História Querido Diario - Capítulo 4


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Romance
Exibições 4
Palavras 4.745
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 4 - I said shake, rattle and roll


 

 

 

 

Eu curtia meu último mês de férias na piscina da minha casa, com a companhia de Mha e Maísa. O sol ardente deixava minha pele vermelha. Eu sabia que aquilo arderia mais tarde, mas não me importava. A preguiça era maior. 
Nós três usávamos óculos gigantes e chapéus com grandes abas. Maísa com um maiô última coleção da Dior, desenhado especialmente para ela. A garota fez questão de deixar isso claro. E eu estava com um biquíni branco e meu chapéu clássico. 
Marina havia nos trazido chá-gelado, e bebíamos enquanto conversávamos empolgadas sobre a volta às aulas. Eu nem tanto, já que previa como esse ano letivo seria extremamente cansativo graças à pressão de passar em uma faculdade. Acho que minhas amigas não se preocupavam muito com isso. 
“Lari, é essa semana que você sairá com Lu?” Não sei como, mas o assunto caiu em mim. Mha me encarava por trás do imenso óculos. Dei um grande gole no meu chá, tentando evitar aquela conversa. Não sei bem o motivo, mas era inevitável eu me sentir tímida ao falar sobre esse assunto. 
“Sim...” respondi vagamente, com o intuito de que minha amiga não fizesse mais perguntas. Às vezes sua curiosidade não tinha limites. Ela soltou um grunhido empolgado, seguido de pequenas palmas. Dava a impressão de que aquele seria o meu primeiro encontro. Certo, talvez realmente fosse, mas não vinha ao caso. 
“Vocês são o casal mais lindo de Bolton. Depois de mim e Le, é claro” Mha disse convencida, com um enorme sorriso em seus lábios. Rolei os olhos. 
“Não somos um casal, Mharessa. Pare de ficar falando besteiras” virei meu rosto para encarar a piscina, rezando mentalmente que minha amiga parasse com seus comentários infelizes. 
Mas é claro que ela continuou a tagarelar. Então resolvi moldar uma barreira invisível à prova de sons, impedindo que qualquer palavra de Mha entrasse em meus ouvidos. Ela já estava acostumada a conversar sozinha de qualquer maneira, não faria diferença. 

