História Red - Capítulo 4


Escrita por: ¢

Postado
Categorias Elizabeth Olsen, Harry Styles, One Direction, Zayn Malik
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Charlie Dawson, Drama, Elizabeth Olsen, Guerra, Harry Styles, One Direction, Starlotus2017, Terrorismo
Visualizações 2.067
Palavras 6.697
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hellos, my lovers!
Tenho um bucado de coisa pra falar hoje. Vamos por partes pra ser mais fácil.
A primeira delas é um gigante obrigado pelos comentários e favoritos. Cada vez que aparece uma notificação relacionada a essa fanfic eu fico mega, mega, absurdamente feliz. Ganho o ano sempre que isso acontece. Então, agradeço muito por estar lendo, comentando e favoritando. Vocês me deixam absurdamente feliz. Muito, muito, obrigada.
O próximo ponto é que estamos com capa e sinopse nova. A capa chegou essa semana e fiquei muito feliz por ter chegado antes da atualização. A sinopse foi feita com a ajuda da moça Claire. Ela me deu várias dicas e ajudou a arrumar tudo pra ficar bonitinho e tals. Então, obrigada, moça Claire <3
Deixa eu conversar com vocês agora sobre os tamanhos dos capítulos. São grandes, né? De uma forma até considerável, eu acho. Quero saber se vocês gostam deles assim ou se gostariam que fosse um pouco menor. Se for a primeiro opção, tá super tranquilo. As postagens e a vida seguem normais. Caso seja a segunda opção, eu vou ver o que eu posso fazer pra reduzir e tals Talvez o número total de capítulos aumente, mas então teremos capítulos menor, aí fica tudo meio que igual. Mas preciso saber o que vocês acham pra me adaptar aqui.
Esse capítulo é do Harry. O primeiro e logo teremos mais. Os capítulos do Harry são divididos em duas partes e vocês terão acesso ao passado dele. Mas, justamente por causa disso, são capítulos um pouco maiores do os da Charlie. Espero que isso não seja um problema.
Acho que eu falei tudo. Foi um bocado de coisa, mas tudo importante.
Gostaria de ter postado ontem, mas rolou um tanto de coisa e não foi possível. Estou aqui hoje e vou tentar fazer a próxima postagem antes de completar quinze dias, prometo. O capítulo já foi betado, então tá tranquis e provavelmente posto antes.
Perdão por qualquer erro.
Bem, acho que isso é tudo. Boa leitura e nós nos vemos lá embaixo.
Ah! Se fosse pra recomendar uma música pra lerem, eu recomendaria Hurricane, do 30 Seconds, especialmente quando estiverem lendo o flashback.

Capítulo 4 - Red carmine


Fanfic / Fanfiction Red - Capítulo 4 - Red carmine

Harry

Eu dou a volta no campus. Em parte, estou apenas dando jeito de sair dali. Ao mesmo tempo, eu só estou verificando se Charlie está completamente bem. Quando ela entra no prédio, seguida da amiga, eu busco uma forma de sair.

Acho que Charlie é um tipo de pessoa interessante. Ele pareceu não gostar de mim, mas eu me convenci que isso não passava de um estresse momentâneo e medo por eu ser uma pessoa desconhecida. Quando ela começou a relaxar, ficou um pouco mais fácil de ter uma conversa minimamente civilizada com ela.

Infelizmente, isso só aconteceu quando já era tarde demais para poder render qualquer assunto. E, quando ela não falava muito complicado, parecia ser realmente simples manter uma conversa. Eu precisaria de mais algumas chances e esbarrões para conseguir comprovar essa teoria.

Estou questionando a ideia de voltar para Londres. Lá, eu acabaria ficando sozinho no meu apartamento a maior parte do dia. Aqui, poderia almoçar com minha irmã em Brighton. Era uma ótima ideia. Não queria ter que gastar dinheiro em um restaurante e muito menos ter que fazer macarrão de novo. Gemma me receberia bem e eu ainda teria uma ótima comida.

O meu telefone toca. Estou parado no sinal e me inclinei para frente. Tiro o aparelho do meu bolso e aperto a tecla verde. Arrumo sobre o painel e coloco no alto falante.

— Fale rápido. Eu estou dirigindo — aviso. O sinal abre e eu saio da minha posição.

— Eu espero que esteja dirigindo para a I.N.C. — Will faa.

— Por que eu estaria fazendo isso? É o meu dia de folga.

— Não é seu dia de folga, Harry. Eu mandei colocarem um memorando na sua sala.

— Eu não uso a minha sala, William. Eu não leio memorandos. Mando direto para a reciclagem.

— A secretária deveria ter avisado.

— Não poderia. Foi demitida já tem algum tempo. Eu não sou um CEO ou presidente para ter uma secretária.

— Harry, ela deveria te fazer lembrar dos seus compromissos.

— Não é porque ela faz eu me lembrar deles que eu vou estar neles. William, por que precisa de mim aí?

— Reunião de acionistas.

Bufo.

— Você não precisa de mim aí. O que eu tenho está apenas no papel. Na prática, eu sou só o idiota que trabalha aí.

— Eu pensei a mesma coisa, mas seu pai falou que você deveria estar aqui.

Isso é algo surpreendente.

Meu pai não gosta de mim e eu não gosto dele. Qualquer um com um pouco de cérebro pode notar isso de modo bem simples. Usualmente, nós nem tentamos estar no mesmo ambiente. Eu faço isso como uma tentativa de preservar a minha sanidade mental. E meu pai não tem muito do que se orgulhar de mim ou razões para me querer por perto.

