História RENASCIMENTO: livro 1 - Capítulo 9


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Angustia, Drama, Ficção, Novela
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Científica, Romance e Novela, Sci-Fi, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 9 - Complemento II


Esse lugar...

Que emanava um forte odor de ferro.

Esse lugar...

Que comportava um ar sufocante, frio, lutuoso.

Esse lugar...

Cada um dos seus detalhes...

Os bancos revestidos de couro bege, as trincas que tomavam a grande chapa de vidro na parte frontal, manchada por um líquido vermelho...

Sangue!

Deus! Depressa, ela tinha que escapar!

Mas à medida que se debatia para se deslocar da poltrona em que estava, ela sentia que seu corpo era cada vez mais aprisionado pela correia que a segurava contra o dito assento. Sua lucidez logo começou a ser totalmente sufocada pelo desespero.

O pingente do cordão que ela usava, um crucifixo de ouro, descansava sobre o chão, ou melhor, o teto do lugar. Estaria ela de ponta cabeça?!

— Socorro! — gritou em desespero.

Depois de várias desjeitosas investidas, ela, por fim, soltou-se. O pouco espaço que o lugar dava era asfixiante, fazendo com que fosse necessário a uma pessoa adulta ficar de bruços para conseguir se deslocar. Em vão ela tentava forçar as portas, que pareciam travadas por fora. Isso só poderia ser um pesadelo!

— Tem alguém aí fora? Por favor, me ajudem! Me tirem daqui!

Ela chorava enquanto usava a pouca força que lhe restava para dar inúteis murros sobre a porta. Assim não iria a lugar nenhum! Ela tinha que fazer algo para recuperar logo a sua lucidez, caso contrário ela estaria perdida.

Obstinada a pensar em algo para se ajudar a fugir daquele alçapão da morte, ela primeiro tentou saber onde estava. Então experimentou olhar através dos vidros que a rodeavam, mas os mesmos estavam muito turvos para permitir que a luz os atravessasse.

Cada mísero segundo que ela permanecia naquela câmara aterrorizante a deixava mais desesperada e irracional. Por esse motivo ela permaneceu os poucos minutos desde que acordara negligenciando que tinha uma companhia naquela armadilha. Com muita hesitação, ela direcionou seus olhos para o banco traseiro, deparando-se com uma imagem horrorizante.

— Elisa!

Se restava algo de racionalidade em sua cabeça, desvaiu-se nesse momento. Sentia seu estômago enjoado; seu corpo inteiro começou a tremer, enquanto seu coração acelerou de forma incontrolável, indo para lá de 100 batimentos por minuto, à beira de uma taquicardia; seus pulmões apertavam-se, impedindo-a de respirar com regularidade. Seu desespero era tamanho que ela era incapaz de sequer o expressar através de instintos.

Rápido! Ela tinha que tomar alguma iniciativa! Só que, ao invés disso, ela permanecia imóvel, feito um objeto qualquer desprovido do dom de viver. O choque por ver sua filha machucada encorajava ela a agir, mas, em simultâneo, causava-lhe medo e inércia.

"Ai, meu deus! O que você fez? Você a matou! A sua própria filha!", seu consciente dizia-lhe.

"Não, não, não! Ela está viva! Não vou permitir que minha filha morra!"

"Então aja, sua covarde!"

No fim, a passividade jamais tem grande estadia numa mãe cuja cria corre perigo. Ela nem soube como se pôs em frente de sua filha, mas já a tinha sobre seu colo, envolta pelos seus braços. Verificou as funções vitais de Elisabeth, percebendo que as atividades cardíaca e respiratória da menina estavam demasiadamente suaves. Uma mãe tinha que ser extremamente forte para se orientar diante de semelhante circunstância.

Agora seu instinto de berrar funcionava. Começou a gritar por ajuda do externo à câmara outra vez, assim como por um sinal de consciência por parte de Elisabeth; porém, a única resposta recebida por seus clamores foi o silêncio.

Então era isso. A mãe não poderia contar com mais ninguém além de si própria, doutra forma perderia a sua menina.

A mãe atentou ao rosto da garota. Tratava-se de uma criança tão inocente, de não mais que seis anos de idade. Seus cabelos eram lisos e loiros, suas bochechas eram suavemente salientes e rosadas, enquanto seu pequeno nariz era reto e avermelhado, lembrando uma miúda pimenta malagueta.

