História Red - Capítulo 17


Escrita por: ¢

Postado
Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 1.004
Palavras 6.574
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


E ai, gente linda? Como vão? Espero que estejam bem, brilhando bastante por ai.
Bem, quero agradecer muitíssimo pelos lindos comentários do capítulo anterior (alguns que ainda não pude responder) e por cada um que deu uma chance e leu e favoritou. Vocês fazem com que eu sinta que o que faço vale a pena e só tenho a agradecer.
O capítulo de hoje é mais suave e espero que gostem. A Lali betou e deu aquela avaliada básica pra mim, então só posso ser grata por isso haha ♡♡
A Anna fez um teaser que é simplesmente ma-ra-vi-lho-so e de cair o queixo. Eu fiquei babando quando vi e vou deixar o link nas notas finais pra gente babar [email protected] haha
Boa leitura e nos vemos lá embaixo!

Capítulo 17 - Red blush


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 17 - Red blush

Charlie 

 

20 de agosto de 2010 

Passei o metal fino e curvado pelo furo em minha orelha. Arrumei a asa prateada, certificando-me de que o par estava no lugar. Dei um passo para trás, afastando-me do espelho. Balancei a cabeça, vendo o brinco se movimentar juntamente com as ondas que eu fabriquei em meu cabelo. 

Puxei o scarpin ao lado da cama, sentando-me para calçá-lo. Tinha tido pouquíssimas oportunidades de usá-lo, desde que o comprara. Estava mais ansiosa por esse momento do que por qualquer coisa que fizéssemos essa noite. Em pé sobre os saltos, eu me avaliei pela última vez. 

O vestido era um opção tão nova quanto os sapatos. Eu adorava o modelo, mas sempre ficava com um pé atrás na hora de usá-lo apenas por não achar que realmente estava bom. Poucas vezes no último ano eu me produzi como naquela noite. Maquiagem, batom vermelho e babyliss no cabelo. Eu realmente não tinha tempo para aquele tipo de coisa no decorrer da semana. 

Dei fim a observação. Eu precisava confessar que me sentia bem bonita essa noite. Poderia ter a vaidade de ficar horas em frente ao espelho, só olhando para mim mesma. Todavia, tinha um compromisso e o tempo estava correndo agora. Puxei o casaco da cama e o dobrei corretamente, colocando-o na dobra de meu cotovelo. Depois, peguei a bolsa e caminhei para fora, checando se tudo estava ali. 

— Cheydan, tem certeza de que não quer ir? 

Minha colega de quarto me encarou, a caneta pairando no ar. A convivência com ela era diferente. Cheydan tinha muitos costumes que limitavam um pouco o contato entre os nossos mundos. Eu me desdobrava muitas vezes para me condicionar às regras que guiavam sua vida. 

Era uma ótima pessoa. Nós últimos meses, prestei-me mais ajuda do que eu poderia contar. Também era ótima cozinheira e conseguia achar tempo para preparar jantar para nós duas. Cheydan nunca se intrometia na minha vida. Ela era demasiado reservada e eu era incapaz de adivinhar quantas milhares de informações adquirira, ao longo de suas observações silenciosas. 

Diana e Cheydan eram opostos completos. Não só em aspectos físicos, mas culturais e sociais. Elas tinham formas de se conduzir e de agir totalmente diferentes. E não havia nada de ruim ou errado com Cheydan. Ela só não era Diana. 

— Eu tenho que terminar esse trabalho. — Cheydan mostrou o livro cheio de marcas azuis. 

— Tudo bem. Acho que volto de madrugada. Não precisa ficar preocupada comigo. 

Cheydan concordou com um movimento de cabeça. Ela inclinou o pescoço para baixo, voltando a focar sua atenção ao que lia. Eu destranquei a porta e a abri. 

— Charlie. — parei-me no caminho da saída, virando o rosto para o lado de dentro. — Feliz aniversário. 

Sorri. 

— Obrigada. 

Cheydan balançou a cabeça em um singelo aceno e com um tímido sorriso no rosto. Logo, voltou a se atentar aos exercícios e ao que neles era pedido. Dessa vez, eu realmente saí. 

Odiava o minúsculo espaço entre cada fileira de habitações. Havia uma minúscula linha separando a porta de um quarto da parede de outro. Em alguns dias, eu quase me sentia sufocada, ao caminhar lentamente por aquele pedaço. Imaginava que as paredes poderiam se colar imediatamente, como se fosse um passe de mágica em um filme de terror. 

Alguns segundos após começar a andar, o vento frio me incomodou. Inicialmente, apenas me encolhi, tentando evitar os tremores em meu corpo. Cruzei o braço com firmeza sobre o peito. O efeito foi mínimo. Ou até nulo. Dessa maneira, desdobrei o casaco e o vesti, sentindo-me muito mais aliviada com isso. 

Na portaria, eu esperei por bons dez minutos. O pequeno carro de Liam foi parado torto na vaga e ele buzinou para mim, indicando que eu deveria entrar. Apressei-me para fora, puxando a porta e ocupando lugar no banco do passageiro. 

— Boa noite, Liam. — cumprimentei-o. 

— Boa noite, Char. Eu posso te desejar feliz aniversário agora ou prefere que estejamos em casa para que eu possa cumprir as formalidades? 

— Pode ser agora. 

— Feliz aniversário! 

— Obrigada! 

