História Querido Diario - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Romance
Exibições 8
Palavras 8.982
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Baby close your eyes and listen to the music


Por volta das seis e meia da manhã, Lu nos levou (eu, Mha e Mah) de volta para a casa de minha avó. Isso porque eu estava praticamente dormindo no meio do gramado do campo de futebol. Pessoas normalmente ficam sociáveis e comunicativas depois de alguns goles.

Eu fico autista e totalmente antisocial. Certo, não totalmente, já que Lu me fez companhia a noite toda.

É ótimo conversar com ele. Por ser mais velho, seu papo é diferente dos que eu estou acostumada com Le, por exemplo. Ele tem uma visão mais ampla do futuro, leva as coisas um pouco mais a sério, diferente do restante de meus amigos.

Quando chegamos em casa, ele abriu a porta do carro para que eu descesse, me deu um beijo de boa noite e me pediu para sonhar com ele. Acho desnecessário pedir, já que obviamente eu sonharia.

Subimos a grade, pulamos na sacada, abri a janela que daria para o quarto.

Nós entramos dando risadas abafadas sobre nada, eu exclamava um ‘shhh’ o tempo todo.

“Calem a boca, minha avó pode acordar...” eu cochichei rindo, vendo Mha tropeçar sobre seus próprios pés.

 

“Ela já está acordada” de repente a luz do quarto foi ligada, e ai percebi que minha avó estava sentada no sofá que ficava num canto do quarto.

“Onde você estava, Larissa?” sua voz era visivelmente seca e grossa. As meninas me olhavam desesperadas e eu não sabia o que fazer. Minhas mãos começaram a tremer de nervosismo e eu pensava no que dizer.

“Nós... Nós ficamos com fome e resolvemos ir no Paddley Café comer alguma coisa...” falei a primeira coisa que veio a minha cabeça. A feição de minha avó me assustava, ela estava extremamente irritada.

“Não minta para mim, garotinha. As coisas podem ficar bem piores do que já estão! Pensa que não vi o Pontiac do seu amigo Silva as deixando aqui?” sua voz já estava exaltada e eu dei um passo para trás, segurando a mão de minhas amigas, que tremiam igualmente a mim.

Sabíamos quais seriam as conseqüências se nossos pais soubessem que chegamos às seis da manha em casa, no carro de um garoto.

“Vovó, por favor...” eu involuntariamente comecei a chorar, pois sabia o que iria acontecer.

“Você me deixa sem escolhas, Larissa. É minha responsabilidade cuidar de vocês, o que os pais de Maísa e Mharessa vão pensar de mim?” ela levantou bruscamente da cadeira. “Estou ligando para os pais de vocês agora.” Eu e as garotas suspiramos desesperadas ao mesmo tempo, e Mha apertou meu braço.

“Vó, por favor, não faça isso!” supliquei. Sabia que não adiantava nada do que eu dissesse, então poupei as palavras. A minha família (assim como a das meninas) era muito tradicional. Cheia de regras, assim como a maioria de nossa época. Se você não cumprisse as regras, você era punido. Simples assim.

Já não me recordo as tantas vezes que fui punida por não cumpri-las.

 

E assim foi feito. Minha avó ligou para nossos pais, que apareceram minutos depois em sua casa. Os pais de Mharessa estavam visivelmente irritados e foram bruscos ao levar minha amiga para casa. Os de Maísa pediram desculpa pela impertinência à minha avó, e sem uma palavra a levaram. Sabia que ela não sofreria tanto com as conseqüências, já que afinal, ela estava com o primo.

E eu? Bem, são nessas horas que desejei nunca ter nascido.

Meus pais chegaram em seu Mercury Convertible , e o primeiro a sair do carro foi meu pai. Ele estava com um robe azul escuro por cima de provavelmente um pijama. Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trás, como sempre, e seu bigode preto se destacava em seu rosto sereno. Ele tinha um charuto em suas mãos, e assim que entrou no hall da casa de minha avó, minha mãe veio logo atrás, seus longos cabelos Ruivos presos em um coque, e uma expressão vazia, mas seus olhos eram cheios de desgosto, isso era visível.

“Obrigada por ter ligado, Carmen” minha mãe se dirigiu à sogra, mas sem tirar seus olhos de mim. “Vamos para o escritório” ela desviou seu olhar e passou por mim, indo em direção à sala atrás de nós. Assim que meu pai e eu passamos pela porta, ela a fechou.

 

O escritório estava do mesmo jeito que meu avô deixara antes de falecer. Estantes gigantescas sem espaço por entre os livros. Uma janela de vidro enorme, como a do meu quarto, ficava a fundo, e uma mesa de madeira rústica se encontrava no centro. Meus pais se sentaram nas duas cadeiras em frente à mesa, e quando eu fiz menção de me sentar também:

“Você fica em pé” minha mãe disse friamente, e eu continuei onde estava. Não ousei olhar em seus olhos. “O que você pensa que está fazendo com a sua vida, Larissa?”

“O que a senhora quer dizer com isso?” falei calmamente, ainda sem mudar a direção dos meus olhares.

“Voltando para casa às seis da manhã, trazida ainda por um garoto! Não me importa o fato de ser um dos filhos do senhor Silva, o que pensa que falarão de você?” sua voz começava a ficar alterada.

“Não me importa o que pensam...” continuei serena.

“Mas me importa! Não quero que achem que minha filha é uma vadia!” ela começava a gritar. Olhei boquiaberta para minha mãe, incrédula com o que dizia.

“Não exagere, Silvana...” meu pai tirou o charuto para se pronunciar pela primeira vez.

“Não estou exagerando, Gilberto. É o que as pessoas pensam!” ela respondeu alterada, se virando para meu pai. Dirigiu-se a mim novamente. “Se você não se importa com a reputação sua e de sua família, alguém tem que se importar por você, Larissa. Você está ficando sem limites! E minha casa não tem espaço para rebeldes...” ela se aproximou de mim, e apontou o dedo em minha direção.

“Quer dizer que vai me expulsar?” Perguntei cínica.

“Quer dizer que você vai ficar sem ver seus amigos inconseqüentes por um bom tempo. Incluindo Maísa Silva e Mharessa Franco” ela respondeu entre dentes.

“Você não pode fazer isso!” falei mais alterada que o normal.

“Sim, Larissa, eu posso. E a menos que queria ficar sem seu carro, e sem vir à casa de sua avó por um bom tempo, acho melhor me obedecer” Silvana continuou autoritária. Tive vontade de pular em seu pescoço, sem ligar pelo fato de que foi ela quem me deu a luz. Eu e minha mãe nunca fomos aquele exemplo de mães e filhas perfeitas dentro de quatro paredes, claro que em publico, ela como esposa de um dos donos da cidade, tinha que manter as aparências e fingir ser a mãe perfeita.

