História Primavera de Rulim - Capítulo 19


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ansiedade, Depressão, Drama, Drogas, Escolar, Machismo, Romance, Trafico, Violencia, Yaoi
Exibições 2
Palavras 3.806
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Romance e Novela, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Último capítulo da Parte 1 da história!!!
Boa leitura :)

Capítulo 19 - Você fez sua escolha!


Depois do que aconteceu com a mãe de Elise eu fiquei preocupado demais com ela, mas ela não queria mais falar comigo, e com razão, eu acho que passei dos limites, mas não faria diferente caso pudesse fazer de novo. Ela precisava se tocar, precisava acordar para a própria realidade do mesmo jeito que ela alegava que eu preciso acordar para a minha realidade.

A diferença talvez seja que minha realidade não oferece tantos riscos... ao menos ainda não.

Não consegui dormir de quinta-feira para sexta, preocupado que o pai dela voltasse para casa e na ausência de sua mãe acabasse batendo nela. Isso realmente me preocupou, mas sequer enviei alguma mensagem para ela. Então no sábado conversamos por Skype pela manhã, ela me ligou no celular até que eu acordasse e atendesse. Elise estava preocupada e com medo. Ela e o pai iriam buscar a mãe no hospital. Eu queria ir com ela, mas como? Brigamos de novo porque eu insisti que ela fizesse a denúncia. Como poderia entrar no carro com o agressor e ir buscar a vítima... era uma tortura pior que a agressão.

Então o sábado passou tedioso para mim, ao anoitecer enviei uma mensagem para Elise perguntando se tudo estava bem, ela recebeu e respondeu que sim com uma carinha sorridente, apenas! Acho que ainda brava comigo.

Agora ela entendia como eu me sentia quando era o inverso, quando era eu bravo com ela!

No domingo fui à igreja com meus pais, não falei muito com eles no fim de semana todo, na verdade falávamos cada vez menos um com os outros e isso só se tornava mais e mais incomodo. Os muros estavam tão altos entre cada um de nós que conversar já se tornava um desafio tremendo. Não existe mais nada em comum entre mãe, pai e filho.

Foi por isso que cheguei à conclusão que no fim dessa missa era sobre isso que eu deveria me confessar com o padre. Era hora de mudar um pouco o jogo que minha mãe e o padre tinham montado contra mim.

— Meus pais não conversam mais um com o outro, minha mãe ignora meu pai a semana toda e ele não reclama mais, Padre. A gente se ignora e tem funcionado bem, ninguém briga, mas ninguém conversa. Ele deixa o dinheiro para comprar as coisas em cima do micro-ondas quando chega, minha mãe deixa as contas em cima da mesa, o sistema todo para que um não precise debater com o outro. Chega o fim de semana eles maquiam um sorriso e me chamam para cá, mas eu não quero mais vir. — Havia confessado ao padre. — Eu não falo com a minha mãe mais que com meu pai, é só para pedir dinheiro, mas sinto que já nem é o bastante, não que eu queira mais, é que eu não quero mais pedir, só que preciso. Os dois ainda dormem na mesma cama, mas um virado pra cada lado, quando meu pai está na sala vendo TV, minha mãe está no quarto e eu no meu, nas refeições, jantamos separados, eu primeiro, depois meu pai pega o prato dele e vai pra sala enquanto minha mãe come na cozinha. Vez ou outra eu vejo ela chorando porque não quer que o casamento acabe, mas alguma coisa acabou. A gente levantou tantos muros que ninguém mais consegue falar por cima dos blocos, a gente não consegue mais manter tudo junto, as paredes racharam e ninguém consertou. Quebrou.

O Padre Silviano pareceu triste em ouvir aquilo. Ele visivelmente não esperava por aquilo, e não o culpo. Eu fui longe demais, fiz o que pensei que nunca faria. Apunhalei meu pai e minha mãe pelas costas, eles agora teriam que lidar com aquilo... talvez fosse verdade que Padre Silviano não pudesse falar com ninguém o que é dito no confessionário, mas por outro lado ele, com tais informações, agiria para remediar o fim do matrimonio da minha mãe e meu pai, talvez funcionasse.