Liam riu e girou o volante, manobrando para fora dali. Nós seguimos em silêncio para a casa dele e de Becky. Já havíamos passado por aquela fase onde é necessário encher o tempo com conversas vazias apenas para evitar o constrangimento. 

Todas as luzes estavam acessas. Já havia um outro carro parado ali, alguns metros à frente, perto do poste de luz. Mas não era o Toyota de Harry e, involuntariamente, o meu ânimo caiu um pouco com isso. Sai do carro e caminhei ao lado de Liam até a porta de entrada. Nesse meio tempo, ele me deu alguns detalhes de tudo que preparam naquele dia. 

Entramos. Houve uma dezena de vozes em uníssono, gritando um "parabéns". Eu ri, pairando entre vergonha e surpresa. Todos aqueles rostos familiares olharam direto para mim e imaginei se deveria tomar alguma atitude. 

— Feliz aniversário, Charlie. — Daniel se adiantou. 

Ele pulou para frente com uma caixa azul na mão e um sorriso absurdamente grande no rosto. Puxou-me para um abraço e logo me entregou o presente. 

— Obrigada. — sussurrei. 

— Espero que goste. Caso fique pequeno, é só me avisar que podemos levar na loja e trocar. 

Concordei com um movimento de cabeça. Tratei de me afastar, um tanto quanto desconfortável com a súbita e grande aproximação entre nós. Dei um sorriso amarelo, dando um passo para o lado e fazendo com que algum espaço surgisse entre nós. 

Diana surgiu, empurrando as pessoas de seu caminho para chegar até mim. 

Ela estava diferente agora. Havia emagrecido um pouco mais e seu cabelo perdera bons centímetros. Talvez fosse um leve efeito de sua nova vida em Yorkshire. Agora Diana dividia seu tempo entre os treinos estudo da academia e o trabalho em meio período como professora de balé infantil. 

Não tinha mais contato com Jay, e isso era um alívio para mim. Eu respirava muito mais tranquila sabendo que o relacionamento entre os dois havia terminado. Eu também mal via Jay agora. Em raras ocasiões, eu poderia observá-lo a distância, conversando com os amigos. 

Fiquei feliz por Diana ter vindo. Ela não tinha carro e se arriscar durante a noite sozinha nunca era uma boa escolha. Abracei-a 

— Essa festa não estaria completa sem mim. — disse, como se soubesse exatamente o que eu pensava. — Qual seria a graça? Tome. São os seus preferidos. 

Diana me entregou uma caixa de chocolates. Resisti ao impulso de abri-los ali mesmo e comer um pedaço. 

É provável que Diana não tenha sido a maior surpresa. A parte mais chocante da noite foi ver Niall atravessar a sala e me puxar para um abraço. Suas longas férias terminariam em uma semana e imaginei que ele deveria gastar todo esse tempo na Irlanda, procurando por respostas que ele sempre quis. 

Claro que foi bom vê-lo. Toda minha família estava a milhares de quilômetros de distância. Eu sentia falta de não poder tê-los aqui e esse tipo de representação foi muito importante para mim. 

— Parabéns. — falou ele. — Eu tenho que pegar seus presentes. Já volto. 

Niall saiu em direção a cozinha e Becky ocupou o lugar no qual ele estava. Abriu os braços na minha direção e movimentou as mãos, indicando que eu poderia me aproximar. Sorri, aceitando seu abraço. 

Meu irmão voltou com o notebook em uma das mãos e arrastando uma sacola com a outra. Liam o ajudou, pegando o computador e deixando sobre a mesinha de centro. Depois, segurou o saco com as abas abertas. Niall tirou a primeira embalagem de lá. 

— Esse é da vovó. — explicou, colocando em meus braços. 

Mergulhamos, então, em uma infindável listagem de presentes e de quem os enviara. Aparentemente, nenhum familiar em Montana se esqueceu da data e de mandar uma lembrança, indicando que se importava. Passamos pelo nome de vários, cada qual com uma embalagem diferente, incluindo o de Becky e Liam. Estava com os braços e mãos lotados, sentindo como se pudesse deixar tudo cair no meio da sala. 

Diana me ajudou. Ela tirou as embalagens e colocou em um canto do sofá, marcando o território com muitos papéis coloridos e brilhantes. Eu sorri em agradecimento. 

Niall desocupou a sacola. Ele sacudiu o plástico, verificando se havia esvaziado de fato. 

— Não acabou. — disse, livrando-se do saco. 

Ele me guiou até o computador. Sentei no sofá e, quanto Niall digitava algo e iniciava novos programas, eu tirei o casaco e o coloquei ao meu lado, corretamente dobrado. Meu irmão saiu da frente e deixou a tela virada na minha direção. 

Meus pais estavam ali. Eu quis chorar de emoção por vê-los. Não era como se estivéssemos lado a lado, mas era muito melhor do que não tê-los. Foi um claro sinal do quanto se importavam comigo. Não poderiam vir para cá e passar meu aniversário ao meu lado. Todavia, eles encontraram uma forma de não estavam distantes. 

— Pais... — murmurei. 

Eu me joguei no chão. Parecia que estava tentando reduzir a distância entre nós, agachando-me no carpete e deslizando o dedão e o indicador por seus rostos na tela. 

— Ei, garotinha. — Mark respondeu, arrumando a enorme armação quadrada de seus óculos no lugar. — Recebeu nossos presentes? 

— Recebi. Tudo. Niall me entregou. Obrigada! 

