História Querido Diario - Capítulo 11


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Romance
Exibições 3
Palavras 4.445
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 11 - Like a river flows surely to the sea



Arrumei a barra da minha saia pela milésima vez, checando se ela estava devidamente dobrada. Olhei pelo retrovisor, arrumando, também pela milésima vez, a faixa que prendia meu cabelo, e limpei o lápis levemente borrado abaixo dos meus olhos. Eu estava pronta. Ou teoricamente pronta. Nunca havia passado por experiência parecida. O que eu devia falar? Fazer? Como agir, como cumprimentá-los, como parecer uma pessoa apresentável? Com muito esforço, abri um baú que normalmente nunca é tocado no fundo da minha mente. As coisas ditas pela minha mãe. Finalmente encontrei alguma utilidade para toda aquela baboseira que ocupava espaço nos meus neurônios. Os bons modos e etiqueta talvez fossem úteis nessas situações. 
“Pronta, senhorita? É que estamos parados aqui há meia hora e eu tenho serviços delimitados pela senhora Elias...” Marcos tentou parecer paciente e fingiu entender minha situação, mas a intolerância transparecia em seus olhos. Qualquer pessoa ficaria assim quando tivesse tarefas a cumprir à mando de Silvana. “Claro, claro... Me desculpe, Marcos” acordei do meu transe e dei uma última ajeitada em minha camisa branca. Marcos disse algo como ‘não se preocupe’ ou coisa do gênero, mas eu estava muito aérea para prestar a devida atenção. 

Então, eu estava finalmente parada em frente aos portões da casa dos Silva. 
O meu desejo mais profundo era de permanecer em inércia, provando que a física não era de total inutilidade. Mas antes que eu pudesse sair correndo dali, acabando com meu repouso, os portões esculpidos no bronze se abriram, e a partir daí eu não tinha outra escolha a não ser enfrentar o maior desafio da minha vida: conhecer meus sogros. Conhecer a família do meu namorado. 
Aquilo soava incrivelmente anormal aos meus ouvidos, ainda mais pelo fato de nem mesmo conhecer suficientemente bem o namorado. O irmão mais novo não havia necessidades de ser apresentado, Le seria Le em qualquer outra situação, e isso me confortava.

Um homem de postura muito robusta e feição séria apareceu de algum lugar e vinha vindo em minha direção. Eu realmente não sabia de onde ele havia aparecido. Era calvo e os cabelos brancos mostravam que sua juventude já havia ido embora. Usava também um típico uniforme, parecido com o de Noel em minha casa. “Seja bem-vinda à propriedade dos Silva, senhorita Elias” o homem fez uma reverência, o que me fez olhar para os lados, me certificando de que aquilo não era obra do Le. Acenei brevemente com a cabeça, um pouco tímida e incomodada com os olhares que o suposto mordomo me lançava. 
“Siga-me, por favor” disse ele elegante, e me crucifiquei por dentro por perceber que até mesmo o mordomo dos Silva tinha mais classe do que eu.
Empinei meu nariz e comecei a andar de forma totalmente ereta, tentando parecer um pouco mais apresentável, e evitar que fofocas como o quão desengonçada era a filha de Silvana Elias. Ela provavelmente ficaria sem sair de casa por um ano inteiro. A população agradeceria.

Então, após atravessar o enorme jardim, que eu já conhecia devido às dezenas de festas de aniversários que eu já havia comparecido ali, chegamos à entrada principal da mansão dos Silva. 
O mesmo mordomo abriu a grande porta de madeira e fez um aceno para que eu entrasse na sala. 
Aquele lugar eu já conhecia. Os móveis eram os mesmos, os quadros de Picasso e Van Gogh estavam presos nos mesmos lugares, o enorme lustre de cristal ainda estava parafusado ao teto... Mas aquela não era uma visita como as outras. Para mim, tudo ali era diferente. Eu estava pisando em um território totalmente novo e abrangente, que eu estava prestes a descobri-lo.
Minhas mãos estavam firmemente pregadas na bolsa retangular, e o eco das minhas sapatilhas ao se chocarem com o mármore e estavam me deixando mais nervosa do que o normal.

