História Revolução Solar - Capítulo 14


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Adolescentes, Escola, Gay, Romance
Exibições 12
Palavras 7.091
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Escolar, Harem, Misticismo, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Se você está nesse site é porque já está familiarizado com a ideia de ship. Então vamos sair shippando!

Capítulo 14 - Tem mais alguma coisa pra dizer?


Eu nunca fui de acreditar em milagres, mas acho que ontem meu coração deve ter parado de bater por alguns minutos, porque após ouvir a âncora mudar para os comerciais eu não me lembro de nada até o momento que Yuki balançou meu ombro e falou alguma coisa que não consegui entender, mas apenas isso, nada depois. A ideia de que o Brasil todo agora sabe dessa besteira amorosa onde todos estão atrás de mim é tão assustadora que um calafrio insistiu em percorrer pelo meu corpo durante meus sonhos, que na verdade foram pesadelos. Rolei na cama mil vezes imaginando todos da escola rindo e debochando de mim pela vergonha pública de ser exposto dessa forma. Vi o sorriso malicioso de Jéssica e seus dedos que massagearam sua boca por alguns segundos apontarem para mim, prometendo usar essa reportagem até o dia do meu enterro. Meus pesadelos foram incontáveis.

Acordo assustado e suando, com uma respiração acelerada. Quando eu era criança e tinha pesadelos, no meio dos sonhos eu costumava abraçar um coelho de pelúcia que eu tinha. Eu havia me mexido tanto na cama e sentia um toque macio na minhas mãos. Será que era meu coelho? Quando começo a acordar de verdade, percebo que estou em uma posição estranha, abraçando o torso de alguém, com minhas pernas entrelaçadas nas suas e com a cabeça encostada em seu ombro, sentindo um cheiro fresco. Parece Halls. Ariel? O que está acontecendo? Tento trazer minha mão para mais perto do meu corpo, mas ela está em cima de seu torso e a trago fazendo um caminho lento e sensível por seu peito, sentindo sua pele e os pelos. É uma sensação boa... Espera, o que estou fazendo?

Preciso me distanciar, mas estou muito perto. Ele deve estar dormindo, então levanto minha cabeça com cuidado e minha bochecha roça em seu queixo, me fazendo sentir sua barba por fazer arranhar minha pele. Há muito tempo que eu não tenho esse contato com alguém, e o toque humano desse tipo realmente faz falta. Não, não pense essas coisas agora Guilherme, você não precisa disso. Quando olho seu rosto, vejo que ele está me encarando com um singelo sorriso e seus olhos claros.

– Bom dia – ele diz com sua voz rouca.

Meu rosto fica em chamas. Em um movimento incrivelmente ágil, rolo na cama tentando me distanciar dele mas acabo fazendo com tanta força que caio no chão. Por sorte o edredom amortece minha queda, ou iria sentir isso por um bom tempo. Espera, acho que senti alguma coisa debaixo de mim.

– Ai! – ouço alguém reclamar.

Me movo e vejo que Nathan estava deitado em um colchão estirado no chão, assustado comigo caindo em cima dele. Fico de joelhos, me escondendo atrás da cama. Está mais frio do que  de costume. Percebo que estou vestindo apenas minha cueca boxer e fico sem saber o que me dá mais vergonha, se é cair da cama, dormir agarrado ao Ariel ou dormir agarrado ao Ariel de cueca. Junto a tudo isso eu ainda estou tentando entender o que Ariel fazia na minha cama. Ele ainda está deitado como um modelo de revista, me encarando com um pouco de dúvida e divertimento. Sua pele clara mostra um leve bronzeamento quando a luz do sol atravessa a janela e toca seu corpo. O que diabos aconteceu ontem? Nathan se levanta do colchão, massageando a cabeça com um olhar de poucos amigos.

– Cara, você é mais pesado do que eu pensei.

Ariel veste uma camisa de manga longa e seus shorts próximos da cama e se levanta, se espreguiçando. Ele me percebe encarando-o, embrulhado no cobertor para que ninguém me veja só de cuecas. Procuro e visto minha bermuda, mas não encontro uma camisa.

– Relaxa, não aconteceu nada – ele diz, se aproximando de mim e me estendendo sua mão para que eu possa me levantar. – Você é bem exagerado às vezes, sabia?

– E você acha que eu não tenho razão disso? – digo segurando sua mão e me pondo de pé, ainda coberto pelo edredom para que eles não me vejam seminu. Me embrulho mais ainda no edredom e me sento na cama, tentando me lembrar do que aconteceu ontem depois da matéria, mas tudo fica um pouco nublado em minha cabeça. Nathan me encara, aparentemente chateado pelo jeito que acordou. – O que diabos aconteceu? Por que o Ariel estava dormindo aqui?

Ariel e Nathan se entreolham e Nathan sai do quarto indo em direção às escadas, reclamando que vai tomar café, me ignorando completamente. Ariel olha pra mim e coça a cabeça, provavelmente tentando elaborar a história.