— Não tem o que agradecer, filha. Nós gostaríamos de estar aí com você. 

— Tudo bem. Montana é um pouco longe de Brighton. 

Toda a minha família apareceu ali. E um por um, eles me parabenizaram e leram seus discursos pré-ensaiados de feliz aniversário. Disseram que gostariam de estar aqui, comigo, ou que eu estivesse lá, com eles. No final, estava rindo e chorando. Emocionada e contente com esse pequeno gesto. 

Deslizei os dedos debaixo dos olhos, tentando limpar as lágrimas que se acumularam ali sem borrar a maquiagem. 

Em momentos como esse, eu sentia saudades da minha casa em Montana. Sentia saudades da grama sempre verde, da comida da vovó e dos jogos de xadrez com meu pai. Sentia saudades de ficar perto da lareira nas noites frias, lendo um livro enquanto minha família assistia a novela. Sentia saudades dos jantares, com todos ao redor da mesa, contando as partes mais engraçadas de seus dias. 

A Inglaterra era muito diferente. O clima aqui era algo completamente oposto. Eu poderia traçar alguns sinais de semelhança entre esses dois lugares, mas seriam mínimas. Eu adorava Brighton. Com ânimo, poderia passar o resto de minha vida ali. Porém, Montana sempre seria minha casa, e nada no mundo mudaria isso. 

As despedidas se estenderam. Perdi a noção de quanto tempo gastei sentada no chão, encarando uma tela velha e vendo as pessoas que eu amava. Não poderia ficar ali para sempre, e nem minha família. Tivemos de desligar. Lamentei muito que aquela hora tivesse chegado. 

Prometi a mim mesma que na primeira oportunidade eu faria uma viagem para Montana. Meu cérebro só conseguia pensar no final de ano como uma data plausível. Tentaria achar um dia mais próximo, mas o calendário escolar não era flexível como eu gostaria. 

Entreguei o computador nas mãos de Niall. Ele se virou, desligando o aparelho e fechando a tela. Limpei o que restava da umidade abaixo dos meus olhos. 

— Quem está com fome? — Becky gritou. 

Não havia nenhuma criança ali, mas todos nós agimos como se fossemos. A maioria apenas seguiu minha prima até a cozinha, usando a desculpa de ajudar com as vasilhas para poder comer. Eu fiquei. Ainda sentada no chão, puxei a bolsa e tirei o meu celular. Acendi a tela, verificando qualquer sinal de vida de Harry. De modo frustrante, não havia nenhum. 

— Ele não vem? 

Diana voltou com um copo de vidro cheio de refrigerante. As bolhas de gás estouravam. Ela se sentou na ponta do sofá, de frente para mim, e mordiscou o canapé que tinha na mão.

Dou de ombros, tentando esconder o meu desapontamento. 

— Ele deve ter ficado ocupado ou coisa assim.

Havia avisado a Harry com alguma antecedência. Ele já sabia sobre essa pequena celebração antes que eu tivesse confirmado todos os detalhes. Involuntariamente, eu esperava que ele aparecesse aqui. Sabia que não era exatamente o ser mais sociável e acessível do mundo, mas sua presença era importante demais para mim. 

— Bem, é o seu aniversário. — Diana continuou. 

— É, eu sei. Mas tenho certeza que ele tem uma boa justificativa. 

— Ou ele é só um idiota. — faço careta, reprovando sua fala. — Pode ser verdade, e você não pode negar isso. 

Reviro os olhos. Becky volta com uma vasilha de vidro cheia de minúsculos e diversificados salgadinhos. Ela coloca no centro da mesa. Um vasilhame de pipoca foi posto ao lado e um tabuleiro com alguns doces também. Niall trouxe o refrigerante — uma escolha ousada, porque, embora nem todos aqui fossem legalmente permitidos a beber, já haviam experimentado álcool e até gostavam — e Daniel trouxe os copos. Eles me serviram, e eu peguei um punhado de pipoca. 

Nós nos distraímos em conversas. Ou algo assim. A verdade é que eu separava uma pequena porcentagem da minha atenção para o celular ao meu lado, esperando que ele tocasse ou apitasse em um indicativo de mensagens. Depois da primeira metade de hora, eu acabei percebendo que isso só aumentava a minha frustração e deixei o pequeno aparelho dentro da bolsa. 

Bateram na porta e eu imediatamente encarei a madeira envernizada. Houve expectativa sendo criada em uma velocidade estupenda e preenchendo meu estômago. Eu não conseguiria comer mais nada. Becky fez sinal de que se levantaria, mas eu fui mais rápida e me ergui em um pulo. Aos tropeços, sai do carpete e agarrei a maçaneta. 

Por algum motivo, eu tomei fôlego. Estava nervosa, temendo ser desapontada. Havia criado expectativa e permitido que ela se nutrisse, um erro fatal para quem não deseja ser desapontado. Girei a maçaneta, fazendo a tranca se retrair num estalo. Puxei a porta para trás. 

Um sorriso aliviado surgiu em meu rosto. Eu me permiti respirar. Encarei Harry. 

— Estou muito atrasado? — ele pergunta. 

— Não. É a hora certa, se você quiser saber. Por que não entra? 

Encosto-me na parede e empurro a porta até o lado oposto. Harry entra e dá alguns passos, parando adiante. Pôs as mãos nos bolsos e virou-se para me olhar. Eu me apressei, fechando a porta e correndo para a sala. 

