História Quando os mortos caminham - Capítulo 21


Escrita por: ~

Postado
Categorias Naruto
Personagens Deidara, Gaara do Deserto (Sabaku no Gaara), Hidan, Hinata Hyuuga, Ino Yamanaka, Itachi Uchiha, Karin, Konan, Konohamaru, Naruto Uzumaki, Neji Hyuuga, Sakura Haruno, Sasori, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara, TenTen Mitsashi
Tags Ação, Apocalipse, Gaaino, Naruhina, Sasusaku, Zumbis
Exibições 271
Palavras 13.300
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Comédia, Drama (Tragédia), Ficção, Luta, Romance e Novela, Survival, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


HUMANOS BONITOS!

Eu sei, eu sei. Quase uma semana para postar um capítulo novo, mas não tive culpa. Olha só o tamanho que esse cap ficou. Pq tão grande? u.u

Primeiro, pq essa Chiyo dá trabalho demais. Velha chata. E segundo, pq eu PRECISAVA de SasuSaku nesse cap. ;D

Então, o que dizer? Espero que estejam com paciência para ler pq o bichinho tá grande kkk

Aproveitem! <3

Capítulo 21 - Pequena arqueira


As chamas nos destroços já haviam dissipado, porém o alto calor do entulho ainda levantava uma tímida camada de fumaça que, sem os ventos da madrugada, subiam sem empecilho e ganhavam os céus.

Alguns infectados cirandavam o terreno outrora ocupado pelos sobreviventes. Caminhavam devagar, quase arrastando os próprios pés e gemendo um som mórbido dada a falta do que caçar.

Até a acústica daquele local recém abandonado, que já fora um suntuoso abrigo, ganhar um som de rosnado baixo, seguido de passos pesados e vagarosos. Da única trilha de acesso, a criatura surgia com sua imponência desafiadora, o cenho e extensão do focinho franzidos, entregando o quão implacável era seu temperamento, rosnando com as duas fileiras de dentes afiados à mostra, saliva pingando e marcando o caminho por onde passava. Fora atraído pelos intensos barulhos das explosões provocadas naquele lugar e agora revelava sua presença ameaçadora para verificar do que se tratava.

Sua extensão corporal era trabalhada por músculos em carne viva, rígidos. Seu pescoço era curto, resultado da musculatura dominante. A pouca pelagem que resistira ao esticamento de sua pele era de um tom alaranjado. Como de todas as outras bestas, seu olhar era branco por inteiro, com algumas veias vermelhas saindo das extremidades e parando pouco antes do centro de seu globo ocular. Em sua orelha esquerda, uma etiqueta já gasta e com sangue seco revelava sua identificação como Cobaia 14. Era a personificação de todas as teorias que envolviam as consequências mais tenebrosas do vírus, o resultado supremo do que uma mutação é capaz de fazer.

Caminhou até onde antes ficava a entrada da casa, passando rente ao corpo de Shikamaru. Abaixou a cabeça até seu focinho roçar no gramado queimado e deu uma farejada rápida. Seu olfato altamente apurado entregou indícios de presença humana recente. Rosnou baixo de prazer e deu início à uma maratona ininterrupta de farejadas, enquanto seu corpo era instintivamente guiado por onde o cheiro perdurava.

Até captar mais cheiros e seu instinto assassino gritar por sangue. Rosnou com toda a fúria e anseio em encontrar os donos daquele odor, emendando em um alto rugido com o rosto alavancado ao céus. Impulsionou as patas traseiras e, com uma súbita retirada, arrancou em velocidade assustadora na direção por onde Naruto e os demais sobreviventes seguiram. E como se seu rugido despertasse um exército particular, os mortos que por ali vagavam tiveram seus instintos predatórios acionados, rumando com toda a força de suas pernas pútridas na direção por onde a besta avançava.

...

Era a terceira posição confortável que ela buscava naqueles lençóis, mas era só fechar o olho que algo dentro de si a despertava de súbito. Estava impossível dormir e, como se não fosse suficiente sua própria inquietação, Chiyo sequer desligara o gramofone. A canção Suspicious Minds ecoava abafada pelo quarto, mas era suficiente para impedir qualquer tentativa de buscar quietude; e aquilo só a irritava a cada minuto.

Em uma última tentativa de alcançar o sono, Karin virou de barriga para cima e fechou os olhos, praticamente obrigando sua mente à desligar. Alguns segundos depois, abriu o olho novamente, sentindo seu corpo reclamar daquela posição.

- Mas que droga - Praguejou em um sussurro, apoiando a palma da mão na testa e fechando os olhos, respirando irritada.

Jogou o lençol com birra, descobrindo suas pernas. Sentou na beirada da cama e tentou alcançar os seus óculos acomodados na cômoda ao lado de onde repousava, não fosse um barulho de porta fechando chamar sua atenção. A porta de seu quarto.

Por acreditar na segurança e calmaria daquela casa, a morena apenas olhou desconfiada na direção da saída de seu quarto, com a mão suspensa no ar, por ter interrompido seu movimento.

Alguns segundos se passaram e sequer ouviu outro barulho, deduzindo que o vento fora responsável por causar aquele som. Arqueou rápido as duas sobrancelhas e respirou fundo enquanto recolhia os óculos e os colocava.

Calçou sua sapatilha, levantou da cama e começou a caminhar casualmente até a saída. Girou a maçaneta e abriu a porta enquanto o dedo indicador e o polegar de sua mão livre coçavam seus olhos por baixo dos óculos. Estava totalmente relaxada e despreocupada, não percebendo a silhueta masculina escorada na parede do lado de fora de seu quarto.

Sequer teve tempo de ver qualquer sinal de perigo. No segundo que seguiu sua saída do cômodo, sentiu uma mão fétida e calejada pressionar a palma com força contra sua boca. No susto, a morena só conseguiu arregalar o olho e urrar como reação. Sentiu um braço enrijecido e grosso circundar seus braços e tronco, logo abaixo dos seios, a puxando até suas costas impactarem aquele peitoral duro coberto por um casaco cinza muito surrado.

Sem saber o que acontecia, nem como fora parar naquela situação desesperadora, a morena começou a urrar incessantemente, os sons de sua boca escapando por entre os dedos sujos daquele homem. Ele nada falou, começou a caminhar de costas com passos lentos e arrastados; apesar de tudo, Karin era tão forte quanto Sakura, e sabia que precisaria de tal força para tentar escapar daquela que era a situação mais desesperadora em que uma mulher pode se encontrar.

Impulsionou seus pés contra o assoalho por diversas vezes, ganhando a força necessária para dar fortes trancos para cima. Porém, não surtia efeito e só o fazia soltar fortes jatos de ar pelas narinas que acertavam o topo de sua cabeça.

Percebendo que não conseguiria sair daqueles braços, em um último movimento de desespero, Karin tentou chutar as portas onde seus companheiros dormiam. Gesto repelido por um puxão que o homem deu, antes de sumir escada abaixo e seguir na direção da porta ao lado do gramofone com a morena trancada em seus braços.

...

As árvores no terreno de Chiyo eram incontáveis, separadas umas das outras por meros centímetros. Ainda assim, nem suas volumosas folhagens impediam o vislumbrar da grande lua brilhante, assim como a extensão do grande céu estrelado.

Não se podia ver muito de seus rostos. Os cabelos eram grossos, desalinhados e escuros. Longas e espessas barbas ornamentavam seus rostos, a pele com claros sinais de que os anos foram cruéis. O caminhar era lento, meticuloso; estavam atentos à tudo.

As vestes eram sujas, resumidas em botas gastas, calças surradas e casacos maltrapilhos que cobriam a longa extensão de seus fortes e robustos corpos. Porém, aqueles dois homens de aparência deveras rústica, estavam preparados para andarem naquele terreno. Como exímios caçadores, cada um comportava um longo facão na cintura, e suas mãos empunhavam um rifle Tikka T3 e uma carabina M62 de acionamento manual.

Andavam próximos à residência de Chiyo, os olhares dividindo atenção entre vestígios no gramado e espaços entre árvores. Caído entre folhas secas, um infectado recém abatido completava o cenário, com um longo corte que ia do topo do crânio até o início do nariz.

- Não costumavam aparecer tantos - O homem com a T3 murmurou inexpressivo, a ponta do rifle cutucando a bochecha do zumbi, de forma que seu rosto pútrido ficasse em um jogo doentio de vai e vem. O sangue espesso escorrendo pela ferida e preenchendo o chão como resposta - Se essa velha não fosse tão útil, não perderia meu tempo livrando as terras dela dessas coisas - Pareceu pensativo por um instante, com a ponta do rifle pressionando a bochecha do morto - O que acha que essas coisas são?

Ouviu uma longa respirada cansada como resposta.

-Não me importo com o que são - O segundo homem respondeu em um murmúrio, apoiando a carabina em posição vertical no tronco de uma árvore e sentando em uma rocha ao lado. Do bolso interno de seu casaco, recolheu um cantil inox contendo whisky e rosqueou a tampa enquanto seu olhar permanecia inexpressivo na figura do zumbi abatido - Cada vez mais forasteiros aparecem por essas terras por causa deles - Deu um longo gole na bebida, enquanto o outro abria um sorriso malicioso, revelando os dentes mal conservados. Inflou as bochechas para saborear o líquido e o engoliu, fechando o cantil e devolvendo ao bolso de dentro do casaco, ao mesmo tempo em que soprava de satisfação - E com isso, mais mulheres.

Sem virar na direção do companheiro, o homem com a T3 em mãos ergueu pouco o olhar, encarando de forma sombria a extensão da floresta.

- Espero que essas sejam boas - Murmurou lento com uma dose macabra de desejo - As últimas mal aguentaram uma semana - Grunhiu sorrindo de forma nefasta, enquanto apertava o membro por cima da calça e soprava com os olhos semi cerrados de prazer, já imaginando como seriam as jovens hospedadas na casa de Chiyo, perdido no mar lascivo de pensamentos eróticos em sua mente.

Até um som longínquo do que parecia um rugido alcançar seus ouvidos. Parecia distante, pois chegou com a sonoridade de um eco, mas invadiu o íntimo daqueles caçadores e os fizeram entrar de imediato em estado de alerta. Viraram os rostos na direção em que acreditavam vir o barulho, empunhando instintivamente as armas. Enquanto varriam a extensão do terreno com o olhar, suas mentes fizeram rápidas análises entre o amplo repertório de sons animais que os anos de caça acumularam, mas nenhum se assemelhava àquele rugido.

