História Red - Capítulo 13


Escrita por: ¢

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Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 1.606
Palavras 4.712
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hey, babys!
Boa noite, antes de tudo.
Quero muito agradecer pelos comentários e favoritos. Vocês são as coisinhas mais lindas do mundo e obrigada por darem uma chance, disponibilizarem seu tempo pra ler e comentarem. Obrigada aos que também falaram comigo na TL. Deu vontade de abraçar cada um docês.
O capítulo anterior foi dos bons, né? haha Confesso que tava bem temerosa na hora de postar e cheia de receio. Quando li os comentário ou recebi mensagens, fiquei bem mais tranquila, porque vocês tinham gostado e isso era o que me importava.
Estamos de capa nova, viram? Eu queria muito agradecer ao Marcus, que a fez de presente pra mim. Ficou maravilhosa e eu adorei mesmo <3
Espero que também gostem desse. O capítulo foi betado pela Two e escrito com muito amor e carinho. Boa leitura e nos vemos lá embaixo ^-^

Capítulo 13 - Brown red


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 13 - Brown red

Charlie

Eu me deito no chão ao lado de Harry. Seu braço fica debaixo da minha cabeça e seus dedos acariciam meu ombro.

— Qual é a do tribal nas costas? — pergunta-me, quebrando o silêncio.

Ergo o rosto e mudo de posição, apoiando o queixo sobre o tórax de Harry.

—Não é um tribal qualquer. —explico. — É uma expressão de uma tribo indígena. Eles vivem na Amazônia, tão afastados da sociedade que só existe um estudo sobre eles. Quase não modificaram a cultura. Significa fico por você. É o que fazem um pelo outro lá. Ninguém nunca é deixado para trás, não importa o quão difícil tudo esteja. — beijo a tatuagem na barriga de Harry. — É o que gostaria de fazer por quem eu amo. Ficar. Independente da situação.

Deito o rosto sobre as costelas dele, sentido a forma como a caixa torácica se expande e contrai a todo momento. Harry não diz nada e não sinto mais a sua mão próxima ao meu corpo. Preocupo-me com a ideia de ter ido muito rápido.

— E essa?

Harry pressiona a minha nuca, fazendo com que eu encolha o pescoço. Penso no sete cruzado que desenhei ali e quase rio ao me lembrar das vezes que associaram isso à um ritual satânico do qual eu nem sabia a existência.

— São dois números sete. Algumas culturas associam esse número à perfeição. Antes que pergunte, as estrelas no punho são uma forma de me lembrar que o universo é grande demais para viver com a mente fechada.

— Você é uma caixinha de surpresas.

— Não tanto. Eu não tenho tantas coisas escondidas como você tem.

E foi sem pensar. Eu me assunto ao perceber as palavras que saíram de minha boca e ganharam espaço no ambiente mal iluminado. Estávamos tendo paz naquele momento. Talvez eu tivesse quebrado completamente isso.

Harry me encara. É difícil definir sua expressão nesse momento porque está escuro demais.

— Quer montar um castelo de cartas? — ele questiona.

— Você está falando sério?

Quando percebo, Harry já se ergueu e está caminhando para longe de mim. Ele torna a acender seu isqueiro enquanto segue em direção ao quarto. Retorno com um retângulo em mãos e se senta na minha frente, abrindo espaço entre as velas. Joga-me uma blusa e eu vejo que vestiu calças de moletom.

— Por que eu estaria brincando?

Ele abre a caixa e a inclina para baixo, pegando as cartas antes que caiam ao chão. Desdobro o tecido e passo a abertura maior pela cabeça. Depois, encaixo os braços.

Percebo que está falando sério. Um minuto atrás, eu imaginava que poderíamos entrar em uma discussão. Fico aliviada por isso não acontecer já que nossa última briga foi catastrófica e cheia de consequências inusitadas. Mas não entendo sua súbita vontade em montar um castelo de cartas. Estamos em meio a uma tempestade e a nossa única iluminação vem de velas. Não acredito que seja o mais sensato.

— Já montou algum? — Harry pergunta, abrindo a primeira linha de cartas no chão.

— Quando eu era criança, com o meu avô. Mas ele fazia o trabalho pesado. Eu só ajudava e falava.

— Ajudava?

— Entregava as cartas.

— Pode fazer isso aqui também. Se quiser.

