História Proibido - Capítulo 25


Escrita por: ~

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Categorias Fifth Harmony
Personagens Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Personagens Originais
Tags Camren, Camren G!p
Exibições 352
Palavras 5.476
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Bissexualidade, Estupro, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Nudez, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 25 - Lauren



   Nunca na vida ouvi um som tão horrível. Um grito de puro terror, de ódio, fúria e rancor em estado bruto. E ele não para, se erguendo cada vez mais, se aproximando cada vez mais, bloqueando o sol, sugando tudo: o amor, o calor, a música, a alegria. Dilacerando a luz brilhante ao nosso redor, navalhando nossos corpos nus, arrancando o sorriso dos nossos rostos, roubando o ar dos nossos pulmões.
   Camila me agarra, horrorizada, braços em volta de mim, me apertando com força, o rosto apertado no meu peito, como que implorando ao próprio corpo para se fundir com o meu. Por um momento não consigo reagir, apenas a apertando contra mim, preocupada só em protegê-la, em defender seu corpo com o meu.
  Então, escuto os soluços – os soluços histéricos, as acusações aos gritos, os uivos insanos. Eu me obrigo a levantar a cabeça e vejo, emoldurada pela porta aberta, nossa mãe.
   Assim que seu olhar horrorizado encontra o meu, ela se atira em cima de nós, me agarrando pelos cabelos e puxando minha cabeça para trás com uma força inacreditável. Seus punhos me esmurram, suas unhas afiadas se cravam nos meus braços, nos meus ombros, nas minhas costas. Nem mesmo tento empurrá-la. Meus braços envolvem a cabeça de Camila, meu corpo aperta o dela, agindo como um escudo humano entre ela e essa louca, tentando desesperadamente protegê-la do ataque.
   Camila grita de terror embaixo de mim, tentando se enterrar no colchão, me puxando para si com todas as forças. Mas então os gritos começam a se transformar em palavras, perfurando meu cérebro congelado, e eu escuto:
– Sai de cima dela! Sai de cima dela! Seu monstro! Seu monstro diabólico, pervertida! Sai de cima da minha filhinha! Sai! Sai! Sai!
   Não me mexo nem solto Camila, embora continue a ser arrastada pelos cabelos para fora da cama. Camila, subitamente se dando conta de que a intrusa é nossa mãe, começa a lutar para se soltar de meus braços.
– Não! Mãe! Deixa ela! Deixa ela! Ela não fez nada! O que está fazendo? Você está machucando a Lolo! Não machuca a Lolo! Não machuca a Lolo! Não machuca a Lolo!
   Ela está aos gritos, soluçando de terror, tentando se arrastar de baixo de mim, seus braços tentando empurrar mamãe, mas não deixo que as duas se encostem, não deixo que o monstro a alcance. Quando vejo a mão de unhas afiadas dar uma arranhada no rosto de Camila, giro o braço com força e ele atinge seu ombro. Ela cambaleia para trás e ouvimos um baque, seguido pelo barulho de livros despencando das prateleiras, e então sai do quarto, seus uivos ecoando pela escada até o andar de baixo.
   Pulo da cama e bato a porta, passando o trinco.
– Depressa! – grito para Camila, pegando uma calcinha e uma camiseta na sua pilha de roupas e atirando-as para ela. –Veste isso. Ela vai voltar com Dave, ou sei lá quem. O trinco não é forte o bastante…
   Camila está sentada no meio da cama, apertando o lençol contra o peito, cabelos desgrenhados, o rosto pálido de choque e lavado de lágrimas.
– Ela não pode fazer nada com a gente – diz, em desespero, sua voz se erguendo. – Não pode fazer nada, não pode fazer nada!
– Está tudo bem, Camila. Está tudo bem, está tudo bem. Veste isso, por favor. Ela vai voltar!
   Só consigo encontrar minha cueca – o resto de minhas roupas deve estar enterrado debaixo da pilha de livros caídos.
   Camila veste o que lhe entrego, levanta e corre para a janela aberta.
– Nós podemos fugir pela janela – exclama. – Podemos pular…
Puxo-a de volta, obrigando-a a sentar na cama.