As meninas apenas foram embora quando o sol já não estava mais nos iluminando. Quando ele começou a se pôr, fomos para o meu quarto fazer nada de útil, o que era o usual. 
Tomei um banho com a água dolorosamente fria. Cada respingo que tocava em minha pele me fazia soltar um gemido de dor. Eu me esqueci que preguiça é um pecado, e pecados geram consequências. Duvidava de que conseguiria colocar uma peça de roupa em meu corpo, mas Marina me convenceu a colocar uma camisola de seda. 
Deitei-me com muita dificuldade, e agradeci pelos lençóis serem igualmente de seda, o que fazia minha pele relaxar ao toque frio do tecido. 
“Lari?” Escutei alguém sussurrar em tom desesperado, e eu sabia de onde aquele som vinha. De alguém que se encontrava abaixo da minha janela. Aquilo só podia ser brincadeira! Eu nem de castigo estava para precisar de algum dos meus amigos para me sequestrar! 
“Lari?” O indivíduo insistiu. Desejei não ter escutado, e deixar a pessoa se esgoelando até cansar. Entretanto, pensei na possibilidade de ser algo importante. Le não apareceria a essa hora em minha casa se fosse algo sem importância, afinal, haviam inventado algo chamado telefone. 
Com a mesma dificuldade que me deitei, me levantei. Parecia que minhas juntas haviam sito queimadas assim como minha pele. Devo me lembrar de ir com roupas para um banho de piscina da próxima vez. 
Arrastei-me como uma lesma até a imensa janela, enquanto a pessoa insistia em gritar pelo meu nome. Ele nunca foi tão irritante. 
Fiquei inevitavelmente surpresa ao ver a figura de Seta parada em frente à minha janela. Ele parecia muito abatido, percebi que seus olhos estavam inchados e vermelhos apesar do escuro. 
“O que aconteceu, Gui?” Perguntei preocupada. Ele encarou os próprios pés, talvez não quisesse que eu o visse naquele estado deprimente. 
“Você poderia descer aqui?” Ele pediu em um tom choroso. Olhei para o relógio enorme pendurado na parede atrás de mim. Oito e meia. Acho que Silvana não teria um ataque cardíaco se eu fosse ajudar um amigo desesperado. 
“Espere um instante” murmurei antes de adentrar meu quarto novamente para pegar um penhoar.
Saí do quarto rapidamente, desci a interminável escada, até chegar ao escritório de meu pai, onde eu tinha certeza de que ele estaria, lendo algum livro de sua biblioteca pessoal. 
“Pai?” O chamei, e vi o mais velho tirar o charuto de sua boca. 
“Sim, querida” ele respondeu carinhoso. Aproximei-me dele, até ficar em frente à mesa onde estava sentado. 
“Lembra de Gui Seta?” Perguntei, e John assentiu. “Bom, acho que ele está com problemas e ele está na frente de nossa casa... Eu poderia chamá-lo para entrar, assim poderíamos conversar? ” Supliquei no melhor tom de voz que eu possuía. Era impossível me recusar qualquer coisa quando eu usava aquele tom. Meu pai franziu o cenho e eu aumentei minha expressão de suplica. 
“Não acha muito tarde, filha?” Ele perguntou olhando no relógio, mas com o mesmo tom carinhoso de antes. 
“Sim papai, mas eu não lhe pediria se não fosse realmente importante...” falei apreensiva. Papai alisou seu bigode, ainda com uma expressão incerta, mas no final relaxou sua feição. 
“Tudo bem, convide-o para entrar e vão para a sala. Mas não se demorem” ele concluiu e eu sorri, indo em sua direção a fim de dar-lhe um beijo estalado na bochecha. 
O mordomo, Noel, foi em direção à porta principal e abriu-a para que eu passasse. Senti-me absurdamente aliviada quando senti um vento gélido soprar a minha face, fazendo com que a ardência desaparecesse por alguns instantes. Procurei por Seta no jardim, até o ver sentado no gramado em frente ao meu quarto. 
“Hey!” Gritei e Gui desprendeu sua atenção das roseiras ao seu lado e me olhou. Fiz um gesto com a mão para que ele viesse ao meu encontro, e assim o fez. 
Gui mantinha suas mãos nos bolsos de sua calça jeans, e vestia uma jaqueta bege para proteger da ventania. Ele realmente estava abatido e triste, e percebi que seus olhos estavam inchados por, definitivamente, chorar. 
“Tem algum problema?” Ele sussurrou antes de entrar pela grande porta. 
“Nenhum” sorri e coloquei a mão em seu ombro, incentivando-o. Ao passar pelo salão de entrada, Gui olhou em direção ao meu pai e acenou, me seguindo até o sofá que ali tinha. Noel se ofereceu a fazer um chá, e foi em direção à cozinha. 
“O que aconteceu, Gui?” Perguntei assim que nos sentamos um do lado do outro. O garoto fungou antes de responder. 
“É a Maísa... Lari, você sabe o que está acontecendo?” Ele mantinha o tom desesperado e percebi que ele estava prestes a chorar. Não entendi muito bem sua pergunta. 
Quero dizer, eu não sabia o que estava acontecendo com Maísa. Eu havia a visto hoje e não percebi nada de diferente para falar a verdade. 
“Porque pergunta?” Indaguei curiosa. Gui fungou novamente. 
“Ela está estranha, Lari. Fui à sua casa antes de vir aqui, e ela foi tão fria que estava irreconhecível! E no final, ela ainda mandou eu sumir e parar de infernizar a vida dela! ” Ele já não segurava mais suas lagrimas, e tinha o rosto escondido entre suas mãos. Noel chegou à sala com uma bandeja e a depositou na mesinha redonda de centro. Servi-nos. 
“Eu realmente não sei o que dizer Gui... Quero dizer, hoje ela estava normal aqui em casa... Tirano o fato de que não estava conversando muito. Mas isso é normal em TPM, por exemplo! ” Falei pensativa. “SIM! É TMP, Gui! ” Disse com uma certeza na voz, mas no fundo eu estava incerta. 
“Não estou muito certo sobre isso...” começou ele cabisbaixo. “Dessa vez foi diferente, Lari. Ela realmente queria isso. Eu pude perceber...” Gui bagunçou seus cabelos nervosamente. 
“Eu vou conversar com ela por você, Gui...” prometi e logo o abracei, sentindo a manda do meu penhoar se molhar com as lagrimas do meu amigo. Ele fez um movimento com a cabeça, concordando, e me apertou fortemente, o que me fez contrair já que eu era a nova torrada humana. “E eu preciso dizer... Você está um charme assim... Parecendo um pimentão...” ele ironizou em meio de lagrimas. Ri e dei um tapinha em sua cabeça. 