Talvez eu tivesse colocado o emprego de meu pai em risco, mas não me importava mais. Estava tentando salvar o relacionamento dos dois, talvez essa fosse uma forma. A única coisa que ainda tinham em comum era a igreja, talvez fosse o bastante para fazê-los lembrar os motivos que os juntaram lá atrás quando eu nem nascido era. Eu! Talvez fosse esse o problema também, eu e toda essa coisa... isso.

Naquele dia quando chegamos em casa eu fui para o quarto e me tranquei lá, saindo só para comer e usar o banheiro. E tudo que expliquei para o Padre só se repetiu. Já deitado, pronto para dormir, o meu celular vibrou, eu virei a tela para ler a mensagem “Amanhã não vou deixar você ir para a sala enquanto não conversarmos” Era de David.

Sai do app, fui direto para o despertador e desliguei o alarme. Então que seja. Amanhã eu não vou.

 

Então segunda-feira passou e tive que aguentar a conversa sobre depressão com minha mãe. Eu não estava caindo na depressão de novo, embora pudesse, talvez fosse até o mais... correto? Todo dia sentia esse impulso me empurrando de volta para a vala, como lixo acumulado, indiferente e irrelevante. Só que me mantinha ali, sem motivo, mas não deixava aquele vazio voltar.

No dia 26 de agosto, na terça-feira, tive que ir à escola. Afinal, é assim que o sistema funciona e eu não posso sabotá-lo para sempre, não sei se lembra, mas minhas notas estavam baixas na época da depressão.

 

Quando cheguei no pátio vi David logo na entrada, ele conversava com Kyle Vermont, Ann Dillard, Mackenzie Tucker e Edwin Eaton. Todos eram amigos gringos deles da outra sala, ou outras salas.

Ele me viu, mas eu encarei de volta com uma careta, virei e fui para meu grupinho.

Ainda estavam Igor, José, João e mais dois valentões perto do banheiro (sempre me perguntei porque valentões tendem a ficar perto do banheiro, talvez seja para cobrar pedágio dos nerds e fazer o famoso cuecão). Do outro lado do pátio, praticamente o mais distante possível de David, estavam Bianca, Priscila, Bruna, Elise e mais algumas meninas.

Pedro, Luiz e Guilherme estavam quase que no meio do pátio.

— Chega aí, Lucas. — Pedro chamou.

— Oi, Luiz. — Apertei a mão deles. — Tranquilo?

Conversamos vãmente por um curto período, Luiz queria falar sobre o trabalho deles, então deixei que conversassem sobre o assunto dando pitaco ocasional quando imagina saber de algo sobre o assunto, mas o que eu poderia saber que Guilherme não soubesse, ao menos sobre as matérias escolares!

Depois de uma discussão esquentada sobre o direito de Gabriel Francisco Junqueira ter ou não merecido o título de Barão de Alfenas devido a rebelião, o título tendo sido entregue por D. Pedro II, devido os familiares mortos pelos escravos. A discussão era sobre o título ser proveniente de racismo e descriminação racial de D. Pedro II ao tolerar o levante escravagista ou não quando ofereceu um título de nobreza para um homem que nada fez... a verdade é que não entendi muito.

— Cara, o Dido torceu o pé, tá engessado, inchado pra caramba.

Pedro provavelmente tinha perdido o foco da discussão, se virou e começou a falar comigo a parte.

Então enquanto conversávamos, Karla saiu do grupinho de Bianca e veio até nós.

— Oi meninos, Lucas, você pode vir comigo? — Ela sorriu para eu e Pedro, então se virou para mim, pegando minha mão e saindo andando me puxando com ela.

— E eu, Karlinha...

Karla virou a cabeça e rolou os olhos para Pedro sem se dignar a responder.