– Depois da matéria no jornal você disse que estava incrivelmente envergonhado e com os batimentos acelerados, então pediu um remédio da cozinha, que Yuki foi pegar, mas acho que ela deve ter pego um tarja preta. Você estava meio tonto e falando algumas coisas sem nexo, eu fiquei preocupado e daí você pediu para eu dormir com você. O febril não sabe nada de remédios nem como cuidar de uma pessoa, então ele não reclamou. Eu dormi na cama e ele em um colchão extra. Você é bem fraco pra remédios, sabia?

Eu pedi pra ele dormir comigo? Não sei onde esconder mais ainda meu rosto, então desvio o olhar. Eu pedi pra ele dormir comigo e ele realmente veio dormir aqui?

– E você sabe cuidar de pessoas?

– Minha mãe é enfermeira, além disso eu sempre cuidei do Morgan e da Francis quando meus pais não estavam. Tenho um pouco de prática – ele diz com um sorriso bobo. – Te dei um remédio pra enjoo e fiquei acordado até você dormir.

Meu coração bate mais rápido e tento não olhar diretamente pra ele. Ele é tão bom em me deixar assim quanto Nathan, mas ele faz sem querer. O que ele fazia cuidando de mim? Não havia necessidade alguma.

– Eu e você estávamos de cueca por quê? – desvio a pergunta.

– Você eu não sei, quando foi dormir estava vestido, deve ter tirado enquanto dormia. Eu estava com calor, mas você parecia estar em uma temperatura boa, então preferi tirar minha camisa  e shorts ao invés de diminuir a temperatura.

– E você já estava acordado quando eu acordei, por que não me acordou ou pelo menos tirou meu braço de cima de você? – pergunto, mas logo me arrependo, pois eu mesmo não consigo me impedir de corar.

Ariel se vira, vem andando até mim e fica na minha frente. Eu estou sentado na cama e ele fica em pé olhando no fundo dos meus olhos, como uma criança inocente que não entende a pergunta.

– Porque eu gosto de você. Gosto de te ver dormindo.

Eu me odeio por ficar ali, olhando fixamente para ele sem poder dizer nada. Mais uma vez ele tenta se aproximar e falar essas coisas. Já é ruim o suficiente ter que lidar com o que acontece na escola, a declaração de Enzo, a exposição da minha mãe e ainda tenho que tentar ser educado ao corresponder suas expectativas. Eu odeio ter que pensar em romance ou até mesmo em sentir qualquer coisa relacionada a isso, mas ele insiste em trazer o tempo todo e isso traz um sentimento ruim dentro de mim. Quanto mais parece que ele quer se aproximar, mais eu quero me afastar. Eu não o odeio ou tenho nada contra ele, mas...

– Para de dizer essas coisas – rebato. – Nunca mais diga coisas assim.

Ele levanta as sobrancelhas e seu rosto fica mais sério, mesmo que ainda esteja com seu ar tranquilo.

– Por quê? É tão ruim assim alguém gostar de você?

Gostar... ele usa essa palavra novamente. Isso soa como um desafio e um estresse subitamente nasce.

– Eu não quero saber se é ou não, apenas pare! Coisas desse tipo já me trouxeram problemas o bastante.

– Você está falando do que aconteceu na sua última escola? Do Pietro e do Benjamin?

Eu fico congelado. Ele me encara seriamente, sem retroceder um único centímetro. Seus olhos claros mantém-se colados nos meus, mas sinto meu corpo esquentar. Sempre que alguém falar nisso e insistir em mexer nessas memórias eu sentirei essa raiva, independente de quem seja.

– Você foi atrás disso também? – rosno para ele.

– Eu já sabia antes de você se mudar para cá.

Não pode ser... Isso é impossível. Ele realmente me conhece antes daqui? Antes que eu possa ter tempo de pensar nisso, minha raiva cresce tanto que minha mão começa a tremer. Se o que ele diz é verdade, então não deveria ter feito o que fez no primeiro dia de aula. Se ele realmente se importasse comigo nunca me faria passar por aquilo.

– Se você sabia, por quê fez aquilo no primeiro dia? Você já sabia o que eu já havia passado e mesmo assim me fez passar por aquela situação! O que você quer? Zoar comigo também como todos os outros? – o tom sobe demais.

– Eu nunca...

– Você diz que me conhece e que sabe quem eu sou, mas você não sabe nada sobre mim!

– Guilherme, eu não...

Ele tenta se aproximar, mas eu me esquivo.

– Eu não quero mais ter que pensar no que eu sinto, mas você não me deixa descansar um minuto sequer! Você sequer saber como é amar algué-

– SIM, EU SEI! – ele grita e eu acabo me calando. Eu nunca o ouvi gritar nem perder seu jeito desleixado, mas agora eu só posso ver seus olhos marejados. – Eu sei como é se sentir com medo, como é se sentir só e sei como é sentir amor. Eu erro bastante, erro mais do que acerto, mas eu realmente tento, eu me esforço bastante.

– Eu sei – é o máximo que consigo dizer.

