História Red Queen (Adaptação) - Capítulo 8


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Luta, Romance e Novela, Violência
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - Capítulo Oito


Estou na varanda, observando minha mãe se despedir de meu irmão MGK. Ela chora e o abraça forte. Dinah e Harry ficam ao lado para segurá-la caso suas pernas falhem. Sei que também querem chorar ao ver seu irmão mais velho partir, mas aguentam pela mamãe. Perto de mim, meu pai não diz nada; contenta-se em encarar o legionário. Mesmo em sua armadura de aço e tecido à prova de balas, o soldado parece pequeno diante de meu irmão. MGK poderia engoli-lo vivo se quisesse, mas não quer. Não esboça qualquer reação quando o legionário o toma pelo braço e o leva para longe de nós. Uma sombra o segue e paira sobre ele como asas negras terríveis. O mundo gira ao meu redor, então caio.

Aterrisso um ano depois, com os pés presos na lama batida debaixo de casa. Agora minha mãe abraça Harry e implora ao legionário. Dinah precisa arrastá-la. Em algum lugar, Sofia chora pelo irmão predileto. Meu pai e eu permanecemos em silêncio, poupando as lágrimas. A sombra retorna. Dessa vez, gira em torno de mim, bloqueando o céu e o sol. Aperto bem os olhos, na esperança de que ela vá embora.

Quando os abro novamente, estou nos braços de Dinah, abraçando minha irmã o mais forte que posso. Aperto-me contra seu peito e estremeço. Uma dor aguda na orelha me faz recuar. Vejo gotas de sangue na camisa dela. Sofia e eu furamos a orelha de novo com o presente que Dinah nos deu. Acho que fiz errado, como sempre faço tudo errado. Dessa vez, sinto a sombra antes de vê-la. Tenho raiva.

Sou arrastada através de um desfile de lembranças, de todas as feridas recentes ainda por cicatrizar. Algumas parecem sonhos. Não, pesadelos. Meus piores pesadelos.

Um novo mundo materializa-se diante de mim, formando uma paisagem sombria de fumaça e cinzas. O Gargalo. Nunca estive lá, mas ouvi o bastante para imaginar. A planície marcada por crateras de mil bombardeios. Soldados em uniformes vermelhos sujos encolhem-se nelas, como o sangue que preenche uma ferida. Flutuo sobre todos, examinando os rostos, procurando irmãos que perdi para a fumaça e os estilhaços.

MGK é o primeiro a aparecer, lutando com um inimigo de azul numa poça de lama. Quero ajudar, mas continuo a flutuar até perdê-lo de vista. Harry é o próximo, debruçado sobre um soldado ferido, tentando impedir que sangre até a morte. Nunca esquecerei os gritos de dor e frustração. Como com MGK, não consigo ajudar.

Dinah me espera na linha de frente, além mesmo dos guerreiros mais valentes. Está de pé no topo de pedra sem se importar com bombas, armas ou o Exército de Lakeland à espera do outro lado. Tem até a ousadia de sorrir para mim. Posso apenas assistir ao momento em que o chão sob seus pés explode, reduzindo-o a uma nuvem de fumaça e cinzas.

— Parem! — consigo gritar.

As cinzas tomam forma e se transformam na sombra. Fico envolta na escuridão até uma onda de lembranças me invadir novamente. A mão de Sofia. O recrutamento de Justin. Meu pai voltando quase morto da guerra. Elas se misturam num turbilhão de cores ofuscantes que fere meus olhos. Algo não está certo. As lembranças regridem através dos anos, como se assistisse à minha vida de trás para a frente. Então vejo acontecimentos de que não me lembro: meu primeiro encontro com minha irmã, aprender a andar, meus irmãos — ainda crianças — escondendo-me durante as broncas de nossa mãe. É impossível.

— Impossível — diz a sombra. Sua voz é tão cortante que tenho medo de que rache meu crânio. Caio de joelhos, e sinto um chão de concreto.

Depois tudo desaparece: meus irmãos, meus pais, minha irmãs, minhas lembranças, meus pesadelos. Concreto e barras de aço levantam-se ao meu redor. Uma cela.