— O que foi? — Perguntei enquanto Karla me arrastava até o grupinho de Bianca.

— A Bi quer falar com você. — Ela disse me empurrando para o meio delas, e Elise estava ali.

Eu olhei ao redor daquele monte de meninas e pensei no que estava fazendo ali.

Elise!

Por qual motivo nefasto Bianca poderia querer falar comigo? Eu estava odiando ela, ela beijou David na minha frente e ele também o fez, embora ela não soubesse de nada.

— Oi, Lucas. — Ela disse vindo me cumprimentar, deu um beijo na minha bochecha e sorria, despreocupada. Claro, ela não sabia como eu a odiava naquele instante. Elise desviava o olhar de mim, mas sabia que era coisa dela, tinha que ser. — Eu queria perguntar para você se sabe se aconteceu alguma coisa com o David, assim, já perguntei para a Lise, mas ela também não sabe, e vocês são amigos...

— Acho que não, tá tudo bem com ele. — Respondi dando de ombros, lancei um olhar para o começo do pátio onde o grupo de gringos estava. — Por que? Aconteceu... alguma coisa?

— Ai, Lucas, ele é um idiota, desculpa, é seu amigo, eu sei, mas é um babaca. Sabe se ele está ficando com alguma menina por aí, uma dessas gringas? — Ela dizia balançando a mão com um pulso solto.

Engasguei. Olhei para Elise que tinha um sorrisinho de canto de quem tinha arrumado o terreno para aquilo.

— Acho... que não. — Disse, confuso, meio perdido naquela conversa. Até onde você foi, Elise?

— Então tá, você tá bem desinformado pelo visto. — Ela então olhou para Priscila. — Tem que ter outra, só preciso descobrir quem é a vaquinha! Enfim, Lucas, David é um babaca! Mas você é um amor de pessoa. Não conseguiria falar com Kurt Wilcox, do terceiro ano, pra mim?

— Eu... acho que posso tentar, mas só se eu falar com David sobre, e ele vai ficar...

— Melhor ainda! — Ela de repente ficou com uma expressão de vingança. — Fala que eu quero ficar com o Kurt. Ele vai ficar louco de raiva. — Ela disse mais para as outras meninas que para mim. — Obrigado, Lucas. Não vou me esquecer disso. — Eu fiquei ainda parado um tempinho, Elise fez um sinal com os olhos para mim e eu me toquei do que fazer a seguir.

— Vou... voltar lá, com os meninos.

— Tá, tá bom. Obrigadinha! — Bianca parecia um doce falando, mas era venenosa... mais venenosa que Elise!

 

Percebi com isso o que Elise tinha feito, ou talvez David. E não pude deixar de ficar contente. Os dois obviamente tinham trabalhado juntos para garantir que tudo saísse como o planejado, ele provavelmente tinha terminado qualquer coisa que podia ter existido com Bianca, e Elise tinha garantido que Bianca culpasse ele, imaginando várias coisas menos que David fosse gay.

Isso me perturbou durante as três primeiras aulas, David e eu não nos falamos, mesmo com ele sentado na minha frente. Eu não sabia se deveria ou não falar, tinha medo de arriscar, tinha dito que não conseguia mais sequer olhar para ele, mas naquele instante eu só queria fazê-lo. Só queria encarar os olhos dele, e deixar que ele me segurasse com força, como no sonho...

Após o intervalo, na aula de inglês, o inspetor Matarazzo veio até a sala.

— A professora não veio, e a substituta está de licença maternidade, então vocês terão essa aula vaga. Aconselho estudarem, mas como sei que não o farão, ao menos se comportem! — Ele soou decepcionado com os alunos, se virou e saiu.

Naquele instante tive uma súbita ideia resultado de todos os pensamentos desde a primeira aula. Era a hora perfeita.

Me levantei e fui atrás do Inspetor Matarazzo. Cheguei na porta e chamei por ele.

