História Proibido - Capítulo 26


Escrita por: ~

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Categorias Fifth Harmony
Personagens Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Personagens Originais
Tags Camren, Camren G!p
Exibições 339
Palavras 6.373
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Bissexualidade, Estupro, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Nudez, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Último capítulo.

Capítulo 26 - Lauren



   Paramos em um amplo estacionamento lotado de tipos diferentes de viaturas policiais. Mais uma vez seguram meu braço com força e me puxam do carro. A bexiga dolorida me faz estremecer quando fico em pé, a brisa nos meus braços me levando a tiritar. Depois de cruzar o asfalto, sou conduzida por uma espécie de entrada nos fundos, e de lá por um curto corredor e uma porta onde se vê uma placa com os dizeres SALA DE OCORRÊNCIAS. Um policial uniformizado está sentado atrás de uma escrivaninha alta. Os dois ao meu lado o chamam de Sargento e o informam sobre o meu delito, mas para meu grande alívio ele mal olha para mim, digitando mecanicamente meus dados no computador. A acusação é lida para mim mais uma vez, mas quando me perguntam se a entendo, não aceitam que eu apenas concorde com a cabeça.    A pergunta é repetida e eu sou obrigada a usar a voz.
– Entendo – consigo sussurrar. Longe de casa e do perigo de deixar Camila ainda mais abalada, sinto que começo a perder as forças: sucumbindo ao choque, ao horror, ao pânico cego da situação.
   Mais perguntas se seguem. Novamente me mandam repetir o nome, o endereço, a data de nascimento. Eu me esforço para responder, meu cérebro parecendo pouco a pouco se desligar. Quando perguntam minha ocupação, hesito.
– Eu não… tenho uma.
– Está recebendo o seguro-desemprego?
– Não. Ainda… ainda estou na escola.
   Só então o sargento levanta os olhos para mim. Meu rosto arde sob seu olhar penetrante.
   Em seguida vêm as perguntas sobre minha saúde, e meu estado mental também é indagado – sem dúvida pensam que só uma psicopata seria capaz de cometer um crime desses. Perguntam se quero um advogado e na mesma hora faço que não. A última coisa de que preciso é de mais alguém metido nessa história, para ouvir todas as coisas horríveis que fiz. Seja como for, estou tentando provar minha culpa, não minha inocência.
   Depois de retirarem as algemas, pedem que eu entregue meus pertences. Felizmente não tenho nenhum e me sinto aliviada por não ter trazido a foto da parede do quarto. Talvez Camila se lembre dela e consiga salvá-la. Mas não posso deixar de torcer para que recorte os dois adultos sentados em cada ponta do banco e deixe apenas as cinco crianças espremidas no meio. Porque, em última análise, aquela foi a família que nos tornamos. No fim, fomos nós que nos amamos, nós que demos o couro e o sangue para continuarmos juntos. E isso foi o bastante, mais do que o bastante.
   Eles me mandam esvaziar os bolsos, retirar os cadarços do tênis. Mais uma vez o tremor nas mãos me trai, e quando me ajoelho entre as pernas uniformizadas no piso de vinil imundo, sinto a impaciência dos policiais, todo o seu desprezo. Os cadarços são postos em um envelope e sou obrigada a assinar uma declaração de que me pertencem, o que me parece absurdo. Segue-se uma revista corporal, e ao sentir as mãos do policial percorrendo meu corpo, apalpando minhas pernas nas duas direções, começo a tremer violentamente, tendo que me segurar à beira da mesa para me equilibrar.
   Em uma pequena antessala, sento numa cadeira: minha foto é tirada, um cotonete esfregado dentro da minha boca. Enquanto meus dedos são pressionados um por um num coletor de impressões digitais e depois numa planilha, um sentimento de total alienação toma conta de mim. Sou um mero objeto para essas pessoas. Já não sou mais humana.
   Fico aliviada quando finalmente me empurram para uma cela e batem a porta pesada às minhas costas. Para meu alívio, está vazia; é pequena a ponto de dar claustrofobia, sem conter nada além de uma cama estreita de alvenaria, embutida na parede. Há uma janela com barras perto do teto, mas a luz que enche a cela é exclusivamente artificial, agressiva, forte demais. Grafites e manchas de fezes imundiçam as paredes. O fedor é insuportável – muito pior do que o mais nojento dos banheiros públicos – e sou obrigada a respirar pela boca para não ter engulhos.
   Demoro muito tempo para relaxar e conseguir esvaziar a bexiga no vaso de metal. Agora, finalmente longe de olhos vigilantes, não consigo parar de tremer.
   Tenho medo de que um guarda entre a qualquer momento, não consigo me esquecer da janelinha no alto da porta, nem da portinhola móvel na parte inferior. Como vou saber que não estou sendo vigiada neste exato momento?