Escutei outros passos sendo ecoados por algum dos cômodos ali, e em uma fração de segundo, toda a família Silva estava andando em minha direção.
A mãe de Le, uma loira alta de lábios carnudos e vermelhos, muito sorridente, vinha à frente de todos. Mais atrás caminhavam os três homens Silva da família. À direita vinha Carlos Silva, o líder da família e prefeito da cidade. Continuava com seu bigode espesso e eu tinha a impressão de que ele possuía apenas aquela roupa em seu corpo. Em churrascos, Carlos usava terno preto, camisa cinza por baixo, seguida de uma gravata vermelha e para finalizar, uma calça social preta. Festas de aniversários usava terno preto, camisa cinza por baixo, seguida de uma gravata vermelha e para finalizar, uma calça social preta. E assim era para comícios, festas de casamento, e agora descobri que também usava esse traje para receber suas noras. 

Eu havia conversado com Mharessa no dia anterior, atrás de dicas e meios de agradar a família Silva. Mas o único conselho que ela me deu foi: “Seja você mesma, Lari! ” Esse não era um conselho muito certeiro a ser seguido, já que ser eu mesma nunca foi uma boa ideia. Eu com certeza não causaria uma boa impressão.

No meio, vinha Le por ser mais baixo e deixar a escala familiar elegantemente equilibrada. Ele possuía um sorriso maléfico que não pude deixar de notar. Estava tão elegante quanto seu pai, de terno preto, uma camisa branca e gravata preta. Não usava calça social, mas sim uma calça jeans surrada e All-Star preto nos pés. E à esquerda estava ele. Tão lindo quanto a primeira vez que o vi. Usava um sapato reluzente de verniz, calça social preta, camisa branca, gravata preta e terno preto. Parecia a sósia de seu pai, com alguns detalhes a menos e outros a mais, como a falta do bigode e o excesso de cabelos na cabeça.
Mas uma coisa estava diferente em relação à primeira vez que o vi. Eu não sentia minhas mãos suarem. Eu não sentia meu estomago revirar. Se eu olhasse no espelho moldado pregado na parede ao meu lado, eu não poderia ver o mesmo brilho nos meus olhos que ali estavam na primeira vez. Tudo externamente estava igual. Assim como a cara admirada que agora eu forjava. Mas dentro de mim, no lugar mais profundo do meu inconsciente, nada era o mesmo. As sensações tão boas haviam desaparecido sem razões óbvias ou cabíveis. Eu não sabia o porquê. Se alguém me perguntasse, eu não saberia responder. Não saberia responder por que eu não mais suava, não saberia responder por que todas as borboletas no meu estomago estavam mortas, não saberia responder por que eu havia perdido o brilho que sempre habitavam meus olhos ao vê-lo.
Lucas estava ali, mas não era a pessoa por quem eu havia me apaixonado. Ou talvez eu não era mais a mesma Larissa que havia se apaixonado por ele. Das duas, uma. “Oh, como é bom recebê-la, minha querida! ” Joana, a mãe, veio em minha direção de braços abertos. Me apertou calorosamente contra seu corpo em um abraço chocante e hospitaleiro. “É um prazer revê-la, senhora Silva” falei com um meio sorriso, estampando a timidez em meu rosto. Vi pelo canto do olho que Le não fazia a mínima questão de esconder o quanto estava se divertindo com a minha decadência. 
“Cada dia mais bonita, hein, Larissa?” O senhor Silva se pronunciou, dando um passo à frente e dando tapinhas em minhas costas. Típico de político, não poderia esperar outra coisa. “ Lucas é um rapaz de sorte! ” Ele exclamou com um sorriso quase totalmente escondido pelo seu bigode. Minhas bochechas não poderiam estar mais vermelhas. Foi a vez de Le. “Senhorita Larissa, cada dia mais encantadora” fez uma reverencia igual à de seu mordomo e nunca tive tanta vontade de estapeá-lo. Ele voltou à sua posição usual, se segurando ao máximo para não soltar umas de suas risadas estridentes e constrangedoras.

