História Relatos de uma sobrevivente - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Apocalipse, Zumbi
Exibições 5
Palavras 2.386
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - E esse foi o começo de tudo


Início de maio, 2015.

Estávamos na sala de aula antes de tudo começar. A professora de literatura lia algum texto da Clarice Lispector enquanto era ignorada por grande parte da sala. Eu desenhava algumas flores no caderno enquanto escutava partes do poema sem entender nada. Estava difícil me concentrar no que a professora dizia por causa do barulho das conversas. Havia alguns rumores sobre a doença que aparecia nos jornais, diziam que tinha chegado nas Américas. Alguns contavam histórias do tipo “o vizinho do irmão de um amigo do meu pai conhece alguém com os sintomas!”, o que não significava muita coisa já que a maioria dos sintomas eram comuns em outras doenças já conhecidas.

A professora suspirou ao perceber que praticamente dava aula para as paredes somente. Escreveu no quadro as páginas do livro para um trabalho de casa e se sentou, desistindo de dar aula, já que faltava pouco para sua aula acabar.

― Vamos matar aula, Ket...Por favor...― disse meu amigo Victor se aproximando de mim.

― As provas são semana que vem, não dá pra fazer isso agora. ― sussurrei sem tirar o olhar do desenho.

―Você não está nem tentando fingir que estava prestando atenção, pare! ― Ele revirou os olhos e deitou a cabeça na mesa.

    Dei uma risada fraca e fechei o caderno.

    Dei um pulo na cadeira ao ser surpreendida por um som de um carro freando repentinamente, seguido de uma batida. No mesmo instante vários alunos foram em direção a janela. E esse foi o começo de tudo…

    Tentei me levantar para ver, mas fui empurrada pelos alunos, então desisti e fiquei ali mesmo. Alguns gritaram para alguém ligar para ambulância porque alguém havia se ferido. Os que estavam na janela antes do acidente viram alguém andando em meio aos carros, desorientado, talvez bêbado, e que agora essa pessoa estava sangrando no chão enquanto as pessoas na rua pediam por ajuda.

    Alguns alunos saíram da sala para ver o que tinha acontecido, mesmo com a professora brigando.

    Da sala dava para ouvir a gritaria dos alunos tentando descer, mas os inspetores fecharam as portas do bloco A para ninguém descer. E os outros prédios eram mais distantes, então os alunos de lá nem deviam saber do acidente.

    Só então percebi que Victor tinha sumido, ele adora uma confusão.

― Não estão deixando ninguém descer, voltem! ― avisou a Professora aos alunos nos corredores.

    Victor entrou correndo na sala e se sentou ao meu lado, sorriu todo animado com a confusão e explicou que a enfermaria da escola iria cuidar do homem machucado enquanto a ambulância não chegava.

― Por que está tão animado com um acidente? Isso não é divertido.

― Não me entenda mal, espero que ele fique bem, mas é difícil acontecer algo de diferente nessa droga de escola!

O sinal bateu, avisando que já eram 9h e outro que professor daria aula. Mesmo com as conversas sobre o acidente, a aula prosseguiu relativamente bem. A ambulância chegou 10 minutos depois do atropelamento, houve muito barulho na hora que ela chegou, ninguém na sala tinha entendido o porquê, pensamos que talvez o paciente tivesse acordado e feito confusão por estar desorientado após o acidente.

Após a aula de geografia ― que o professor ficou falando sobre a África e disse suas teorias sobre a nova doença de lá ― o sinal tocou avisando que era 10h40, intervalo.

Victor e eu nos sentamos para lanchar perto de onde ficava a enfermaria, onde tinha alguns bancos. Nosso amigo, Pablo, se aproximou falando que teve mais feridos no acidente, que da janela da sala dele dava pra ver algumas pessoas feridas, ele achava que o vidro tinha quebrado, e que os fragmentos machucaram as pessoas que passavam na hora.

Pablo passou grande parte do recreio meio pra baixo porque sua namorada tinha ido embora mais cedo para ir no médico.

― Vamos pensar positivo, ela tá bem, né? Você vai ver ela amanhã!― disse passando os dedos em seu topete, o desarrumando todo.

― Para de drama, querido Estou sozinho e não estou reclamando!

― Como sempre tão compreensivo, Victor...― Pablo e eu continuamos a conversa ignorando totalmente o Victor.

    Faltava pouco para o intervalo acabar e um estrondo veio da enfermaria, fazendo todos olharem para lá. Parecia que algo tinha sido derrubado.

    Batidas inconstantes vinham da porta da enfermaria.

    Alguns alunos tentaram se aproximar mas os inspetores os proibiram, um dos inspetores subiu a rampa que dava para a enfermaria para ver se algo tinha acontecido. A porta rangeu ao se abrir, de onde estávamos não dava para ver a parte de dentro da enfermaria, apenas o inspetor. Mas dava pra sentir um cheiro podre vindo de lá.