— Você pode sentar. — falo. — O chão é até confortável. 

Daniel mudou de lugar, migrando para o lado de Niall, quando Harry se aproximou. A situação entre os dois era tensa até hoje. Eu duvidava que isso mudasse algum dia. Em nome de Harry, eu já pedira desculpas a Daniel. Contudo, tudo que Daniel fez foi fechar a cara em uma carranca e me dizer que eu deveria reavaliar com quem andava. 

Ele não gostava de Harry. Compreendia o que o levara até aquela conclusão. Mas odiava o fato de Daniel nem mesmo escutar todas as frases que poderiam justificar o acontecimento fatídico. Era irritante quando, em algumas conversas, ele cruzava os braços e dizia que todas as minhas teses não eram plausíveis como eu desejava e que seria melhor deixar isso quieto. 

Harry não tocava muito no assunto. Ele preferia ignorar esse passado. Provavelmente acreditava que estava resolvido ou que não haveria muito que mudasse o status da situação. Ficava reconfortada por saber que ele prosseguia na terapia. Era parte do nosso relacionamento e me ajudava a dormir. 

Alguma coisa mudou na atmosfera da sala. Acho que era a tensão entre Daniel e Harry. Era muito claro que eles poderiam explodir em um caos violento e irado e eu até temia isso. Diana começou a conversar e eu pisquei, agradecendo por seu feito. Ela deveria ter percebido o que acontecia. 

Os outros mergulharam em conversas. Eu me virei para Harry. 

— Achei que não viesse. — comento. 

— Não era algo que eu poderia perder. Preciso dizer que está muito bonita essa noite, Dawson. 

— Você não fica mal de xadrez. Obrigada por ter vindo. — encostei a cabeça em seu ombro.

— Você fica me devendo essa. 

Becky havia feito bolo. Era redondo, com chantilly rosa nas laterais e alguns MMs em cima. A vela indicando 22 era enorme e o tamanho quase constrangedor dela me fez rir. Liam perdeu os fósforos. Harry tirou o isqueiro do bolso e estendeu o pavio, colocando a chama ali. 

Afastou-se quando começaram a cantar o parabéns. As luzes haviam sido apagadas e todo instante eu via um flash piscando. Demorei a reconhecer que era Niall se divertindo com a ideia de ser fotógrafo. Ao terminarem, alguém apertou o interruptor, fazendo a sala se iluminar. Eu assoprei as velas, fazendo o fogo se apagar. 

Diana e Becky me ajudaram a servir. Depois que todos receberam seu pedaço, Harry e Rebecca foram para a cozinha. Eles se responsabilizaram pela bagunça e quem sobrou focou ali mesmo, na sala, apenas conversando. 

— Você tem visto Jay? — Diana questionou. 

— Não. E agradeço a Deus todas as noites por isso. 

— Ele tentou me ligar algumas vezes. Não entendi. 

— Isso me faz ficar orgulhosa. Você consegue coisa melhor. Você sabe, não é? Mas sinto sua falta. Talvez até aceitasse a presença de Jay, se isso significasse nossa vida antiga de volta. 

— Acho que nós duas não gostaríamos disso, você sabe. Eu até que gosto dessa vida. E você também deve gostar da sua. — Diana riu, bebendo um gole do refrigerante. — Você tem um namorado bacana, e eu saio com um cara que é estéril, então nunca fico preocupada com a ideia de engravidar. 

— Que dia é hoje? 

— 20. Seu aniversário. Como pode esquecer? 

Atraso. Aquela palavra havia acendido uma luz vermelha, um sinal de perigo na minha mente. Eu estava atrasada. Apenas alguns dias, mas era o suficiente para criar uma preocupação crescente em meu peito. 

Ergui-me. Pedi licença para Diana e ela me olhou confusa, sem entender o que se passava. Prometi lhe contar assim que descobrisse. Fui para a cozinha e parei Harry, interrompendo sua tarefa de lavar pratos. 

— Pode me emprestar a chave do seu carro? — peço. — É uma emergência. 

— O que aconteceu, Char? — Becky me olhou preocupada, parando com um pano em mãos.

— Nada. Eu preciso fazer. Por favor, pode me emprestar o carro? 

Harry balançou a cabeça. Eu encaixei a mão no bolso lateral do jeans, onde eu sabia que ele deixava as chaves e o documento. Peguei aquilo e voltei a sala. Vesti meu casaco e pendurei a bolsa sobre o ombro. Diana perguntou onde eu iria e se queria companhia. Respondi-lhe que não e que explicaria tudo no caminho. 

Eu entrei no carro de Harry e dirigi sem um rumo certo, buscando a primeira farmácia que surgisse no meu campo de visão. 

O meu pânico era crescente. Eu poderia sentir minhas mãos tremendo enquanto tentava me agarrar ao volante para dar qualquer firmeza aos meus dedos. Meu estômago se revira como nunca. Lamento ter comido tanto, porque agora imagino que posso vomitar a qualquer momento. 

É difícil pensar em qualquer coisa com o eco do meu sangue pulsando preenchendo o pavilhão auditivo. Eu mal consigo respirar. Minha garganta parece fechada e o ar passa em uma quantidade insuficiente, fazendo-me aumentar o ritmo para suprir minha necessidade. 

Acho uma farmácia. Estaciono o carro e saio. Minha bolsa cai no chão e eu me apresso em pegá-la. Entro e vou direto ao corredor cuja placa indica a existência de testes de gravidez. 