Sim, meu pai era um dos donos da cidade. Por ser dono da maior fabrica, a que inclusive mantinha a situação econômica e política estável dentro de Bolton. Então ele era um senhor de muito respeito, talvez era mais respeitado que o próprio prefeito. E eu, como filha pródiga dos poderosos da cidade, deveria me portar como tal. Deveria. Mas como nunca gostei de seguir padrões, minha mãe tentava de todos os meios me colocar na linha. Inutilmente, é claro.

 

Silvana passou por mim elegante e superior, abrindo a porta do escritório, passando por minha avó e indo direto à saída da enorme casa.

“Vamos, minha filha...” meu pai colocou uma mão em meus ombros, me fazendo acordar dos meus pensamentos revoltantes. Olhei-o decepcionada. Meu pai nunca dizia algo quando minha mãe me punia, ele simplesmente se calava e me olhava afundar.

Ele deu de ombros e me guiou até a saída da casa, onde minha avó nos esperava.

“Boa noite, mamãe” ele deu um beijo na testa de sua mãe e saiu. Eu não me despedi, apenas olhei-a com o mesmo olhar que lancei a meu pai, e ela retribuiu como se pedisse desculpas. Tarde demais.

 

O caminho até a minha casa foi silencioso. Havia uma maré de repulsa entre mim e minha mãe. Eu estava com minha cabeça encostada no vidro gélido da parte traseira do carro, e o via embaçar de acordo com a minha respiração.

Assim que passamos pelo portão de bronze gigante e pelo jardim de extensão interminável, meu pai parou o carro em frente à nossa casa e entregou a chave ao motorista, para que ele o estacionasse na garagem.

Subi os degraus de pedra correndo, abrindo ferozmente as portas desenhadas de madeira, que dava lugar a um hall maior que o da minha avó.

O chão era tão bem encerado que eu podia ver minha imagem ao passar por ele. As paredes eram pintadas elegantemente em um tom bege, e logo a frente podia-se ver uma escada gigante e bifurcada, que dava para o segundo andar. Por baixo das escadas, haviam portas e portas, que davam para as duas cozinhas, para uma sala de jantar, uma sala de reuniões, a biblioteca, quartos dos empregados, sala de estar. Até hoje acho que não pude conhecer a casa inteira, de tão imensa que era. Eu achava exagerado, claro, por ser apenas eu, meu pai, minha mãe e minha irmã mais nova, Julia. Certo que abrigávamos os empregados, mas não tinha necessidade de ter tantos.

 

“Marina, leve Larissa até seu quarto, arrume sua cama e depois o tranque. Ela ficará lá dentro até dizer que irá se comportar a partir de agora. Ela não tomará café da manhã, leve apenas um chá e algumas bolachas a ela às três da tarde, e nada mais” Silvana ordenou à minha criada assim que entregou seu casaco a ela. Marina era minha segunda mãe. Talvez nem segunda, já que a considerava mais minha mãe do que Silvana. Fora ela quem me viu andar pela primeira vez e ouvir minhas primeiras palavras.

Marina me olhou assustada após as palavras de minha mãe e eu apenas dei de ombros.

“Não escutou, Marina?” Minha mãe repetiu, grossamente.

“Sim senhora” a baixinha de no mínimo cinqüenta anos, respondeu rapidamente.

Subi uma das escadas com passos pesados, sem mesmo olhar para Silvana. Ao fim da escada, havia uma nova bifurcação. Para os dois lados, havia milhares de portas, cada uma levava para um quarto, ou uma sala diversa. Virei para o lado direito, onde caminhei até chegar em uma das ultimas portas do corredor. Era uma porta bege e imensa. Abri-a.

Dei de cara com o meu velho quarto. Ele era imenso, outra coisa que pensava ser exagero. As paredes tinham um tom rosa claro, com persianas enormes, e quadros de diversos artistas espalhados por elas. Havia uma cama de casal no meio, com rendas que caiam sobre o teto, tampando-a. Uma escrivaninha enorme, com vários livros, bonecas da minha infância, retratos de meus amigos...

Mais em frente havia um closet e uma porta que dava para meu banheiro.

“O que você fez dessa vez, Lari?” Marina me acompanhou entrando no quarto, enquanto eu coloquei minha trouxa de roupas em cima de um sofá ao lado da cama.

“Apenas cheguei em casa às seis da manhã no carro de Lucas Silva” falei como se aquilo fosse a coisa mais banal do mundo, e para mim realmente era.

“Apenas? Você ainda acha isso pouco, Lari? Até parece que você não conhece sua família...” Marina dizia rapidamente enquanto arrumava a minha cama. Até parece que eu ia dormir...

“Tanto faz...” desdenhei e logo que Marina terminou, me joguei naquela cama fofa.

“Você subestima seus pais demais Larissa, um dia os castigos não serão apenas te trancar no quarto” a governanta parou de pé a minha frente com os braços apoiados na cintura e uma cara de brava.

“Até lá, estarei bem longe daqui, Marina, fique tranqüila...” falei sem muita empolgação, e abri meu livro Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare, que eu havia começado a ler um dia atrás.

 

Eu via muito de mim na personagem Hérmia, onde seu pai a obriga a casar com Demétrio. Hérmia recusa-se a fazer a vontade do pai e por isso é ameaçada pela morte, conforme a lei ateniense que não dá à mulher direito de escolher o marido e pune com a morte a desobediência.

 

Eu não estava sendo obrigada a casar com ninguém, muito menos sendo ameaçada de morte. Mas eu sentia que toda a minha liberdade de escolha, e principalmente minha liberdade para viver, eram limitadas por meus pais. Hoje não era o primeiro castigo que eu levara. Já ficara sem comer por dias a fio. Eu me recusava a admitir que estava errada, afinal, eu não estava. Eu tinha o direito de viver minha adolescência conforme eu escolhesse.

 

Marina saiu do quarto após recolher algumas roupas sujas no banheiro, e conforme minha mãe mandara, trancara a porta, seguido de um sussurro de desculpas.

Seria uma longa e tediosa tarde. Eu não diria o que minha mãe queria ouvir, logo eu não sairia dali. Teria tempo suficiente para terminar minha comédia, e quem sabe começar um novo livro.

Eu posso ser considerada como estranha. Enquanto minhas amigas lêem revistas de moda como Elle ou Vogue, e sonhavam em ser como Marilyn Monroe, eu lia livros que apenas nossos pais liam e sonhava com faculdade. De acordo com meus planos, eu passaria na Escola de Direito de Cambridge.

 

Perdi noção do tempo enquanto lia, mas provavelmente não eram três horas, já que Marina ainda não havia trago meu lanche de consolo. Mas fui acordada de minha concentração com um barulho na janela.

“Psiiiu” escutei. Olhei para os lados procurando pela origem do barulho.

“Psiiu!” Mais um barulho pode ser ouvido, tinha certeza de que alguém jogando pedras na minha janela. Clássico.

