História Relicário de Lembranças - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Inuyasha
Tags Era Atual, Sesshoumaruxkagome
Exibições 49
Palavras 5.882
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Demorei mas cheguei! Hehe

Esqueçam tudo o que eu falei, essa história é completamente diferente do que eu tinha dito que ia fazer. Só mantive o shipp, já que eu já tinha prometido um SesshyKag, então vamos lá:
Relicário de Lembranças está inserida num universo que, apesar de também ser Era Atual, é um tanto mais ingênuo que o de Epicentro (pra quem leu), mesmo que aqui eu esteja planejando um rumo um pouco mais sombrio. Haverá hentai e alguma coisa parecida com romance sim, mas eu não coloquei como gênero porque não serão o foco da história, RDL vai tratar principalmente de crises de identidade, creio eu. Kkk E sim, o Sesshy vai demorar um pouquinho a aparecer, mas eu garanto que ele será bem introduzido ( ͡° ͜ʖ ͡°)
Estou tentando narração em 1ª pessoa, então paciência comigo, ok? Os 2 primeiros capítulos estão um pouco confusos e apáticos por causa da situação da Kagome, mas a partir do terceiro melhora, prometo!

Até as notas finais, pessoal
Boa leitura!

Capítulo 1 - Fuga


Tento abrir os olhos como se fosse a primeira vez, e de um jeito estranho, sei que isso é verdade.

O vai e vem da respiração, o esforço para movimentar levemente os dedos, o peso que sinto.... Tudo isso é familiar, mas também... há um vazio…

Eu não me lembro de já ter realizado esses movimentos — não me lembro de ter feito qualquer coisa antes deste instante — mas sei que posso fazê-los. Eu sei como abrir os olhos, tenho absoluta certeza. Apenas não faço ideia como sei.

E meu corpo pesa tanto...

As pálpebras... minhas pálpebras parecem pesar toneladas. O único fio de consciência que eu tenho... vai, se es... vai. E é tão doloroso estar acordada, ainda que de olhos fechados.... Sei que não deveria ser assim, sei que alguma coisa está errada comigo, mas não sou capaz de dizer o quê. Pensar... dói.

Nada.

Antes desse momento, eu estava lá. Um lugar repleto de nada, que me acolheu. Onde essa dor insana não existiria, e meu corpo não estaria tão pesado. Tudo o que eu devia fazer é voltar para dentro daquele lugar, estar lá e abraçar cada pedaço dele porquê.... Bem, não tenho motivos para ficar. Não tem sentido estar aqui e sentir essa dor que nem sei de onde vem, então acho que eu posso só...

— Kagome?

Uma voz. Essa voz...

Há algo nela, algo de suave e acolhedor que me faz acha-la quase familiar. Eu me lembro dela? Acho que não, mas... de algum jeito ela me traz uma sensação de amparo, vaga e distante. De quem é essa voz? Quem é essa Kagome?

Dói.

Dói fazer essas perguntas, mas minha curiosidade é ainda maior que a dor. Me incomoda não ter as respostas, afinal eu sinto que deveria saber dessas coisas. E... a voz.... Talvez ela saiba.

— Kagome?

Chamam novamente, e dessa vez, eu luto contra o peso das minhas pálpebras.

Acordo.

Dou de cara com um par de olhos grandes sobre mim. Eles têm uma cor estranha e bonita, quase violeta. São confortáveis. Faz bem olhar para eles, embora eu não os reconheça.

Mas... a... dor....

Cerro meus próprios olhos como se isso pudesse levar a dor embora, mas sei que não vai adiantar. Somente o vazio, aquela imensidão de nada faria isso por mim. De repente, estar lá parece muito mais tentador. E eu realmente teria escolhido ir, se não fosse...

— Ka-Kagome? Ah meu... Deus! Meu Deus, alguém chame um médico! Ela acordou, ela acordou!

Médico?

Então eu estava certa, tem mesmo algo errado comigo. Deve ser a dor, tem de ser ela, e o médico vai vir e fazê-la passar. Calma. Paciência! Quando ele chegar, eu vou poder descobrir quem é o dono da voz.

Onde ele está, aquele moreno bonito dos olhos embargados? Quero vê-lo. Quero que ele diga porque me chama de Kagome, e porque parece tão chocado em me ver. Será que ele me conhece?

O vazio ainda está próximo, quase tão perto como se estivesse ao alcance da minha mão. Mas agora, eu não quero mais estar dentro dele. Eu posso suportar a dor. Eu realmente posso, e vou, esperar o rapaz bonito voltar.

