História Quarenta Anos Te Amando - Capítulo 5


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 5 - 1972 - Letters


Fanfic / Fanfiction Quarenta Anos Te Amando - Capítulo 5 - 1972 - Letters

Quinta-feira, 19 de outubro de 1972

Internato Santa Mãe de Jesus, Santa Bárbara, Califórnia, Estados Unidos

 

 

                Uma mancha de sangue no lençol mostrou para Jude, ao acordar, que definitivamente já não era uma criança.

 

   Acompanhado disso veio um mal súbito que a desmotivou a ir para as aulas daquele dia. Uma das freiras percebeu isso e quis saber de qualquer forma o que acontecera com a animada Jude, para que ela de repente não quisesse fazer nada a não ser continuar debaixo das cobertas usando roupas velhas, toda encolhida.

 

   Como sentiu vergonha em contar abertamente sobre o acontecimento, precisou enfrentar o chamado da enfermeira do internato.

 

   “Jude agora é uma moça!” — lembrava-se com raiva da enfermeira anunciando em voz alta para a freira e suas amigas preocupadas.

 

   E foi assim que começaram a lhe fazer uma série de perguntas como: “Você quer que eu te dê um remédio para melhorar a cólica?”, “Quer um pouco de gelo?”, “Sente-se bem?”, “Você se sente como se fosse mais mulher, agora?”. Por mais que soubesse que todas aquelas mulheres e garotas só queriam ajudar, estava nervosa demais para responder com educação. Além disso, conseguia imaginar a “grande notícia” se espalhando por todas as meninas do internato, sem falar das freiras e até do próprio diretor: um padre. Perguntaram-lhe ainda — para seu espanto —, se gostaria de ligar para a mãe, para contar do acontecimento.

 

 

Deitada na cama ela olhou pela janela do quarto. O tempo lá fora era nublado, assim como o seu humor.

 

   Se prestasse atenção, conseguiria ouvir de longe o som de vozes femininas cantando na capela ao lado do internato louvores a Maria e Jesus. E prestando ainda mais atenção, escutaria as noviças em salas próprias dando aulas de matemática para meninas de turmas um pouco mais novas que a dela.

 

   Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.

 

   —Pode entrar — disse, e logo uma jovem freira entrou segurando algumas caixas de papelão e envelopes, além de uma bolsa transbordando de cartas.

 

   —Boa tarde, Jude — cumprimentou com um sorriso —. A paz do Senhor esteja convosco!

 

   —Ele está no meio de nós — respondeu com a resposta já decorada para sempre.

 

   —Amém! — Luiza já começava procurar pelas correspondências de Jude entre todas aquelas outras — Soube que não se sentiu bem pela manhã. Espero que já esteja se sentindo melhor.

 

   —Sim, eu estou.

 

   Pela primeira vez no dia, Jude sentia alegria em conversar com alguém. Luiza sempre fora sua “pessoa favorita” do internato. Era uma mulher baixinha de rosto queimado de sol e canelas mais brancas que neve. Seu rosto era redondo, adornado de bochechas caídas e olhos grandes e escuros. Sempre era simpática e alegre com todas as meninas, especialmente com as mais novas, como Jude.

 

   —Que bom! — exclamou feliz enquanto continuava a procurar pelas correspondências — Aqui estão.

 

    —Obrigada.

 

   Jude segurou uma carta e uma pequena caixa com seu nome aparecendo como destinatária.

 

   —Agora eu preciso ir. Tenho que entregar todas essas ainda. Tchau, querida.

 

   —Tchau.

 

   Jude esperou até que Luiza fosse embora, para abrir suas correspondências. Terça-feira era sempre seu dia favorito, pois era o dia “do correio”; ou seja: quando as freiras entregavam tudo que havia chegado da família ou dos amigos para as alunas.

 

   Mais curiosa pelo conteúdo dentro do quadrado de papelão estreito, cortou-o com uma tesoura. Como imaginou, em vista do formato, era um disco de vinil. Na capa autografada estava seu amigo Michael na frente de um fundo de folhas muito verdes e segurando um violão. Seu rosto tinha expressão perdida, meio vazia. “Music & Me” era o título. Junto com o disco estava acompanhado um papel com caligrafia dele dizendo:

 

Jude,

   Este disco só vai ser lançado no ano que vêm! Então, por favor, não mostre para ninguém, ou meu pai e Berry Gordy vão me matar!