   Normalmente não sou tão puritana assim, mas depois de ser arrancada da cama de cueca, arrastada para o banheiro por dois policiais e forçada a me vestir na frente deles, gostaria que houvesse um jeito de me cobrir para sempre. Desde que ouvi a acusação horrível, sinto a mais extrema vergonha do meu corpo, do que ele fez – do que os outros acreditam que ele fez.
   Dando a descarga, volto à pesada porta de metal e encosto o ouvido nela. Gritos ecoam pelo corredor, palavrões de um bêbado, um berreiro que não acaba nunca, mas parece vir de uma distância considerável. Se eu ficar de costas para a porta, mesmo que algum guarda me espie pela janelinha, pelo menos não vai poder ver meu rosto.
   Mal descubro que finalmente tenho uma certa privacidade, a válvula de segurança da minha mente, que me mantivera funcionando até agora, é aberta como que à força, e sou inundada por imagens e lembranças. Corro para a cama, mas meus joelhos cedem antes de alcançá-la. Corpo arriado no chão de concreto, cravo as unhas no grosso lençol de plástico costurado ao colchão e me dobro em duas, enfiando o rosto com força na cama fétida, abafando o nariz e a boca o máximo possível. Os soluços devastadores sacodem meu corpo inteiro, ameaçando me desintegrar com a sua força. O colchão inteiro se sacode, meu peito tremendo contra o estrado duro, e eu me asfixiando, me sufocando, me privando de oxigênio, mas incapaz de levantar a cabeça para respirar por medo de emitir um som. Nunca chorar doeu tanto. Tento rastejar para baixo da cama, para o caso de alguém olhar e me ver neste estado, mas o espaço é muito pequeno. Não consigo nem tirar o lençol para me cobrir; simplesmente não há onde me esconder.
   Relembro os gritos angustiados de Chris, seus punhos esmurrando a vidraça, sua figurinha magra correndo ao lado do carro, seu corpo inteiro se rendendo, derrotado, quando compreendeu que não tinha como me salvar. Penso em Taylor e Sofia brincando na casa de Freddie, correndo com os amiguinhos, eufóricas, alheias ao que as aguarda na volta. Será que vão contar a eles o que fiz? Será que vão interrogá-las a meu respeito também – sobre como eu as pegava no colo, lhes dava banho, punha para dormir, fazia cócegas, rolava no chão com elas? Será que vão ser submetidas a uma lavagem cerebral e convencidas de que abusei deles? E nos próximos anos, se tivermos a oportunidade de nos reencontrar já adultas, será que aceitarão me ver? Taylor vai ter uma vaga lembrança de mim, mas Sofia só vai ter convivido comigo durante os cinco primeiros anos de sua vida; que lembranças, se é que alguma, irá guardar?
   Finalmente, fraca demais para continuar reprimindo as lembranças, penso em Camila. Camila, Camila, Camila. Abafo seu nome chamando-o dentro das mãos, esperando que o som me traga algum conforto. Nunca, jamais deveria ter posto a sua felicidade em risco desse jeito. Por ela, pelas crianças, nunca deveria ter permitido que nossa amizade evoluísse. Por mim, não posso me arrepender – não há nada que eu não teria suportado em troca dos meses que passamos juntas. Mas nunca pensei no perigo que isso representava para ela, os horrores a que seria submetida.
   Estou apavorada com o que possam estar fazendo com ela neste exato momento – bombardeando-a de perguntas que ela vai ter que se esforçar para responder, dividida entre o impulso de contar a verdade para me proteger e a necessidade de me acusar de estupro para proteger as crianças. Como pude colocá-la numa situação dessas? Como pude lhe pedir para fazer uma escolha dessas?
   O tilintar das chaves e trancas de metal me dá um susto, e eu mergulho em um estado de confusão e pânico. Um guarda me manda levantar, informando que vou ser levada para a sala de entrevistas. Antes mesmo que meu corpo possa obedecer, sou segurada pelo braço e posto de pé. Eu me afasto por um momento, desesperada para pôr os pensamentos em ordem – só preciso de um momento para clarear as ideias e me lembrar do que devo dizer. Essa pode ser a minha única chance e não posso cometer erros, nenhum erro, para que não haja a menor discrepância entre o depoimento de Camila e o meu.
   Sou algemada novamente e conduzida por vários corredores longos, excessivamente iluminados. Ignoro quanto tempo se passou desde que fui jogada naquela cela – o tempo deixou de existir: não há janelas, nem sei que horas são do dia ou da noite. Estou tonta de dor e medo: uma palavra errada, um gesto em falso e posso estragar tudo, deixar escapar algo que implicaria Camila no que aconteceu.