E ele não demora a chegar, com um sorriso bobo esticado de orelha a orelha. Vem junto de uma mulher e um homem; ela, uma senhorinha enrugada de cabelos grisalhos, e ele um jovem adulto loiríssimo, ambos vestidos de branco. Nunca os vi antes, mas sei com toda certeza que são o médico e a enfermeira.

— Kagome? — O rapaz moreno chama de novo. — Ah Kagome, finalmente você acordou! — Ele suspira, olhando para mim absolutamente feliz. — O que você queria, fazer minha bunda criar raiz nessa cadeira?! Sua fedelha irritante! Nunca mais, e vou repetir pra não ficar dúvida, nunca mais você vai namorar de novo, entendeu?!

O médico sorri. A enfermeira também. Mas tudo que faço é...

— Hm... Kagome?

Minha voz sai rouca, entrecortada e estranha. Como tudo ao meu redor, também não a reconheço.

— É, você mesma.  Vai dar uma de desentendida agora, é? — Ele solta algo entre um suspiro e um riso. — Olha, eu sei que fui eu que disse pra você parar de ser tão certinha, coisa e tal, mas nunca passou pela minha cabeça que você fosse fugir com o bad boy!

Bad... boy? — Pergunto, massageando a testa.

Esse rapaz fala tanto que minha dor de cabeça aumenta. Consigo apenas manter meus olhos entreabertos enquanto ainda estou deitada nessa cama exageradamente branca, me sentindo fraca, e ele com certeza não está ajudando. Talvez não tenha sido uma boa ideia ficar para falar com ele já que ainda estou um pouco zonza, e ele parece ansioso demais. Ele me olha confuso demais.

Vejo quando ele abre a boca para falar mais alguma coisa, mas o médico loiro aperta seu ombro com firmeza.

— Higurashi-san? — O doutor chama e eu me viro para a enfermeira, achando que é ela quem ele está chamando. – Kagome? — Ergo meus olhos, mas não respondo. Percebo que isso o faz me olhar preocupado. — Como você está?

Ele pergunta sem chamar ninguém dessa vez, e sua voz é grave, muito grave. Parece pertencer a alguém muito mais velho, coisa que ele não é. Esse homem é quase um rapaz, mas não tão bonito quanto o moreno que agora me encara com desconfiança. O médico, aliás, é um homem magro e bastante alto. Não exatamente franzino, mas com certeza não o tipo de pessoa que faz muitos exercícios. Ele continua olhando para mim.

Só aí que percebo que faz um silêncio sepulcral dentro da sala. E considerando o fato de que sou eu a pessoa vestida em camisola hospitalar deitada numa maca, parece lógico deduzir que a paciente que deve dizer como se sente sou eu.

— Minha cabeça dói... muito.

Ele tira alguma coisa do bolso, um objeto prateado com uma luzinha na ponta, e aponta para os meus olhos. — Isso é normal devido ao trauma que você sofreu, não se preocupe. Mais alguma coisa dói fora sua cabeça? — Nego com um aceno, e cerro os olhos ao perceber essa não foi uma boa forma de responder. Ele toca em meu joelho, e eu me encolho. — Consegue mexer os dedos? — Balanço a mão, e ele sorri de forma gentil. — Os dos pés também? — Assinto. — Sabe porque está aqui?

Começo a ficar tensa, percebendo que há uma infinidade de coisas que eu não sei. Nego novamente com a cabeça, e dessa vez, é simplesmente porque não consigo encontrar minha voz. Acho que o doutor percebe minha aflição, ele me olha de um jeito terno.... Parece alguém que quer acalmar outra pessoa.

— Tudo bem, não se preocupe. — Ele me estende a mão em cumprimento. — Sou Edward Jenkins.

Olho agoniada para a mão a minha frente. Posso até apertá-la, mas não vou saber o que dizer.

— Érr, e-eu...

— Tudo bem, não precisa ficar nervosa, só me escute com atenção, certo? Você acabou de acordar de um coma. — Ele faz uma pausa, como se me desse tempo para absorver a informação. — Qual a última coisa de que se lembra?

— Ai meu... DEUS! — O rapaz moreno grita de repente, levando as mãos aos cabelos bagunçados.

— Kaede, tire ele daqui, por favor.

A enfermeira, provavelmente a tal Kaede, começa a puxar o rapaz pelo braço enquanto ele me encara com os olhos arregalados, tentando me dizer alguma coisa que não consegue. Procuro me sentar na cama para vê-lo sair, mas com o movimento sinto uma pontada na cabeça. O doutor me impede de continuar tentando, então eu apenas o encaro. A dor estava voltando outra vez, como se estivesse só esperando o rapaz dos olhos bonitos ir embora. E quando finalmente desisto de estar acordada, o doutor Jenkins aponta aquele objeto novamente para mim. Agora ele está mais sério.