   Enviei para você em primeira mão porque quero saber o que acha dele. Não é um disco do Jackson Five; é um disco apenas meu, solo (assim como Ben. Aliás, você já ouviu essa música? Eu nem consigo acreditar que ela está no primeiro lugar das mais tocadas do país!)!

   Ouça “Up Again” primeiro. Algo me diz que você vai gostar dela especialmente. Além disso, tenho a impressão de que ficaria ótima na sua voz. Ah, e leia minha outra carta também!

Mike”

 

   Jude sorriu e abriu o outro envelope.

 

Jude,

   Você se importaria caso eu voltasse a lhe chamar de Juju? Espero que não, pois é assim que quero me referir a você. Espero que as freiras do seu colégio não façam objeções quanto a apelidos, porque para mim já basta terem lhe tornado uma “dama”; às vezes sinto falta daquele seu jeito meio selvagem.

   Enfim, não fique brava comigo por dizer essas coisas. Na verdade, eu sinto falta de tudo em você, e gostaria que viesse mais vezes visitar a Jennie, assim poderíamos nos rever também.

   Acho que todos adorariam (principalmente eu) uma visita sua. Por que você não liga para sua mãe, e pede para que ela converse com o diretor, para te liberarem por alguns dias?

   Bom, eu não sei o que mais dizer. Agora mesmo eu estava pensando sobre o que poderia falar nesta carta... É estranho me comunicar assim, porque é como se as palavras ficassem entaladas dentro de mim. Desculpe por isso, mas eu realmente precisava falar com você de alguma forma, e esta foi a única que encontrei. Sinto-me só aqui, e preciso de você para conversar.

   Eu sei que você não se sente bem em nossa casa por culpa dos meus parentes, e também porque aí você tem um quarto espaçoso, enquanto aqui precisa dividir aquele quadradinho com Jennie... Mas ainda assim eu quero te ver. Sei que é egoísta da minha parte, mas eu preciso que venha.

   Não há novidades para contar, se quer saber. Eu só quero rir um pouco com você.

   Por favor, me responda porque estou começando a temer que as minhas cartas não estejam chegando às suas mãos, e se isso estiver lhe prejudicando no colégio... Prefiro nem imaginar!

                               Ass: Mike

 

                Jude suspirou lentamente a dobrou a carta em duas metades. Com o rosto apoiado numa das mãos, pensava sobre tudo aquilo.

 

   Por fim, chegou à conclusão de que deveria sim responder a carta.

 

                Mike,

   Sim, eu recebi nas próprias mãos as outras cartas que me mandou. Aliás, obrigada por elas. Sou feliz por saber que ainda se lembra de mim, mas eu tenho medo de respondê-las. Como você sabe, as freiras do colégio não permitem esse tipo de comunicação. Por favor, entenda e se possível não mande mais. Tenho medo de que sejamos pegos.

   Desculpe, mas não posso ir aí.

                               Ass. Jude Bloch

 

   Ela olhou criticamente para o papel branco em suas mãos e escrito até a metade. Pensou que era pouco demais para enviar numa carta à alguém que gostava e não via há meses.

 

   Pegou a caneta negra outra vez, mas nenhuma nova frase surgiu em sua mente para transmitir pro papel. Decidiu por fim que enviaria daquele jeito mesmo.

 

   Mas antes disso levantou-se da cadeira e caminhou até o guarda-roupas de seu quarto no colégio. Era um armário era grande e pesado com doze portas no total. Ao todo ele era compartilhado por mais cinco meninas, e cada uma delas ocupava duas portas. As de Jude eram as duas últimas da direita; mas antes de abrir as portas brancas, olhou para trás, conferindo se não havia mesmo ninguém além dela no quarto.

 

   Atrás de si estavam as seis camas, todas vazias. Do banheiro não vinha barulho algum, então realmente não tinha ninguém ali além dela mesma. Rapidamente puxou as duas portas de madeira alva e ficou na ponta dos pés para alcançar o compartimento mais alto. Então, levantou de lá um cobertor marrom, e o que havia por debaixo dele ficou evidente por poucos segundos antes dela puxar para fora: uma caixa de papel cartão vermelha, envolta por um laço de fita preto.

 

   —O que você está fazendo? — a voz vinda por trás a assustou tanto que a caixa foi o chão.