Em algum momento, você para de criar expectativas. É mais fácil quando não pensa que seu pai pode ligar um dia, chamando para assistir o jogo do Manchester City e almoçar na casa dele. Esse tipo de coisa nunca aconteceu comigo e eu acabei percebendo que nutrir esse tipo de ilusão só seria tóxico para mim.

Eu me armo e me defendo. Aprendi a viver assim porque é muito mais fácil do que estar vulnerável o tempo todo, especialmente tendo consciência de quais pontos são capazes de me fazer cair.

Sabia que meu pai me querer lá não significava nada demais. Ele já tinha pedido que eu participasse de várias reuniões, mesmo que isso significasse ignorar completamente a minha opinião e presença. De uma forma inevitável, você nunca para de esperar que a situação mude por completo.

— Pediu? — questiono.

— Sim.

— Por quê?

— Eu não sei.

— John não dá ponto sem nó. Ele não faz nada por sentimentalismo barato. Tem algum interesse por trás.

— Você pode estar certo, mas eu não sei do que de trata. Só ficaria muito agradecido se viesse.

— Por que eu deveria?

— Não vamos começar sem você. John não deixa. Além disso, cada minuto se trata da minha cabeça como prêmio.

— Não sou um executivo. Não entendo nada disso. E você sabe.

— Eu sei, mas... O seu pai está pedindo. Não pode se esforçar um pouco para fazer isso?

Bato a mão no volante. Isso é uma falácia, algum tipo de chantagem barata e porca. O meu bom humor do dia deveria ser uma peça fundamental para que eu aceitasse, mas estava certo que ele acabaria assim que eu pusesse os meus pés na companhia.

Rangi os dentes com força.

— Estou em Brighton. Posso chegar em uma hora. Talvez um pouco mais. Consegue enrolar todos por algum tempo?

— Claro. É a minha especialidade, não é?

— Eu vou chegar logo.

Desligo o telefone. Mudo completamente a rota. Passo em frente a casa de Gemma, mas não paro. Atrasar-me qualquer minuto extra que fosse só seria aumentar a fúria alheia.

Pego todos os desvios e atalhos que eu poderia. Estando sozinho, é muito mais seguro ultrapassar os limites de velocidade e quase estourar o meu velocímetro.

Chego em City of London quando meu relógio marca quase 11h. Foi menos tempo do que usualmente gastaria, mas ainda havia sido tempo o suficiente para que qualquer um daqueles engravatados se irritasse.

Não uso nem um terno. Eu só tenho um e ele dificilmente saía do meu guarda-roupas. Nem em eventos de gala. Nos poucos que eu ia. Já tinha plena noção de que esse seria apenas mais um fator negativo. Eu não tinha qualquer tempo para resolver essa questão.

Subo pelo elevador com uma mulher de terninho e outro executivos. Eles descem dois andares antes de mim e depois eu ficoi sozinho. Acho que foi até melhor. Batuco os dedos no espelho enquanto espero.

Não estou certo se é funcional deixar a sala de conferências e reuniões no último andar. Havia uma distância muito grande que muita gente deveria cumprir semanalmente para chegar lá.

Na recepção, a secretária de Will me avisa que eles já tinham começado a discutir. Eu penso por um segundo se deveria entrar ou deixá-lo conversando sobre coisas que eles entendiam. Não queria desperdiçar a minha viagem e acabei entrando.  

Param para me olhar. Todos os barulhos são momentaneamente interrompidos e substituídos por um silêncio assustador. Eu hesitei, segurando a maçaneta.

— Podem continuar discutindo — aviso. — Eu só vim pegar um café.

Atravesso a sala até a bancada de fundo. Enquanto eu puxo um dos copos de plástico para fora do suporte, escuto-os voltarem ao ritmo anterior de conversa. Lei as placas nas garrafas e pego a que continha café. Viro o líquido no meu copo e sento no único lugar vago.

É irônico como fica abaixo do topo da mesa, onde Will, como presidente, senta, e de frente para o lugar que John passou a ocupar depois da aposentadoria forçada. Nem de longe seria a minha opção de lugar bom. É horrível.

Coloco meu café na minha frente e fiquei girando a xícara até achar que ele estivesse esfriado o suficiente para que eu pudesse tomar. Encarei a a fumaça clara que subia.

Antes

 

— Você deve ser muito bom para ter sido transferido para cá.

Suspiro. Eu olho em volta. Aqui é mais empoeirado do que a minha base anterior. Talvez até mais quente. Não estou certo se é realidade ou se estou apenas implicando com essa novidade.

Eu gostava do meu antigo esquadrão. Estava familiarizado com ele. Tinha amigos ali desde quando comecei o treinamento. Isso tornava a situação um pouco mais familiar e menos ruim. Não entendia porque precisaram me arrancar de lá. Eu era bom e isso foi tudo o que me disseram.

— Eles me falaram isso, senhor — respondo.

Pigarreio.

Ele me olha por um segundo e depois passa a encarar a ficha amarela que tem em mãos. Imagino que se trata de meu histórico ou qualquer coisa desse tipo.

— O Team 6 não é para qualquer um — falou.

— Eu sei disso, senhor.

Mesmo entre nós, não se falava muito sobre essa equipe. A maioria dos detalhes era confidencial. Só sabíamos o básico e o básico não era muita coisa. Acredito que nem tentávamos saber muito. Não cabia a nenhum de nós.

O pouco que sabíamos é que, realmente, não se tratava de um esquadrão que aceitasse o primeiro inscrito. Eu nem entendia como eles selecionavam os recrutas que viam para cá. Só vi um único ex integrante uma vez e não foi uma ocasião na qual pudesse acontecer uma conversa.