— Quem é aquele? — Pergunto me referindo ao rapaz que saiu.

Primeiro ele suspira longamente, e depois me responde com outra pergunta. — Sabe porque te chamamos de Kagome?

— Não... É alguma brincadeira por causa daquela canção infantil?

Ela se lembra da música, bom sinal... — Ele diz baixinho, e eu tenho a sensação de que não deveria ter ouvido. Mas logo ele volta seus olhos castanhos para mim. — Te chamamos de Kagome porque esse é o seu nome, senhorita Higurashi. E aquele rapaz que acabou de passar por essa porta é seu irmão.

 

(...)

 

— Muito bem Kagome, vamos de novo! — A enfermeira ordena, usando o tom autoritário que lhe é tão característico. E claro, ela nem espera que eu confirme para tomar o pequeno espelho das minhas mãos.

Kaede é uma boa pessoa, apesar de não fazer muito a velhinha doce. Na verdade, ela é uma mulher até bem ranzinza. Alguém de quem todas as enfermeiras mais novas tem medo, mas eu sei que ela está mais empenhada que qualquer um em me fazer estar bem para voltar para casa. Até mais que eu mesma.

Não que eu queira viver aqui para sempre, mas pelo que pude perceber dos últimos dias não tenho muitos motivos para estar animada em deixar esse meu mundinho de hospital. Sei que é horrível dizer uma coisa assim, mas eu realmente não fui muito com a cara dos meus pais. Ou mãe, melhor dizendo. Apenas ela ainda é viva, já que pelo que me disseram meu pai faleceu a poucos anos num acidente de carro. Kazuyo ainda usa o nome de solteira apesar de ter se casado pela segunda vez com o pai do Miroku, meu meio-irmão tagarela e inteligente.

É quase engraçado o fato de nós dois não termos nenhum laço de sangue, e que mesmo assim ele seja a única pessoa que me sinto confortável em reconhecer como família.

— Vamos logo menina, você não é a única nesse hospital, sabia?! Não tenho o dia todo! — Kaede ralha, e eu fecho os olhos em obediência.

Começo em voz alta a contagem de um até dez que antecede esse exercício, e torno a abrir os olhos.

— Cabelos pretos batendo na metade das costas, olhos castanhos puxadinhos e bochechas coradas não muito grandes. Rosto ovalado, queixo discreto... Nariz pequeno e afilado, além de lábios finos e boca miúda.

Essa é a descrição do meu rosto. Quando eu acordei, nove semanas atrás, sem ser capaz de me lembrar dele, Kaede quase teve um infarto. O doutor Edward me ensinou esse exercício aquele dia. Ele me deu um espelho, e depois de trinta segundos o tomou e me pediu para dizer o que eu lembrasse do meu próprio rosto. Claro que depois de tanto tempo não tem mais necessidade nenhuma de continuar fazendo isso, seria bem melhor gastar mais de meu tempo com aqueles exercícios com figurinhas. Mas Kaede é insistente, e eu sempre faço tudo que posso para não deixa-la irritada.

Infelizmente ela também é ótima em achar motivos para reclamar.

— E como é o seu corpo?

— Eu estaria feliz com um pouquinho mais de panturrilha. —Respondo sincera.

— Então aproveite que vai sair daqui pra começar a se exercitar, menina, porque não vão aparecer músculos do dia pra noite. Aquela fisioterapeuta pega leve demais com você!

A fisioterapeuta a quem Kaede se refere com tanta gentileza é uma morena muito jovem, chamada Koraru, que apesar de ser uma pessoa extremamente doce definitivamente não pega nada leve. Embora, desconfio eu, que depois de quatro meses imóvel num coma qualquer coisa seja pegar pesado.

— Kaede... — Chamo com um suspiro. — Eu vou embora daqui a duas horas. Duas horas! Tem certeza que é assim que você quer passar nossos últimos momentos?

Ela cruza os braços, de cara amarrada. Seus olhos já estão cheios d’água. — Ora menina, deixe de falar besteiras! Parece até que vai morrer...

— Mas vou me mudar, e você sabe... Ishikawa não é exatamente aqui do lado.

— Drama seu! Já lhe disse que desde o ano passado, quando inauguraram aquele trem novo, a viagem diminuiu bastante. Duas horas e meia não vão te matar! — Ela fala emburrada, me olhando de soslaio. — Ou por acaso a senhorita está querendo dizer que vai ficar ocupada demais com as novas amigas pra visitar uma velha? Sua degenerada!