– Presta atenção. Nós não podemos fugir. Eles nos apanhariam de qualquer maneira, e pensa, Camila, pensa! E os outros? Nós não podemos abandoná-los. Vamos ter que esperar aqui, está bem? Ninguém vai te machucar, prometo. Mamãe está só histérica. E ela não estava tentando te agredir, estava tentando te salvar. De mim. – Tenho que me esforçar para respirar.
– Não quero saber! – Camila está gritando de novo, lágrimas escorrendo pelo rosto. – Olha só o que ela fez com você, Lolo! Suas costas estão sangrando! Não consigo acreditar que ela te machucou desse jeito! Ela estava puxando seus cabelos! Ela… ela…
– Shhh, querida, shhh… – Eu me viro para ela na beira da cama, segurando seus braços para aquietá-la. – Camila, você tem que se acalmar. Você tem que me ouvir. Ninguém vai nos fazer mal, está entendendo? Eles só querem salvar você…
– Do quê? – pergunta ela, soluçando. – De quem? Eles não podem me tirar de você! Não podem, Lauren, não podem!
   Mais gritos. Ficamos paralisadas ao ouvi-los, agora vindos da rua. Sou a primeira a chegar à janela. Mamãe está andando de um lado para o outro na frente da casa, gritando no celular.
– Vocês têm que vir agora! – soluça. – Ah, meu Deus, por favor, depressa! Ela já me deu um soco, e agora se trancou no quarto com ela! Quando entrei, ela tentou estrangulá-la! Acho que vai matá-la!
   Vizinhos curiosos enfiam a cabeça pelas janelas e portas, alguns já atravessando a rua depressa para socorrê-la. Começo a suar frio, as pernas ameaçando se dobrar.
– Ela está ligando para o Dave – grita Camila, tentando me afastar quando começo a arrastá-la da janela. – Ele vai arrombar a porta. Eles vão te dar uma surra! Eu preciso descer e explicar tudo! Preciso dizer a eles que você não fez nada de errado!
– Não, Camila, não faça isso. Você não pode! Não vai fazer a menor diferença! Você tem que ficar aqui e me ouvir. Preciso falar com você.
   De repente, já sei o que devo fazer. Sei que há apenas uma solução, que restou apenas uma maneira de salvar Camila e as crianças. Mas ela não quer me ouvir, lutando e chutando minhas pernas enquanto a abraço para impedir que corra até a porta. Eu a obrigo a sentar de novo na beira da cama, prendendo-a com meu corpo.
– Camila, você tem que me ouvir. Acho que tenho um plano, mas você tem que me ouvir, ou não vai dar certo. Por favor, querida, eu te imploro!
   Camila para de relutar.
– Tá, Lolo, tá – choraminga. – Fala, estou ouvindo. Vou fazer. Faço tudo que você quiser.
   Ainda segurando-a, olho para sua expressão apavorada, seus olhos alucinados, e respiro fundo, num esforço frenético para ordenar as ideias, me acalmar, conter as lágrimas crescentes que só vão aterrorizá-la ainda mais. Aperto seus pulsos com força e me preparo para agarrá-la se resolver dar uma carreira até a porta.
– Mamãe não está falando com Dave – explico, a voz tremendo muito. – Ela está falando com a polícia.
   Camila fica paralisada, seus olhos castanhos arregalados de choque. Lágrimas pendem dos seus cílios, a cor desapareceu do seu rosto. O silêncio no quarto é rompido apenas por sua respiração frenética.
– Vai ficar tudo bem – afirmo em tom categórico, me esforçando para manter a voz firme. – Na verdade, isso é até bom. A polícia vai resolver a questão. Eles vão acalmar mamãe. Vão me levar para me interrogar, mas vai ser só…
– Mas é contra a lei. – A voz de Camila está baixa de horror. – O que aconteceu entre nós. Vamos ser presas porque infringimos a lei.
   Respiro fundo mais uma vez, meus pulmões falhando sob a tensão, a garganta ameaçando se fechar completamente. Se eu chorar, vai estar tudo acabado. Vou assustá-la tanto que ela vai deixar de me ouvir e nunca vai concordar com o que estou prestes a sugerir. Tenho que convencê-la de que essa é a melhor saída, a única saída.
– Camila, você tem que me ouvir, nós temos que passar por isso depressa, eles podem chegar a qualquer momento. – Paro e recobro o fôlego de novo. Apesar do terror nos seus olhos, ela apenas faz que sim, esperando que eu continue.
