História Red Queen (Adaptação) - Capítulo 11


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Palavras 2.040
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Luta, Romance e Novela, Violência
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 11 - Capítulo Onze


A corte brinda no fim do banquete erguendo as taças na direção da mesa real. Aqui estão eles: grandes senhores e senhoras tentando arrancar algum favor do rei. Logo terei de saber identificar cada um deles, associar cada cor a uma Casa e cada Casa a seus membros. Shawn me sopra seus nomes, embora eu não vá me lembrar de nada amanhã. É chato no começo, mas logo me pego curiosa para ouvir.

Lord Issartel é o último a levantar. Quando o faz, o silêncio toma conta do ambiente. Esse homem é respeitado mesmo entre os titãs. Apesar de seu traje preto ser simples, costurado em seda comum, e de não carregar grandes insígnias ou joias, ele exala um inegável ar de poder. Não preciso que Shawn me conte nada para saber que Lord Issartel chefia a mais elevada de todas as Casas, e é um homem para ser temido acima de todos os outros.

— Volo Issartel — sussurra Shawn. — Chefe da Casa Issartel. Possui e administra minas de ferro. Cada uma das armas usadas na guerra sai das suas terras.

Então ele não é apenas nobre. Sua importância vai além do título.

O brinde de Volo é curto e direto.

— À minha filha — troveja em voz forte, grave e firme. — À futura rainha.

— A Keana! — grita Austin, erguendo-se de um salto para ficar ao lado do pai.

Seus olhos varrem o salão desafiando alguém a se opor a ele. Alguns parecem incomodados, irritados até, mas erguem a taça como os demais para saudar a nova princesa. As taças refletem a luz como se fossem pequenas estrelas na mão de deuses.

Quando terminam, a rainha Karen e o rei Michael levantam, ambos sorrindo para os convidados. Lauren também fica de pé, seguido por Keana, Shawn e, após um segundo de distração, me junto a eles. As muitas Casas fazem o mesmo em suas mesas. E o arrastar das cadeiras sobre o mármore soa como alguém cravando pregos numa pedra. Graças aos céus, o rei e a rainha simplesmente fazem uma reverência e descem os poucos degraus rumo à saída da mesa principal. Acabou. Sobrevivi à primeira noite.

Lauren toma Keana pela mão e ambos seguem atrás do casal real. Shawn e eu vamos na retaguarda. Quando toco sua pele, sinto um frio impressionante.

Os prateados nos cercam. Um silêncio carregado domina o ambiente. Rostos curiosos, ardilosos e cruéis nos observam — e por trás de cada sorriso educado, um lembrete: estamos de olho. Cada par de olhos me estuda dos pés à cabeça em busca de falhas, defeitos. Vacilo, mas não posso cair.

Não posso dar um escorregão sequer. Nem agora nem nunca. Sou especial. Sou um acidente. Uma mentira. E minha vida depende simplesmente de sustentar a ilusão.

Shawn aperta minha mão, um estímulo para seguirmos em frente.

— Está quase acabando — cochicha à medida que nos aproximamos do fim do corredor. — Quase lá.

O sufoco passa quando deixamos o banquete para trás, mas as câmeras ainda nos seguem com seus olhos pesados e elétricos. Quanto mais penso nelas, mais forte fica seu olhar, ao ponto de conseguir saber onde estão antes de vê-las. Talvez seja um efeito colateral da minha “situação”. Talvez todos se sintam assim, só que eu nunca tinha sido rodeada por tanta eletricidade. Ou talvez eu seja uma aberração.

De volta a uma das passagens do castelo, um grupo de sentinelas aguarda para nos escoltar até o andar de cima. Mas que tipo de ameaça pode existir para gente assim? Lauren, Shawn e o rei Michael controlam o fogo. Karen controla a mente. O que podem temer?

E nós vamos nos levantar. Vermelhos como a aurora. A voz de Normani, as palavras de meu irmão, o credo da Guarda Escarlate: tudo volta à minha cabeça. Já atacaram a capital, aqui facilmente pode ser seu próximo alvo. Eu posso ser um alvo. Normani pode me desmascarar na próxima transmissão pirata para sabotar os prateados. Vejam as mentiras deles, vejam esta mentira, ela diria, esfregando minha cara contra a câmera, me fazendo sangrar vermelho para todo mundo ver.