   Como a minha cela, a sala de entrevistas tem uma iluminação agressiva: fortes lâmpadas fluorescentes tingem o ambiente com um amarelo fantasmagórico. Não é muito maior do que a cela, mas agora o fedor de urina é substituído pelo cheiro de suor e ar estagnado, as paredes são nuas e o chão acarpetado. Os únicos móveis são uma mesa estreita e três cadeiras. Dois policiais estão sentados perto da cabeceira: um homem e uma mulher. O homem parece ter seus quarenta e poucos anos, com um rosto fino e cabelo curto. A dureza dos olhos, a expressão séria e a contração do queixo sugerem que ele já passou por isso muitas vezes e já fez muitos criminosos abaixarem a crista – ele parece atilado e astuto, e há algo duro e intimidante no seu jeito. A mulher, por outro lado, parece mais velha e mais comum, com o cabelo preso num rabo de cavalo e uma expressão de quem está farta da vida, mas seus olhos têm o mesmo brilho astuto.    Os dois parecem ter sido bem treinados na arte de manipular, ameaçar, bajular ou mesmo mentir para conseguir o que querem dos suspeitos. Mesmo no meu estado de confusão e atordoamento, sinto na hora que eles são competentes no que fazem.
   Sou levada até uma cadeira de plástico cinza colocada em frente a eles, a menos de meio metro da mesa e com as costas para a parede. Não faria muita diferença se estivéssemos os três espremidos numa jaula: a mesa não é muito larga e tudo parece próximo demais, o que é angustiante. Tenho consciência do meu rosto pegajoso, dos cabelos grudados na testa, da camisa colada à pele, das manchas de suor visíveis no tecido fino. Estou me sentindo imunda, nojenta, o gosto da bílis na garganta, do sangue azedo na boca, e apesar da expressão impassível dos detetives, sua repulsa é quase ostensiva nesse espaço pequeno e enclausurado.
   O homem não levantou a cabeça desde que fui trazida, apenas escrevendo sem parar numa ficha. Quando finalmente ergue os olhos, tremo nas bases e automaticamente tento arrastar a cadeira para trás, mas ela não sai do lugar.
– Esta entrevista vai ser gravada e filmada. – Olhos duros como pedrinhas cinzentas perfuram os meus. – Tem algum problema para você?
   Como se eu tivesse escolha.
– Não. – Noto uma câmera discreta no canto da sala, virada para o meu rosto.
   Mais gotas de suor brotam na minha testa.
   O homem empurra uma chavinha em algum tipo de gravador e lê em voz alta o número do caso, seguido pela data e a hora. Então, diz:
– Estamos presentes eu, Detetive Inspetor Sutton; à minha direita, a Detetive Inspetora Kaye; e à nossa frente, a suspeita. Quer se identificar, por favor? – A quem exatamente ele está se dirigindo? A outros policiais, a repórteres, ao juiz e ao júri? Será que essa entrevista vai ser exibida no tribunal? Será que minhas próprias descrições do crime hediondo que cometi vão ser apresentadas à minha família? Será que Camila vai ser obrigada a me ouvir gaguejar e me enrolar toda durante esse interrogatório, para então exigirem que confirme se eu disse a verdade?
   Por Deus, não pense nisso agora. Pare de pensar nisso – as duas únicas coisas em que você deve se concentrar são seu comportamento e suas palavras. Tudo que sair da sua boca tem que ser totalmente convincente.
– Lauren Michelle Jau… – Pigarreio; minha voz sai fraca e mal modulada. – Lauren Michelle Jauregui.
   Em seguida, vêm as perguntas de praxe: data de nascimento? Nacionalidade? Endereço? O Detetive Sutton mal ergue os olhos, ora tomando notas na ficha, ora folheando meus dados, os olhos indo depressa de um lado para o outro.
– Você sabe por que está aqui? – Seus olhos se cravam nos meus de repente, me dando um susto.
Faço que sim. Engulo em seco.
– Sei.
  Caneta em riste, ele continua a me encarar, parecendo esperar que eu continue.
– Por… por abusar sexualmente da minha irmã – digo, a voz tensa mas firme.
   As palavras pairam no ar como furos de agulhadas sangrando na pele. Sinto a atmosfera se espessar, se estreitar. Embora esses detetives já tenham tudo escrito à sua frente, a admissão em voz alta, diante de uma câmera e um gravador, torna tudo irrevogável. Não me sinto mais como se estivesse mentindo. Talvez não haja uma verdade universal. O que é incesto consensual para mim é abuso sexual de uma criança da família para eles. Talvez ambos os rótulos estejam certos.
   E então, as perguntas começam.
  No começo, são apenas sobre coisas secundárias. As minúcias tediosas, intermináveis: onde nasci, os membros de minha família, as datas de nascimento de todos, os detalhes a respeito de nosso pai, de meu relacionamento com ele, com meus irmãos, com minha mãe. Procuro ser o mais fiel possível aos fatos, contando até mesmo que nossa mãe trabalha até tarde num restaurante e que namora Dave.