Não fosse o sangue...

Que ofuscava seu encanto, sua inocência.

Não fosse o sangue...

Que avisava sobre a aterrorizadora situação na qual se encontravam...

— Meu anjo, juro que não vou permitir que você morra. Vamos sair juntas daqui, ouviu? — a mãe falou, entre intervalos pois seu nervosismo e acelerada respiração a impediam de soar a menor palavra com fluidez.

Não havia direcionado sua fala para Elisabeth, cujos sentidos ainda estavam totalmente inativos, mas para si própria, na tentativa de canalizar ânimo no seu ser.

— Tem alguém aí fora? Por que ninguém me ajuda? Minha filha está morrendo... — A essa altura a mãe já estava mais do que nunca se desmanchando em lágrimas. A sua voz estava perdendo força gradativamente. — Por favor... Alguém me ajude.

Seus pedidos eram inúteis, meros regalos ao ar frio e fúnebre de dentro da prisão de onde ela não fazia ideia de como fugir. Enquanto isso, Elisabeth estava morrendo... Morrendo pela fraqueza e omissão daquela que mais deveria protegê-la.

— Não! — a mãe bradou com determinação.

De forma alguma ela assistiria à morte de sua filha. Elisabeth não merecia uma mãe tão covarde e incapaz de dar uma luta às adversidades. A mulher fechou seus olhos, respirou de forma profunda e lentamente compassada, repetindo o processo por algumas poucas vez. O silêncio nesse momento era tão absoluto que permitia a ela notar a progressiva diminuição do seu ritmo cardíaco, como uma música deixando para trás a sua parte mais intensa. Estava funcionando. Não demorou para ela se sentir mais hábil para coordenar seus movimentos.

Sem perder mais tempo, ela deitou a criança da forma mais confortável que o frio teto metálico permitia, tirou a blusa ensanguentada de si e usou para aquecer a pequenina. Havia resquícios de vômito na boca de Elisabeth, então sua mãe a virou com a cabeça para o lado a fim de não haver sufocamento. Depois, não identificadas fraturas, ela elevou as pernas da filha para conferir um retorno venoso. Para a maior eficiência da sua medida, a mãe manteve a cabeça da menina mais baixa que o tronco, elevando este último sobre seu colo.

"Deus, ao menos o Senhor, não me abandone."

Afrouxou as roupas da menina e sobrepôs suas mãos sobre o tórax dela. Logo começou a aplicar a técnica de respiração artificial aliada a massagem cardíaca.

"Um, dois, três...", em sua mente ela contava o número de vezes que pressionava o peito frágil da criança. Assim seguiu até chegar a 30 compressões, fazendo em seguida respiração boca à boca. Seus primeiros socorros completaram um ciclo, mas a menina ainda não dava qualquer resposta.

— Vai, vai! Responde!

A mãe seguiu com o processo até finalizar o segundo ciclo. Nada.

— Não! Por que está fazendo isso comigo, Deus? Ela é só uma criança!

Não desistiu, ainda tinha estoque de esperanças. Terminou o terceiro ciclo, depois o quarto e o quinto, mas nada surtia efeito.

Seus braços já começavam a falhar e tremer novamente.

— Socorro! — Seu grito de medo misturou-se ao seu choro de derrota. E, uma vez mais, só o silêncio respondeu... Silêncio... que está presente onde há solidão, tristeza, morte, em síntese, tudo o que existe de mais melancólico, lúgubre.

— Elisa, fale comigo! — Nesse momento a mãe só conseguia chorar, pedindo pelo improvável. — Não me deixe... Por favor, não me deixe, meu amor...

Num último ato de desespero, usando suas forças restantes, a mãe reencetou os primeiros socorros, finalizando mais dois ciclos.

Uma vez mais ela não teve êxito, porém.

Ela então desabou sobre o corpo inanimado de Elisabeth, gotejando lágrimas no pequeno, delicado e pálido rosto da menina. Já não havia mais fôlego para berrar, tampouco ânimo para mover sequer um dedo. A fragilidade na qual a mãe se encontrava era tão assustadora quanto aquela armadilha da morte.