Harry me estende os retângulos. Sua mão paira no caminho entre nós. Encaro os seus dedos semiabertos, ainda sem saber sobre o que se trata e confusa sobre a minha participação. De cenho franzido, eu acabo pegando.

Entrego as cartas a Harry e ele se concentra em fazer o trabalho pesado. Parece muito com o que eu fazia com meu avô vários anos atrás. Nos sentávamos na sala, com limonada ou chocolate quente, dependendo do clima, e biscoitos de gengibre. Eu lhe contava detalhes sobre o meu dia e ele me contava histórias. Passávamos tanto tempo conversando que gastávamos quase uma tarde para conseguir construir o castelo. Geralmente, Niall passava correndo e derrubava todas as cartas. Meu avô só ria e ajudava meu irmão a levantar. Eu ficava frustrada por tantas horas de trabalho desperdiçadas.

Sinto falta do meu avô. Ele morreu quando eu tinha 11 anos. Não é fácil lidar com sua ausência. Dez anos depois, eu ainda não me acostumei com a cadeira vazia na mesa do almoço ou com a meia a menos na lareira durante o natal.

Ver Harry empilhando cartas que eu as entrego para ele quase me faz sentir o cheiro de perfume almíscar que meu avô usava. Eu poderia ouvi-lo claramente rindo agora de algo que eu contara e a simples lembrança apertou meu peito.

— Charlie? — Harry me chama. Olho para cima e noto que ele me encara. — Está tudo bem?

Sorrio minimamente.

— Está. Você está me lembrando meu avô agora.

— Com esse tipo de galanteio, como esteve sozinha por tanto tempo?

Rio. Harry volta a montar o castelo enquanto eu me escoro no sofá.

— Ele também esteve em uma guerra. — confesso.

— Esteve?

— Sim. Eu me lembro de quando íamos à igreja no fim de semana. Depois que a missa terminava, minha avó falava com suas conhecidas. Naquela época, meus pais não tinham mais que dois amigos, então esse era o momento de conversar com eles. Minha irmã ficava com as amigas de escola e meu irmão brincava com qualquer um que quisesse. Eu ficava com os meus pais. O meu avô sempre sumia nesse meio tempo e reaparecia quando já era hora de irmos embora.

"Um dia, eu me soltei e fui atrás dele. Ele estava no fundo da igreja, acendendo algumas velas. Eu fiquei apenas olhando. Meu avô acendeu uma, depois mais uma e outra no final. Todas da mesma cor azul. Depois, ele ficou encarando o altar em silêncio. Acho que estava rezando. Quando se virou e me viu parada lá, ele disse 'Charlie, bonequinha, nunca te disseram que é feio espionar os outros? '"

A frase nem é de fato engraçada. Mesmo assim, eu rio. Olho em volta, mordiscando a ponta do dedo enquanto tento acalmar o meu coração. Meus olhos estavam se enchendo de lágrimas e eu não devo chorar por isso. Não mais.

Harry interrompe seu trabalho com as cartas. Ele agora me encara, atento a cada movimento que eu fazia.

— O que houve depois? — inquiri.

Suspiro.

— Eu perguntei o que ele estava fazendo. Vovó acendia velas em alguns domingos, antes que a missa começasse. Meus pais acendiam em casa, no pequeno altar deles. Mas só o meu avô fazia isso.

"Ele me pegou no colo e se sentou comigo em um dos bancos, de um lugar onde ainda poderíamos ver suas três velas. Ele me disse que havia feito coisas ruins. Muitas coisas ruins. Que havia machucado pessoas inocentes por motivos esdrúxulos. Que havia sido uma pessoa má. Ele me disse que haviam pessoas terríveis pelo mundo, que só queriam dinheiro. Ele as chamou de mestres da guerra e me contou que essas pessoas não se importavam com ninguém além de si próprios e que colocavam uma arma na mão de alguém só para conseguir o que queriam.

"Então, ele apontou para a primeira das velas e falou 'Aquela, bonequinha, eu acendo para os meus amigos. Os que lutaram comigo. Vivos e mortos. Para que onde eles estejam, possam estar bem.' Apontou para a última vela e falou: 'Aquela eu acendo para quem machuquei. Seja vivo ou morto. Peço para que saibam que eu me arrependi e para que possam me perdoar. E aquela' ele apontou para vela do meio ' eu acendo para pedir que eu consiga ser forte o bastante para me perdoar'"

O suspiro alto de Harry cortou o ar. Percebi que ele estava em silêncio e ao encará-lo, vejo a forma como olha a construção incompleta em papel. Parece absorto nos próprios pensamentos. Minhas palavras devem ter sido significativas porque ele se calou e nada perturbava o nosso silêncio. Até mesmo os relâmpagos e trovões se findaram.