Estou realmente desesperada. As letras na minha frente se embaralham e eu não consigo terminar de ler nem uma palavra. O som da minha pulsação está ainda mais alto e minhas mãos estão geladas. Meu cérebro é só um emaranhado confuso de ideias que não fazem mais nenhum sentido. 

Digo a mim mesma que devo me acalmar. Repriso essa frase infinitamente na minha cabeça, em uma tentativa fracassada. Engulo em seco. Penso que se conseguir fizer o teste, isso será o suficiente. Independente do resultado que eu tiver em mãos, o pânico do que pode ou não acontecer já estaria praticamente findado. 

O problema é que não consigo encontrar os testes. Giro sobre os calcanhares inúmeras vezes. Ando para cima e para baixo, conferindo cada uma das lacunas naquela prateleira e não acho nada mais que absorventes. 

— Merda. — sussurro. — Merda. 

— Querida, precisa de ajuda? 

Olhei para cima. Uma mulher me encarava. Seu rosto era muito quadrado e com traços duramente marcados. O vestido azul com algumas flores desenhadas acentuava a finura do quadril e os ombros largos. Usava sapatos de salto, aumentando ainda mais a silhueta. Seu olhar preocupado se estendia a mim e ela parecia disposta a me ajudar. 

— Eu... eu... 

Não consigo completar a frase. Minha voz treme e chacoalha toda vez que permito o uso de minhas cordas vocais. A verdade é que todo o meu corpo é sacudido em tremores enquanto um gosto amargo domina minha boca. A cabeça gira, zonza. 

Dou um passo vacilante para trás. Malditos saltos altos! Quase me fazem cair quando tropeço em uma abertura na cerâmica. A mulher segura minha mão, aumentando o meu apoio e torna a me encarar, com mais medo do que preocupação dessa vez. 

— Lee! Traga-me uma cadeira! Rápido! — grita. 

O tal Lee é um asiático que não tem mais do 16 anos. Um cabelo absurdamente escuro e um nariz pequeno. Ele corre, derrapando em seus tênis desgastados e freando bem a tempo de evitar uma catástrofe. Trouxe uma cadeira parecida com as que se leva para praia. Abriu-a e colocou no chão. Eu cambaleei, caindo como um peso morto sobre o assunto. 

— Traga um copo de água com açúcar, querido. — a mulher pede e se vira para mim assim que Lee sai. — Querida, você tem que respirar e se acalmar ou não posso ajudá-la em nada. 

Acho que é provável que eu desmaie antes de qualquer coisa. Meu coração bate tão rápido que sinto como se pudesse quebrar os ossos em minha caixa torácica. Pontos pretos preenchem espaços da minha visão e eu sinto o suor frio escorrendo pela minha nuca. 

— Qual é o seu nome? Sou Joanne. 

— Charlie. Meu nome é Charlie. 

— O que houve, querida? Você parece desesperada. 

— Eu não consigo achar os testes de gravidez. Preciso de um. 

Lee volta com um copo de vidro. A água está turva devido a quantidade de açúcar posta. Joanne pega o recipiente, deixando a vista as enormes unhas esmaltadas com um tom de azul, e o passa para mim. Não recuso a ajuda. Preciso me recuperar ou não vou conseguir tomar nenhuma atitude. 

Minhas mãos fazem o líquido chacoalhar. Estou tremendo tanto que, de forma involuntária e indesejada, passo os tremores para o copo. Joanne coloca sua mão ao fundo, evitando que ele caia, e segue meus movimentos até que levo o vidro aos lábios. Bebo o maior gole que posso, sentindo o gosto desagradável invadir minha boca. 

— Ótimo, querida. Agora, respire. Dentro e fora. 

Joanne demonstra os movimentos que eu deveria fazer, inspirando e expirando lentamente. Eu a acompanho, focando minha concentração nisso e sentindo o meu coração desacelerar levemente. 

Há ar o suficiente entrando agora. É um alívio. Essa pequena diferença é o suficiente para que meu corpo comece a se recuperar. A nuvem sobre meu cérebro começa a se dissipar e consigo pensar mais claramente. Todavia, meus dedos ainda tremem e duvido que me livre desse sintoma até me livrar da suspeita. 

— Exatamente assim. — Joanne sorriu. — Muito bom. Agora, conte-me o que houve. 

— Preciso fazer um teste de gravidez. Eu preciso. 

Joanne balança a cabeça. Ela se ergue, esticando os joelhos, e estende a mão para a parte mais alta da prateleira direita. Desliza os dedos por ali e pega uma caixinha rosa. Entrega-me. 

— Vou mostrar onde é o banheiro. Venha-me. 

Eu a sigo para o fundo da loja. Atravessamos o balcão, passando por um almoxarifado repleto de caixas fechadas dos mais variados medicamentos. Joanne me deixa sozinha no banheiro, um cubo apertado e com cheiro de desinfetante. 

Olho-me no espelho. Faço uma série de promessas a mim mesma. A maioria é sobre o que farei, se o teste der negativo. Todavia, uma pequena parte se refere ao que vou mudar caso o resultado seja positivo. Paro de enrolar e faço o teste. Saio, avaliando a pequena plaquinha onde deverá ser indicado a resposta. 

Joanne está no balcão. Ela anota algumas informações em uma planilha. 

— Deixe-me ver. — pede. Passo-lhe o teste, receosa. — Parabéns. — meu estômago afunda. — Você não está grávida. 