   Tenho o cuidado de omitir as partes que, espero, ela e Chris também terão o bom-senso de omitir: seu problema com a bebida, as brigas por dinheiro, a mudança para a casa de Dave, e finalmente o abandono quase total da família. Em vez disso, conto a eles que só recentemente ela começou a trabalhar até mais tarde e que eu faço bicos como baby sitter à noite, mas só depois que as crianças já estão dormindo. Até agora, tudo bem. Não é a estrutura familiar ideal, mas pelo menos se encaixa dentro dos limites da normalidade. E então, quando já entrei nos menores detalhes, do número de cômodos na nossa casa até nossas notas e atividades extracurriculares, a pergunta é finalmente feita:
– Quando foi a primeira vez que você teve qualquer tipo de contato sexual com Camila? – O olhar do policial é direto e sua voz tão sem entonação quanto antes, mas de repente ele parece estar me observando com atenção, à espera da menor
mudança no meu rosto.
   O silêncio engrossa o ar, drenando-o de oxigênio, e tomo consciência do som de minha respiração ofegante, os pulmões automaticamente implorando por mais ar. Também percebo o suor escorrendo dos lados do rosto, e tenho certeza de que ele vê o medo em meus olhos. Estou exausta, sentindo dor e desesperada para urinar de novo, mas obviamente ainda falta muito para a entrevista terminar.
– Quando… quando o senhor diz “contato sexual”, está se referindo a… a sentimentos, ou à primeira vez que nós… quer dizer, à primeira vez que eu t-toquei nela, ou…?
– A primeira vez que vocês se expuseram de maneira inapropriada ou tiveram qualquer tipo de contato. – Sua voz endureceu, o queixo se contraiu e as palavras dispararam como balas de sua boca.
   Lutando com a confusão mental e o pânico, tento elaborar a resposta certa. É fundamental que eu não erre uma palavra, para que meu depoimento bata exatamente com o de Camila. “Contato sexual”. Mas o que isso quer dizer exatamente?Aquele primeiro beijo na noite em que ela saiu com Mendes?Ou antes, quando dançamos na sala?
– Quer responder à pergunta! – A temperatura está subindo. Ele acha que estou embromando para poder me eximir de qualquer responsabilidade, quando na realidade é o contrário.
– Eu… eu não me lembro exatamente da data. D-deve ter sido em meados de novembro. S-sim, novembro… – Ou terá sido outubro? Ah, meu Deus, já comecei a estragar tudo.
– Me conte o que aconteceu.
– OK. Ela… chegou em casa depois de um encontro com um cara da escola. Nós… tivemos uma discussão porque eu a crivei de perguntas. Eu estava preocupada… quer dizer, irritada, querendo saber se ela tinha dormido com ele. Aí eu fiquei transtornada…
– O que quer dizer com “transtornada”?
Não. Por favor.
– Eu comecei… comecei a chorar… – Exatamente como vou fazer agora, à simples lembrança da dor que senti aquela noite. Virando a cabeça em direção à parede, mordo a língua com força, mas nem a dor dos dentes cortando a carne surte mais qualquer efeito. Nenhum nível de dor física consegue se sobrepor à agonia mental. Em cinco minutos de interrogatório, já estou desmoronando. É inútil, tudo é inútil, eu sou uma inútil, vou falhar com Camila, com todos eles.
– E depois, o que aconteceu?
   Recorro a todos os truques possíveis para manter as lágrimas sob controle, mas nada adianta. A pressão aumenta, e vejo pela expressão de Sutton que ele acha que estou tentando ganhar tempo, fingindo sentir remorso, mentindo.
– E depois, o que aconteceu? – Dessa vez, ele levanta a voz.
  Estremeço.
– Eu disse a ela… eu tentei… disse a ela que tinha… eu a forcei a…
   Não consigo pronunciar as palavras, embora esteja tentando desesperadamente, desejando poder gritá-las para o mundo inteiro ouvir. É como ser forçada a ficar na frente da turma outra vez, as palavras obstruindo a garganta, o rosto ardendo de vergonha. Só que dessa vez não me pedem para ler uma redação em voz alta e sim me interrogam sobre os detalhes mais íntimos e pessoais da minha vida, todos os doces momentos passados com Camila, todas as horas preciosas que fizeram dos últimos três meses os mais felizes da minha vida.
   E agora eles são esfregados na nossa família como fezes na parede da cela – uma sordidez podre, imunda, hedionda, e eu no papel da perpetradora, forçando minha irmã a cometer os atos sexuais mais torpes.
– Lauren. Sugiro que pare de desperdiçar nosso tempo e comece a colaborar. Como tenho certeza de que você já sabe, no Reino Unido a pena máxima de reclusão para estupro é prisão perpétua. Agora, se você colaborar e se mostrar arrependida pelo que fez, é quase certo que essa pena será reduzida, talvez mesmo a um período de reclusão tão curto quanto sete anos. Mas se mentir ou tentar negar qualquer coisa, vamos descobrir de um jeito ou de outro, e o juiz será muito menos leniente.