Instantes depois o silêncio retornou.

- Vamos voltar - O homem com a carabina ordenou com um murmúrio cauteloso.

Sem trocarem olhares, nem outras palavras, começaram a caminhar cautelosos para a saída daquela área, enquanto seus olhares varriam entre as árvores e o horizonte, prontos para qualquer investida súbita que, o quer que fosse aquilo, resolvesse fazer.

...

A brecha que abrira não permitiria que entrasse. Porém não fazia diferença, não queria entrar ainda, a visão de Hinata se aninhando nos lençóis lhe prendia toda a atenção.

Era linda, assim como Chiyo descrevera e, diferente da morena de óculos, exalava pureza. Uma pureza que ele, em todo seu transtorno mental, adoraria explorar.

A ponta de sua língua percorria os dentes da fileira de cima, arfando com um desejo doentio conforme seu olhar estático se guiava pelas curvas da jovem. Os cabelos desalinhados e grisalhos, sua barba por fazer e suas vestes maltrapilhas, com algumas manchas de sangue. Seu sangue. Resultado do confronto com o moreno de cabelos rebeldes. Além de ser o homem que sumira com Karin, por uma coincidência sádica do destino, era também o mesmo homem que confrontara Sasuke na farmácia. A marca da coronhada, um misto repulsivo de roxo e verde, ainda era muito visível em sua têmpora.

Quando percebeu a pequena olhar em sua direção, fechou a porta de uma vez, antes que detalhes de seu rosto fossem absorvidos pela visão amedrontada da jovem. Passou a língua de forma macabra pelos dedos sujos e pela sua palma, indiferente à imundície daquela parte de seu corpo, absorto unicamente nas imagens eróticas que formava com a pequena, revirando lentamente o olhar a cada dedo que lambia. Encostou a mão com saliva na porta, na altura de seu rosto, enquanto abria um sorriso diabólico, como se fizesse um selamento macabro.

Atento à tudo, aquele homem nefasto ouviu vozes e movimentação no quarto onde os meninos repousavam. Soltou um rosnado de irritação e começou a descer as escadas, antes que sua figura macabra fosse captada por um do rapazes, ou até mesmo pelo pequeno Konohamaru.

-O que achou? - A voz trêmula e serena de Chiyo parada no final da escada alcançou seus ouvidos enquanto descia o último degrau. Foi abrindo gradativamente um sorriso malicioso como resposta, sem tirar o olhar por onde pisava.

- Ah... Ela é tão bonita - Murmurou aspirando forte e olhando com lascívia para os céus - Aposto que é virgem - Sem abaixar o rosto, usou a visão periférica para encarar Chiyo - Tem certeza que não quer vendê-la para mim? Posso aumentar o tempo de proteção e conseguir mais suprimentos para você - E arqueou as sobrancelhas rapidamente enquanto lambia o canto do lábio, como se incentivasse Chiyo a considerar sua proposta doentia.

Sasori não tinha grandes expectativas quando, na calada da noite, se lançou pela casa em busca de algumas respostas. Não almejava ser um Sherlock Holmes e dar de cara com um enigma para desvendá-lo, apenas queria qualquer vestígio que não o fizesse parecer louco por desconfiar de uma senhora de meia idade.

Não esperava se ver naquela situação, escorado na parede daquele cômodo. Ficava no fundo da sala de estar, fechado com um trinco, cujo acesso era feito por um estreito corredor localizado ao lado da porta de acesso aos fundos. Localização crucial para testemunhar os intensos acontecimentos daquela noite.

Estava cercado por mochilas de viajantes, sacos de dormir enrolados, alguns brinquedos, carrinhos de bebê, violões, e, fugindo de todos os aspectos dos demais itens, estava diante de um arco composto Barnett Vortex, uma luva de três dedos, uma aljava de couro carregando uma boa quantidade de flechas, com um protetor de braço feito de couro, próprio para atirar com arco e flecha. Material de arqueiro profissional.

Mas nada daquilo importava, ao menos, não naquele momento. Ouvia tudo, mesmo com a música em volume moderado, controlando até a própria respiração para que nem o ar saindo de suas narinas atrapalhasse o que ouvia. Seu olhar perdido à frente, para nenhuma imagem lhe tirar o foco voltado à audição.

- Não seja ganancioso, caro Isao - Chiyo respondeu com seu tom terno, começando a caminhar em direção à cozinha, sem desmanchar o sorriso cordial - Mal pagou pela última menina. O que, não gostou da pequena Rin?

- Ah, eu gostei, gostei muito - Respondeu com um murmúrio embargado de malícia, arregalando o olhar e confirmando freneticamente com a cabeça - Assim que levá-la para minha cabana, ah... - Gemeu de prazer enquanto fechava os olhos e levantava o rosto ao céus - A farei compensar todo meu esforço em conseguir seus suprimentos naquele vilarejo - Abriu os olhos e encarou com um olhar odioso o teto - Até essa maldita coronhada terá válido a pena - Proferiu rouco, deslizando a ponta do indicador e dedo médio sobre o machucado em sua têmpora.

Se não fossem por suas costas estarem firmemente escoradas naquela parede, Sasori já teria cedido seu corpo à queda. Não acreditava no que ouvia e o quão agonizante era aquela situação.

Há semanas era apenas um rapaz despreocupado com um belo carro, namorando uma das meninas mais conhecidas do colégio e protegido do mundo pelo poder econômico de seus pais. De repente viu-se enfiando pés de cabra na cabeça de coisas que já foram humanos e abandonado por Sakura. Descobriu sua verdadeira natureza e entrou em uma luta diária para entender a si mesmo e o porquê de agora gostar de agir daquela maneira hostil.

Agora, completando a sina de eventos impensáveis, era testemunha auricular de um dos crimes mais vis e desumanos já praticados pelos verdadeiros demônios na terra; tráfico de mulheres.

O som familiar de objetos caindo no porão alcançou seus ouvidos. Deduzindo que Chiyo e aquele tal Isao também ouviram, sentiu seu coração acelerar e o calor sair de seu íntimo, se espalhando por todas as extensões de seu corpo, assim como sua perna perdeu a sensibilidade e ameaçou levá-lo ao chão a qualquer instante. Continuava inexpressivo, mas agora que sabia o quão grave era aquela situação, estava realmente difícil lutar contra o medo.

- Maldita garotinha - O praguejar de Isao ecoou pelo andar, contrastando com seus passos pesados na direção do gramofone.

- Por favor, cuidado com a morena - O pedido sereno e trêmulo de Chiyo trouxe a imagem de Karin à mente do ruivo - Os rapazes logo chegarão para dar uma olhada nela.

Mesmo com a mente em chamas pelo temor, o ruivo respirou o mais fundo que pôde e alavancou o rosto ao céus, com os olhos fechados. Abriu os olhos de uma vez e, como um relampejo de esperança, lembrou da pistola Bren Ten que Sasuke lhe dera e que mantinha encaixada na cintura.

A adrenalina fazia suas mãos tremerem, mas conseguiu apanhar o armamento atrás de si. Respirando pela boca, Sasori apertou o retem do carregador, localizado ao lado do gatilho, ejetando o carregador em sua mão livre.

Sua boca mexia, revelando que contava em silêncio a quantidade de munição disponível; apenas três disparos. Deu uma respirada para manifestar a frustração e encaixou o carregador, já puxando o ferrolho com o dedo indicador e o polegar, com o click indicando que a arma estava pronta para os disparos. Logo, passos vindos de cima alcançaram seus ouvidos.

Mesmo com a penumbra dominando o centro e um pouco das extremidades daquela escada, Konohamaru não tinha medo do escuro. Porém era cauteloso, segurava com as duas mãos no corrimão, sua boca um pouco aberta com a língua roçando o lábio inferior, entregando o quão concentrado estava em não pisar em falso e conseguir descer para levar o filhote até o gramado.

O pequeno husky descera primeiro e, afoito, esperava o dono alcançá-lo. Latia animado conforme Konohamaru descia um degrau, fazendo o pequeno soprar uma risada ou outra.

- Calma, amigo, eu não quero cair - Pediu com carinho, absorto na tarefa de guiar seus pés pelo escuro. Até ouvir o farejar do filhote, seguido de um forte barulho de porta abrindo.

O susto fez o pequeno apertar as mãos no corrimão e se manter estático, com uma expressão apreensiva e olhar perdido, faltando apenas três degraus para alcançar o piso do térreo. O som de algo impactando contra as paredes chegou aos seus ouvidos. Barulhos que continuaram até, o que quer que fosse aquilo, se impactar contra o gramofone, fazendo o objeto cair.

A respiração de Konohamaru acelerou, mas ele sequer conseguia sair do lugar. Seu filhote rosnava na direção onde antes ele viu a senhora Chiyo olhar e sorrir diabólica. Os barulhos de impacto continuaram, dessa vez mais audíveis, já que a música não tocava mais. Konohamaru acompanhou com o olhar temeroso o disco rolar daquela direção até bater na porta de entrada, caindo com leves rodopios.

Até olhar para o lado a tempo de ver uma menina, aparentando doze anos, aparecer de súbito e olhar freneticamente para os lados. O pequeno sugou o ar e o prendeu, diante da imagem. A menina exalava desespero, seus cabelos eram castanhos e batiam no queixo. Sua boca era selada por um pedaço de fita adesiva prateada e um de seus pulsos estava envolto em um pedaço frouxo de corda preta.

Assim que avistou Konohamaru, a pequena correu com o olhar marejado até ele. Tentou alcançá-lo, mas Isao surgiu afoito e muito irritado logo atrás. Se lançou com tanta força na direção da entrada que teve de usar o ombro para amortecer o impacto contra a porta de entrada.

- Sua vadiazinha - Grunhiu furioso entre dentes. Estava com um machucado no lábio superior, com um filete de sangue escorrendo.

Correu até a menina e apertou sua cintura. Antes que a afastasse de Konohamaru, em um gesto de desespero e pensamento rápido, a menina esfregou as mãos nos pulsos machucados, provavelmente causados pela fricção que sua pele fizera para se soltar das cordas, e apertou as mãos agora ensanguentadas nas mangas da camisa clara do pequeno.

