História Querido Diario - Capítulo 13


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Romance
Exibições 5
Palavras 4.804
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 13 - Can't stop the train gotta let it roll on


Eu e Di ficamos no parque até o guarda do local nos expulsar, dizendo que era hora de fechar. Foi só aí que percebi que eram oito da noite e eu não tinha dado sinal de vida para minha família. Eu iria escutar muito assim que pisasse na mansão. Pouco me importava.

O próprio Di havia me dado um bom conselho hoje. Na verdade, ele sempre parece dizer as coisas certas no momento certo... Chegava a ser meio estranho. Nem mesmo Le me dizia coisas tão profundas que me fizessem refletir tanto. 

“O ser humano é o animal mais azarado do mundo” ele disse. “Por ele ser pensante, tem a capacidade de carregar um fardo do passado, pensando no futuro. Isso é algo lógico para nós, mas muitas vezes esquecemos do presente, de viver este instante, por medo do que isso poderá acarretar no futuro... Não vivemos o presente por medo de cometer os mesmos erros do passado, enquanto devíamos estar preocupados em concertá-los ou aprender com eles... Esqueça tudo sobre o que pode acontecer... Possibilidades são relativas. Você pode fazer acontecer. Você pode escolher ficar arrasada por causa de Lucas, chorar até que seus olhos caíssem e nunca mais se relacionar com alguém. Ou você pode escolher esquecer, ignorar, aprender algo com tudo isso que aconteceu. Se tornar mais forte. Rir da situação; colocar isso no passado e deixar lá para sempre! E por fim, procurar alguém que te mereça. Acho que essa é a parte mais difícil...” essas foram suas palavras. Me tocaram profundamente, devo admitir. 

Eu sempre vivi do meu passado, pensando no meu futuro, mas nunca vivenciei necessariamente o presente. Pensando nas consequências dos meus atos, no que isso poderia acarretar no momento seguinte... Como Di havia dito: somos seres pensantes. Eu era pensante demais. Nunca agi impulsivamente, nunca deixei uma emoção me dominar completamente, nunca havia me entregado a alguém inteiramente... Precisava de uma vida de cão. Literalmente. 

“Por que será difícil de encontrar?” Lembrei-me de ter perguntado, desanimada por essas palavras finais. 
“Porque não sei se existe alguém que realmente te mereça” ele respondeu simplório, sem me encarar. Naquele momento, o sol começava a se pôr, dando lugar a um céu alaranjado com rajadas vermelhas. Estávamos deitados na grama e olhávamos para cima sem nos encaramos. 
“Se você pensar assim, eu vou morrer velha, careca e com os peitos caídos...” falei meio alheia, rindo da baboseira que havia dito logo após. Fui acompanhada por uma risada estridente do meu lado. 
“Seria um desperdiço” Di disse depois de cessar as risadas. Suspirou e colocou uma mão sobre seu tórax. “O que eu quero dizer é que a pessoa que te merece, tem que ser praticamente perfeito” ele completou, ainda olhando para o céu sobre nós. “Não quero alguém perfeito. Perfeição tem seus limites” falei mais para mim mesma que para Di. 
“Já é um começo” o garoto disse, apoiando os braços atrás da cabeça. Não entendi o que ele quis dizer com isso e ainda pensei tê-lo escutado dizer algo como “bom para mim”, mas acho que foi impressão. Di pode parecer meio louco às vezes. 

Silencio. 

“O que eu mereço, Di?” Cortei o silencio agradável, onde só escutávamos o canto dos grilos ao nosso redor. O céu já estava parcialmente escuro, mas alguns feixes de luzes ainda persistiam lá em cima e brilhavam contra o rosto de Di. Agora eu o encarava sem receio. Mas arrependi-me no momento seguinte em que percebi o tamanho da perfeição que dele reluzia. Oliveira mantinha os olhos cerrados, mas eu ainda assim podia ver o brilho que neles continham. Seu nariz era tão bem moldado que senti uma pontada de inveja. Suas bochechas levemente rosadas, sua boca entreaberta, seus cabelos bagunçados de uma forma tão charmosa e alguns fios caiam sobre sua face... Tudo parecia impecável... Indefectível... 

Continuei a encará-lo admirando o nada, esperando ansiosa por uma resposta. Então vi seu rosto mover-se lentamente para meu lado, ficando perigosamente próximo. Eu novamente senti-me tonta, frágil, fraca... 