Repousado sobre a testa da pequena Elisabeth, o pingente dourado da mãe destacava-se em meio ao escuro. A mãe deu alguns segundos de atenção àquele amuleto que seu marido havia lhe dado como presente. Havia muita beleza no brilho do objeto, mas isso era fruto de fenômenos físicos comuns e nada mais. Ao olhar para aquele amuleto ela não deixava de se perguntar sobre onde estaria Deus e por que Ele tinha abandonado ela e sua filha.

Quando ia à igreja junto de seus avós, ela costumava ouvir que a cruz seria um sinal da presença salvadora de Deus na vida das suas mais adoradas criaturas, o símbolo da nova chance dada por Ele para que a humanidade pudesse recomeçar. Agora, porém, presa naquela câmara e sobre o corpo inerte de sua querida filha, todas essas teorias e crenças que ela tinha ouvido e chegado a dar crédito caíram por terra. O crucifixo e toda a riqueza de sua simbologia era tão útil a ela quanto o ar frio que preenchia aquela câmara sufocante.

Os olhos da mãe estavam se fechando aos poucos quando foram repentinamente espertados pelo limpador de para-brisa clareando a turbidez do vidro. Em poucos segundos era possível enxergar para além daquela câmara. Não havia escuridão no lado de fora, pelo contrário, a dourada luz solar iluminava a exterioridade repleta de árvores.

Nesse momento, Elisabeth surpreendentemente recolheu suas pálpebras, revelando seus olhos azuis semelhantes à água do mar, os quais logo se fixaram nos de sua mãe, que por sua vez, devido à perplexidade que a invadiu, limitou-se ao instintivo ato de levar as mãos à boca.

— Mamãe... — a criança disse, com desorientação escancarada no seu tom.

Elisabeth foi logo abraçada firmemente por sua mãe, a qual não conseguia conter sua emoção diante do milagre que estava presenciando. Contudo, a mãe não teve tempo para terminar de expressar um pouco da sua imensurável felicidade, pois de pronto foi surpreendida por Elisabeth, que, num piscar de olhos, livrou-se do abraço, engatinhou para fora da câmera e correu para longe, sem olhar para trás.

A mãe permaneceu parada e atônita, sem entender o porquê da atitude da criança. Alguns segundos depois, ela começou a chamar aos gritos a menina que parecia cada vez menor na visão oferecida pela arregalada porta, intransponível há poucos instantes.

Ela criou coragem e foi atrás da sua filha.

Quando saiu da prisão, a mãe deu de cara com um espaço repleto de detalhes familiares. Ainda que estivesse correndo a toda sua velocidade, era impossível que ela não desse atenção a cada minúcia desse lugar, um bosque típico de zonas temperadas, repleto de faias — senhoras quase que absolutas do lugar — que sustentavam um teto de folhas com coloração em predominante amarelo dourado, mas também em vermelho brilhante e, em sua minoria, verde. Os raios dourados do sol de novembro conseguiam atravessar as brechas entre os ramos das árvores, ainda bem folhadas. No chão, os estalos das folhas secas acumuladas destacavam os rápidos passos da mãe desesperada.

Não restava nenhuma dúvida, ela estava no lugar que tinha sido sua casa pela maior parte de sua infância. Tratava-se de um pedaço de bosque que ela conhecia como a palma de sua mão. E isso era bom, pois na teoria, com um pouco de calma, ela encontraria a sua filha. Só precisava ter calma.

— Elisa! Onde você está, meu amor? — chamava com todo o seu fôlego, sua voz ecoando em meio às inúmeras árvores que ocultavam a presença de sua menina.

Repetindo o nome de sua filha, a mãe seguiu bosque a dentro, tendo sua vida cada vez mais dificultada ao passo que deixava o plano piso de folhas caídas para ter que manobrar por entre uma camada de vegetação mais densa que, para além das imponentes árvores de mais de 10 metros de altura em média, apresentava arbustos de 3 a 5 metros, cujos galhos, alguns deles com espinhos, eram muito inoportunos.

Quando a mãe começava a se sentir andando errantemente, gargalhadas infantis passaram a ser audíveis no bosque. Ao que parecia, esses sons não pertenciam à Elisabeth, então a pequenina não era a única criança naquela floresta!

