História Red - Capítulo 10


Escrita por: ~

Postado
Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 1.556
Palavras 5.157
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hellos, galeras!
Vou começar pedindo desculpas pela minha demora. A justificativa é que estou sem internet em casa, então dependo do wifi da minha avó pra conseguir acessar a internet. Por isso eu tenho demorado mais do que o comum e trazido capítulos no meio da semana. Além disso, eu não gostei do capítulo, então o reescrevi. Por isso, a demora foi maior. Sem que não é a melhor das respostas e eu realmente me sinto péssima por atrasar com as postagens. Peço desculpas por essa demora.
Bem, o capítulo foi betado pela Two. Muito obrigada por ter me dado essa ajuda. Um obrigada a Cá também, que betou a primeira versão. Um obrigada a Saras também, que leu a primeira versão e clareou minha mente sobre o que fazer. <3
A Anna fez um teaser maravilhoso pra fic e eu necessito compartilhar com vocês essa preciosidade. Vou deixar o link nas notas finais e depois cês me contam o que acharam.
Bateu uma certa insegurança na hora de postar, mas eu não tinha como reescrever então melhorei o que menos me agradava e trouxe para vocês. Espero que gostem e boa leitura!
Ah! Não poderia esquecer de agradecer infinitamente pelos comentários e favoritos. Cês são sensacionais <3
Agora sim, boa leitura ^-^

Capítulo 10 - Red rose madder


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 10 - Red rose madder

Charlie

 

Desestruturada. É assim que me vejo nesse momento. Sinto-me como Alice, caindo pela toca do Coelho e mergulhada em um lapso temporal. Tudo ao meu redor parece passar lentamente. Meu cérebro se tornou uma massa gelatinosa, que não faz nada além de ocupar espaço no meu crânio.

Não sei o que pensar. Sou incapaz de raciocinar corretamente porque qualquer linha de raciocínio está perdida na confusão anterior.

Escuto as batidas de meu próprio coração. É o único som que consegue me alcançar. Qualquer barulho além desse não é filtrado por meu ouvido e muito menos compreendido por meu cérebro. Estar surda deve ser uma sensação similar. E meus olhos... Estes não sabem para qual lugar devem olhar. Ficam variando entre muitos pontos, esperando que eu tome uma decisão firme e decida para qual lado devo ir.

Encontro o livro que Harry me deu caído no chão. Está aberto de qualquer modo, com a capa escancarada e o conteúdo abraçando ao concreto. Devo tê-lo jogado ali. Não me lembro mais. Meus olhos seguem em frente, percorrendo o cinza frio da calçada. Manchas vermelhas avivam o tom e deixam uma marca menos hospitaleira. Elas se tornam maiores e menos espaçadas conforme se aproximam do corpo que desmoronou.

Daniel. Meu cérebro não para de repetir o nome dele em gritos histéricos. Daniel é quem desmoronou. O sangue no chão é dele.

Minhas sinapses nervosas retornam à ativa. Os sons passam a me atingir novamente, como a cena de um filme depois que a bomba explode e o protagonista se desnorteia. Bem, ainda estou desnorteada.

— Daniel! — chamo-o.

Meu corpo se joga para frente. Em poucos segundos, eu atravesso a distância que há entre nós. Meus joelhos tocam no concreto gelado quando me agacho. Meus dedos tremem e mal me lembro de como é que se respira.

A cena é de embrulhar o estômago. A face de Daniel está cheia de cortes e marcas avermelhadas de formato similar à mão de Harry. Seu olho está inchando, assim como a maçã do rosto. Um corte mais profundo se estende pela testa, acima da sobrancelha esquerda.

Imagino que seja muita dor. Daniel está entorpecido no chão. Imagino se bateu a cabeça na queda. É provável. Pela forma mole e flácida como está, suponho que haja dor demais afetando suas terminações nervosas.

— Daniel. — torno a dizer, dessa vez em um tom mais contido e terno.

Puxo-o para meu colo da forma mais gentil que posso. Uma movimentação tão simples como essa o faz arfar e gemer em resposta. Sussurro-lhe um pedido de desculpas enquanto torno a movê-lo, deixando sua cabeça sobre minhas pernas.