“Você vai ter que descobrir o que é melhor para você...” ele respondeu vagamente, quase que em um sussurro. 

Engoli seco. 

“Será que... você poderia me ajudar a descobrir?” Falei no mesmo tom, vendo a busca por palavras ser um desafio enorme. Meus olhos se decidiam entre os dele e sua boca, não sabendo para qual dar mais atenção. 
Di sutilmente balançou a cabeça de modo negativo. Eu teria que descobrir. 
Será que seria algo tão difícil a fazer? 

E foi ai que o guarda nos interrompeu. 

No momento em que eu ainda estava louca por respostas e mais tempo com o garoto ali do meu lado. 
Nesse dia, percebi o quão misterioso Di era, e o quão doida eu estava para desvendar todos seus mistérios. 
“Vamos, deixe-me te levar até em casa...” ele disse após o guarda nos avisar sobre o fechamento do parque. Di se levantou e estendeu uma mão para me ajudar a fazer o mesmo. 
“Você está de moto... de novo?” Perguntei com um pouco de insegurança enquanto caminhávamos para a saída do local. 
“Não me diga que ainda tem medo!” Ele disse com um tom de deboche e eu tive que negar para não parecer muito ridícula. 

Enquanto caminhávamos, senti que havia um monstro uivando dentro de mim. Senti minhas bochechas rosarem drasticamente, já que foi um barulho estrondoso e Di me olhou no mesmo instante. 

“Você está bem?” Ele perguntou preocupado. Lembrei-me de um pequeno detalhe: eu estava sem comer desde o café da manhã. Como eu me mantive de pé por todo esse tempo? 
“Sim, por que não estaria?” Forcei uma expressão qualquer, enquanto sento minhas pernas bambearem e minha cabeça girar. 
“Você por um acaso almoçou hoje, Larissa?” Di perguntou, soando autoritário, exatamente como Gilberto. 
Olhei para as árvores à nossa volta, ignorando totalmente sua pergunta. 
“Como eu sou tão idiota de te deixar sem comer a tarde inteira?” Ele falou um tanto irritado para si mesmo. Achei uma graça toda aquela preocupação, e eu sabia que estava sorrindo debilmente. Fome me deixa retardada, essa era a única explicação. 

Di gentilmente me ajudou a subir na moto, subiu em seguida e a engatou. “Segure-se firme em mim” ele disse um pouco alto e eu imediatamente fiz o que mandou. Envolvi, sem vergonha alguma, minhas mãos em sua cintura, juntando nossos corpos o máximo que aquele pequeno espaço permitia. Mas não foi só isso. Encostei minha cabeça em suas costas, bem perto de sua nuca. Não sei se era a fome que crescia ou era o cheiro que vinha do pescoço de Di que estava me deixando mais tonta. Acho que até dormi... 
Não sei ao certo quanto tempo demorou, mas de repente estávamos em uma praça movimentada da cidade, onde havia um pequeno parque de diversões e várias barraquinhas de comidas e bugigangas. 
Di me ajudou a tirar o capacete e a descer da moto, dando-me o braço em seguida para que eu me apoiasse. 

“O que você quer comer?” Ele me perguntou enquanto andávamos entre o amontoado de gente. Eu não estava muito em condições de escolher, o que colocassem na minha frente, eu devoraria. Mas um incrível cheiro de cachorro-quente invadiu minhas narinas e eu me senti tentada. 
Puxei a mão do garoto e corri em direção à barraquinha mais próxima, podendo escutar seus risos atrás de mim. 
“Um completo?” Perguntei a ele assim que chegamos. 
“Não estou com fome” Di respondeu singelo com um sorriso. Não estava em condições de discutir, então simplesmente me virei e pedi um cachorro-quente completo para mim. 
Eu esperei ansiosamente por ele, posso dizer que foram os cinco minutos mais demorados da minha vida. 
“Por que não vai pegar uma mesinha para a gente? Eu pego seu cachorro-quente” senti uma mão ser depositada na minha cintura e o hálito quente de Di bater contra minha orelha. Concordei e apalpei meus bolsos a procura de algumas moedas para pagar minha refeição. No mesmo tempo, vi Di pegar sua carteira e dar uma nota à moça do balcão. 
“Hey, o que está fazendo?” Perguntei indignada, vendo-o me ignorar totalmente e pedir um refrigerante. Ele agradeceu a moça, pegou meu lanche e o refrigerante e se virou para mim. 
“Te pagando um jantar” ele disse divertido, indo em direção às mesinhas que ficavam ao redor das barracas. Não tive como contestar já que ele disparou na minha frente, então resolvi simplesmente o seguir. 
Assim que nos sentamos, não pude evitar, tive que devorar aquele sanduíche na minha frente, depois eu me preocuparia com os bons modos. 
Eu comia com todo o gosto do mundo, como se aquela fosse a última refeição da minha vida. 