— Espero que saiba a oportunidade que tem em mãos.

— Sim, senhor.

Ele fechou a pasta com os arquivos e deixou sobre a mesa improvisada. Levantou-se. Eu fiz o mesmo. Segurei a bolsa e joguei a alça sobre o ombro.

— Bem-vindo, sargento.

Ele me estendeu a mão. Acho que foi o ato mais amistoso que recebi desde que cheguei aqui. Tudo bem. Você precisa ter certeza de quem está chegando. Também estendi a mão.

— Obrigado, general.

— Vou levá-lo ao alojamento. Pode conhecer seus companheiros.

Ele me guiou pela base. Eu já estava habituado a uma realidade um pouco diferente daquela. Não era tão bom em fazer amigos quanto eu gostaria. Em um esquadrão de 16 pessoas, adquirir algum tipo de familiaridade era mais complexo do que pode se pensar, especialmente quando integração social não era um dos meus grandes fortes. Se me dessem um quebra cabeças complicado, eu conseguiria resolver a situação de maneira mais fácil do que arranjar um novo amigo.

Tinha a sensação de que esse lugar era mais abafado. Poderia ser só o ponto no qual estávamos ou apenas meu cérebro reagindo a todas as mudanças rápidas dos últimos dois dias.

Estavam jogando cartas quando eu entrei. Só quatro deles na verdade. Sentados sobre a cama de cima do beliche e completamente focados naquilo.

— Full house! — Um dos homens assobiou, girando a mão e as cartas sobre a cabeça.

O general me apontou a beliche da esquerda, escorada na parede. Ele indicou a cama de cima. Eu me apressei em colocar a minha bagagem ali.

— Nós temos um novo recruta — Edwards avisou.

Exceto no caso de você ter um ótimo apelido ou alguma preferência, vai ser muito mais simples se usar apenas o sobrenome. Edwards era, provavelmente, o cargo mais alto que havia aqui. Ele gastou muito tempo me analisando antes de ter certeza que era seguro.

— Sejam gentis.

Então, ele nós deixou. Eu voltei a me concentrar em empurrar a minha mala para cima.

— De onde veio, novato? — um deles me perguntou.

— Iraque. Antes disso, duas semanas no Paquistão — respondo.

— E o que fez ficar disposto ao risco de ter uma bala na cabeça? Só consigo imaginar que alguém tem que ser muito idiota para querer vir para cá.

— Nesse caso, acho faz sentido você estar aqui.

A maioria dos homens riu, mas não aquele que falou comigo. Ele largou as cartas e pulou para fora da cama. Ele segurou a minha blusa pelo colarinho e me pressionou contra a grade da cama. Abaixei as minhas defesas. Acho que entrar em uma briga logo no primeiro dia seria idiotice.

— Que gracinha! Quanto tempo até pedir para sair?

— Não vou pedir para sair.

— Não existe igreja no inferno, novato. E nem qualquer Deus para te ajudar aqui.

Ele riu.

— Solta o rapaz, Rodriguez. Não o faça pensar que você é um louco. Mesmo que seja.

Rodriguez me soltou. Ele fingiu que atacaria de novo e se virou para o lado oposto, em direção a sua cama. Encarei o homem que havia evitado uma briga. Ele era duas vezes maior do que eu e mais largo, quase que literalmente. E a expressão fechada não ajudava muito. Ele só parecia mais ameaçador.

— Obrigado — falo.

— Não por isso. Vai acabar se acostumando com Rodriguez. Ele rosna muito, mais não morde. Sou Chris Kyle.

— Harry.

— Sobrenome?

— Só Harry. É melhor.

— Tudo bem. Esses são Martin e Jones. — Acenaram. — Onde morava antes de aceitar vir para esse inferno?

— Nova Iorque.

— Veio de Nova Iorque? — Rodriguez se virou. — Não me diga que só se alistou por causa do que houve em 2001.

Não digo nada. Da forma como ele fala, faz parecer algo ruim. A verdade é que o número de alistamentos aumentou consideravelmente depois do que aconteceu em 11 de setembro. A maioria nem tinha um objetivo definido. Era só patriotismo tomando conta.

— Você é muito burro. — Rodriguez riu. — E nem é americano de verdade. O sotaque é difícil de esconder.

— Não estava tentando esconder. Nem perto disso. E eu vivi bastante tempo nos Estados Unidos. Tenho cidadania.

— Brilhante. Só não te faz ser mais esperto. Reino Unido?

— Londres. É. Eu vim de lá.

Rodriguez sentou.

— O que a sua família acha disso? — Martin questionou.

Dou de ombros.

— Já tem bastante tempo desde que nós nos falamos. A minha irmã me escreve de vez em quando. Os meus pais nunca fizeram isso. E a minha mulher escreve a cada quinze dias.

— É casado?

— Você fica mais idiota a cada instante que passa — Rodriguez reclama. — Se a sua esposa for gostosa, eu quebro a sua cara por ter vindo para cá. Aqui só tem macho. Eu não vejo uma mulher ao vivo tem meses. A primeira coisa que eu vou fazer quando sair desse inferno é achar uma.

— Sendo esse pote de carinho e gentileza, eu acho mais provável você acabar sozinho. — Kyle provocou risos. — Não vai conseguir que nenhuma mulher se apaixone por você.

— Quem está falando em se apaixonar? Só idiotas se apaixonam. Fazer isso e pedir para sofrer. Olha para você.

— Sou o homem mais feliz do mundo.

— É só mais um idiota. — Rodriguez faz careta. — Um grande saco de merda, ferrando a própria vida aqui. Todos vocês estão fazendo a mesma bosta.