Tento examinar os ferimentos. Se houvesse um clube da luta na vida real, qualquer participante sairia com uma destruição semelhante à de meu amigo. Balanço a mão direita, livrando-a de todo o peso extra. Toco a face, tentando ser suave enquanto meus outros dedos se enrolam em seu cabelo.

— Charlie...

Harry tenta se aproximar. Ele esteve ali o tempo todo, quieto e provavelmente desnorteado. A expressão em seu rosto é de alguém que se arrepende.

— Não! — berro, fazendo-o retroceder.

É involuntário. Quando vejo Harry, os nós de suas mãos estão vermelhos e com escoriações. Parte de mim deseja sentir muito por ele, porque é claro, pela expressão de dor na face, que está sofrendo com isso. Mas ele não tem hematomas. O sangue no chão não é dele. E, inevitavelmente, não paro de pensar na forma covarde, quase cruel, como ele atacou Daniel.

Estou nervosa. Um minúsculo pedaço de mim tenta me chamar à atenção e fazer com que eu reflita antes que eu tome qualquer decisão. Todavia, é tão insignificante que eu simplesmente a mando calar a boca.

Não há desculpa. Não entendo os motivos que levaram Harry a esse ponto — nem consigo imaginá-los, na verdade. Basta olhar para Daniel em meu colo e perceber que ele não teve a mínima chance de defesa. Recapitulando os minutos anteriores, também sei que ele não tem a mínima culpa.

— Charlie, por favor, escute-me. — Harry pede.

Suas mãos estão erguidas, com a palma em minha direção. É como se ele quisesse mostrar que não pretende fazer mais nenhum ataque. Está tentando ser pacífico. Esse não é o momento para ser pacífico mais. O que vi foi um lado feroz, que me deixou assustada. Não só pelo que ele fez a Daniel, mas pelo que poderia fazer a qualquer um.

Inclusive eu.

— Escutar o quê? — grito. Minha visão se torna difusa devido às lágrimas que se acumulam. — O que você pode dizer que vai melhorar isso?

Aponto para Daniel. Harry segue o meu dedo e logo desvia o olhar, virando o rosto para o lado. Seu maxilar trava e ele abaixa a cabeça, encarando os sapatos.

Não há nada que ele possa dizer. Eu até poderia me dispor a escutar suas palavras, mas sei que nenhuma delas me seria convincente. Sei que nenhuma delas me faria ver a situação de forma diferente do que ela é.

Não há como alterar o foco e fazer ser diferente. Harry atacou Daniel. Ele socou meu amigo, várias e várias vezes, com uma força absurda e que eu desconhecia. Teria socado mais se eu não tivesse me posto entre eles e o feito parar. A verdade é que sua mão cessou o movimento ao estar muito perto de mim, quase atingindo a minha pele. Não sei se ele teve noção da proximidade — e do quão assustadora ela era — ou se apenas me reconheceu ali. De qualquer forma, minha garganta ficou travada pelo temor.

— Olha o que você fez! — grito. — Machucou meu amigo e quase machucou a mim!

Harry nem mesmo me olha. Não gasto tempo tentando decifrar sua expressão. Com as lágrimas ainda acumuladas, eu não conseguiria mesmo que desejasse.

Cada vez que penso sobre o assunto, percebo que a parte mais difícil não é o que Harry fez a Daniel. É o que ele poderia ter feito a mim. Os machucados que ele poderia ter traçado na minha pele. Fico apavorada, principalmente porque confiei nele.

— Eu não te machucaria, Charlie, e você sabe disso.

— Quinze minutos atrás, você quase o fez.

— Nunca. Eu nunca...

Harry não completa a frase. Não faria diferença. Eu gostaria muito de acreditar no que ele tão firmemente expressa. Gostaria demais. Mas simplesmente não consigo. E misturando a irritação, a tristeza, o desapontamento e a mágoa, eu só consigo chorar.

Franzo os lábios e fecho meus olhos. Tento conter as lágrimas e o desespero que saem de mim. Não vai ser útil agora.

— Vá embora. — peço em um fio de voz que quase se esgota antes do fim da frase.

Harry não gosta da ideia. Ele me olha e balança a cabeça inúmeras vezes, andando na minha direção.

— Não, por favor. — murmura. — Deixa eu me explicar. Deixe-me ajudar vocês. Posso levá-los ao hospital.

— Não. Eu não quero ir a lugar nenhum com você, Harry. Você está me deixando com medo esta noite.