Percebi que Di me observava e uma ponta de vergonha me abateu. Diminui a velocidade das mordidas e limpei os cantos da minha boca com um guardanapo. 
“O que foi?” Perguntei meio sem graça, olhando para os lados a fim de disfarçar minha timidez. Di soltou um risinho e mexeu a cabeça negativamente, sem responder. “Fala! ” Insisti agoniada. 
“Não é nada!” Outro risinho. Encostei o cachorro-quente na mesa e cruzei os braços. “Não pare de comer por minha causa, vamos! É bonitinho ver você comer...” ele disse com um sorriso. 
Aquilo era um tanto quanto... Bizarro. 
“Você é meio estranho, Di...” rolei os olhos e continuei comendo. Minha fome era maior que qualquer outra coisa. “Hm, exe é u melhor xantar que eu xá tive! ” Falei de boca cheia, podendo escutar os risos de Di. Posso dizer que aquilo era muito melhor que um jantar de cinco estrelas com a família Silva, Le que me desculpasse. 
“Um dia vou te dar um jantar decente” escutei Di dizer e inconscientemente senti minha garganta fechar e engasguei. Enquanto sofria um ataque e quase morria, o garoto à minha frente apenas colocou um sorriso simples em seu rosto. 
“Um jantar... de verdade? Você quer dizer como em um encontro? ” Gaguejei debilmente. Será que era isso mesmo que ele queria dizer? E se fosse, o que eu deveria responder? 
Di balançou a cabeça afirmando meus pensamentos. 
“Você aceitaria?” Me perguntou. E essa era a pergunta que eu temia responder. Eu ainda estava confusa com os pensamentos totalmente embaralhados e emoções distorcidas. Uma parte de mim pulsava em dizer sim, enquanto a outra lutava em recusar. Eu era um poço de contradições. 
“Não precisa responder agora” ele disse após alguns instantes esperando uma resposta minha. Respirei aliviada e procurei olhar algo que não fossem aqueles olhos tão persuasivos. 
“Quer dar uma volta?” Ele novamente quebrou o silencio entre nós. 

Eu na verdade precisava ir embora. A companhia de Di era esplendida e confortante, mas eu precisava de alguns momentos me torturando sozinha, buscando alguma solução para as minhas complicações. E, além disso, eram quase onze da noite e apenas uma coisa me preocupava: perder meu show particular. Sim, eu me referia às serenatas. 
Durante todos os dias da semana, sem falta alguma e total pontualidade, às vinte e três horas e vinte e três minutos, o mesmo carro de pintura amarela descascada continuava a alegrar minhas noites e infernizar as de Silvana. Eu já havia me despreocupado em saber quem era o autor, realmente não importava. Tudo que fazia diferença era o modo como ele me fazia sentir: anestesiada... aliviada... 
Eu não entendia como uma simples serenata mexia tanto comigo. Na verdade, havia muitas coisas as quais eu não entendia ultimamente. 

“Só me leve para casa, por favor...” falei simplesmente. Di deu de ombros e sibilou um ‘okay’. “Vai jogar boliche amanhã conosco? ” Me perguntou enquanto andávamos desapressados pela praça, que já estava praticamente vazia. Havia alguns brinquedos abertos onde suas luzes coloridas piscavam cintilantes. 
“Acho que sim... Gui vai me buscar em casa...” respondi olhando para as poucas pessoas que ainda passavam por nós. Di apenas murmurou ao meu lado. 

Ao chegarmos na moto, o garoto me entregou o capacete e me ajudou a subir na moto. Eu estava realmente ficando desinibida para andar naquela coisa... Na verdade quando se acostuma, quando se perde o medo, andar naquela moto pode ser algo realmente libertador. 
Di enguiçou-a e entramos em movimento. Agarrei-o imediatamente sem pudor algum. Ele estava com uma jaqueta preta de couro sobre o corpo, mas aquilo não me impedia de sentir o toque de sua pele contra a minha, ou pelo menos imaginar... O vento corria ao nosso lado, me fazendo arrepiar algumas vezes por estar gelado. As luzes dos postes passavam rapidamente por nós assim como as pessoas. Por ser uma sexta-feira à noite, as ruas estavam bastante movimentadas e a cada bar que passávamos, podíamos escutar uma música diferente. Queria poder descer em algum, mas o tempo realmente não era meu amigo, e minha mãe também não seria assim que eu pisasse naquela casa. 