Sem forças e com o olhar comprimido em sinal de angústia, a menina fora arrastada bem diante dos olhos infantis e atônitos de Konohamaru e debaixo do latido agudo e incessante do filhote, suplicando em sua mente que seu sinal fosse interpretado pelos outros que, sabia ela, estavam na casa.

Em choque e com os lábios separados, Konohamaru ameaçou descer os degraus enquanto via a menina ser arrastada de volta para os fundos, até perceber alguém se colocar na sua frente.

- O que faz fora da cama, pequeno? - A voz trêmula de Chiyo deu início à uma descarga de adrenalina no interior do pequeno, o fazendo recuar de costas até cair sentado sobre o degrau.

A senhora o olhava com a cabeça pouco abaixada, fazendo seu olhar causar um medo descomunal no pequeno. Deu um passo intimidador em sua direção, mas sentiu os dentes do filhote em seu calcanhar desnudo, um aviso do cachorro, dosado à muitos rosnados, para que ela sequer pensasse em tocar no seu dono. Diante do gesto, Konohamaru usou todas as forças que a adrenalina lhe entregava para subir a escada quase engatinhando e com toda a velocidade que conseguisse, ouvindo as patas de seu filhote logo atrás de si.

Chiyo se manteve com uma expressão séria e olhar levemente fechado por alguns instantes, como se estudasse a melhor maneira de lidar com aquele contratempo. Até que começou a subir os degraus. Subia devagar, com o pensamento de que aquele pequeno viu coisa demais e que, de qualquer forma, deveria ser silenciado.

- Uma que um homem acabou de pegar - A fala temerosa do pequeno alcançou seus ouvidos assim que pôs o primeiro pé no corredor.

As manchas de sangue na roupa do pequeno, em contraste com seu falar aturdido fez o próprio Naruto engolir o seco enquanto franzia o cenho. Soltou o pequeno devagar, olhando para o lado como se esperasse uma ordem de seu subconsciente para saber o que fazer.

Sequer teve tempo de agir. Ouviram a porta ser fechada com força, seguido do som de chave rodando na fechadura.

- O que...? - Naruto sussurrou à esmo, correndo até a porta. Prontamente agarrou a maçaneta e a girou de uma vez. Puxou com força, constatando, para pesar o clima ainda mais, que estava trancada - Ei! - Chamou em tom firme e moderado, dando fortes tapas na madeira - Senhora Chiyo? - Chamou como se fosse um teste. Cessou os tapas e, sem soltar da maçaneta, encostou a lateral do rosto na porta, ouvindo passos que ficavam cada vez mais distantes. Sem tirar o olhar marejado da figura de Naruto, Hinata trouxe Konohamaru para um abraço instintivo, enquanto respirava ofegante pela boca.

Irritado, sem saber o que estava acontecendo, Naruto desferiu outros tapas, dessa vez com toda sua força, grunhindo com severa raiva.

- Abre essa porta! - Deu um último golpe na madeira, dessa vez, com a lateral do punho cerrado. Levemente ofegante, encostou o topo da testa na porta e apoiou as duas palmas das mãos na altura de seu rosto - Que merda está acontecendo? - Sussurrou confuso, com o olhar indo de um lado para o outro pelo chão.

Os resmungos irritados de Isao ficavam mais audíveis conforme ele subia o lance de escadas daquele porão.

- Vadias - Proferiu enquanto saía do cômodo. Puxou a maçaneta com força e não ligou do som de porta batendo ecoar sem dificuldades, dada a falta de música no local. Enfiou uma chave na fechadura e começou a trancar a porta com brutalidade, seus lábios inquietos por ainda estar irritado com a pequena menina.

Até sentir um metal frio encostar em sua têmpora. Interrompeu seus movimentos no mesmo instante, seu olhar ficou estático. Moveu a cabeça devagar até captar a imagem de Sasori lhe apontando a pistola Bren Ten. Ele estava inexpressivo, mas era perceptível o maxilar pressionado.

- Se fizer qualquer coisa que não seja abrir essa porta, eu enfio uma bala na sua cabeça - Praticamente sussurrou, mas as palavras saíram firmes o suficiente para não transparecer o quanto a adrenalina estava afetando seu sistema nervoso.

Isao arqueou a sobrancelha e olhou Sasori de cima à baixo. Podia sentir a tensão que ele exalava.

- Hm - Murmurou como se pensasse em algo, comprimindo os lábios para frente e passando a língua pelo canto de dentro deles - Acaso sabe usar isso, garoto? - Não perguntou, usou de deboche, com um pequeno sorriso de canto, arqueando rápido uma sobrancelha, fazendo Sasori franzir o cenho - Sabe ao menos se essa arma tem balas?

- Tem o bastante pra espalhar qualquer merda que você tem nessa mente doente se não fizer o que eu mandei - Impulsionou a arma contra a têmpora de Isao, o fazendo mover a cabeça involuntariamente para o lado enquanto prensava o maxilar - Abre essa porta logo! - Ordenou com o tom de voz mais elevado, com um olhar arregalado de quem não estava brincando.

Sem tirar o olhar de canto macabro de cima do ruivo, Isao começou a girar a chave devagar, observando o ruivo alternar o olhar ansioso entre ele e a fechadura. Abriu a porta sem qualquer vontade, enquanto Sasori se guiava até sua retaguarda. Antes que tentasse entender o que o ruivo pretendia, sentiu o pé dele impactar contra suas costas. O impulso o jogou para dentro do porão, seu corpo rolou sem qualquer controle pelos degraus de madeira do cômodo, enquanto diversas partes de seu corpo atingiam a parede e o balaustre também de madeira.

Sasori ficou o tempo todo no topo da escada, sem esconder em sua face a satisfação por ver aquele doente rolar com tanta violência até cair de bruços. Visivelmente atordoado, Isao tentou se alavancar com os antebraços pressionando o chão enquanto gemia pelo esforço, até urrar e cair com a lateral da face atingindo o chão, respirando fraco, o sangue proveniente do corte em seu supercílio escorrendo e se expandindo pelo piso, com seus olhos semi abertos. O ruivo soprou uma rápida risada enquanto deixava escapar um meio sorriso, já olhando para dentro daquele porão.

Caixas contornavam o perímetro, algumas pás escoravam nos espaços livres das paredes, haviam correntes enferrujadas presas por suportes de metal no teto, alguns pilares que sustentavam o cômodo tinham cordas pretas em volta na base. Tanto a menina, que ele deduziu ser Rin, quanto Karin, estavam com os pulsos rodeados por tais cordas. Estavam deitadas de barriga para cima, com os braços esticados na direção da coluna que, contornadas pelas cordas, garantiam a imobilidade das jovens. Os olhares arregalados e marejados caíram sobre Sasori que, diante da cena, sentiu o ar ser bloqueado dentro de si por um instante; nunca pensou que um dia presenciaria cenas que somente via em produções cinematográficas.

Correu para socorrê-las enquanto elas urravam aflitas. Caiu de joelhos ao lado de Rin, já iniciando uma luta contra os nós. Estavam duros, obrigando o ruivo a usar força suficiente para seus dedos queimarem pelo forte atrito com a corda. Rin ajudava movendo os pulsos, comprimindo a face em sinal de dor quando suas feridas roçavam na corda, até senti-los frouxos o bastante. Puxou as mãos de uma vez, arrancou a fita de sua boca com um único movimento e, sem pensar duas vezes, se lançou aflita na direção de Karin e repetiu os movimentos de Sasori para libertar a morena, surpreendendo até ao ruivo que não esperava uma atitude tão altruísta da menina.

- Tem uma caminhonete estacionada há poucos metros da casa - Sasori informou aflito, enquanto controlava a própria respiração para não deixar a ansiedade lhe consumir por inteiro. Os olhares temerosos das jovens alternavam rápido entre os nós na corda e o olhar do ruivo, sempre assentindo - Tragam ela para a entrada, eu vou tentar tirar os outros daquele quarto.

Karin puxou os pulsos de uma vez, já os massageando e sentindo os pequenos dedos de Rin envolverem seu braço. A menina começou a correr escada acima, rebocando uma Karin que aparentava estar mais angustiada que ela.

- Espera, onde está me levando? - Karin questionou aturdida quando Rin seguiu com ela para o quarto onde antes Sasori estava.

- Essa bruxa pegou algo que me pertence - A voz juvenil de Rin se fez ouvir antes que ela sumisse pelo estreito corredor com a morena arrastada à contra gosto. Sua impostação era firme, demonstrando uma segurança que dificilmente alguém com aquela pouca idade teria.

Aquelas palavras de Rin eram o que Sasori precisava para completar o quebra-cabeças que vinha montando desde que pisara o pé naquele maldito lugar. Então, naquele quarto ficavam os pertences daqueles que, assim como eles, caíram na armadilha muito bem armada daquela psicopata e que, infelizmente, não conseguiram escapar? Foi impossível não engolir o seco conforme a corrente arrepiante percorria todas as extensões de seu corpo, o que só o fez querer sair dali o quanto antes.

Até que captou um vulto passando pela porta. Soprou o ar pelo susto e levou o olhar até tal área, a tempo de ver Chiyo seguir com uma expressão tenebrosa na direção onde Rin e Karin seguiram. Prontamente o ruivo pressionou uma das mãos no chão, o que lhe deu o impulso necessário para levantar e já correr para a escada, apanhando a Bren Ten da cintura. Não pensaria sobre tirar a vida de alguém naquele momento, deixaria que sua consciência o julgasse só depois que acabasse de uma vez com aquela octogenária seriamente perturbada.

Distraído em seu mar de revoltas e senso de proteção, Sasori esqueceu do homem que ele acidentara nas escadas e que, aparentemente, estava inconsciente. Assim que ouviu os passos do ruivo subindo rápido os degraus, Isao abriu os olhos de uma vez, já movendo a cabeça na direção do jovem, enquanto não controlava a respiração ofegante de alguém que estava seriamente irritado com a situação.

Levantou em um único movimento e se lançou nos degraus para conseguir apanhar o tornozelo de Sasori. Puxou tal parte do jovem, o fazendo cair com severa brutalidade na escada, batendo toda a extensão do corpo, incluindo a lateral do rosto, nas quinas dos degraus, o que fez o ruivo comprimir a face de imediato, em sinal de dor.