Levantei-me depressa da cama, e coloquei um robe, já que eu estava apenas de trajes íntimos, e abri a enorme janela do meu quarto. Dei de cara com Le e Gui parados no jardim em frente.

“Que diabos vocês estão fazendo aqui?” falei baixo mas num tom bravo, olhando para os lados desesperada.

“Maísa me contou o que aconteceu ontem!” Le disse alto e eu conseqüentemente fiz um gesto para que ele falasse baixo. “Desculpe, tenho que acostumar a sussurrar. Bom, ela me contou e conseqüentemente imaginamos que você estaria de castigo... Para variar...” ele e Gui soltaram um risinho. Rolei os olhos.

“E daí, Silva? Não é a primeira vez que fico de castigo” falei impaciente.

“Isso é obvio, Lari...” ele disse rindo, e parando quando viu que falava alto de novo. Começou a cochichar. “Mas estamos de férias, e temos que comemorar!” ele abria os braços de um modo retardado, fazendo eu e Gui rir.

“Silva, nós já todos os dias, Silva. E veja no que deu, estou engaiolada...” bufei e apoiei minha cabeça em minhas mãos.

“É para isso que estamos aqui, Lari” Gui começou. “Um dia lindo de verão como esse você não pode ficar enfurnada nessa casa mal assombrada” ele fazia caretas enquanto dizia. “E vamos combinar que sem você as coisas ficam meio sem graças...”

“Own Gui! O problema é que... Você sabe, se Silvana descobre...”

“Ela não vai, Lari! A trazemos antes do sol se pôr” Le prometeu.

“Anda, ponha uma roupa e pegue seu biquíni... Maiô... Seja lá o que vocês chamam aquilo” ele fazia gestos confusos com a mão. Silva sempre atualizado.

“Okay, esperem um segundo!” Falei empolgada. Eu simplesmente amava fazer coisas escondidas e proibidas. Era tudo tão mais emocionante. Fui correndo para o closet escolher uma roupa. Se Le disse para pegar um biquíni, provavelmente iríamos à alguma cachoeira ou rio. Coloquei um short de cós alto, uma camisa branca e amarrei-a para cima do umbigo. Calcei minhas sapatilhas vermelhas preferidas e finalmente, coloquei um chapéu breton branco sobre meus cabelos. Meu maiô estava vestido por baixo da roupa.

 

Antes de pensar em como sair dali, resolvi escrever um bilhete à Marina. A mulher simplesmente enfartaria se entrasse em meu quarto e não me visse lá. Eu pediria que ela me acobertasse enquanto eu estava fora, ela sempre fazia isso, mesmo que isso custasse seu emprego. Ela era a favor de toda a minha filosofia de “curtir minha adolescência”.

Deixei o bilhete em cima da escrivaninha de madeira e fui em direção à janela novamente.

“Vocês pensaram em como eu vou descer?” Interrompi a conversa dos dois garotos lá em baixo. Eles se entreolharam. “Não me digam que...”

“Calma, Lari. Nós somos gênios, claro que pensamos nisso” Le, o pseudo-gênio disse, com um sorriso enorme estampado no rosto. Ele acenou com a cabeça para Gui, e este saiu do meu campo de visão, indo não sei onde. Le ainda sorria abobadamente e eu me indagava o que diabos esses dois armavam.

De repente Gui apareceu com uma escada de madeira maior que si mesmo (e que mal conseguia carregar, devo frisar).

“Roubamos a escada do seu jardineiro” Silva falou num tom infantil.

Rolei os olhos e esperei Seta colocar a escada defronte à minha janela. Dei uma ultima olhada no quarto antes de descer por ela.

“Você chama isso de plano vindo de um gênio? Garotos, até um garoto de seis anos pensaria em algo assim...” falei assim que Gui me ajudou a descer os últimos degraus.

“Oh Lari, nós não tivemos muito tempo para pensar em algo genial, okay? Essa casa tem muitos seguranças, então tivemos que ser rápidos, e a pressa é inimiga da perfeição” Le tagarelava enquanto andávamos por entre os arbustos do jardim. “Gui caiu naquele galpão e fez o maior estardalhaço, ouvimos vozes e viemos correndo.

Provavelmente estão procurando por intrusos” ele dizia de peito estufado e eu parei imediatamente.

“Eles os viram?” perguntei desesperada.

“Não temos certeza... Na verdade acho que não, seus seguranças são bem bobões” Silva disse abafando o riso. Segurei o meu, e voltei minha atenção para como sairíamos dali. Estávamos nos fundos de minha casa, onde havia uma imensa piscina, espreguiçadeiras e uma quadra de tênis mais a fundo. Não haviam saídas por ali.

“Você é um retardado, sabia Silva?” falei vagamente, coloquei meus óculos na altura do meu nariz enquanto observava o jardim. Le reclamava qualquer coisa e nenhum plano vinha na minha mente.

“Vamos ter que pular o muro, Lari...” Le disse. Certo, isso era obvio.

“Primeiro temos que passar pelos seguranças, Le...” Gui deu um tapa em sua cabeça. Pelo menos alguém pensava comigo.

“Vamos ter que passar pelos arbustos da lateral...” apontei para aquelas plantas que ficavam encostadas nos enormes muros.

“Arbustos me dão coceiras...” Le fez uma careta e olhou suplicante para mim.

“Sem mais opções, vamos” peguei em sua mão e fomos em direção aos muros laterais. Se passássemos por entre os arbustos, seria humanamente impossível de sermos vistos.

 

Quando chegamos na parte mais baixa dos muros que rodeavam a casa, Le e Gui se abaixaram e apoiei-me com os pés em cima de cada um, dando impulso para que eu conseguisse pular. Eu quase caí ao chegar do outro lado do muro, e meus óculos saltaram para dois metros longe de mim. Em menos de dez segundos, os dois já me faziam companhia na calçada.

“Vou me coçar pro resto do dia” Le disse entre dentes enquanto tirava pedaços de folhas de seus cabelos. Ele vestia uma larga calça jeans e uma regata branca simples. Gui, o que se vestia melhor em minha opinião, estava com uma calça igualmente larga, uma blusa preta colada em seu esbelto corpo, e uma boina cinza na cabeça, juntamente com um óculos aviador para completar seu charme.

“Pare de reclamar e vamos” Gui repreendeu o amigo, e nós três fomos em direção ao seu conversível azul.

 

Estávamos na rodovia que saia da cidade. Gui dirigia, eu estava ao seu lado e Le ia no banco de traz. Não parou de reclamar sobre como cada parte de seu corpo coçava irritantemente, até estragar uma música do Johnny Cash que tocava no rádio, ele conseguiu.

Eu adorava essa estrada. Tudo ao nosso redor era muito verde, e os campos de margaridas deixavam a paisagem ainda mais perfeita.

O vento insistia em bagunçar meus cabelos, enquanto os de Gui continuavam impecáveis, provavelmente por causa do gel.

 

Le estava deitado nos bancos, enquanto eu e Gui embalávamos uma conversa empolgante sobre música.