Apertei mais meu corpo contra o de Di a fim de me esquentar um pouco, aquele vento gélido estava começando a me incomodar. O vi olhar-me pelo retrovisor e dar um pequeno sorriso, o qual eu retribuí sinceramente. Após alguns minutos senti a moto diminuir a velocidade e eu reconheci aquele maldito bairro... Di estacionou de vez o veículo e, como sempre, me ajudou a descer. 
"Obrigada pela carona, Di... E pelo jantar... E pela conversa... Enfim, pelo ótimo dia..." Falei simplória com um sorriso tímido em meus lábios. Eu olhava para meus pés já que nas últimas horas os olhos de Di se transformaram em um desafio difícil de se encarar. 
"Eu que agradeço, Lari" ele disse de volta, colocando as mãos dentro dos bolsos de sua jaqueta e sorrindo de maneira angelical, fazendo-me até perder um pouco a noção de tempo e espaço. 
"Bom..." balancei a cabeça, espantando qualquer tipo de pensamento. "Tenho que entrar, já está tarde. E além do mais, tenho uma fera para enfrentar agora..." Di riu. 
"Sei. Qualquer coisa pula a janela e aparece lá no bar do meu pai..." ele disse, e eu não achei que fosse uma má ideia. Dei alguns passos até chegar relativamente perto de Di, e no mesmo tempo em que fui para a direita, para dar-lhe um beijo na bochecha, foi para a esquerda, fazendo com que nós quase beijássemos, o que acelerou relativamente meu coração. Fui para a esquerda e o garoto foi para a direita, fazendo nossas bocas quase se chocarem novamente. Não contive meu riso, nem ele. Segurei seu rosto com uma mão e dei um beijo em sua bochecha finalmente. 
Dei as costas e passei pelo portão de bronze assim que ele foi aberto para mim. Não me contive em olhar para trás e dar um último 'tchau' à Di, o qual ainda me encarava, com as mãos nos bolsos e um singelo sorriso no rosto. Comecei a andar a passos largos em direção à casa, com um sorriso de orelha a orelha. 


Como esperado, Silvana falou em meu ouvido até ele ficar bem vermelho e quente. Eu havia aprendido uma nova arte: a de ignorar as pessoas. Aquele velho ditado de 'entrar em um ouvido e sair pelo outro' realmente funciona, todos deviam usá-lo de vez em... sempre. Com pessoas que te irritam e falam as mesmas abobrinhas de sempre, aquelas que não te levarão a lugar nenhum. 
Após escutar uns quinze minutos de muita baboseira, vi no grande relógio pregado no centro da parede da sala marcar onze e vinte e poucas. Concordei com tudo que Silvana tinha a falar, acho que ela até se cansou de tanto gritar sem ter uma resposta minha e simplesmente me deixou correr pelas escadas até meu quarto. 