   Mais uma vez tento responder, e mais uma vez falho. Eu me vejo pelos olhos deles – uma viciada em sexo, pervertida, desajustada, grotesca, reduzida a abusar da irmã mais nova com quem brincava na infância, sua própria carne, seu próprio sangue.
– Lauren… – A detetive se inclina para mim, mãos entrelaçadas, braços estendidos sobre a mesa. – Posso ver o quanto você se sente mal pelo que aconteceu. E isso é bom. Significa que está começando a assumir a responsabilidade pelos seus atos. Talvez você não acreditasse que se relacionar sexualmente com a sua irmã faria mal a ela, talvez nem tenha falado sério quando ameaçou matá-la, mas você precisa nos contar exatamente o que aconteceu, exatamente o que fez e disse. Se tentar distorcer ou omitir algo, embromar ou mentir, as coisas vão ficar muito mais complicadas para você.
   Respirando fundo, faço que sim, me esforçando ao máximo para mostrar a eles que estou disposta a colaborar, que não precisam recorrer a essa jogada do “tira bom, tira mau” para me fazer confessar. Só preciso de forças para me recompor, trancar as lágrimas e encontrar as palavras certas para descrever tudo que forcei Camila a fazer comigo, tudo que a forcei a suportar.
– Lauren, você tem um apelido?
   A Detetive Kaye ainda está desempenhando o papel da “amigona”, fingindo me confortar e me dar força, na esperança de que eu confie nela e relaxe, me acalme e acredite que ela está tentando mesmo ajudar e não extrair uma confissão.
– Laur… – digo sem pensar. – Lolo… – Ah, não. Só a minha família me chama assim. Só a minha família!
– Lolo, preste atenção. Se você colaborar conosco, se nos contar tudo que aconteceu, vai fazer uma diferença enorme no resultado disso tudo. Afinal, somos todos humanos. Todos cometemos erros, não é? Você só tem dezoito anos. Tenho certeza de que não se deu conta da gravidade do que estava fazendo, e o juiz vai levar isso em consideração.
   Tá legal. Pensa que eu sou tão burra assim? Tenho dezoito anos e vou ser julgada como adulta. Guarde suas mentiras manipuladoras para os que estão realmente tentando esconder os seus atos.
   Faço que sim e seco os olhos na manga. Puxando os cabelos com as mãos algemadas acima da cabeça, começo a falar.
   As mentiras são a parte mais fácil – forçar Camila a faltar às aulas, ir para a cama com ela todas as noites, repetir a mesma ameaça sempre que ela me implorava para deixá-la em paz. É quando chega a hora de contar a verdade que as palavras me fogem – é a nossa verdade, os nossos segredos mais íntimos, os nossos momentos mais privados, os preciosos detalhes das breves e idílicas horas que passamos juntas. Essas são as partes que me fazem gaguejar e tremer. Mas eu me obrigo a continuar, embora não consiga mais conter as lágrimas, mesmo quando elas começam a escorrer pelo meu rosto e minha voz a tremer pelos soluços reprimidos, mesmo quando sinto a repulsa em seus olhares começar a se misturar com pena.
   Eles querem saber tudo, nos seus mínimos detalhes. Aquela tarde na cama, nossa primeira noite juntas. O que eu fiz, o que ela fez, o que eu disse, o que ela disse. Como eu me senti…Como reagi… Como meu corpo reagiu… Conto a verdade, e é como se alguém enfiasse a mão dentro do meu peito e começasse lentamente a me estraçalhar. Quando finalmente chegamos aos acontecimentos da manhã, quando chegamos ao ponto a que eles se referem como “penetração”, tenho vontade de morrer, tamanha é a minha dor. Eles perguntam se usei alguma proteção, se Camila chorou de dor, quanto tempo durou… Dói tanto, é uma coisa tão humilhante, tão degradante, que chega a me dar ânsia de vômito.
   O interrogatório parece se estender por horas a fio. Tenho a sensação de ser de madrugada e estarmos trancados nessa sala minúscula e sem ar por toda a eternidade. Eles se revezam indo pegar café ou biscoitos. Perguntam se quero um copo d’água, mas recuso. Por fim, estou tão destroçada que só consigo ficar chupando os dois dedos médios como fazia em pequena, encostada de lado na parede, a voz totalmente rouca, o rosto pegajoso de suor e lágrimas congeladas.
   Em meio a um denso nevoeiro, escuto os dois me informando que vou ser levada de novo à cela, e que a entrevista vai continuar amanhã.
   O gravador é desligado, outro guarda vem me buscar, mas por alguns momentos não consigo me levantar. O Detetive Sutton – que permaneceu frio e impassível a maior parte do tempo – suspira e balança a cabeça com um olhar quase de pena.