— Tem que acreditar em mim. Eu não quis machucar ninguém. Charlie, com base no que você viu de mim, acha que eu faria algo assim propositalmente?

Movo a cabeça. Eu não quero ouvir, muito menos pensar sobre. O que ele vai dizer que resolverá tudo? "Tive um dia ruim e perdi as estribeiras?" Todos têm dias ruins e eles estão longe de serem justificativas para explosões como essa. Estão longe de ser justificativa para qualquer coisa.

Não. Não quero ouvir nada. Porque não posso aceitar uma atitude como essa e fingir que tudo está bem, sem aceitar uma cota igualmente grande de risco e perigo. Quero ficar segura, e salva. Sem um alvo pintado em minha testa.

— Levo vocês ao hospital. — Harry diz, decidido.

Ele se inclina em nossa direção. Eu me retraio, jogando as pernas para trás e fazendo Daniel gemer em reclamação. Harry paralisa.

— Não vai nos levar a lugar nenhum. Vá embora. — sibilo.

— Charlie...

— Puta merda! Vai embora agora! Eu não quero você aqui! Some!

Harry fica desnorteado. Lamento ter criado esse tipo de reação nele. Uma parte de mim até deseja voltar e dizer coisas mais agradáveis. Ignoro-a. É tão pequena que não pode estar certa.

Harry me encara. Por entre minhas lágrimas, seu olhar de animal ferido faz com que eu me quebre um pouco. Estou certa de que essa cena, como a maioria dessa noite, não abandonara minha mente tão cedo.

Ele vai embora. Recolhe o livro no chão e encaixa debaixo do braço. Faz isso com demasiada lentidão, como se esperasse que eu voltasse atrás e retirasse minhas palavras. Mantenho minha decisão inabalável. Quando Harry entra no carro e o Toyota some pelo campo, eu desabo. Choro alto, sem me importar com isso.

— Desculpe. — peço a Daniel. — Por favor, desculpe-me.

Ele nada diz. Só remexe o rosto em meu colo, não tão ciente quanto eu gostaria do meu desespero. É injusto dizer que sofro, porque Daniel está cheio de ferimentos dolorosos. Mas, de qualquer modo, eu acabo admitindo que estou.

Procuro por meu telefone. Disco o número de Diana. Meus dedos tremem como nunca vi. Preciso digitar cinco vezes antes de escrever o número corretamente. Levo o aparelho ao ouvido e seco as lágrimas, esforçando-me para controlar o desespero que deixa minha traqueia fechada.

Por sorte, Diana atende. Ela foi a primeira pessoa que surgiu em minha mente e agradeço a Deus por não ter posto o telefone no silencioso e nem nada disso. Explico a situação. Parece claro o que digo, mas ela pede tantas vezes para que repita as informações que acredito que não sou eficiente em falar. Quando finalmente consegui me fazer entender, Diana se preocupa e diz que chega logo.

Ela e Jay aparecem ali alguns minutos depois. Estacionam o carro e correm até onde eu estou. Jay leva Daniel para o automóvel e o coloca no banco traseiro, sendo tão suave quanto consegue. Diana me ajuda. Ela passa os braços ao redor de meus ombros e me puxa para cima, fazendo-me ficar em pé.

Nós vamos para o hospital. Faço a ficha de Daniel e ele é levado para fazer uma série de exames. Diana, Jay e eu devemos esperar. Uso esse tempo para tentar me recompor.

Lavo o rosto no banheiro. Inspiro fundo inúmeras vezes, sentindo-me melhor por ser capaz de respirar. A paz que se instala do lado de fora não corresponde ao interior. Ainda me sinto sem chão. Irritada. Cansada. Para piorar, começo a pensar se não errei em meu julgamento e expulsei Harry sem lhe dar o benefício da dúvida.

Diana me compra café enquanto esperamos.

— O que houve? — ela inquire, preocupada.

Contenho a verdade dos fatos por um segundo, avaliando se é o correto contar. Quando me lembro que foi Diana quem me socorreu e que ela está ali, comigo, fica muito claro que uma justificativa é o justo.

Conto-lhe os fatos. Tudo que posso. Disparo a falar, narrando cada detalhe da noite caótica e de como chegamos até aqui. Diana me escuta com a testa franzida e a boca aberta em um O surpreso. Ela não me interrompe. É surpreendente o quanto se mantém quieta, apenas absorvendo as informações que tenho.