– Tudo bem. Primeiro você tem que lembrar que ser detida não significa ser presa. Nós não vamos ser presas, porque somos apenas adolescentes. Mas presta atenção: isso é muito, muito importante. Provavelmente mamãe vai estar bêbada, e mesmo que não esteja, a Agência de Serviço Social vai ser chamada pela polícia e as três crianças vão ser levadas por causa do que fizemos. Imagina só, Camilaimagina Taylor, imagina como elas vão ficar apavoradas. Pois se Sofia estava com medo… – Minha voz treme e eu me calo por um momento. – … se S-Sofia estava com medo de passar uma noite fora! – Lágrimas penetram meus olhos como facas. – Você entende? Entende o que vai acontecer com elas se nós duas formos presas?
   Camila balança a cabeça para mim em silêncio, horrorizada, muda de choque, mais lágrimas enchendo seus olhos.
– Mas existe uma solução – continuo, desesperada. – Existe um jeito de impedir que tudo isso aconteça. Eles não vão levar as crianças se uma de nós ficar aqui para cuidar delas e limpar a barra de mamãe. Está entendendo, Camila? – Começo a levantar a voz. – Uma de nós tem que ficar. E tem que ser você…
– Não! – A voz de Camila é uma facada no meu coração. Aperto seus pulsos com mais força quando ela tenta se afastar. – Não! Não!
– Camila, se elas forem levadas pela Agência de Serviço Social, nenhuma de nós vai voltar a pôr os olhos nelas até serem adultas! Elas vão ficar traumatizadas para o resto da vida! Se você me soltar, há uma boa chance de eu ser libertada em alguns dias. – Olho para ela, esperando que confie em mim o bastante para acreditar nessa mentira.
– Você fica! – Camila olha para mim, seus olhos suplicantes. – Você fica e eu vou! Não estou com medo. Por favor, Lolo. Vamos fazer desse jeito!
   Faço que não, em desespero.
– Não vai dar certo! – digo, frenética. – Lembra aquela conversa que tivemos semanas atrás? Ninguém vai acreditar em nós se dissermos que foi você quem me forçou. E se dissermos que foi consensual, vão prender a nós duas! Nós temos que fazer desse jeito. Você não entende? Pensa, Camila, pensa! Você sabe que não há outras opções! Se uma de nós vai ficar aqui, tem que ser você!
   O corpo inteiro de Camila desaba para frente quando a conscientização a atinge. Ela cai sobre mim, mas não posso pegá-la nos braços, pelo menos ainda não.
– Por favor, Camila – imploro. – Diz que concorda. Diz agora, neste exato momento. Senão, eu vou enlouquecer sem saber… se você e os outros estão seguros ou não. Não vou aguentar isso. Você tem que concordar. Por mim. Por nós. É nossa única chance de ficarmos juntos como uma família novamente.
   Ela abaixa a cabeça, seus lindos cabelos castanhos escondendo o rosto.
– Camila… – Um som frenético escapa de mim e eu lhe dou uma sacudida. – Camila!
   Ela faz que sim em silêncio, sem levantar o rosto.
   Vários minutos se passam sem que ela se mova. Com mãos trêmulas, enxugo o suor do rosto. Então, de repente, Camila levanta a cabeça com um soluço estrangulado e estende os braços, pedindo para ser confortada. Não posso fazer isso. Simplesmente não posso. Balançando a cabeça, ríspida, eu me afasto dela, prestando atenção para ver se escuto alguma sirene. Um murmúrio baixo de vozes se ergue abaixo de nós – provavelmente vizinhos preocupados, correndo para socorrer nossa mãe. Sem receber o abraço de que precisa tão desesperadamente, Camila busca conforto num travesseiro puxado contra o peito. Balançando-se para frente e para trás, ela parece estar em estado de completo choque.
– Tem mais uma coisa… – Viro-me para ela, me dando conta subitamente. – Nós… temos que combinar o que vamos dizer, ou eles vão me prender por mais tempo e você vai ser intimada a depor uma vez atrás da outra, e as coisas vão ficar muito mais complicadas…
   Camila fecha os olhos, como se tentasse me apagar.