Na queda, a pistola escapou da mão de Sasori e caiu na entrada do porão. Aturdido e sem conseguir levantar, Sasori olhou para trás, captando a figura assustadora de Isao. O homem respirava pela boca, um sorriso malicioso estava desenhado em seu rosto mal cuidado, assim como seu olhar arregalado entregava ao jovem o quão odioso aquele homem estava.

- Moleque filho da puta - Isao murmurou em um sopro, levando a outra mão na mesma perna em que segurava o tornozelo de Sasori, puxando para trás em uma tentativa de fazê-lo recuar escada abaixo. O ruivo prontamente encaixou as duas mãos na quina do primeiro degrau, impedindo que seu corpo fosse puxado. Porém, aquele jogo macabro de medição de força fez suas mãos arderem intensamente conforme pressionavam mais contra a madeira, o que fez o ruivo apertar as fileiras de dentes umas nas outras e seu olhar se fechar com muita força - Olha o que fez! Viu a bagunça que causou?! - Isao bradou de forma nefasta, puxando Sasori novamente.

Em um último gesto, Sasori esticou uma das mãos na direção da arma, enquanto arfava aflito pelo intenso esforço que fazia e pela dor latejante em suas mãos. Assim que a ponta de seus dedos roçaram na coronha, um pé calçando uma sapatilha já gasta chutou a Bren Ten até a arma bater contra a porta dos fundos e, em um gesto súbito e frio, uma faca de cortar carne foi enfiada com força nas costas de sua mão, a ponta do objeto em contato direto com o piso, o que só mostrava como a lâmina atravessou a mão do ruivo.

Diante da cena de horror, o ruivo arregalou o olhar atônito, apertou as fileiras de dentes e, comprimindo a face, deixou o grito mais angustiante sair de seu íntimo e ecoar pela casa, manifestando o quão doloroso havia sido aquilo.

Naruto manteve-se até o momento tentando ouvir a conversa no andar de baixo, com a frente de seu corpo à poucos centímetros da porta e uma mão repousada na madeira. Porém, bastou ouvir o grito angustiante de Sasori que seu olhar arregalou, sua respiração acelerou de imediato e seu cérebro o emergiu daquele mar de pensamentos confusos para que agisse.

- Sasori! - Bradou de imediato, dando um forte tapa na porta. Aflito, o loiro olhou freneticamente para os lados, até parar seu olhar no guarda-roupa.

- O que... O que vai fazer? - Hinata soprou agoniada, sem soltar o pequeno Konohamaru de seus braços, quando viu Naruto correr até o móvel, abrir as portas e avaliar o conteúdo com o maxilar prensado, como se ali, diante dele, estivesse a solução.

O loiro empurrou as roupas de forma a liberar espaço. Correu até Hinata, já puxando a pequena pelo braço. Sem espaços para perguntas, a fez entrar no móvel.

- O que está fazendo, Naruto? - Questionou temerosa, enquanto o loiro colocava Konohamaru e o pequeno husky em seus braços - Naruto? - Tentou trazê-lo de seus pensamentos, mas tudo que o loiro fez foi apoiar cada uma das mãos nas quinas das portas, olhando concentrado para a jovem.

- Aconteça o que acontecer, só saiam desse guarda-roupa quando eu mandar. Entendeu? - Sua fala era rápida e ofegante, mas o loiro dosou sua fala com todo o zelo para não deixar espaço para questionamento. Sem saber como reagir e visivelmente angustiada, Hinata apenas engoliu o seco enquanto confirmava freneticamente com a cabeça. O loiro soprou uma rápida risada de alívio - Ótimo - Sussurrou, movendo seu corpo rapidamente na direção da pequena, segurando atrás de sua cabeça e depositando um beijo carinhoso em sua testa, fechando as portas em seguida.

Se afastou de costas do móvel, enquanto seu olhar rápido procurava a melhor alternativa para o que tinha em mente, até seu olhar fixar em um criado-mudo ao lado da cama.

O olhar semi aberto do ruivo correu pela extensão daquela faca até seu olhar perceber Chiyo o encarar com sadismo, um sorriso nefasto desenhado nos lábios, onde, pela primeira vez, era possível ver seus dentes, tamanho era o contentamento da anciã em ferir Sasori daquela maneira.

- Parece que alguém aqui não gosta de chá - Chiyo comentou casual com sua voz trêmula ao perceber que, assim como Naruto, aquele ruivo continuava vivo. Algo que seria impossível se eles tivessem ingerido uma quantidade mínima da bebida. De forma sanguinária, sua mão movia o cabo da faca de um lado para o outro, fazendo a ponta continuar fixa no assoalho, o que só fazia a ferida na mão do ruivo abrir mais. Seu sorriso macabro só abriu mais quando o ruivo respondeu tal gesto gritando angustiado de dor - O que foi, querido? Não venha me dizer que a senhora Chiyo está te machucando - Levou o olhar inexpressivo até Isao, enquanto seu sorriso se dissipava - Leve esse moleque para fora e dê um fim nele.

Com o corpo dolorido pela pancada que dera nas quinas e com sua mão seriamente ferida em um corte bem aberto que espalhava seu sangue pelo chão, Sasori sentiu Isao envolver seu pescoço com um dos braços, usando a mão livre para segurar a outra, trancando o ruivo de forma sufocante, enquanto o arrastava até parar ao lado do gramofone.

- Onde está minha garota? - Isao questionou em sopros, por já estar cansado, olhando impaciente para Chiyo, deixando claro que só terminaria aquele serviço se não perdesse sua "mercadoria".

Chiyo sorriu cordial, soltando a faca ensanguentada no chão. Caminhou até a caixa de discos, com o som agudo da lâmina acertando o assoalho. Retirou um LP da banda Eagles e o colocou no gramofone.

- Está trancada no quartinho aqui do lado com a morena de óculos, não se preocupe - Proferiu com um carinho tenebroso, apoiando a agulha no disco que de imediato rodou e fez a acústica ganhar a introdução da música Hotel California.

Isao sorriu com uma malícia sobrenatural, arrastando seus passos enquanto rebocava Sasori na direção da saída.

-Não...Não... - Sasori tentava proferir entre engasgos sufocados, suas mãos tentando retirar aquele braço rígido de seu pescoço, o que só fazia tal parte de Isao ficar recoberta cada vez mais com seu sangue.

- Chiyo! - O caçador que carregava a T3 bradou impaciente no mesmo instante em que abriu a porta da entrada de uma vez, fazendo tal parte impactar fortemente contra a parede - Não enrola, velha, suas terras já estão limpas. Onde estão as novas meninas?

Antes que qualquer ação pudesse ser tomada, um forte barulho de vidro quebrando saiu do primeiro andar e alcançou o ouvido de todos.

- Aquele diabinho - Chiyo resmungou friamente, com o olhar à esmo e a mente na figura de Naruto - No quarto da ponta, não deixem qualquer pessoa de lá fugir! - Ordenou irritada, aparecendo na entrada e já apontando com o indicador para cima.

Os dois caçadores respiraram fundo, pressionando os maxilares, enquanto encaravam Chiyo. Logo depois, o que carregava a T3 rumou na direção da escada, seus passos pesados ganhando o ambiente, enquanto Isao voltava a arrastar Sasori para a saída da casa. Tudo que o ruivo viu foi Chiyo inclinar pouco a cabeça para o lado e sorrir sem mostrar os dentes, acenando com uma das mãos em um gesto tenebroso de despedida, antes de ser arrastado por completo para o jardim, ao som daquele vocalista cantando o que parecia a narração daquela situação desesperadora.

- Tudo que essa velha tem que fazer é dar um chá com qualquer porra pra matar essas caras e nem isso ela consegue! - O caçador da T3 murmurou irritadiço enquanto chegava na frente da porta, usando mais ênfase nas três últimas palavras dada a intensidade com que desferiu um chute frontal na porta.

Sua força era quase sobre-humana, quebrando a madeira de forma que separou a área da maçaneta do restante da porta. Sem pensar direito e extremamente irritado, o caçador se lançou de uma vez no quarto, o olhar indo de imediato na direção da janela cujos vidros estavam estilhaçados, fazendo a brisa de final de madrugada ondular as delicadas cortinas brancas.

Escorado na parede e protegido pela porta, Naruto observou aquele parrudo entrar de súbito no quarto com aquele rifle T3 em mãos. Assim que ele ficou de costas, Naruto correu até o homem, agarrando sua cintura. Só parou de correr quando empurrou o caçador de uma vez contra a parede.

O caçador acertou o centro da testa com força, o que fez tal parte arder de imediato. Sem tempo para reagir, a gola de sua camisa foi segurada por trás e, com um movimento brusco e muito forte, Naruto o puxou de encontro ao chão, o fazendo cair de costas. Jogou um dos joelhos com força contra a virilha do caçador, enquanto seu outro joelho se apoiava no chão. Segurou o rifle com as duas mãos e, já sabendo que aquele homem não soltaria o armamento, o puxou de uma vez, até sua testa atingir o meio do nariz daquele homem repulsivo. Com o sangue escorrendo sem controle de suas narinas, o caçador arregalou o olhar e rosnou de puro ódio, movendo a mão que segurava próximo ao gatilho para frente, o que fez a coronha do rifle acertar a maçã do rosto de Naruto. O loiro caiu para o lado pela força com que fora atingido. O caçador se lançou de imediato sobre o corpo do loiro, onde iniciaram um teste de força, com o caçador tentando apertar o pescoço de Naruto com o rifle e o loiro tentando fazer o armamento recuar, enquanto seu cenho franzido e dentes trincados revelavam a quantidade de força que usava naquele momento.

Do lado de fora, Isao descia os degraus da varanda enquanto o ruivo, quase sem fôlego, se debatia. O que faria? Nunca estivera em uma luta corporal, as únicas vezes em que se meteu em brigas foi quando apanhou de Sasuke no quarto do sítio. Sem sua arma, com uma ampla desvantagem no quesito força e sua respiração acelerando a cada instante que se imaginava a um passo da morte, implorou que seu íntimo lhe desse a força e bravura para escapar daquela situação. Não queria morrer. Não sobreviveu à tudo para perecer nas mãos de um caipira psicótico. Grunhiu para adquirir força e, sentindo que seu íntimo atendera ao seu pedido, começou a correr de costas, o que pegou Isao de surpresa. Caiu por cima do homem, já emendando uma cotovelada na bochecha dele enquanto se virava.