Agora eu precisava descobrir o que acontecia com Maísa. Nunca pensei que ela pudesse agir dessa maneira com relação a Seta, já que parecia ser tão apaixonada pelo mesmo. Algo sério estava acontecendo... 

Era a milésima vez que eu trocava de roupa. Estava em frente ao espelho do meu guarda-roupa há duas horas. 
Eu não conseguia me decidir entre as peças jogadas em cima da minha cama, parecia que nenhuma ficava bem o suficiente. 
Para piorar minha situação, aquele era o meu primeiro encontro. Como agir? O que falar? Eu tinha a absoluta certeza de que eu acabaria falando alguma bobagem, ou pior, não falar nada. Provavelmente eu deixaria Lu falando com as paredes por estar nervosa demais. 
Gritei por Marina a fim de ajuda, e ela veio correndo imediatamente. 
“Que roupa usar no primeiro encontro, Mari?” Perguntei enquanto ainda me analisava, com um vestido rosa e tomara-que-caia em frente ao meu corpo. 
“Acho que devia usar o azul com a faixa branca. Você vai ficar esplendida” ela respondeu em um tom sonhador. Foi em direção à cama e pegou o tal vestido, entregando-me. Peguei de sua mão e coloquei em minha frente, imaginando mentalmente como eu ficaria. Parecendo uma pamonha enrolada, como todos os outros. 
“Vamos, vista!” Marina exigiu, me empurrando ao banheiro para que eu experimentasse o Chanel.
Abri o zíper de traz, e passei as pernas pelo vestido, indo em direção à Marina novamente, para que ela me ajudasse. Ela subiu o zíper, arrumou o cinto em meu corpo, pegou um sapato branco de verniz, com um pequeno salto. 
Admito, caiu bem, milagrosamente. Mari prendeu meus cabelos em um rabo torto para o lado e me virou para que pudesse me observar. 
“Não disse? Está maravilhosa! ” Ela disse triunfante entre palmas. “Agora vamos dar um acabamento final...” foi em direção ao meu banheiro, pegando a maletinha rosa com minhas maquiagens. 
Passou um blush rosado em minhas maçãs do rosto, delineador nas pálpebras superiores e para finalizar, o rímel. 
“Senhorita? “João bateu na porta do meu quarto. “O Sr. Silva a aguarda na sala...” disse formalmente e minhas mãos começaram a suar. “OH MEU DEUS, MARINA! ” Comecei a dar pulos ridículos e a andar de um lado para o outro. 
“Larissa, se acalme! Você vai ficar toda suada e seu perfume irá embora! Vocês só vão à sorveteria! ” Ela pareceu uma amiga. Com certeza seria o que Mharessa diria. Para mim não era uma simples sorveteria... Quero dizer, era a sorveteria com o garoto que sonho em casar!
Tola. Estúpida. 
Marina me segurou pelos ombros e me forçou a olhá-la. 
“Vai dar tudo certo, querida! Acalme-se! Respire...” ela inspirou profundamente, me induzindo a fazê-lo também. Contei mentalmente até dez, e finalmente me relaxei. Não no modo literal da palavra, apenas superficialmente. 
“Certo. Estou calma” inspirei novamente. “Vamos” agarrei a mão da minha criada, e fomos correndo corredor e escadas abaixo. Marina reclamando que não tinha mais forma para aquilo. 

