História Red - Capítulo 18


Escrita por: ~

Postado
Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 941
Palavras 6.519
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi, amores!
Finalmente consegui postar. Se eu falar que tô na luta desde o começo da semana, cês nem acredita. Mas isso são águas passadas e agora que deu tudo certo, eu finalmente consegui vir.
Quero muito agradecer (e se pudesse também beijava e abraçava) [email protected] por lerem, comentarem e favoritarem. É muito importante pra mim <3 <3 Um obrigada especial para Lali, que betou esse capítulo às pressas e que deu uma avaliada top e me ajudou a fica no caminho certo.
Espero muito que gostem e até daqui a pouco

Capítulo 18 - Orange Red


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 18 - Orange Red

Charlie 

Usava as roupas de Harry. As calças dele e o moletom cinza que eram grande o suficiente para disfarçar o quão largo e errado o jeans ficava em mim. Até o chinelo em meus pés era dele. 

A verdade é que eu não pretendia ter passado a noite aqui. Deveria ter voltado para a Sussex. Mas, bem, eu não conseguiria. Não depois de ter percebi que Harry poderia ser bem mais frágil do que eu imaginava. Quando me dei conta dessa realidade, só queria o maior tempo possível antes que ele se partisse em milhares de caquinhos. 

O colar não pesava mais tanto. Eu já me acostumara a senti-lo ao redor do pescoço, com o peso de centenas de memórias. Nesse momento, eu nem poderia mais imaginar como seria ficar sem ele. Havia me adaptado muito mais rápido do que pensava que aconteceria. 

Quando o dia amanheceu, todas as caixas ainda estavam nos rodeando. A farda de Harry estava esticada aos pés da cama, como se ele planejasse usá-la novamente e sair em combate. Eu engoli em seco, atormentada com a cena e tratei de guardá-la novamente na caixa da qual ela nunca deveria ter saído. Não havia fita adesiva para vedar o papelão, então só cruzei as abas de modo a não deixá-las se soltarem com facilidade. 

Desci as escadas sentindo cheiro de café. Não encontrei Harry. Só achei um enorme bule, lotado de líquido, e um prato com scones ao lado. Servi uma xícara para mim e bebi um gole. Depois, eu dei mais uma olhada na casa, verificando se realmente estava sozinha. Estava. 

Abri a porta, encontrando o carro de Harry parado no mesmo lugar da última noite. Observei a forma desgastada do jardim, repleto de ervas daninhas e plantas mortas. Quebrava completamente a beleza do restante da casa. Vi Harry saindo da garagem e indo, distraído, buscar algumas caixas de papelão no porta malas do Toyota. Ele nem me percebeu ali. 

Desci as escadas. Bebi mais um gole de meu café e atravessei o gramado. Estava tão destruído que eu não me senti mal por pisar nele. Harry tirava coisas dos armários abertos de metal e despejava na caixa. Já havia alguma delas ali. 

— Deveria fazer uma venda de garagem com todas essas coisas. — sugiro. 

— Não são minhas para vender. — ele responde. — O antigo proprietário saiu com tanta pressa que nem se preocupou em juntar os pertences. Vou mandar tudo assim que possível. 

— Quer ajuda? 

Harry imediatamente joga a caixa em suas mãos no chão. Devo concordar com ele. Há muita coisa ali, muitos brinquedos e ferramentas no armário. Muita coisa que deveria ser jogada fora. 

— Não. — Harry me puxa para fora da garagem e abaixa o portão. — Quero te mostrar mais uma coisa. 

— Atingiu a sua cota de surpresas ontem, cowboy. 

— Você vai gostar dessa. Vem. 

Ele agarra minha mão e eu me apresso em tomar o que sobra do café, deixando a xícara em um dos degraus. Sigo-o para fora, em direção à praia. Imediatamente, meu pé afunda na areia e centenas daqueles grãos entram pelas aberturas dos meus dedos. Péssimo dia para estar usando chinelos. 

Quase me atolo. A areia é macia e fofa demais, engolindo meu pé até o calcanhar. Em Montana, nós não tínhamos uma praia. Mesmo quando me mudei para Brighton, não tinha muito tempo para poder fazer uma visita e observar o mar. 

Harry me arrasta até o pier. Ele está de tênis. Os sapatos fechados facilitam muito o seu movimento. Eu dou os passos mais longos que posso, tentando não permitir que a distância entre nós se torne muito grande. Cada vez que me atolava, era um tempo perdido. 

Muitos grãos depois, estávamos parados sobre toras de madeira e de frente para um barco a motor. O homem ali dentro pula para fora imediatamente ao nós ver e Harry entra. 

A lancha é grande. Por cima da pintura branca e brilhante, duas faixas azuis e tortas cruzam o todo o comprimento. 

— Já esteve em um barco? — perguntou-me. 

— Uma vez, meu avô alugou um barco a remo e entramos em um lago de 6 metros de profundidade. 

— Uau, Dawson. Não se sente mal por um comportamento tão inapropriado e perigoso? Venha. 

Harry me estende a mão. Eu hesito, observando o pequeno espaçamento entre o barco e o pier. A água ali se agita e parece violenta. É como um monstro. Está a espreita, pronta para me atacar e me levar ao fundo em uma luta desesperada e fadada ao fracasso. 