Quando lá cheguei, abri rapidamente minha janela e em menos de dez segundos pude ver o carro se aproximando da minha casa. E com mais cinco segundos, a minha música disparou a tocar. Os guardas nem mais se preocupavam em tentar impedi-lo ou persegui-lo, aquilo já havia virado rotina diária da White River Street. Alguns vizinhos até ficavam a postos em suas janelas para também curtirem o espetáculo como eu. Algumas mulheres já haviam me abordado na rua e queixaram-se de sua inveja sobre mim, por ter alguém tão apaixonado e romântico me passando serenatas todas as noites. Eu não encarava aquilo como um ato romântico ou apaixonado. Aquelas serenatas eram como psicanálises para mim. 
O que eu quero dizer é que nem Silvana se importava mais. Não tanto quanto antes. Ela arranjara alguns tampões de ouvido para tentar solucionar o problema, já que o infrator não desistiria. 
Então fiquei, como sempre fazia, admirando a música e pensando no meu dia turbulento. Ou talvez nem isso. Essas serenatas me faziam refletir, filosofar, essa era a verdade. 
E agora sozinha eu pensava: como nós, mulheres, somos inocentes. Como sempre acreditamos em cada palavra dita quando estamos apaixonadas. Deixamos um homem nos dominar completamente, fazemos por eles o que não sabemos se fariam por nós. E é aí que vejo as quão supérfluas são as palavras. O que elas significam, afinal? Absolutamente nada. São cheias de malícia, mentiras e maldades. São enganadoras. Por que acreditar em simples palavras já que elas nada provam? Palavras não provam amor, não demonstram carinho. Elas, um dia, irão te machucar pois irá descobrir que eram nada além de calúnias. 
A partir de hoje, eu não acreditaria mais em palavras. Meu príncipe, encantado teria de saber como agir.
Escutei uma música alta me despertar de meus sonhos. Se não tivesse reconhecido The Wonder of You imediatamente, teria jogado meu rádio muito longe. Ele estava totalmente louco, começava a tocar músicas do nada. Acho que ele estava possuído ou algo assim. Certo dia acordei ao som de uma nova banda que começava a fazer sucesso na Inglaterra, Beatho... Beats... Beates... Não, Beatles! Eles são realmente bons... E certa vez coloquei Chuck Berry para tocar em alto e bom som dentro do meu quarto. Silvana imediatamente entrou e desligou o rádio sem minha permissão, gritando que aquele não era o tipo de música que eu deveria estar escutando, que aquilo não era para pessoas como nós. Pessoas mesquinhas e ignorantes, ela quis dizer.

Bom, então eu acordei. Faziam séculos que eu não acordava nesse horário. Havia esquecido o quanto é bom dormir até as dez da manhã. Deveriam fazer uma lei proibindo as pessoas de acordarem antes deste horário... Todos seriam mais felizes. Subi em cima da cama e comecei a pular e a dançar enquanto a música tocava com veemência. Como alguém poderia ficar tão feliz após descobrir uma traição de seu namorado com sua melhor amiga? Talvez eu fosse anormal... Ou tivesse um alto poder de regeneração. 
Qualquer uma das opções me parecia aceitáveis, contando que Benjamin ficasse fora delas. 

Vi que Marina estava no batente da porta me encarando como se eu tivesse pirado de vez. 
“Venha pular comigo, Mari!” gritei sorridente, a vendo boquiaberta e gesticular fervorosamente com as mãos. 
“Não cheguei a esse grau de loucura” ela disse firme, mas eu sabia que no fundo sua vontade era de pirar junto, entretanto, o medo de que Silvana a surpreendesse no quarto e a demitisse era maior. 
“Vamos lá, não seja tola” pulei no chão e fui de encontro à mulher, puxando-a pela mão em seguida e podendo escutar seus gritinhos de desespero. 
Joguei-a na cama e pulei na mesma em seguida, obrigando-a a se levantar e ficar de frente a mim. Peguei em suas mãos. 
“Pule” falei apreensiva, mas com um sorriso no canto dos lábios. 
“Já disse que não, Larissa, mas que coisa!” Mari disse brava, no entanto, deixando transparecer sua inquietude. Comecei a pular sem soltar suas mãos, e a mais velha novamente soltou gritinhos abafados e histéricos. 
“Larissa, eu vou cair!” Ela gritou e eu comecei a pular fortemente contra o colchão, afundando-o cada vez mais, à medida que meus pés batiam no mesmo. 
Vi Marina se desequilibrar, e em um piscar de olhos, me vi em cima dela, escutando sua risada estridente em meu ouvido. Não me contive, e comecei a rir tão alto quanto a mulher. 
“Oh meu Deus” Mari suspirou após bons segundos de risadas intermináveis. “Não me contamine mais com a sua loucura, Larissa” disse retomando sua postura robusta e feição séria. “Vamos, levante-se e venha tomar seu café” Marina completou, saindo em seguida do quarto e me deixando deitada na cama. 
Soltei um grande suspiro antes de me levantar em um pulo. Fui em direção ao closet e peguei meu penhoar e pantufas de porquinho. Algum dia eu deixaria de ser criança... 

Ao chegar na sala de refeições, com um grande sorriso nos lábios e com a certeza de que nada estragaria meu dia, tive uma grande decepção. A imagem de Lucas tomando chá com Silvana foi o bastante para acabar com toda aquela certeza. 
Lu abriu aquele sorriso devastador de sempre, que faria meu coração acelerar abruptamente, mas que nada me fez sentir além de repulsa. E um tremendo desejo de meter-lhe um tapa na cara. 