Tenho pensamentos cada vez mais loucos, um mais assustador que o outro. Este lugar está me deixando maluca logo no primeiro dia.

— Tudo correu bem — diz Karen soltando a mão do marido quando chegamos ao andar dos aposentos reais. Ele parece não se importar nem um pouco. — Levem as meninas aos quartos — ela conclui.

Sua ordem não foi dirigida a ninguém em particular, mas quatro sentinelas se separam do grupo. Seus olhos brilham atrás das máscaras negras.

— Eu levo — dizem Lauren e Shawn em uníssono para depois se entreolhar espantados. A sobrancelha bem delineada de Karen se ergue.

— Não seria apropriado.

— Eu acompanho Karla, Peter leva Keana — Lauren propõe rapidamente.

Shawn morde o lábio ao ouvir pelo que foi chamado. Peter. Provavelmente Lauren o chamava assim desde criança e o nome pegou. A marca do caçula: sempre nas sombras, sempre em segundo lugar.

O rei dá de ombros.

— Deixe-os, Karen. As garotas precisam de uma boa noite de sono, e os sentinelas dão pesadelos em qualquer dama — brinca o rei, acenando jocosamente a cabeça para os guardas. Eles não respondem. Permanecem calados como estátuas, e nem sei se têm autorização para falar.

Após uns instantes de silêncio tenso, a rainha dá meia-volta.

— Pois bem.

Como qualquer mãe, ela odeia quando o pai dos filhos a desafia. E como qualquer rainha, odeia o poder que o rei tem sobre ela. Uma combinação ruim.

— Para a cama — diz o rei num tom mais autoritário.

Os sentinelas permanecem com ele e o acompanham quando se separa da esposa. Acho que não dormem no mesmo quarto, o que não me impressiona.

— Onde fica meu quarto exatamente? — pergunta Keana, cravando os olhos em Shawn.

A meiga futura rainha sumiu. Foi substituída pela bruxa dissimulada que já conheci.

Shawn engole em seco ao encará-la.

— Ah, é por aqui, senhora… madame… senhorita.

Ele estende o braço para Keana, mas ela passa reto, rumo ao quarto.

— Boa noite, Lauren, Karla — suspira Shawn, fazendo questão de me encarar.

Despeço-me do príncipe apenas com um aceno. Meu noivo. Fico enjoada só de pensar. Apesar de parecer educado — simpático, até — ele é prateado. E filho de Karen, o que pode ser ainda pior. Seus sorrisos e suas belas palavras não conseguem esconder isso de mim. Lauren é tão ruim quanto, criada para governar, para perpetuar ainda mais esse mundo dividido.

Ela observa a figura de Keana desaparecer no corredor com um olhar tão demorado que chego a ficar estranhamente incomodada.

— Você escolheu uma campeã mesmo — murmuro quando tenho certeza de que ela não vai ouvir.

Lauren contrai o rosto e apaga seu sorriso para logo pôr-se a caminho do meu quarto. Subimos pela rampa espiralada e minhas pernas curtas penam para acompanhar as passadas largas da princesa, que parece não notar, perdida em seus pensamentos.

Por fim, ela me encara com os olhos em brasa como carvão.

— Não escolho nada. Todo mundo sabe disso.

— Pelo menos esperava por isso. Quando acordei hoje de manhã não tinha nem namorado.

Lauren recua um pouco diante das minhas palavras, mas não ligo. Não tenho paciência para sua auto piedade.

— E você sabe — prossigo — tem aquela história de que pelo menos vai ser rainha. Deve fazer bem ao ego.

A herdeira esboça um sorriso, mas não ri. Seus olhos escurecem à medida que ela avança e me inspeciona da cabeça aos pés. Aparenta mais tristeza que moralismo. Uma tristeza profunda insinua-se em suas pupilas verdes queimando em brasa. É como se fosse uma garotinha perdido em busca de alguém que a salve.

— Você é muito parecida com Shawn — diz após um longo intervalo que fez meu coração disparar.

— Porque nós dois somos noivos de um estranho? Temos isso em comum, mesmo.

— Os dois são muito espertos.

Não consigo conter uma careta. Lauren obviamente não sabe que não consigo passar numa prova de matemática para alunos de catorze anos.

— Ambos conhecem as pessoas e as compreendem, conseguem ver através delas.

Mais uma vez tenho que rir. A única coisa que consigo enxergar é a quantidade de dinheiro no bolso de alguém.