Existe uma razão pela quão eu não vinha muito a praia. Não era só a falta de tempo. Meu temor absurdo a água sempre foi um obstáculo. Eu sempre me imaginei caído e afundando eternamente. O desespero consumiria o meu oxigênio em uma velocidade muito maior. Eu ficaria com frio e gelada. Não havia nada na minha mente além da morte óbvia. Meu coração aceleraria e não haveria mais oxigênio para ser bombeado. Eu afundaria cada vez mais, incapaz de subir porque não me lembrava dos movimentos que deveriam me impulsionar para cima. Depois, eu começaria a engolir água. Morreria sufocada. 

Parece um pensamento improvável, mas já aconteceu. No lago de 6 metros de profundidade, quando eu era pequena demais para conseguir nadar para fora. Podia sentir a água arranhando minha garganta e meu cérebro falhando enquanto meus dedos e braços petrificavam de medo. Não poderia pensar em mais nada além da minha própria morte. 
Meu avô me salvou. Ele me içou para fora, fez massagem cardíaca e tirou toda a água dos meus pulmões. Levaram-me ao médico e, após uma noite de observação, ficou atestado que eu estava bem. Porém, o trauma eu nunca consegui deixar para trás. Não molhava os pés em uma piscina e dificilmente me arriscaria no mar. 

Dei um passo para trás. O oceano estava ficando mais furioso, movendo-se mais agressivamente e se chocando com mais força às tabuas de madeira que mantinham o pier erguido. As nuvens estavam fechadas, transformando o céu em um emaranhado cinza e assustador. Não era um bom dia para passear de barco. 

— Dawson? 

A mão de Harry ainda estava erguida na minha direção e agora ele me olhava, receoso. Balancei a cabeça. Eu não conseguiria. Aquilo estava muito além dos meus limites. 

— Não. — sussurro. — Não. Esse não é o melhor dia para andarmos de barco. Olha o tempo! Com certeza vai chover. E a maré está muito forte e... 

— Ei! Dawson, acalme-se. Você por acaso tem medo de água? 

— Não, eu não tenho medo. Tenho puro pavor. 

Harry ri. Ele olha em volta, jogando todo o peso sobre una das pernas. 

— Não precisa ter medo. — tenta me tranquilizar. 

— Preciso sim! — explodo. — Eu não sei nadar. Se eu cair, vou afundar, entrar em desespero e morrer afogada. 

— Eu sei nadar. E você não vai cair. Se cair, pode ter certeza que eu vou pular atrás e arrumar uma forma de te salvar. Confia em mim. 

Harry torna a me estender a mão. É um pedido difícil, mas não sei se Harry sabe disso. Ele apenas se oferece de apoio, mas eu me vejo tendo que ultrapassar todos os limites e ir muito além da minha zona de conforto. Nunca me pediram isso antes. E percebo que estou no meio de um impasse ao ver que recusar o passeio seria o mesmo que dizer não confiar em Harry e isso é muito longe do que quero. 

Ainda hesitante, tremo ao estender a mão. Meus dedos são incapazes de se manterem quietos. Travo no meio do caminho, incapaz de forçar meu braço a seguir em frente. Harry toma uma atitude, agarrando minha mão e puxando-me para perto. Seu outro braço rodeia minha cintura, erguendo-me e fazendo meu corpo saltar dentro do barco. 

— Vamos fazer nosso passeio, Dawson. — Harry me solta. — Fique bem aí e aproveite o seu presente de aniversário. Pode soltar. 

O homem desamarrou a corda e Harry ligou o motor, fazendo um ronco alto invadir meus ouvidos. Observo um pequeno tufão ser gerado pelo movimento da turbina e dou um passo para trás, sentindo o pânico invadir meu corpo novamente. 

A lancha desliza sobre a água em um movimento rápido. A velocidade é tanta que sinto meu estômago ficando oara trás, perdendo-se no meio do caminho. Desejo um lugar para me agarrar. Sinto como se pudesse cair ali, bem na água turva e perigosa que pode me engolir facilmente. 

— Não se segure, Dawson. Você tem que abrir os braços e sentir o vento. Asas foram feitas para o céu. 

Harry provavelmente não sabe o quão complicado essa tarefa é para mim. Abrir os braços significa que estou deixando o foco de meu equilíbrio se perder. Provavelmente, é mais fácil de cair. 

Apenas de olhar a água, meu estômago se revira. Posso me ver caindo ali. A cena passa em minha mente de uma forma muito clara. É tão real que posso tocar. 

— Acho que já tivemos o suficiente por hoje. — murmuro. 

Escuto o barulho do motor cessar. Olho em volta, vendo-me rodeada apenas por água. Meu corpo congela e eu esqueço de como é pensar racionalmente. Só existe uma coisa rodeando meu cérebro. Tudo rodeia sobre como posso tropeçar, cair para fora e nunca mais retornar à superfície. 

— Você não está curtindo um milésimo desse passeio. Confia em mim, não é? 

— Confio, mas... 

— Ótimo. Feche os olhos. 

Eu faço isso. Harry gira meu corpo, deixando meu rosto virado para o lado se fora, em direção ao mar. Suas mãos estão no meu quadril. Sinto seus dedos ao redor do osso da minha bacia. Seu nariz está próximo ao meu pescoço e eu percebo que ele está calmo. Talvez até demais. 