Então veio Lucas. Elegante e galanteador como sempre. Seu porte clássico, robusto e encantador, seu olhar penetrante e aquele pequeno sorriso em seus lábios rosados. Perfeito. Perfeito demais. Talvez houvesse algo em mim que repelisse a perfeição.
Ele me estendeu a mão direita e eu a segurei delicadamente, recebendo um beijo nas costas da minha mão. Um beijo macio, delicado e suave, como todos os outros.
Sorri levemente, e procurei seus olhos, a fim de encontrar tudo aquilo que eu havia perdido. Mas nada encontrei a não ser um vazio, um nada. Não havia absolutamente nada ali que me fizesse sentir tudo o que sentia há um tempo atrás. “Vamos para a sala de jantar? Fizemos pratos muito finos, Lari... Posso te chamar de Lari, não é mesmo? ” Minha sogra soltou uma risada estridente, pior do que a de Le. Sim, de doer os ouvidos. 
Concordei silenciosamente com a cabeça, então ela continuou:
“Como eu sei que você é de uma família muito fina, você irá adorar! Nossa cozinheira é excelente, a contratamos em Paris, quando...” e a partir daí meu cérebro automaticamente desligou meus funcionamentos da audição. Joana era uma cópia autenticada de Silvana, e eu havia acabado de chegar à tal conclusão. Desde os gestos elegantes, até o tom de batom e o perfume Chanel n° 5 que usava. Comecei até a pensar que o meu destino sempre foi traçado para ser daquela maneira. Viver entre pessoas daquele gênero. Ser uma pessoa daquele gênero. Quem sabe Silvana e Joana não eram amigas desde a infância e combinaram que seus filhotes estariam predestinados a namorarem um com o outro em um futuro próximo? Coisas de melhores amigas adolescentes... Tudo é possível.

E como Joana havia dito, tudo era realmente muito fino. Exageradamente fino. Os panos sobre a mesa eram de seda pura, os talheres eram dourados e da marca mais cara que pudesse existir.
Havia um mordomo posicionado em cada cadeira, os quais arrastaram-nas para que sentássemos. Murmurei um obrigado e tive a impressão de que fui acompanhada apenas por Le. “Aceita vinho, senhorita? ” O ‘meu’ mordomo perguntou-me.
Antes mesmo de eu abrir a boca para dizer um ‘sim’, minha sogra interrompeu meu raciocínio com empolgação. “Oh, mas é claro que aceita! Sauternes Chateau d’Yquem ” Joana forçou sotaque francês com o típico bico que todo estrangeiro insiste em fazer ao falar qualquer palavra da língua francesa. No exato momento em que escutei o nome Sauternes, minha vontade e apreciação por vinho desapareceram em um segundo. Este era, nada mais nada menos, que um dos vinhos mais caros de que eu já ouvi falar. Se não for o mais caro. E depende de qual Chateau d’Yquem estamos falando. 
Quando meu pai realizou o sonho de comprar a primeira garrafa, só não a quebrei por saber que seriam mais de mil libras espalhadas por todo o chão. Eu nunca toquei meus lábios em uma taça que o continha, obviamente. Mas meu pai o tomou em menos de uma semana. Gilberto tinha no mínimo, urinado cinquenta mil libras em toda a sua existência. Uma catástrofe. 

“Não, obrigada, senhora Silva. Não tomo bebidas alcoólicas” menti. No exato momento, escutei Le se engasgar em meio de um riso quase discreto. 
Lu, que estava sentado ao meu lado, também soltou um risinho, olhado discretamente para mim. Olhei-os de cara feia.

