História Primavera de Rulim - Capítulo 18


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ansiedade, Depressão, Drama, Drogas, Escolar, Machismo, Romance, Trafico, Violencia, Yaoi
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Palavras 2.768
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 18 - Isso precisa acabar!


Tinha passado só um dia, era quinta-feira, e David não foi à escola. Durante a aula Elise e eu conversamos bastante, levei até algumas broncas dos professores por isso, mas nada sério. Quase chorei algumas vezes porque ela insistia nos assuntos que eu queria fingir que não tinham acontecidos

Elise tentou desfazer minha raiva, mas como poderia? David claramente tinha feito a escolha dele, e eu deveria respeitar e pronto. Elise, porém, levantou dezenas de pontos a favor dele e eu a questionei sobre lealdade e amizade, mas tudo que isso causou foi ela ficar brava comigo em resposta disse;

— Eu sou sua única amiga de verdade, com quem você pode falar tudo e você acha mesmo que eu to do lado do Dav... você sinceramente acha que tem um lado parar se estar? Cresce, Lucas!

Ora, com razão ela ficou brava. Elise não fez nada a não ser me ajudar e eu ataquei ela em troca dessa ajuda acusando dela ter escolhido David a mim, mas claro, tudo isso não passou de discussões bestas, nenhuma mágoa real, ou ao menos eu esperava que não tivesse criado nenhuma ferida na amizade.

No intervalo ela me convenceu a ir atrás de Kyle, talvez ele soubesse do paradeiro de David, e eu poderia usar como desculpa a questão do trabalho para extrair informação.

Então o fiz, no corredor primeiro esbarrei com Pedro que me chamou para acompanha-lo na saída até uma loja, como queria falar com Kyle só concordei com ele várias vezes e voltei a andar.

Eu odiava ir ao terceiro ano, e sequer sabia o que estava realmente fazendo lá, David podia faltar, ele podia não estar bem, pego gripe, estar bravo comigo, estar se culpando... eu mesmo faltava várias vezes sem motivo real, no fim das contas Kyle aparentemente não tinha falado com David na véspera ou no dia anterior a véspera (inclusive, Kyle é sociável demais, ocupou todo meu intervalo com conversa fiada), por fim ele disse que poderia perguntar para Miles, mas eu disse que faria isso eu mesmo, e voltei para sala sem sequer pensar em ir falar com Miles, se o fizesse, Miles iria falar para David que eu estava procurando notícias sobre ele. E só então que me toquei que Kyle poderia falar para David!

Então as últimas aulas chegaram e eu tentei falar com Elise de novo, até mesmo para me desculpar por atacar ela de forma tão despretensiosa sem levar em consideração tudo o que ela tinha feito por mim, mas ela simplesmente disse que não queria conversar agora, estava com dor de cabeça. Achei estranho, cogitei que ela estivesse sim ressentida com a discussão de mais cedo.

Então na saída a professora liberou-nos menos de um minuto antes e Elise foi a primeira a deixar a sala, apressada.

— Guarda minhas coisas. — Disse passando por Pedro e dando uma batidinha no ombro dele e corri atrás dela. Assim que atravessei a porta vi os olhares de todos se virando para mim e então sumir, protegido pela parede — Elise... Elise. — Paramos na base da escada. O sinal tocou, eu a segurava pelo ombro. — Está tudo bem? — Eu perguntei ciente do que ela passava, senti que algo não estava nada bem.

— Vou ir descobrir agora. Obrigado pela preocupação. — Ela se despediu de mim pulando contra meus ombros e me abraçando, a mochila balançou e os cabelos vieram contra meu rosto, mas eu apertei ela de volta.

— Qualquer coisa... chama! — Disse baixinho na orelha dela, então larguei-a e ela fez que sim, aquele rosto fingindo integridade, mas eu podia ver nos olhos a sensibilidade e medo que toda a máscara escondia tão bem todo dia.

Alguma coisa tinha acontecido, e eu sabia também exatamente o que tinha acontecido. Deveria ter ido com ela, me arrependi no momento em que me virei de volta para o corredor de ter deixado que ela fosse sozinha.

Então quando cheguei na porta Pedro saia junto de Guilherme, me passou minha mochila.

— Pegou tudo?