– Nós não temos tempo para inventar nada – digo, minha voz travando a cada palavra. – Vamos… vamos ter que contar exatamente o que aconteceu. Tudo que aconteceu, como começou, há quanto tempo vem rolando… Se nossas histórias não baterem, eles podem prender você também. Por isso você tem que dizer a verdade, Camila, está entendendo? Tudo, cada detalhe que perguntarem! – Respiro, frenética. – A única coisa que vamos acrescentar é isso: que fui eu que te forcei. Eu te forcei a fazer tudo que nós fizemos, Camila. Está me ouvindo?
   Estou voltando a perder o controle, as palavras tremendo como o ar ao meu redor.
– A primeira vez que nós nos beijamos, eu disse que você tinha que deixar, ou… eu bateria em você. Eu jurei que se você contasse para alguém, eu te mataria. Você ficou apavorada. Você acreditou piamente que eu seria capaz de cumprir a ameaça, por isso, dali em diante, toda vez que…eu te quis, você… fez o que eu mandei.
   Ela levanta o rosto para mim, horrorizada, lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto.
– Eles vão prender você!
– Não. – Balanço a cabeça, fazendo um esforço para soar o mais convincente possível. – Você só vai dizer que não quer prestar queixa. Se não houver acusador, não vai haver processo, e eu saio em alguns dias! – Fico olhando para ela em silêncio, implorando para que me acredite.
   Ela franze a testa e balança a cabeça devagar, como se tentasse desesperadamente compreender.
– Mas isso não faz sentido…
– Confia em mim. – Estou respirando depressa demais. – A maioria dos casos de abuso sexual nunca vai a julgamento porque as vítimas têm medo e vergonha demais para prestar queixa. Por isso, você só vai dizer que também não quer prestar queixa… Mas, Camila – seguro seu braço –, você não deve nunca, jamais admitir que foi consensual. Não deve nunca, jamais admitir que participou do que aconteceu por livre e espontânea vontade. Eu forcei você. Não importa o que eles perguntem, não importa o que digam, eu ameacei você. Está entendendo?
   Ela faz que sim, atordoada.
   Sem me convencer, seguro-a pelos braços com rispidez.
– Não acredito em você! Me diz o que aconteceu! O que foi que eu fiz com você?
   Ela levanta o rosto para mim, o lábio tremendo, os olhos brilhando de lágrimas.
– Você me estuprou – responde, levando as mãos à boca para abafar um grito.
   Nós nos aconchegamos sob o edredom uma última vez. Ela está enroscada contra mim, o rosto encostado no meu peito, tremendo, em estado de choque.
   Abraço-a com força, olhando para o teto, morta de medo de começar a chorar, morta de medo de que ela veja como estou apavorada, morta de medo de que de repente entenda que, embora ela não vá prestar queixa, há uma pessoa que vai.
– N-não entendo – exclama. – Como isso foi acontecer? Por que mamãe resolveu voltar logo hoje? Como ela conseguiu entrar sem a chave?
   Estou estressada demais para pensar nisso, ou me importar. A única coisa que importa é que fomos apanhadasDenunciadas à polícia. Nunca cheguei a pensar que as coisas poderiam chegar a esse ponto.
– Deve ter sido algum vizinho. Nós não tomamos cuidado com as cortinas. – Camila treme com um soluço silencioso. –Você ainda tem tempo. Lolo, eu simplesmente não entendo! Por que você não foge? – Sua voz se ergue, angustiada.
   Porque aí não vou estar presente para contar a minha versão da história. A versão que quero que a polícia escute. A versão que te absolve de qualquer culpa. Se eu fugir, eles podem prender você. E se nós duas fugirmos, vamos nos expor como cúmplices, e aí vai estar tudo acabado.
   Não digo nada, apenas a abraço com mais força, na esperança de que ela confie em mim.
   O som da sirene nos assusta. Camila levanta correndo da cama e tenta alcançar a porta. Obrigo-a a voltar e ela começa a chorar.
– Não, Lolo, não! Por favor! Me deixa descer e explicar. Vai parecer tão pior desse jeito!
   Mas eu preciso que pareça pior. Preciso que pareça o pior possível. De agora em diante, tenho que pensar como um estuprador, agir como um estuprador.
   Provar que estou mantendo Camila aqui contra a sua vontade.
   Sons de portas de carro batendo se elevam da rua. A voz histérica de mamãe recomeça.
   A porta da sala é batida. Passos pesados na escada. Camila fecha os olhos com força e se aperta a mim, soluçando em silêncio.