Levanto a duras penas, com a mão na cabeça dolorida. A visão aos poucos retorna ao foco. Uma pessoa olha para mim do lado de fora. Uma coroa brilha em sua cabeça.

— Eu me curvaria, mas posso despencar — digo à rainha Karen, para logo em seguida me arrepender. Ela é uma prateada, não posso falar assim com ela. A rainha poderia me botar no tronco, negar comida, me castigar, castigar minha família. Não, me dou conta com horror crescente. Ela é a rainha. Pode simplesmente me matar. Pode matar todos nós.

Mas ela não parece ofendida. Pelo contrário, esboça até um risinho. Sinto náusea quando cruzamos olhares e caio de joelhos novamente.

— Essa reverência já está boa — ela silva, desfrutando da minha dor.

Luto contra a vontade de vomitar, alcanço as barras e cerro os punhos em torno do aço frio.

— O que está fazendo comigo?

— Não muita coisa agora. Mas isto… — ela passa as mãos pela grade e toca minha têmpora. A dor triplica sob seu dedo e caio contra as barras, quase inconsciente, sem conseguir levantar — … é para evitar que você faça qualquer idiotice.

As lágrimas despontam nos meus olhos, mas não as deixo cair.

— Tipo ficar de pé? — consigo replicar. Não aguento pensar com tanta dor, quanto mais ser educada. Ainda assim, dou um jeito de segurar uma torrente de palavrões.

Céus, Camila Cabello, controle sua língua.

— Como eletrocutar alguma coisa — ela dispara.

A dor diminui um pouco. Junto minhas forças e consigo chegar até o banco de metal. Só quando descanso a cabeça contra a parede fria de pedra é que me dou conta das palavras da rainha. Eletrocutar.

A lembrança retorna em pequenos fragmentos. Keana, o escudo elétrico, as faíscas e eu. Não é possível.

— Você não é prateada. Seus pais são vermelhos, você é vermelha, seu sangue é vermelho — resmunga a rainha andando em círculos diante da minha cela. — Você é um milagre, Camila Cabello, uma impossibilidade. Algo que nem eu consigo entender, e já vi você por inteiro.

— Era você? — praticamente vocifero enquanto ajeito minha cabeça. — Você estava na minha mente? Nas minhas lembranças? Nos meus pesadelos?

— Para conhecer alguém você tem que conhecer seus medos.

A rainha pisca como se eu fosse uma criatura idiota.

— E eu precisava saber com que tipo de coisa estamos lidando — conclui.

— Não sou uma coisa.

— O que você é ainda não vem ao caso. Mas tem muito o que agradecer, garotinha elétrica — zomba ela, com o rosto próximo às barras.

De repente, perco o controle das pernas. Elas perdem a sensibilidade, como se eu tivesse sentado em cima delas. Como se eu estivesse paralisada. O pânico só aumenta quando percebo que sequer consigo mexer os dedos do pé. Deve ser assim que meu pai se sente, quebrado e inútil. Não sei como levanto. Minhas pernas se movem sozinhas e me levam até as barras. Do lado de fora, a rainha observa. Meus passos seguem o piscar dos seus olhos.

Ela é uma murmuradora e está brincando comigo. Quando estou perto o bastante, a rainha agarra meu rosto. A dor na minha cabeça se multiplica. Solto um grito. O que não daria para o simples destino do recrutamento agora.

— Você fez aquilo diante de centenas de prateados, pessoas que vão fazer perguntas, pessoas com poder — ela sibila no meu ouvido com o hálito enjoativamente doce. — Esse é o único motivo para ainda estar viva.

Minhas mãos se contraem e desejo que o relâmpago apareça de novo, mas ele não vem. Ela sabe o que estou fazendo e gargalha. Estrelas explodem atrás dos meus olhos, ofuscando minha visão, mas eu a ouço sair num farfalhar de seda. Minha vista retorna bem a tempo de ver seu vestido desaparecer na esquina do corredor, deixando-me completamente só na cela. Mal consigo voltar ao banco de tanto esforço para não vomitar.