Franzo a testa.

— A minha namorada está grávida — Kyle se explicou. — O bebê já está quase nascendo. E eu não vou poder estar lá, com elas. Nem é algo que deveria ter acontecido. Roxanne e eu queríamos esperar até o meu período acabar.

— Agora, o idiota vai perder os próximos quatro anos da vida da filha dele. Se ele ficar vivo até o final. O que é apenas uma das possibilidades.

— Ninguém vai morrer.

— Ninguém? Isso é mentira que te contam para não desistir do alistamento. Ninguém vai morrer. Falaram isso do Johnson. E agora ele está debaixo da terra. — Rodriguez aponta o queixo na minha direção. — Era um dos melhores, novato. Se conseguir fazer 1% do que ele fazia, você ganha o meu total respeito.

Cruzo os braços:

— O que houve?

A forma como todos eles imediatamente se calam beira o assustador. É como se um fantasma percorresse o ambiente e levasse junto a voz de todos. Depois, um silêncio desgastante toma conta do lugar e tudo que eu sinto e a minha segurança escapando pelas minhas mãos abertas.

Silêncio nunca é bom sinal. Levou um tempo até que eu aprendesse que as coisas ruins afloram quando o som diminui até se tornar inaudível. As bombas sempre explodiam nesse momento e as metralhadoras sempre tinham os gatilhos puxados quando o barulho cessava.

O som de conversas esperançosas era substituído pelo som de pessoas se matando.

— As coisas deram errado — Kyle falou. — Saíram do que havíamos planejado. Acontece. Até nos melhores esquadrões. Não se foge da morte. Mas Johnson teve o descanso merecido.

— Que Deus o tenha. — Rodriguez suspirou. — Não saia da posição, novato. Johnson tinha mãe, pai, irmãos, mulher e filhos para voltar. Ele era um bom homem. E todos esses idiotas aqui. — Ele apontou para o redor. — tem alguém esperando. Eu tenho a minha mãe, o Kyle tem a namorada e a filha que vai nascer. Martin tem o pai. O velho não consegue nem andar por conta própria. E está ficando gagá. Cada dia pior. Talvez ele morra antes de Martin voltar. Mesmo assim, ainda é a família que ele tem. E o Jones aqui... — Rodriguez riu. — Esse grandíssimo desgraçado filho da mãe não tinha ninguém esperando por ele no nosso continente. Sabe o que ele fez, então? Fez com que a indiana repórter do New York Times que estava fazendo uma matéria aqui se apaixonasse por ele. Agora, esse bastardo fala com ela toda a semana. Como eu disse, só idiotas se apaixonam. Eu não vou te dar um outro conselho como esse: fica esperto e volta para a sua esposa ou eu vou entregar a notícia da sua morte para ela.

— Você sabe que carne de jacaré é a melhor que existe, não sabe? — Rodriguez comentou.

Eu estava certo. Esse lugar era realmente mais quente. Só percebi isso ao ter que deitar na terra amarelada e ficar debaixo de um sol infernal. A roupa não ajudava nem um pouco. Até o chão desse lugar parecia ser capaz de registrar altas temperaturas.

Ser comparado ao inferno era algo de sentido completo. Era o inferno. E não só as altas temperaturas davam essa sensação. A bomba que quase matou algumas dezenas dois dias atrás e o ataque surpresa na última madruga que alterou grande parte dos planos montados. Não havia paz ou qualquer segurança aqui.

Era uma granada sem pino. Explodindo o tempo todo.

— Você é insano — comento.

Fechei o olho esquerdo e deixei o direito bem aberto. Eu me certifiquei da mira. Ajustei a arma até que ela pudesse atingir qualquer um que tentasse usar o fuzil metros abaixo de nós.

— É sério — Rodriguez falou. Ele me olhou por um segundo e depois voltou a encarar nosso possível alvo. — Nunca comeu?

— Graças a Deus.

— Isso é que é insano. Está deixando uma das melhores oportunidades da sua vida passar em branco.

Rodriguez se calou por um segundo. Ele usou esse tempo para pegar o binóculo e verificar o perímetro a nossa frente. Estendeu-me um dedão positivo, indicando que eu não deveria me preocupar com qualquer aproximação.

Até o vento desse lugar era quente. Não havia nem uma ilusão de brisa fresca. Parecia um forno, pré aquecido em 200° e pronto para receber a comida. Nós éramos a comida. Entrando na caverna do inimigo armado e prometendo uma paz que não era uma certeza nem nossa.

Odiava o clima. A sensação. Parece um perigo eminente que nunca se concretiza de fato. É como conhecer o futuro de cor, não poder mudá-lo em nada e nem se preparar, porque não sabe quando acontece. Estômago sempre fundo, mas os dedos mais firmes que puder mantes no gatilho.

— É quase tão bom quanto tequila de qualidade — Rodriguez continuou. — Com tequila de qualidade, fica ainda melhor. Essa é a verdade.

— Você mata jacarés e come a carne deles? Sabe que isso não é exatamente legal, não é?

— Moro na Florida. Os jacarés simplesmente invadem os nossos jardins, sem pedir licença nem nada. É uma epidemia.

— Por isso os coloca em seu prato?

— É a atitude mais saudável que eu posso ter. Se você pensar bem, eu estou ajudando meu estado.

— Está me deixando com nojo.

— A minha mãe faz um ensopado de carne de jacaré que é a coisa mais sensacional do mundo. E o empanado também. Ela tem as melhores receitas.

— Existe um manual de instruções sobre como preparar carne de jacaré?