— Er... Lucas, não é? — Ele pareceu se lembrar de meu nome com certo esforço. — Quer alguma coisa?

— Sim, isso mesmo. — Disse com as mãos dentro do bolso, não sabia o que fazer com elas, cruzaria os braços? Gesticular? — Eu posso ir na biblioteca?

— A biblioteca está...

— Fechada, eu sei, mas não vou... você me conhece, não sou que nem esses maloqueiros. O professor de história passou um trabalho muito complicado, e ele disse que aqui tem um livro sobre a guerra dos farrapos, só queria dar uma olhada no livro, o celular tem câmera boa, eu tiro umas fotos da página e leio depois em casa! É rápido, e preciso pro trabalho, é uma fonte bem melhor que Wikipédia.

Matarazzo olhou para mim como se analisasse se aquilo era mesmo verdade.

— Tirar fotos...

— Olha... — Peguei o celular e fui para a galeria. — Aqui, tá vendo, várias fotos da lousa. É fácil para copiar sem precisar ficar levantando a cabeça, ou se perder um pedaço, passar pros amigos que faltaram sem precisar emprestar o caderno... acha que com um livro não vai dar?

Ele de novo me encarou, agora com uma feição tranquila.

— Está bem, mas só você. E depois me traga a chave. — O Inspetor pegou um molho de chaves e entregou uma para mim. — Cinco minutos!

— Quatro! — Eu rebati e ele sorriu, se virou e saiu andando.

Eu em resposta fui junto dele, era uma forma de provar que só eu iria até lá. Mas assim que passamos pela escada e ele desceu eu continuei no corredor para o lado mais vazio da escola, peguei o celular e enviei a mensagem para David: “Venha AGORA para o corredor”.

Quando ele saiu da sala eu acenei para ele lá do outro lado. O corredor estava vazio, afinal, só nós estávamos com aula vaga.

Ele olhou para trás e para frente, então veio andando atrás de mim. Eu me virei e continuei para a biblioteca, destranquei a porta e o cheiro de livros e mofo invadiu meu nariz.

Em seguida David surgiu.

— O que foi que deu em você? — Ele perguntou me encarando enquanto entrava.

Assim que ele passou, eu fechei a porta e tranquei deixando a chave na fechadura.

— Você é um grande idiota. — Eu disse para ele apontando para o fundo. — Pra lá, longe da janela.

Ele olhou para mim, sorriu.

— Não vai vender meus órgãos, vai? — Refez a pergunta que eu tinha feito, quando bêbado, para ele.

— Idiota. — Empurrei ele pelo ombro para frente e então olhei em volta, as prateleiras, mesas vazias empoeiradas, livros em pilhas nos cantos e a luz fraca tremeluzente das lâmpadas velhas.

Curiosamente estávamos no corredor formado pelas prateleiras de história e sociologia.

Eu decidi tomar uma posição mais ativa, e, ao invés de desviar olhar, mexer nos livros enquanto falava, e tentar fugir da conversa, eu parei encarando David, que por ser visivelmente mais decidido que eu, me encarava de volta sem hesitar e isso me fazia hesitar. Força, Lucas. Disse para mim mesmo, precisava tomar aquele momento para fazer o que deveria ser feito. Falar a verdade!

— Olha, desculpa o lance com a Bianca, mas eu já terminei tudo. — Ele quem falou. Fiquei confuso, queria ser eu o primeiro a falar, o que tomava a iniciativa, mas acho que hesitando tanto ele decidiu falar primeiro. — Elise disse pra eu insistir, desculpa, eu falei pra ela que beijei... ela, acho que ela pensa que você é gay. Eu falei pra ela que você me dispensou, mas eu to confuso também, porque assim...

— Então você terminou com Bianca por estar confuso? — Perguntei.

— Eu nem tive nada com ela. — David disse. — Ela que achou que tinha alguma coisa comigo. Aquele dia, eu ti vi e falei pra ela que precisava falar com você, e ela veio e me agarrou, não quis...