Tranquilo e lento, Harry sobe as mãos pela lateral do meu corpo. Ele contorna minha cintura até o alto de minhas costelas. Ele então força meus braços, obrigando-os a se esticarem. Seus dedos contornam o músculo do tríceps e do bíceps antes de seguirem pela parte interna do cotovelo e deslizarem suavemente pelo meu antebraço. 

Harry passa o indicador pela palma de minha mão. Ele brinca com os meus dedos e eu rio, sentindo um pouco da minha tensão se esvair. Estou certa de que ele não vai deixar que eu me machuque. 

— Não se mova. — Harry fala, afastando-se de súbito. — Só abra os olhos quando eu disser que pode. 

— Como é? 

Quando ele falou aquilo e simplesmente tirou suas mãos de mim, percebi que meus atos poderiam ser perigosos. A ideia de segurança correu pelos meus dedos abertos, sendo rapidamente substituída pela tensão e pelo temor de não estar equilibrada o bastante. 

— Isso é um exercício de confiança, Dawson. — o barulho do motor inunda meus ouvidos. — Só precisa confiar. Está pronta para isso? 

Não posso dizer que não. Isso seria o mesmo que invalidar uma porcentagem do nosso relacionamento. E é até fácil supor por quais razões Harry usa essa justificativa. Ele sabe que eu jamais diria não. 

Meu estômago se revira. Mordo a boca, muito tentada a abaixar os braços e me encolher, longe do perigo. Só dessa vez. É o que digo a mim mesa. Só dessa vez eu posso abaixar essas defesas e acreditar que algo de bom será o único resultado. 

— Sim. 

Harry não diz mais nada. A resposta que obtenho é o movimento da lancha, tornando a deslizar rapidamente pela água. 

Mas dessa vez é diferente. Sinto um frio no meu estômago. O vento invade minhas mãos, preenchendo o espaço dentro delas. Meu cabelo é balançado para trás e eu esqueço que estou cercada por um enorme e gelado oceano. O meu coração está batendo rápido, em êxtase e cheio de energia. 

Abro os olhos. Havia dito que só o faria quando Harry dissesse que eu poderia, mas a curiosidade falou mais alto e não pude manter as pálpebras fechadas. Quando o faço, só posso rir alto. 

Agora é diferente. Não estou preocupada em cair. Tenho a sensação incrível de estar viva. Posso sentir a adrenalina percorrendo meu sangue. Meus pulmões se enchem de ar e assisto um pequeno cardume passar ao nosso redor. Encaro o céu. O vento ao redor do meu corpo e os braços abertos... Acho que isso é o mais próximo que já cheguei se voar. 

Gargalho. Escuto o som da risada de Harry e me viro para trás. Com um dos cotovelos escorado sobre o volante preto, ele me olha. O que está nos seus olhos eu não sou capaz de definir. Alegria? Surpresa? Satisfação? Talvez uma mistura desproporcional dos três. Só posso afirmar que é bom. 

Damos mais algumas voltas. A velocidade alta se torna insuficiente. Gostaria de mais. De sentir mais o vento e de como era atingir altitudes maiores. Respiro fundo, inalando o cheiro salgado de mar e apenas aproveitando a sensação. Tentando memorizar como é voar. 

Harry precisa devolver o barco. Ele me diz isso eu lamento internamente. Fazemos a última volta, então, e voltamos ao pier onde o dono da lancha já nos espera. Enquanto ele prende a embarcação, Harry sai e me oferece as mãos para que eu também possa sair. 

— Foi tão ruim assim? — ele pergunta. 

— Não, foi... fantástico. 

— E você preocupada que algo acontecesse. Está segura comigo, Dawson. 

Travamos a mesma batalha para voltar. Mas agora é pior. Meus pés estão úmidos porque água respingou neles. Agora os grãos de areia grudam com mais facilidade em uma mistura muito desagradável. Lavo os pés com a mangueira recém descoberta do quintal, ansiosa por me livrar da sensação de ser arranhada a cada movimento. 

Antes do almoço, Harry precisou voltar para Londres. Problemas no trabalho, ele disse. Deixou-me na Sussex com o restante do bolo, presentes e a roupa da última noite. Ele disse que eu deveria fazer uma mala com algumas roupas e levar para a casa da praia. Poderíamos passar o fim de semana lá. 

Fiquei feliz com o convite. Parecia um passo muito grande, o que me fazia hesitar um pouco. Era bom vê-lo cedendo um pedaço de seu espaço para mim. 

Cheydan não me perguntou nada. Ela era discreta demais para fazer algo desse tipo. Apenas observou, desda as roupas masculinas e os sapatos grandes demais para meus pés até o modo como eu agia. Não lançou qualquer indireta ou comentário indiscreto. Isso não seria compatível com o jeito dela. A curiosidade era uma característica que não pertencia à Cheydan. 

Na terça de noite eu fiz uma única mala com três pares de roupas, um casaco, um pijama, calcinhas e sutiãs. Estava decidida que qualquer coisa além disso seria pedir e me arriscar demais. Era melhor manter as expectativas baixas. No fim da sexta, Harry me pegou na faculdade. 