– Vai dar tudo certo – sussurro no seu ouvido, desesperada. – Isso é só uma formalidade. Eles só vão me levar para me interrogar. Quando você disser a eles que não quer prestar queixa, eles vão me soltar.
   Abraço-a com força, afagando seus cabelos, esperando que um dia entenda, que um dia me perdoe por mentir. Tento me controlar para não pensar, para não entrar em pânico, para não hesitar. Vozes altas no andar de baixo, principalmente de mamãe. O som de múltiplos passos na escada.
– Me solta – sussurro, meu tom urgente.
   Ela não responde, ainda apertada contra mim, a cabeça enterrada no meu ombro, os braços envolvendo meu pescoço com força.
– Camila, me solta agora! – Tento afastar seus braços. Ela não quer me soltar.
           Camz.  

 Ela não quer me soltar!

  As batidas na porta nos dão um susto violento. O barulho é seguido por uma voz dura e autoritária:
– Aqui é a polícia. Abra a porta.
   Desculpe, mas acabei de estuprar minha irmã e a estou mantendo aqui contra sua vontade. Não posso ser tão amável assim.
   Eles me dão um aviso. Então, o primeiro golpe se faz ouvir. Camila solta um grito aterrorizado. Ela ainda se recusa a me soltar. É fundamental que eu faça com que ela se vire, pois assim, quando eles entrarem, vão me encontrar imobilizando-a de costas para mim, os braços presos. Outra rachadura. A madeira em volta do trinco começa a se arrebentar. Só mais um golpe, e eles vão entrar.
   Empurro Camila com todas as minhas forças. Olho nos seus olhos – seus lindos olhos castanhos – e sinto as lágrimas encherem os meus.
– Eu te amo – sussurro. – Me perdoa! – Então, levanto a mão direita e dou um tapa violento no seu rosto.
  Seu grito enche o quarto segundos antes de o trinco ser arrebentado e a porta se escancarar. De repente a soleira está ocupada por uniformes pretos e rádios chiando de estática. Meus braços rodeiam os de Camila e sua cintura, prendendo suas costas a mim. Sob a mão apertada na sua boca, sinto um filete de sangue que me enche de alívio e coragem.
   Quando eles ordenam que eu a solte e me afaste da cama, não consigo me mexer. Preciso colaborar, mas constato que é fisicamente impossível. Estou paralisada de medo. Medo de destapar a boca de Camila e ela começar a contar a verdade. Medo de que depois que levarem Camila eu nunca mais volte a vê-la.
   Eles me mandam pôr as mãos para o alto. Começo a soltar Camila. Não, estou gritando por dentro. Não me deixe, não vá! Você é o meu amor, a minha vida! Sem você, eu não sou nada, não tenho nada. Se eu te perder, eu perco tudo. Levanto as mãos muito devagar, me esforçando para mantê-las no ar, lutando contra o instinto imperioso de voltar a pegar Camila em meus braços, de beijá-la uma última vez. Uma policial se aproxima, cautelosa, como se Camila fosse um animal selvagem prestes a fugir, e a convence a se afastar da cama. Ela solta um soluço curto, abafado, mas a ouço respirar fundo e prender o ar. Alguém a envolve com um cobertor. Estão tentando convencê-la a sair do quarto.
– Não! – grita ela. Rompendo num súbito jorro de soluços desconsolados, ela se vira freneticamente para mim, seu lábio inferior manchado de sangue. Lábios que uma vez tocaram os meus com tanto carinho, lábios que conheço tão bem, que amo tanto, lábios que jamais pensaria em ferir. Mas agora, com o lábio cortado e o rosto lavado de lágrimas, ela parece tão chocada e exausta que mesmo que perdesse a força de vontade e contasse a verdade, tenho quase certeza de que não seria acreditada. Seus olhos encontram os meus, mas sob o olhar atento dos guardas não posso fazer o menor sinal para tranquilizá-la. Vai, meu amor, peço a ela com o olhar. Segue o plano. Faz isso. Faz isso por mim.
   Quando ela se vira, seu rosto se contrai e eu contenho o impulso de gritar seu nome.
   Assim que Camila sai do caminho, os dois guardas caem em cima de mim. Cada um segurando um de meus braços, eles me instruem a levantar devagar. Faço isso, retesando cada músculo e trincando os dentes, numa tentativa de parar de tremer.