— Você pode ficar durante essa noite?

Eu já dormi aqui antes. Mesmo com isso, eu não deixo de me surpreender com o seu pedido porque, dessa vez, eu posso sentir que a carga existente é muito diferente. Não estou impossibilitada de sair hoje, eu só realmente não quero isso.

— Claro que posso. — respondo. — Mas vou ter que usar suas roupas e cobertores.

Deito-me com Harry na cama. Um de frente para o outro. E não há nada. Por um bom tempo, nós apenas olhamos um para o outro. Uma única vela acessa. Eu uso uma blusa dele com a insígnia de Columbia enquanto ele veste uma calça de moletom preta.

Ninguém fala nada. Eu me mantenho calada, assim como Harry. Nós nos olhávamos. Permanecemos as mãos baixas, encolhidas e braços travados. A chuva fica mais forte novamente.

E eu gosto. Do silêncio e da forma como parecíamos estar conectados, mesmo que temporariamente. Não há qualquer barreira entre nós e, embora nossos corpos estejam afastados, eu posso sentir a energia e o calor fluindo entre nós.

Por isso não falávamos. Não precisamos falar. Essa necessidade está excluída. Nossos corpos se entendem bem no silêncio. As mentes não gritam e não nos colocam ao ponto da insanidade. Falar agora seria arriscar a conexão construída e a intensidade desse momento.

O silêncio se arrasta por muito tempo. É confortável. Sinto as pálpebras pesando e meu corpo está mole, apto a mergulhar na inconsciência. Foram dias longos e agora que tenho a confirmação de que Harry está bem, posso me permitir uma verdadeira noite de sono.

— Eu desenhei você. — escuto a voz de Harry confessar.

Minha mente está tão enevoada que não posso estar certa do que escutei. Talvez ele não tenha dito nada e uma falha nos neurônios levou-me a escutar aquilo. Mas, se fosse verdade, eu me sentiria lisonjeada.

— Fez o quê? — sussurro.

— Desenhei você.

— Por quê?

— Porque acho que é bonita. Gosto dos seus olhos e das suas mãos.

Gostaria de agradecer à todos os elogios. Mas não consigo. Pisco uma vez e não abro mais meus olhos, cansada demais para fazer algo que não adormecer. Quando acordo, já é dia. Surpreendo-me com o sol que entra pelas aberturas na janela. Após a tempestade da última noite, nada me parece mais adequado.

Remexo-me na cama, descobrindo que estou sozinha. Quando estendo a mão para o lugar onde Harry se deitou na última madrugada, sinto-o frio. Ninguém passa por ali há muito tempo.

Bocejo e me sento. Encontro minhas roupas secas e dobradas ao pé da cama, junto com uma toalha. Levanto-me e aperto o interruptor na parede, vendo a luz se acender e confirmando que a energia já voltou. Pego todas as coisas e me dirijo ao banheiro, atrevida o bastante para tomar um banho.

Visto-me. De certo modo, sinto muito por ter de abandonar a blusa de Harry. A sensação de tê-la em meu corpo é boa. Posso sentir o cheiro dele o tempo todo. Desembaraço meu cabelo e improviso um coque, fazendo um nó com todos os fios. Depois, saio do quarto e caminho até a cozinha.

Passo pela sala e ela está vazio. Concluo que devo ser a única naquele apartamento. Não há qualquer sinal da presença de Harry. Apesar disso, ele deixou uma mesa com as mais variadas opções de desjejum. Eu me sirvo com café e analiso todas as opções.

Harry não foi tradicional. Além de opções tipicamente britânicas, ele trouxe algumas comidas bem características do meu país natal. Os donuts e as rosquinhas pareciam muito apetitosos.

Puxo uma cadeira e me sento. Depois de comer, vou direto à pia para limpar o que sujei. A xícara escorrega de minhas mãos e se espatifa no chão.

— Droga. — sussurro.