Eu subi, disposta a resolver toda a bagunça no quarto. Desocupar aquelas caixas e ocupar o meu próprio espaço no guarda roupas. Harry ficou. Pegou as escadas e levou para a varanda. Seu objetivo da noite era, basicamente, resolver a questão da fiação externa e fazer a luz funcionar. 
A primeira coisa que fiz foi tirar minhas roupas da mala e colocá-las ali. Já havia algumas de Harry e eu ocupei uma gaveta e um espaço muito curto. Deixei a bagagem no canto, para ser levada junto comigo de volta à Sussex. 

A caixa com "Soldado Harry" escrito ainda estava lá. Meu estômago se revirou e minha mente vacilou enquanto os mesmos pensamentos atordoados voltavam a ocupar espaço. Eu empurrei o papelão para longe, incapaz de analisar o conteúdo mais uma vez. Harry cuidaria disso. Eu não conseguia. 

Peguei a próxima caixa e a coloquei sobre a cama. Usei a unha para encontrar a ponta da fita adesiva e puxei o durex em um movimento rápido. Segurei as abas, erguendo-as e encarei o interior. Álbuns fotográficos. A maioria deles não passava de uma capa quadrada, preta e sem graça. 

Sentei na cama com o primeiro deles em mãos. Abri e notei a fotografia ensolarada de uma paisagem empoeirada. Conforme eu passava, via imagens de homens em calças camufladas. Algumas vezes eles apenas estavam jogando futebol com crianças. Em outras, estavam com fuzis, apoiados na arma enquanto encaravam o nada. 

Não importava qual era a foto, Harry estava lá. E ele aparentava estar muito melhor do que agora. Conforme eu passava as imagens, via a decadência muito clara em sua expressão e na forma como se portava. Era triste. De quebrar qualquer coração. 

Um bilhete caiu quando eu me ergui, levando o álbum junto. Era um quadrado branco e fino, com as palavras "fique melhor logo, seu grandíssimo filho da mãe cheio de sorte" e algumas dezenas de assinaturas abaixo. Supus que se tratava do esquadrão de Harry e que ele deveria ter recebido aquilo na mesma época que recebeu as cicatrizes. 

— Dawson! Eu estou indo ao supermercado! Quer ir comigo? 

O grito de Harry tirou minha concentração. Eu me assustei, dando um pequeno pulo. O álbum sacolejou em meus braços, saltando de um para o outro e quase caindo. Consegui mante-lo longe do chão e rapidamente o coloquei de volta na caixa. 

— Sim! Só um segundo. 

Tentei fazer com que a caixa parecesse como antes. Encaixei as abas e recoloquei a fita adesiva sobre a mesma marca. Voltei ao seu lugar no chão e torci para que ainda parecesse intocada. Peguei o casaco e o vesti. Encaixei o celular e algum dinheiro reserva no bolso. 

Harry me esperava ao pé da escada. Estava com um bloco de anotações na mão, deslizando o dedo sobre ali e verificando os itens. Parei, observando-o. 

— Compras do mês? — interrogo. 

— A dispensa está completamente vazia. 

Saímos. A luz de fora estava acessa; uma indicação clara de que Harry havia alcançando seus objetivos para aquela noite com perfeição. A noite estava fria. A chuva caia, mansa e em gotas finas e geladas sobre nós. Eu puxei as mangas da blusa, cobrindo minhas mãos. Elas estavam geladas. 

O aquecedor não foi o suficiente para me aquecer. Transitar pelo caminho, mesmo que curto, da nossa vaga até o interior do supermercado foi uma tarefa quase dolorosa. Eu sentia o frio penetrando os meus ossos, fazendo-os estalar de dor em meio aos tremores. Gostaria de estar com algo além de um moletom fino como esse. 

Pegamos o carrinho. Haviam poucas pessoas ali. Os corredores estavam vazios e os poucos caixas pareciam ter sido abandonados, com a presença insatisfeita de mulheres com aventais amarelo e unhas sendo lixadas. O meu conforto era saber que gastaríamos menos tempo do que eu tinha pensado. 

Harry me deixou com a lista. Nós nos dividíamos. Isso facilitava o processo. No pequeno estabelecimento, nossos passos eram acobertados pelo som da televisão ligada no noticiário ou pelo girar das pequenas rodinhas do carrinho pesado pelas compras. 

Eu fiquei pegando cereais e café enquanto Harry ia atrás de papel higiênico, sabonete, shampoo e condicionador. Parei de frente as inúmeras marcas de filtro, tentando avaliar qual delas seria a melhor. Meus dedos pareciam enrijecidos pelo frio. Esfreguei as mãos, tento aumentar a temperatura. 

Harry voltou. Colocou os itens no carrinho. 

— Estamos quase acabando. — avisou-me. — Está com frio? 

Ele esvaziou as mãos e puxou as minhas. Seus dedos rodearam os meus enquanto ele atritava sua palma neles, tentando esquentá-los. Constantemente, meus dedos esfriavam demais. Acreditava ser uma consequência da pressão arterial baixa que eu tinha. Mas Harry sempre tentava reverter a situação e esquentá-los. Todas as vezes. Geralmente, o efeito não se estendia por mais do que quinze minutos. Eu gostava de vê-lo tentar. 

— Obrigada. — digo. — Pensou em algo para o jantar? O que acha de pizza? 

— Claro. Pizza serve. 