— Peguei. — Ele respondeu piscando para mim, não entendi a piscadela, mas Pedro é todo estranho então ignorei. — Tá bem, cara?

Eu desviei o olhar enquanto jogava a mochila nas costas e começávamos a andar.

— Eu to. — Querida dizer o mesmo de Elise, embora soubesse não ser ela o problema. — Só preocupado.

— Com a Elise? Ela tava estranha, né? Eu vi que vocês brigaram no começo da aula...

— Não... não é isso. — Eu ri condescendente tentando fingir não ser aquilo. — É... o pessoal do terceiro, eles ficam me olhando de canto, cochichando. Como se eu tivesse feito alguma coisa. — Falava para Pedro enquanto andávamos para fora da escola.

— Cara, acho que isso é nóia sua. Tipo, o Dido já te falou que não tem nada pegando pro seu lado, não? — O bom de Pedro era a facilidade em mudar de assunto sem ele se importar.

— A, você não entende... eu to me sentindo intimidado por eles. Hoje quando fui falar com o Kyle, o Thomas ficou me olhando o tempo todo. É como se ele quisesse que eu visse que ele tá me olhando, sabe? — Menti, nem vi se Thomas estava na sala.

— Sei. Tipo aquelas paranoias de soldado veterano do Vietnam que vê sacola de lixo na rua e acha que é bomba. — Pedro riu e eu soquei ele nas costelas sem muita força.

— Ah, cuzão. — Ele virou e me chutou por trás da canela quase me derrubando de joelho, mas me segurou pelos ombros e por ser notavelmente mais forte aguentou meu peso, se não tivesse me puxado para cima de novo ambos teríamos caídos.

— É longe isso daí? — Perguntei enquanto caminhávamos.

A fonte do notebook dele tinha queimado e eu me ofereci para acompanha-lo até a loja de eletrônicos, era rumo a minha casa então voltaria andando mesmo, ainda conversaria um pouco com um amigo, mas no fim das contas já tinha saído dois quarteirões do caminho original para minha casa e eu começava a pensar que ele só estava me enrolando.

— Não, é logo aqui na esquina... sem ser essa a próxima... — Ele me olhou com o rosto sorridente de uma criança, a língua deslizando pelos dentes então a risadinha e a voz alegre. — Da próxima, na próxima desta.

— Cara, que mancada! — Eu olhei para cima enquanto o sol parecia querer nos incinerar e rimos, mas, de novo, só vi alguém que realmente despertava alguma coisa em mim. — Eu não posso andar assim sem todo um preparo antes, já pensou eu desidrato...

— Sem comer feito um cavalo, você quer dizer. — Pedro riu de novo, então deu um toque no meu ombro. — E o trabalho de vocês, tá indo bem?

— Está... acho. A gente não fez muita coisa ainda. — Lembrei de David e fiz uma careta de desaprovação.

— É, vocês estão meio brigados né?

— Que? — Olhei para Pedro sem saber como ele sabia daquelas coisas.

— A cara, você e a Elise brigaram por causa da festa um tempo atrás, mas aí vocês brigaram com o David por algum outro motivo e ai você brigou com a Elise hoje, cara, que treta. Vai atrasar o lado de vocês... nosso trabalho já tá quase feito.

Eu aproveitei que ele mudou de assunto para o trabalho dele e entrei na onda embora só então tivesse notado que havia me esquecido completamente da Elise.

É incrível quando o problema não é exclusivamente nosso a gente se esquece fácil, ainda mais quando você anda com alguém como o Pedro do seu lado, me entende?

— Você quer dizer, o trabalho de Gui e Luiz tá quase pronto. Você não faz nada. — Disse em um tom sério, mas ele sabia que era brincadeira... ou não, era uma crítica velada. Pedro era muito vagabundo quando se tratava de escola.

— Detalhes, cara, detalhes. E eu vou fazer a capa, firmeza! — Ele afirmou, orgulhoso como se aquilo fosse, de fato, um grande feito.

Continuamos até a loja de eletrônicos, mas quando chegamos na frente desta, meu celular tocou, enfiei a mão no bolso da calça enquanto ele abria a porta.

— Vai entrar? — Perguntou me olhando.

— É a Elise, vai indo, já entro. — Disse para ele, olhei para o número, era o da casa dela. Pedro deu de ombros e foi para dentro da loja. — Oi, tudo bem...