— O mais importante são as escamas. Não quer nada disso no seu estômago, quer? Meu tio Frank tentou comer uma vez. Não foi um bom resultado.

— Isso é nojento, cara.

— Quando nós voltarmos, tem que ir na minha casa experimentar. Vai descobrir que é a melhor coisa do mundo e vai me pedir desculpas. Eu garanto.

— Não.

— Pode levar a sua esposa também. Ela vai adorar. Minha mãe é uma excelente cozinheira e nada supera o ensopado de carne de jacaré dela é algo que ninguém supera.

— A minha mulher é vegetariana. Ela é contra a matança de animais por um motivo egoísta como nossa alimentação. Vai te odiar. — Sorrio.

— Só por que eu mato jacarés? Eu faço um favo para o estado da Flórida e para a barriga dos vizinhos esfomeados. Uma dessas pragas entrou no meu chuveiro uma vez. Quando eu estava tomando banho.

— Um dos seus vizinhos esfomeados? — Viro-me para encará-lo.

— Um dos jacarés. Que falta de atenção, Harry. — Rio. — Aposto que você se recusa a comer o ensopado da minha mãe só porque é um riquinho. Eu estou ligado. Você foi criado tomando chá das cinco e por isso acha que a minha carne de jacaré não presta.

Balanço a cabeça. Rodriguez continua a reclamar e tenta apontar todos os pontos pelos quais eu deveria dar uma chance ao ensopado da mãe dele. Ignoro os seus comentários e abaixo a cabeça, de modo a favorecer minha visão. Verifico a mira.

Uma criança entra na zona de perigo. É um garoto com as roupas manchadas de areia e o rosto sujo. Os sapatos estão estragados. Ele se escora na casa velha e encara pela parede lateral o lado oposto.

Nesse instante, eu começo a rezar. Que aquele menino vá embora ou volte a brincar antes que mais alguém chegue e as coisas fujam do meu controle. Que ele não pense nem mesmo em encostar em um dos fuzis caídos naquela área, junto com os corpos ensanguentados e inertes. Isso seria tirar meu poder de escolha e as gotas restantes da minha paz.

O garoto se move. Ele caminha escorado na parede e verifica os outros lugares. Percebo que não estava brincando de se esconder com os amigos ou coisa do tipo. Ele veio por uma razão bem específica. Quando me toco dessa realidade, minha garganta fecha e fica mais difícil de respirar.

— Está vendo isso? — Rodriguez sussurra.

— Estou.

Escuto Rodriguez sussurrar algo e a resposta abafada vinda do outro lado.

— Temos luz verde. — ele disse. — Pode atirar..

Não quero atirar no menino. Ele não tem mais que dez anos. Mesmo assim, quando eu olho seu rosto, posso imaginar que já passou por coisas que são fortes e pesadas demais até para mim.

Ele é só mais um recrutado. Acontece. Aos montes. Cidadelas devastadas e famílias destroçadas são um alvo excelente e de baixa resistência. Quando mais jovem a criança, mais simples é a lavagem cerebral e a transformação em um radical invasivo.

Daqui a vinte ou dez anos, esse garoto seria um grande problema. Talvez não para mim. Mas ele se disporia a por uma bomba no corpo e se explodir em meio a uma multidão gigantesca só para professar suas crenças. Ou sairia bem armado, pronto para nos atacar.

Mas agora eu não compactuo com a ideia de atirar. Não gosto dela. Não gosto de atirar em adultos. Apenas isso me incomoda. Pensar em fazer o mesmo com uma criança piora tudo. No final das contas, ele só está em um péssimo ambiente e com as pessoas erradas. Não escolheu essa vida. Ele foi escolhido. Não era justo culpá-lo pelas ações de outros.

— Por favor, não pegue essa arma — sussurro. — Por favor. Deixa isso e corre para longe.

Eu me senti minúsculo naquele instante. O que estava havendo parecia ser muito maior do que eu. Engolir meu orgulho ou implorar por ajuda não serviria para nada exceto minha própria humilhação.

Pensei que Deus pudesse fazer alguma mágica e usar de sua onipotência e onipresença para fazer algo. Ele poderia simplesmente mover a Sua mão e tirar aquele garoto dali. Então, eu não teria que atirar e nem condenar uma alma inocente.

Mas não houve qualquer sinal de Deus. Nem uma brisa diferenciada que me indicasse algo. O garoto continuou a verificar se estava sozinho e não correu para longe como eu gostaria. Deus com certeza sabia o que aconteceria ali se as coisas não mudassem rápido e não fez nada que pudesse mudar a situação. Parecia que, espontaneamente, Ele havia deixado o garoto ali. Para morrer. Para que eu matasse.

Talvez estivesse resolvendo algo mais importante. Não sei o quê. Mas Deus não estava ali naquele momento. Estávamos no inferno e eu só poderia esperar pela presença do demônio. E acredito que ele não gostaria que ninguém se sentisse bem ou ficasse imune aos fantasmas e maldições.

Pus o dedo no gatilho e senti meus músculos travarem. Inconscientemente, todo o meu ser parecia se opor ao que era minha obrigação fazer. Forcei meu cérebro a trabalhar e colocar meu corpo nos eixos. Eu havia sido duramente treinado para aquilo e não poderia hesitar.

O menino se abaixou e encostou em um dos fuzis. Eu senti o meu estômago afundar.

A cada segundo, o fato se tornava mais inevitável. Não havia muito que eu pudesse fazer para mudar aqui.

Inclinei a cabeça, ajustando a mira sobre o menino.

— Por favor, solta isso — peço. — Faça o soltar, Deus.