Eu sorri. Soltei minhas mãos das de Harry e me virei. Deixei a lista com ele e segui para o corredor dos frios e congelados. Avaliei os sabores disponíveis ali e acabei optando por queijo. Peguei uma embalagem e encaixei debaixo do braço, saindo em busca de Harry. 

Encontrei-o parado perto dos refrigerantes. Sua mão se apoiava à grade do carrinho. Mas não estava pegando nenhum alimento. Seus olhos estavam vidrados na televisão e seu foco era destinado exclusivamente para a reportagem passando. 

Aproximei-me em passos rápidos. Joguei a embalagem de pizza junto com tudo que havíamos selecionado para comprar. Parei alguns centímetros atrás de Harry, colando meus olhos na tela. A reportagem em questão era sobre a explosão de uma bomba em um metrô. Em Montana. 
Minha boca se encheu do gosto de bile. O meu cérebro começou a colapsar. Duas horas de distância. Só duas horas. O que impedia qualquer familiar meu de pegar um carro e fazer essa viagem? Nada. E essa resposta não era nem perto de reconfortante. 

— Oh, meu Deus! — sussurro, tirando o celular de meu bolso. — Isso é perto da cidade onde minha família vive. 

Desbloqueio a tela e rapidamente digito os números que me conectam a minha casa. Meus dedos tremem, porém, dessa vez, não é por causa do frio ou da minha pressão baixa. Estou nervosa. Preocupada. Amedrontada com a ideia de que algum dos meus familiares não esteja bem. 

Maia atende. Minha irmã demora algum tempo até perceber e entender o meu desespero. Só então ela me acalma, dizendo que todos estão bem e salvos. Posso respirar aliviada depois disso. Sinto o peso sair das minhas costas e meu coração voltar ao normal. 

— Eles estão bem. — falo. — Harry? 

Seus olhos ainda estão fixos a televisão. A imagem de uma câmera amadora retrata o momento da explosão. Depois disso, a repórter lamenta por todos que foram vitimados pelo acontecimento. Homens, mulheres, idosos. Uma garotinha. Soterrada pelos escombros, ela não teve muitas chances de sobreviver. Apenas três anos de idade e um sorriso doce e gentil na foto que mostram. 

Minha família não foi atingida. Outras foram. Estou tranquila por mim, mas não posso deixar de pensar que existem muitas filhas chorando a morte dos pais. Ou pais chorando a morte dos filhos. Como os progenitores da garotinha. 

Acho que entendo por quais razões Harry está petrificado. Foi contra isso que ele lutou no Afeganistão. Foram coisas como essas que ele tentou combater. Deve ser ruim perceber que tudo o que ele fez não serviu para muita coisa. 

— Harry? 

Ele não se move. Começo a temer o que isso significa. A única reação esboçada é um leve movimento de suas pupilas, tremendo em um movimento inquieto. E isso é tudo. Assustadoramente, não há mais nada. 
Sinto como se estivéssemos congelado no tempo. Parece que todo o movimento ao nosso redor foi interrompido e, agora, a única coisa que segue em ação é o telejornal. Harry não me escuta e eu posso não saber muito, mas sei do estado do seu frágil equilíbrio e já presenciei um surto iniciado por absolutamente nada. Não desejo presenciar nenhum mais. 

— Harry, está tudo bem? Por favor, diga algo. 

O silêncio se estende por mais alguns segundos. Dura o mesmo tempo da reportagem. Quando as letras brancas na faixa vermelha são substituídas por outras, indicando uma nova matéria, Harry balança a cabeça, saindo de seu transe. Ele olha em volta, recobrando a consciência de onde está. Atordoado, precisa de um tempo encarando todas as prateleiras e espaços. 

Por fim, seu olhar recai sobre mim. 

— Sim, está. — diz, monótono. 

Não, não está. Não posso acreditar que seja verdade quando sua voz e sua expressão corporal me indicam que ele está mal. Fico preocupada com o que se passa em sua mente. 

— O que há? — questiono. 

— Nada, eu... Já volto. Não vou demorar. Você me espera aqui, tudo bem? 

Harry não espera uma resposta. Ele se vira e anda na direção da saída. Até seus passos indicam o quão atordoado está. A forma vacilante como dá cada pisada e como olha ao redor, confuso sobre tudo. 

Não vou ficar parada ali. Harry não está em condições de ficar sozinho. É um risco grande e eu não quero saber quais consequências esse momento de desequilíbrio pose trazer. Abandono o carrinho e todas as compras naquele corredor. Sigo o mesmo caminho de Harry. Quando saio, ainda consigo ver o Toyota sendo guiado para fora do estacionamento. 

Estou respirando alto. A chuva se tornou mais grossa e o vento ainda me incomoda. Não tenho tempo de me preocupar com isso. Telefono para Harry. Faço isso inúmeras vezes. E ele não atendeu a nenhuma delas. Deixei recados e esperei por um longo tempo. 

Conforme os minutos passavam, minha preocupação se tornava maior. Eu andava de um lado para o outro, enrolando o dedo indicador e o médio na corrente do colar. Tentava me manter aquecida e acordada, atenta ao menor sinal de Harry. 

Trinta minutos. 

Quarenta minutos. 

Cinquenta e cinco minutos. 

Sessenta minutos. Nada de Harry. 