Abaixo-me, juntando os maiores cacos. Coloco-os sobre minha mão, sendo o mais cuidadosa possível e evitando qualquer tipo de machucado. Harry surge logo em seguida e vem imediatamente até mim.

— Quebrei sua xícara. Desculpe. — peço, n mostrando os pedaços que tenho

— Deixa isso. Vai acabar se machucando.

Harry sai. Ele retorna com vassoura e pá de lixo. Coloca-me afastada enquanto limpa a bagunça que fiz.

— Achei que tivesse saído. — comento.

— Não. Eu estava trabalhando.

Harry aponta para trás. Eu me afasto dele, indo em direção à uma nova porta nunca explorada. Minha mão imediatamente agarra a maçaneta e a gira, descobrindo a trava que me impede de abrir e visitar o cômodo. Decepcionada, volto a cozinha.

— Eu posso ver? — pergunto.

— Não, não pode.

Eu não tinha nem pensado na possibilidade de Harry falar não. Supus que ele estivesse muito mais aberto depois da última noite. Sua resposta é uma completa surpresa e chega de modo tão rápido e imediato que quase sinto um tapa na cara.

— Quero dizer, você pode, mas eu prefiro que não. — Harry tenta consertar.

— Está tudo bem. Não preciso ver. É o seu quartinho de armas secreto. Podemos manter isso.

Harry embrulha todos os cacos em folhas de jornal para evitar que alguém se machuque. Depois, ele coloca o papelote dentro de uma pequena sacola plástica e amarra com alguns nós. Deixa na lixeira da cozinha.

— Desculpe pela xícara. — repito. — Eu posso comprar outra.

Só estou tentando quebrar o silêncio entre nós. Qualquer minuto extra de calmaria só é suficiente para me causar uma sensação de estranheza e desconforto. O clima mudou e isso é muito claro. É quase constrangedor agora que aceitemos ficar em silêncio por tanto tempo. Parece errado que a situação prossiga dessa forma entre nós.

Harry ri.

— É só uma xícara, Dawson. Eu nem gosto tanto dela assim. Não tem que comprar nada. Já comeu?

Concordo com um movimento de cabeça. Harry remexe os pratos, em busca do que mais lhe agrada, e eu agarro meu próprio ombro. Flashs da nossa conversa na última madrugada, quando eu estava grogue e sonolenta demais para expressar minhas decisões — ou até mesmo tomá-las —, retornam a minha mente.

— Você me desenhou. — exclamo.

Harry tira os olhos do pedaço de bolo em suas mãos e os vira para mim. Ele está chocado com o que eu digo e quase rio pela forma embasbacada como me encara.

— Não achei que tivesse prestado atenção. — confessa.

— Eu prestei. E obrigada pelo elogio, à propósito. Posso ver?

— O quê?

— Os desenhos.

— Pode, mas também prefiro que não veja.

— Por quê? São aquelas figuras de palito parecidas com de criança ou estão catastróficamente fora de proporção? Você me desenhou. Tenho direito de ver o resultado final. Por favor.

Harry não está confortável com o pedido. Ele faz careta, como se tentasse me convencer a mudar de ideia. Quando percebe que não vai conseguir, bufa alto e sai. Eu me sento e espero, balançando um prato com farelos de pão e açúcar.

Harry se senta na minha frente. Ele estende a pasta escura para mim. Pego e tento puxá-la, mas ele demora a soltar.

Abro espaço sobre a mesa. Empurro algumas vasilhas e junto outras em um monte só. No lugar, coloco a pasta. Abro a capa dura e percebo a desorganização ali.

Não são só desenhos meus. Na verdade, não vejo nada relacionado a mim nas primeiras páginas. São imagens de praças, parques, edifícios e pessoas que não sabiam que estavam sendo desenhadas. São todos muito bons. São cheios de detalhes e de uma delicadeza surpreendente. Não imaginei que Harry pudesse ser capaz de traços tão finos.

— São lindos. — murmuro, deslizando o dedo por uma das folhas.

— Nem todo mundo concorda.

— Eles são loucos se não conseguem perceber isso.

Troco de página, deixando-a cair sobre o pequeno monte na outra capa. O desenho de uma velha senhora está ali. As rugas na face são realistas. A expressão em seus olhos representa alguém que não para de procurar por algo ou alguém. Duvido que tenha encontrado.