Isao bufou furioso, levando uma das mãos ao pescoço de Sasori, já apertando tal parte. Como se seu corpo já soubesse o que fazer, o ruivo devolveu o olhar furioso do homem, segurou o pulso dele com uma das mãos e usou sua mão livre para empurrar a palma no cotovelo erguido de Isao. Dada a força aplicada, foi possível ouvir o que parecia osso estalando, fazendo o homem gritar um misto de dor e ódio. Sem esperar, Sasori deu um impulso com seu ombro para cima, de forma que seu punho acertou com brutalidade o centro do rosto de Isao.

Assim fez, até suas mãos ficarem com pequenos machucados nas juntas dado o constante impacto contra a face de Isao. Ofegante, com as mãos ardendo e misturadas com seu sangue e o daquele doente, Sasori foi levantando devagar, sem tirar o olhar de Isao agora desacordado, com os olhos semi abertos, os lábios separados e um sopro fraco de vida saindo de si. Seu rosto estava ensanguentado por completo, escorrendo para seus cabelos e barba.

Até ouvir o intenso barulho de galhos sendo remexidos. Aflito, levou o olhar para o horizonte, onde captou uma movimentação descontrolada no topo das árvores; movimentação que se aproximava daquele terreno cada vez mais. Grunhidos de infectados ganhavam cada vez mais a acústica, assim como um alto e furioso rugido. Rugido que, para desespero do ruivo, era o mesmo que ouviu dias atrás na farmácia.

Olhou aflito para a casa, em seguida para a caminhonete, tentando pensar em meio a sua ofegância, sobre o que deveria fazer. De súbito, correu até o carro, entrando já com o olhar na ignição. Por sorte, a chave estava lá. Entre sopros cansados saídos de sua boca, permitiu escapar um sorriso de alívio, enquanto girava a chave e enchia a acústica com o rugido do motor indicando que o veículo estava pronto para correr.

Aquele homem era forte. Por mais força que Naruto fizesse, ele continuava sorrindo diabólico, o olhar arregalado, como se estivesse apenas brincando com o loiro.

Hinata assistia tudo pelo filete de brecha que abrira. A iluminação em forma de fio se entendia verticalmente pela lateral de seu rosto. Percebendo a situação do loiro, a pequena soprou o ar enquanto seu olhar marejava e seu lábio inferior se afastava do outro enquanto tremia.

Ouvindo o sopro saído daquele móvel, o homem olhou de uma vez para o guarda-roupa, sem perder a força que impunha naquele rifle. Percebendo para onde o homem olhava, em um misto de ódio e instinto de proteção, Naruto grunhiu pela intensa força que fazia enquanto arrastava seus pés até apoiá-los na barriga do caçador. Em um movimento rápido e que exigiu toda sua força, Naruto o arremessou por cima de sua cabeça, o fazendo cair de costas. Em um segundo de vacilo, arrancou o rifle de sua mão, engatilhou e, diante do olhar arregalado daquele homem para si, disparou contra sua cabeça. Olhou ofegante por cima da arma o topo da cabeça daquele caçador aberta, o sangue misturado com a massa encefálica escorrendo pelo chão. Engoliu o seco e apertou o maxilar, ainda com a adrenalina da luta correndo por si, mas já sentindo que sua mente pesaria por ter tirado a vida de alguém.

Não teve tempo para lamentos. Seu reflexo o fez olhar na direção da porta no exato momento que um segundo caçador surgia. Observando atônito o amigo morto diante daquele loiro, o homem rosnou furioso, já empunhando a carabina M62 e disparando contra Naruto.

O loiro foi mais rápido e se lançou atrás da cama, com o tiro acertando o piso de madeira, causando um som abafado. Em um ímpeto de coragem e temendo perder mais alguém próximo, ao pensar que o amigo fora atingido, Konohamaru se lançou para fora do guarda-roupa de uma vez, jogando o próprio corpo nas pernas no caçador, enquanto acertava seus pequenos punhos em seu joelho, o filhote prontamente puxando a barra de sua calça maltrapilha, apoiando a atitude do dono.

- Não! Deixa ele! - Gritou irado, com a expressão comprimida em puro ódio, sendo empurrado com um chute leve, mas forte o suficiente para o pequeno ser lançado em uma certa distância e cair de costas, com o cachorro soltando a barra da calça do caçador e correndo de imediato até ele.

- Kono! - Hinata gritou aflita, já se lançando sobre o corpo do pequeno, usando suas costas como escudo para a próxima investida que aquele homem fizesse.

O caçador engatilhou a carabina e, imerso naquela expressão fria e macabra, levou a ponta da arma na direção da pequena, até o som de trovão que só um disparo possui ecoar no cômodo e seu olho esquerdo ser totalmente dilacerado com um disparo saído do rifle nas mãos do loiro.

Com os cotovelos apoiados no colchão, Naruto olhou ofegante por cima da arma aquele homem cair para trás, deixando um rastro de sangue na parede atrás de si indicando onde sua cabeça aberta batera e o caminho que percorreu até cair sentado, com as costas escoradas.

Soprando para voltar à realidade, correu até Hinata e Konohamaru, abraçando os dois de forma protetora, enquanto pensava no próximo passo, sem saber para onde olhar. Até ouvir o grito dos mortos, seguido de forte movimentação de folhas, um grito desesperado de um homem e, para despertar a angústia de todos e dar início a intensas doses de adrenalina sendo lançadas em seus corpos, o alto rugido feroz que somente aquele bicho que apareceu na farmácia sabia dar.

Correu até a janela, interrompendo os passos no meio do caminho, por já ver os responsáveis por aquele barulho. Incontáveis infectados surgiam de súbito por entre as árvores, enquanto Isao era cruelmente desmembrado por um tipo de animal alaranjado e muito musculoso. Já sem um dos braços, Isao tinha uma das pernas presas na mordida daquela fera, enquanto nada podia fazer a não ser gritar com toda a dor e aflição que sentia. A mutação sacudiu a cabeça com violência, até recuar um passo com a perna de Isao em sua boca. A fera narrada por Deidara e a imagem da sombra projetada na farmácia queimou na mente do loiro, o fazendo recuar atônito, até virar na direção de Hinata e Konohamaru, correndo até eles.

- São os infectados... Não são? - Hinata murmurou perdida em desespero, com Konohamaru e o filhote em seu colo, sendo alavancada por Naruto para que ficasse de pé.

- É muito pior - O loiro advertiu com firmeza, segurando no pulso de Hinata e correndo com ela para fora do cômodo, apanhando a carabina daquele cadáver no caminho - Temos que sair daqui e agora! - Advertiu controlando o tom de voz, descendo escada abaixo com Hinata e Konohamaru logo atrás.

Chegando na área de entrada, foram recepcionados por fortes batidas efetuadas na porta. Com os mortos tentando entrar de forma furiosa pela porta da frente, só lhes restava a porta dos fundos. Assim que viraram a escada e tentaram seguir na direção do gramofone que ainda tocava a canção, viram-se obrigados a interromper os passos quando captaram Chiyo empunhando uma espingarda Boito na direção deles. Naruto pressionou o maxilar e ergueu um pouco queixo, respirando fundo e movendo Hinata com Konohamaru para trás de seu corpo. Aquele tipo de espingarda disparava apenas um tiro, mas era impensável pensar em um deles sendo atingido.

- Vocês jovens são mesmo umas pragas - Chiyo murmurou em um rosnado dosado de muita fúria - Eu cedo minha casa e vocês retribuem assim; matam meus amigos e atraem aquelas coisas que, com tanto custo, eu venho tentando manter longe de minhas terras! - Gritou perdida em ira quando se referiu às suas terras.

A acústica daquele lugar estava aterrorizante. Ao fundo, o som ensurdecedor dos mortos gritando por sangue contrastava com as fortes pancadas que davam em toda a extensão da entrada. Era possível ouvir o rugido feroz daquela coisa em diferentes localidades, como se estivesse procurando a melhor forma de entrar. A música Hotel California continuava em todo seu esplendor e, atrás de Chiyo, fortes barulhos de tapas na porta entregavam a localização de Karin e Rin.

- Deixa a gente sair, velha! - Karin gritava sem interromper as batidas - Abra essa maldita porta!

- Quieta! - Chiyo respondeu com um brado repreensivo, olhando rápido por cima do ombro, mas já voltando a atenção para os jovens à sua frente - Menina impertinente - Resmungou engatilhando a espingarda.

- Sabe que se continuar com isso, vai matar todos nós. Incluindo você - Naruto tentou negociar com calma e seriedade, a palma da mão pouco levantada na direção da senhora.

- Não importa! - Chiyo o cortou ríspida, movendo a arma para frente, com o olhar arregalado e dentes trincados - Olha o que trouxeram para as minhas terras! Olha o tamanho do meu prejuízo! - Gritava com severa ira, movendo a arma de forma rápida na direção dos jovens. Era alguém irrecuperável, que em nada se diferenciava daqueles mortos que tentavam entrar - Terei muito prazer em ver aquelas coisas os dilacerando, mesmo que me levem junto!

Seu brados macabros foram interrompidos quando um forte som de disparo ecoou, contrastando com ela movendo o ombro de forma rápida para frente. Seu olhar estático se perdeu no teto, enquanto, atrás de si, Sasori disparava em seu outro ombro, depois em sua coxa.

Caiu de mediato com os braços esticados, fazendo a arma deslizar para frente. Naruto a parou com o pé, recolhendo em seguida. O som consecutivo de vidro  quebrando levou a atenção de todos para as janelas da entrada, onde já era possível ver as expressões furiosas dos mortos, com seus braços para dentro do imóvel, como se tentassem alcançar os jovens.

-Por aqui - Sasori chamou abrindo caminho e apontando para a caminhonete estacionada e ligada, apenas esperando pelos sobreviventes.

Naruto soprou para voltar à realidade, enquanto dava espaço para Hinata correr com Konohamaru até o carro, seguindo logo atrás.

Sasori correu até a porta do quartinho, retirando o trinco com Karin já abrindo a porta. Foi impossível não trocarem olhares estranhos, mas Karin apenas moveu o olhar desconfortável para o lado, enquanto Sasori apertava o maxilar e encarava a morena, erguendo um pouco o queixo.