Eu rio. — Ah claro, com certeza as garotas de Kanazawa vão fazer fila pra falar comigo. “Olhem, a desmemoriada de Tokyo que nem sabe como o namorado morreu!”.

Abaixo o olhar diante da minha tentativa falha de fazer piada, mas ainda consigo ver a expressão de Kaede mudar para pena. E eu detesto quando ela faz isso, prefiro quando está reclamando sem motivo nenhum, muito embora ela não seja a única a me olhar assim. Todos nesse hospital me tratam muito bem, mas sempre que acontece alguma coisa que os faz lembrar do que me trouxe até aqui, eles me lançam os mesmos olhares condoídos.

Aparentemente, o cara com que eu estava saindo — o tal bad boy que Miroku tanto falou — matou meu ex-namorado na minha frente, e eu, a única testemunha, acabei parando em baixo de um barranco com uma ferida enorme na cabeça e memória nenhuma dentro dela. Eu já tinha recebido duas visitas da polícia por causa disso, uma deles três dias atrás, quando me levaram até o lugar do “acidente” na esperança de que isso me ajudasse a lembrar de alguma coisa.

Nada.

— Você não tem que ir, Kagome... — Kaede lembra, falando com um tom de voz doce que eu ouço pela primeira vez. — É até melhor para o seu tratamento que você continue em Tóquio, perto dos lugares aonde estão suas lembranças...

Nego com um sorriso triste. — Você ficaria?

E como sempre, ela entende o que quero dizer. Só de olhar para mim. — Tem razão, provavelmente eu faria o mesmo que você. Aquela mulher é...

— Ela é uma completa estranha.

Ela pondera, e concorda. — Estranha é uma boa palavra.

Alguém bate na porta do quarto, e por coincidência ou não é justamente a pessoa de quem estamos falando. Kazuyo entra, como sempre impecavelmente vestida, apesar de modesta. Hoje ela usa uma saia cor de goiaba nos joelhos, uma blusa branca e seu inseparável casaquinho verde-claro. Ela fez uma singela reverencia para nós, que retribuo com igual formalidade enquanto Kaede revira olhos.

A senhora Higurashi tem os cabelos curtos, um pouco mais claros que os meus, mas exatamente os mesmos olhos. Entretanto vê-la não é como olhar para uma versão de mim mais velha, porque apesar da semelhança física não há quase nada nela que eu reconheça. Ela geralmente parece triste e distante, e não faz o menor esforço em deixar de ser ou em se aproximar de mim.

Penso que devo tê-la magoado por acordar um dia sem saber quem ela é, mas não há muita coisa que eu possa fazer a respeito.

— Trouxe uma muda de roupa para você. O restante das malas Miyatsu¹ trará quando vier busca-la.

— Obrigada. — Agradeço e me levanto para pegar roupas em sua mão, que me são entregues sem nenhum contato visual.

Das poucas coisas que sei sobre mim, burra sei que decididamente não sou. Eu sei que ela está me evitando, o que eu não sei é o motivo.

— Irei tomar um banho, Kaede. Ainda te vejo antes de ir?

A senhorinha, sabendo bem quanto eu demoro no banho, faz questão de revirar os olhos outra vez. — Vou dar uma olhada nos outros pacientes e depois passo aqui. — Ela me aponta o dedo. — E vê se não gasta a água toda do hospital, porque eu não perdi nove semanas cuidando de você pra te encontrar afogada no chuveiro!

Sorrio e entro de vez no banheiro, fechando a porta. Essa não vai ser a primeira vez que troco a camisola hospitalar por uma roupa de verdade, mas estou ansiosa. Acabo tomando um banho relaxante, apesar de não tão demorado quanto Kaede previu.

Fico receosa pelo vazio de conversas em que provavelmente o quarto vai ficar enquanto for ocupado apenas por mim e Kazuyo, mas quando saio, ainda enxugando os cabelos, encontro três garotas me esperando com sorrisos ansiosos nos rostos. São Eri, Ayumi e Yuka, minhas melhores amigas.

Ou pelo menos elas tinham dito que são.

— Ka-chan! — Ayumi vem correndo em minha direção, me abraçando apertado.

— Ohayo, Ayumi-chan. Como você está?

Ela responde com um sorriso enorme e caloroso, enquanto as outras duas apenas acenam para mim. Elas parecem não saber bem como reagir perto de mim, já que claramente eu não lembro delas. Ayumi é a única que simplesmente ignora esse fato e tagarela por nós três. Ela se desculpa por um tal de Houjo, que aparentemente tem uma paixonite por mim desde que o mundo é mundo e eu nunca liguei. Ele tinha pedido para avisar que estava fazendo um intercambio nos Estados Unidos e por isso não pôde vir me ver, embora já houvesse me visitado três vezes durante os meses que fiquei desacordada.