   Um guarda corpulento, de olhos miúdos e rosto flácido, dá um sorrisinho cruel quando me levanto da cama e o lençol cai e fico exposta só de cueca.
– Acho que não vamos precisar revistar essa aí – diz, com uma risada. Posso ouvir Camila chorando no andar de baixo.
– O que vão fazer com ela? O que vão fazer com ela? – ela não para de gritar.
   A resposta é repetida uma vez atrás da outra por uma voz feminina que tenta acalmá-la:
– Não se preocupe. Você está segura agora. Ela não vai poder machucá-la de novo.
– Você tem o que vestir? – pergunta o outro guarda. Não parece ser muito mais velho do que eu. Há quanto tempo estará na polícia? Será que já esteve envolvido em algum caso sórdido desses?
– No meu q-quarto…
   Ele me segue até lá e fica vigiando enquanto me visto, seu rádio chiando no silêncio. Sinto seus olhos nas minhas costas, no meu corpo, e fico morta de nojo.
   Não consigo encontrar uma roupa limpa. Por algum motivo irracional, sinto a necessidade de vestir alguma coisa recém-lavada. A única à mão é o uniforme da escola. Sinto a impaciência do cara na porta às minhas costas, mas estou tão desesperada para cobrir o corpo que nem consigo pensar direito, não consigo lembrar onde guardo as coisas. Finalmente visto uma camisa e uma calça jeans, enfiando os pés nos tênis antes de perceber que a camisa está ao avesso.
   O policial corpulento aparece no quarto. Eles parecem imensos nesse espaço apertado. Estou morta de vergonha da cama desfeita, das meias e cuecas atulhando o carpete. Do trilho das cortinas quebrado, da velha escrivaninha cheia de arranhões, das paredes descascadas. Sinto vergonha de tudo.    Dou uma olhada no pequeno retrato de família ainda preso por uma tachinha à parede acima da cama, de repente desejando poder levá-lo comigo. Alguma coisa, qualquer coisa para me lembrar de todos eles.
   O policial mais velho me faz algumas perguntas básicas: nome, data de nascimento, nacionalidade… Minha voz ainda treme, apesar de todos os meus esforços para mantê-la firme.     Quanto mais tento não gaguejar, pior. Quando tenho um branco e não consigo lembrar nem meu aniversário, eles me olham de cima, como se achassem que estou deliberadamente omitindo essa informação.
   Presto atenção para ver se escuto a voz de Camila, mas não ouço nada. O que terão feito com ela? Para onde a terão levado?
– Lauren Jauregui – começa o policial num tom impessoal, mecânico. – Uma denúncia foi feita à polícia de que você estuprou a sua irmã de dezesseis anos de idade. Você está sendo detida por infringir a Seção Vinte e Cinco da Lei dos Crimes Sexuais e praticar o ato sexual com uma criança da família.
   A acusação me atinge como um soco no estômago. Isso me faz parecer mais do que uma estupradora: um pedófila. Camila, uma criança? Ela não é criança há anos. E nem está abaixo da idade mínima estipulada pela lei para se fazer sexo!    De repente, entendo com a maior clareza: mesmo faltando duas semanas para o seu aniversário de dezessete anos, ela ainda é uma criança aos olhos da lei, enquanto eu, aos dezoito, já sou uma adulta. Treze meses. Tanto faria se fossem treze anos…
   O oficial agora está lendo os meus direitos.
– Você não é obrigada a dizer nada. No entanto, poderá prejudicar a sua defesa se omitir, ao ser interrogada, qualquer coisa que declare posteriormente durante o julgamento. Tudo que disser poderá ser usado como evidência. – Sua voz é deliberada, fria, destituída de qualquer emoção. Mas isso não é um seriado policial. Isso é a vida real. Eu cometi um crime real.
   O policial mais jovem me informa que agora vou ser levada para a “viatura”.
   O corredor é muito estreito para nós três. O policial grandalhão segue à frente, seu andar lento e pesado. O outro aperta meu braço acima do cotovelo com força.
   Consegui esconder o medo até agora, mas quando nos aproximamos da escada, de repente me sinto à beira de uma crise de pânico. O motivo não poderia ser mais prosaico: a simples vontade de urinar. Mas de repente percebo que é imperiosa, e não faço a menor ideia de quando vou ter a próxima chance. Depois de horas de interrogatório, trancada em alguma cela, na frente de um bando de prisioneiros?