- Obrigada - Karin murmurou baixo, visivelmente incomodada em ter que mostrar gratidão ao ruivo, já correndo até a saída, onde Naruto os esperava, alternando o olhar entre o veículo e onde estavam, como o guardião que era.

Sasori observou Rin abraçada aos equipamentos de arquearia, o olhando apreensiva, como se temesse ser deixada ali, sozinha. Sasori a olhou um pouco confuso, não tendo a empatia necessária para entender o que se passava com ela.

- Está tudo bem - Seu instinto respondeu por ele, estendendo a mão para a pequena Rin - Vem logo - Pediu com aflição. Rin abriu um sorriso de alívio, já entregando sua pequena mão para o ruivo que prontamente a segurou e saiu com ela corredor afora, até passarem por Naruto.

O loiro seguiu até o banco do motorista, enquanto Rin jogava seus itens na caçamba, subindo em tal lugar na sequência. Sasori parou na porta, olhando inexpressivo por cima do ombro para Chiyo. Caminhou até ela, passando por sua Bren Ten descarregada e caída naquele chão de madeira.

Abaixou ao seu lado, os joelhos flexionados e apoiando os antebraços. Ela arfava de dor e ódio entre os dentes, encarando o ruivo com uma raiva descomunal. Porém ele permanecia inexpressivo, apenas a encarando.

- Por que... Não me matou de... De uma vez? - Falava forçado e sussurrando, com pausas involuntárias para gemer de dor.

- Você não merece uma morte tão rápida. Quero que sofra - Falou calmo, levantando rápido as duas sobrancelhas entre as frases para enfatizar sua vontade - E quando os mortos entrarem, você terá uma morte lenta e dolorosa. Assim sentirá na própria pele o que seus antigos hóspedes passaram nas suas mãos - Aproximou seu rosto ao dela, pressionando o maxilar e respirando levemente ofegante pelo ódio que não conseguia controlar diante daquela figura desumana - Sua maldita psicopata - Murmurou.

Tendo o olhar furioso de Chiyo sobre si, o ruivo ficou ereto e caminhou de costas até a saída, sem tirar o olhar satisfeito e a inexpressividade de cima da anciã. Até que correu até o carro, apoiou uma mão na lateral da caçamba, dando impulso nas pernas para pular e cair ao lado de Rin.

No segundo que se seguiu, Naruto arrancou com o carro gritando, dada a exigência de potência imposta sobre seu motor. Ofegante, Chiyo olhou para a frente de sua casa, onde a porta era brutalmente aberta. Os mortos correram afoitos até si, agarrando seus braços, pernas e cabeça. Sentiu os dentes arrancarem pedaços de pele e carne de si, enquanto trincava os dentes, apertava os olhos, até não aguentar mais a dor da morte e gritar. E debaixo do solo final de Hotel California, Chiyo foi fechando seus olhos devagar, até se tornar apenas um cadáver sendo devorado por aqueles infectados.

Ganhavam distância daquela casa monstruosa a cada instante. Os mortos que corriam atrás do veículo pareciam caminhar, dada a velocidade do veículo.

Porém, não tiveram tempo para soprarem o ar de alívio que implorava para sair. Naruto ajustou o retrovisor interno, captando, assim como Sasori e Rin, a criatura os encarar de cima do telhado, alavancar o rosto ao céus e disparar seu forte rugido pelos quatro ventos, enquanto saltava para o telhado da varanda. Na sequência, saltou novamente, caindo firme no gramado, já começando a correr com toda a fúria na direção do veículo.

- Naruto - Sasori chamou apreensivo, escorando as costas cada vez mais no vidro, enquanto percebia o quão rápida era aquela coisa e como fazia parecer que estavam desacelerando - Naruto, acelera esse carro!

- Merda - Naruto grunhiu irritado em um sussurro, percebendo que já afundava o pé no acelerador. Olhou novamente para o retrovisor interno, enquanto Karin e Hinata alternavam os olhares angustiados entre o caminho à frente e a fera logo atrás.

Entraram em área de mata, onde duas linhas paralelas de terra indicavam que estavam em uma estrada improvisada para os carros. O ponteiro do velocímetro começou a trepidar, assim como o barulho do motor tornou-se insuportável, sobressaindo o som que os pneus faziam devido o forte contato com a terra. Do ponto de vista dos ocupantes do veículo, as árvores em volta pareciam tenebrosos vultos que corriam pelas laterais da Ford Ranger.

Ainda assim, a Cobaia 14 rugia movendo a cabeça para os lados, ganhando cada vez mais velocidade. A visão daquela criatura fez Sasori até mesmo esquecer como controlar a respiração, seu peito inflando sem controle, seu olhar estático e suas costas cada vez mais escoradas no vidro.

Até perceber, pelo canto do olho, Rin colocar a luva de três dedos em sua mão direita, encaixar o protetor de couro no braço esquerdo e recolher uma flecha da aljava.

- O que... - Sasori soprou aturdido, mas sequer conseguiu completar a frase.

Diferente de quando a vira, a expressão de Rin estava séria, revelando o nível de concentração da pequena. Um arco composto possui uma tração nas cordas que, somente usando de muita força, consegue-se disparar a flecha à uma distância satisfatória e perfurar o alvo com uma profundidade aceitável.

Preparando a flecha, Rin segurou as penas da rabeira entre o indicador e anelar, mesma mão em que calçara a luva. Prontamente ergueu o arco, puxou a corda com toda sua força até a lateral de sua mão roçar em sua bochecha, respirou fundo para conter o nervosismo, prendendo a respiração. Focada na criatura que ganhava mais velocidade a cada segundo, soltou o ar pela boca bem devagar, liberando a flecha no mesmo instante em que comprimiu os lábios.

Com uma velocidade assustadora, a flecha rasgou o ar com sua ponta, perfurando o olho direito da Cobaia, varando até a ponta surgir na parte de trás de sua cabeça. A criatura desestabilizou no mesmo instante e, sob seus altos rosnados dolorosos, tropeçou nas patas dianteiras, rolando sem controle até cair com as costas impactando violentamente o tronco de uma árvore. Um disparo perfeito.

Sasori não acreditava no que via, seus lábios separados e olhar saindo de angustiado para vago. Rin soprou uma risada cética, como se nem ela acreditasse no que acabara de fazer. Sem desmanchar o sorriso surpreso, olhou para Sasori, deixando sua respiração voltar a ficar ofegante.

De dentro do veículo, Naruto olhou de relance para Hinata, como se perguntasse mentalmente se ela também viu o que aquela pequena menina fizera. A pequena soprou de alívio com o olhar marejando, abraçando Konohamaru, sem desviar o olho do loiro.

Conseguiram. Foi difícil e por pouco não morreram ou sofreram nas mãos daqueles doentes, mas conseguiram. Podiam, por fim, suspirar de alívio e gratidão, mesmo que ainda rumassem incertos em meio ao caos do novo mundo.


(...)


Aquela rodovia era longínqua, livre de qualquer carro abandonado e cercada apenas pelas suntuosas árvores. Contudo, os topos dos prédios já apareciam por cima das árvores; era o fim do trecho rural.

O olhar do Uchiha permanecia vago, enquanto as listras no asfalto sumiam para baixo da Ridgeline. Vez ou outra dava uma longa respirada de irritação, mesmo estando inexpressivo. Seu cotovelo apoiava na janela aberta, deixando o vento proveniente da alta velocidade jogar suas franjas para trás.

Amanhecera há poucos minutos, mas não quis esperar Sakura acordar. Quando os primeiros raios de sol acariciaram sua face, já colocou o veículo novamente na estrada. Mesmo porque estava difícil dormir com o quadril da rosada roçando em sua virilha a todo instante.

Vez ou outra ouvia o gemido sonolento saído dela, o que o fazia mover o retrovisor interno até sua imagem singela dormindo confortavelmente no banco traseiro. Um pequeno e rápido sorriso escapava, mas era só voltar a atenção para a estrada que ele logo sumia. Não estava certo quanto ao novo plano de voltar à cidade para procurar abrigo, as zonas vermelhas ocupavam quase todo o território de Konoha. Porém, pelo que viu no terreno onde antes ficava o abrigo, algumas hordas já estavam migrando para o campo, o que poderia significar uma diminuição de infectados rondando os trechos urbanos.

O abrigo. Maldito abrigo. Era por isso que dissipava uma longa respirada de irritação, por não saber que merda aconteceu por lá. Fora ter perdido todo o grupo, incluindo seus melhores amigos.

Talvez essa tenha sido a parte mais difícil de acordar; se dar conta de que o que aconteceu no dia anterior não só foi real, como iria dilacerar seu íntimo até que ele tivesse força suficiente para lidar com aqueles sentimentos. Mas era tão difícil.

- Sasuke? - A voz sonolenta de Sakura alcançou seus ouvidos, enquanto ouvia um longo bocejo, seguido de uma respirada lenta.

Ele nada respondeu, apenas olhou pelo retrovisor interno a rosada passar as mãos do centro do rosto até as laterais, em uma tentativa de acordar completamente. Em seguida, a rosada olhou com um ar de curiosidade para as janelas, como se não entendesse como eles haviam parado naquele lugar.

- Sabe onde estamos? - Perguntou com a voz fraca, enquanto retirava as armas e seu bastão do banco do carona. Depositou o armamento no banco de trás, enquanto fazia um malabarismo para passar para o banco do carona sem atrapalhar Sasuke.

Sakura se ajeitou no banco do carona, suspirou satisfeita e olhou para o moreno, esperando pacientemente uma resposta. Porém ele mantinha o cenho levemente franzido, olhando para a frente e os lados, talvez procurando placas que identificassem onde estavam.

- Não sabe onde estamos, não é? - Sakura proferiu enquanto apertava os lábios. Um gesto inocente, mas que lhe rendeu uma olhada de canto por Sasuke que parecia bem insatisfeito por aquilo ser verdade.

Com suas suspeitas confirmadas, ameaçou rir da expressão de desagrado do moreno, mas bastou ele captar indícios de uma possível zombaria por parte dela que arqueou uma sobrancelha e a encarou desafiador, como se quisesse passar a ideia de que ela não gostaria do tipo de represália que sofreria se ousasse rir dele.