Todo o ar em meu pulmão é expirado em um momento de alívio. Eu desarmo a postura, deixando que meus ombros se movam livremente sem o peso dessa dúvida. Quase quero chorar por ter recebido essa notícia. Finalmente paro de tremer e sou capaz de pensar logicamente. 

— Está certa disso? — questiono, tentando me livrar de qualquer sombra de dúvida. 

— Absolutamente. Um tracinho. Isso é negativo. Pode se acalmar agora, querida. 

Desejo abraçar Joanne agora. Eu sempre fui aconselhada a não confiar em estranhos e não aceitar comida ou bebida vinda deles. Mas estou aliviada por ter feito isso, porque foi graças a mulher na minha frente que eu não desmaiei ou surtei por completo. Ela me ajudou bastante hoje e não posso expressar minha gratidão por ter conseguido me acalmar. 

— Obrigada. — sussurro. 

Joanne me encara. Ela sorri da mesma forma que minha irmã sorri para o filho: como uma mãe que se alivia ao perceber que a cria está bem. Engulo em seco. Talvez Joanne só tenha um instinto maternal absurdamente forte. 

É estranho porque nunca tive isso. Eu tive meus pais, e eles fizeram o possível e o impossível para ser tudo que eu poderia precisar e desejar. Eram ótimos, eu tinha de admitir. Entretanto, em alguns poucos momentos da minha vida, todos os seus desdobramentos não eram suficientes para preencher as lacunas da minha existência e eu percebia que havia algo desaparecido. Como agora, com Joanne me olhando maternalmente. 

Nunca disse isso. Para ninguém. Não fazia sentido. Colocando em uma balança e analisando em retrospectiva, ocasiões como essa não pesavam o bastante para serem um sinal de alerta. 

— Não foi nada, querida. — Joanne disse. Ela colocou a mão dentro do balcão e saiu de lá com embalagens azuis vazando pela abertura dos dedos. Aproximou-se de mim e segurou meu pulso, virando minha palma para cima e despejando o conteúdo ali. — São para você. 

— O que é isso? 

— Camisinhas. Você coloca quando vai fazer sexo. Evitam doenças venéreas e uma gravidez indesejada. 

— Eu sei o que são e para quê servem. Não sei porquê me deu. 

— Você parecia bem preocupada com a ideia de estar grávida. Não posso lhe dar anticoncepcionais, mas posso dar o preservativo e esperar que isso ajude. 

— Obrigada. Vou levar tudo isso. 

Apoio a bolsa no balcão e abro. Jogo todas as camisinhas ali dentro. Estou constrangida demais para devolvê-las, especialmente devido a justificativa de Joanne para me dá-las. Mais uma vez, ela está sendo gentil e preocupada comigo. 

Fecho a bolsa e coloco sobre o ombro. Sorrio e saiu de trás do balcão, pronta para ir embora. 

— Charlie! — viro-me. — Espere um segundo. 

Dou meia volta e me apoio na tábua de vidro, dessa vez do lado de fora, como qualquer cliente. Joanne puxa um retângulo de papel cortado torto e com bordas irregulares. Ela também pega uma caneta e escreve algo ali. Entrega-me e percebo que se tratam de telefones. 

— Ligue-me se precisar de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Até um ombro amigo. — explica-se. 

— Tudo bem. Eu agradeço pelo que fez por mim. 

Aceno pela última vez antes de finalmente sair. Do lado de fora, aperto o caso contra o corpo e minhas pernas tremem de frio. Entro no carro e imediatamente ligo o aquecedor. Mantenho as janelas fechadas. Enquanto dou ré e giro o volante para sair, vejo Joanne encostada no vidro da porta, observando o carro. 

Dirijo no silêncio. Quando estou sozinha, acompanhada apenas de meus pensamentos inquietos, percebo a tolice de minha atitude. Poucos dias de atraso e uma enorme vontade de não me parecer com a minha progenitora levaram-me a ter um ataque de pânico. Pensar racionalmente seria o suficiente para que eu notasse o quão fraco e rasos eram os motivos que me levaram a concluir aquilo. 

Precisava esquecer Louise. Precisava esquecer das nossas semelhanças físicas e toda a herança genética que eu herdara dela. Temia os meus 22 porque era a sua idade quando decidiu me deixar, mas sempre soube que poderia fazer algo muito melhor da minha vida. 

Tirei os saltos no gramado de Becky. Meus pés doíam. A sensação era de que a unha do meu dedão havia sido arrancada fora. O concreto que demarcava a trilha estava frio e a grama, molhada. Preferi a temperatura mais baixa e a textura seca, tendo o tecido fino da meia calça como uma atenuante. 

Diana abriu a porta para mim. 

— Onde esteve? — questionou. 

— Camisinhas. Eu fui comprar algumas. — respondo. — Minha bolsa está cheia delas. Quer algumas? 

— Não. Daniel vai me dar uma carona. Só estava esperávamos você voltar. 

— Tão cedo? 

— Eu trabalho amanhã, Char. 

Estalo a língua, desapontada. Diana se despede, seguida de Daniel. Ele me olha como se quisesse dizer algo, então subitamente se afasta e segue até o carro. Eles vão embora e, de repente, estou sozinha na sala com Becky, Harry e Niall. Liam teve que ir dormir porque seu turno começaria cedo no dia seguinte. Preferia que ele estivesse aqui porque saberia suavizar o clima. 