   Paro de andar, cambaleando, no alto da escada.
– Vamos em frente. – Sinto o empurrão de uma mão firme entre as minhas espáduas.
– Posso… posso por favor usar o banheiro antes de sair? – Minha voz sai apavorada e frenética. Sinto o rosto arder, e assim que as palavras saem da boca, gostaria de poder retirá-las. Que vexame.
   Eles se entreolham. O cara corpulento suspira, balançando a cabeça. Eles me deixam entrar no banheiro. O policial mais jovem fica parado diante da porta aberta.
   As algemas não facilitam em nada as coisas. Sinto a presença do cara enchendo o pequeno banheiro. Vou girando o corpo de mau jeito até ficar de costas para ele, e tenho um trabalho enorme para desabotoar a calça. O suor começa a escorrer pelo pescoço, pelas costas, colando a camiseta à pele. Os músculos dos joelhos parecem vibrar. Fecho os olhos e tento relaxar, mas a vontade é tão forte que é impossível. Não consigo. Não consigo, e ponto final. Não desse jeito.
– Não temos o dia inteiro. – A voz atrás de mim me faz estremecer. Abotoo a calça e dou a descarga no vaso vazio. Volto a me virar para ele, envergonhada demais até para levantar a cabeça.
   Enquanto descemos de mau jeito pela escada estreita, o policial mais jovem diz, num tom mais brando:
– A delegacia não fica muito longe. Lá você vai ter mais privacidade.
   Suas palavras me derrubam. Uma gota de bondade, uma migalha de compaixão, apesar do crime terrível que cometi. Sinto minha máscara começar a escorregar. Respirando fundo, mordo o lábio com força. Para o caso de Camila me ver, é fundamental que eu saia de casa sem chorar.
   Vozes se elevam e abaixam na cozinha. A porta está fechada. Então, foi para lá que a levaram. Espero de coração que ainda a estejam tratando como a vítima, confortando-a, e não a bombardeando de perguntas. Tenho que trincar os dentes, contrair cada músculo no corpo para não correr até ela, abraçá-la, beijá-la uma última vez.
   Noto uma corda de pular cor-de-rosa pendurada no corrimão. Uma bala de gelatina da noite passada no carpete. Pequenos sapatos espalhados em volta do cabideiro diante da porta. As sandálias brancas de Sofia, e os tênis que finalmente aprendeu a amarrar – tudo tão miudinho. Os sapatos da escola gastos de Taylor, suas amadas chuteiras, luvas e bola “da sorte”. Acima, os blazers da escola pendurados, vazios, como fantasmas das pessoas que eles são. Eu os quero de volta, quero minhas crianças de volta. Sinto uma saudade excruciante delas, a dor uma punhalada no coração. Estavam tão afoitas para sair que nem tive tempo de abraçá-las. Não cheguei a me despedir.
   No momento em que sou empurrada pela porta, um movimento me chama a atenção e eu paro. Viro a cabeça em direção a uma figura na poltrona e, chocada, reconheço Chris. Ele está pálido e imóvel, ao lado de uma policial, suas malas feitas com tanto cuidado para a excursão à Ilha de Wight jogadas de qualquer jeito aos seus pés. Quando ele se vira devagar para mim, eu o encaro, compreendendo.
   Levo um empurrão nas costas, me dizem para “me mexer”. Cambaleio, batendo na ombreira da porta, meus olhos implorando a Chris por uma explicação.
– O que está fazendo aqui? – Não posso acreditar que ele esteja presenciando tudo isso. Não posso acreditar que tenham dado um jeito de encontrá-lo antes de viajar e o envolvido nisso. Ele só tem treze anos, pelo amor de Deus! Tenho vontade de gritar. Ele deveria estar curtindo a viagem da sua vida, não assistindo irmã ser presa por abusar sexualmente da outra irmã. Tenho vontade de começar a chutá-los de fúria, obrigá-los a deixar meu irmão ir em paz.
   Seus olhos descem do meu rosto até as algemas que rodeiam meus pulsos, e então para os policiais que tentam me arrastar. Seu rosto está pálido, chocado.
– Você contou pra ele! – grita de repente, me dando um susto. Olho para ele, aturdida.
– O quê…?