“O que você está fazendo aqui?” Tentei manter a calma, mas não conseguiria por muito tempo. Demonstrei meu choque tanto em meu tom de voz quanto em minha feição. Eu sabia que ele era descarado e cínico, mas a esse ponto? 
“Larissa!” Mamãe me repreendeu, mas eu realmente não iria dar atenção. 
“Depois de tudo você ainda tem a cara-de-pau de aparecer aqui?” Aumentei meu tom gradativamente, ainda indignada. Lucas mantinha uma expressão calma que estava me irritando ainda mais. 
“Larissa, sente-se aqui!” Escutei Silvana dizer um tanto quanto enraivecida, fazendo-me chegar ao meu estopim. 
“NÃO MÃE, EU NÃO VOU ME SENTAR PERTO DESSE ESCRÚPULO!” Gritei ferozmente e apontei para Lu, que encarava sua xícara de chá como se fosse a vítima daquele ambiente. Silvana levantou-se bruscamente de sua cadeira. 
“TENHA MODOS, GAROTA!” Gritou de volta, apontando seu dedo indicador à minha face, ameaçadoramente. 
“Você sabe o que esse garoto me fez?” Aproximei-me dela, sem medo de qualquer ameaça. Minha raiva era tamanha que chagava a me encorajar. 
“O que quer que ele tenha feito, está arrependido e veio conversar” a mais velha disse entre dentes, deixando claro sua ordem para que eu escutasse as lorotas que viriam da boca de Lucas. 
Confesso, não contive uma risada cínica e estridente de sair da minha boca. 
“Arrependido? ARREPENDIDO? Foi isso que ele disse à senhora? Francamente mãe, NÃO SEJA TOLA! ” Eu estava cada vez mais exaltada e tinha certeza que toda vizinhança podia escutar nossa discussão. 

De repente, vi o rosto de Silvana se avermelhar de raiva e, em um segundo, meus braços eram apertados ferozmente por suas mãos magras e frias. 
“Olhe bem como fala comigo, Larissa. Isso é falta de boas corretadas, e já que eu claramente falhei em sua educação, vamos ver se agora você aprende a me respeitar” ela estava claramente tão aborrecida quanto eu, seu ódio exaltando de suas órbitas. Começou a me arrastar pelo braço para fora daquele salão, e eu sabia que levaria uma surra das boas daqui alguns momentos. Entretanto, eu me manteria forte. Apanharia, mas não abaixaria a cabeça para nenhum marmanjo que quer, pela segunda vez, me enganar. Eu não seria enganada novamente. Não o deixaria ao menos ter a chance de tentar. Que eu fosse espancada por uma boa causa. 

“Senhora Elias, por favor, não puna Larissa” escutei a voz grave de Lucas fazer Silvana parar de andar aos poucos. “Ela tem razão de estar assim, eu realmente fiz algo de que me envergonho muito, e só quero me desculpar...” a mulher foi desencravando suas unhas de meus braços lentamente. “Por favor, não a puna...” Lucas repetiu pesaroso, e se eu não o conhecesse, teria pena. 
Mas senti uma enorme vontade de pedir a Silvana que me surrasse agora mesmo! Cínico ou não, ele estava me irritando profundamente, e se eu escutasse sua voz por mais algum tempo, não me responsabilizaria por meus atos. 
“Pois bem. Se não quiser levar um castigo bem diferente de todos que já levou, sugiro que se sente e ouça o que Lucas tem a dizer” Silvana disse friamente, me olhando com pleno desgosto. Aquilo não era uma sugestão. Era um mandato. 