 

   Jude virou-se de uma só vez com a mão no peito, reconhecendo a melhor amiga ainda parada na porta, por onde havia acabado de adentrar.

 

    —Quer me matar do coração, Karen? — reclamou enquanto abaixava-se para catar o embrulho vermelho nem um pouco discreto.

 

   A garota de cabelos pretos deu de ombros com o cenho franzindo e foi caminhando até a própria cama ao lado da de Jude.

 

    —O que é isso? — ela perguntou de pernas cruzadas em cima da colcha azul, referindo-se à caixa.

 

   —Nada que te interesse... — Jude respondeu tentando parecer o mais natural possível.

 

   —Se não interessasse — Karen começou enquanto levantava-se calmamente e andava a passos lentos até a amiga —, eu não estaria perguntando!

 

   Jude apertou a boca, olhando de cara amarrada para a garota de mesma idade que a sua.

 

   —Intrometida!

 

   Notando a preocupação da outra em manter o interior da caixa em segredo, a curiosidade de Karen aguçava-se cada vez mais.

 

   —Eu sou sua melhor amiga ou não? — chantageou com as mãos na cintura.

 

   —Você sabe que sim.

 

   —Então conte!

 

   —Não posso, Karen!

 

   —Não pode, ou não quer?

 

   —Não posso! — respondeu aos berros, já sem paciência.

 

   Uma das irmãs de caridade que passava caminhando pelos corredores dos quartos ouviu a gritaria e entrou também, sem bater.

 

   —Mas o que é que está acontecendo aqui?

 

   As duas meninas se viraram para a mulher, uma das mais antigas e severas freiras do colégio. Depois entreolharam-se já arrependidas por terem gritado uma com a outra, pois sabiam que agora teriam de enfrentar um castigo.

 

   —Eu fiz uma pergunta! — Irmã Cristina falou entredentes.

 

   —Não fomos nós. Devem ter sido as meninas do quarto ao lado... — Karen tentava livrar-se, e livrar Jude também, de um possível castigo.

 

    —Por acaso vocês acham que eu tenho cara de velha surda? — “sim”, Jude quis responder, mas simplesmente baixou a cabeça para evitar problemas maiores — Mentira é um pecado gravíssimo, Karen! Por isso, — a menina olhou fixamente para a freira enquanto preparava-se para receber seu castigo — vá já para o confessionário!

 

    —Mas Irmã...

 

    —Sem “mas”! — Cristina interrompeu.

 

    Karen olhou para Jude como quem diz: “a culpa é sua!”, e saiu à passos largos em direção ao confessionário da capela. Andava tão rápido que ao passar pela freira, o tecido da roupa dela balançou pelo ventou que a garota causava.

 

   Quando a porta bateu, Jude soube que seria a sua vez de receber um castigo. Levantou a cabeça e viu a mulher apertando o crucifixo do cordão entre os dedos. A carranca naturalmente severa de Cristina parecia ainda pior quando ficava brava, e as rugas em torno de seus olhos eram realçadas.

 

   —O que é isso nas suas mãos?

 

   Jude olhou na mesma direção que os olhos da Irmã miravam, e só então se deu conta de que continuava com a caixa vermelha bem presa em suas pequenas mãos.

 

   —Ah... Isso são... São...

 

    Cristina ergueu uma das sobrancelhas ruivas e grossas, e Jude desesperava-se tentando inventar alguma mentira.

 

   —São... São cartas que minha mãe me envia. Eu as guardo todas aqui como lembrança.

 

   —Ah é?

 

   Jude balançou a cabeça, afirmando.

 

   —Dá-me — Cristina estendeu as mãos.

 

   —Não, Irmã Cristina. Não é necessário...

 

    —Por Jesus, Jude Bloch! Dá-me logo essa caixa. Você não disse que são apenas cartas de sua mãe? — apesar dela não gritar, seu tom era severo e fazia Jude tremer — Então que mal pode haver em eu conferir?

 

    —Mas... — um filme passou pela cabeça de Jude naquele momento, e ela soube que se daria mal naquele dia. Aquela caixa continha guardadas todas as idílicas cartas que Michael havia lhe dado, e corresponder-se com homens ou mesmo meninos que não fossem familiares era terminantemente proibido pelas freiras do colégio às meninas inferiores aos quinze anos de idade.