— Deus do céu, Charlie! — exclama, embasbacada.

É uma reação típica e esperada. Bebo o que sobrou do meu café, aguardando enquanto Diana absorve os detalhes.

— Eu sei. — fungo, desapontada.

— Por que ele fez isso? Nem deve conhecer o Daniel! Por que o atacou dessa forma?

Dou de ombros. Quantas vezes meu cérebro repetiu informações para lá de semelhantes aquelas, buscando por uma resposta que não está visível em lugar algum? Diana só enfatizou o óbvio e falou da curiosidade clara. Ela não me deu as respostas que eu gostaria.

— Eu não sei. — respondo, amassando o copo vazio. — Eu gostaria, mas não sei.

Diana pisca, ainda surpresa. Ela balança a cabeça, tentando recobrar a concentração

— Desapontada e chocada. — confessa. — Eu não sei como posso ajudar você nisso.

— Não acho que pode.

Diana me abraça. Ela entende que estou magoada e provavelmente entende as razões disso. Sua personalidade deveria fazer com que falasse como uma louca, desesperada para apresentar suas opiniões e me convencer delas. Mas, ao contrário do que espero, Diana se mantém em silêncio, verificando se estou bem.

Daniel teve uma concussão leve. Não é nada grave. Precisaremos monitorá-lo durante a noite e por isso convenço Diana a levá-lo para nosso alojamento. Fora isso, o corte na testa precisou de dez pontos. Os machucados estão limpos, de modo que posso ver muito melhor agora o estrago causado.

Levamos Daniel. Agradeço a Jay pela ajuda, sendo forçada a admitir que, dessa vez, ele foi útil. No caminho, compro alguns analgésicos. Provavelmente temos em casa, mas não quero me arriscar a precisar dele e não tê-lo.

Coloco Daniel na minha cama. Arrumo o minúsculo sofá para mim. Diana pergunta se preciso de algo e, assim que lhe digo que não, ela se retira para dormir.

Fico no escuro. Quando tudo se silencia, o meu cérebro começa a me incomodar. Sou obrigada a repassar todo o ocorrido, revisando cada mínimo detalhe em busca de respostas. Estou cansada, mas sou incapaz de dormir sem concluir algo antes.

Harry estava certo. O que eu conheço dele jamais faria isso. Como resposta, primeiro penso no mais óbvio, e também no pior: eu não o conheço. Nos falamos e nos relacionamos a um período de tempo tão curto que julgar-me plena conhecedora de seu ser é soberbo. Eu conheço uma parte minúscula dele.

Ainda sim, mesmo com todo o enorme mar inexplorado, a ideia de crueldade gratuita não me parece digna. Não sou, nem mesmo, capaz de imaginar Harry sendo grotesco apenas por ser.

Horas atrás, minha mente usou de todos os fatos para montar argumentos inabaláveis que construíram um cenário onde Harry é o único culpado e qualquer uma de suas justificativas é meramente ruim e cheia de buracos e erros. Estava tão mergulhada na minha própria irritação e medo que esqueci como ser lógica e racional.

Nem consigo mais dormir. Passo a noite em claro, sentindo-me mal por não ter escutado Harry e logo desenvolvendo argumentos que justificassem a ação. Passo por todos esses estágios, em um ciclo infindável e repetitivo. Quando o sol começa a aparecer, estou mergulhada em café e com o computador ligado sobre minhas pernas.

Busco uma justificativa. Uma que seja válida, pautada em fatos reais e não apenas em uma imaginação fértil e tendenciosa.

Quando liguei o notebook, nem sabia o que digitar. Busquei de tudo até encontrar o que deveria ser o foco de minha pesquisa. Viajando entre muitos sites diferentes de psicologia, a ideia de estresse pós-traumático começou a fazer sentido.

Se aquilo fosse verdade, Harry não poderia ser o culpado pelo ocorrido. Não diretamente. Seu cérebro defeituoso entrou em modo automático, respondendo aos estímulos do ambiente e esquecendo que a realidade atual não corresponde ao cenário em sua mente. Ele só seguiu seus instintos, temeroso de que não fazê-lo acarretaria em um erro maior.