Havia uma batalha dolorosa e dura entre duas metades dela. Uma me lembrava da minha obrigação de soldado. De Seal. De atirador. De todas as coisas que eu havia feito para conseguir chegar até aqui e de toda a destruição que terroristas — como aquele garoto seria em anos — haviam me causado.

De como eu queria algum tipo de vingança.

O meu outro pedaço queria que eu pensasse como humano, como uma pessoa. Era só uma criança que poderia ter todo um futuro pela frente e uma minúscula chance de não seguir o grupo e mudar o rumo. Ele ainda não havia sido completamente destroçado por ideiais corrompidos.

— Por favor.

— Harry... — Rodriguez me chamou à razão.

— Eu sei — apresso-me em dizer.

Sei. Tudo. Sei. Mas ainda estou hesitante. Um pequeno pedaço de mim está massacrando a minha determinação por vingança, justiça e toda a raiva que eu guardei nos meus últimos anos.

Estava hábil para lidar com temperaturas extremas e um estresse físico e psicológico além da média comum. Mas não nos ensinam a blindar nossos sentimentos para que momentos assim não nos afetem.

— Por favor, Deus — tento mais uma vez. — Tira esse garoto daqui. Por tudo que é mais sagrado.

Mas Deus não age. Talvez um pacto com o demônio fosse algo mais funcional. Deveria ter gastado meu tempo nisso e não falando com a poeira que irrita meu nariz e me faz espirrar.

O garoto segura a arma. É pesada. Ela escorrega de sua mão e cai no chão. Espero que esse seja um bom sinal. Talvez, agora, ele simplesmente desista e vá embora. Até crio esperanças.

— Harry — Rodriguez chama minha atenção.

— Eu já sei. Merda.

Estou errado. O menino se inclina para baixo novamente e pega o fuzil de uma forma diferente. Ele ainda se desequilibra com o peso, mas não o deixa cair.

Suspiro, irado e frustrado. Tento não protelar e pensar no que estou fazendo. É tortura e gasta um tempo que eu não tenho. Rodriguez está de olho e eu sei bem o que tenho de fazer. Deus não me ajudou. Mais uma vez. Talvez ele não goste de mim.

Paro se hesitar.

Paro a tortura.

Faço o meu trabalho.

Puxo o gatilho.

Agora

 

William bate a tampa da caneta na mesa.

— O que você acha, Harry? — ele me pergunta.

Eu desvio a atenção do meu copo e olho ao redor. Estão esperando algo de mim. Alguma resposta. Will está me pressionando, mas nem sabia do que eles falavam para ter alguma opinião formada.

— Claro — respondo. — Eu concordo.  

— Concorda?

— Totalmente.

Não é verdade. Eu não sei o assunto. Não estou certo sobre concordar ou não. Não tinha qualquer opinião sobre o que quer que eles falaram.

Will me dá alguma ajuda. Ele se vira para todos os outros executivos e passa para o próximo assunto na pauta da reunião de hoje.

Meu café já havia parado de soltar fumaça. Percebo isso com certa frustração. Quanto tempo eu havia passado em transe, olhando para o nada e completamente perdido?

Não importava o quão grande fosse o meu auto controle, constantemente eu me via perdido em buracos do passado. Era incapaz de sair deles por conta própria. Alguém precisava me tirar deles e, em grande parte dos casos, tal fato não ocorria antes que eu já tivesse me torturado por meus antigos atos e escolhas.

Bebo o meu café. Está frio e amargo. Odeio o sabor. O meu café instantâneo consegue ser mais saboroso do que aquele.

Encarei o relógio na parede. Eu deveria cronometrar os meus episódios porque isso ajudaria quando Gemma percebesse que era o momento de uma intervenção e voltasse a me forçar a frequentar um psicólogo. Seria um passo a menos a ser dado quando fosse a hora.

Meu pai está me analisando. Isso me fez começar a questionar o quanto ele havia percebido. O quanto todos haviam percebido. Poderia ser um sinal ruim. Uma prova clara da minha minha total ineficiência em manter o controle.

Começo a me sentir sufocado. Não havia reparado em todas as pessoas que estavam aqui. Muita gente. Sair correndo agora me parece uma ideia tentadora.

Minhas mãos tremem. Mais do que o comum. Coloquei-as sobre o meu colo, debaixo da mesa e escondidas de todos os olhares. Pus um pé sobre o outro e apertei. Estou tentando aliviar a tensão e estender meu tempo ali o máximo que fosse possível.

Estou prestes a surtar. Sou como um vulcão ativo: entraria em erupção e esse é um fato inevitável. O que mais me assusta é quando isso poderia acontecer e o quão catastrófico seria.

William libera todos. Eu poderia abraçá-lo por ter escutado aquelas palavras. A multidão se deslocou para fora e eu pude respirar aliviado.

— Não foi tão ruim — Will comenta.

— Não foi tão ruim? Foi um verdadeiro inferno. Desde quando tantas pessoas participam de uma reunião?

— Desde sempre — John responde. — Saberia disso se viesse a mais reuniões.

— Eu só aceito passar por um inferno como esse novamente quando eu morrer. Antes disso, é só loucura. Estou livre agora? Posso ir?

— Precisa passar no RH antes — Will esclarece.

— Por quê?

— O seu contrato tem alguns problemas. Já deveria ter resolvido. Se tivesse mantido a secretária que eu contratei, já teria sido avisado disso.

— Eu sinto muito por ter tirado o emprego daquela mulher, mas isso é tudo. — Ergo-me. — Resolvo isso agora.