Meia hora depois, Gui virou à direita num caminho para fora da rodovia. Era uma estradinha de terra, que guiava até dentro de uma densa mata.

“Falta muito, Gui?” perguntei curiosa, observando as grandes árvores. A floresta era bastante úmida, e eu segurei meu chapéu para que ele não voasse.

“Já estamos chegando...” ele disse com um pequeno sorriso, enquanto dirigia concentrado. Le se sentou novamente e apoiou os braços entre o meu banco e o de Gui.

“Este lugar é o máximo. Eu e os garotos o descobrimos esses dias. O pessoal já deve estar ai...” Le disse esboçando aquele enorme e lindo sorriso em seus lábios. Eu amo o jeito como Le sorri, é tão verdadeiro e... feliz. Sorri de volta e voltei a prestar atenção as arvores e animais ao meu redor. Após alguns minutos, pude ver uma luz mais a frente, e a medida que chegávamos mais perto, pude perceber que a estrada acabava ali. Vi mais dois carros estacionados perto das arvores, onde Gui também estacionou o seu.

Os meninos saíram do carro, e Le abriu a porta para que eu descesse também.

“Vamos!” disse ele empolgado, pegando na minha mão e seguindo Gui para dentro da mata novamente.

Depois de uma caminhada de cinco minutos, eu pude ouvir risos histéricos de pessoas logo a frente. Passando por mais algumas arvores, vi um pequeno lago, onde meus amigos nadavam. Estavam Maísa, Mha, Di e Tho. Esperava ver outra pessoa em especial, mas ele não estava lá.

“Até que enfim, Lari! Achei que esses loucos tinham seqüestrado você!” Mha gritou, e eu ri, olhando para os garotos do meu lado. “Anda, vem nadar!” ela ria, enquanto Tho jogava água na mesma.

Comecei a tirar meu short, tirei meu chapéu e a camisa logo em seguida. Vi Le e Gui também se despiram (com gritos histéricos de Mha e Maísa a fundo) e fomos os três correndo em direção ao lago.

 

 

“Ai meu Deus, isso ‘tá muito alto!” eu gritava de cima da arvore, onde via meus amigos lá embaixo.

“Anda logo, Lari! Todos nós pulamos, e viu? Ninguém morreu!” Tho gritava, mas nem assim eu me encorajei. Havia uma corda amarrada em um galho da arvore, e na ponta da corda estava amarrado um pneu. Todos meus amigos já haviam pulado, mas meu medo de altura era maior.

“Eu pulo com você, Lari” Di apareceu atrás de mim.

“Você é louco? Essa arvore quebra com dois obesos como nós!” falei histérica e rindo logo após.

“Obesidade aqui eu só vejo em você, agora deixa a frescura de lado e vamos” nem tive tempo de protestar ou reclamar. Di segurou firmemente em minha cintura com uma mão, e a outra ele levou até a corda. Deu um salto e voamos em direção ao lago. A ultima coisa que vi antes de cair, foi a cara de deboche dos meus amigos.

Dei um impulso para cima, voltando a superfície e respirando. Le e Tho riam histericamente.

“Você precisava ver a sua casa de desespero, Lari!” Le disse entre suas risadas.

“Há-Há, muito engraçado, Le. Um dia te coloco em um quarto muito escuro, sem luz nenhuma, e você vai ver como é bom sentir medo” ameacei. Silva morria de medo de escuro, isso todo mundo sabia. Ele fechou a cara imediatamente e resmungou alguma coisa que não pude escutar.

 

Brincamos de ‘briga de galo’ (eu e Gui ganhávamos todas), depois improvisamos um piquenique nas margens do rio.

“Certo, agora que todos estão de barriga cheia, é hora de vocês cantarem para gente” sugeri, guardando o resto das comidas dentro da cesta que Maísa havia trago. Os meninos concordaram, e Tho foi rapidamente pegar os violões dentro do carro. Logo mais ele voltou e entregou um dos violões à Di.

Os quatro, Di, Le, Gui e Tho, faziam parte de uma banda, FunBoys. Eles tocavam apenas por diversão, nós sempre fazíamos musicas juntos, até que um dia Mha sugeriu que eles formassem uma banda. Eles gostaram da idéia, e desde então compõem suas próprias musicas.

Nunca fizeram shows por aí, sempre cantavam suas musicas apenas para mim e as meninas. Eles eram realmente ótimos.

“Essa aqui é só o esboço de uma musica que ainda ‘tô tentando escrever...” Di disse, começando a melodia de sua musica.

 

“Recently I've been

Hopelessly reaching

Out for this girl

Who's out of this world

Believe me”

 

As vozes dos garotos se combinavam em perfeita sintonia. Enquanto Di cantava, ele trocava olhares com os outros meninos, que vez e outra riam.

 

“She's got a boyfriend

He drives me round the bend

Cos he's 23 he's in the marines

He'd kill me

And so many nights now

I find myself thinking about her now”

 

Assustei-me um pouco ao ouvir esse trecho da musica. Apenas no trecho em que dizia “Porque ele tem 23 anos”... Era só coincidência, isso era obvio. Lu não era o único garoto com 23 anos na cidade, pensei. Di cantava de cabeça baixa, olhando atentamente para as cordas do violão, enquanto Le e Tho trocavam olhares.

 

“Cos obviously she's out of my league

But how can I win

She keeps dragging me in

And I know I never will be good enough for her (no, no)

I never will be good enough for her.”

 

 

Eu particularmente estava amando a musica. E aparentemente, as meninas também, já que olhavam abobadas para Le e Gui. Eu era fã da voz e das letras de Di, apesar delas serem totalmente o oposto do que ele era. Sempre cantava músicas com letras de amor, sobre uma certa garota, mas Di não era o tipo de homem apaixonado. Pelo que conheço do meu amigo, nunca namorara, dizia sempre que queria ‘curtir sua adolescência’ (não como eu, isso era óbvio). Nunca o julguei, só o chamo de mentiroso toda vez que ele termina de compor alguma canção.

“Vocês são ótimos!” bati palmas empolgada e dei um abraço em cada um.

Continuamos ali por mais um tempo, cantando músicas do Elvis junto com os garotos, e vendo o céu ficar cada vez mais escuro.

Quando o sol estava para se pôr, Gui e Le me levaram para casa como prometido. Ajudaram-me a pular o muro, e eu fiz todo o trajeto de volta até o meu quarto, sem ser notada por nenhum dos seguranças fardados que rodeavam a mansão.

 

Meu quarto estava intacto, uma bandeja com bolachas em cima da cama. No bilhete que escrevi à Marina, havia uma resposta: “Meus cabelos estão ficando brancos mais rapidamente por sua culpa, Lari.” Ri e logo depois me joguei na cama, pegando uma bolacha da bandeja. Ninguém seria capaz de me afastar daqueles seis. Nem Deus, nem mesmo minha mãe. Eu preferia morrer a me separar.