– Eu não sou o melhor em me expressar ou colocar em palavras o que eu sinto, mas quando eu consigo, é verdade – ele se aproxima de mim, passando pela cama e ficando entre ela e o sofá, quase me prendendo em um canto do quarto. – E mesmo que seja você, eu não vou deixar que diga o contrário.

– Isso não tem nada a ver com que eu estava falando. Eu só quero que você pare com tudo isso. Ficar dizendo por aí que gosta de mim, ficar me olhando durante as aulas e se esforçar pra me manter alegre... Eu só quero que pare com isso!

– É isso? – ele pergunta, rispidamente.

Estamos muito próximos e seu rosto duro está focado no meu. Suas ondas douradas parecem um pouco alaranjadas quando a luz do sol se deita sobre elas. Eu engulo em seco. Isso termina aqui, mesmo que seja o fim de uma amizade. Se ele não pode se contentar em ser meu amigo, não há mais nada para ser.

– Sim – sigo em frente, me preparando para passar pelo seu lado e sair do quarto quando ele parece abrir a boca e tenta dizer algo. – O que foi? Tem mais alguma coisa pra dizer?

Ele move o braço direito e bate no armário com a mão espalmada, me impedindo de passar. O som me assusta e eu o encaro. Ele está mais sério do que antes.

– Tenho sim – suas palavras são diretas como flechas. – Eu amo você. Tem problema com isso?

Eu recuo um passo, sentindo frio na barriga.

– O quê?

– Eu amo você. Eu gosto de você mais do qualquer um dos imbecis do seu passado te disseram que gostavam. Se você não quer que eu diga isso em alto e bom som, tudo bem, mas você não pode me obrigar a fingir que não é isso que eu sinto. Mas você precisa pensar em qual o problema em amar os outros.

Ariel logo se vira e vai andando até a porta e sai do quarto. Eu fico ali, naquele canto quieto e escuro do quarto. Sinto as pernas bambearem e me sento no chão, abraçando meus próprios joelhos. Por que eu falei aquelas coisas pra ele? Eu vacilei muito com ele e a única coisa que ele fez foi cuidar de mim e se preocupar comigo. Sinto os olhos umedecerem ao relembrar as coisas que disse a ele. Ele disse que me ama. Ele disse com todas as palavras e repetiu, sem vergonha de dizer aquilo e tinha tanta certeza na voz que eu não consigo ver como mentira.

Ouço alguns passos vindos pela escadaria e seco as lágrimas que ameaçavam cair e me ponho de pé. Nathan entra no quarto e me olha com uma expressão confusa.

– Aconteceu alguma coisa aqui?

– Nada que tenha que se preocupar.

Ele dá de ombros e entra no banheiro, me deixando sozinho, embrulhado no meu edredom e sentado na cama. Eu pareço um esquimó em um iglu, enquanto me enrosco cada vez mais no meu grosso edredom e fico pensando cada vez mais enquanto ouço o barulho da água caindo no banheiro.

– Guilherme, vou sair do banheiro.

Por mais que eu tente pensar sobre isso, não consigo compreender nada. Puxo uma toalha do meu guarda-roupas e me enrolo nela, afinal ainda tenho aula hoje.

– Pode sair, Nathaniel.

Ele abre a porta e um vapor com cheiro de sabonete me atinge no rosto. Ele está de pé, com o corpo úmido e sua toalha enrolada na cintura, mostrando seu abdômen e o torso com alguns pelos. Ele fica muito diferente quando seus cabelos negros estão molhados pois escondem sua testa, e eu estou muito acostumado com seu topete. Ele me olha com o que eu suponho ser um olhar de curiosidade.

– Está com raiva de mim?

– Não, por que estaria?

Franze o cenho, como se fosse óbvio.

– Me chamou de Nathaniel.

Estava com a cabeça tão ocupada que sequer percebi.

– Não posso chamar?

Ele me lança seu sorriso de canto de boca. Um arrepio corre por meu corpo.

– Pode me chamar do que quiser. Nathaniel, Nathan, Nate, Niel, qualquer um.

Ele dá um beijo em minha testa e vai até o guarda-roupas pegar algo para se vestir. Eu entro no banheiro que ainda está com um cheiro forte do sabonete e shampoo dele. Tiro minha cueca e entro no box, logo acionando a água gelada. Preciso dessa água gelada como nunca na minha vida. Mesmo com essas ações na minha cabeça, ele e os outros dois estão apenas me instigando. Tenho medo de entrar nesse jogo de entender o que eu sinto e apostar... e perder mais uma vez.

 

Entrar no colégio nunca foi uma tarefa tão difícil quanto está sendo hoje. Eu estou parado na frente da entrada do Instituto de Educação Francisca Daou faz três minutos olhando para a parte de dentro como se fosse um túnel tenebroso sem volta, afinal, depois do que aconteceu no jornal de ontem, é de se imaginar que todos nessa escola vão zoar comigo. Eu mesmo faria isso. Eu tento imaginar qual seria a pior situação possível e descubro que existem dezenas que minha mãe abriu. Nathan, e Enzo podem ser zoados porque minha mãe disse os nomes deles, pode ser com minha foto ou mesmo por usar os produtos da minha mãe, que diga-se de passagem realmente fazem maravilhas para minha pele.