Quando cheguei no grande salão lá estava ele. Perfeito como eu me lembrava, com o sorriso mais encantador do mundo. Conversava animadamente com a minha mãe, que ria de cada palavra que saía daquela linda boca. 
Desci os últimos degraus timidamente, já que nessa hora, os olhos de Lucas pararam sobre mim. Ele veio ao meu encontro, pegou minha mão e depositou um beijo delicado na mesma. 
Minha mãe e Marina assistiam a cena admiradas, como se estivéssemos participando de um lindo filme de romance. O que para mim, era. 
Entrelacei o braço no dele, e voltamos ao sofá onde estavam sentados. Sentei-me ao seu lado. 
“Então, Lucas, sei que minha querida está em boas mãos” começou Silvana, como se eu fosse o orgulho de sua vida. “Mas preciso que a traga antes das dez. Toque de recolher, você entende, não querido? ” Ela disse com um imenso sorriso. Falsa. 
“Claro, senhora Elias. Lari estará aqui nesse horário, eu prometo” ouvir aquela voz era melhor do que qualquer música clássica. Ele me olhou e sorriu, pegando em minha mão logo em seguida. Não consegui conter minha mandíbula, que se contraiu sem que eu mandasse estímulos para meu cérebro. 
“Vamos?” Lu me perguntou. 
“Claro...” respondi baixinho, sendo levantada pela mão por ele. Despedi-me de mamãe, que sussurrou algo como ‘Divirta-se’ seguido de um ‘Comporte-se’. Previsível. Relaxe mamãe, tentarei ao máximo não manchar o precioso sobrenome de sua família. 
Seguimos de mãos dadas pelo enorme gramado, já fora de casa, até os portões de ferro serem abertos para nossa passagem. 