— Essa mulher ficava na praça perto da casa da minha irmã. — Harry conta, apontando. — Gemma me levava lá todos os dias na época que voltei, para me ajudar a ser sociável. E sempre essa mulher estava lá. Ela sempre usava o mesmo casaco, a mesma touca e o mesmo cachecol. Quando perguntei o que ela fazia,  disse-me que estava esperando o amor da vida dela volta. Eles deveriam se encontrar ali, quando a guerra acabasse.

— Nossa.

— Loucura, não é? Achei que valesse a pena registrar. Ela estava esperando por ele há décadas e nunca desistiu. O cachecol foi presente dele, por isso nunca tirava.

Fico surpresa em ver como Harry se abstrai ao me contar as histórias por trás de seus desenhos. Ele fica completamente absorto nas informações que fornece. Seus olhos chegam ao ponto de brilhar e estou certa de que ele não está apenas narrando. Ele sente aquilo também.

— Você vê as pessoas. — murmuro. Harry vira o rosto para mim. — Não da mesma forma como eu as vejo ou como qualquer outro. Você as vê. De verdade. Como elas são.

Harry sorri minimamente. Não sei se me fiz clara. Na verdade, não acho que consegui fazer isso. Recobrando minha fala, parece tudo confuso e redundante. Todavia, não consigo expressar o que quero de uma forma melhor.

Quando olho para os desenhos, eles vão muito além da superfície que serviu de inspiração. São como caixas cheias. Quando eu consigo abri-las, milhões de histórias voam pelo ar. Milhões de sensações e sentimentos, espalhando-se pela atmosfera. Tenho sorte quando algum deles me atinge.

Como a senhora que espera. Eu imagino que seus sentimentos sejam tão fortes e verdadeiros que ela não poderia destiná-los a mais ninguém. Também sei que jamais perdeu a esperança e, enquanto tiver forças, vai esperar por esse alguém.

Acho que uma das poucas coisas que passa na minha mente esse momento é que Harry não pare de ser assim. Não é para qualquer um enxergar além da superfície e muito menos conseguir exibir isso.

Parece-me até irônico que Harry consiga isso. Ele não é o tipo de pessoa que aparenta ver tudo. Sendo honesta, ele sempre parece tão trancado que não imagino-o vendo algo maior do que a própria caixa.

Harry segura um bloco de papel e passa, chegando ao desenho que ele fez de mim. Na cena, estou deitada sobre sua cama e em sono profundo. A imagem ao lado parece ter dado zoom nas estrelas desenhadas em meu pulso.

— Eu vejo você. — Harry fala, pacífico e certo disso.

Sorrio, em desafio.

— E o que você vê? — questiono.

— Está com medo de quem pode se tornar.

O meu sorriso morre lentamente. Não gostei do resultado. Minhas defesas caíram por terra no momento em que Harry disse aquilo. Fico completamente desarmada e exposta.

É verdade o que ele falou. Completamente. Passei minha adolescência temendo fazer as escolhas erradas e as consequências que poderiam me assombrar pelo restante da minha vida. Achava que essa sensação fosse ter um fim quando atingisse certa idade e começasse a tomar decisões por conta própria. Não aconteceu.

A verdade é que, majoritariamente, estou apenas lidando com a pressão e fingindo que essa sensação não me aflige mais. Agora é muito fácil, porque já me adaptei ao sentimento. Sei como fazer uma escolha e fingir que não me importo com os caminhos que ela me obrigara a trilhar. Finjo tão bem que chego ao ponto de acreditar na minha própria mentira.

— Eu não sei por que, mas você está. — Harry dá de ombros. — Talvez algum dia me conte a razão.

Fecho a pasta.

— Talvez algum dia você se abra comigo. — rebato, cansada da análise emocional que Harry faz de mim. — Seus desenhos são lindos. São muito bons. Tem algum de mulheres nuas também?

— Não. Não é fácil assim achar uma. Mas prefiro desenhar uma mulher nua do que as armas que eu faço.

— Por que as faz, então?

Harry dá de ombros. Ele não me responde com nada além disso. Parece-me conformado com a situação que vive atualmente, como se, por mais desagradado que esteja com sua vida, ele não se importa em permanecer como está. Ficar acomodado é muito mais fácil do que se mover em busca de alternativas melhores.

— É tão triste. — sussurro. — Não deveria passar um segundo da sua vida fazendo algo que não gosta e muito menos depender disso.