– Gui, vai ficar aí parado? – Nathan pergunta, passando o braço pelos meus ombros.

– Deixa de se aproveitar dele, ele ainda está em choque – fala Enzo.

– Deixa de ser chato, Daou. Vamos logo.

Respiro profundamente e entro na escola com meus amigos atrás. Yuki e Lisa nos mandaram uma mensagem mais cedo avisando que chegariam mais cedo para resolver algumas pendências, que não quiseram dizer quais eram e provavelmente Leandro estaria com elas. Dentro da escola não vejo muita diferença no tratamento além dos olhares que de vez em quando eu recebo por ser uma espécie de subcelebridade da escola, mas nem mesmo um tipo de piada. Vejo algumas meninas passarem por perto de mim cochichando algo, com um olhar que me é muito familiar. Sinto um peso enorme sair das minhas costas. Por sorte todas as minhas suspeitas não passavam de neura minha.

Só estou preocupado por ainda não ter encontrado Ariel. Ele já havia saído de casa quando passamos por lá e não o encontramos no caminho. Eu não posso julgá-lo se nunca mais quiser me olhar nos olhos. Agora mais do que nunca, eu posso afirmar que não mereço qualquer tipo de sentimento dele.

Mal dou dois passos e ouço um barulho ínfimo, quase inaudível vir dos andares de cima. Parece um tremor, igual ao que se pode ouvir e sentir quando alguém dá um pulinho no andar de cima da minha casa. Aquele barulho quase inaudível começa a subir para um nível de zumbido e vai aumentado até que reconhecesse como passos. Junto ao barulho de passos ouço um outro som mais alto e ligeiramente agudo. Me lembram centenas de vozes. Começo a ficar tenso e vejo que não sou apenas eu a ficar preocupado com o barulho, já que todos param e começam a prestar atenção no barulho que vinha dos andares de cima.

O barulho aumenta e chega a parecer uma marcha militar desorganizada, até mesmo consigo sentir o tremor da escola. Meu coração começa a palpitar desorganizadamente. Isso não é um bom sinal. Seja lá o que for, está descendo. Aperto meus olhos para a escada por alguns instantes, ouvindo o barulho aumentar cada vez mais, até que vejo Lisa vir correndo pelas escadas, seguida de Yuki e Leandro. Lisa está com uma saia xadrez e uma camisa branca com algo escrito, assim como Yuki também está vestindo uma camisa branca com algo escrito... Leandro também! Eles estão correndo como se suas vidas dependessem da velocidade. Lisa levanta a cabeça, tentando não tropeçar nas próprias pernas, e ao me ver faz um sinal com os braços que não consigo identificar, sem parar de correr em nossa direção. Yuki também faz o sinal e quase caiu de cara no chão se não fosse por Leandro, que a segurou pelo braço. Ele, ainda correndo, respira profundamente e grita.

– Corre, Guilherme!

Meu cérebro mal pode processar a mensagem de Leandro quando inesperadamente da escada saem dezenas e dezenas de garotas vestindo camisas brancas. Eu me lembro dos tempos que eu assistia Animal Planet e via manadas de animais enormes e selvagens correndo pela savana africana, levantando poeira e fazendo o chão tremer. Me lembrou perfeitamente a cena do estouro de manada em Rei Leão, onde as garotas seriam a manada e eu o pobre Simba, indefeso no caminho daquele muro móvel. Aquele mar de gente vindo em minha direção me deixa sem reação e só posso ver Lisa e Yuki passarem por mim tão rápido que sinto o vento que traziam. Leandro, ao perceber que estou paralisado, me joga por cima de seu ombro, me carregando como um saco de cimento que não pesa nada, e corre atrás das meninas. Eu vejo aquela multidão de meninas histéricas correndo atrás de nós como se alguém fosse feito de ouro.

– O que está acontecendo? – pergunto ainda sendo carregado por Leandro.

– Eu pergunto o mesmo – grita Enzo, que corre emparelhado com Leandro.

– Depois a gente explica, vamos pra sala quatro. Agora! – Leandro grita.

Lisa vira à esquerda e é seguida por todos nós. Ela segue até a sala número quatro e deixa a porta aberta para que entremos, logo fechando-a quando estamos a salvo. Leandro me coloca no chão e se joga de costas no chão, respirando profundamente. Lisa e Yuki se sentam em cadeiras vazias e tentam puxar o máximo de ar possível, secando o suor da testa. Ainda consigo ouvir o barulho daquelas garotas correndo de um lado para o outro.

– Que droga foi essa? Qual o problema daquelas meninas? – Ariel reclama, também puxando ar.

– São shippers – responde Leandro, ainda ofegante.

Arqueio minha sobrancelha em confusão. Enzo e Nathan parecem igualmente confusos com a resposta e se entreolham, mas logo cortam o olhar.

– São o quê?

– Shippers – repete Yuki. – Fazem pares.

Novamente olho para Enzo e Nathan, mas eles ainda estão com a mesma expressão de confusão.