 

Por volta das seis e meia da manhã, Lu nos levou (eu, Mha e Mah) de volta para a casa de minha avó. Isso porque eu estava praticamente dormindo no meio do gramado do campo de futebol. Pessoas normalmente ficam sociáveis e comunicativas depois de alguns goles.

Eu fico autista e totalmente anti-social. Certo, não totalmente, já que Ben me fez companhia a noite toda.

É ótimo conversar com ele. Por ser mais velho, seu papo é diferente dos que eu estou acostumada com Le, por exemplo. Ele tem uma visão mais ampla do futuro, leva as coisas um pouco mais a sério, diferente do restante de meus amigos.

Quando chegamos em casa, ele abriu a porta do carro para que eu descesse, me deu um beijo de boa noite e me pediu para sonhar com ele. Acho desnecessário pedir, já que obviamente eu sonharia.

Subimos a grade, pulamos na sacada, abri a janela que daria para o quarto.

Nós entramos dando risadas abafadas sobre nada, eu exclamava um ‘shhh’ o tempo todo.

“Calem a boca, minha avó pode acordar...” eu cochichei rindo, vendo Mha tropeçar sobre seus próprios pés.

 

“Ela já está acordada” de repente a luz do quarto foi ligada, e ai percebi que minha avó estava sentada no sofá que ficava num canto do quarto.

“Onde você estava, Larissa?” sua voz era visivelmente seca e grossa. As meninas me olhavam desesperadas e eu não sabia o que fazer. Minhas mãos começaram a tremer de nervosismo e eu pensava no que dizer.

“Nós... Nós ficamos com fome e resolvemos ir no Paddley Café comer alguma coisa...” falei a primeira coisa que veio a minha cabeça. A feição de minha avó me assustava, ela estava extremamente irritada.

“Não minta para mim, garotinha. As coisas podem ficar bem piores do que já estão! Pensa que não vi o Pontiac do seu amigo Silva as deixando aqui?” sua voz já estava exaltada e eu dei um passo para trás, segurando a mão de minhas amigas, que tremiam igualmente a mim.

Sabíamos quais seriam as conseqüências se nossos pais soubessem que chegamos às seis da manha em casa, no carro de um garoto.

“Vovó, por favor...” eu involuntariamente comecei a chorar, pois sabia o que iria acontecer.

“Você me deixa sem escolhas, Larissa. É minha responsabilidade cuidar de vocês, o que os pais de Maísa e Mharessa vão pensar de mim?” ela levantou bruscamente da cadeira. “Estou ligando para os pais de vocês agora.” Eu e as garotas suspiramos desesperadas ao mesmo tempo, e Mha apertou meu braço.

“Vó, por favor, não faça isso!” supliquei. Sabia que não adiantava nada do que eu dissesse, então poupei as palavras. A minha família (assim como a das meninas) era muito tradicional. Cheia de regras, assim como a maioria de nossa época. Se você não cumprisse as regras, você era punido. Simples assim.

Já não me recordo as tantas vezes que fui punida por não cumpri-las.

 

E assim foi feito. Minha avó ligou para nossos pais, que apareceram minutos depois em sua casa. Os pais de Mharessa estavam visivelmente irritados e foram bruscos ao levar minha amiga para casa. Os de Maísa pediram desculpa pela impertinência à minha avó, e sem uma palavra a levaram. Sabia que ela não sofreria tanto com as conseqüências, já que afinal, ela estava com o primo.

E eu? Bem, são nessas horas que desejei nunca ter nascido.

Meus pais chegaram em seu Mercury Convertible , e o primeiro a sair do carro foi meu pai. Ele estava com um robe azul escuro por cima de provavelmente um pijama. Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trás, como sempre, e seu bigode preto se destacava em seu rosto sereno. Ele tinha um charuto em suas mãos, e assim que entrou no hall da casa de minha avó, minha mãe veio logo atrás, seus longos cabelos Ruivos presos em um coque, e uma expressão vazia, mas seus olhos eram cheios de desgosto, isso era visível.

“Obrigada por ter ligado, Carmen” minha mãe se dirigiu à sogra, mas sem tirar seus olhos de mim. “Vamos para o escritório” ela desviou seu olhar e passou por mim, indo em direção à sala atrás de nós. Assim que meu pai e eu passamos pela porta, ela a fechou.

 

O escritório estava do mesmo jeito que meu avô deixara antes de falecer. Estantes gigantescas sem espaço por entre os livros. Uma janela de vidro enorme, como a do meu quarto, ficava a fundo, e uma mesa de madeira rústica se encontrava no centro. Meus pais se sentaram nas duas cadeiras em frente à mesa, e quando eu fiz menção de me sentar também:

“Você fica em pé” minha mãe disse friamente, e eu continuei onde estava. Não ousei olhar em seus olhos. “O que você pensa que está fazendo com a sua vida, Larissa?”

“O que a senhora quer dizer com isso?” falei calmamente, ainda sem mudar a direção dos meus olhares.

“Voltando para casa às seis da manhã, trazida ainda por um garoto! Não me importa o fato de ser um dos filhos do senhor Silva, o que pensa que falarão de você?” sua voz começava a ficar alterada.

“Não me importa o que pensam...” continuei serena.

“Mas me importa! Não quero que achem que minha filha é uma vadia!” ela começava a gritar. Olhei boquiaberta para minha mãe, incrédula com o que dizia.

“Não exagere, Silvana...” meu pai tirou o charuto para se pronunciar pela primeira vez.

“Não estou exagerando, Gilberto. É o que as pessoas pensam!” ela respondeu alterada, se virando para meu pai. Dirigiu-se a mim novamente. “Se você não se importa com a reputação sua e de sua família, alguém tem que se importar por você, Larissa. Você está ficando sem limites! E minha casa não tem espaço para rebeldes...” ela se aproximou de mim, e apontou o dedo em minha direção.

“Quer dizer que vai me expulsar?” Perguntei cínica.

“Quer dizer que você vai ficar sem ver seus amigos inconseqüentes por um bom tempo. Incluindo Maísa Silva e Mharessa Franco” ela respondeu entre dentes.

“Você não pode fazer isso!” falei mais alterada que o normal.

“Sim, Larissa, eu posso. E a menos que queria ficar sem seu carro, e sem vir à casa de sua avó por um bom tempo, acho melhor me obedecer” Silvana continuou autoritária. Tive vontade de pular em seu pescoço, sem ligar pelo fato de que foi ela quem me deu a luz. Eu e minha mãe nunca fomos aquele exemplo de mães e filhas perfeitas dentro de quatro paredes, claro que em publico, ela como esposa de um dos donos da cidade, tinha que manter as aparências e fingir ser a mãe perfeita.