A exaustão chega em ondas. Começa nos músculos e penetra meus ossos. Sou apenas humana, e humanos não foram feitos para lidar com dias como hoje. Sobressaltada, descubro que meu punho está nu. A fita vermelha sumiu, foi retirada. O que isso significa? As lágrimas mais uma vez despontam, mas não vou chorar. Ainda tenho muito orgulho em mim.

Posso combater as lágrimas, mas não as perguntas. Não a dúvida que cresce no meu coração.

O que está acontecendo comigo? O que sou?

Abro os olhos e me deparo com uma policial me encarando do lado de fora da cela. Os botões de prata do uniforme brilham sob a luz fraca.

— Você tem que dizer à minha família onde estou — desabafo enquanto sento. Pelo menos eu disse que os amava, lembro, revivendo nossos últimos momentos.

— Não tenho que fazer nada a não ser levar você até lá em cima — responde ela, mas sem ser grossa. A policial é um poço de tranquilidade. — Troque de roupa.

De repente, noto que o uniforme meio queimado ainda pende do meu corpo. A policial aponta para uma pilha de roupas limpas próxima da grade. Ela vira de costas, permitindo-me ao menos uma vaga privacidade.

As roupas são simples, porém finas e mais macias do que qualquer outra coisa que tenha vestido. Camisa branca e calça preta, ambas decoradas com uma solitária faixa prateada de cada lado. Há sapatos também: um par de botas engraxadas que vão até o joelho. Para minha surpresa, não há sequer uma linha vermelha nas roupas. Por quê? Não sei. Minha ignorância está virando rotina.

— Tudo certo — resmungo, calçando a segunda bota.

Assim que a fecho, a policial se vira. Não ouço o tilintar das chaves, mas também não vejo a tranca nas grades. Não sei muito bem como ela pretende me tirar desta cela sem porta.

Contudo, em vez de abrir algum portão escondido, ela acena com a mão e as barras de metal se abrem. Claro. A carcereira é…

— Magnetron — diz ela mexendo os dedos. — E, caso esteja se perguntando, a moça que você quase fritou é minha prima.

Quase engasgo com o ar nos pulmões, sem saber o que responder.

— Desculpe — a palavra soa quase como uma pergunta.

— Peça desculpas por ter errado a mira — ela responde sem qualquer tom de ironia. — Keana é uma vaca.

— É de família?

Minha boca é mais rápida que meu cérebro e engulo em seco quando me dou conta do que disse. Só que, em vez de me bater por falar fora de hora, o rosto da policial se contorce num esboço de sorriso.

— Acho que você vai descobrir — ela diz, com seus olhos castanhos e suaves. — Meu nome é Ariana, das Casas Grande e Issartel. Siga-me.

Não preciso perguntar para saber que não tenho escolha.

Ela me conduz para fora da cela e subimos uma escada em espiral até nada menos que doze agentes de segurança. Sem uma palavra, eles me cercam numa formação bem ensaiada e me obrigam a ir com eles. Ariana permanece ao meu lado, marchando em sincronia com os outros. Todos mantêm as armas em punho, como se estivessem prontos para a batalha. Alguma coisa me diz que esses homens não estão aqui para me defender, mas para proteger os outros.

Quando chegamos aos belos andares de cima, as paredes começam a escurecer estranhamente. Tingem-se, digo a mim mesma, lembrando o que Sofia contou sobre o Palacete do Sol. Os cristais de diamante podem ser escurecidos para esconder o que não deve ser visto. Obviamente, devo estar nessa categoria.

Assusto quando percebo que as janelas mudam de cor não graças a algum mecanismo, mas por causa de uma agente ruiva. Ela faz um gesto com a mão diante de cada parede por que passamos, e alguma força que sai dela sombreia os vidros.

— Ela é uma sombria, manipuladora de luz — cochicha Ariana ao notar minha admiração.