– Fazem o quê?

Lisa revira os olhos, percebendo que aquela explicação não daria em nada. Dá dois tapinhas no ombro de Yuki e se senta da maneira costumeira e estranha na cadeira.

– Elas são shippers, pessoas que costumam imaginar e torcer por casais de personagens de séries, livros, desenhos e animes, ou mesmo de pessoas reais. Elas sãos suas fãs, Gui – diz Lisa enquanto arruma seus fios loiros em seu rabo de cavalo.

– Minhas fãs? – pergunto, incrédulo.

Yuki, que já está recuperada do cansaço e falta de ar, se ajeita em sua cadeira e toma bastante fôlego. Agora é a hora que ela vai enfeitar a história.

– Ontem, quando passou a matéria do jornal... – ela mal começa sua explicação, mas a menção ao jornal me causa um tumulto no estômago – o assunto se tornou o mais comentado da escola, ainda mais quando sua mãe mencionou os três pretendentes. Com uma ajudinha minha, o assunto ficou ainda mais badalado, claro – seus olhos brilharam como quando fala de jornalismo ou casais masculinos. – Eu movimentei algumas amigas que amam romances, elas falaram com suas colegas, que falaram com outras colegas, que falaram com outras colegas... Quando dei por mim, quase toda a escola estava dando opinião sobre vocês, meninos e meninas! Alguns alunos achavam que Guilherme e Nathan davam o casal mais romântico devido às diferenças, outros apostavam que Guilherme e Ariel era mais interessante, enquanto outros preferiam Guilherme e Enzo pela briga... Tudo isso apenas ontem de noite! Ontem passei na gráfica do meu tio e consegui essas camisas – disse apontando para sua camisa.

Pela primeira vez desde que pus meus olhos em Yuki, prestei atenção na palavra que estava escrita em letras pretas e discretamente estilizadas na sua camisa branca com detalhes. Procuro o significado em minha cabeça por alguns segundos mas não encontro nada parecido.

– Guiriel? – sussurro.

Olho para Lisa e vejo que em sua camisa branca existe uma outra palavra, com estilização ligeiramente diferente, mas igualmente preta e grande. Também não consigo entender. Meus olhos correm a sala e vejo Leandro ainda deitado no chão, mas presto atenção em sua camisa, que também possui uma palavra esquisita, mas diferente das outras.

– Guithan e Enzerme? Que diabos é isso?

A porta da sala se abre e tenho medo que sejam as garotas histéricas, mas Ariel entra na sala. Curiosamente meu nervosismo se mantém. Ele olha para todos na sala e cumprimenta rapidamente, quase me ignorando. Lisa e Yuki dão risadinhas abafadas e se entreolham quando lembram das camisas.

– São os ships. O nome é uma mistura do casal, então adivinhe! – diz Yuki animada.

– Suponho que quem usa a camisa Guithan queria que eu e Guilherme sejamos um casal – comenta Nathan com seu olhar analítico, passando os dedos pelo queixo. – Não vai acontecer, mas parece interessante – ele sorri maldosamente ao me ver incomodado.

– Sim! Pra mim, esse é o casal mais fofo! – responde Lisa. – Ainda mais porque acho que o Guilherme é capaz de conquistar o Nathan de uma vez por todas.

Ariel, que estava encostado na parede, ajeita sua jaqueta verde-musgo no corpo e se dirige até Yuki.

– Guiriel não tem um som muito bom, mas acho que é melhor que Arierme.

– Acho Enzerme estranho, mas gostei da iniciativa – Enzo estica o braço para levantar Leandro.

– Eu acho que Guilherme e Enzo é um casal legal – rebate Leandro, pondo-se de pé com a ajuda de Enzo.

Eu estou completamente boquiaberto com tudo isso. E mesmo meu nome estando em todas essas coisas, eles estão me ignorando completamente.

– Espera aí, ninguém quer saber o que eu acho disso?

Todos olham para mim e me analisam de cima a baixo, como se eu tivesse dito algum tipo de besteira. Ele voltam a conversar sobre as shippers, me ignorando novamente.

– O que foi? – pergunto.

– A gente já sabe o que você pensa sobre o assunto – retruca Enzo.

A resposta soou tão natural, assim como a reação de todos à afirmação, que me sinto a pessoa mais óbvia, ou previsível, do mundo. Eu realmente sou essa pessoa fácil de se ler?

– A gente já sabe que você não vai concordar, que acha isso bobagem, que chama muita atenção e que é para parar – complementa Ariel. Sua resposta é quase seca e tem um peso que me acerta como um soco.

É claro que eu penso isso! Qualquer pessoa com um bom senso pensaria isso se descobrisse que a escola toda está fazendo desse jogo de relacionamento um tipo de reality show pessoal ou como uma casa de apostas. E também é revoltante saber que as pessoas tem essa visão de que eu sou um cara tão chato.