Enquanto os mordomos serviam seus respectivos ‘clientes’ e eu colocava o guardanapo de pano em meu colo, senti que os olhos de Lucas ainda estavam paralisados sobre mim. Olhei-o de canto algumas vezes, e timidamente pairei meus olhos sobre os seus. Aqueles olhos azuis transpareciam ali, naquele momento, algo que eu jamais havia visto antes. Eu não conseguiria ser especifica e clara se precisasse explicar o que vi.
Havia um brilho novo, uma radiação nunca antes refletida por eles. De repente o vi sorrir suavemente, sem mostrar seus lindos dentes. Então, em um ato totalmente inédito, ele partiu nosso contato visual, encarando os talheres sobre a mesa. Um ato incrivelmente inédito. Em todos esses anos, eu nunca havia visto Lucas Silva desviar o olhar de alguém. Nunca.
Foi ele que sempre dizia sobre o poder e força que um olhar continha, e que desviá-lo enquanto encara-se alguém era significado de fraqueza, fragilidade...
Em uma fração de segundos, vi Lucas Silva se tornar em alguém receoso e incerto. Continuei o encarando sem retorno, observando-o dar, debilmente, atenção aos seus joelhos.
O mesmo mordomo que havia arrastado minha cadeira, me despertou de tais pensamentos. 
Ele pôs sobre a mesa, um pedaço de cartolina plastificada, percebendo que era uma espécie de cardápio, o qual li os seguintes letreiros:

 

Cardápio do Dia

·    Escargot de Bourgogne – O típico caramujo, com sua casca cozida na manteiga e salsa. ·    Coq au Vin – Carne de galo ao molho de vinho tinto Chateau.

·    Bouillabisse – Sopa de tomate com peixe do Mediterrâneo ao molho ferrugem.

·    Foie Gras – Fígado de ganso.

·    Tripes à la Mode de Caen – Tripas de cabrito cozidas em molho de vinho tindo Chateau e Calvados.

·    Pieds et Paquets – Pés e tripas de cabrito com molho do Chef.

Minha expressão naquele momento era chocada. Primeiro pelo fato de ter apenas as coisas mais estranhas e bizarras do mundo da culinária em um só recinto. Segundo por eu ter achado que aquele seria um jantar comum. Um jantar normal, que pessoas normais dão para conhecer a namorada normal de seu filho. Onde tem comida normal, como um simples espaguete.
Escutei Joana ordenar um Tripes à la alguma coisa, Carlos optou por Escargot alguma coisa, Lu escolheu o mesmo que a mãe, e quando eu lia indecisa nas várias e horríveis e estranhas opções, escutei Le sussurrar perto de mim: “Escolhe Bouillabisse. Vai por mim, você não vai querer comer um caramujo ou tripas de animais” e deu uma piscadela, voltando sua atenção ao mordomo e pedindo o tal Bouilabisse, a sopa. Nem o molho ferrugem, muito menos o peixe do Mediterrâneo soava saboroso, mas eu realmente não estava com humor ou estomago para comer tanto fígado, pés e tripas ou um caramujo. UM CARAMUJO! “Bouillabisse, por favor” falei discretamente, voltando para prestar atenção no que meus sogros conversavam. “Estou muito confiante nessas eleições. Tenho certeza de que o povo fará a escolha certa. Pelo amor de Deus, a besta do Parker jamais seria capaz de governar essa cidade com aquelas ideias revolucionarias e socialistas. Quero esses comunistas sujos e malvestidos longe da minha cidade. Raça ruim essa viu. Poderia existir um segundo Hitler para acabar com todos eles...” Carlos soltou uma risada debochada, sendo seguido por Joana e Lucas, que concordava ferozmente. “Propriedade estatal? O que eles querem, quebrar todos nós? Se eles gostam de viver com pouco dinheiro, que vão para a África! ” Apontou Lucas, fazendo o pai friccionar a mão na barriga por tanto rir. 
“Imagine só o caos que seria se houvesse apenas uma marca de shampoo nas drogarias?” Joana completou chocada, como se aquilo fosse causar o apocalipse. 
Naquela noite, o choque com certeza era minha expressão fixa. O que aquelas pessoas tinham na cabeça? Dinheiro? Sem sombra de dúvidas seus neurônios foram substituídos por moedas. 
Continuaram a discutir o quão podre eram esses revolucionários, criticaram todos os autores, sábios e filósofos os quais eu idolatrava, mandaram para o inferno os jovens que lutavam por seus direitos, dizendo que sua única finalidade era estudar e no fim arrumar um emprego para manter o dinheiro correndo nos bancos.
E quando dei minha opinião sobre o assunto, obviamente riram de mim como seu eu estivesse contando uma piada ou sendo sarcástica. No outro momento me ignoraram e continuaram com sua linha hipócrita de raciocínio. 
Minha vontade era de correr dali, mandar todos para a rapariga que os havia parido e fazer campanha política para o candidato Parker. Mas coisa que aprendi lendo muito, era que deveríamos respeitar as opiniões, por mais absurdas que fossem, de pessoas alheias. Que fosse.