Guiada por esses sons — os quais sua mente considerava mais belos e tranquilizantes que a mais harmoniosa melodia — a mãe encontrou uma trilha bem limpa, que também lhe era bastante particular. Esse caminho ficava às margens de um relativamente estreito e sereno rio, cuja água passava a sensação de ser negra quando vista a partir da margem. A mãe desacelerou ao avistar uma plataforma de madeira, onde ela costumava assistir ao pôr do sol na companhia de seus avós.

A mãe continuou seguindo firme na trilha da qual o fim coincidia com a casa dos avós dela. Um pouco mais à frente, ela teve que superar uma parte mais íngreme do terreno, contando para isso com algumas pedras cheias de musgos espalhadas pelo solo, as quais acabaram lhe servindo como degraus para sua subida. Enquanto isso, seus chamados por Elisabeth coexistiam com as risadas infantis, que não cessavam.

Após subir o morro, a mãe avançou por cerca de meia centena de metros até chegar a uma clareira, de onde pôde ver uma imagem das que lhe eram mais nostálgicas: Lá estava a casa feita aos moldes da típica arquitetura colonial americana, com o externo em prevalecente branco, de dois andares, cheia de janelas para iluminar seu interior e cercada por nogueiras e alguns pinheiros.

Lá estava ele... o seu antigo lar...

Havia uma movimentação de pessoas atrás da casa — donde pareciam vir as gargalhadas que a mãe vinha escutando desde que tinha entrado no bosque.

Fazia muito tempo que ela não voltava a esse lugar, por isso ela se aproximava a passos hesitosos. Enquanto isso, escutava um cantarolar de voz aguda destacando-se entre os sons de risos e conversas que ficavam mais altos a cada passada.

E eis que...

— Elisa!

A criança balançava-se vagarosamente num brinquedo improvisado. Era um retângulo de madeira sustentado por uma corda atada a um dos galhos mais grossos de uma velha nogueira. Assim como os demais detalhes nesse bosque, o rudimentar brinquedo não escapava das lembranças da mãe, uma vez que o viu ser armado pelas mãos de seu avô — armado para ela em especial.

Elisabeth parecia prestar mais atenção às crianças correndo no quintal do que em sua própria brincadeira. Seus cabelos, livres do sangue de antes, eram suavemente aparados pela resistência do ar durante o movimento pendular do balanço.

O balançar de Elisabeth diminuía à medida que a sua mãe se aproximava, até parar completamente.

— Eles não dão atenção para mim. Por que fazem isso? Por que me ignoram? — questionou a menina, sua voz pronunciando cada uma das palavras com tristeza.

Elisabeth estava olhando para o chão coberto por um tapete de grama rasa, repleto de focos amarelados pela eminente chegada do inverno. Uma de suas pequenas mãos portava uma folha de papel dobrada.

A mãe abaixou-se para se nivelar à filha; fitou-a bem nos olhos, umedecidos por lágrimas.

— Você está chorando... Por que, meu anjo? Quem não dá atenção para você? — perguntou, tocando delicadamente uma das bochechas da menina.

— Olha o que eu fiz. — Elisabeth estendeu o papel dobrado para a sua mãe. — A professora disse que é bonito, meus amigos também, e o vovô, e a vovó...

A mão da criança exibia um singelo desenho que parecia representar um par de crianças de mãos dadas.

— Sim, é um desenho lindo! O que significa?

A pequenina não olhava para outro lugar além do seu desenho. A sua contemplação durou um curto instante a mais.

— Se você estivesse aqui eu não teria que brincar sozinha — a menina sussurrou para a imagem. — Meus pais não ligam para mim, não me amam.

— O quê? O que você disse, Elisa?

A mãe estava sendo completamente ignorada.

— Por que eles são assim? Por que não podem ser como o tio Marcos e a tia Vanessa? Ou o tio Paul, a tia Ane... Por que não podem ser como os pais dos meus amigos, que sempre levam eles à escola, ao parque...

— Amor, de quem você está falando?

— Meus pais... Odeio eles!

Após dizer isso a menina soltou o papel, que lentamente chegou ao chão. Suas frágeis mas irrequietas pernas levavam-na em direção às crianças e aos adultos no quintal do casarão.

— Elisa!