Eu chego a abrir a boca para começar a protestar, mas Yuki me interrompe levantando a mão. Ele pega sua bolsa roxa repleta de chaveiros e bottons com personagens de animes e começa a remexer seu interior até puxar um grosso bloco com cédulas de vinte, dez e cinquenta reais. Um lindo e maravilhoso bloco repleto de valiosas notas. Os olhos dela estão brilhando de excitação.

– O que é isso?

– Lucro, meu querido – responde Yuki, balançando o bloco em sua mão. Desde que conheci Yuki, percebi que ela tem apenas três paixões na vida: jornalismo, casais gays e dinheiro.

– Lucro das camisas? – Ariel se aproxima do bloco de dinheiro com uma expressão de espanto, assim como Nathan e eu. Enzo é o único que não parece se impressionar.

– Sim, sim! Cada camisa custa vinte reais, com um custo de produção de apenas cinco reais, enquanto que a camisa eu consegui de cortesia – o olhar malicioso de Yuki ao mencionar que conseguiu as camisas de graça me diz que ela provavelmente imprensou alguém para isso. – E isso daqui é sua parte – ela seleciona algumas notas com a rapidez de um bancário e me entrega. – Mas você não gostou da ideia, não é?

– Eu nunca disse isso! Eu até gostei das camisas – pego o dinheiro de suas mãos e começo a contar. Querendo ou não eles vão continuar com esse negócio, então é melhor ao menos ganhar algo com isso. Agora, pelo menos, acabei de ganhar duzentos e quarenta reais.

Yuki reparte o bloco de dinheiro e dá um pouco para cada, dizendo que eu recebo uma parte do lucro de cada camisa, já que meu nome está em todas, mas Enzo, Nathan e Ariel recebem uma parte apenas de suas respectivas camisas. Eu conto minha cédulas e guardo em minha carteira, mas ainda estou um pouco confuso com toda essa novidade.

– Espera, não tem problemas se metade dos alunos usarem essas camisas aqui?

Lisa, Yuki e Leandro se entreolham, como se procurassem uma resposta concreta. Meu tempo com eles me avisa que isso não é um bom sinal.

– Podem falar.

– Bem... depois de toda a discussão sobre vocês... nós criamos três clubes – sussurra Yuki.

– Clubes? Como assim?

– Acabamos de formalizar o clube na secretaria, foi mal.

– Por que eu deveria estar chateado?

Lisa olha de um lado para o outro e parece incomodada, sei que há alguma coisa a mais. Olho diretamente em seus olhos castanhos e a fito tão intensamente que ela parece não querer mais se segurar.

– Fizemos uma aposta e o grupo que acertar o par que vai ser feito ganha uma viagem até o sítio do Enzo, desculpa Gui – ela fala de maneira tão rápida que eu mal pude entender.

– O que?! – eu e Enzo gritamos ao mesmo tempo.

– Foi mal, mas tinha que ter um prêmio para atrair mais pessoas para os clubes.

– Pensa bem, Guilherme, vai ser bom pra você também – Yuki tenta me animar. – Com as pessoas preocupadas com as camisas e as atividades do grupo, terão menos tempo de sair correndo atrás de você. Além disso o fato de shipar só significa torcer por um tipo de relacionamento, é muito comum. Meninos e meninas podem dar sua opinião, e virou moda!

Afundo na cadeira enquanto suspiro profundamente. Eu desisto. Não tem mais nenhuma maneira de ter uma vida normal nessa escola. Minha vida virou um tipo de Mega-Sena em que qualquer um pode apostar. Eu mesmo não sei como esse negócio de pretendentes vai terminar, quem dirá qualquer outro aluno da escola que nunca sequer falou comigo. Eu quero voltar para minha casa e dormir eternamente, e só acordar quando ninguém mais 'der ibope' para essa loucura. Por sorte o sinal da escola toca, mas espero mais dois minutos para sair da sala, assim como os outros. Não quero uma manada de alunos apostadores e amantes de casais gays me perseguindo pela escola com suas camisas partidárias.

Coloco minha cabeça para fora da sala e olho para os dois lados, me certificando que não tem ninguém. Vou andando em uma velocidade recorde até a sala, deixando os outros para trás. Abro a porta da minha sala e meus olhos são machucados pela visão de um mar branco. Quase todos os alunos estão vestindo as camisas brancas com o nome do 'ship' em preto. Pessoas com quem eu mal falo e alguns que eu nem mesmo me lembro do nome estão usando suas camisas. Os olhos da sala se voltam para mim e todos levantam as mãos como em uma saudação maluca. Sinto meu rosto queimar com a vergonha, mas não consigo segurar um riso. É uma turma louca, mas é bem divertida. Me sento em minha cadeira e espero o primeiro tempo, que será da professora Calil. Alguns dos alunos da sala me rodeiam e começam a me dar dicas sobre quem eu deveria escolher.

– O Ariel é um cara muito legal, sabia? Que eu saiba, ele nunca namorou – Miguel, um garoto que senta no fundão, me diz como quem tenta vender um celular roubado.

– Desde que o Nathan te beijou no primeiro dia eu percebi que rolava uma química – comenta Samantha, que costuma se sentar na frente da terceira fileira.