Depois de muita conversa alienada, os pratos chegaram. Eu honestamente nunca vi coisa tão feia quanto aquela na minha frente. E outro detalhe, com o preço dos ingredientes de cada prato, daria para alimentar um país inteiro, e não estou exagerando. E o mais importante, após tudo isso, minha fome havia se tornado um enjoo e repulsa enorme.
Ao momento em que coloquei a primeira colher de sopa na boca, uma náusea me invadiu, mas com muito esforço e consegui colocar tudo que havia naquele prato dentro da minha boca, enquanto mais ânsia me dominava ao ver Joana comendo tripas e Carlos comendo caramujo. “Mas então, Lari, o que pretende fazer na faculdade? ” Carlos se dirigiu a mim após alguns instantes. Toda a mesa voltou sua atenção para mim. Abri a boca para falar. “A Lari quer fazer a escola de Direito em Cambridge, não é mesmo? ” Lu, além de colocar palavras na minha boca, virou-se para mim. “Hm, Direito é uma profissão de futuro! ” Joana passara por cima da minha resposta também. 
“Na verdade a Lari quer fazer Literatura. Mas a mãe dela não concorda...” Le interrompeu a todos com um tom firme. Olhei-o de relance, em agradecimento por dar voz às minhas palavras. Vi o choque estampar no rosto dos demais. “Mas ela tem toda razão! Imagine, Literatura? O que você faria? Leria livros para crianças em hospitais? Ensinaria mendigos a ler? ” Carlos disse com deboche. “Faria isso se fosse preciso” falei com um pouco de arrogância, sentindo os olhares tortos de Joana sobre mim. Pelo amor de Deus, meu ouvido não era pinico e eu não tinha obrigação de ser educada com pessoas que debocham minhas idealizações. “Então você passaria fome” retrucou Carlos, ainda com um tom de deboche na voz. “Com muita satisfação” sustentei a discussão com muito cinismo e raiva. Meu rosto provavelmente estava vermelho de tanta fúria. “Fiquei feliz por ter um pai rico para te sustentar então” ele disse com avidez e ironia. Não saberia o que responder. Se eu abrisse a boca, provavelmente o xingaria de todos os nomes feios possíveis da língua inglesa. Provavelmente jogaria, também, o resto de sopa quente do meu prato em seu rosto. 
Para a minha salvação, Le pigarreou ferozmente do meu lado, e tanto eu quanto o senhor Carlos balançamos a cabeça a fim de esvaziar a raiva que nos dominava.