— Lucas... — A voz dela vacilou, percebi a respiração afetada. — É o meu pai, ele... Lucas, minha mãe...

— Ele tá ai?

— Não...

— Eu to indo, não sai daí!

— Liguei pra ambulância, corre! — Ouvi o choro dela, então desligou.

Puxei a porta da loja e enfiei a cabeça para dentro.

— Pedro, eu preciso ir. — Chamei ele sem sequer entra.

— Aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou se virando com a fonte na mão, parecia assustado com meu tom de voz.

Eu pareço assim tão desesperado?

— Vou ir descobrir. — Soltei a porta e deixei Pedro lá.

Me virei e sai correndo para o ponto de ônibus enquanto buscava meu bilhete único no fundo da mochila. Eu deveria ter ido com Elise.

 

Quando cheguei no portão da casa de Elise, uma vizinha estava lá e o portão tinha uma marca de mão borrada feita com sangue.

— Quem é você...

Ignorei a mulher desinteressado do que ela poderia fazer, só fui entrando.

No que tocava a todos os assuntos eu sempre fui quieto e apático, mas alguma coisa não me deixa ficar parado quanto se refere a injustiças ou abusos... seja o tipo que for. Atribui isso à igreja e toda aquela coisa de não se cale, não deixe o diabo operar obras na vida dos outros... claro, não vejo isso como obra do diabo em si, mas de um homem cruel e como aprendi, se posso ajudar eu devo ajudar! Não vou me calar se posso fazer a diferença.

— Elise? — Chamei empurrando as cortinas da porta e Elise veio da sala, suas mãos tremiam. — Por Deus, você está bem?

Agarrei ela pelos ombros e abracei-a em seguida.

— Sua mãe... — Voltei a falar.

— Elise, filha. — A vizinha na porta havia me seguido e interrompeu-me com uma voz nervosa.

— Está tudo bem, Maria. É meu amigo, ele... sabe.

Maria fez que sim, se virou e saiu contrariada.

— Você tá tremendo, sua mãe, Elise, o que aconteceu? — Ela apontou com os olhos para cima da mesa e eu vi o dente ali em cima, tinha cacos de vidro de um vaso varridos para o lado, ouvi o som da ambulância chegando. — Cadê ele?

Comecei a sentir raiva. Podia, um dia atrás, ter socado David, agora minha raiva era bem maior e eu não me controlaria se visse o pai de Elise... claro que no fim eu apanharia, mas ia bater também.

Toda essa raiva crescente, porém, começava a me preocupar de verdade.

— Fugiu, ele sempre sai para pensar depois disso, eu... Lucas... — Abracei ela de novo, sem medo ou ressentimentos ou dúvidas, só abracei Elise. Mas então Maria voltou com os paramédicos.

— Vai. — Disse para ela liberando-a para cuidar da mãe.

— Por aqui, ela tá aqui.

 

Eu deixei que os médicos levassem a mãe de Elise na maca à ambulância e no final só podia ir uma pessoa com a vítima e está, obviamente, seria Elise, mas Maria disse que me dava carona, relutante por não ter simpatizado nada com a mulher, entrei no carro da vizinha e fomos para o hospital enquanto Elise foi com a mãe na frente.

Discutimos sobre aquilo, a vizinha era uma mulher de aproximadamente cinquenta anos que odiava o pai de Elise, podia ver em como ela falava dele, era puro nojo e asco, mas nada fazia a respeito.

— Por que você não denuncia, chama a polícia quando as discussões começarem, eles precisam de um flagrante para agirem e você vê e não faz nada...

— Porque minha mãe me deu educação. — Ela pontuou o dedo para mim segurando o volante com apenas uma mão, como se de alguma forma eu estivesse errado ali. — Não se mete a colher em briga de marido e mulher.

— Ela tá sangrando, sem um dente e você...

— Menino, você é muito novo ainda, não entende essas coisas. Quando tiver sua mulher vai ver que as coisas não são simples assim! — Acabou a discussão aí.

— Não vou bater na minha mulher! — Disse, então ouvi as palavras lentamente no ar. Quando eu tiver minha mulher.

Aquela frase me soou Tão distante. Subitamente realizei que eu já sequer pretendia ter uma mulher e só disse aquilo por impulso.