“Você está linda” Lu disse sorridente antes de abrir a porta do carro para mim. 
“Você também” falei ao reparar finalmente em sua roupa. O normal. 
Calça jeans, uma camiseta com sua jaqueta preta por cima. Era marca registrada de Lucas Silva. Perfeito. 
Ele gargalhou e sentou no banco do motorista, dando partida no carro logo em seguida. 
Colocou o rádio na Power Hit, onde tocava alguma música do Johnny Cash, a qual Lu começou a cantar de um jeito hilário, me fazendo rir histericamente. 
“Mas me diga, vamos para a Nonna’s?” Me sentei de lado para encará-lo após a crise de riso. Nonna’s era a sorveteria mais popular de Bolton, onde todas as turmas, dos colégios mais populares da cidade, se encontravam. 
“Sim. Mas nossa parada por lá vai ser curta. Há um outro lugar onde quero te levar...” respondeu ele misterioso. Nem preciso dizer que a curiosidade corroeu meus órgãos internos. 
“E que lugar seria esse?” Fiz uma feição angelical, tentando arrancar a informação dele, apesar de saber que não me contaria. 
“Eu já lhe disse para deixar de ser curiosa?” Ele indagou rindo e eu soltei um ruído chocado, fingindo-me ofendida. 
“Já lhe disse para não responder uma pergunta com outra?” Intimidei. 
“Percebeu que você acabou de fazer isso?” Lu continuou rindo. Rolei os olhos. 
“Você é um chato” voltei à posição normal no banco, cruzando meus braços e fingindo estar emburrada. 
“Obrigada, querida” ele disse sem olhar para mim, esticando o braço e começando a fazer cócegas em mim. Eu me contorcia no banco de couro do Pontiac, e implorava para que ele parasse. 
“NÃO, LU, PARE!” Eu gritava em meio de risos. 
“Fala que eu sou lindo” ele exigiu convencido. 
“VOCÊ É LINDO!” Continuei a gritar, enquanto ele não cansava o braço para minha infelicidade. 
“Fala que está adorando sair comigo” ele continuou com seu joguinho, rindo histericamente do meu sufoco. 
“EU...ESTOU...ODIANDO SAIR COM VOCÊ!” Falei rindo, entrando em seu jogo. Claro que era mentira, como alguém odiaria um encontro com Lucas? Não alguém normal... E minha sanidade mental é ótima. 
“Menina má” ele parou o carro e se curvou para fazer mais cócegas. Meus pés se debatiam sobre o porta-luvas, eu gritava por socorro para as pessoas que passavam na calçada. Esses com certeza não concordavam sobre minha sanidade mental estar tão bem assim... 
“OKAY, OKAY! ” Gritei e Lu afastou suas mãos de mim. Ficou me encarando apreensivo, segurando o riso. “Estou amando sair com você, Silva! ” Falei num tom sarcástico e rolei os olhos. Ele segurou meu queixo e me fez olhar em seus olhos. Concentre-se, Larissa...
“Eu sabia...” ele falou com o tom mais convencido possível, se contraindo depois que comecei a estapeá-lo. 
Ele roubou um selinho antes de sair do carro e ir em direção à minha porta, o que fez todo o sangue do meu corpo se concentrar em minhas bochechas. 
Lu abriu a porta e segurou minha mão para que eu saísse, e não a largou enquanto andávamos em direção à entrada da Nonna’s. Como habitual, estava lotado de carros na porta. De todos tipos, cores e marcas. 

De fora do recinto era possível escutar a música que tocava. Eu reconheci imediatamente, como a fanática por Elvis que sou. 
A fachada da sorveteria era muito moderna, mais do que muitos restaurantes em Bolton. Era rosa, rodeada por vidros onde era possível ver o movimento lá dentro. Haviam mesinhas do lado de fora também, onde ficavam a maioria dos casais apaixonados. Mesinhas azul-piscina, o que combinava com o grande letreiro no telhado, com um reluzente ‘Nonna’s’. 
Lu parecia conhecer cada pessoa ali, já que acenava constantemente para alguns que eu jamais havia visto. Eu andava meio cabisbaixa, sempre tive algo como preguiça para cumprimentar as pessoas. Ato antissocial, admito. 
Silva abriu a grande porta de vidro cheia de anúncios para mim, e já pude sentir a animação ali dentro. 
Era a última semana de férias, então todos pensavam em curtir o máximo. 
As mesas da sorveteria ficavam entre dois estofados que a contornava, e havia milhares assim espalhados ao logo do recinto. As paredes eram amarelas, com quadros que iam de pinups à cardápios de sorvetes. Era tudo muito colorido. Apenas o chão, que eram azulejos brancos e pretos, variava. 