Talvez fosse a explicação que quisesse me dar. Não com tantos termos técnicos, como os sites apontavam. Mas me contar que aquele no controle não era ele, e sim uma variação bizarra de seu ser que alucinou, vendo muito mais do que deveria.

O olhar ferido retorna a minha mente. Tinha certeza de que não o esqueceria. Eu o expulsei, irritada e sem pensar que poderia estar sendo cruel e egoísta.

Quando tomei noção das minhas ações e de como eu havia julgado rápido, escondida pela desculpa do medo e do nervosismo. Chamei Harry de cruel e covarde, mas fui algo muito próximo disso quando o expulsei, sem qualquer vontade de lhe dar uma chance de se justificar.

 

Minha consciência não me deixa em paz. Conforme os dias transcorrem, a parte de mim que tinha absoluta certeza de que Harry merecia ser expulso e não escutado se reduz gradativamente até se tornar nula. Em contrapartida, o espaço em meu cérebro que vê Harry como alguém que merecia a chance de se explicar aumenta.

Sinto-me mal por tê-lo mandado embora. A cena roda minha mente de forma constante e, em todos os momentos, a sensação predominante é de que cometi um erro muito grave.

Estava tão assustada, mergulhada em uma profusão de sentimentos que dificultaram meu pensamento, que não fui nada mais do que precoce. Por mais que meu medo fosse justificado, eu deveria ter pelo menos pensado antes de tomar qualquer atitude.

Sei que não contribuí em nada com Harry. Naquela noite, o que eu vi foram lados seus desconhecidos. Primeiro, alguém cheio de fúria e ferocidade, atacando como se fosse a única coisa capaz de salvá-lo. Depois, ele se transformou em alguém assustado. Talvez tenha sido a face mais surpreendente, porque nunca pensei que Harry se acuaria e ficaria tão atormentado quanto naquele instante.

Peço para Daniel me encontrar na biblioteca sexta de tarde. Ele teve uma das reações mais ambíguas que já vi ao acordar na minha cama. Estava tão grogue, ainda sobre efeito da pancada e dos analgésicos, que chegou a me perguntar se tínhamos dormido juntos. Disse-lhe que não e fiz uma recapitulação de tudo que se passou. Fomos de choque à raiva e de raiva à ira. No final das contas, tudo que ele concluiu é que Harry é um idiota e não merece qualquer benefício de dúvida.

Mato a aula de arqueologia étnica. Chego à biblioteca e vou direto ao computador. Digito por psicologia, anotando na palma de minha mão os números das estantes. Dirijo-me até lá e começo a verificar os títulos. Acabo com os braços cheios de grossos livros e incerta se eles têm o que preciso.

— Charlie?

Olho para o lado. Daniel me encara. Engulo em seco ao ver o quão machucado e inchado ele ainda está. Faz só uma semana, eu não deveria esperar grande melhora. Tento sorrir quando ele se aproxima.

— Oi. — falo.

— Quer ajuda?

Balanço a cabeça, indicando que sim. Daniel pega alguns dos livros em meus braços, aliviando o peso, e me chama para as mesas movendo o rosto na direção delas. Eu concordo e nós seguimos pelos corredores até um aglomerado de pessoas que se dividem em grupos de estudos muito silenciosos.

Puxo uma cadeira com o pé e coloco meus livros sobre a mesa, sentando-me em seguida.

— Está fazendo um trabalho que envolve psicologia? — Daniel interroga, analisando os exemplares sobre a mesa.

— Não exatamente. Você pode me ajudar? O que sabe sobre estresse pós-traumático?

— Não muito. O pessoal que cursa psicologia sabe bem mais. Por quê? Por que quer saber sobre isso?

Imediatamente concluo que Daniel não é o melhor para me dar esse tipo de informação. Ele se uniu ao grupo de pessoas que não gosta de Harry e duvido que esteja disposto a escutar minha explicação completa.

A alegria de Daniel murcha. Concluo que, por minha expressão, ele conseguiu juntar todas as peças e saber do que se trata.

— Oh, não, Charlie. — fala, parecendo desapontado. — Diga que eu entendi errado.

— Não. Eu pesquisei toda a semana. Faz sentido.

— Sentido? Que porra de sentido faz? — uma funcionária fuzila Daniel com o olhar e ele se inclina na minha direção, diminuindo o tom de voz. — Vai alegar insanidade mental para ele? Achei que você fosse mais esperta.