Anunciei que precisava ir quando o silêncio começou a se tornar constrangedor. Acho que foi um alívio. Becky separou um pedaço de bolo para que eu levasse e Niall disse que me daria carona. Harry foi mais rápido e falou que era caminho para ele. Meu irmão não gostou da ideia, mas não se opôs a isso. 

Sem meus sapatos, eu voltei ao carro. Deixei meus presentes no banco de trás. Mantive o bolo em meu colo enquanto esperava Harry pegar o desvio que nos levaria até Sussex. Ele não o fez. 

— Para onde vamos? — perguntei. 

— Eu quero mostrar uma coisa para você. Vai ser rápido, eu prometo. 

Balanço a cabeça. Observo os faróis altos iluminarem a estrada vazia a nossa frente. Os prédios e casas se transformam em árvores e as árvores logo são completamente podadas, dando espaço a um enorme e negro oceano emoldurado por areia escura. Harry para o carro e eu consigo ver a silhueta difusa de uma casa bem na nossa frente. 

— Desculpe-me por estar tão escuro. Ainda não tive tempo de mexer na fiação externa. 

Empurro a porta. Calço os sapatos e saio aos tropeços, usando o instinto e uma visão muito fraca como guias. Harry me ultrapassa. Escuto o barulho de trancas, maçaneta e alguma luz e lançada quando ele liga a iluminação do primeiro cômodo. 

É mais fácil de ver agora. São dois andares construídos em telhados cinzas e expostos. A pequena varanda ainda está suja, com uma mesa de pedra empoeirada e uma cadeira de balanço que é velha demais. Eu dou passos lentos, subindo os três degraus e parando de frente ao vão de entrada. Bem ao nosso lado, está a porta manchada da garagem. 

— Não há nenhum monstro aí, Dawson. Você pode entrar. 

Dou mais um passo e Harry vem logo atrás, fechando a porta. O ambiente é tão claro que surpreende. As paredes pintadas de branco necessitam de um bom retoque para melhorar a aparência. Os dois sofás me parecem novos e estão cobertos por uma capa plástica, provável para proteção. Cortinas finas rodeiam as janelas e o vidro da porta. A lareira rústica me lembra a casa da fazenda, em Montana. Todos os cabos escapam da parte de trás da televisão, desconectados à antena e ao receptor. A mesinha de centro tem plástico fino grudado aos pedaços de vidro. Quando olho para cima, percebo o pequeno lustre de cristal balançando. 

Com certeza a parte que mais me deixa sem fôlego está distante. Depois da primeira curva da escada, a parede é cortada por longos retângulos de vidro que dão visão ao quintal. Um pequeno deck se estende, sendo seguido por grama um nível mais baixa. 

— De quem é? — questiono, embora a resposta devesse me parecer óbvia. 

— Minha. Comprei semana passada. Gemma me ajudou com os móveis. Estava tentando deixar tudo pronto e por isso demorei para o seu aniversário. 

— É adorável. 

— Quer ver o resto? Vem, eu mostro. 

Harry me leva até a sala de jantar — um cômodo médio, com uma bela e grande mesa retangular e espaços na parede que exigem a presença de quadros ou fotografias. Depois, vamos para a cozinha. É totalmente equipada e muito grande. Há uma mesa redonda e menor ali. A porta para o lado de fora. 

Subimos. A escada possuí uma única curva, bem no meio. O corredor acima de nós se estende em quatro portas, mas Harry não perde tempo com a maioria delas. Vamos ao fundo, provavelmente ao maior deles. 

A cama de casal está no meio, de frente para a porta. A minha direita está a entrada para o banheiro e a esquerda, um enorme criado mudo. Passo a mão sobre o móvel e desvio das caixas no chão, seguindo até a janela. Encaro a praia. Respiro fundo, observando o movimento das ondas do mar e a forma como se quebram ao chegar na superfície. 

— Está se mudando para Brighton? — pergunto. 

— Passo mais tempo aqui do que em Londres. E é ruim ficar na casa de Gemma. Ela e George tem sua própria vida e eu não vou ser o estorvo no meio do caminho. Pode vir para cá sempre que quiser. Talvez deixar um par de roupas no armário. Eu não sei. Não fazem as coisas hoje como faziam na última vez que eu flertei com alguma garota. 

Rio. Acho que ele não sabe o passo que está dando. Talvez não compreenda o quão sério isso pode ser. Por outro lado, é uma das maiores aberturas que me dá. Além disso, serão só alguns finais de semana. Uma pequena folga para minha mente encarcerada. 

— Um par de roupas está ótimo. — respondo. — O que há nessas caixas? 

— Estavam no porão de Gemma. Eu ainda não olhei. 

Solto os sapatos para longe e jogo a bolsa na cama. Inclino-me para pegar a primeira delas e me surpreendo com o que a caneta preta escreveu. Sussurro: 

— Soldado Harry. 

Levo o papelão até a cômoda e o coloco ali. Puxo o durex, criando uma abertura, e desfaço o mosaico que encaixou as abas umas as outras. Inclino-me para cima, tentando visualizar o conteúdo. A primeira coisa que puxo é um boné, seguido pela parte de cima da farda. 

Seguro aquilo nos braços e levo até Harry. Algo cai da roupa e eu me abaixo, pegando a corrente prateada e lendo as credenciais. 

— Quero dizer, sargento. 