Vi muitos rostos familiares ali, os rostos usuais, que eu sempre via quando resolvia sair. 
Como uma escola, o Nonna’s também era dividido em grupos. 
Em um canto, o grupo das garotas populares e promiscuas do meu colégio, Ladywood School. Em outro, os garotos que cobiçavam essas garotas. Bem poético. 
Em outro canto, ficavam os roqueiros e revoltados da cidade. Andando mais um pouco, você via as puritanas, os estudiosos, os modernos, alternativos, e uma interminável lista de estilos. 
Vi meus amigos em uma mesa no fundo, e assim que entramos, pude ouvir Le se esgoelado. 
“Esse louco não faz parte da minha família...” Lu sussurrou divertido em meu ouvido. Ri enquanto vi o pequeno Silva se aproximar. A diferença entre ele e seu irmão mais velho era visível. Não tanto na aparência, mas Le era muito desengonçado, enquanto seu irmão tinha uma silhueta perfeita. O estilo de roupas era totalmente diferente, Le era mais casual. Mas cada um com seu jeito especial de ser. 
“Cunhada! ” O garoto me abraçou animado, talvez com a ideia de eu ser sua melhor amiga e estar com seu irmão. Ele deu um murro fraco no ombro de Ben, que bagunçou o cabelo do mais novo. 
Cumprimentei o resto do pessoal pelo ombro de Le, que não percebeu que me tampava, e muito menos se incomodou. Mha tinha uma feição curiosa, provavelmente me ligaria de madrugada para saber os detalhes. Maísa encarava as próprias unhas tediosas, Gui a encarava triste e Tho estava conversando com uma garota que nunca havia visto na vida. Di me encarava inexpressivo, com o rosto apoiado em uma das mãos. Assim que nossos olhos se encontraram, ele fez questão de olhar para outro canto, antes que eu pudesse o cumprimentar. A educação mandou lembranças, Oliveira. 
“Parece que o clima ali está pesado...” comentei como que não quer nada. 
“E está. Fiquei feliz que chegaram, assim...” Le começou empolgado, mas foi cortado pelo irmão. 
“Não pense que vai sentar conosco, pirralho. Pode voltar para os seus amiguinhos, hoje é somente eu e Lari” Lu se adiantou, cortando a felicidade de Le em mil pedaços. Tive vontade de rir de sua cara tristemente forjada. Lu piscou para o irmão, e fomos em direção à uma mesa vazia, na direção contraria da que meus amigos estavam. 
Acenei uma última vez à Mha, que sorriu tão empolgada quanto Le anteriormente. 

Sentamos lado a lado, Lu passou um braço em meus ombros, e uma garçonete veio nos atender. 
Nunca concordei particularmente com o uniforme de trabalho dessas garotas. Tudo curto demais, sexy demais. Isso me fez sentir pouco à vontade, já que a garota encarava Lu descaradamente, pouco se importando com a minha humilde presença. 
“O que você vai querer, linda?” Ele voltou sua atenção para mim, já que antes conversava animado alguma coisa sem importância para mim, já que eu me menosprezava em pensamento. 
“Um milk-shake de morango e creme, por favor...” falei ainda de cabeça baixa, brincando com o porta-guardanapo. Lucas repetiu meu pedido e fez o dele, agradecendo educadamente à garçonete oferecida. 
Assim que ela saiu, se virou para mim e deu um beijo em minha testa. 
“Tem uma moeda?” Perguntei vagamente, o vendo concordar e me entregar. 
Levantei-me e fui em direção à jukebox que ficava no fundo da sorveteria. Escutei sussurros sobre mim ao longo do meu caminho até lá, mas fiz questão de ignorar e me manter focada naquele objeto gigante e reluzente. Assim que cheguei, observei o catálogo de músicas, e meus olhares foram diretos à letra “e”. Coloquei a moeda no local indicado, apertei a tal letra, e o número “4”, que indicava a música All Shook Up. 
A voz perfeita de Presley invadiu o lugar, e as pessoas ali ficavam cada vez mais empolgadas ao longo da música. 
“Só podia ser a Elias!” Escutei a voz de Le gritar do outro lado da sorveteria. Fiz uma careta e voltei à minha mesa com um humor melhor. Era esse o efeito de Elvis sobre mim. 
Fui dançando todo o caminho, vendo Lu rir enquanto eu fazia caras e bocas. 
Nossos pedidos já haviam chegado, e meu milk-shake esperava ansiosamente para ser ingerido por mim. 
Ao longo do nosso lanche, eu roubava pedaços de waffle de Lu, ele me lambuzava de sorvete e calda de chocolate, e conversamos sobre inutilidades aleatórias. Ele pediu a conta, pagou e nos levantamos para ir embora. 
Acenei novamente para meus amigos, que continuavam com suas feições de velório, exceto por Le e Mha que riam escandalosamente. 