Uma hora e dez minutos. 

Uma hora e vinte. 

Uma hora e quarenta e três. 

Harry não voltou. Não retornou minhas ligações e nem atendeu qualquer um desses telefonemas. Nesse momento, só espero uma catástrofe. Nada de bom me vem a mente. Imagino um acidente. Ferimentos graves. Sangue por todo o lado. 

Duas horas e dois minutos. 

A ausência de informações me aflige. Ele não poderia apenas ter a consideração de falar que tudo estava bem? O que passava em sua mente que lhe levara para longe e tomara todo o seu tempo e concentração? Deus, eu só queria uma notícia. E tudo bem se ela fosse ruim. Eu poderia encontrar uma forma de sobreviver a isso, mas a ausência de informações me matava por dentro. 

Duas horas e quatorze minutos. 

O ar que saia de minha boca condensava em uma pequena nuvem a minha frente. A chuva seguia, insistente, e eu seguia preocupada. Em uma atitude precipitada, tomei meu telefone em mãos e disquei o número de Daniel. Rezei para que ele atendesse. 

— Atenda, atenda... — falo, frisando a ideia e fazer com que ela se torne real. — por favor. 

— Alô? 

— Meu Deus, Daniel! Ainda bem que você atendeu. 

— Charlie? 

— Sim, sou eu. Preciso da sua ajuda. Não pergunte nada. Vou explicar tudo assim que chegar. Está com o seu carro? 

— Sim. 

— Preciso que dirija até onde estou. É uma emergência. Por favor, você pode vir? 

— O que aconteceu, Charlie? 

— Por favor, Daniel. Só me diga que pode vir e que pode fazer isso rápido. 

— Tudo bem. Onde está? 

Passo o endereço do supermercado e Daniel desliga. Junto as mãos próximo aos lábios e mantenho o corpo encolhido, tentando sentir o mínimo de frio possível. O som do meu celular está no volume máximo para que eu escute qualquer ligação. Apesar disso, confiro o visor a cada cinco minutos em busca de uma chamada perdida. 

Duas horas e quarenta e um minuto. 

Daniel buzina para mim. É um alívio saber que ele realmente veio. Nesse ponto, minha expectativa de que Harry vai voltar e me pegar é inferior à zero. Acredito que ele está tão perdido que já não acha o caminho para absolutamente nada. 

Entro no carro e tranco a porta. 

— Estamos procurando por um Toyota Yaris. A cor é preta e há um amassado gigante próximo da roda esquerda. Sem adesivos. Espero que com um motorista intacto. 

Daniel me encara. 

— O que houve? — pergunta. 

Suspiro. Tinha alguma expectativa de que Daniel não questionasse nada, só fizesse o que eu pedia. Mas era impossível. Qualquer um gostaria de saber porque saiu da cama em uma noite fria como essa e se arrastou para longe. É claro que isso só afetaria negativamente a situação entre Daniel e Harry. Não esperava que eles fossem grandes amigos, mas ao menos desejava que houvesse algum tipo de paz e calmaria entre eles. 

— Estávamos no supermercado, fazendo compras, quando a notícia de um atentado passou na televisão. Explodiram uma bomba no metrô. Harry viu isso e ele ficou paralisado. Eu não sei por qual razão. Disse-me que não era nada e saiu. Ele falou que eu deveria esperar aqui porque ele logo voltaria. Falou isso faz mais de duas horas. 

Daniel bufou e balançou a cabeça em reprovação. Eu sabia que, qualquer que fosse sua atitude, ele faria algo similar a uma desaprovação. Desde o episódio da palestra, a última coisa que ele pensava era que Harry poderia ser uma boa pessoa. 

— Charlie, seu namorado é louco. 

— Tudo bem. Pode dizer isso. Mas, por favor, diga que vai me ajudar a encontrá-lo. Eu estou desesperada! Por favor, Daniel. 

Talvez ele veja que estou em meio a um colapso. Só posso pensar em catástrofe e preciso de qualquer notícia que possa acalmar as batidas do meu coração. Sei que Harry não estava bem e não posso esperar nada de positivo ou bom como resultado dessa situação. Essa é a parte que mais me aflige: estar certa de que algo ruim vai acontecer, mas não saber se posso evitar. 

Daniel gira a chave do motor, ligando o carro. 

— Por onde começamos? — perguntou, virando-se para mim. 

Aquelas palavras foram um alívio. Não sabia o que fazer se Daniel se recusasse a me ajudar. Seria desesperador, isso é um fato. Um pequeno acréscimo a minha cota de preocupações e uma intensificação da noite medonha. 

Não tinha ideia de onde poderíamos ir. Começamos pela casa da praia. As portas estavam trancadas e tudo permanecia exatamente igual. Com uma única lanterna, seguimos para a praia gelada e também não encontramos nada. Em seguida, foram os hospitais. Verificamos todos em Brighton e eu peguei um catálogo emprestado, ligando para todos na região. 

De certo modo, foi um alívio receber negativas sempre que questionava sobre alguém similar a Harry. Ninguém com as mesmas características havia dado entrada naquela noite. No aspecto mais positivo, significa que ele ainda estava vivo. Olhando do ângulo oposto, significa que meu desespero poderia se manter porque eu não tinha mais notícias. 
Liguei para Gemma, perguntando se Harry havia passado lá. Recebi um não e perguntas tentando entender o meu questionamento. Desliguei após uma desculpa fraca, mas credível. 