– Mas e o Enzo? Eu acho que o antigo lado metido dele era falta de um amor, mas agora ele mudou, isso significa algo, não? – Kátia comenta, me fazendo montar um quebra-cabeças com suas ideias.

Todos comentam como se os três não estivessem sentados perto de mim. Eu percebo que Nathan está começando a se estressar com todo o alvoroço, enquanto Ariel descansa a cabeça na cadeira, sem me deixar ver seu rosto. Enzo simplesmente ignora qualquer comentário que não seja a favor de seu relacionamento comigo. Aquela roda de pessoas ao meu redor só se dispersa quando a porta é aberta, chamando a atenção de todos na sala. Posso ver por entre as cabeças dos alunos os cabelos castanhos e medianos de Calil, indicando que ela acabara de chegar na sala. Todos começam a se sentar em seus lugares e fico boquiaberto ao ver que a professora, que está em pé olhando para a turma, veste uma camisa branca com a palavra 'Guithan' estampada por baixo do jaleco.

– Ô fessora, qual é a da camisa? – Miguel pergunta de uma maneira que me parece uma reclamação.

Calil parece surpresa com a pergunta e passa a mão pela camisa, logo esboçando um sorriso de orgulho.

– Desde o primeiro dia eu torço pelo casal. O que eu posso dizer? Tenho um fraco por casais de homens – diz sem nenhum constrangimento. – Além disso, fiz uma aposta gorda.

Yuki se levanta da cadeira maravilhada, com um brilho renascido em seus olhos. Acho que deve ser a primeira vez que encontra uma professora que compartilha de seus gostos peculiares.

– Eu te entendo professora, sei exatamente como é.

As duas logo se sentam, mas a sala insiste em uma discussão sobre qual é o casal mais adequado a ser formado como se fosse uma votação à presidência e percebo que há uma espécie de agrupamento de pessoas que possuem a mesma opinião. Me pergunto se essa comoção toda se iniciou pela aposta, ideia que toda a escola toda pareceu se interessar. No meio da discussão, Ariel acaba tentando apaziguar os ânimos mas uma fala sua acaba sendo mal interpretada como uma defesa ao grupo Guiriel, irritando Enzo, que toma partido do clube Guenzo. Nathan parece mais interessado em dormir, mas por pressão dos apoiadores de Guithan acaba tendo que participar da discussão. Quase sinto pena por ele, mas quando lembro que ele só está fazendo isso para me incomodar, deixo como está. Yuki e Lisa se divertem colocando mais lenha na fogueira, pontuando os pontos mais fortes de cada um dos três pretendentes, causando mais e mais temas para debate, desde beleza até habilidades extracurriculares. Calil está tão envolvida na discussão, defendendo o casal Guithan, que acaba deixando quinze minutos de aula irem embora apenas com esse debate besta, mas logo que percebe o tempo gasto, chama a atenção da turma e se dirige para a frente da sala. Eu agradeço aos céus.

– Queridos, por mais que nossa discussão esteja sendo bastante produtiva – eu mal acredito quando ela diz isso – temos que iniciar um pequeno assunto adicional. A comissão de formatura. Já deveríamos tê-la montado na primeira semana de aula.

Comissão de formatura? Desde que eu cheguei aqui, ainda não ouvi ninguém discutir nada sobre formatura. Para falar a verdade, já aconteceu tanta coisa na minha vida em tão pouco tempo que eu duvido muito que eu vá durar até a formatura.

– Cada terceiro ano precisa de três representantes: um para participar das reuniões da comissão de formatura e mostrar o interesse e opinião de cada classe de aula e outro para organizar atividades dentro da classe, como festas e prendas para arrecadar dinheiro. Ou podem trocar de lugar, caso necessário. O terceiro é obrigatoriamente o representante, no caso daqui, Cassandra.

Bom, esse esquema de comissão de formatura parece bastante interessante, mas o que é que vamos precisar debater sobre isso?

– Vamos fazer uma votação para que a própria turma escolha seus representantes, alguém tem uma indicação? – pergunta Calil, se dirigindo até a lousa para iniciar a contagem de votos.

Uma mão se levanta naquele mar de camisas brancas e procuro ver quem é. Identifico a garota negra, de cabelos cacheados seguros por uma faixa branca. Seu sorriso é tão encantador como naquele dia em que a conheci. Talvez se eu tivesse ouvido seu conselho, não estaria nesta situação agora. Claro, conheci ótimas pessoas, mas também conheci pessoas terríveis. Ah, Cassandra, seria tão bom se você pudesse estar sempre do meu lado dando bons conselhos. Tão inteligente, tão madura, tão...

– Eu indico o Gui.

Cassandra, sua maldita.

– Quem vota no Guilherme? – pergunta Calil para a sala.

Todos, com exceção de mim, levantam as mãos em aceitação. Até mesmo a professora, que tecnicamente não vale como voto da nossa sala, levanta a mão. Eu fico indeciso se fico lisongeado ou confuso. Após um certo tempo com Enzo, devo ter pego sua mania de desconfiança.

– Bom, Guilherme, você está na comissão.