No fim, surpreendentemente temos assunto até a hora que Miroku chega.

— Mas o que é isso, um clube da Luluzinha? — Ele pergunta com um sorriso no rosto, entrando sem cerimônia. É engraçado ver as meninas ruborizando quando põem olhos nele.

Agora que sei que Miroku é meu meio-irmão ficou bem mais difícil admitir a beleza dele, mas não tenho problemas para reconhecer que ele é um perfeito cafajeste. Vive jogando charme para as enfermeiras, médicas, e qualquer ser humano do sexo feminino que passe a menos de cinco metros. Eu até já tinha descoberto os sinais que ele dá quando está “caçando”, Miroku sempre joga a franja para o lado.

E é exatamente o que ele faz, com os olhos fixos em Yuka.

A garota tem a minha idade, eca! Não que ele seja muito mais velho, mas seus vinte e quatro anos já dão uma boa diferença. Ele se formou em administração a dois anos e ano passado se mudou para uma cidade em Ishikawa por causa de um emprego, enquanto Yuka está cursando o primeiro semestre da faculdade agora. Além disso, eu sei que ele tem namorada em Kanazawa.

— Já está na hora? — Pergunto de cara fechada, afinal entendi muito bem o que ele quer e não pretendo ajudar.

— Está sim, Kagome. O oyaji já está lá em baixo, esperando no carro.

Eu assinto, e vejo pelo canto dos olhos quando Kazuyo se levanta. Ela tinha ficado o tempo todo tão quieta que eu realmente a esqueci ali. Ayumi vem de novo com outro abraço apertado, mas dessa vez as meninas a acompanham. Elas se despedem bastante emocionadas, me fazendo prometer que vou entrar em contato sempre que puder. Sei que elas não entendem minha decisão de ir embora, mas a verdade é que depois de se passarem nove semanas e milhares de rostos supostamente conhecidos, eu não lembrei de ninguém.

É um bocado chato quando todos percebem que não, não são tão importantes assim para que eu me lembre deles.

Mas o pior, definitivamente, são aqueles que acham a situação engraçada. Normalmente ficam inventando histórias sobre o meu passado, em que acredito como a pessoa tapada que agora eu sei que sou, para depois desmentir com um sorriso no rosto. Eles não entendem que minha amnésia não é piada, e que eu não vejo graça nenhuma em não lembrar sequer da minha personalidade.

 Doí um bocado, na verdade.

— Vamos indo? — Miroku sorri afável, segurando meu braço com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo, como se me confortasse. — Nosso trem tem hora, não podemos atrasar.

— Claro.

Ele percebeu a minha mudança de humor, tenho certeza. Preciso lembrar que apesar do jeito brincalhão e canalha, Miroku parece também ser muito perceptivo. Essa não é a primeira vez que desconfio que ele está lendo meus pensamentos.

Deixamos o quarto, e para a minha surpresa há várias pessoas esperando no corredor do lado de fora. Kaede, Koharu, o doutor Jenkins, e todos que cuidaram de mim nesse tempo. Me despeço de cada um com cuidado para não esquecer nenhum nome como forma de mostrar que estou mesmo muito agradecida — e também porque se eu esquecer de alguém, Kaede provavelmente revoga minha alta. Nem sei se ela pode, mas com certeza é o tipo de coisa que ela faria. Por ela eu não sairia desse hospital tão cedo, principalmente para enfrentar uma viagem até Kanazawa, em Ishikawa.

O britânico loiro, conhecido por mim como O doutor, também concorda com ela nesse quesito, apesar de ser um pouco menos rígido. Koharu havia dito que eu estaria pronta para voltar para casa após duas semanas de fisioterapia, mas sabendo da viagem e que não poderia mais cuidar de mim, o doutor Jenkins insistiu que eu ficasse mais uma semana em tratamento intensivo. Ainda assim, ao nos despedirmos, ele me dá o número de seu celular de trabalho e pede para que o ligue em caso de qualquer incidente, ou pelo menos até que eu me acostume com o novo médico que ele indicou para mim em Kanazawa.

Mas sem sombra de dúvidas a despedida mais difícil é a de Kaede. Ele parece mais irritada do que nunca e até rejeita me abraçar — coisa que só faço porque sou uma garota persistente, minhas nove semanas de segunda vida confirmam. Quando eu a puxo pelo jaleco e a abraço mesmo assim, ela ralha comigo, chora, e me dá soquinhos nas costas.