A mãe tentava perseguir a menina, mas sentia seu corpo imóvel; enquanto isso a criança parecia cada vez menor em sua vista. No entanto, a mãe logo percebeu que não se encontrava parada; de fato, ela corria, mas não saía do mesmo lugar! O que estava acontecendo?!

Não obstante esse fenômeno inexplicável, a mãe correu, correu e correu, de olhos fechados, usando de todo o seu fôlego.

— Não vem não! Você não vai brincar com a gente.

Ela liberou a sua vista ao escutar essas palavras ditas de modo ofegante, em tom ríspido. Tinha à sua frente seus primos Billy, Albert e Daniel, os quais corriam numa brincadeira que parecia ser pega-pega.

— Você chora por qualquer coisa — Albert disse, enquanto agarrava Daniel, fazendo com que ambos caíssem no chão.

— Crianças, tomem cuidado! — ecoou o pedido de uma mulher: era a tia Vanessa.

— Vai brincar com suas bonecas e ursinhos de pelúcia, vai — dessa vez Daniel falou, ao mesmo tempo que ajudava os outros dois garotos.

Todos sempre a ignoravam... Mas por quê? Ela só queria ter alguém com quem brincar.

Sempre que ela era preterida, a sua resposta era se esconder de todos. Ela então correu para dentro da grande casa, seus ligeiros e delicados passos ecoando pela grande e clássica sala de estar, em predominante bege. Ela subiu a grande escada dupla da casa e chegou ao corredor que dava acesso aos dormitórios. Nesse espaço não havia qualquer outra fonte de luz além de uma estreita faixa luminosa que escapava pela brecha de uma porta entreaberta no extremo do corredor. Pelo piso de madeira envernizada ela caminhava vagarosamente em direção à dita porta. No caminho, ornamentando as paredes repletas de desenhos de flores, estavam quadros exibindo imagens de uma aparentemente ordinária família. Todas as fotos mostravam o mesmo casal, composto por uma mulher de cabelos médios e castanhos e de um belo sorriso moldurado por avantajados lábios rosados; e por um homem alto, de nariz comprido e reto, parcialmente calvo.

Uma das fotos em particular, que parecia ter sido tirada num ambiente hospitalar, mostrava a esposa deitada num leito, com uma touca branca cobrindo seus cabelos. Mesmo parecendo debilitada, ela estava sorrindo com gosto, isso porque em seus braços estava um recém-nascido. Do lado dela, o marido, também sorrindo, segurava outro bebê. Eram gêmeos.

Ela alcançou a porta do fim do corredor e abriu-a bem devagar, deixando um leve rangido que foi amplificado pelo silêncio do lugar. A escuridão predominava dentro do quarto, sendo inutilmente desafiada pela luz lunar que atravessava as finas cortinas brancas da janela aberta, as quais eram sopradas por uma fria e branda corrente de vento.

À medida que ela adentrava o aposento, o vento ficava mais intenso, fazendo as janelas se abrirem e fecharem com potência. O som dos baques era perturbador em meio à quietude do ambiente. A cama daquele quarto, alinhada à janela, era enfocada pela luminosidade lunar. A cama estava vazia e isso chamou a atenção da observadora, que se aproximava do móvel a passos bem caltelosos.

Não demorou para ela perceber que não estava sozinha. De um ponto lateral à cama ela podia ver as pernas de alguém deitado no lado oposto, no chão. Curiosa, ela caminhou devagar, acompanhada pelos ecos dos seus passos e os estrondos das janelas.

Quem ela encontrou ao lado da cama era ninguém menos que a mesma mulher presente nas fotografias penduradas ao longo do corredor. Seus cabelos curtos e castanhos estavam embaraços e um líquido escuro tinha deixado rastros em suas fossas nasais.

— Mamãe... Por que você está no chão? — ela falou, ficando de cócoras ao lado da mulher.

Ela olhou naqueles olhos opacos e avermelhados, voltados para o teto. Então falou:

— Mamãe, deixa eu dormir aqui? — Tocou num dos braços frios da mulher. — Está escuro, tenho medo... Por favor, deixa eu dormir com você... Prometo que não vou fazer barulho...

E assim ela se deitou ao lado da mãe, no chão mesmo. Do busto da mãe ela fez o aconchego para sua cabeça, e de um dos braços, um envolto sobre si, para se certificar de que não estava sozinha diante da tempestade que começava a estrondar do lado de fora.



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