— Você beijou ela de volta.

— Claro. — David deu de ombros, não parecia se arrepender. — Ela é símbolo de status. Se eu negasse o beijo dela o que seria da minha imagem aqui? Claro que beijei ela de volta, mas não significa que gostei. Se pudesse não teria feito, na verdade, não queria ter feito!

Ele parou de falar e por um momento eu quis só abraçar ele e agradecer por aquilo.

— Então, acho que é isso que eu tinha para te falar. — David disse cruzando os braços. — E você, tem alguma coisa para me falar também, ou me chamou só para eu falar mesmo.

— Elise... ela está sempre certa, aprende isso. — Eu disse rindo para David, mas então o sorriso se desfez lentamente. Estava na hora de engolir meu orgulho, superar o medo, e tornar real. É agora. — Agora, falando sério. David, eu não sei o que você fez comigo. Eu já namorei com a Elise um tempo atrás, foi horrível, não deu certo e ela disse que é porque eu não gosto de mulher, e aí você surgiu e essas coisas estranhas começaram a acontecer comigo. Você não faz ideia do quanto eu chorei, eu me culpei. E depois daquele beijo, tá nem foi nada demais, pra você deve ser normal, não sei. Só que isso é errado!

Ele se aproximou de mim então, eu fui me calando e olhei para as mãos de David que subiram para meus braços, ele me segurou pelos braços impedindo que eu recuasse.

— Você... faz sentido, quer dizer, você acabou de se descobrir e ainda não desenvolveu essa coisa toda. Ainda sequer se aceitou. — David subiu a mão esquerda pelo meu ombro e eu me desvencilhei dele indo para o lado, confuso. Ele estava certo, mas não devia. Não era isso que eu esperava. Ou era? — Agora eu entendi tudo. Desculpa, Lucas. Eu fui um idiota tratando você desse jeito nos últimos dias, pensei que você ou não tinha gostado ou era do tipo que não tolera essas coisas.

— Eu sou. — Respondi, com pesar. — Esse é o problema, David, eu sou o tipo que não tolera essas coisas. — Sentia meus olhos se enchendo d’água. — Eu nunca pensei nisso, e tenho medo, e aversão, é errado e mesmo assim eu quero, eu gosto.

David sorriu para mim em resposta, seu sorriso nos lábios finos me fazendo desejar ser errado, pecar. As palavras que disse ao Padre Silviano nunca foram tão reais. Eu não me arrependia, e pior, queria mais!

— Você só acha que é errado porque foi criado assim, te ensinaram a pensar que isso é errado e horrível, mas se você tivesse nascido 300 anos atrás, acharia errado conversar de igual para igual com um negro só porque ele é preto e você branco? Ou acharia racista?

— Isso é diferente...

— Não é. Não, não é. A única coisa que muda é que um negro você consegue ver se é ou não negro, e um gay você só descobre de um jeito. A diferença é que um foi condenado por tantos anos, mas enfim entendido que não é nada demais, o outro ainda está sendo condenado... condenado pelas mesmas pessoas. Lucas, não seja essa pessoa, não se condene! Culpar os diferentes por serem diferentes é querer um mundo padrão e sem graça. Imagina que terrível seria o mundo se fosse pintado em uma só cor. É por isso que usamos um arco-íris como símbolo, não é algo gay, é algo no plural e que abraça todos sem descriminação só por ser diferente do comumente aceito.

Me lembrei dos meus temores e me lembrei que estava na hora de parar de temer tudo aquilo. Faça virar real.

— Eu tenho medo, David. Tanto medo. — Disse balançando a cabeça.