Sim, meu pai era um dos donos da cidade. Por ser dono da maior fabrica, a que inclusive mantinha a situação econômica e política estável dentro de Bolton. Então ele era um senhor de muito respeito, talvez era mais respeitado que o próprio prefeito. E eu, como filha pródiga dos poderosos da cidade, deveria me portar como tal. Deveria. Mas como nunca gostei de seguir padrões, minha mãe tentava de todos os meios me colocar na linha. Inutilmente, é claro.

 

Silvana passou por mim elegante e superior, abrindo a porta do escritório, passando por minha avó e indo direto à saída da enorme casa.

“Vamos, minha filha...” meu pai colocou uma mão em meus ombros, me fazendo acordar dos meus pensamentos revoltantes. Olhei-o decepcionada. Meu pai nunca dizia algo quando minha mãe me punia, ele simplesmente se calava e me olhava afundar.

Ele deu de ombros e me guiou até a saída da casa, onde minha avó nos esperava.

“Boa noite, mamãe” ele deu um beijo na testa de sua mãe e saiu. Eu não me despedi, apenas olhei-a com o mesmo olhar que lancei a meu pai, e ela retribuiu como se pedisse desculpas. Tarde demais.

 

O caminho até a minha casa foi silencioso. Havia uma maré de repulsa entre mim e minha mãe. Eu estava com minha cabeça encostada no vidro gélido da parte traseira do carro, e o via embaçar de acordo com a minha respiração.

Assim que passamos pelo portão de bronze gigante e pelo jardim de extensão interminável, meu pai parou o carro em frente à nossa casa e entregou a chave ao motorista, para que ele o estacionasse na garagem.

Subi os degraus de pedra correndo, abrindo ferozmente as portas desenhadas de madeira, que dava lugar a um hall maior que o da minha avó.

O chão era tão bem encerado que eu podia ver minha imagem ao passar por ele. As paredes eram pintadas elegantemente em um tom bege, e logo a frente podia-se ver uma escada gigante e bifurcada, que dava para o segundo andar. Por baixo das escadas, haviam portas e portas, que davam para as duas cozinhas, para uma sala de jantar, uma sala de reuniões, a biblioteca, quartos dos empregados, sala de estar. Até hoje acho que não pude conhecer a casa inteira, de tão imensa que era. Eu achava exagerado, claro, por ser apenas eu, meu pai, minha mãe e minha irmã mais nova, Julia. Certo que abrigávamos os empregados, mas não tinha necessidade de ter tantos.

 

“Meredith, leve Larissa até seu quarto, arrume sua cama e depois o tranque. Ela ficará lá dentro até dizer que irá se comportar a partir de agora. Ela não tomará café da manhã, leve apenas um chá e algumas bolachas a ela às três da tarde, e nada mais” Silvana ordenou à minha criada assim que entregou seu casaco a ela. Marina era minha segunda mãe. Talvez nem segunda, já que a considerava mais minha mãe do que Silvana. Fora ela quem me viu andar pela primeira vez e ouvir minhas primeiras palavras.

Marina me olhou assustada após as palavras de minha mãe e eu apenas dei de ombros.

“Não escutou, Marina?” Minha mãe repetiu, grossamente.

“Sim senhora” a baixinha de no mínimo cinqüenta anos, respondeu rapidamente.

Subi uma das escadas com passos pesados, sem mesmo olhar para Silvana. Ao fim da escada, havia uma nova bifurcação. Para os dois lados, havia milhares de portas, cada uma levava para um quarto, ou uma sala diversa. Virei para o lado direito, onde caminhei até chegar em uma das ultimas portas do corredor. Era uma porta bege e imensa. Abri-a.

Dei de cara com o meu velho quarto. Ele era imenso, outra coisa que pensava ser exagero. As paredes tinham um tom rosa claro, com persianas enormes, e quadros de diversos artistas espalhados por elas. Havia uma cama de casal no meio, com rendas que caiam sobre o teto, tampando-a. Uma escrivaninha enorme, com vários livros, bonecas da minha infância, retratos de meus amigos...

Mais em frente havia um closet e uma porta que dava para meu banheiro.

“O que você fez dessa vez, Lari?” Marina me acompanhou entrando no quarto, enquanto eu coloquei minha trouxa de roupas em cima de um sofá ao lado da cama.

“Apenas cheguei em casa às seis da manhã no carro de Lucas Silva” falei como se aquilo fosse a coisa mais banal do mundo, e para mim realmente era.

“Apenas? Você ainda acha isso pouco, Lari? Até parece que você não conhece sua família...” Marina dizia rapidamente enquanto arrumava a minha cama. Até parece que eu ia dormir...

“Tanto faz...” desdenhei e logo que Marina terminou, me joguei naquela cama fofa.

“Você subestima seus pais demais Larissa, um dia os castigos não serão apenas te trancar no quarto” a governanta parou de pé a minha frente com os braços apoiados na cintura e uma cara de brava.

“Até lá, estarei bem longe daqui, Marina, fique tranqüila...” falei sem muita empolgação, e abri meu livro Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare, que eu havia começado a ler um dia atrás.

 

Eu via muito de mim na personagem Hérmia, onde seu pai a obriga a casar com Demétrio. Hérmia recusa-se a fazer a vontade do pai e por isso é ameaçada pela morte, conforme a lei ateniense que não dá à mulher direito de escolher o marido e pune com a morte a desobediência.

 

Eu não estava sendo obrigada a casar com ninguém, muito menos sendo ameaçada de morte. Mas eu sentia que toda a minha liberdade de escolha, e principalmente minha liberdade para viver, eram limitadas por meus pais. Hoje não era o primeiro castigo que eu levara. Já ficara sem comer por dias a fio. Eu me recusava a admitir que estava errada, afinal, eu não estava. Eu tinha o direito de viver minha adolescência conforme eu escolhesse.

 

Marina saiu do quarto após recolher algumas roupas sujas no banheiro, e conforme minha mãe mandara, trancara a porta, seguido de um sussurro de desculpas.

Seria uma longa e tediosa tarde. Eu não diria o que minha mãe queria ouvir, logo eu não sairia dali. Teria tempo suficiente para terminar minha comédia, e quem sabe começar um novo livro.

Eu posso ser considerada como estranha. Enquanto minhas amigas lêem revistas de moda como Elle ou Vogue, e sonhavam em ser como Marilyn Monroe, eu lia livros que apenas nossos pais liam e sonhava com faculdade. De acordo com meus planos, eu passaria na Escola de Direito de Cambridge.

 

Perdi noção do tempo enquanto lia, mas provavelmente não eram três horas, já que Marina ainda não havia trago meu lanche de consolo. Mas fui acordada de minha concentração com um barulho na janela.

“Psiiiu” escutei. Olhei para os lados procurando pela origem do barulho.

“Psiiu!” Mais um barulho pode ser ouvido, tinha certeza de que alguém jogando pedras na minha janela. Clássico.

Levantei-me depressa da cama, e coloquei um robe, já que eu estava apenas de trajes íntimos, e abri a enorme janela do meu quarto. Dei de cara com Le e Gui parados no jardim em frente.