Ignoro a fúria desmedida em suas palavras e olhar. Daniel tem uma penca de razões para crer que Harry não é nada mais que um desequilibrado ou um maluco que gosta de distribuir socos. Mas eu sei que não é assim. Não pode ser. Não quero ter que aceitar que ele é uma ameaça e me afastar por isso.

— Eu não estou falando de insanidade. Estou falando de estresse pós-traumático. Vamos com calma. E faz todo o sentido. Coisas como essa são comuns em soldados que voltaram da guerra, certo? Eu sei que sim porque li. As alucinações... Centenas de combatentes alegaram passar por situações similares.

— E qual sua fonte de pesquisa? A Wikipédia?

— E outras centenas. Incluindo um fórum de veteranos. Daniel, escute o que eu estou falando. Harry lutou em uma guerra por anos. Ele não está bem e nem consegue ver isso.

— Se bem me lembro, foi você quem o expulsou.

O impacto dessa frase me faz recostar na cadeira. Mordo o lábio. É uma reviravolta que eu esteja defendendo-o agora. Daniel tenta usar essa ideia para desmerecer meu argumento. Ele quase consegue, porque a culpa que sinto me atinge em cheio. Todavia, recobro a consciência de que ainda posso ajudar e me mantenho firme.

— Eu sei. — digo, contida. — E não fiz nada de bom com isso. Já me arrependi pelo que falei, pode ter certeza. Por favor, diga-me como ajudar Harry.

Daniel bufa. Parece abismado com minha insistência no assunto e irritado por eu ainda imaginar uma defesa. Não fico brava. Quando olho para seu rosto, eu entendo tudo que o faz crer que não há modos de defender Harry e que ele é o vilão dessa história.

— Não desiste mesmo, não é? — questiona-me.

— Não quando sinto que é a escolha certa.

— Deus, isso não vai terminar bem.

— Ao contrário. Vai dar tudo certo. Para todos nós.

— Não faço psicologia, Charlie. Eu não sou quem vai resolver seus problemas. Mas, posso montar uma lista com os melhores de Brighton e Londres para você.

Contenho um sorriso, pensando que esse não é o momento adequado. Não poderia ficar melhor ao ouvir essas palavras. É um começo. Bem pequeno. Ainda sim, melhor que nada.

— Obrigada.

— Vai ter que manter meu número na discagem rápida e prometer que, ao menor sinal de perigo, vai me ligar.

— Eu prometo.

Daniel movimenta a cabeça. Fechamos o nosso acordo e ele se retira, ocupado com suas próprias tarefas. Impressiono-me ao ver como uma ação tão pequena e simplória aliviou o peso em meu peito e me deixou melhor.

Passo as próximas horas na biblioteca, lendo partes dos livros que peguei. Logo vejo o sol sumir o céu ganhar tons mais escuros de azul. Ergo-me e marcho para fora, indo direto para Norwich House. Diana come macarrão no sofá e conversa ao telefone. Ela interrompe a ligação para me perguntar se tudo está bem. Sussurro que sim.

Durante a noite, tento falar com Harry. Já é mais do que hora de eu lhe pedir desculpas. Parece até incorreto manter tanto silêncio entre nós. Tenho o discurso ensaiado e sei todas as palavras que devo dizer. Meu estômago é consumido em um tornado de agitação. A crescente esperança de que as coisas podem funcionar.

Tudo isso cai por terra quando a chamada vai para a caixa postal. Meu sorriso esmorece e parece que meu puxaram o tapete. Tento repetidas e repetidas vezes, sempre obtendo o mesmo frustrante resultado. Gravo mensagem atrás de mensagem com uma explicação rápida do motivo que me fez ligar.

O dia amanhece e eu mal dormi. Dessa vez, foi muito mais do que a consciência incomodada; o silêncio de Harry também me causa mal.

Sou um pouco responsável por ele. Chutei-o com tanta força para fora que duvido que queira voltar em algum momento. O olhar de animal ferido. Aquilo deixou muito claro que eu o magoava.

Durante a manhã, tento telefonar novamente. O resultado segue o mesmo. Prometo a mim mesma que, quando o relógio bater meio-dia, devo realizar minha última tentativa. Caso ela seja tão ruim quanto as demais, pego o primeiro trem ou ônibus para Londres e acampo na porta de Harry até que ele me escute.