As câmeras também estão aqui. Minha pele se arrepia ao perceber seu olhar elétrico escaneando meus ossos. Normalmente, minha cabeça doeria sob o peso de tanta eletricidade, mas a dor não veio. Algo no escudo me transformou. Ou talvez tenha libertado alguma coisa, revelado uma parte de mim que por muito tempo mantive sepultada. O que sou? De novo a pergunta ecoa na minha cabeça, mais ameaçadora que antes.

A sensação de eletricidade passa apenas quando cruzamos portas monstruosas. Os olhos não podem me ver aqui. O cômodo além das portas tem dez vezes o tamanho da minha casa com palafitas e tudo. E, diante de mim, com seus olhos flamejantes queimando os meus, está o rei, sentado num trono de cristais de diamante esculpidos num inferno de chamas. Atrás dele, uma janela cheia de luz do dia rapidamente escurece. Pode ser a última vez que vejo o sol.

Ariana e os outros guardas me fazem avançar, mas não ficam muito. Com apenas um olhar, a magnetron conduz os outros para fora.

O rei está sentado, com a rainha à esquerda e o príncipe e a princesa à direita. Recuso-me a encarar Lauren, mas sei que deve estar me observando, pasma. Mantenho o olhar sobre minhas botas novas, focando para não ceder ao medo de meu corpo virar chumbo.

— De joelhos — a rainha murmura com a voz suave como o veludo.

Eu deveria me ajoelhar, mas meu orgulho não deixa. Mesmo aqui, mesmo na frente dos prateados, na frente do rei, meus joelhos não se dobram.

— Não — contesto, reunindo forças para levantar a cabeça.

— Gosta da sua cela, menina? — Michael pergunta. Sua voz preenche o salão, e o tom de ameaça das palavras é claro como o dia. Ainda assim, fico de pé. Ele inclina a cabeça e me olha como se eu fosse um experimento intrigante.

— O que querem comigo? — reúno forças para perguntar.

A rainha aproxima o rosto de Michael.

— Já disse, ela é vermelha dos pés à cabeça…

O rei, porém, faz ela se calar com apenas um gesto, como se espantasse uma mosca. Ela morde o lábio e recua apertando as mãos. Bem feito.

— O que quero de você é impossível — dispara Michael. Um ardor tênue em seu olhar revela o desejo de me incinerar.

Lembro das palavras da rainha.

— Bom, não fico triste por você não poder me matar.

O rei ri.

— Não disseram que você era esperta.

Sou inundada de alívio. A morte não está à minha espera aqui. Ainda não.

Ele lança ao chão uma pilha de papéis, cheios de anotações. A primeira folha traz as informações de costume: meu nome, data de nascimento, pais e uma manchinha marrom de sangue. Também há uma foto minha, a mesma da identidade. Encaro aquela imagem de mim mesma, aqueles olhos aborrecidos, cansados de esperar na fila da fotografia. Como gostaria de mergulhar na foto, na garota cujos únicos problemas eram o recrutamento e a barriga vazia.

— Karla Camila Cabello Estrabao, nascida em 03 de março de 302 da Nova Era, filha de Alejandro e Sinuhe Cabello — Michael começa a recitar de cor, expondo minha vida. — Desempregada, será recrutada no próximo aniversário. De vez em quando vai à escola, suas notas são baixas, e tem uma lista de infrações que levariam à cadeia na maioria das cidades. Roubo, contrabando, resistência à prisão são apenas algumas. Resumindo, você é pobre, rude, imoral, limitada, simplória, amarga, teimosa: uma chaga em seu vilarejo e em meu reino.

Levo um tempo para assimilar o choque de palavras tão francas. Mas não contesto. Ele tem toda a razão.

O rei levanta. A essa proximidade, posso ver que sua coroa é extremamente afiada. As pontas podem matar. Ele prossegue:

— Contudo, você também é algo mais. Algo que não posso compreender. Você é tanto vermelha quanto prateada, uma peculiaridade com consequências fatais que é incapaz de entender. Então, o que faço com você?

Ele está me perguntando mesmo?

— Me deixe ir embora. Não vou dizer uma palavra a ninguém.