— Gostaria de falar com você antes, Harry — John disse.

Hesito. Isso nunca é um bom sinal.

As nossas conversas tem o terrível hábito de serem finalizadas aos gritos, como brigas ferrenhas e escandalosas. Não funciona.

John me pressiona e empurra todas as expectativas para cima de mim. Eu já tinha abandonado a estrutura que me fazia suportar aquilo há anos e não estava disposto a recuperá-la. Quando John dizia que queria falar comigo, eu me sentia temeroso. Sabia que isso poderia simplesmente reabrir feridas que nem estavam plenamente cicatrizadas.

— Tudo bem — falo.

— Eu tenho que ligar para a Ângela e ver se o nosso jantar está de pé — Will arranja uma desculpa.

Ele sai antes que houvesse algo para fazê-lo ficar. Um mediador seria uma excelente ideia para tornar a situação menos catastrófica.

John me olha.

— O que tem para dizer? — questiono.

— Nossos temos materiais de novo. É algo excelente.

— Sei disso. Fui eu que projetei.

— Pediram uma demonstração do novo produto porque parece prometer muito mais do que fazer.

Eu entendo a mensagem. Já havia testado diferentes tipos de pistolas só para mostrar que o investimento era válido e que traria o devido retorno. Possuímos até uma ala de teste, instalada do subsolo e sempre pronta para o uso.

O único aspecto que me incomodaria seria todas as pessoas. Acho que isso seria o mais desagradável, mas umas duas doses e algo assim me fariam aguentar o dia.

— Posso fazer. Claro. Quando eles chegam?

— Nunca. Não com esse propósito. — Franzo a testa. — Teremos que ir até eles. Um grupo de soldados no Afeganistão.

— Você está com algum tipo de brincadeira?

Era sádico voltar. Seria como ceder a insanidade e a loucura e aceitar perder o controle que eu lutava para manter. Mesmo as minhas tendências a cometer insanidades não permitiam que eu ultrapassasse a linha que garantia a manutenção da minha sanidade mental.

— Você deveria ir. — John dá de ombros.

— Isso é uma puta de uma crueldade. Você nem pensa como pode ser ruim para mim?

— Você nem frequenta um psicólogo. Acho que isso significa que está bem.

— Significa que eu não explodi. Mas isso é tudo. Talvez seja melhor mandar algum dos seus amigos executivos.

— Eles não sabem como é. Nem precisam.

Você não sabe como é. Posso testar todas as armas que quiser aqui dentro. Suporto até ir para os Estados Unidos e passar um dia lá mostrando essas coisas. Mas existe um limite, John. E eu não vou ultrapassá-lo.

— Pense direito.

— Não tem o que pensar. Eu nem posso acreditar que o meu bem estar valha tão pouco.

— Deve deixar o seu passado para trás.

— Que irônico vindo de você. Tenha um dia fodido.

Eu deixo John sozinho na sala. Se eu ficasse por mais um segundo, acredito que nossa breve conversação se transformaria em uma discussão séria. As pessoas até já esperavam por isso. A frustração de lhes fornecer exatamente o mesmo espetáculo esperado todas as vezes é comum.

Pego o elevador até o RH.

John só queria alguém danificado. Alguém que já tivesse uma noção de tudo que pode acontecer para não causar um trauma excedente. Eu poderia até compreender essa situação, mas não poderia nem tentar entender como me mandar para lá seria uma boa ideia.

Qualquer um perceberia que eu não estava bem. Permanecia desfocado e com tendências nem um pouco saudáveis. Eu seidisso, mas gastava grande parte do meu tempo ignorando essa ideia e em busca de uma cura milagrosa e instantânea. Fora isso, era um risco diário.

Talvez John não soubesse. Talvez ele só não gastasse tempo suficiente prestando alguma atenção em mim para perceber a realidade. A ausência paterna não me fazia lidar com a situação de uma maneira melhor. Eu ainda o acho um idiota por ter proposto aquilo. E por todo o resto que ele havia feito.

No RH, eu tento furar a fila e resolver as pendências no meu contrato o mais rápido possível, mas não funciona. Eu tenho que me sentar logo atrás de um homem com um braço enfaixado depois de pegar uma senha e esperar a minha vez.

— Olá, Harry.

Olho para o lado. Louis se senta no banco a minha esquerda. Ele está tão engravatado quanto os homens do último andar. Nós dois havíamos começado a faculdade de direito juntos, mas só ele terminou.

— Oi, Louis — murmuro.

Recosto a cabeça no banco e fecho os olhos.

— O que você faz aqui?

— William disse que o meu contrato tem pendências. Preciso resolver. Só quero o meu salário no fim do mês.

— Para ficar bêbado e chapado? Eu não gosto de sair do conforto e calor da minha casa para atravessar Londres e evitar que você tenha um coma alcoólico.

— Não se preocupe. Eu também não gosto de beber ao ponto de quase ter um coma alcoólico. A ressaca do dia seguinte é insuportável.

— Por que eu ainda acho que vou ter que sair do conforto e calor da minha casa só para evitar seu coma?

— Porque a minha irmã mora em outra cidade e você é o único amigo que eu tenho. Se quiser, posso pôr o cargo à venda.

— Não ia conseguir muito dinheiro.

— Provavelmente. Acho que se alguém tem senso, não vai querer esse cargo. Como você mesmo disse, muitas noites saindo do conforto e calor da casa.

— Katrina quer marcar um jantar para sexta. Está livre?

— Não. Nem um pouco disposto a ser empurrado para as cunhadas e primas solteiras dela. Eu vou sair.