Fico pronta horas antes. Tento ler, estudar ou apenas ver televisão. Nada disso permite que o tempo passe e, a cada dez minutos, eu faço uma ligação apenas para confirmar que Harry não quer falar comigo.

Antes do horário planejado, eu junto minhas coisas, pronta para sair.

— Onde vai? — Diana pergunta. Ela tem observado minha inquietação todo esse tempo.

— Londres. — respondo, destrancando a porta.

— Não, Charlie. Não pode fazer isso. Vai acabar se machucando.

— Preciso pedir desculpas para Harry. Não posso ficar bem sem me resolver com ele.

— Por que deveria pedir desculpas? Não fez nada de errado.

Bufo.

— Acho que Harry estava alucinando quando bateu em Daniel. Eu pesquisei e acontece com algumas pessoas. Por isso ele fez o que fez. Não foi por maldade.

— Deus do céu, Charlie! Nem tudo tem justificativa. Vai acabar machucada.

— Não vou. Juro que não. Estarei de volta logo.

Saio. Diana fica falando sozinha. Não lhe dou mais atenção porque tenho certeza de que acabaria me convencendo a ficar. Pego o primeiro trem para Londres. Depois um táxi, que roda por muito tempo até encontrar a localização correta do prédio de Harry.

Sempre entrei pela garagem. Dessa vez, não posso fazê-lo porque não tenho o controle da porta. Mentalmente, localizo o apartamento de Harry e toco o interfone correspondente a ele. Ninguém me atende. Tento várias vezes e nada. Concluo que não deve haver ninguém ali.

Aguardo na porta. Quando uma senhora sai, eu me apresso a entrar. Subo as escadas até o andar de Harry. Por via das dúvidas, bato na porta. Não há qualquer som em resposta. Sento-me no vão de entrada.

Espero, reprisando as falas que devo dizer e o pedido de desculpas ensaiado. Mando uma mensagem para Diana, dizendo que está tudo bem. Começo a roer as unhas, obrigando meu cérebro a repetir o discurso que planejei na última noite.

Horas se passam. Manter a firmeza é difícil. Estou faminta e com sono. Quase desejando ir embora. Tento falar com Harry e ele recusa a ligação. Para mim, é como confirmar que devo realmente esperar ali.

Estou quase adormecendo quando a porta do elevador se abre. Escuto o plástico se movendo e sapatos batendo no chão. Ergo-me. Recebo um olhar surpreso de Harry.

— Charlie? — fala, descrente sobre o que vê. — O que faz aqui?

— Vim falar com você. Tentei ligar, mas os meus telefonemas caíram na caixa postal.

— É porque eu decidi que não queria falar com você.

Não esperava essa resposta. Preferia que Harry dissesse ter perdido o telefone, acabado a bateria do aparelho ou qualquer coisa assim. Mas a fala dura faz meu ânimo cair por terra. Talvez eu não tenha como arrumar isso.

— Como fez para entrar? — Harry pergunta, encaixando a chave na fechadura.

— Quando alguém saiu, eu corri para dentro. Fiquei esperando aqui pelas últimas horas. Onde esteve?

— Uma antiga amiga vai se casar hoje. Fui tomar um porre para esquecer disso.

Harry empurra a porta e entra. Ele a deixa aberta. Concluo que deve ser algo como um convite e pulo para dentro. Fico parada na sala enquanto meu anfitrião se move para a cozinha e retorna.

Quais são as palavras mesmo? Eu as ensaiava até cinco minutos atrás. Estavam bem presas e, em um segundo de distração, abri minhas mãos, permitindo que fossem para longe. Não sei como recuperá-las e, mesmo que soubesse, duvido que poderia.

— O que quer falar? — Harry pergunta.

Ele fecha a porta e para de frente para mim. Está mais frio do que nunca. Parece ter criado uma carapaça ao redor para não me permitir feri-lo novamente. Imagino que seus machucados ainda estejam muito recentes e ele não queira mais para cicatrizar.

Encaro-o. Meto as mãos no bolso de trás da calça e mordo a parte interna da bochecha. Harry me encara, esperando uma resposta. Fiquei tão constrangida com o modo como ele se porta, e pela minha parcela de culpa nisso, que perdi o controle das cordas vocais e lábios.