Vou sentir uma falta enorme dela.

Mas apesar de tudo, eu deixo aquele lugar sem olhar para trás. Eu quero, e preciso, abandonar essa aura de doença para começar a viver, de um jeito ou de outro. Mesmo que minhas lembranças não voltem, eu não posso me prender a um passado que não lembro. Mas não me julgue mal, eu realmente sentirei saudades de Kaede e até das minhas três “amigas de infância”. Só não irei sentir falta dessa cidade.

Sei que não me arrependerei de deixar para trás tudo o que me lembra as coisas que eu tinha esquecido; de ser conhecida, e não conhecer ninguém.

Quando chegamos à garagem um Honda Fit nos espera, a porta do carona aberta. Dá para ver o homem moreno esparramado no assento do motorista falando ao telefone, algo sobre uma tempestade que vai atrasar o recebimento de uma carga de pasta de amendoim que chegaria da América ou coisa do tipo. Miyatsu trabalha no porto, e por isso está sempre ocupado com esse tipo de coisa sem importância.

Ele até costumava tentar ser simpático comigo, mas vez ou outra me olhava com o olhar acusador de quem sabe alguma coisa terrível sobre mim. E como há várias coisas que eu não sei, isso pode até ser verdade. Miayatsu é quase aquele tipo de homem modesto que a gente vê nos filmes, inteiramente dedicado ao trabalho, mas infelizmente eu também não gosto muito dele.

Ele e Kazuyo, que já está no banco da frente enquanto o marido dá partida no carro com o celular pendurado no ouvido, não parecem más pessoas, mas também não agem como muito mais que isso. Como pais, quero dizer.

Olho para eles do banco de trás, sentada ao lado de Miroku, lembrando que depois que acordei o máximo de uma palavra carinhosa que ouvi deles foi um “Como você está se sentindo? ”. Mesmo que os dois me visitassem com frequência, nunca houve muita conversa. É quase como se estivessem comigo por obrigação, para que ninguém os acuse de abandonar a filha que voltou a vida.

Podem me achar cruel por falar assim da minha mãe e do meu padrasto, e talvez eu seja mesmo esse tipo de pessoa horrorosa que sai por aí falando mal das pessoas que lhe ajudam, mas preciso lembrar que só os conheço a nove semanas. E que durante todos esses dias não houve muitas demonstrações de afeto.

Quando chegamos à estação eu pulo imediatamente do carro, louca para respirar o ar não-tão-puro da cidade simplesmente porque ele não cheira a hospital. O lugar é moderno, apinhado de gente que vem e vai apressado. Paro por um momento pensando se no meio de tantas pessoas haveria alguém que eu reconheceria, se fosse a Kagome de antigamente. Quando dou por mim, Miroku está estendendo uma mochila amarela na minha direção.

— Cuide dessa bolsa como se você não tivesse nada além disso no mundo, porque você não tem.

— Como é?

Ele dá de ombros — Bom... pelo menos não até que suas coisas cheguem lá em casa amanhã. Por enquanto você vai ter que se virar com isso.

Agora são exatamente duas da tarde. Nosso trem sai em meia hora, o que quer dizer que, caso não aja atrasos, eu devo chegar a Kanazawa por volta das cinco. Provavelmente às seis já estaremos na casa de Miroku, então acho que não vou precisar de muitas coisas até as poucas horas que faltarão para que minhas coisas cheguem no domingo.

Entramos na estação, eu ao lado de Miroku enquanto Miyatsu e Kazuyo vem mais atrás, ele ao telefone e ela em silêncio. Confirmamos o local de embarque, passamos nossa bagagem pela segurança, e logo estamos prontos para entrar no trem. Ainda faltam quinze minutos para aquela coisa sair andando, mas eu quero embarcar logo. Despedir-me dos meus “pais” vai ser no mínimo constrangedor.

— Tem certeza que não quer ficar? — Kazuyo pergunta com a voz doce, mas alguma coisa em seus olhos meio que me pede para negar. E é o que faço, com uma mesura polida e formal.

— Obrigada, mas eu realmente quero ir para um lugar onde um rosto “novo” seja realmente novo pra mim.

Ela assente, sorrindo tristemente e abaixando a cabeça. Miyatsu então vem até nós, tapando o celular com a mão para que a pessoa do outro lado da linha não o escute. — Aproveite e ponha um pouco de juízo na cabeça dessa criatura, Kagome. Se precisar colocá-lo na linha ligue pra mim, ou chame a polícia!