— Quer que eu te leve de volta para Sussex?

Balanço a cabeça. Passo a pasta para Harry. Ele faz o processo inverso dessa vez e a segura por mais tempo do que deveria, deixando seu olhar sobre mim. Quase sorrio, constrangida pela forma ininterrupta como ele me encara. Acredito que teríamos ficado assim por muito tempo se o telefone não tivesse tocado.

Harry ignora na primeira vez. Ele apenas permite que o aparelho chame até o apito irritante cessar. Na segunda vez, eu o aconselho a atender. A distância entre as chamadas é muito pequena para não ser a mesma pessoa ou uma emergência. Todavia, só na terceira tentativa, após quatro toques, Harry se levanta e atende o telefone.

Escuto seus murmúrios. Não consigo compreender do que se trata porque a voz está baixa demais para ser entendida. Independente disso, Harry não parece nada satisfeito com a razão do telefonema.

— O que foi? — interrogo, vendo o encaixar o telefone no gancho na parede.

— Trabalho. É sobre a viagem. Preciso prestar algumas contas.

— Ah! Tudo bem. Eu pego um trem para Brighton.

— Eu te levo. Não quero mesmo ir para a I.N.C. hoje.

Saio da cozinha. Pego a bolsa no chão, juntando tudo que ainda está espalhado sobre o piso. Calço os sapatos.

— Pode até odiar o seu trabalho, mas ainda é o que você tem. É divertido. Pegar o trem. Eu te ligo mais tarde.

Harry murmura em concordância e me segue até a entrada do apartamento. Ele destranca a porta e a deixa aberta para que eu passe. Hesito no momento de me despedir. O que eu deveria fazer? Beijá-lo? Dar um abraço? Com certeza essa é a última opção.

Tudo é incerto. Não sei quais os limites direito, mas sei que ser meloso e me encher de paparicos não combina com Harry. Não combina com nenhum de nós. Caso precisasse ir embora na última noite, não pensaria duas vezes antes de beijá-lo. Nas últimas horas, porém, o clima esfriou, chegando até uma atmosfera de estranheza mútua. Acho que nenhum de nós dois sabe bem o que fazer.

Acabo me despedindo apenas com um aceno. Eu viro para trás por um segundo, girando em um meio círculo e logo voltando a encarar o corredor que se estende a minha frente. Encaixo as mãos no bolso, crente de que esse é o lugar certo para elas, e sinto o olhar de Harry em minhas costas. Empurro a porta das escadas e desço.

Harry não mora tão longe da estação. Ao menos, eu considero isso. Por isso, acabo não pegando um ônibus e seguindo a pé pelo caminho. Quando percebo, andei por muito mais do que tinha planejado. Minhas pernas queimam enquanto compro as passagens.

Desço na Brighton Railway Station. Ao invés de tomar um ônibus que me leve para Sussex, crio um desvio no caminho e me dirijo para The Lanes. Passo em algumas lojas de souvenirs e antiquários, saindo com algumas sacolas em mãos.

Passando em frente à um sebo, encontro um livro de Ruth Benedict. É quase imediato me lembrar do exemplar para lá de raro que Harry arranjou para mim. Isso também me faz lembrar, é claro, de que eu o deixei jogado no chão em um momento de fúria. Nem sei mais o que aconteceu com ele. Fico entristecida ao pensar sobre isso.

Sento-me na parte externa de um quiosque para comer. Enquanto espero a refeição chegar, distraio-me com a leitura de um best-seller bem cotado.

— Oi. Desculpe interromper, mas você sabe onde fica a Bookstore Emporium?

Eu olho para cima. Deixo minha mão de apoio para a capa, evitando que o livro se feche e mantendo a página marcada.

O homem que me questionara parecia simpático. Ele tem olhos castanhos. O tom quente é realmente convidativo. A barba por fazer. O cabelo curto está bem aparado, mas é muito diferente do estilo militar que Harry insiste em manter.  Os dentes brancos contrastavam fortemente com o tom moreno da pele.

Balanço.

— Eu não sei. — digo. — Não conheço essa loja. Quase não venho aqui, na verdade. Desculpe.

Ele se cala. Todavia, ainda está ali parado na minha frente. Não volto a ler o livro porque imagino que isso soaria como algo muito deselegante.