“Agora você pode me contar pra onde vamos?” Continuei com minha curiosidade importuna. 
“Meu Deus, como alguém tão pequeno pode ser tão irritante?” ele falou para si mesmo, dando partida no carro.
“E você continua me respondendo com perguntas” bufei e voltei minha atenção às ruas, vendo o sol se pôr lentamente no horizonte. 
Depois de vinte minutos dentro do Pontiac, Lu finalmente parou em uma rua que eu conhecia muito bem. 
Ela era igualmente movimentada à Trafford Square, onde ficava a Nonna’s. 
Lá estava o Hewlet Bowl, onde nós vínhamos quase todos os sábados jogar boliche, a maioria dos restaurantes da cidade, alguns bares noturnos bem famosos. Normalmente, a Trafford Square era onde os colegiais se encontravam, e na Packard Road concentrava pessoas da idade de Lu ou mais adultos. Eu só a frequentava com meus pais, ou para o boliche à tarde. Eu era proibida a ir lá, de acordo com Silvana, era um lugar inapropriado para a minha idade. 
Olhei insegura para Lu, que sorriu e me deu a mão para que eu saísse do carro. Hesitei por alguns instantes, pensando no que poderia acontecer se minha mãe descobrisse. ‘Tudo que é proibido é mais gostoso’, minha mente esclareceu. 
Aceitei a mão de Lucas, e ele começou a me guiar pela movimentada calçada. 
Eu não tinha noção de que uma rua poderia ser tão movimentada, ainda mais às nove da noite (e em um subúrbio como Bolton), já que eu sempre estava acostumada a dormir antes deste horário, o que justificava a minha falta de noção. 
Eu olhava maravilhada as vitrines dos pubs e restaurantes, as pessoas mais velhas que eu se divertindo horrores. 
O fato de eu ser mais nova (e muito) me incomodou no começo, mas aos poucos, Silva me relaxava com suas conversas distraídas. Andamos um pouco até chegar no final da rua, onde na esquina havia este imenso e chamativo lugar. Sua placa escrita ‘Block Dancing Pub’ piscava a cada segundo, chamando a atenção de toda a rua. 
Pessoas e mais pessoas lá entravam, as mulheres com suas saias rodadas, saltitando ao lado de seus belos parceiros. 
A cada passada, sentia que estávamos chegando cada vez mais perto ao tal pub, e indagando se Lu tinha em mente o mesmo que eu pensava. Não que eu quisesse, longe de mim. 
“Você não está pensando em...” 
“Sim, estou pensando nisso. Pensando não, nós vamos, Larissa” ele me interrompeu, prevendo o que eu falaria. 
“Lucas, eu...não sei...dançar!” Falei pausadamente cada palavra, para ver se conseguia colocar um mínimo de juízo em sua cabeça. Ele gargalhou, e fiquei na dúvida se era uma risada divertida ou sarcástica. 
“Vamos lá, Lari, nós dois sabemos muito bem que você é ótima dançarina. Já sugeri que você deveria participar do Dancing Days, e como o festival é no final de fevereiro, pensei em começarmos a treinar” ele dizia empolgado, enquanto eu escutava cada palavra em choque. 
“Silva, eu estava um pouco alterada o dia em que dancei na casa do Tho, você não pode usar isso como álibi!” Protestei, parando de andar imediatamente. “Eu não vou participar de festival nenhum! E muito menos dançar aí. Já ouvi falar desse lugar, é onde os melhores dançarinos da cidade se divertem. É muita humilhação para mim. ” 
“Você é muito dramática, Larissa” ele disse rolando os olhos. “Se você não for por bem... Bom, vai carregada” e antes que eu pudesse resmungar mais alguma coisa, eu estava praticamente de cabeça para baixo, nos ombros de Lucas, chamando a atenção das pessoas mais do que a placa do Block Dancing. 
“ME PÕE NO CHÃO, SEU LOUCO!” Eu me debatia e dava tapas nas costas de Lu, enquanto ele se matava de rir. Patética. “Você está impossível hoje, Lucas Eduardo Silva! ” 
“Sua culpa, baby” silabou ele entre risos. 