 

   Sabendo que não adiantaria protestar mais, Jude entregou o embrulho vermelho.

 

   Cristina sorriu maleficamente e sentou-se numa das camas, com a caixa sobre o colo.

 

   Jude assistiu-a desfazer o laço negro e depois tirar a tampa. Logo uma série de envelopes brancos ficou exposta. Um por um, a Irmã leu em voz alta enquanto a menina via-se num beco sem saída.

 

   A mais reveladora das correspondências, porém, ficou para o final:

 

   —“Sinto falta dos seus abraços, Jude. Por favor, volte para cá! Eu sei que somos apenas crianças, mas com minhas economias podemos fugir e viver longe de todos: eu dos meus pais, e você das freiras.” — calmamente Cristina dobrou o papel e devolveu-o ao respectivo envelope. Então juntou todas as cartas e guardou na caixa outra vez — Você sabe que corresponder-se com homens que não sejam familiares é proibido aqui, não sabe?

 

    Jude balançou a cabeça em afirmativo.

 

    —Mas ele é só...

 

    —Silencie-se, Jude Bloch! — interrompeu — Eu vou mostrar estas cartas para o padre, nosso diretor. Mas enquanto isso vá para a capela! Não sairá de lá enquanto não lustrar a madeira de todos os bancos.

 

   —Todos? — repetiu atônita, lembrando-se das dezenas de dezenas de fileiras.

 

   —Sim, todos. Vá de uma vez! E prepare-se bem, porque o padre não irá preparar para você castigo mais brando que o meu.

 

 

                O líquido branco no frasco já estava quase no fim, e precisou economizar para conseguir fazer render para todos os bancos. Não era nova a atividade de limpar, mas era relativamente antiga.

 

   Quando viu um rato passar correndo por entre as fileiras de assentos da capela, não assustou-se. Fazer o tipo que grita por algum bichinho centenas de vezes menor que seu corpo, não fazia o estilo de Jude Bloch. Um rato era apenas um bichinho, quase tão solitário como ela, à procura de alguém que não gritasse com ele. Um bichinho da mesma espécie que Ben.

 

   Ben, o ratinho sobre quem várias pessoas ao redor do mundo naquele momento cantavam e ouviam emocionadas. Ben fora um sucesso à pouco emplacado por Michael, e Jude tal como o resto do país já estava mais que apaixonada pela canção, que saberia cantar até de trás para frente em vista da quantidade de vezes ouvida.

 

   Ela tentou pegar o rato, mas não conseguiu. Ele entrou por um buraco numa das paredes da capela, onde provavelmente fizera seu lar. Jude fez uma anotação mental de providenciar um pequeno pedaço de queijo para ele na próxima vez que fosse até lá.

 

   Então, já desacreditada de que poderia vê-lo novamente, pois o assustara sem querer, voltou ao trabalho. E foi aí que algo estranho aconteceu; foi como um dejavu, só que mais real. Assim como quando trabalhava para os Jackson, de repente se viu cantarolando naturalmente um trecho das músicas deles. Mas desta vez não era sua já há anos adorada “I Want You Back”, mas sim, Ben.

 

 

Ben, the two of us need to look no more    (Ben, nós dois não precisamos mais procurar)

We both found what we were looking for    (Nós dois encontramos o que estávamos procurando)

With a friend to call my own   (Com um amigo para chamar de meu)

I’ll never be alone   (Eu nunca estarei sozinho)

And you, my friend, will see   (E você, meu amigo verá)

You’ve got a friend in me   (Que tem um amigo em mim)

 

Ben, You’re always running here and there   (Ben, você está sempre correndo aqui e ali)

You feel you’re not wanted anywhere   (Você sente que não é querido em lugar algum)

If you ever look behind   (Se algum dia você olhar para trás)

And don’t like what you find   (E não gostar do que encontrar)

There’s something you should know   (Há uma coisa que você precisa saber)

You’ve got a place to go   (Você tem um lugar par ir)

 

I used to say “I” and “me”   (Eu costumava dizer “eu” e “mim”)

Now it’s “us”, now it’s “we”   (Agora é “a gente”, agora é “nós”)

I used to say “I” and “me”   (Eu costumava dizer “eu” e “mim”)

Now it’s “us”, now it’s “we”   (Agora é “a gente”, agora é “nós”)

 

 

O que Jude não sabia era que há muitos e muitos quilômetros dali, ao mesmo tempo, Michael cantava sozinho em seu quarto a mesma melodia intrínseca que ela.