Sutilmente, a mulher deixou o recinto sem mais palavras, deixando o mesmo cair em profundo silêncio. E da minha parte, continuaria assim. 
“Larissa...” o garoto começou, e sua voz pareceu estourar meus tímpanos. Eu não poderia aguentar mais isso. Eu estava farta. Completamente farta. De tudo. De Silvana e sua ridícula maneira de querer me criar, de Lucas e sua incrível falsidade, de Maísa por se achar a garota mais perfeita do mundo, a Guerra Fria me irritava principalmente o Reino Unido por só agora se tocarem que não mais eram os donos do mundo, os exércitos dos Estados Unidos me irritavam mais ainda por obrigarem meu Rei Elvis Presley a se recrutar. Eu precisava sair dali. Eu o mataria estrangulado, e eu não tinha dúvidas disso! 
“Lucas, você aguardaria um instante para eu poder me trocar?” Achei o fato de eu estar apenas de penhoar uma ótima desculpa para sumir dali. 
“Claro...” ele respondeu simplório e, sem cerimônias, me levantei da mesa e fui em direção à sala de entrada, no entanto, fui barrada por um dos seguranças quando fiz menção de subir as escadas. 
“Me desculpe senhorita, mas tenho ordens de não deixá-la sair desta sala enquanto o senhor Silva não for embora...” o homem disse firme, se contrapondo à mim e à escada. 
Pronto. Esse era o máximo que eu poderia aguentar. A terceira Guerra Mundial aconteceria naquele instante! 
“O QUE? AGORA SOU PRISIONEIRA NA MINHA PRÓPRIA CASA? ” Gritei, totalmente revoltada e entorpecida pelo ódio. ÓDIO, ÓDIO, ÓDIO! Não conseguiria expressar minha sensação naquele momento, apenas sei que se tivesse uma faca ou qualquer objeto afiado, eu mataria todos naquela casa! O que havia de errado com todos ali? Era difícil entender que eu não queria, e não iria conversar com uma pessoa que simplesmente pegou meu coração e o trucidou da pior forma possível? Era? 
Em um ato de puro reflexo e nervosismo, peguei um vaso de porcelana que estava sobre uma prateleira próxima e simplesmente o arremessei contra a parede, causando um barulho estrondoso. 
O segurança se assustou e deu um passo para trás, e aquela foi minha deixa para poder sair dali. 
Corri os degraus daquela escada o mais rápido que pude, e em segundos depois, eu já estava em meu quarto. Eu ainda bufava de raiva e minha têmpora latejava. 
Fui ao closet e peguei as primeiras roupas que vi pela frente, algumas calças jeans, regatas, calcinhas, e joguei tudo dentro de uma mochila velha. Coloquei uma calça e blusa quaisquer, calcei um tênis surrado e joguei a mochila em minhas costas. 
Eu não pularia a janela. Eu não sairia despercebida. Queria que Silvana me visse partindo. Não era uma fuga, era um decreto de impaciência e revolta. Eu, Larissa Elias, não ficaria mais dentro daquela casa mais um segundo sequer sendo tratada daquela forma. 

Novamente desci a escada principal em um piscar de olhos, e pude ver Silvana gritando com o segurança, descabelada e totalmente fora de controle. Veríamos quem era a dona de mim. 
“O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA? ESTÁ SE DROGANDO, É ISSO? BEM QUE TODOS ME DIZIAM, MAS EU ME RECUSAVA A ACREDITAR E...” 
“CHEGA! CHEGA SILVANA! EU ESTOU FARTA! ESTOU FARTA DO QUE TODOS DIZIAM OU DIZEM AO MEU RESPEITO, ESTOU FARTA DE SER TRATADA COMO UMA MARIONETE DESSA SOCIEDADE RIDÍCULA, ESTOU FARTA DE COBRAS AO MEU REDOR, E PRINCIPALMENTE, ESTOU FARTA DE VOCÊ” fiz questão de dizer as últimas palavras da maneira mais lenta e fria possível. A guerra dentro de mim já havia sido despertada. A revolta já havia tomado conta de mim. 
Vi a mulher partir para cima de mim, mas eu simplesmente segurei suas mãos, impedindo-a de fazer qualquer coisa contra minha pessoa. 
“Eu estou indo embora. E nada me traz de volta para essa casa” falei ameaçadoramente, olhando tão profundamente em seus olhos como nunca. Aqueles olhos azuis cintilavam ódio, mas não chegava perto dos meus. “Pode inventar para suas amigas que fui para um internato, ou até mesmo que me expulsou porque estava fumando maconha dentro daqui. Diga o que quiser. Mas no mesmo teto que você, eu não fico mais. ” 

Empurrei seu corpo sutilmente do meu, e lancei-a um último olhar, esperando apenas sua próxima reação. Ela nada fez. A guerra estava declarada. 
Respirei fundo e passei pela mulher de cabeça erguida, passando sem olhar para o segurança que antes me barrara, e encarando Lucas por fim. O garoto possuía um vazio em seu olhar, nada pude ler em sua expressão. Que se danasse o que ele estava pensando. Se pensara que eu era mais uma tola a enganar, o enganado foi ele. 


Bati fortemente a grande porta de madeira antes de sair e ir para lugar algum. 
 



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