História Relatos de uma depressão - Capítulo 5


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Colegial, Depressão, Diário, Drama
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Palavras 1.597
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Festa, Poesias, Romance e Novela, Yaoi, Yuri
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Spoilers, Suicídio, Transsexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 5 - 5 de setembro de 2016



Querido amigo, hoje foi um dia horrível. Para falar a verdade, hoje o dia passou-se quase sem incidentes ruins, exceto o fato de eu ter esquecido que era para entregar a redação sobre eutanásia hoje e tive que fazer em um tempo recorde de menos de meia hora direto na folha definitiva. Não sei se ficou bom. Todavia, meu dia ruim se deve a eu mesma. Há dias em que eu acordo e consigo estampar um sorriso no rosto ou mesmo ficar de bom humor, rir. Ao contrário do que as pessoas pensam, gente que sofre de depressão também tem dias razoáveis e riem. No entanto, hoje devo ter exibido meu bico durante todo o tempo. 
Minha mãe bateu na porta do quarto por volta das 5:40 para eu acordar e me arrumar para ir à escola, mas dispensei-a e só levantei às 6:00, quando o alarme tocou. Como sempre, tomei banho, me vesti, inaugurei um colar lindo de dragão que minha mãe encomendou pela internet e tomei café. Como ainda eram 6:59 e eu detesto chegar na escola antes da oração, inventei uma necessidade de ir ao banheiro. Saí de lá 7:07, peguei minhas coisas e meu padrasto foi me deixar na escola. 
Depois que acabou a oração, eu e os outros alunos que chegaram depois do toque fomos liberados para irmos para as nossas respectivas salas e subi 4 lances de escada, pois a sala do segundo ano do ensino médio fica no último andar, junto com as do terceiro ano. 
Confesso que estava morrendo de sono, quase dormindo, mas tenho medo de os professores brigarem comigo, então nunca durmo na aula. Falei um pouco com Felícia, que passou o resto das aulas dormindo, pois, ao contrário de mim, ela não liga; copiei as anotações de química, escrevi a letra toda de "Why'd you only call me when you're high", de Arctic Monkeys, no meu bloco pessoal, pois não conseguia tirá-la da cabeça, ela tocava de novo, e de novo e de novo, como uma vitrola quebrada, mas a um ritmo cada vez mais acelerado, e isso estava me deixando nervosa e angustiada. Esperava que escrevendo isso fosse diminuir, mas estava redondamente enganada.
No intervalo, fui para a secretaria entregar o papel para participar dos campeonatos, que aliás, era para ter entregue quinta-feira, mas dei sorte e eles aceitaram mesmo assim. No caminho para lá, me lembrei do remédio. Tinha esquecido de tomar o Daforin hoje mais cedo. Liguei para a minha mãe 3 vezes, mas chamou até cair, ativei o 3g e liguei do Whatsapp, mas ela também não atendeu. Já estava irritada, escrevendo uma mensagem, quando ela retornou. Falei o que aconteceu e pedi que ela levasse o remédio na escola, mas ela achou melhor tomar depois do almoço. Depois comprei um brownie e comi no começo da aula de biologia. Sou realmente viciada nesse doce e compro todos os dias em que venho para a escola.
Continuei com sono o resto das aulas e quase dormi nas de biologia, pois além de ter achado tudo terrivelmente tedioso, o professor utilizou slides e apagou a luz. Devo dizer que o medo de brigarem acabou sendo ruim para mim, pois estava muito nervosa, com vontade de chorar, sentindo uma angústia no peito, fantasiando com "E se..."s e minha mente tocando uma versão muito rápida de "Why'd you only call me when you're high", tudo ao mesmo tempo. Eu não consegui me concentrar na aula e também não tive paz. Meu sono nessas horas vem para me fazer sair disso por algumas horas.
O principal motivo de eu dormir sempre que posso ou ficar no quarto o dia todo para tentar dormir, é para fugir da realidade. Na última sessão, meu psicólogo disse que eu não deveria fazer isso, pois só estou fugindo dos problemas ao invés de tentar solucioná-los.
Talvez você queira saber que tantos "E se..." são esses. Pois bem, eu não lido bem com decepções e falhas. Se algo de ruim acontecer, por mais que eu saiba que era algo que não estava somente ao meu alcance, eu começo a imaginar "E se" eu tivesse feito diferente? "E se" eu não tivesse dito aquilo? "E se" eu tivesse feito de outro jeito, como eu estaria agora?; assim começa o meu inferno. Começo com um "E se", que dá sucessão à dezenas de outros "E se", posso pensar em centenas de possibilidades em questão de minutos, mas para voltar ao normal, levam horas, até mesmo dias. Na maioria das vezes isso me deixa com dor de cabeça, ou vontade de vomitar, ou de chorar, ou ainda uma combinação dessas consequências. Contudo, já aconteceu pior. Eu já fiquei rindo com a falsa satisfação da minha fantasia ao mesmo tempo que estava inquieta e com muita, mas muita vontade de chorar por dentro, por quê a minha realidade não era assim. É agoniante ter esses dois estados ao mesmo tempo.