“Bom, peço desculpas, mas receio que preciso ir” falei friamente, me levantando da mesa bruscamente, antes que o mordomo resolvesse vir me irritar. Lu se levantou imediatamente. “Mas já? ” Joana pareceu surpresa “A conversa estava tão agradável! ” Talvez ela fosse muito lerda ou burra para seguir o andamento de conversas desagradáveis. 
“Sim, me desculpe, senhora Silva, mas eu realmente preciso ir” falei com um sorriso forçado, que creio eu, ela não percebeu a ironia contida nele. Senti Lu segurar levemente meu braço e aproximar seu rosto ao meu. “Por favor, não dê atenção às bobagens que saem da boca de meu pai. Você sabe como são essas pessoas de mais idade, não estão tão atualizadas quanto à essa nova... Fase...” ele sussurrou em meu ouvido, não sendo tão convincente aos meus olhos. “Não diga que você pensa diferente, Lucas. Nem mesmo você entende o porquê de eu querer Literatura, você nem ao menos tocou em um livro em toda a sua vida, eu posso apostar” falei entre dentes, sussurrando também para que ninguém além dele pudesse ouvir. Não queria mais um motivo para que aquela família falasse de mim a partir do momento que eu saísse dali. Tirei meu braço de suas mãos discretamente. “Boa noite. Com licença” acenei com a cabeça a todos ali e andei a passos largos e pesados em direção à saída daquele castelo mal-assombrado, sendo seguida pelo mordomo que estava me dando nos nervos.
Escutei novos passos, que não era do velhinho, já que ele estava ao meu lado. 
Quando o mais velho abria a porta para mim, senti, mais uma vez, uma mão firme envolver meu braço. Já ia virar para dar boas lições de moral em Lucas, mas surpreendi ao ver Le parado ali. “Te peço verdadeiras desculpas, Lari. Me envergonho de cada palavra que saíram das bocas daquelas pessoas ali” ele apontou com o dedão para a sala onde antes eu estava. “Não dê ouvidos a eles. Você é incrível, e qualquer coisa que você faça vai ser incrível! ” Ele disse com empolgação, talvez tentando me contagiar. Bufei e soltei meus braços, antes rígidos. “Obrigada, Le. Só desculpo porque sei que você não é como eles” falei sinceramente, e sem o meu comando, uma lágrima contornou minha bochecha esquerda. 
Automaticamente, como ele sempre fez, Le envolveu-me com seus largos e fortes braços, protegendo-me do que quer que fosse. 
Le Silva era o melhor amigo que uma pessoa poderia ter, aquele cara que, independentemente da situação, sempre estaria do seu lado pra te apoiar, te abraçar e proteger quando alguém te magoasse. Ele era o irmão que eu nunca tive. O irmão que eu sempre quis ter. 
Então, ele me deu um beijo suave no topo da cabeça e disse: “Vai com Deus, anjinho. ”
Sorri, e corri em direção ao motorista dos Silva, que já me aguardava no portão principal.


Eu já havia chegado em casa há algumas horas. Quando Silvana me perguntou sobre o jantar, menti e disse que havia sido espetacular. Ela suspirou de alegria. 
Marina sabia que eu mentia apenas me olhando. Ela conhecia cada sorriso irônico e forçado meu. Quando nossos olhares se cruzaram quando eu subia a escada, eu apenas dei de ombros, descrente.
Assim que cheguei a meu quarto, a primeira coisa que fiz foi me jogar na cama, como usual. Aquele era meu recanto, o único lugar onde eu tinha paz para realizar meus desejos em meus sonhos, discutir comigo mesma sobre assuntos os quais nenhuma outra pessoa entenderia meu ponto de vista, pensar em coisas ou pessoas que eu não deveria...
Tentei ler um livro, mas não tinha concentração suficiente para realizar uma boa leitura. Tentei jogar paciência com as cartas que escondia na minha cômoda, mas não conseguia desenvolver nenhum desafio. Até palavras-cruzada me arrisquei a fazer, a fim de trazer o sono para mim. Mas tudo foi em vão.
Aquele jantar não saia da minha cabeça. A possibilidade de viver com aquela família, de SER como aquela família, me trazia repulsa e um enjoo enorme. Fiquei imaginando como seria minha vida com Lucas Silva, como nossos filhos seriam criados. Com ele, teriam os mesmos costumes mesquinhos, os mesmos pensamentos hipócritas, a mesma cultura alienada. E aquilo eu não poderia permitir. 