“Duas entradas, por favor” estávamos na bilheteria, e Lu ainda me segurava nos ombros, causando o choque entre as pessoas que passavam por nós. 
“NÃO VENDA, MOÇA, POR FAVOR!” Eu gritei por entre os ombros do garoto, sem ver a feição da vendedora por detrás do balcão. 
Provavelmente ela pensava que Lu era um psicopata e eu, uma louca varrida. Mesmo assim, a mulher não me atendeu. 
Lu só me colocou no chão, quando senti o vendo gélido do ar condicionado bater sobre mim. 
Luzes de todas as cores saiam do teto, fumaça saia do chão, e as pessoas dançavam na pista à frente. Tocava algum jazz, que pela minha falta de cultura não pude identificar. 
Era lindo. Cada um dos casais tinha suas próprias coreografias, dançavam em plena harmonia, com grandes sorrisos estampados em suas faces. Blue Suede Shoes começou a tocar, e imediatamente fui puxara para o meio da pista. 
Lu dançava enquanto andava pelas pessoas, e como na sorveteria, ele parecia conhecer todos. 
Paramos exatamente no meio da pista, o que tornou as possibilidades de eu dançar, ainda mais remotas. 
Silva começou a dançar sozinho, perfeitamente, inventando passos e apontando para mim, me deixando ainda mais embaraçada. 
Ele pegou a minha mão, e me rodou, puxando para si mesmo logo após. 
“Vamos Lari, mostre à elas quem é que manda aqui” Lu disse apontando com a cabeça às lindas mulheres que dançavam perfeitamente ao nosso redor. Era obvio que qualquer uma delas mandava ali, exceto eu. Rolei os olhos e não resisti ao não dançar, isso era impossível, ainda mais com o parceiro que eu tinha. 
Começamos a dançar o rockabilly rítmico que tocava, inventando passos tão espontâneos que chegavam a ser magnífico. Ele me girava em alguns passos, nossos pés se moviam igualmente, indo de um lado para outro o tempo todo. Com certeza éramos o casal mais empolgado e, principalmente, o mais louco. 
No final da música, Lu me levantou no ar, em um esplendido final. 
“Yeah!” Ele gritava enquanto eu batia palmas e ria do garoto à minha frente, que parecia ter ganhado algum prêmio. Depois de seu showzinho, veio em minha direção e me beijou. Assim... de surpresa. Como era de se esperar, minas pernas pareciam não obedecer aos estímulos nervosos que meu cérebro mandava para que elas permanecessem rígidas. Seu beijo era doce e suave... sua boca se movimentava contra a minha delicadamente, e suas mãos estavam rígidas em meu rosto. Quando ele partiu o beijo, para que eu pudesse finalmente retomar o ar que faltava em meu sangue e pulmões, Lu começou a me encarar. 
Meu rosto ainda estava em suas mãos, então nem a liberdade de olhar timidamente para outro lugar eu tinha. Seus olhos azuis pareciam perfurar os meus, tamanha a intensidade de seu olhar. 
“Pare com isso...” pedi sem graça, sentindo minhas bochechas queimarem. 
Ele abriu um pequeno sorriso antes de me dar um selinho e voltar a me encarar. 
“Quer namorar comigo, Larissa Elias?” Sua voz aveludada nunca pareceu tão perfeita ao dizer aquelas cinco palavras, com meu nome incluso. 



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