Alguma coisa no seu tom deixa bem claro que na verdade ele não está falando de Miroku, mas dos meus assuntos inacabados com a polícia daqui. E então eu me lembro, é exatamente por causa desse hábito de soltar indiretas travestidas de piada que eu não gosto de Miyatsu.

— Deixe de drama oyaji, juízo é meu nome do meio! — Miroku me abraça de lado, fazendo meus ombros relaxarem. — Você não devia dizer essas coisas, sabe muito bem que eu posso culpar a herança genética por qualquer defeito que tiver.

— Vamos entrar? — Pergunto sorrindo, fingindo animação. — Kaede-sama me disse que essas coisas chegam a 260 km/h, estou curiosa pra saber como vai ser a viagem.

Os três me encaram como se eu tivesse dito a pior blasfêmia, me deixando confusa. Miroku é o primeiro a se recuperar do aparente choque. — Seu pedido é uma ordem, milady. — Ele se vira para Kazuyo e Miyatsu, e faz uma reverencia. Imito o gesto.

Depois das despedidas devidamente formalizadas nós entramos no trem, procurando nossos lugares. Não temos dinheiro para separar uma cabine para a gente, então sentamos nos assentos comuns mesmo. Com sorte eu pude ficar num dos lugares próximos a janela, e o meu meio-irmão a minha frente.

— Um detalhe sobre você. — Ele diz, se inclinando em minha direção com um olhar divertido. — Você odeia qualquer coisa mais rápida que um burrinho. Lembre-se disso da próxima vez que for inventar uma desculpa para sair de junto daqueles dois.

Olho para ele falsamente ofendida. — Ué, porquê?

Ele ri de canto, fazendo um gesto com as mãos para que eu esperasse. Encarando o relógio de pulso, ele começa a enumerar nos dedos. 4... 3... 2... 1.

O trem entra em movimento com uma arrancada, e nos primeiros instantes não vejo motivos para pânico. Até que ele começa a ganhar velocidade, e apesar do movimento macio sobre os trilhos um enjoo crescente me atinge o estômago. Acabo de descobrir exatamente o que Miroku quis dizer.

Essa viagem vai ser absurdamente longa!

Olho para ele pedindo socorro, e Miroku me estende um saquinho de papel com alguns comprimidos e uma garrafa de água. Ele tem um sorriso cínico nos lábios que me lembra o pai dele, e eu odeio a semelhança. — Me agradeça fazendo o jantar quando chegarmos em casa.

— Mas eu não sei cozinhar! — Respondo tomando o remédio de forma afobada.

— Ah, minha cara, acredite em mim. Você com certeza sabe.

Tudo bem, ele pode ter dito isso, mas o resultado a que chegamos horas mais tarde é imutável: macarrão com queijo. Esse foi o nosso glorioso jantar, quase quatro horas depois.

Miroku não sabia aonde ficava absolutamente nada no próprio apartamento porque, aparentemente, quando não é a namorada que cozinha ele sempre pede comida ou janta fora. E isso nos rende algumas boas piadas durante a preparação do jantar, que realmente não fica ruim, mas que comemos em silêncio. Eu estou mental, física e espiritualmente esgotada, e por algum milagre tenho um irmão mais velho que entende isso sem fazer nenhum tipo de cobrança.

Ele sabe que do meu ponto de vista essa é a primeira vez que estou fora do hospital, que a carona de Miyatsu foi minha primeira vez dentro de um carro, e que as duas horas e meia seguintes foram a minha primeira viagem de trem, ou de qualquer outra coisa (porque claro, a vez que a polícia apareceu pra me levar para um 'passeio' definitivamente não conta). Ele também sabe que essa foi a minha primeira vez cozinhando, e que consequentemente, é muita coisa nova para assimilar.

Por isso não me sinto nenhum pouco culpada quando peço cama, mesmo tendo dormido por quatro meses inteiros. Miroku me guia por um corredor pequeno e abre uma porta branca, me dando passagem para ser a primeira a entrar. O cômodo está pintado num tom claro de azul, com persianas na janela, e conta com pouco mais que uma cama e um guarda-roupa de madeira. Era a definição de simplicidade, mas ainda assim infinitamente mais aconchegante que meu quarto no hospital. Esse sim parece um quarto, o meu quarto.

Me atiro na cama sem pensar mais, enfiando a cara no travesseiro, e escuto a risadinha do dono da casa logo em seguida. — Que bom que já se sente em casa.

— Miroku... — Me viro para ele, sentando na cama agarrada ao travesseiro. — Obrigada.

Ele coça a nuca um pouco sem jeito, e dá um suspiro longo. Seus olhos estão fixos no teto, como se pedisse resposta para alguma pergunta complicada. Com passos calmos, ele vem e senta na beirada da cama. Então tira de dentro do bolso algo que fica escondido entre suas mãos grandes. Ele fala com seriedade, ao ponto de me pegar desprevenida.