Na última aula, fiz uma redação sobre eutanásia, pois se n entregasse até as 12:30, ia ficar sem a nota parcial. Também recebi minha redação do simulado. Tirei 680, decepcionante. 
Depois de ir para casa, almoçar, tomar remédio, postar uma foto no instagram e me arrumar, fui para a consulta de retorno na minha ginecologista, mas antes passamos em um laboratório para pegar os exames da minha mãe e me fizeram descer do carro, onde estava quase dormindo, para colocar meu nome na fila de espera enquanto me esperavam na sorveteria ao lado.
Após tomar uma bola de sorvete de creme com passas e outra de delícia de morango, eu peguei meu moletom da Sonserina, As vantagens de ser invisível e os exames, meus e da minha mãe, que havia deixado no carro e voltei para a clínica. 
Não vou conseguir lembrar de tudo o que pensei, pois era muita informação a uma velocidade assustadora, mas basta saber que minha mente estava ainda mais caótica do que de manhã e eu estava me sentindo muito triste. Talvez fosse um pouco de influência de As vantagens de ser invisível, que levei para ler enquanto esperava na recepção. Eu me vejo muito no Charlie, me identifico demais, e ainda mais por ser escrito em forma de diário eu consigo mergulhar na história com muito mais facilidade e me sentir como o Charlie.
Durante a consulta, a ginecologista analisou os exames da minha mãe e os meus. Ambos normais. Ela pediu para tirar o ferro dos meus sutiãs, pois, provavelmente, é isso o que está causando minhas dores nos seios. Perguntei a ela sobre o anticoncepcional bioidêntico, apesar de não poder tomar, uma vez que que antidepressivo anula o efeito do anticoncepcional. Mesmo ela tendo explicado e falado sobre os dias férteis, pude perceber um tom moralista, de quem acha que ainda sou muito nova para iniciar minha vida sexual, mas só quem pode dizer o meu tempo sou eu. Já estávamos saindo da sala quando, felizmente, lembrei da solicitação de exame de tipagem sanguínea, para fazer minha carteira de identidade, já que perdi a primeira via.
Quando saímos da sala, meu padrasto já estava esperando em uma poltrona na recepção e fomos embora. Antes de irmos para casa, passamos em uma farmácia para a minha mãe comprar alguns remédios. Você não faz ideia do meu desconforto. Não sei por quê, mas não me sinto bem em farmácias, me deixa incomodada, ao passo que sou neutra em relação a hospitais e cemitérios.
Ainda paramos no shopping perto de casa para Bob comprar vitamina C, pois tinha esquecido de comprar na outra farmácia, sacar dinheiro e para eu olhar uns óculos de grau na Chilli Beans e comprar um caderno, mas quando chegamos, as lojas estavam acabando de fechar, então apenas sacaram dinheiro.
Eu estava me sentindo deslocada de tudo e todos, ainda do mesmo jeito que de manhã e à tarde. Ao chegar em casa, fui direto para o quarto. Mexi um pouco no tablet, ouvi duas músicas que foram mencionadas em As vantagens de ser invisível: Vapour trail, de Ride, e Scarborough fair, de Simon & Garfunkel.
Quando deu 22:00, minha mãe me chamou para jantar. Ela fez uma das minhas sopas preferidas: Caldo verde. Antes de levantar e ir comer, abri o celular para olhar de quem era a mensagem que havia chegado no Whatsapp, e era de Mirna. Ela me desejou feliz dia do irmão, pois me considera sua irmã mais velha desde que a acolhi na minha casa após ela ter sido expulsa da dela com apenas 14 anos, e falou que não deu mais cedo por quê estava no hospital depois de uma tentativa de suicídio. Outra tentativa.
Desejei feliz dia do irmão à Mirna também e perguntei como ela estava, em qual hospital ela estava, qual era o horário de visita... Enquanto isso, minha mãe me chamava para jantar pela quarta vez. Saí do quarto, fiz meu prato, falei o que aconteceu, minha mãe perguntou em qual hospital ela estava e eu falei que estava tentando descobrir enquanto ela ficou gritando para eu ir jantar. Felizmente, Mirna respondeu que eatava bem e que já estava em casa. Repeti o prato,levei os pratos de todo mundo a pia, escovei os dentes e fui para o quarto.
Admito que me sinto um pouco tentada, ainda mais depois do dia de hoje. Parece mais real e alcançável quando acontece com alguém próximo, com a nossa idade. De alguma forma, você toma consciência de que o mesmo que aconteceu com alguém, pode acontecer com você também. Nenhuma alteração hoje.
Até a próxima carta. 
Agradecidamente, 
Victoria Parks. 
 



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