O riso agudo da rainha interrompe minha fala.

— E as Grandes Casas? Também farão silêncio? Vão esquecer a menininha elétrica de uniforme vermelho?

Não, não vão.

— Você sabe qual é meu conselho, Michael — a rainha acrescenta. — Resolve nossos dois problemas.

Deve ser um conselho ruim, pelo menos para mim, porque Lauren cerra o punho. O movimento chama minha atenção e finalmente a encaro. Ela permanece imóvel, resignada e quieta; certamente foi treinada para isso. Seus olhos, porém, ocultam uma chama. Por um instante, nossos olhares se cruzam, mas desvio o rosto antes que possa lhe pedir para me salvar.

— Sim, Karen — diz o rei, assentindo. — Não podemos matá-la, Camila Cabello.

A ideia de um “ainda não” permanece no ar. O rei continua.

— Portanto, vamos escondê-la à vista de todos, onde poderemos observá-la, protegê-la e tentar entendê-la.

O brilho nos seus olhos faz com que me sinta uma refeição prestes a ser devorada.

— Pai! — estoura Lauren.

Seu irmão — o príncipe um pouco mais alto — segura seu braço e contém novos protestos. O caçula tem um efeito calmante e Lauren volta à linha.

Michael avança, ignorando a filha.

— Você já não é Camila Cabello, uma filha vermelha de Palafitas.

— Então quem eu sou? — pergunto com a voz trêmula de tristeza, imaginando todas as coisas horríveis que podem fazer comigo.

— Seu pai é Ethan Titanos, general da Legião de Ferro, morto em batalha quando você era bebê. Um soldado vermelho a tomou para si e a criou na lama, sem jamais revelar sua verdadeira origem. Você cresceu acreditando não ser nada, e agora, por acaso, assumiu seu verdadeiro lugar. Você é prateada, senhora de uma Grande Casa perdida, nobre de grande poder e, um dia, princesa de Norta.

Por mais que me esforce, não posso conter um gritinho de surpresa:

— Prateada? Princesa?

Sou traída por meus olhos, que encaram Lauren. Uma princesa tem que casar com um príncipe, ou uma princesa.

— Você se casará com meu filho Shawn e fará isso sem passar nem um milímetro dos limites.

Juro que ouvi meu queixo bater no chão. Um mísero e vergonhoso som me escapa da boca enquanto procuro algo para dizer, mas, para ser honesta, não tenho palavras. Diante de mim, o príncipe mais jovem parece igualmente confuso, esbravejando tão alto quanto eu gostaria. É a vez de Lauren contê-lo, embora me observe.

O jovem príncipe finalmente consegue falar:

— Não entendo — dispara, se soltando de Lauren e caminhando na direção do pai. — Ela é… por quê?

Normalmente, ficaria ofendida, mas tenho que concordar com as ressalvas do príncipe.

— Quieto — sua mãe corta. — Você vai obedecer.

Ele a encara, dando toda a pinta de filho jovem que se rebela contra os pais. Mas a mãe endurece e o príncipe recua. Ele conhece a ira e os poderes dela tão bem quanto eu.

Minha voz sai fraca, mal dá para escutar.

— Isso parece um pouco… demais.

Simplesmente não há outra forma de descrever a situação.

— Você não quer fazer de mim uma nobre, quanto mais uma princesa — acrescento.

A expressão de Michael se abre num sorriso malicioso. Como sua mulher, tem dentes estonteantemente brancos.

— Ah, claro que quero, minha cara. Pela primeira vez na sua vida rudimentar, você tem um propósito.

Recebo suas palavras como um tapa na cara.

— Aqui estamos — prossegue o rei — nos primeiros estágios de uma rebelião inoportuna, com grupos terroristas ou exércitos libertadores ou seja lá como aqueles vermelhos imbecis chamam a si próprios, explodindo tudo em nome da igualdade.

— A Guarda Escarlate — suspiro. Normani. Dinah. Assim que os nomes vêm-me à cabeça, rezo para que a rainha fique longe dos meus pensamentos. — Eles bombardearam… — A capital, sim — o rei me interrompe, dando de ombros e coçando o pescoço.