– Sabe, Lauren, estou neste emprego há muitos anos, e posso ver que você sente remorso pelo que fez. Mas tenho medo de que seja um pouco tarde demais. Não apenas você foi acusada de cometer um crime muito grave, como suas ameaças parecem ter apavorado tanto a sua irmã, que ela deu um depoimento formal afirmando que o relacionamento sexual de vocês foi plenamente consensual e instigado por ela.
   Todo o ar sai do meu corpo. Minha exaustão evapora. De repente, só as batidas do meu coração horrorizado enchem o ar. Ela contou a verdade a eles? Ela contou a verdade a eles?
– Um depoimento formal… Mas isso não tem mais qualquer valor, não é? Agora que eu confessei tudo, que disse a vocês exatamente o que aconteceu. Vocês sabem que ela só disse essas coisas porque foi o que eu a mandei dizer, porque disse que mandaria matá-la se eu fosse para a cadeia. Quer dizer, ninguém está acreditando nela, está? Agora que eu confessei! – Minha voz rachada e seca está tremendo muito, mas preciso me manter calma. Mostrar remorso é uma coisa, mas
tenho que disfarçar a extensão do meu horror e incredulidade.
– Isso vai depender de como o juiz interpretar a situação.
– O juiz? – Agora estou aos berros, minha voz beirando a histeria. – Mas não é Camila que está sendo acusada de estupro!
– Não, mas mesmo o incesto consensual é delituoso. Com base na Seção Sessenta e Cinco da Lei dos Crimes Sexuais, sua irmã pode ser julgada por “consentir em ser penetrada por um parente adulto”, o que pode ser punido com uma pena de até dois anos de reclusão.
   Fico olhando para ele. Muda. Atônita. Não pode ser. Não pode ser.
   O detetive suspira e atira a ficha na mesa, num súbito gesto de cansaço.
– Portanto, a menos que sua irmã anule o depoimento, ela também corre o risco de ser presa.
Por que, Camila, meu amor? Por que, por que, por quê?
   Jogada no chão, meio encostada na porta de metal, olho sem enxergar a parede à minha frente. Meu corpo inteiro está doendo por ficar totalmente imóvel por um espaço de tempo que calculo ser de horas a fio. Não tenho mais forças para continuar batendo com a cabeça na porta numa tentativa desesperada, enlouquecida de pensar num jeito de fazer com que Camila anule o seu depoimento.
   Depois de ficar gritando sem parar, implorando aos guardas que me deixassem ligar para casa, acabei por perder totalmente a voz. Nunca mais vão permitir que Camila e eu tenhamos qualquer contato – pelo menos até que eu cumpra a minha pena, o que, de acordo com aquele detetive que me interrogou, pode ser daqui a uma década!
   Minha mente está se desintegrando e mal consigo pensar, mas pelo que entendo, o fato concreto é que, a menos que Camila anule o depoimento, ela vai ser presa como eu, talvez até na frente de Taylor e Sofia. Sem ninguém para cuidar delas, ninguém para encobrir o alcoolismo e a negligência de nossa mãe, as três crianças provavelmente vão ser mandadas para uma instituição. E Camila será trazida para a delegacia, submetida às mesmas humilhações, aos mesmos interrogatórios, e acusada, como eu, de cometer um crime sexual. Mesmo com minha palavra contra a dela, vai haver pouco que eu possa fazer. Se continuar a insistir que fui eu que cometi o abuso, eles vão imediatamente perguntar por que, de uma hora para outra, estou tão desesperada para eximir Camila de qualquer responsabilidade – ainda mais depois de ter abusado dela várias vezes e de ameaçar matá-la se contasse a alguém. Vou ser encurralada, ficar de mãos atadas para protegê-la, pois quanto mais insistir que Camila é inocente e eu culpada, mais provável vai ser que acreditem na confissão dela. Não vão demorar muito para descobrir que estou apenas me incriminando para protegê-la, que estou mentindo porque a amo e nunca abusaria, ameaçaria ou faria qualquer mal a ela. E, é claro, ainda resta Chris – a única testemunha. Mesmo Taylor e Sofia, se forem interrogadas, vão insistir que em nenhuma ocasião Camila pareceu sentir medo de mim – que estava sempre sorrindo para mim, rindo comigo, segurando minha mão, até mesmo me abraçando. E eles vão entender que Camila é tão cúmplice nesse crime quanto eu.
   O que quer que eu tente fazer agora é inútil, ainda mais porque qualquer tentativa de pegar Camila em uma mentira não vai dar em nada, pois será ela quem estará dizendo a verdade. Vai ser fácil para ela explicar o tapa que provocou o corte em seu lábio como sendo uma última tentativa desesperada de fazer com que eu parecesse estar abusando dela.