- Não me olhe assim, Uchiha - Ela provocou divertida, comprimindo o olhar e movendo pouco a cabeça na direção dele. Até captar vultos aparecendo subitamente na frente do veículo, e mover a cabeça para frente, enquanto arregalava o olhar e soprava pelo susto - Cuidado!

O grito da jovem, em compasso com sua visão periférica captando os mortos que apareceram na frente do veículo, fizeram Sasuke olhar subitamente para frente.

- Merda - Murmurou ríspido mantendo as mãos firmemente no volante e enfiando o pé no acelerador. Um a um os zumbis eram atingidos e escorriam por cima do carro, outros caiam a frente do veículo e tinham o corpo estourado quando os pneus passavam por cima.

Sasuke pareceu se irritar subitamente. Respirava pesado, pressionava o maxilar e parecia mover o carro na direção dos mortos que ele percebia que não seriam atropelados. Respirando pela boca, Sakura franziu pouco o cenho, visivelmente confusa. Ele não precisava fazer aquilo, só atropelar os que apareciam na estrada já bastava.

Pensou em questionar a atitude enfurecida do moreno, mas logo se preocupou com o fato do carro começar a perder velocidade. Sasuke olhou para o ponteiro do combustível e suspirou irritado, mesmo sabendo que andavam na reserva e que era um milagre terem chegado tão longe. Esperou o veículo para por completo, virou o corpo para trás, apanhando as duas únicas armas que ainda tinha, assim como também apanhou aquele bastão cheio de pregos da rosada.

- Aqui - Entregou o objeto para ela quando voltou a sentar no banco - Temos que continuar a pé - Murmurou já saindo do carro, olhando em volta para perceber se algum infectado ia até eles. Nada, além de silenciosa, a área estava livre.

- Não acredito - Ouviu o murmúrio fraco de Sakura. Olhou para a rosada descer do carro sem tirar o olhar do estádio localizado há alguns metros.

O moreno arqueou a sobrancelha, olhando para o local, logo depois para a rosada.

- O que foi? - Questionou com um ar de tédio, sem entender o que a fascinava naquele lugar. A rosada não lhe respondeu, sequer o olhou, apenas correu até ele e segurou firme em seu pulso.

-Vem! - Chamou sem desmanchar o sorriso. Começou a rebocá-lo enquanto corria animada na direção do estádio que, aos poucos, revelava-se um estádio de baseball.

Era grande, seu terreno era delimitado por cercas de arame, mesmo material de que era feito o portão de entrada, com um estacionamento quase a perder de vista nos fundos. Possuía duas longas arquibancadas, bancos cobertos onde os times ficavam e uma entrada subterrânea que dava acesso aos vestiários.

- Espera, Sakura, o que... - Sasuke tentou questionar o motivo de ser rebocado para aquela entrada. Mas tudo que ela fez foi soltá-lo e escalar o portão.

- Vem logo - O chamou ainda animada, não esperando ele pular o portão. Começou a caminhar com o fascínio de uma criança estádio adentro.

O moreno revirou os olhos e repetiu o gesto da rosada, escalando o portão e dando um breve salto para dentro quando estava no topo. Caiu apoiando um joelho e as duas mãos no chão, já ficando ereto enquanto batia as palmas para limpá-las.

Ela começou a caminhar com o olhar se perdendo pela imensidão do local. Sua cabeça ia de um lado ao outro, até respirar fundo e fechar os olhos, como se assim aspirasse da essência daquele lugar.

Parou assim que seus pés alcançaram o centro do campo, com um Sasuke acompanhando seus passos um pouco afastado. Ele olhou em volta, como se tentasse ver o que chamava a atenção dela.

- Eu costumava treinar aqui - Ela começou com um tom saudoso, ainda de costas para ele - Esse é o estádio do colégio. Ou pelo menos era - E deu um longo suspiro, olhando para ele em seguida - Acho que os chuveiros ainda funcionam, e tem uma máquina de comida perto dos vestiários - Sorriu fraco, vacilando com o olhar para os lados por um segundo.

- Então vamos - Sasuke proferiu rouco, já caminhando para o lado da rosada, enquanto engatilhava a carabina Sako 85. Poderia parecer que estava indiferente às lembranças da rosada, mas ele sempre tentava poupar as pessoas de se perderem em lembranças dolorosas na sua frente. Talvez por sua empatia mal explorada.

Caminhavam cautelosos, pois mesmo com as cercas, sempre poderia aparecer um ou outro infectado. Porém o local estava quieto, somente o canto dos pássaros enchia a acústica.

Desceram as escadas subterrâneas, chegando em um corredor de paredes claras, com uma máquina de comida logo à frente e uma entrada à direita. Uma seta preta indicava o acesso aos vestiários, com os chuveiros mais ao fundo.

Sempre atentos, passaram pela máquina e chegaram na área dos armários, com Sakura não conseguindo evitar cair o olhar para algo vago quando sua mente lembrou das meninas do time que ali costumavam ficar, assim como ela. Foi como se os fantasmas daquelas cenas fossem projetados bem à sua frente.

- Ei - Sasuke a chamou com mais carinho que antes, percebendo que não conseguiria driblar o pensamento da rosada das fortes lembranças que ela provavelmente tinha daquele lugar. A rosada o olhou de súbito, como se voltasse à realidade - Pode ir primeiro, eu pego a comida e vejo o que mais dá pra levar daqui - Proferiu sem evitar um breve afago nos cabelos da jovem.

Ela pareceu vacilar um instante, provavelmente por ser pega de surpresa por aquele carinho repentino. Porém, logo relaxou a face e deu um fraco sorriso, assentindo.

...

Mesmo gelado, o banho fora revigorante para ambos. Era como se um peso saísse de seus ombros ralo abaixo.

Um allstar preto cano curto, um short jeans preto, uma camisa regata branca e, completando a vestimenta, um casaco próprio dos jogadores de baseball, com a diferença de que um 01 preenchia por completo as costas da peça, com Haruno Sakura escrito na parte de cima. Em sua cabeleira solta, um boné com a aba para trás, também de baseball, tinha o desenho da face de perfil de uma raposa, com o bordado RedFox abaixo.

Era agradecida por sempre manter uma muda de roupas em seu armário, dada sua frequência constante naquele campo. Agora, sentada sozinha naquela arquibancada, seu olhar varria devagar cada canto daquele local, pois sabia ela que colocava os pés naquele estádio pela última vez.

...

O moreno analisava o conteúdo da máquina, como se quisesse escolher o que iria pegar. Seus cabelos ainda estavam um pouco molhados e, por sorte, achara uma camisa pólo preta enquanto vasculhava os armários. Não obteve êxito, não tinha o que levar, exceto uma mochila preta largada por alguma das meninas.

Captou um grunhido súbito, olhando no vidro da máquina o reflexo de um infectado com vestes de treinador correr sedento até ele. Respirou fundo impaciente, enquanto fazia frente à ele.

A distância sendo favorável, Sasuke segurou no braço e atrás da cabeça do infectado, grunhindo muito irritado enquanto impulsionava a cabeça do morto contra o vidro, o quebrando.

Jogou o infectado contra o chão, apanhou a Sako 85 e atingiu o crânio dele com a coronha. Assim ficou, até se sentir satisfeito, mesmo tendo amassado por completo a cabeça dele. Levemente ofegante, olhou com desprezo para o que fizera no infectado, recolhendo a mochila e a enchendo com garrafas de água, chocolates e alguns pacotes pequenos de salgadinhos. Fechou a mochila, segurou a ponta de um pacote de amendoim entre os dentes, apanhou uma garrafa de água e a jogou para cima, apanhando com soberba em seguida, já caminhando para onde Sakura estava.

Com o olhar perdido no horizonte, Sakura soltou o ar de uma vez, quando sentiu Sasuke se lançando com folga ao seu lado no banco.

- Aqui - Entregou uma garrafa de água para Sakura, enquanto deixava a mochila aberta entre eles.

- Obrigada - Sakura respondeu com um sorriso pequeno, apanhando a garrafa e bebendo de seu conteúdo sem vontade.

Sasuke arqueou um pouco as costas até apoiar seus cotovelos nas coxas e se ocupar comendo o pacote de amendoim. Logo procurou a imagem de Sakura virando um pouco a cabeça, observando as peças de uniforme que ela vestia, enquanto ela mastigava devagar um pedaço de chocolate, sem perceber que era observada.

- Jogadora de baseball, é? - Proferiu irônico, soprando uma risada enquanto meneava a cabeça e voltava a atenção para o saquinho de amendoim - Agora entendo sua obsessão por bastões de baseball - Murmurou dando um meio sorriso e arqueando rápido uma sobrancelha para complementar a provocação, sem olhá-la.

Porém, a rosada não se pronunciou em palavras. Tudo que fez foi dar um rápido sorriso, sem erguer o olhar. Moveu pouco a cabeça para o lado e olhou com pesar para o campo, respirando enquanto sua face se comprimia, como se algo a incomodasse. E de fato, incomodava.

- É estranho, sabe - Começou a fala já distante, suas palavras soando como se pensasse alto. Porém o Uchiha levou o olhar até ela enquanto mastigava; mesmo que a rosada não o olhasse - Estar aqui no estádio, sabendo que tudo acabou. O time, os treinos, campeonatos... - Fez uma pausa para engolir o seco. Meneou a cabeça, como se repreendesse a si mesma. O moreno apenas a observava de perfil, o que fez o silêncio predominar por alguns instantes.

- Era tão importante assim pra você? - Sasuke questionou calmo, mesmo que estivesse inexpressivo. Teve cuidado para que sua pergunta não soasse como se estivesse fazendo pouco caso do assunto.

Sakura olhou o campo por alguns segundos, perdida na projeção que sua mente fazia de si mesma jogando ali, até pigarrear.