Meus anos de ladra me ensinaram muitas coisas. Quem transporta mais dinheiro, quem não vai notar você e quem é mentiroso. O rei é um mentiroso, concluo ao vê-lo dar de ombros mais uma vez. É uma tentativa de fingir desdém, mas não funciona. Alguma coisa o faz temer Normani e a Guarda Escarlate. Alguma coisa muito maior que meia dúzia de explosões.

— E você — retoma, inclinando-se para mim — pode nos ajudar a acabar com isso de vez.

Se não estivesse tão assustada, poderia até cair na gargalhada.

— Casando com… Perdão, qual é seu nome mesmo?

As bochechas do caçula ficam pálidas. Suponho que seja a maneira de os prateados corarem, afinal, o sangue deles é prateado.

— Meu nome é Shawn — diz ele com calma e suavidade. Como Lauren e o pai, seu cabelo é castanho brilhante, mas as semelhanças param por aí. Enquanto os dois primeiros são aparentemente mais fortes e olhos verdes claros, Shawn é um pouco mais magro e tem olhos castanhos. — E ainda não entendo.

— O que nosso pai quer dizer é que ela representa uma oportunidade para nós — Lauren intervém para explicar. Diferente do irmão, sua voz é forte e impõe respeito. É a voz de uma rainha. — Se os vermelhos a virem elevada ao nosso patamar, uma prateada de sangue, mas vermelha de criação, talvez se acalmem. É como nos antigos contos de fadas: uma plebeia que se torna princesa. Ela é a campeã dos plebeus. Os vermelhos podem se espelhar nela, e não nos terroristas.

Então Lauren conclui num tom mais ameno, mas suas palavras são mais importantes que todo o resto.

— Ela é uma distração.

Só que isto não é um conto de fadas, nem mesmo um sonho. É um pesadelo. Vou passar o resto da vida presa, forçada a ser outra pessoa. Forçada a ser um deles. Um fantoche. Um espetáculo para manter o povo feliz, quieto e oprimido.

— E, se criarmos uma boa história, as Grandes Casas também ficarão satisfeitas. Você é a filha perdida de um herói de guerra. Que honra maior poderíamos lhe dar?

Encaro seus olhos com uma súplica silenciosa. Lauren já me ajudou uma vez, talvez possa fazer o mesmo de novo. Mas ela balança a cabeça leve e vagarosamente. Não pode me ajudar aqui.

— Isto não é um pedido, Lady Titanos — avisa Michael, usando meu novo nome e meu novo título. — Você vai levar a farsa adiante e vai fazer direito.

A rainha Karen volta seus olhos claros para mim.

— Morará aqui, como é costume com as noivas reais. Sua agenda diária será feita de acordo com minha vontade, e você será instruída em toda e qualquer coisa que possa lhe tornar… — ela umedece os lábios enquanto procura a palavra — … apropriada.

Nem quero saber o que isso quer dizer.

— Você será constantemente avaliada — a rainha prossegue. — A partir de agora você vive no fio da navalha. Um passo em falso e sofrerá as consequências.

Minha garganta se fecha, como se pudesse sentir as correntes em que o rei e a rainha me prendem.

— E a minha vida…?

— Que vida? — grasna Karen. — Menina, você tirou a sorte grande.

Lauren aperta os olhos por um instante, como se o riso da rainha lhe causasse dor.

— Ela se refere à família dela. Camila… A garota tem uma família.

Sofia, mamãe, papai, meus irmãos, Justin: uma vida arrancada de mim.

— Ah, isso — bufa o rei. — Suponho que vamos pagar uma pensão para ficarem calados.

— Quero que meus irmãos sejam dispensados da guerra.

Pela primeira vez tenho a sensação de ter dito a coisa certa.

— E meu amigo Justin Bieber. Não deixe os legionários o levarem.

Michael responde em meio segundo. Um punhado de soldados vermelhos não significa nada para ele.

— Feito.

A resposta soa mais como uma sentença de morte que como um acordo.



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