— Eu sei. — Ele se aproximou de novo, agora eu estava encostado contra a prateleira e a parede, não tinha para onde fugir. — Eu também já tive, e esse medo, essa insegurança e dúvida, ela nunca vai ir embora, é parte de quem a gente é no mundo que a gente vive, não dá para mudar enquanto eles lá fora não mudarem. Nosso medo não é pela gente e não deve ser. Se o seu for, você precisa mudar, você não oferece riscos a si mesmo então porque se temer? O mundo que te oferece riscos, Lucas, e você vai ter que lutar contra o mundo todo dia. Não é fácil e você não escolheu, eu não escolhi, ninguém escolheu isso. O que você escolhe é levantar e lutar. — Ele pegou minha mão e nossos dedos se entrelaçaram enquanto uma lágrima descia pela minha bochecha e ele, com a outra mão, enxugou-a, e já deslizou os outros dedos por entre minha orelha, me encarando de perto. — E eu posso lutar com você. Se você quiser. — Ele estava tão próximo quanto da primeira vez, podia sentir novamente sua respiração. — Mas dessa vez quero ouvir da sua boca antes de fazer. Você quer?

Não respondi com palavras.

Ele estava me olhando nossas testas encostadas no silêncio da biblioteca, nossas respirações, um contra o outro, sua mão estava segurando minha cabeça e a outra segurava minha mão.

Eu, com o braço livre, envolvi-o pela cintura enquanto inclinava mais para frente e fechava os olhos.

De novo nossos lábios se tocaram, não como da primeira vez, essa foi a verdadeira primeira vez. David abriu a boca enquanto eu ainda hesitava, tremia, mas ele me segurava firme e de alguma forma matava minha insegurança e enquanto o tempo lá fora sumia eu me entregava, lentamente deixava o corpo amolecer, deixava a mente viajar, e vivia só aquele momento, despreocupado, talvez até de forma inocente, sem temores, sem dúvidas, só... isso!

Só eu e David.

Deslizei a mão para cima pelas costas dele, e ele ergueu nossas mãos e bateu contra a parede enquanto me encurralava, nossos lábios separando-se lentamente e eu aproveitei para puxar ar, só então lembrei que precisava respirar.

— Eu... — Sussurrei enquanto ele mordia o próprio lábio inferior me olhando de perto. — Quero!

Respondi por fim e ele me girou, agarrando minha cabeça com as duas mãos e me beijando com mais força e eu suspirei enquanto ele acariciava meu cabelo, perdidos em suspiros. Beijou meu queixo e minha bochecha até chegar na minha orelha, então parou.

— Um menino saiu da escola. — Sussurrou no meu ouvido. — Posso ir para outra sala agora.

Empurrei ele olhando para David, desapontado. Meu rosto e o dele estavam vermelhos e eu sentia meu coração acelerado, estava excitado, cada vez mais... então aquilo tudo passou.

Depois de tanta coisa era isso que ele tinha para falar, e aquela coisa de lutar comigo? Acho que ele notou minha tristeza repentina porque ele sorria, como se fosse exatamente aquilo que queria!

— Mas eu não vou ir. — Completou me dando a mão e colocando a outra no meu peito, com o indicador apontado para mim. — Eu pensei em ir, na verdade estava pensando até agora, mas depois disto... tenho um bom motivo para ficar na sua sala!

Nunca ninguém foi tão fofo assim comigo. Me aproximei para beijar ele de novo, queria mais.

“Cinco minutos”. Ouvi a voz de Matarazzo na minha cabeça.

— A gente tem que voltar pra sala. — Eu disse a contragosto me sentindo um idiota. — Mas eu não quero.

— Não tem problema. — Ele respondeu deslizando a língua pelos próprios lábios. — A gente vai fazer o trabalho de novo, não? — Tive a impressão que tudo que não faríamos era o trabalho. — Dessa vez é só você não fugir no fim do dia.

Piscou com um olho só.

Eu não fugiria. Poderia me culpar no fim do dia, mas valia a pena. Nunca me senti tão vivo como naqueles cinco minutos. Nunca me senti tão bem.

Nunca!


Notas Finais


A Parte 2 começa em breve!
Obrigado por lerem até aqui. espero que estejam gostando. E os próximos capítulos serão bem mais pesados...em TODOS os sentidos!


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