   Camila vai ser julgada e condenada a dois anos de prisão. Vai começar sua vida adulta atrás das grades, separada não apenas de mim, mas de Chris, Taylor e Sofia, que a amam tanto. Mesmo depois de cumprir sua pena, ela vai ser uma mulher emocionalmente marcada pelo resto da vida. Impedida de ver os irmãos por causa de seu crime, vai ficar totalmente sozinha no mundo, abandonada pelos amigos, enquanto eu continuo trancada cumprindo uma pena consideravelmente mais longa por ter sido julgada como adulta. A ideia disso tudo é, em poucas palavras, mais do que posso suportar. E sei que, a menos que consiga dar um jeito de me comunicar com ela, a teimosa e passional Camila, que me ama tanto, não vai voltar atrás. Ela já fez a sua escolha. Como gostaria de poder lhe dizer que preferiria passar o resto da vida na prisão a permitir que ela seja submetida a qualquer um desses horrores…
   Mas não adianta ficar sentada aqui e me entregar. Nada disso pode acontecer.
   Não vou deixar que aconteça. Ainda assim, apesar de refletir por horas a fio, de tempos em tempos dando socos de total frustração no frio concreto que me cerca, não consigo pensar em nenhuma maneira de fazer com que Camila mude de ideia.
   Estou começando a me dar conta de que nada vai fazer com que Camila anule o seu depoimento e me acuse de estupro. A essa altura ela já deve ter tido tempo de concluir que, se fizer isso, vai me mandar para a prisão. Se eu fugisse, como ela sugeriu no começo, se por algum milagre eu conseguisse não ser pega, ela teria mentido sem pensar duas vezes, pelo bem das crianças. Mas, sabendo que estou aqui, trancada numa cela de delegacia, minha vida inteira dependendo de sua acusação ou confissão, ela nunca vai voltar atrás. Agora vejo isso com uma certeza esmagadora. Ela me ama muito. Ela me ama demais.    Eu queria tanto o seu amor, todo ele. Realizei meu desejo… e agora nós duas estamos pagando o preço. Como fui estúpida por pedir que ela fizesse isso, compreendo agora, por esperar que sacrificasse minha liberdade para proteger a dela. Minha felicidade significava tudo para ela, tanto quanto a dela para mim. Se a situação se invertesse, será que eu chegaria sequer a pensar em acusar Camila em falso para não ser punida?
   O remorso não para de me roer por dentro. Se eu tivesse fugido quando a chance existia, se tivesse ido embora e me livrado de ser presa, Camila não teria confessado. Nada se ganharia em contar a verdade, só teria servido para prejudicar as crianças. Ela nunca teria confessado se eu não tivesse sido presa…
   Meu olhar segue lentamente pela parede até a pequena janela na aresta, pouco abaixo do teto. E de repente a solução está bem diante de mim. Se quero que Camila anule sua confissão, não posso estar aqui para ser levada a julgamento, não posso ficar presa numa cela de delegacia esperando ser condenada. Tenho que cair fora.
   Desfazer as costuras do lençol preso ao colchão não demora a me deixar com as mãos rígidas e os dedos dormentes. Conto os segundos entre uma e outra checada do guarda, em voz baixa e ritmada, enquanto vou rompendo as costuras de maneira meticulosa e metódica. Quem projetou essas celas soube garantir sua segurança. A pequena janela fica tão longe do chão que seria preciso uma escada de três metros para alcançá-la. Também é gradeada, claro, mas as barras são salientes no alto. Com um arremesso preciso, acredito que vou conseguir laçar um dos espetos de ferro para que as tiras amarradas do lençol rasgado caiam baixo o bastante para eu alcançar, como aquelas cordas que costumávamos usar para escalar paredes nas aulas de educação física. Lembro que eu era boa nisso, sempre a primeira a chegar ao alto. Se conseguir um resultado semelhante dessa vez, vou alcançar a janela, aquele pedacinho de luz do sol, meu portal para a liberdade. É um plano doido, eu sei. Um plano desesperado. Mas eu estou desesperada. Não resta nenhuma opção. Tenho que ir. Tenho que desaparecer.
  As barras que protegem a vidraça mostram sinais de ferrugem e não parecem muito fortes. Se não se quebrarem antes de eu chegar à janela, isso é capaz de dar certo.
   Seiscentos e vinte e três segundos desde que ouvi os passos pela última vez diante da porta da cela. Quando estiver pronta, vou ter uns dez minutos mais ou menos para agir. Li que já houve quem conseguisse fazer isso – não é algo que acontece apenas nos seriados policiais. É possível. Tem que ser.
   Depois de finalmente despregar toda a bainha ao redor do lençol de plástico, dou um pequeno puxão nele e sinto que se move embaixo de mim, não mais preso ao colchão. Estendendo-o à minha frente, uso os dentes para dar o primeiro talho e então começo a rasgá-lo, pedaço por pedaço.    Calculando por alto, estimo que três tiras dele amarradas devam ficar do comprimento certo. O plástico é resistente e minhas mãos estão doendo, mas não posso me arriscar a rasgá-lo de uma maneira barulhenta por medo de ser ouvia. Já estou com as unhas quebradas e as pontas dos dedos sangrando quando finalmente consigo dividir o tecido em três partes iguais. Mas agora, só preciso esperar que o guarda passe.