- Quando eu comecei a jogar baseball era somente algo que eu fazia com meu pai, sabe - Começou sua narrativa saudosa com tom sereno - Isso até meus quinze anos, quando soube que o RedFox faria testes para rebatedores - Sakura fez uma pausa para soprar uma rápida risada de pesar, o olhar do Uchiha sobre si a todo instante - Nunca treinei tão duro como naqueles dias antes da avaliação. Lembro até hoje como meus braços doíam e como minhas mãos ardiam - Olhou para as palmas de mãos, como se ali passasse o filme do que narrava - Quando chegou o dia da avaliação eu lembro que Naruto foi comigo. Estava tão nervosa, mas ele torceu tanto por mim que foi impossível não me empenhar até alcançar meu limite - Riu de tristeza, seu olhar se perdendo cada vez mais; não pensou que seria tão difícil compartilhar uma memória envolvendo o loiro. A simples menção do nome do amigo fez Sasuke pressionar pouco o maxilar, vacilando com o olhar para o lado, mas logo voltando a olhá-la - Acabou que no fim todo esse esforço me rendeu uma bolsa de estudos no colégio e, depois de algum tempo no time, o título de capitã.

Sasuke não evitou erguer rápido as duas sobrancelhas, surpreso em imaginar aquela pequena liderando o time.

- Karin também era do time, e era bolsista assim como eu. Quando soube que eu seria a capitã ela não gostou nem um pouco, disse que eu só consegui o título por ser namorada de Sasori, cujo pai era muito influente. Que eu ser amiga de Ino, a presidente do Conselho Estudantil, também havia ajudado o treinador a me nomear. Ela culpou até minha amizade com Hinata - Riu incrédula olhando para os céus e erguendo a palma da mão na mesma direção, apoiando tal parte na testa, em seguida. O Uchiha deu um pequeno, quase imperceptível sorriso diante do momento descontraído da rosada, até ela retirar a mão do rosto e olhar para o campo de novo - Quando na verdade, o motivo para eu chegar tão longe foi eu ter vindo aqui toda noite. Treinava por horas, mesmo em dias de chuva. As vezes Sasori me trazia, outras vezes eu vinha com Naruto. E quando não tinha companhia, vinha sozinha.

Foi a vez de Sasuke olhar para o campo. Sakura narrava com um sentimento tão intenso, que a mente do moreno projetou automaticamente a imagem da rosada rebatendo sem descanso e com toda força as bolas saídas da máquina que as lançava.

- Tudo para não perder o que me custou anos de dedicação para alcançar. Até eu ver tudo escapando de minhas mãos quando esse caos teve início - Respirou fundo e meneou rápido com a cabeça, sem se importar de esconder sua indignação com o Novo Mundo - Então sim, é muito importante para mim. Nem tanto pelo baseball, mas por ele fazer parte de uma vida que eu já não tenho mais. Assim como as pessoas que faziam parte dela - Suspirou sentindo o olhar marejar - Não sobrou mais nada. Nem ninguém - Murmurou passando a ponta do casaco nos olhos, antes que uma lágrima sequer caísse.

Sasuke continuou a encará-la por alguns instantes, um incômodo aflorando em seu interior. Parecia um peso muito grande para uma jovem carregar. Se ela falava com aquele amargor sobre perda, sequer teve coragem de questionar sobre seu pai. Era até surpreendente como a vontade de sobreviver a qualquer custo aflorava em Sakura; mais até do que nele.

- Olha, me desculpa se eu falei algo que não devia - O moreno murmurou inexpressivo, mas com sinceridade, sentindo que seu comentário anterior possa ter contribuído para deixar a rosada daquela forma. Não queria tocar em feridas.

Porém Sakura apenas o olhou com sua serenidade natural, abrindo um sorriso carinhoso enquanto meneava com a cabeça.

- Você não falou qualquer coisa errada. Na verdade foi muito bom compartilhar isso com alguém.

Era incrível como os pequenos gestos e palavras de Sakura conseguiam mexer com o Uchiha. Diante de uma compreensão tão serena, foi impossível não abrir um sorriso, mesmo sem mostrar os dentes, enquanto afagava os cabelos da rosada e repousava a bochecha no punho apoiado com o cotovelo na coxa.

- E quanto a você? - Sakura jogou a pergunta no ar com um tom casual, já sabendo que era um questionamento vago.

- O que quer saber? - O moreno rebateu com calma.

- O que foi aquilo agora a pouco na estrada - Proferiu cuidadosa e ao mesmo tempo apreensiva, sem fazer uso de um tom interrogatório.

Sasuke respirou fundo, parecia subitamente incomodado com algo. Sim, sabia que ela se referia à sua investida violenta e aparentemente sem nexo sobre os andantes que não se puseram na frente do carro. Voltou os antebraços para as coxas e olhou para frente. Alguns segundos em silêncio, dosados à muita apreensão pela rosada que já questionava a si mesma se deveria perguntar aquilo. Até ouvir uma risada rápida ser soprada das narinas de Sasuke.

- Não sei direito - Respondeu em um murmúrio rouco - Acho que só estava procurando algo para colocar a culpa pelo que aconteceu com eles - Franziu o cenho enquanto falava, olhando rápido para baixo. Engoliu o seco assim que encerrou a fala, sem desmanchar o cenho franzido. Estava visivelmente perturbado consigo mesmo.

Sakura permaneceu com o olhar esmeralda sobre a figura do moreno, já sentindo a brisa ondular seus cabelos para o lado.

Ele não precisou citar nomes, era evidente que se referia à Naruto e Gaara. Seria difícil prosseguir, sabia disso. Principalmente por ela também lutar contra os sentimentos negativos que buscavam incansavelmente consumir seu íntimo e fazê-la desistir da sobrevivência.

Sasuke pareceu se perder de vez nos pensamentos e transtornos que o assombraram. Apoiou os cotovelos no banco atrás de si, olhando para o lado de forma que seu rosto visivelmente perturbado não fosse visto por Sakura.

Porém ela percebia. Continuava olhando o Uchiha, sentindo uma súbita vontade de chorar. Ele precisava emergir, mas ela não sabia como fazer isso, pois também estava afundando. Precisavam sentir que continuavam vivos. Mas como fazer isso?

Até que, obedecendo unicamente ao seu instinto, Sakura foi arrastando seu quadril até ficar com a coxa junta à do Uchiha. Ofegante pelo que estava prestes a fazer, ela continuou com o olhar sobre Sasuke. O moreno virou a cabeça no mesmo instante que sentiu o contato da lateral de suas coxas, franzindo um pouco o cenho enquanto olhava para a parte de seus corpos que agora estavam juntas, levantando o olhar para a rosada, sem entender o motivo da aproximação súbita.

Desligando qualquer canto lógico de sua mente e sem controlar sua respiração pouco ofegante que só refletia o quão acelerado estava seu coração, Sakura levou a mão até a lateral do maxilar de Sasuke, no mesmo instante que levou sua cabeça na direção da dele, unindo seus lábios em um beijo.

Começou a mover o lábio inferior sobre o de Sasuke, temendo que ele reagisse mal à sua investida. Porém o moreno retribuiu no instante que sentiu o lábio da jovem mover-se sobre o seu. Levou sua mão quente até a bochecha de Sakura, sua mão livre percorrendo a cintura dela. Não a trouxe para perto, levou seu corpo até ela, a apertando devagar sobre si, mas nem por isso com menos força.

Diferente da primeira vez que se beijaram, aquele beijo era calmo. Seus lábios deslizavam com suavidade pelo do outro, suas línguas roçavam com carinho, apreciando aquele momento e o quão real era. Com movimentos suaves, suas cabeças iam sem pressa de um lado ao outro.

Não era lascivo, nem dosado com luxúria. Mas era quente. Um calor que não era erótico, mas algo que queimava em seus interiores para lembrá-los que ainda estavam vivos. Era suave, mas não impediu o acelerar descontrolado de seus corações, provando para eles que ainda era possível sobreviver sem perderem a humanidade, a chama de esperança que voltava a arder conforme prolongavam aquele beijo tão perfeito.

Teriam prolongado por vários minutos, mas agora que estavam voltando à realidade de que precisavam continuar aquela jornada, não podiam demorar por ali.

Sasuke segurou com as duas mãos o rosto de Sakura, afastando suas bocas e unindo suas testas. Respiraram fundo, absorvendo, como na noite anterior, a essência um do outro. Doce essência que só fazia aquele momento ser mais especial. Para finalizar aquele beijo, Sasuke selou seus lábios por alguns segundos, como se agradecesse à rosada.

Até que seus olhares se encontraram. Sakura abriu um sorriso tímido, retribuído de forma mais marota por Sasuke.

Ouviram o conhecido grunhido de infectado e, sem soltar o rosto da jovem, nem afastar suas testas, Sasuke moveu pouco a cabeça para o lado, observando um zumbi surgir visivelmente atordoado por entre as árvores.

- Temos que ir - Avisou em um murmúrio rouco, enquanto voltava a cabeça para frente e fechava os olhos, junto com Sakura, para absorver daquele momento uma última vez. Respiraram fundo uma última vez, com Sasuke dando um breve selar com seus lábios nos da rosada.

Levantou e recolheu a alça da mochila, a colocando sobre um ombro. No outro, depositou as bandoleiras das armas, enquanto Sakura levantava tímida com o bastão em mãos, sem saber como lidar com o que acabara de fazer. E não esquecendo o detalhe mais importante; por iniciativa sua.

Sasuke permaneceu com o olhar sobre o dela por alguns instantes, sorrindo maroto ao perceber como ela estava, recebendo um sopro de risada desconcertada como resposta. Abraçou-a pelos ombros, caminhando com ela até o estacionamento, enquanto o infectado farejava o ar. Sentindo a presença de humanos, grunhiu furioso, chamando a atenção de mais mortos que, correndo sedentos por carne humana, pararam somente quando a cerca impediu que dessem mais um passo.

Por sorte, um único carro parecia aguardá-los naquele extenso estacionamento. Um Renault Logan prata.

- Hm, é o carro do treinador - Sakura comentou casualmente, dando um breve sorriso confuso.

Sasuke lembrou de imediato do corpo que destruira o crânio enquanto pegava comida na máquina, soprando uma risada de escárnio e meneando com a cabeça, enquanto retirava seu braço dos ombros de Sakura.

- Onde vai? - A jovem perguntou com inocência, enquanto o moreno apenas caminhava despreocupado de volta ao estádio.

- Pegar as chaves - Avisou com um sorriso debochado, sem olhar para trás.

Era revigorante conseguir ver graça em certas coisas novamente.






Notas Finais


Viram? É possível dar uns pegas no Apocalipse Zumbi. Que lindo u.u<3

Bom, não sei quando sai o próximo, mas acredito que não demore essa quase uma semana. Ninguém merece esperar tanto, não é?

É isso, flw povo! u.u/


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...