no confessionário eu preferiria ter negado, preferiria ter causado mais uma briga na família do que estar ali.

No confessionário as máscaras são inúteis.

Senti o aperto no coração antes de responder, esse sentimento de impotência crescente gritando dentro de mim parecia querer me fazer falar, mas não podia!

— Eu não vim na semana passada por causa de uma festa, padre. — Expliquei, me lembrava dele ter perguntado o motivo de minha ausência. — Eu bebi muito e não sei se cheguei a fumar alguma coisa, mas minhas roupas fediam. Isso foi na véspera, então, como não estava em condições de voltar para casa, fiquei na casa de David, o estrangeiro.

— Avisei-te do perigo, filho. O caminho que começou a trilhar é perigoso, mais e mais danações apenas. Me conte o que fez que Deus lhe perdoará. — Ele disse, como sempre com a voz suave e arrastada, calma e encorajadora.

Eu fiz tanta coisa, umas que poderia dizer, outras que nunca falaria sequer para um espelho.

Padre Silviano sempre soube o que falar (e mais importante; como falar), mas dessa vez nada do que ele falasse parecia servir, nada parecia certo e mesmo assim eu não parecia certo de mim mesmo.

Talvez nada servisse porque eu mesmo não estava falando a verdade, sendo assim ele não tinha como realmente ajudar. Tudo aquilo dependia unicamente de sermos reais um com o outro. E eu não estava sendo real com ele ou comigo mesmo.

— Padre, eu me sinto culpado pelas coisas que eu fiz, eu... não tenho orgulho, eu... — Engasguei. Não podia vê-lo, a grade que nos separava permitia apenas que ouvíssemos um ao outro, então não vi problema em chorar, desde que contivesse o som tudo ficaria bem.

Eu estava na casa de Deus falando com um homem de Deus, e meu único dever era ser verdadeiro, mas não podia fazê-lo sem me tornar real. Não posso tornar real. Sentia que bastava uma vez, falar aquilo uma vez, e então tudo estaria perdido, então não poderia voltar ao ponto zero.

— Jorge? — Padre Silviano perguntou por mim, não o respondi, ainda pingando a própria essência dos sentimentos sobre minhas pernas. Lágrimas quentes e salgadas de culpa e dor pingavam em completo silêncio sobre minhas coxas e eu respirava lentamente para evitar soluços. — Se quiser podemos deixar isso para a semana que vem...

— Não.

Pronunciei em um sussurro apressado e amedrontado, mas foi o bastante para revelar um soluço e em seguida as lágrimas seguidas de suspiros e fungadas.

O Padre esperou um momento enquanto eu soluçava e chorava. Não queria falar sobre aquilo por medo, mas sentia que devia, eu sentia que precisava. Estava explodindo por dentro, tinha que falar!

— Filho, não existe nesse mundo pecado que O bom Deus não possa perdoar, mas precisa falar para Ele, precisa pedir perdão. Não posso te ajudar sem saber o que te deixou com tanta culpa, e eu vejo que está se culpando, isso é bom porque sabe que o que fez é errado, já está no caminho certo para a redenção. Permita-me ajudar!

Ali eu estava protegido pelo sigilo completo, poderia dizer qualquer coisa e nunca minha mãe ou pai saberiam, mas eu não consigo acreditar nessa integridade do homem, nem mesmo no homem de Deus. Não consigo confiar no Padre como confio em Elise. Não posso confiar no homem que trabalha com meu pai todo dia.

— Perdão, Padre, mas não posso... consigo, falar. Eu pequei, enormemente, como sei que não deveria, e eu parei, quando vi o que acontecia eu parei.

— Não existe pecado grande ou pequeno, Jorge, apenas pecado. Seja o que for que tiver feito aos olhos de Deus, será digno de perdão, só precisa falar com o próprio Senhor nosso Deus, Ele te escutará, filho, e acalmará seu coração aflito, desde que seja honesto.

Não tem funcionado muito bem nos últimos dias. Pensei em ansiedade enquanto olhava para a cortina do confessionário, querendo sair dali, mas não sabia se muita gente estava do lado de fora, se me veriam de rosto vermelho e úmido, choroso, tremendo, soluçando, sem força sequer para falar.

— Eu não quero ir pro inferno, Padre. — Disse batendo o queixo, sabendo que essa era minha realidade, não existia outra explicação ou escolha, não existia perdão sem arrependimento.

— Eu vejo que está se culpando, e vejo sua dor, — ele repetiu — mesmo sem saber o motivo, você só precisa se arrepender do pecado, peça perdão, peça para Deus por aceitação e redenção, e Ele lhe trará paz. É um bom rapaz, Jorge, o inferno não é feito para rapazes como você!

Eu tinha parado de ouvi-lo na parte de se arrepender. Não podia falar que havia beijado um garoto, não tinha coragem de dizer aquilo em voz alta, de tornar aquilo real, ainda mais o sonho, e os desejos que todo dia retornavam cada vez mais fortes. Já me sentia sujo e culpado o bastante apenas pensando nas mentiras que vinha espalhando dia após dia para manter a imagem falsa de alguém que já não sou.

Cada dia mais e mais pecados se somam, todo dia eu afundo mais um pouco, me distancio do que é certo, cada dia eu pioro mais e mais, e mesmo querendo mudar, não posso fazê-lo.

Talvez o padre estivesse certo, talvez eu só precisasse me arrepender e pedir perdão, e então eu estaria salvo, livre da danação, do fogo, da dor, mas uma coisa eu sabia: A mesma coisa que me distanciava a cada dia dos objetivos daquela carta é a que me impede de pedir perdão.

Isso eu tinha certeza. Padre Silviano está errado. Eu vou para o inferno sim, e isso é algo que sei: Não terei como escapar!

— Esse é o problema, padre. — Enxugando as lágrimas me endireitei, precisava assumir postura forte, preciso ser mais forte do que nunca para falar aquilo porque sabia exatamente no que acarretaria. Minha danação eterna. Mas a verdade é que não poderia mentir para Deus ou para o Padre. Eles queriam meu arrependimento e eu queria também, mas essa não era a realidade, não posso contar a verdade, mas posso falar o porquê não conto a verdade. Hora de tornar real. — Eu não me arrependo do que fiz.



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