 

 

Ben, most people would turn you away   (Ben, a maioria das pessoas mandaria você embora)

I don’t listen to a word they say   (Eu não escuto uma palavra do que eles dizem)

They don’t see you as I do   (Eles não veem você como eu vejo)

I wish they would try to   (Eu gostaria que eles tentassem)

I’m sure they’d think again   (Tenho certeza de que eles pensariam outra vez)

If they had a friend like Ben   (Se eles tivessem um amigo como Ben)

A friend   (Um amigo)

Like Ben   (Como Ben)

Like Ben   (Como Ben)

Like Ben   (Como Ben)

 

 

 

   Deitado em sua cama e cantarolando sozinho, olhava para o teto de gesso, perdido na solidão do próprio microcosmo. Mas batidas na porta o fizeram parar e se levantar para atender.

 

   —Oi, Jennie — cumprimentou ao ver parada na porta a mãe de sua querida amiga.

 

   Como sempre, Jennie usava o cabelo impecavelmente preso, assim como seu uniforme branco também impecavelmente limpo.

 

    —Michael, eu preciso falar sobre uma coisa séria com você — anunciou com o mesmo tom de voz doce de sempre, porém, não parecia feliz. Aliás, Michael percebera há tempos que a felicidade de Jennie deixou de existir depois que Jude fora estudar no internato.

 

   —Sobre o que é?

 

   Jennie apertou as próprias mãos e torceu os lábios. Era visível que se tratava de algo pelo menos um pouco sério, e sobre o qual não poderiam conversar parados ali no corredor entre a porta e o quarto.

 

   —O que você acha de ir comer os biscoitos que eu acabei de assar, enquanto conto?

 

    Involuntariamente os olhos do garoto se alegraram um pouco. Os biscoitos de Jennie superavam os de qualquer outra pessoa no quesito sabor.

  

 

                —Me ligaram do internato hoje — Jennie anunciou enquanto servia leite quente num copo para Michael.

 

 

   Então sentou-se numa cadeira próxima à dele na mesa. Percebeu que os olhos quase inacreditavelmente negros dele se abaixaram pela menção do internato, como se ele já soubesse sobre o que ela queria falar.

 

   Jennie respirou fundo e continuou:

 

   —Uma das freiras encontrou cartas suas entre as coisas da minha filha, e agora ela está de castigo por isso.

 

   —Castigo? — repetiu com a boca cheia de biscoitos, surpreso e ao mesmo tempo já se sentindo imensamente culpado.

 

   —Sim, castigo. Agora, Michael por que vocês fizeram isso? Por acaso não sabem que é contra as regras do internato?

 

    —Sim, mas... — o garoto mal conseguia olhar para Jennie, tamanha era a vergonha que sentiu de si próprio — Não é justo que a castiguem! Jude nunca me respondeu.

 

    —Michael — ela pôs a mão por cima da dele, interrompendo-o com tom doce —, eu sei que Jude é muito especial para você. Tenho certeza de que você também o é para ela. Mas vocês precisam entender que não podem se comunicar mais, entende?

 

   —Não — ele respondeu com os olhos cheios de lágrimas —. Jude é a única amiga que tenho! Não é justo que eu não possa mais mandar cartas para ela!

 

   —Eu sei, mas...

 

    —Que castigo eles deram? — interrompeu, já de pé e tendo perdido completamente a fome que deu lugar para revolta.

 

    —Jude não poderá mais sair do colégio antes da formatura.

   —Mas ainda faltam quase quatro anos!

 

    —Eu sei.

 

   —Como você deixou as freiras fazerem isso com ela? Não é justo! É tudo culpa minha!

 

   —Michael, acalme-se! — ela pedia tentando controlá-lo.

 

   —Não, Jennie! Você é uma péssima mãe para a Jude! Péssima mãe!

 

   O garoto saiu a passos largos dali para ir chorar sozinho no próprio quarto.

 

   Enquanto isso, Jennie continuou na cozinha, atingida pelas palavras cruéis daquele garoto que costumava ver como seu próprio filho. 


Notas Finais


*musiquinha para ouvir enquanto lê: https://www.youtube.com/watch?v=T1dAQN5QcZU


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