– O Professor Wilson, de educação física! Você contou pra ele que eu tinha medo de altura! – De repente ele está gritando comigo, seu rosto contorcido de fúria. – Assim que eu cheguei à escola, ele me tirou da lista de rapel na frente da turma inteira! Todo mundo riu de mim, até meus amigos! Você estragou aquela que ia ser a melhor semana da minha vida!
   Eu me obrigo a parar de respirar, sentindo o coração começar a martelar.
– Foi você? – sussurro, ofegante. – Você sabia? Sobre Camila e eu? Você sabia?
Ele faz que sim, em silêncio.
– Srta. Jauregui, a senhorita precisa vir conosco agora!
   O comentário sobre Camila e eu ficarmos sozinhas em casa, o barulho na porta quando estávamos nos beijando na cozinha… Mas por que ele não nos confrontou? Por que esperou até agora para nos dedurar?
   Porque ele não queria ser mandado para uma instituição. Porque não tinha a menor intenção de nos dedurar.
 Por algum estranho motivo, fico desesperada para que ele saiba que nunca pedi que fosse cortado da lista de rapel, que jamais sonhei que poderia ser humilhado na frente dos amigos, que jamais quis estragar a sua primeira viagem, o dia mais feliz da sua vida. Mas os policiais estão gritando comigo, me empurrando pela porta, agora com uma força considerável, sem se importar se meus ombros batem nas paredes, me arrastando para a viatura que me aguarda. Consigo virar a cabeça, freneticamente tentando falar com ele.
   Os vizinhos foram em peso para a rua, se aglomerando ao redor da viatura, olhando com ar fascinado enquanto sou empurrada para o banco traseiro. O cinto é traspassado no meu peito e a porta batida. O policial grandalhão senta na frente, seu rádio ainda crepitando, e o mais jovem senta na traseira comigo. Os vizinhos se aproximam como uma lenta onda, se inclinando, espiando, apontando, suas bocas se abrindo e fechando com perguntas silenciosas.
   De repente, escuto uma pancada violenta na porta ao meu lado. Viro a cabeça a tempo de ver Chris dando tapas frenéticos na janela.
– Me perdoa! – grita ele, o som quase totalmente abafado pelo vidro blindado.
– Lolo, me perdoa, me perdoa, me perdoa! Eu não pensei nas consequências… Nunca imaginei que ela fosse ligar pra polícia! – Ele está chorando convulsivamente, como não faz há anos, as lágrimas fustigando o rosto. Seu corpo se sacode de soluços violentos e ele dá socos na vidraça, numa tentativa
enlouquecida de me libertar. – Volta! – grita. – Volta!
  Luto com a porta trancada, desesperada para lhe dizer que está tudo bem, que vou voltar em breve – embora saiba muito bem que não é verdade. No entanto, mais do que qualquer outra coisa, quero lhe dizer que está tudo bem, que sei que ele nunca pretendeu que as coisas chegassem a esse ponto, que entendo que apenas cedeu ao impulso de revidar num momento de mágoa, raiva e amarga decepção. Quero dizer a ele que é claro que o perdoo, que ele não teve a menor culpa pelo que aconteceu, que eu o amo, que sempre o amei, apesar dos pesares…
   Um vizinho o arrasta, e o carro começa a se afastar do meio-fio. Quando ganha velocidade, viro a cabeça para olhá-lo uma última vez e, pelo vidro fumê, vejo Chris correndo atrás de nós, suas pernas compridas batendo no asfalto, o velho olhar de cega obstinação no rosto – a mesma determinação que demonstrava durante todas as peladas, partidas de pique e buldogue que costumávamos disputar… Ele consegue acompanhar o carro até chegarmos ao fim da ruela estreita. Virando a cabeça para trás, desesperada para não perdê-lo de vista, vejo-o finalmente parar, os braços caídos ao longo do corpo: derrotado, chorando.
   Nunca deixem Chris perder!, tenho vontade de gritar para os policiais. Nunca deixem nenhum deles perder! Mesmo que antes deem uma canseira neles, vocês sempre, sempre têm que deixá-los vencer no final.
   Ele fica lá parado, olhando, como se implorasse para voltarmos, enquanto o vejo encolher rapidamente à medida que o espaço entre nós aumenta. Logo, meu irmãozinho é apenas um ponto minúsculo a distância – até que, por fim, não posso mais vê-lo.


Notas Finais


Lágrimas? Alguma ardência nos olhos?
Pois eu sim.


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