“Que diabos vocês estão fazendo aqui?” falei baixo mas num tom bravo, olhando para os lados desesperada.

“Maísa me contou o que aconteceu ontem!” Le disse alto e eu conseqüentemente fiz um gesto para que ele falasse baixo. “Desculpe, tenho que acostumar a sussurrar. Bom, ela me contou e conseqüentemente imaginamos que você estaria de castigo... Para variar...” ele e Gui soltaram um risinho. Rolei os olhos.

“E daí, Silva? Não é a primeira vez que fico de castigo” falei impaciente.

“Isso é obvio, Lari...” ele disse rindo, e parando quando viu que falava alto de novo. Começou a cochichar. “Mas estamos de férias, e temos que comemorar!” ele abria os braços de um modo retardado, fazendo eu e Gui rir.

“Silva, nós já todos os dias, Silva. E veja no que deu, estou engaiolada...” bufei e apoiei minha cabeça em minhas mãos.

“É para isso que estamos aqui, Lari” Gui começou. “Um dia lindo de verão como esse você não pode ficar enfurnada nessa casa mal assombrada” ele fazia caretas enquanto dizia. “E vamos combinar que sem você as coisas ficam meio sem graças...”

“Own Gui! O problema é que... Você sabe, se Silvana descobre...”

“Ela não vai, Lari! A trazemos antes do sol se pôr” Le prometeu.

“Anda, ponha uma roupa e pegue seu biquíni... Maiô... Seja lá o que vocês chamam aquilo” ele fazia gestos confusos com a mão. Silva sempre atualizado.

“Okay, esperem um segundo!” Falei empolgada. Eu simplesmente amava fazer coisas escondidas e proibidas. Era tudo tão mais emocionante. Fui correndo para o closet escolher uma roupa. Se Le disse para pegar um biquíni, provavelmente iríamos à alguma cachoeira ou rio. Coloquei um short de cós alto, uma camisa branca e amarrei-a para cima do umbigo. Calcei minhas sapatilhas vermelhas preferidas e finalmente, coloquei um chapéu breton branco sobre meus cabelos. Meu maiô estava vestido por baixo da roupa.

 

Antes de pensar em como sair dali, resolvi escrever um bilhete à Marina. A mulher simplesmente enfartaria se entrasse em meu quarto e não me visse lá. Eu pediria que ela me acobertasse enquanto eu estava fora, ela sempre fazia isso, mesmo que isso custasse seu emprego. Ela era a favor de toda a minha filosofia de “curtir minha adolescência”.

Deixei o bilhete em cima da escrivaninha de madeira e fui em direção à janela novamente.

“Vocês pensaram em como eu vou descer?” Interrompi a conversa dos dois garotos lá em baixo. Eles se entreolharam. “Não me digam que...”

“Calma, Lari. Nós somos gênios, claro que pensamos nisso” Le, o pseudo-gênio disse, com um sorriso enorme estampado no rosto. Ele acenou com a cabeça para Gui, e este saiu do meu campo de visão, indo não sei onde. Le ainda sorria abobadamente e eu me indagava o que diabos esses dois armavam.

De repente Gui apareceu com uma escada de madeira maior que si mesmo (e que mal conseguia carregar, devo frisar).

“Roubamos a escada do seu jardineiro” Silva falou num tom infantil.

Rolei os olhos e esperei Seta colocar a escada defronte à minha janela. Dei uma ultima olhada no quarto antes de descer por ela.

“Você chama isso de plano vindo de um gênio? Garotos, até um garoto de seis anos pensaria em algo assim...” falei assim que Gui me ajudou a descer os últimos degraus.

“Oh Lari, nós não tivemos muito tempo para pensar em algo genial, okay? Essa casa tem muitos seguranças, então tivemos que ser rápidos, e a pressa é inimiga da perfeição” Le tagarelava enquanto andávamos por entre os arbustos do jardim. “Gui caiu naquele galpão e fez o maior estardalhaço, ouvimos vozes e viemos correndo.

Provavelmente estão procurando por intrusos” ele dizia de peito estufado e eu parei imediatamente.

“Eles os viram?” perguntei desesperada.

“Não temos certeza... Na verdade acho que não, seus seguranças são bem bobões” Silva disse abafando o riso. Segurei o meu, e voltei minha atenção para como sairíamos dali. Estávamos nos fundos de minha casa, onde havia uma imensa piscina, espreguiçadeiras e uma quadra de tênis mais a fundo. Não haviam saídas por ali.

“Você é um retardado, sabia Silva?” falei vagamente, coloquei meus óculos na altura do meu nariz enquanto observava o jardim. Le reclamava qualquer coisa e nenhum plano vinha na minha mente.

“Vamos ter que pular o muro, Lari...” Le disse. Certo, isso era obvio.

“Primeiro temos que passar pelos seguranças, Le...” Gui deu um tapa em sua cabeça. Pelo menos alguém pensava comigo.

“Vamos ter que passar pelos arbustos da lateral...” apontei para aquelas plantas que ficavam encostadas nos enormes muros.

“Arbustos me dão coceiras...” Le fez uma careta e olhou suplicante para mim.

“Sem mais opções, vamos” peguei em sua mão e fomos em direção aos muros laterais. Se passássemos por entre os arbustos, seria humanamente impossível de sermos vistos.

 

Quando chegamos na parte mais baixa dos muros que rodeavam a casa, Le e Gui se abaixaram e apoiei-me com os pés em cima de cada um, dando impulso para que eu conseguisse pular. Eu quase caí ao chegar do outro lado do muro, e meus óculos saltaram para dois metros longe de mim. Em menos de dez segundos, os dois já me faziam companhia na calçada.

“Vou me coçar pro resto do dia” Le disse entre dentes enquanto tirava pedaços de folhas de seus cabelos. Ele vestia uma larga calça jeans e uma regata branca simples. Gui, o que se vestia melhor em minha opinião, estava com uma calça igualmente larga, uma blusa preta colada em seu esbelto corpo, e uma boina cinza na cabeça, juntamente com um óculos aviador para completar seu charme.

“Pare de reclamar e vamos” Gui repreendeu o amigo, e nós três fomos em direção ao seu conversível azul.

 

Estávamos na rodovia que saia da cidade. Gui dirigia, eu estava ao seu lado e Le ia no banco de traz. Não parou de reclamar sobre como cada parte de seu corpo coçava irritantemente, até estragar uma música do Johnny Cash que tocava no rádio, ele conseguiu.

Eu adorava essa estrada. Tudo ao nosso redor era muito verde, e os campos de margaridas deixavam a paisagem ainda mais perfeita.

O vento insistia em bagunçar meus cabelos, enquanto os de Gui continuavam impecáveis, provavelmente por causa do gel.

 

Le estava deitado nos bancos, enquanto eu e Gui embalávamos uma conversa empolgante sobre música.