― Ei? Alguém? ― perguntou sério. Mas parecia que ninguém estava lá. O que era estranho já que costumavam ficar duas enfermeiras e uma secretaria.

    Um estranho grunhido começou a sair do local. O inspetor ficou paralisado sem dizer nada, os alunos ali presentes ficaram confusos e apreensivos. Comecei a dar curtos passos em direção à porta, mas Pablo colocou o braço na minha frente, me parando.

― S-sangue...― murmurou o inspetor.

Algo saltou em cima dele, o puxando para enfermaria; todos começaram a correr e gritar. Pablo agarrou minha mão e me guiou em direção a uma das salas. Tentei olhar para trás e vi o corpo do inspetor sendo puxado para dentro da enfermaria e duas mulheres começaram a sair de lá, elas estavam feridas e sujas de sangue. Foram pra cima de um dos alunos os  mordendo.

    Gritos vinham de todas as direções, o que me fazia pensar que não era somente ali que alguém tinha sido atacado.

    Sempre tive dificuldade para correr rápido, o Pablo me puxava de forma bruta, machucando meu braço, numa tentativa de me fazer acompanhá-lo, mas estava difícil. Tropecei em algo, me soltando dele. Meus óculos acabaram caindo, deixando minha visão totalmente embaçada, antes que eu tentasse procurar, alguém me puxou e me entregou o óculos. “Corra!” apenas vi um borrão loiro que parecia ser um menino bem mais alto que eu.

― Ket, venha! ― Pablo tentava manter a porta aberta até que eu entrasse. Trancamos a porta e nos sentamos no chão para respirar um pouco.

Havia muitos alunos e eu não conhecia metade. Quando eu comecei a recuperar o ar percebi que algo estava faltando.

―Victor? ― Olhei em volta o procurando,ao perceber que ele não estava lá virei para o Pablo e perguntei desesperada ― Pablo, cadê ele?

―Não sei, perdi ele de vista durante a correria....

Meus olhos se encheram de lágrimas, um dos meus melhores amigos havia sumido durante um ataque de algo que não fazíamos ideia do que era. Abracei o Pablo e fiquei junto a ele enquanto os outros alunos planejavam o que deviam fazer. Estava muito nervosa e não aguentava mais ficar naquela pequena sala do bloco E, a falta de espaço me deixava com falta de ar e meu coração batia cada vez mais rápido, precisava sair logo de lá.

―Ok! Alguém mais vai participar do plano? ― perguntou um dos alunos do ensino médio. Alguém gritou “Que plano?” ― Para os que não ouviram, eu e uns caras iremos sair e atacar aquela “coisa” que atacou o inspetor, quem topa?

    Um silêncio constrangedor tomou o local, os garotos consideraram que ninguém mais queria então começaram a sair mesmo desarmados. Disseram que tentariam pegar algumas facas na cozinha da escola, no Bloco A, que era longe daqui.

    Aquele lugar cheio de gente me enchia de agonia, a cada segundo eu ficava mais desesperada para sair. Quando o último garoto saiu, eu me levantei rapidamente e saí mesmo com o Pablo gritando comigo. Olhei em volta e não vi ninguém além dos quatro alunos que estavam na sala comigo. Mas ainda havia muita gritaria vindo de todos os lados. Eles foram em direção ao Bloco A, de onde vinha a maior concentração de barulho. Fui até a enfermaria por curiosidade. No caminho vi manchas de sangue do aluno atacado, mas não havia nenhum sinal dele nem das mulheres.

    Ao chegar na porta senti um cheiro forte de sangue e vômito. Coloquei a mão no rosto ao sentir enjoo, prendi a respiração e entrei. Tinha manchas de sangue da porta até a sala da secretária, provavelmente do inspetor. Continuei andando e fui para a sala de exames. Vários remédios e ataduras estavam jogados no chão perto da porta, cheios de sangue. Havia várias folhas e equipamentos de  primeiros-socorros jogados pela sala, sangue e vômito na pia. Virei o rosto sentindo nojo e sai de lá para poder respirar melhor. Quando ia sair da enfermaria ouvi um barulho vindo da sala da secretária. Ao entrar lá me deparei com o inspetor no chão, gemendo de dor, seu corpo estava com várias marcas necrosadas de mordidas, além de arranhões pelo corpo. Coloquei as mãos na boca para não gritar e saí de lá o mais rápido possível, tomei um susto ao me esbarrar em alguém.

―Você está louca? Por que saiu da sala? ― O Pablo estava com a voz trêmula e irritada.

    Antes que eu pudesse falar algo, um grito veio de algum local próximo, nos fazendo virar. Alguns alunos e professores estavam correndo em direção às salas, alguns conseguiram entrar, outros ficaram trancados do lado de fora, desesperados pedindo por ajuda.

    Havia várias pessoas machucadas e chorando. Os gritos não paravam, pareciam vir da entrada da escola. Os que não conseguiram entrar nas salas correram para o Bloco D que ficava perto da quadra.

― Por que estão parados aí? Fujam! A entrada da escola está cheia deles. ― gritou o professor de Educação Física, Luiz, que estava guiando alguns alunos para o outro prédio.