— Desculpe. — digo. É a única parte que me lembro do discurso.

A expressão de Harry muda por um tempo. É rápido demais e difícil de perceber. Ele se surpreende com o que peço e tomo isso como um bom sinal. Mas quando o vejo engolir e tensionar o maxilar, recobrando a frieza de segundos atrás, vejo que não consegui qualquer avanço.

— Tudo bem, Charlie.  — ele dá de ombros. — Está desculpada. Pode ir já

Queria ser perdoada, mas não dessa forma. Harry fica de costas para mim, impedindo que veja seu rosto. Encaro o xadrez da camisa. Nada está bem. Esse não é um caso onde faço o meu melhor e aceito o que vier, tranquila por ter cumprido minha parte. Eu vim aqui para consertar as coisas e só posso aceitar isso como solução final.

— Você está mentindo. — digo. — E eu sei que te magoei. Eu não... Achei que soubesse o que estava acontecendo. Fiquei tão assustada com o que vi que parei de pensar e só agi. Eu deveria ter escutado você.

— Disse que eu lhe deixava com medo. — Harry fala, tão baixo que quase não escuto.

— Eu sei. — aproximo-me. — Mas aquele não era você, era?

Tento tocá-lo e ele se retrai. Abaixo a mão.

— Não importa mais. — murmura.

— Sei que não era. Estava certo. Você não faria aquilo. Sei disso. Peço desculpas por ter julgado tão rápido e pelo que falei. Eu não queria te fazer ficar mal.

— Puta merda, Dawson! — Harry grita, virando-se para mim. — Não tem que me pedir desculpas. Não foi sua culpa e tem que parar de achar que foi.

— Eu...

— Você reagiu como qualquer ser humano reagiria e eu não posso culpá-la por ter sido humana. Se acha que eu estou bravo com você, tenha certeza de que estou muito mais furioso comigo mesmo. Não queria ser o monstro que assombra os seus pesadelos ou que se esconde no armário do seu quarto.

Ele foi de convalescente e inexpressivo para furioso em segundos. Estava só se contendo, escondendo-se em uma máscara e achando que seria o bastante para ficar bom. Que loucura pensar que seria.

— Não são monstros, Harry. São só árvores. E elas não vão me fazer mal. A nenhum de nós. Por favor. — estendo a mão. — deixe-me ajudar nisso.

Harry encara minha mão. Seu olhar varia entre ela e meu rosto e desejo ardentemente que a pegue, que aceite meu convite. O tempo se estende e meus dedos permanecem erguidos. A palma segue para cima. Espero que haja uma mudança surpreendente de última hora e Harry pegue a mão que lhe ofereço, dando-me alguma tranquilidade.

Ele não a pega. Ao contrário. Contorna meu corpo e segue para a cozinha. Frustrada, encolho os dedos. Não era o que eu queria e está longe de ser uma solução. A verdade é que Harry se trancou ainda mais depois do que houve. São tanto cadeados que não sei se consigo abri-lo.

— Está com fome? — Harry questiona e tomo isso como um sinal de melhora entre nós dois. E é mais satisfatório do que nada.

— Não. Vai viajar?

Observo a mala sobre o sofá. A minha resposta tarda a vir, só aparecendo quando Harry retorna a sala com um sanduíche mordido em mãos.

— Sim. — responde ele.

— Para onde?

— Afeganistão.

E é como levar um soco na boca do estômago. Eu perco o ar. Minha garganta se fecha e eu não sei bem o que fazer. Uma sensação avassaladoramente ruim toma conta de mim e eu quase desejo não ter vindo aqui e não ter escutado isso.


Notas Finais


Então é isso, amores! Espero que tenham gostado. Sei que o capítulo tá um pouco longo e peço desculpas por isso. Mas uma vez, perdão pela demora em atualizar.
O teaser maravilhoso que a Anna fez: https://www.youtube.com/watch?v=0l-cGVf6F-o
Gente, recentemente eu criei uma ask pra termos mais uma forma de comunicação e tals. Então, apareçam lá pra gente bater um papo, falar de nada ou qualquer coisa. A gente também pode falar aqui mesmo, pelo SS. Vou adorar bater papo com vocês haha
http://ask.fm/RachelWilde_
Até logo!
xoxo


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