— Kagome... Eu sei que você veio pra cá fugir das cobranças, de todo mundo estar sempre tentando te forçar a lembrar de alguma coisa, mas... Tem uma coisa que eu não posso esconder de você.

Ele pesa o objeto nas mãos antes de me entregar. É uma corrente fina de prata, discreta e cumprida, que brilha mesmo sobre a luz fraca do único abajur do quarto. Mas ao invés de um pingente, o colar sustenta um relicário de vidro que por vários motivos me parece diferente. Não é um daqueles corações que se abrem e escondem fotos de uma família feliz ou de um casal apaixonado. Esse é circular, também prateado em suas bordas apesar do interior em vidro que deixa ver o que ele guarda mesmo fechado; um pequeno botão de sakura ainda por desabrochar, mantido intacto sei lá por quanto tempo quase que por magia.

Não sei o motivo, mas sinto meu coração apertar. Levo as mãos ao peito numa surpresa emocionada, completamente confusa por saber, por sentir que esse relicário significa alguma coisa importante que eu estou deixando para trás. — Miroku, o q–  o que é isso?

— Estava com você quando sofreu o acidente — Ele diz sem olhar para mim. — Engraçado que não tenha se partido, né?

— Miroku...

— Era do seu namorado. Ele quem te deu. — Ele responde à pergunta que eu nem chego a terminar.

— Como assim? Do tal bad boy que eu estava saindo?

— Não, não, do seu namorado. Do seu ex-namorado. — Ele encara o chão, me fazendo engolir em seco. — Você nunca me explicou muito bem o que aconteceu pra vocês terminarem, mas ‘tava na cara que ainda se gostavam; só um cego não veria. Mas aí, o outro cara apareceu. — Ele faz uma pausa. — E você começou a agir estranho, mais ousada, sabe? Chegou até a andar de moto! — Ele ri, lembrando de algo — Kazuyo quase ficou louca de preocupação, mas eu achei que ele te fazia bem. Você finalmente estava saindo das asas da sua mãe e deixando de ser tão certinha, parecia até mais... viva. Achei... achei que ele te fazia bem.

Miroku para de falar, mas eu sei que ele ainda não acabou. Ponho minhas mãos sobre as dele tentando dar apoio para que ele continue, porque estranhamente tenho certeza que é disso que ele precisa. E ele realmente continua, depois de alguns segundos. Os olhos firmes nos meus.

Os olhos violeta, embargados, firmes nos meus.

— Me desculpe, Ka... — Ele pede fungando, e esse som faz meus olhos se enxerem de lágrimas também. — Me desculpe por não ter percebido o monstro antes que ele matasse o cara que você gostava... antes que te deixasse pra morrer embaixo de um barranco!

Abraço Miroku com toda força que tenho, chorando minhas primeiras lágrimas. Eu não me lembro como era a relação com minha família, e muito menos faço ideia do que tinha acontecido durante esse tempo de que ele falava. Para mim essa época é como a vida de uma outra pessoa, que agora está morta e enterrada. Só que para ele não é assim. Para ele tudo ainda está muito fresco, e mesmo que eu só o conheça a nove semanas... dói mais que qualquer coisa vê-lo desse jeito, por mim. Machuca cada pedacinho do meu corpo não ter o que dizer para confortá-lo.

Miroku me acolheu. Não tínhamos laços de sangue, mas ele me aceitou em sua casa. Na sua vida. Ele aceitou cuidar de mim de bom grado, quando até minha mãe me parecia uma estranha. Ele me acompanhou em cada sessão de fisioterapia, e contribuiu em cada sorriso sincero que eu já me lembro de ter dado.

E eu não posso fazer nada por ele.

Choramos muito, nós dois. Ainda não tinha feito isso desde que acordei e a sensação era triste, pesada e... leve. Eu sentia como se estivesse tirando um peso das costas, num alívio tão grande que acabo dormindo. Ali mesmo, com a cabeça no colo do meu irmão mais velho e com um relicário guardado entre as mãos.

Aquela noite, eu teria a minha primeira lembrança.

 

 

 


Notas Finais


¹ Miyatsu na verdade é o nome do avô de Miroku, e não do pai. Mas como o nome do pai não é citado na obra da Rumiko vamos ignorar isso. Peguei essa caroninha na dica da Okaasan (licença aqui viu flor kkk)


Ainda não posso prometer postagens regulares gente, mas espero que gostem!
Vou fazer de tudo pra não demorar muito, bjão!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...