— Isso é crime, não é uma discussão.

— Claramente você não foi bem educado então. — A mulher respondeu com desdém.

Nossa discussão acabou por ai e fui o resto do percurso em silêncio olhando para frente sem entender como uma mulher podia simplesmente compactuar com a agressão só porque “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

 

Quando no hospital só de relance eu vi a mãe de Elise, e mesmo assim foi uma visão triste e dolorosa, consegui entender porque minha amiga tremia e chorava, porque ela estava aterrorizada. Sua mãe tinha um olho tão inchado que estava fechado, sangue escorria pela boca e pela orelha, e seus braços estavam cheio de marcas, camisa rasgada e sangue respingado pela roupa. Era vergonhoso para as duas, humilhante até. Uma situação que só tinha um responsável, o que não estava sendo responsabilizado.

Quando chegamos no hospital ainda tive que esperar para que Elise fosse liberada, ela foi questionada pelos médicos, eu queria estar lá com ela, mas eles não me deixaram avançar, ou Maria.

Quando Elise saiu ela nos avisou que já tinha falado sobre não ligar para a polícia ou prestar queixas, Maria disse que entendia, era um direito dela e da mãe. Pareceu extremamente sereno da parte de Maria dizer aquilo, era como se ela estivesse apenas tentando fazer Elise se sentir melhor.

Não, não é hora de se sentir melhor. Era aquele o momento exato para Elise realizar algo que ainda não tinha notado.

— Você tem que ligar...

— Lucas...

— Não, Elise. — Eu questionei por cima da voz dela, enquanto ela me encarava cabisbaixa, Maria, porém, me lançava um olhar de quem me condena fortemente. — Não é simples assim e eu não vou aceitar você continuar nessa vida. Olha para sua mãe...

— EU OLHEI! — Ela berrou de volta para mim enquanto uma enfermeira e alguns médicos nos olharam de canto como quem quer xeretar discussão alheia. — Eu to olhando há anos, não me fale sobre...

— E vai esperar quanto anos mais? — Eu questionei. — Quanto anos vai só olhar?

— Vem, Elise. Esse menino é muito...

— A, Maria, faça um favor e cale a boca! — Eu rebati pegando Elise pelo braço quando Maria pegou Elise pelo outro, então percebi o quão rude fui. — Desculpa. — Completei no final. Por que mandei Maria calar a boca? Aquilo foi de uma grosseria tremenda, mas aquela mulher não vai ajudar Elise em nada com suas palavras mansas e discurso de quem compactua por não ser consigo mesma. — Olha, você e sua mãe não podem viver na sombra de um agressor. Não dá mais, não tá vendo isso? Você está esperando sua mãe tomar essa escolha difícil porque acha que é dever dela, mas e quando você vai tomar sua decisão, Elise? Até quando vai esperar pelo que sabe que não vem, eu te achava tão forte, não me decepcione assim...

— Já chega, mocinho...

— Não me faz ser grosso de novo, tá? — Disse sério para Maria, então encarei Elise de novo. — Elise, presta atenção. Você passou anos em silêncio apanhando pela sua mãe e vendo ela apanhar, e isso tá destruindo as duas. Você vai esperar para enterrar sua mãe ou vai parar com isso enquanto pode? É só denunciar. Eles não podem fazer nada sem uma denúncia ou um flagrante, e suas vizinhas parecem compactuar com agressão. — Disse encarando Maria com repugnância. Vi que seguranças vinham devido meu escândalo ali no meio do hospital. — Você precisa fazer isso ainda em tempo, Elise. Ou vai ser tarde demais para uma das duas, você ou sua mãe. Não é escolha dela mais. É sua. Então escolhe!

Ela não respondeu nada, só me encarou em retorno. Eu fiz o que um amigo deveria fazer, eu disse o que devia, não o que ela queria ouvir. Pode ter doido, pode ter sido difícil, mas eu fiz. Soltei ela e Maria levou Elise para o corredor afora dizendo para ela não me escutar, que eu era um grosso sem educação, que o pai dela só estava com problemas. Os seguranças pararam do meu lado.

— Eu vou sair. — Disse de malgrado a eles. Elise estava por si só agora, era hora dela ser tão forte como sempre foi e eu de certa forma sabia que ela seria!



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