— Sim, claro. Fui ótima ontem à noite. Sabia desde o começo que você era a princesa herdeira.

Ainda não consigo acreditar que foi apenas noite passada. Que diferença um dia faz.

— Você sabia que era eu uma forasteira.

Sua tristeza me contagia e sinto sua dor.

— Bom, trocamos de lugar.

De repente o palácio já não parece tão belo ou maravilhoso. O metal, a pedra sólida: tudo tão severo, tão brilhante e tão artificial. Uma prisão. E, debaixo de tudo isso, o rumor elétrico das câmeras ligadas. Não chega a ser um som; é mais uma sensação sob minha pele, um estalo de energia que sou incapaz de controlar. Claro que isso tinha que voltar agora, no momento em que menos quero.

Mas a sensação vai embora tão rápido quanto veio. A eletricidade se converte numa vibração baixa e o mundo volta ao normal.

— Tudo bem?

Lauren me observa, confusa.

— Desculpe — balbucio, balançando a cabeça. — Só estava pensando. Ela assente, com um ar de arrependimento.

— Na sua família?

As palavras me atingem como um tapa. Eles nem passaram pela minha cabeça nas últimas horas. Umas poucas horas de seda e nobreza já me mudaram.

— Emiti uma dispensa militar para seus irmãos e seu amigo. E mandei um oficial até sua casa para informar aos seus pais onde você está — Lauren continua, com a intenção de me acalmar. — Não podemos lhes contar tudo, porém.

Tento imaginar a cena. Ah, olá! Sua filha agora é prateada e vai se casar com um príncipe. Vocês nunca mais a verão, mas enviaremos algum dinheiro para ajudar. Justo, não acham?

— Sabem que trabalha para nós e que tem de viver aqui, mas ainda pensam que é uma criada. Por enquanto, pelo menos. Quando sua vida se tornar pública, vamos pensar num jeito de lidar com eles.

— Posso ao menos escrever?

As cartas de Dinah eram sempre uma luz em nossos dias escuros. Talvez as minhas tenham o mesmo efeito.

— Acho que não.

Ela me leva até o quarto, que se ilumina e ganha vida assim que entramos. Luzes com sensores de movimento, suponho. Como no corredor, meus sentidos se aguçam. Tudo o que é elétrico arde no meu corpo. Sei de imediato que há pelo menos quatro câmeras no quarto, o que me incomoda muito.

— É para sua segurança. Se alguém interceptar suas cartas ou descobrir sobre você…

— E as câmeras estão aqui para minha segurança? — pergunto apontando o dedo para a parede. Elas penetram minha pele, registrando cada pedaço de mim. É enlouquecedor, e não sei quanto mais vou aguentar depois de um dia como hoje. — Estou trancafiada neste palácio infernal, cercada de muros, guardas, pessoas que me querem em pedaços… e não posso ter sequer um momento de paz no meu próprio quarto?

Em vez de responder, Lauren parece atônita. Seus olhos vasculham o lugar. As paredes não têm nada, mas talvez ela sinta as câmeras também. Como alguém pode não sentir a pressão desses olhos?

— Camila, não há câmeras aqui.

Desdenho seu comentário com um gesto. A eletricidade ainda roça minha pele.

— Não seja tola. Consigo sentir.

Agora sim ela parece perdida de vez.

— Sentir? Como assim?

— Eu…

As palavras morrem nos meus lábios quando me dou conta: ela não sente nada. Ela nem sabe do que estou falando. Como explicar, se não sabe? Como contar que sinto a energia pulsar no ar, como uma parte de mim? Como um sexto sentido? Será que ela vai entender? Alguém entenderia?

— Isso não é… normal?

Um lampejo nos seus olhos denuncia sua hesitação. Lauren tenta encontrar palavras para me dizer que sou diferente. Mesmo entre os prateados, sou um ponto fora da curva.

— Não que eu saiba — diz finalmente.

Minha voz soa frágil, até para mim.

— Acho que nada em mim continua normal.

Ela chega a abrir a boca para falar, mas pensa duas vezes. Não há nada que possa dizer que vá me fazer sentir melhor. Aliás, não há nada que possa fazer por mim em qualquer aspecto.

Nos contos de fadas, a garota pobre sorri ao se tornar princesa. No momento, não sei se voltarei a sorrir algum dia.



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