— Ah! Ótimo! Vai usar a seringa de outro viciado e antes do ano acabar vamos descobrir que você tem Aids.

— Eu carrego as minhas próprias seringas, não se preocupe. — Deslizo pelo banco. — Usualmente, eu também trepo usando camisinha. Então, Aids está fora de  cogitação.

— Obrigado. Fico feliz de saber que doenças sexualmente transmissíveis não chegam em você. Onde vai?

— Não sei. Longe de casa, provavelmente. Eu conheci uma garota legal em uma festa ontem. Talvez eu devesse chamá-la para sair ou coisa desse tipo.

— Isso é mesmo sério? Porque, você sabe, se quiser voar tem que abrir as asas e coisas assim.

Encaro Louis por um segundo e volto a olhar o teto.

— Que merda isso significa? Não pode falar do jeito certo? Por que todo mundo está falando complicado comigo hoje?

Louis se levanta com um suspiro.

— Esquece isso. Era só uma metáfora.   

— Você pode entrar lá, não é? — questiono. — Sem precisar passar por toda essa fila.

— Posso.

— Não pode verificar a questão do meu contrato?

— Seria errado só você ter essa oportunidade. — Bufo. — Mas Meredith queria falar com você. Vou avisá-la que está aqui. Talvez ela faça isso por você.

— Eu não quero falar com Meredith! — grito.

Louis se afasta. Olho ao redor, irritado. Isso levaria muito tempo. No mínimo, até o horário de almoço.

Eu me viro para televisão. Está no noticiário, mas o som ainda é baixo demais para que eu entenda perfeitamente tudo que é dito. Uma mulher se senta na minha frente e bloqueia a minha visão. Eu mudo a postura para conseguir assistir ao programa.

— Harry.

— Meredith.

— Posso falar com você?

— Não é o que está fazendo?

Meredith suspira.

— Só cinco minutos da sua atenção — pede.

— O seu tempo está passando.

Ela me estende um envelope preto e com o meu nome escrito em caligrafia artística. Eu encaro o objeto e abro o selo prata. Desdobro o papel e encontrei um convite de casamento.

— Isso é palhaçada. — comento.

— Como é?

— O seu futuro marido sabe que nós transávamos antes dele? Que eu era o seu pau amigo?

— Pode falar baixo? — Meredith se constrange. — As pessoas não precisam saber.

— Claro. Mas as pessoas não levam os amigos coloridos para a cerimônia de casamento.

— Você continua sendo meu amigo, Harry.

— Depois de dois meses sem falar comigo?

— Não foi por sua culpa. Eu estava foçada na minha vida, você quase não aparecia aqui e eu não sabia se seria seguro ligar.

— Não é como se eu fosse te comer pelo telefone, Meredith.

— Eu estou tentando fazer as coisas funcionarem entre nós de novo. — Eles mandam aumentar o barulho da televisão. — Você é um bom amigo e eu não s...

Esqueço eu existe alguém tentando manter um diálogo comigo e desvio o foco de minha atenção para o jornal.

O que me chama a atenção é o título da matéria. Atentados em Moscovo: número de mortos acaba de aumentar.

É como um soco no estômago. Não só a notícia, mas a forma como esse tipo de coisa ainda me afeta. Nunca paro para pensar sobre terrorismo porque ainda não sei lidar com essa ideia. Mas, vez ou outra, vira matéria em algum jornal e você acaba prestando atenção.

Estão listando os nomes e passando fotos. Pergunto-me quantos pais perderam um filho ou filha hoje e quantas famílias foram

destroçadas algumas horas mais cedo. Sei como pode ser uma das piores e mais angustiantes notícias.

Por uma situação como essa eu pus o meu nome em uma ficha de alistamento e gastei anos da minha vida em busca de uma paz que nunca encontrei. Mais gente entraria nessa trilha vazia e mais gente já tinha entrado.

Depois de todos esses anos, eu ainda sinto a mesma raiva queimando quando pensava sobre o assunto. A mesma coisa que me fazia enxergar vermelho e perder grande parte da noção. As minhas mãos tremiam novamente, mas dessa vez era só furia.

Em um ato reflexo, eu travei o maxilar ao ponto que meus dentes doeram. Serrei os punhos e travei uma batalha interna para conseguir me conter e evitar que o vulcão entrasse em erupção agora.

— É importante para mim que você vá — Meredith disse. Ela mudou o meu foco. — Você sempre será o meu amigo.

Pigarreio.

— Não posso — aviso.

— Não pode?

Ela não acredita que eu tenha um bom motivo. Em parte, não quero. Meredith me trocou por um relacionamento com jantares e mãos dadas em público. Querendo ou não, isso ainda atingia o meu ego e me afetava. Não precisava ver quem era o felizardo.

— Não. John precisa que eu teste algumas armas. Que prove o que estamos vendendo.

Meredith cruza os braços. Ela realmente não me leva a sério. Eu dobro o convite novamente e me viro para ela.

— Vou estar no Afeganistão na semana do seu casamento. Não chego a tempo.


Notas Finais


Eu tava tão louca pra psotar esse capítulo. Eu realmente gosto muito dele, acho que tem uma carga emocional bacana e que mostra bastante do Harry e como ele se tornou o que é. Espero que vocês também gostem dele.
Obrigada por terem lido e chegado até aqui. Me falem o que pensam com relação ao tamanho dos capítulos, sim? A gente pode se falar por aqui, pelo SS mesmo, ou vocês podem mandar uma ask bem aqui: https://ask.fm/GrupoDOW
Vou adorar falar com vocês por qualquer que seja o lugar, então, só venham! Até loguinho, amores.
xoxo


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...