— Ah! Tudo bem. Eu sei onde fica.. — ergo uma sobrancelha, sem entender. — Minha prima é a dona. É logo ali. — ele aponta para trás e eu me viro, encontrando uma placa com o nome.

— Você sabe, então?

— Sim. Eu estava sentado aqui quando você chegou e estava tão encantadoramente focada nesse livro que a única coisa que pensei é que deveria vir e tentar falar algo.

Não sei como reagir. Eu balbucio uma expressão de surpresa enquanto olho para os lados, constrangida. Ele foi tão direto comigo que anulou qualquer possibilidade de reação. A surpresa é tanta que nada passa pelo meu cérebro e eu permaneço embasbacada.

— O meu casaco está ali. E o marido da minha prima também. — apontou para uma mesa no quiosque ao lado. — Só para comprovar que isso não é uma mentira. De qualquer forma, talvez não tenha sido uma boa ideia. Se nos esbarramos outra vez, eu te chamo para sair.

Ele se afasta. E é tudo tão rápido que não tenho tempo para sair de meu transe e tomar alguma atitude. Apenas observo aquele médico recolher seu jaleco e ir embora, balançando a cabeça como se reprovasse suas próprias atitudes.

Não gasto tempo refletindo sobre qualquer coisa que poderia ter feito. Se alguém gosta de brincar e pregar peças, esse alguém é o destino. E ele o faz com uma habilidade incrível. E apenas para se divertir as nossas custas; nem sempre encontros aleatórios precisam ter um significado maior.

A comida chega e eu interrompo a leitura novamente para comer. Observo quando o homem galanteador segue em direção à

Bookstore Emporium, acompanhado de outra pessoa. No final das contas, ele não estava mentindo ou é um excelente mentiroso.

Passo em apenas mais uma loja antes de pegar o ônibus para Sussex. Sou surpreendida pela visão de Diana revirando suas roupas na sala, separando tudo em montes.

— O que está havendo? — pergunto.

— Um mês para Northern Ballet, baby! Vai me dizer que se esqueceu?

Sim. Completamente. Minha mente andou focando em assuntos de emergência maior e deixando todo o resto de lado. Diana me dera aquela notícia já. A cena voltou e eu pude lembrar de todo o momento. A felicidade dela foi tamanha que me sinto uma péssima amiga por ter esquecido de suas palavras.

Sorrio, disfarçando.

— Nothern Ballet, baby. — digo, usando um tom de empolgação que seja convincente. — Vai doar isso? — aponto para um dos montes de roupas.

— Só algumas. Pode olhar se tem algo que te agrada. Você passou a noite fora e está usando as mesmas roupas de ontem. Oh, meu Deus! Você transou, não transou? Claro que sim. Olha bem sua cara.

Balanço a cabeça e reviro os olhos. Certifico-me de que a porta está bem trancada e me dirijo à cozinha. Procuro pela máquina de café e os saches no armário. Diana me segue, incansável. Ela pede que eu prepare um mocha para ela e se esquece completamente de sua tarefa inicial, que era separar roupas e definir o que poderia ou não ser levado para sua viagem.

De repente, Diana mergulha de cabeça na minha última noite. Ela quer uma narração completa dos fatos, com todos os detalhes que me venham a mente, quer sejam imprescindíveis ou não. Está absurdamente curiosa, e sua pressa em ter os fatos é quase hilaria.

Não me importo em contar para ela. Na verdade, é até bom saber que tenho alguém para compartilhar essa experiência. Sei que Diana não vai usar os detalhes que lhe dou da minha vida para criar intriga ou ser apenas desagradável, como Melody fez.

Saber do que houve não se resume apenas a sua curiosidade cessada. São tantas perguntas sobre a forma como Harry agiu comigo que estou certa de ela também se preocupa com o meu bem estar.

Depois de bebermos café, mocha e comer alguns biscoitos amanteigados, Diana e eu tivemos de voltar aos nossos afazeres. Eu lhe pedi que não saísse por aí, espalhando sobre Harry, e ela me pediu que continuasse mantendo silêncio sobre Northern. Nós duas prometemos guardar segredo.


Notas Finais


Então, isso é tudo pessoal!
Espero que tenham gostado. Venham falar comigo sobre suas impressões. Lembrando que, além da TL do SS, tem o meu ask que está sempre aberto pra vocês: http://ask.fm/RachelWilde_
Muito obrigada por terem lido até aqui e até loguinho!
xoxo


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