   Os passos começam a se aproximar, e de repente tenho uma tremedeira. E tão forte que mal consigo pensar. Não vou conseguir levar isso adiante. Sou covarde demais, estou apavorada demais. Meu plano é ridículo – vou ser apanhada, vou me dar mal. As barras parecem muito frouxas. E se elas se quebrarem antes de eu chegar à janela?
   Os passos se afastam e na mesma hora começo a emendar as tiras. Os nós têm que ser apertados, muito apertados – o bastante para suportar o peso do meu corpo. Tomo um banho de suor, que começa a escorrer para os olhos, embaçando a visão. Tenho que andar depressa, depressa, depressa, mas as mãos não param de tremer. Meu corpo, aos gritos, me manda parar, desistir. Mas a cabeça me manda ir em frente. Nunca senti tanto medo na vida.
   Mas eu erro. Uma vez atrás da outra. Apesar do peso do plástico e do laço apertado na ponta, não consigo fazer com que fique preso em um dos espetos de ferro. Fiz o laço pequeno demais. Superestimei minha capacidade de atingir um alvo num momento de pânico, com as mãos trêmulas. Finalmente, num louco arroubo de desespero, atiro o laço para o teto e, para meu espanto, ele cai em cima de um único espeto, as tiras emendadas caindo rentes à parede como uma corda grossa. Fico olhando para ela por um momento em total estado de choque: está lá, esperando para que eu suba, meu caminho para a liberdade. Com o coração aos pulos, levanto os braços para me segurar no ponto mais alto possível.
   Me alçando com os braços, levanto as pernas, dobro os joelhos e cruzo os tornozelos para prender a corda entre os pés e começar a subir.
   Chegar ao alto demora muito mais do que eu tinha imaginado. As palmas das mãos estão suadas, os dedos fracos de ficar descosturando e rasgando o lençol e, ao contrário das cordas da escola, as tiras emendadas quase não oferecem apoio para as mãos. Assim que chego ao alto, enlaço os braços nas barras, meus pés se agitando à procura de uma base na parede áspera, irregular. O dedo do meu sapato encontra uma pequena protuberância, e graças à resistência do solado do tênis, consigo me manter. Chegou a hora H. Será que minha subida afrouxou as barras? Será que um último puxão violento para baixo irá levá-las a se desprender da parede?
   Não tenho tempo de inspecionar a ferrugem em volta dos parafusos. Como um alpinista à beira de um penhasco, eu me seguro às barras com as mãos e me apoio à parede com os pés, cada músculo do corpo lutando contra a força da gravidade.
   Se me pegarem agora, vai estar tudo acabado. Mas eu ainda hesito. Será que as barras vão se quebrar? Será que vão se quebrar? Por um breve momento sinto a luz dourada do poente banhar meu rosto pela vidraça empoeirada. Para além dela, está a liberdade. 

Parece até ser verão, mas ainda falta algum tempo para ele chegar. A minha estação favorita, porém não vou vê-la novamente.

Fechada nessa caixa sem ar, tenho um vislumbre do mundo lá fora, o vento agitando as árvores verdes a distância. O vidro grosso é como uma parede, me separando de tudo que é real, está vivo e é necessário. Em que altura você desiste – e decide que já basta? Só há uma resposta. Nunca.

   O momento chegou: se eu falhar, vão me ouvir e me pôr sob vigilância ou me transferir para uma cela mais segura, por isso tenho plena consciência de que essa é a minha única chance. Um soluço de pavor ameaça escapar. Estou começando a chorar – alguém vai ouvir. Mas eu não quero fazer isso. Estou com medo. Com muito medo.
   Com o braço esquerdo ainda enlaçando as barras, sustentando quase o peso inteiro do corpo – o metal cortando a carne, afundando até o osso –, solto uma das mãos para pegar o lençol pendurado abaixo de mim. E então percebo que não há mais tempo. O guarda vai voltar pelo corredor a qualquer momento. Não tenho mais desculpas. Apesar do terror, do terror de uma brancura cegante, passo o
segundo laço que fiz pelo pescoço. Aperto o nó. Um soluço agudo vara o silêncio.
E então, eu me solto.
   Os grandes olhos castanhos de Sofia, seu sorriso entre covinhas. A juba arrepiada de Taylor, seu sorriso petulante. Os gritos eufóricos de Chris, seu ar orgulhoso. O rosto de Camila, os beijos de Camila, o amor de Camila.
Camila, Camila, Camila…


Notas Finais


Ainda tem um epílogo.
Não me matem, pois foi por amor. Amor a Camila, amor a família. 💔


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