Um som vindo de fora dos portões da casa me chamou a atenção. Resolvi ignorar, imaginando que fosse apenas um dos bares desordenados que tinha por ali.
Tentei voltar ao meu pensamento anterior, mas algo me deixou mais intrigada quando passei a passei a escutar aquele som com mais cautela.

Wise man say only fools rush in…

Eu conhecia aquelas palavras... Eu conhecia aquela sinfonia...

But I can’t help falling in love with you…

Aquela voz era inconfundível.

Shall I stay? Would it be a sin?

Mesmo distorcida pela distância, eu sabia de quem eram aquelas palavras...

If I can’t help falling in love with you…

Era a minha música sendo tocada à alguns metros dali...

Like a river flows surely to the sea
Darling so it goes, some things are meant to be.

Eu precisava descobrir de onde vinha aquele som. Levantei-me imediatamente da cama.

Take my hand
Take my hole life too.

Fui em direção à minha janela a procura da origem daquele som. Olhei para todos os lados, além dos muros da minha casa. Vi os guardas também procurando o causador daquele transtorno à vizinhança. 

For I can’t help falling in love with you…

Apertei meus olhos na tentativa de ver melhor, na tentativa de achar uma alma viva naquela escuridão da rua, mas eu não via nada.

Like a river flows surely to the sea
Darling so it goes, some things are meant to be.

Então, após muita procura e aflição, pude identificar atrás do muro esquerdo o qual fronteirava com o meu quarto, um carro. Um carro que eu jamais havia visto antes, e muito menos conhecia alguém, que conhecesse alguém que o tivesse. 
Possuía os vidros esfumaçados, então era fisicamente impossível enxergar qualquer coisa ou alguém dentro do automóvel.
A música parecia cada vez mais alta, e a voz de Elvis ecoava por toda a White River Street. Várias casas ligaram as luzes frontais e saíram bravas e inconformadas com aquela barbaridade. O que estaria um carro velhote daqueles, tocando um som em volume não permitido àquela hora os moradores da White River seguiam à risca todas as normas do condomínio defronte à casa dos Elias? 
Silvana já havia acordado e agora andava à passos pesados em direção à portaria.
‘DE ONDE VEM ESSE SOM? QUEM É O IMPERTINENTE QUE ATRAPALHOU MEU SONO? ’ Ela gritava.

Take my hand
Take my hole life too.

O porteiro apontou para o lugar de onde o som vinha, enquanto minha mãe gesticulava grosseiramente e gritava com os seguranças. De repente, um deles apontou para a janela onde eu estava pendurada, e pude ver o olhar furioso de Silvana sobre mim. Por que diabos ele apontou para mim? E por que ela me olhou de maneira furiosa? Sou eu quem estou naquele carro, colocando para tocar aquela música? 

For I can’t help falling in love with you...

Foi então que percebi… Percebi que a música estava sendo tocada para mim… Para mim! Aquele calhambeque estava direcionando o som para mim! Eu estava recebendo uma serenata! A primeira serenata da minha vida!
Eu estava maravilhada. Nem ao menos escutava as palavras rudes que Silvana gritava abaixo da minha janela. Eu não conseguia tirar os olhos do carro com pintura amarela descascada. Meus lábios estavam abertos em um sorriso débil, minha mente trabalhava à mil por segundo, meu coração batia descompassado e parecia querer saltar do meu peito e ir de encontro ao dono do carro.
Será que a pessoa sabia o quanto eu amava Elvis Presley? Será que era coincidência o fato de que aquela era a música que mais tocava no meu ponto mais fraco? E a pergunta mais instigante: quem seria o dono do carro?
Vagamente vi alguns seguranças indo correndo em direção ao automóvel e pude escutar o arranco que o carro deu ao dar a partida. Ele engatou primeira marcha, de modo que seus pneus cantassem e soltassem fumaça pelo lugar onde estava estacionado.

E pude perceber, que na última frase da música, o autor de tal escândalo aumentou o volume até o máximo que uma caixa de som poderia aguentar, fazendo com que eu a escutasse nitidamente...

I can’t help falling in love with you...



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