Coloco o colar em Harry. Ele apenas deixa. Surpreendentemente, ajuda-me a colocar aquilo nele e não reluta. Depois, estico a blusa e ele a veste. Encaro o boné, vendo o sobrenome dele bordado no elástico da parte de trás e suspiro. Ponho na cabeça dele. 

— Então, era assim que parecia? 

Não esperava nunca vê-lo usando aquele uniforme. Nem mesmo fotos que remetessem a esse momento. A cena me incomoda. Tenho uma sensação ruim, uma rocha pesada esmagando meu peito e dificultando a chegada de sangue para o corpo. Falta oxigênio no cérebro e eu me fixo a ideia e as possíveis memórias ruins. Ao caos imperativo que ele é hoje. 

Viro-me, seguindo de volta a caixa. Tiro as calças do uniforme. No fundo, encaixada em uma das bases do papelão, está um pequeno pedaço de papel. Eu puxo, vendo o rosto de vários homens sorrindo na fotografia. Vejo o rosto de Harry, anos mais novo e com um brilho no olhar. Algo que eu não consigo identificar mais, quando olho para trás. 

Engulo em seco. Novamente, minha garganta se fecha. Pela segunda vez naquela noite, respirar se torna difícil. Colocam mais pedras para esmagar meu peito. Toda a felicidade daquela noite foi substituída por preocupações e temores. 

Não preciso mais ver as cicatrizes de Harry. Meu cérebro já decorou todas elas e os lugares onde estão. De olhos fechados e em uma sala escura e silenciosa, posso mapeá-las. Não me incomodam, não me afligem. Eu até gosto delas. São um pedaço dele e, inevitavelmente, começo a perceber que sentiria falta delas. 

Mas essas são fáceis de lidar. Estão ao alcance de um dedo. Posso tocar, passar creme ou o que eu quiser fazer. Não me preocupam. As coisas que eu não posso ver, sim. Todas as cicatrizes fora de meu olhar e que tiram todo o brilho que ele tinha. As que machucam mais e até hoje. Essas me afligem na maioria das noites, quando tenho um sonho ruim e, quase em desespero, percebo que ele pode ganhar vida. 

Olho Harry. Ele está analisando a farda, ainda a tendo em seu corpo. Assim como o colar ao redor de seu pescoço. Vai enforcá-lo a qualquer momento. Posso ver a cena. 

— São seus amigos? — pergunto, estendendo a foto. 

Harry para de encarar o tecido. Ele olha a imagem e a puxa de minha mão, sorrindo por um instante. 

— Treinei com alguns deles. Servi meus primeiros dois anos ao lado deles. 

— Você parece diferentes. Feliz. 

— Foi tirada na minha primeira semana no Oriente Médio. — Harry trava o maxilar. — Muita coisa mudou desde então. 

Ele me devolve a foto e eu a coloco no fundo da caixa. 

Sei que tem feito consultas. Sei que está aplicado na ideia de um tratamento. Ao menos, ele demonstra isso. Mas ter ciência desses fatores não acalma a minha pulsação. Ver Harry com essa farda faz com que seja muito fácil vê-lo pronto para atirar ou correndo para não ser baleado. Torna muito fácil visualizar uma cena dele se machucando. Deveríamos estar fora de perigo, mas eu não sei se realmente estamos.

— Qual é o problema, Charlie? 

Coloco a mão sobre as costelas, bem no centro. Existe uma pressão desagradável ali. Uma fincada dolorosa que se torna mais insuportável conforme penso nas cenas cinematográficas de cinema sobre uma luta heroica. Mas não tem nada de heroico no que se passa em minha mente. E não são atores. É Harry e seu grupo de amigos. Lutando ou morrendo. 

— Eu estou com medo. — murmuro. 

Minha voz sai embargada e percebo que estou prestes a chorar. Que razão idiota para isso! Harry não vai mais para a guerra. Ele não vai mais travar essas batalhas. Está aqui, na minha frente e quase inteiro. Quase. Talvez seja isso que me mate. 

— De quê? 

— Perder você. Não é o mesmo que tirou aquela foto. Um pedaço já foi embora. Quanto tempo até que o restante vá também? 

Harry não responde. Acho que ele não tem argumentos contra a minha ideia. No lugar isso, puxa-me para perto e joga seus braços ao meu redor. Seu queixo se apoia em minha cabeça e eu inalo o cheiro de naftalina da farda. 

— Nada mais vai embora, Charlie. — avisa ele. — Nada. 

Então me afasta. Seus dedos envolvem a corrente e ele a tira, transferindo para o meu pescoço. Olho para baixa, surpresa com o quão pesado aquelas pequenas placas podem ser. 

— Acho que um pedaço do que perdi está ai. — Harry fala, deslizando os dedos pela identificação. — Talvez queira cuidar dele. Vai ficar melhor com você do que comigo, disso eu tenho certeza. 

— Obrigada. 

Harry beija minha testa. Colo minha cabeça em seu peito, afastando a farda o suficiente para que esteja em contato com a sua camisa. O cheiro de sabonete e cigarro me reconforta um pouco.


Notas Finais


Muito obrigada por terem chegado aqui, gente! Eu espero do fundo do peito que tenham gostado e, por favor, sintam-se à vontade para falarem comigo quando quiserem! Vai ser um super prazer haha
O maravilhoso e puro lacre teaser: https://m.youtube.com/watch?v=5R_iZxHEfzQ
Até o próximo, gente!
Xoxo


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