Meia hora depois, Gui virou à direita num caminho para fora da rodovia. Era uma estradinha de terra, que guiava até dentro de uma densa mata.

“Falta muito, Gui?” perguntei curiosa, observando as grandes árvores. A floresta era bastante úmida, e eu segurei meu chapéu para que ele não voasse.

“Já estamos chegando...” ele disse com um pequeno sorriso, enquanto dirigia concentrado. Le se sentou novamente e apoiou os braços entre o meu banco e o de Gui.

“Este lugar é o máximo. Eu e os garotos o descobrimos esses dias. O pessoal já deve estar ai...” Le disse esboçando aquele enorme e lindo sorriso em seus lábios. Eu amo o jeito como Le sorri, é tão verdadeiro e... feliz. Sorri de volta e voltei a prestar atenção as arvores e animais ao meu redor. Após alguns minutos, pude ver uma luz mais a frente, e a medida que chegávamos mais perto, pude perceber que a estrada acabava ali. Vi mais dois carros estacionados perto das arvores, onde Gui também estacionou o seu.

Os meninos saíram do carro, e Le abriu a porta para que eu descesse também.

“Vamos!” disse ele empolgado, pegando na minha mão e seguindo Gui para dentro da mata novamente.

Depois de uma caminhada de cinco minutos, eu pude ouvir risos histéricos de pessoas logo a frente. Passando por mais algumas arvores, vi um pequeno lago, onde meus amigos nadavam. Estavam Maísa, Mha, Di e Tho. Esperava ver outra pessoa em especial, mas ele não estava lá.

“Até que enfim, Lari! Achei que esses loucos tinham seqüestrado você!” Mha gritou, e eu ri, olhando para os garotos do meu lado. “Anda, vem nadar!” ela ria, enquanto Tho jogava água na mesma.

Comecei a tirar meu short, tirei meu chapéu e a camisa logo em seguida. Vi Le e Gui também se despiram (com gritos histéricos de Mha e Maísa a fundo) e fomos os três correndo em direção ao lago.

 

 

“Ai meu Deus, isso ‘tá muito alto!” eu gritava de cima da arvore, onde via meus amigos lá embaixo.

“Anda logo, Lari! Todos nós pulamos, e viu? Ninguém morreu!” Tho gritava, mas nem assim eu me encorajei. Havia uma corda amarrada em um galho da arvore, e na ponta da corda estava amarrado um pneu. Todos meus amigos já haviam pulado, mas meu medo de altura era maior.

“Eu pulo com você, Lari” Di apareceu atrás de mim.

“Você é louco? Essa arvore quebra com dois obesos como nós!” falei histérica e rindo logo após.

“Obesidade aqui eu só vejo em você, agora deixa a frescura de lado e vamos” nem tive tempo de protestar ou reclamar. Di segurou firmemente em minha cintura com uma mão, e a outra ele levou até a corda. Deu um salto e voamos em direção ao lago. A ultima coisa que vi antes de cair, foi a cara de deboche dos meus amigos.

Dei um impulso para cima, voltando a superfície e respirando. Le e Tho riam histericamente.

“Você precisava ver a sua casa de desespero, Lari!” Le disse entre suas risadas.

“Há-Há, muito engraçado, Le. Um dia te coloco em um quarto muito escuro, sem luz nenhuma, e você vai ver como é bom sentir medo” ameacei. Silva morria de medo de escuro, isso todo mundo sabia. Ele fechou a cara imediatamente e resmungou alguma coisa que não pude escutar.

 

Brincamos de ‘briga de galo’ (eu e Gui ganhávamos todas), depois improvisamos um piquenique nas margens do rio.

“Certo, agora que todos estão de barriga cheia, é hora de vocês cantarem para gente” sugeri, guardando o resto das comidas dentro da cesta que Maísa havia trago. Os meninos concordaram, e Tho foi rapidamente pegar os violões dentro do carro. Logo mais ele voltou e entregou um dos violões à Di.

Os quatro, Di, Le, Gui e Tho, faziam parte de uma banda, FunBoys. Eles tocavam apenas por diversão, nós sempre fazíamos musicas juntos, até que um dia Mha sugeriu que eles formassem uma banda. Eles gostaram da idéia, e desde então compõem suas próprias musicas.

Nunca fizeram shows por aí, sempre cantavam suas musicas apenas para mim e as meninas. Eles eram realmente ótimos.

“Essa aqui é só o esboço de uma musica que ainda ‘tô tentando escrever...” Di disse, começando a melodia de sua musica.

 

“Recently I've been

Hopelessly reaching

Out for this girl

Who's out of this world

Believe me”

 

As vozes dos garotos se combinavam em perfeita sintonia. Enquanto Di cantava, ele trocava olhares com os outros meninos, que vez e outra riam.

 

“She's got a boyfriend

He drives me round the bend

Cos he's 23 he's in the marines

He'd kill me

And so many nights now

I find myself thinking about her now”

 

Assustei-me um pouco ao ouvir esse trecho da musica. Apenas no trecho em que dizia “Porque ele tem 23 anos”... Era só coincidência, isso era obvio. Lu não era o único garoto com 23 anos na cidade, pensei. Di cantava de cabeça baixa, olhando atentamente para as cordas do violão, enquanto Le e Tho trocavam olhares.

 

“Cos obviously she's out of my league

But how can I win

She keeps dragging me in

And I know I never will be good enough for her (no, no)

I never will be good enough for her.”

 

 

Eu particularmente estava amando a musica. E aparentemente, as meninas também, já que olhavam abobadas para Le e Gui. Eu era fã da voz e das letras de Di, apesar delas serem totalmente o oposto do que ele era. Sempre cantava músicas com letras de amor, sobre uma certa garota, mas Di não era o tipo de homem apaixonado. Pelo que conheço do meu amigo, nunca namorara, dizia sempre que queria ‘curtir sua adolescência’ (não como eu, isso era óbvio). Nunca o julguei, só o chamo de mentiroso toda vez que ele termina de compor alguma canção.

“Vocês são ótimos!” bati palmas empolgada e dei um abraço em cada um.

Continuamos ali por mais um tempo, cantando músicas do Elvis junto com os garotos, e vendo o céu ficar cada vez mais escuro.

Quando o sol estava para se pôr, Gui e Le me levaram para casa como prometido. Ajudaram-me a pular o muro, e eu fiz todo o trajeto de volta até o meu quarto, sem ser notada por nenhum dos seguranças fardados que rodeavam a mansão.

 

Meu quarto estava intacto, uma bandeja com bolachas em cima da cama. No bilhete que escrevi à Marina, havia uma resposta: “Meus cabelos estão ficando brancos mais rapidamente por sua culpa, Lari.” Ri e logo depois me joguei na cama, pegando uma bolacha da bandeja. Ninguém seria capaz de me afastar daqueles seis. Nem Deus, nem mesmo minha mãe. Eu preferia morrer a me separar.



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