Londres foi o primeiro lugar que liguei que risquei da minha lista. Já havia percebido que Harry preferia ficar em Brighton e eu realmente duvidava que ele quisesse voltar para a capital essa noite. 

Checamos bares, farmácias e tudo mais que pudesse estar aberto aquela hora. Não encontrávamos nada. Pedir informações era a mesma coisa que não pedir: continuávamos na estaca zero. Ninguém vira Harry. Ninguém vira um carro como o dele. Ninguém estava ajudando. 

As horas em nossa busca se estenderam. A cada segundo sem resposta, meu coração se apertava mais. Eu poderia senti-lo doer. A ausência de informações era completamente desesperadora e logo eu nem saberia como respirar direito. Enrolei os dedos na corrente do colar, esperando que isso me trouxesse algum conforto. 

— Podemos olhar as igrejas. — Daniel sugeriu enquanto saíamos do último bar. 

— Harry é ateu. Não acho que ele iria para uma igreja. 

— Tem alguma ideia melhor? 

Cruzei os braços. Estava cansada, frustrada e irritada. A busca nos levava de lugar nenhum para o absoluto nada. Nossas opções estavam cada vez menores. Eu ainda achava a ideia de Daniel uma grande impossibilidade, mas seria melhor aliviar minha consciência. 

— Vamos olhar as igrejas. — concordo. 

Daniel voltou a dirigir pela cidade. Parávamos constantemente, eu descia e verificava o interior. Não havia nada. Nesse ponto da madrugada, frio não era mais uma preocupação. Meus cabelos estavam úmidos e emaranhados depois de terem caminhado debaixo da chuva. Até minha blusa estava fria. Gelava ao encostar no corpo. Mas eu não tremia mais. Tinha outros objetivos para alcançar. 

Depois de três igrejas, senti que estávamos fadados ao fracasso e que não teríamos qualquer resultado. Daniel havia desacelerado o carro. Agora, passávamos lentamente pelas ruas, verificando cada centímetros em busca de um sinal suspeito. 

— Ali! É o carro dele. — disse eu. 

Reconheceria o amassado em qualquer lugar. Mesmo em um lugar mais escuro. Estacionado completamente torto sobre o gramado estava o Toyota de Harry. Meu pulmão se encheu de expectativas e eu mal conseguia segurar o ânimo. Soltei o cinto e mantive a mão na maçaneta, quase pulando para fora antes que Daniel terminasse de estacionar. 

Era uma igreja. Surpreendentemente. A cruz no alto da construção e os vidros com desenho não me faziam ter qualquer dúvida. Corri para dentro dela, derrapando os sapatos molhados pelo chão de cerâmica até o altar. Daniel veio logo atrás de mim. 

— Tem certeza que era o carro certo? — ele perguntou. 

— Oi, Charlie. 

Giro os calcanhares. Harry está parado ali, sentado em um banco há poucos metros de distância. Sua voz sai torta, lenta e um pouco embolada. Noto as inúmeras garrafas de vidro ao seu lado ou ao redor de seus pés. Todas vazias. É fácil concluir que ele está bêbado. 

Posso respirar aliviada por tê-lo encontrado. Mas o fato de não estar bem cria em mim um outro temor, completamente novo e tão intenso quanto o interior. A situação se agrava quando vejo os retângulos pretos na mão de Harry. Demora um tempo até que eu consiga ligar os contornos e perceber que se trata de uma arma 

Não tenho tempo. Harry apenas ergue o objeto e encosta na testa. Sinto meu sangue gelar ao ver a cena. Meus ouvidos se enchem de eco. Quando Harry engatilha a arma, é como se novamente estivéssemos em câmera lenta. Independente disso, sinto que não conseguirei ser ágil o suficiente. Cada único pensamento leva toda uma vida para ser processado. Em compensação, cada único ato de Harry não leva mais que dois segundos. 

— Venham, senhores da guerra. — Harry sussurra, destravando o gatilho. 

Ele está chorando. Talvez esse um efeito de todo o álcool. E essa é a primeira vez que eu o vejo dessa forma. Terrível e desesperador. Não gosto. Não gosto nem um pouco de vê-lo sofrendo dessa forma e odeio a sensação que isso me causa. O frio em seus olhos gelou minha espinha. 
Lentamente, eu dou um passo para frente. Daniel sussurra meu nome, como se me chamasse para longe. Posso entender isso. Estou ficando mais próxima de um bêbado com tendências suicidas e uma arma carregada. Não é uma atitude segura. 

Deixo minhas mãos erguidas, com as palmas na direção de Harry. Meu coração bate tão rápido que não estou certa se posso ouvir minha própria voz. Lembro a mim mesma que manter o controle é tudo nesse momento. Não posso desesperar, embora minha única vontade seja explodir em pavor. 

— Vocês constroem grandes armas. Vocês constroem aviões da morte. Vocês constroem todas essas bombas. Vocês se escondem atrás de paredes. Vocês se escondem atrás de mesas. Eu só quero que vocês saibam que eu enxergo através das suas máscaras. 