    Pablo agarrou meu braço e corremos para o Bloco C, onde ficavam as crianças, estava tudo trancado e parecia estar vazio então continuamos correndo. Eu queria apenas entender o porquê dele estar correndo em direção ao centro da confusão. Ao chegarmos no bloco A ficamos paralisados com a cena.

    Havia inúmeros corpos no chão, pessoas sendo devoradas, alguns usavam cadeiras e mesas como se fossem armas. Uma gritaria sem fim.

A entrada da escola estava aberta e dali, vinham ainda mais criaturas. Comecei a chorar e o Pablo me empurrou quando uma das criaturas correu em nossa direção. Corremos para os portões do prédio do Bloco A, no caminho avistei um dos quatro garotos que saíram da sala comigo, no chão, todo machucado, com a faca ainda na mão. Os portões estavam trancados, mas havia alguns alunos ali, cuidando para que nenhuma criatura entrasse, gritamos até que alguém finalmente abriu e entramos antes que a criatura nos alcançasse. Subimos a escada correndo enquanto ouvíamos o portão sendo fechado atrás de nós, fomos até o segundo andar, tinha vários alunos machucados sendo tratados por alunos e professores. Nossa professora de Literatura, Tacih, nos viu e gritou nosso nome.

― Se machucaram? Precisam de atendimento? Estão bem? ― Ela nos puxou para uma das salas e nos sentamos. Muita gente estava no celular ligando para família, alguns choravam de alívio pelos parentes estarem vivos, outros choraram de desespero porque ninguém atendia.

― Não se preocupe...Você sabe o que está acontecendo? ― perguntei segurando a mão do Pablo.

― Mais ou menos...― suspirou Tacih ― Um pouco depois das 9h a ambulância chegou, eu havia descido para ir para sala dos professores. O homem atropelado aparentava estar quase morto, seu batimento estava muito fraco, até que do nada ele pulou da maca gritando, puxou uma das enfermeiras da escola, a mordendo. Outra enfermeira a levou para enfermaria, para fazer um curativo e passar algo para não infeccionar. Nisso, o paciente continuou agitado e arranhou alguns dos caras da ambulância, mas conseguiram o conter e foram embora.

― Por isso na enfermaria estava com sangue e remédios no chão… ― lembrei do que vi ao entrar lá, Tacih balançou a cabeça confirmando e voltou a falar.

― Depois de um tempo fui na enfermaria ver como a moça estava, apresentava febre e vômito com sangue, a outra enfermeira ficou cuidando dela… Voltei a sala dos professores e na tv passava uma reportagem dizendo que algumas pessoas contaminadas por aquela doença, agora nomeada de “Sansommeil”, estavam com erupções na pele e alguns tiveram até convulsões. Em cerca de meia hora as reportagens só foram piorando: “Sansommeil apresenta novos síntomas”, “Sansommeil está apresentando mutações rapidamente”, “Na África já foram mais de 200 mortos”, “Hospitais estão sendo atacados por pacientes”, “Ataque zumbi? Muitos alegam que pacientes mortos voltaram à vida e atacaram médicos e outros pacientes.”

As mãos de Tacih tremiam e sua voz ficava cada vez mais trêmula.

Suspirou e continuou:

― Em grande parte do mundo tiveram ataques relatados, inclusive aqui no Brasil. Às 11h teve o ataque na enfermaria, poucos segundos depois os portões da escola ficaram lotados desses “mortos-vivos”, vários foram mortos nessa confusão, as ruas estão lotadas dessas criaturas, estão em todos os lugares...Os professores mandaram os alunos para os Blocos A, C e D por serem os únicos a terem portões de ferro. O Bloco C foi o primeiro a ser trancado por causa das crianças, ninguém pode entrar lá.

― Ficaremos aqui sem fazer nada? O que o governo está fazendo?

― Pablo, por enquanto a merda do governo apenas disse para ficarmos em casa nos protegendo. Não sabemos como isso se espalha, nem sabemos tratar. O governo disse que está tudo sob controle e que é para o povo se tranquilizar... Que porra eles consideram que seja “sob controle”?

    Ela se levantou e foi em direção aos filhos dela que estavam lá, eles aparentavam estar fisicamente bem, mas o caçula soluçava de tanto chorar.

― Ket! ― Olhei para porta e vi Victor entrando na sala, sorrindo.

― Seu idiota, desgraçado... ― bati no seu braço ― Por que sumiu dessa forma?

    O abracei forte, me segurando para não chorar.

― Durante a confusão vi vocês correndo, mas os perdi de vista, então fui com um pequeno grupo que foi em direção ao Bloco A. Ao chegarmos vimos uma incrível cena de várias pessoas lutando contra esses “zumbis”, então corremos para o prédio.

― Você fala tudo isso sorrindo… Eu estava desesperada achando que você tinha morrido!

 


Notas Finais


Obrigada por lerem, espero que tenham gostado!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...