Harry me encara. A cada palavra eu tentei encurtar a distância entre nós. De fato, o eco gerado pela minha pulsação nervosa dificultou a compreensão de minhas palavras. Posso ter gritado e nem ter percebido que o fez. 

— Eu conheço toda a letra da música. — continuo. — Mas você não é um deles. Não é sobre você. 

— Como sabe? Diga-me como você pode saber disso se você não sabe nada do que eu fiz.

Harry grita. Ele bate com o cano da arma na própria cabeça. O pânico cresce em mim. O dedo dele está dolorosamente perto do gatilho. Um pequeno escorregão seria sinônimo de um grande disparado. E, para isso, Harry não precisa realmente querer. Só um deslize é o suficiente. Com a quantidade de bebida que ele tomou e seu desequilíbrio atual, um deslize é exatamente o que eu estou esperando. 

Daniel me chama novamente. Eu o mando calar a boca. Preciso focar nisso. Toda a minha atenção é voltada aos pequenos movimentos, crente de que posso evitar a catástrofe. Qualquer um poderia ver o meu coração batendo através de meu peito ou o pavor estampado em meu rosto. 

— Eu posso ver através da máscara. — digo. — Por favor, Harry, não faça isso. Entregue-me a arma. Vamos encontrar uma forma de arrumar tudo. Eu prometo isso. Mas preciso que me entregue a arma antes. 

Harry vacila. Ele balança a cabeça, virando o rosto para o lado. Sua mão cai sobre o colo e, enquanto ele chora, estende a arma para mim. Respiro aliviada ao tê-la comigo. Imediatamente, torno a travar o gatilho e desbloqueio o pente, fazendo com que caia em meus dedos. 
Viro-me para Daniel e estendo para ele. 

— Tire isso daqui. — peço. 

— Charlie... não é seguro. 

— Pode confiar em mim. Vou ficar bem. Mas preciso que leve essa arma para bem longe. 

— Não vou demorar. 

Daniel hesitou em me deixar sozinha. Ele se virou e saiu, mas a cada centímetro percorrido, girava o rosto para conferir como eu estava. 

Sentei-me ao lado de Harry. O perigo parecia menor agora, porém não acreditava que havíamos nos livrado completamente dele. Deslizei meus dedos por debaixo de seus olhos, secando as lágrimas. 

— Quase me matou de preocupação. — murmurei. — Está tudo bem agora. Eu te encontrei e não vou deixar que se perca. 

— Mesmo Jesus não perdoaria os meus pecados. 

— Mas você não acredita em Jesus. 

— Fiz como o seu avô. Uma vela para cada um. 

Sigo o olhar de Harry até o altar. Estou surpresa que ele ainda se lembre dessa história. Fazem meses desde que a contei. Mais surpresa fico ao ver toda a cera azul derretida ao redor dos minúsculos cilindros de mesma cor enquanto o barbante se mantém em chamas. 

Três. Exatamente como na minha história. Paraliso com aquilo. Tento imaginar quão o tamanho do peso nas costas de Harry. Ele chegou a esse ponto e provavelmente pensava em um alívio rápido para o seu próprio sofrimento. Gostaria de poder ajudá-lo e aliviar sua carga, mas duvido que ele aceite dividir isso comigo. 

— Eu... 

Percebo que não sei o que dizer. Desconheço as palavras adequadas para esse momento. Nada se encaixa na situação. É frustrante pensar que não sou nem mesmo capaz de consolá-lo. Só fico calada ali, absorvendo o choque daquele momento. 

— Ainda posso ver o sangue nas minhas mãos. — ao dizer isso, Harry encara os dedos e os move. — Posso ouvi-los gritar. Atacando e gritando. Você tem que ser rápido no gatilho ou um dos seus amigos morre. Ou você morre. 

Como queria poder segurá-lo perto e roubar sua dor. Ficaria com ela de bom grado caso isso fosse o suficiente para acalmar os ânimos e resolver a situação. Duvidava que fosse. De forma sofrida e dolorosa, percebi que Harry era composto de milhares de cacos quebrados e partidos. Um infindável quebra cabeças que eu não conseguiria montar sozinha. 

— Não é mais uma guerra. — tento tranquilizá-lo. — Você está salvo agora. Acabou. 

— Nunca acaba, Charlie. Todo o dia, toda noite, a cada segundo da minha existência, eles estão aqui. — Harry aponta para a própria cabeça. — Como fantasmas. Nunca me deixam em paz. 

Em um ato impensado, eu o puxo para perto. Mantenho os meus braços ao redor dos dele. A expectativa é que isso ao menos lhe cause algum conforto. Mas Harry está rígido, parado e sem esboçar qualquer reação. 

Muitas confissões em uma única noite. Às vezes, eu desejava escutá-las porque tinha a esperança de que isso o ajudasse. Não o ajuda e muito menos a mim. Fico sufocada ao saber que é essa é a forma como Harry se sente. É dolorosa. Sinto o peito apertar e um nó fecha minha garganta. 

— Não há nada que possa fazer para salvar minha alma, Charlie.


Notas Finais


Espero que tenham gostado. Quando quiserem, chamem lá na TL pra gente bater um papo porque vai ser demais haha
O link do trailer lindo novamente: https://www.youtube.com/watch?v=5R_iZxHEfzQ
Muito obrigada por terem lido, um feliz Páscoa cheia de chocolates e até loguinho
xoxo


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