– Espera, por que eu? – retruco, sem conseguir frear minhas palavras.

As cabeças se viram para Cassandra, que iniciou isso com sua indicação.

– Eu te acho bastante responsável, tem uma boa sintonia com a turma, é popular o suficiente para ser levado a sério em qualquer roda de debate – responde Cassandra, com sua inabalável natureza meiga. – Por mais que as pessoas queiram negar, creio que você possui um poder de magnetismo que pode ser muito útil na hora de negociar com as outras turmas.

Eu, popular? Parece que realmente temos uma visão diferente de nós mesmos. Desde que cheguei aqui e essas coisas loucas começaram a acontecer, imaginei que as pessoas me viam como um cara fácil que sempre está metido em alguma coisa surreal, ou como um garoto sem graça que tem três caras o seguindo o tempo todo. Todos parecem concordar com Cassandra, assentindo com a cabeça.

– Já temos um, agora, alguém mais indica? – Calil volta a perguntar da turma.

Outra mão é levantada no meio dos alunos. Dessa vez eu não preciso fazer esforço para procurar quem é, já que o dono da mão se levantou da cadeira. Um garoto alto, bonito, de pele morena, cabelos curtos e revoltos estava de pé ao lado de sua cadeira. Ele vestia uma camisa azul escura ligeiramente apertada, mostrando seu corpo trabalhado. Eu o vi poucas vezes durante as aulas, então não me lembro de seu nome.

– Diga, Diego.

– Posso me indicar? – pergunta o garoto alto, com uma voz um pouco rouca.

– Não vejo por quê não. Quem vota no Diego?

Algumas mãos se levantam, um pouco mais do que a metade da sala. Eu não o conheço profundamente, mas tantos braços levantados me parecem indicar que ele é confiável. A professora conta os votos e continua com o mesmo esquema de indicação e votação. Mais três alunos foram indicados, e por pouco passam Diego, mas nenhum conseguiu a proeza.

– Perfeito, a comissão do terceiro ano número três será composta por Guilherme Arceu e Diego Fernandes, todos de acordo?

A turma assente com a cabeça e algumas poucas afirmações verbais. Não tem mais volta. Estou na comissão de formatura.

O tempo de aula vai passando e Calil ainda faz questão de, vez ou outra, reafirmar sua aposta no casal de Nathan, o que causa certa confusão até seu tempo terminar e outro professor tomar seu lugar. Valter chega e educadamente pede para que todos se sentem para que ele possa dar sua aula especial sobre as olimpíadas e história grega. Sua maneira extremamente formal de falar chama muito a atenção, já que sempre parece que ele está dando uma bronca. Fala sem parar e libera os últimos quinze minutos para discussão dos grupos.

Formamos nosso grupo no chão e todos começamos a discutir sobre o que Valter havia explicado. De todos os olhares, eu nunca encontro os de Ariel, que parecem nunca ir na minha direção. Isso faz meu estômago revirar. Ele está realmente chateado. Até mesmo tento dar uma opinião esperando que ele retribua com qualquer palavra que seja, mas só recebo grunhidos como resposta. Me pergunto se os outros estão percebendo essa diferença.

O tempo de Valter termina e, antes que eu possa sequer me levantar, Ariel se levanta e sai da sala. Sinto um nó se formar na minha garganta. Ele me odeia tanto assim? Logo a sala vai se esvaziando e todos saem.

– Vamos logo Guilherme, assim os salgados de queijo vão acabar – Enzo diz, segurando a porta.

Aceno para ele e saio da sala também, mas dou a desculpa de que preciso ir ao banheiro. Sigo até o banheiro do segundo andar, que costuma ficar vazio, e procuro uma cabine vazia. Tranco a porta, sento no vaso com a tampa ainda abaixada e cubro o rosto com as mãos, sentindo o quão quente eu estou.

Eu estraguei tudo. Eu podia simplesmente ter dito não naquela hora, poderia ter ignorado, mas eu disse aquelas coisas. Qual é o meu problema? Eu nunca falo daquela maneira com ninguém, e mesmo assim eu falei com ele, talvez a única pessoa que desde o início me quis bem. Ele provavelmente me odeia e eu não posso reclamar se ele me odiar mesmo, eu mereço.

Ouço a porta do banheiro ser aberta e duas vozes animadas que eu não reconheço brincam animadamente uma com a outra. Ouço os zíperes abrindo e o barulho de água.

– Cara, você viu as meninas doidas ante do primeiro tempo? – a voz mais grossa comenta.

– Eu vi, quase que eu fui atropelado. Essas garotas são loucas.

– São mesmo. Eu ainda não entendi como elas ficam tão doidas pelos caras se eles são viados. Tipo, não vão ficar com elas mesmo.

O outro ri e concorda. Sinto meu rosto esquentar.

– Eu não sabia que aquele que vive zangado, Nathaniel, era viado também. Quem diria que tem uns bem disfarçados, né? Assim a gente tem que ter cuidado em dobro até com quem a gente mija perto – deixa uma dúvida no ar.

– Tá me estranhando? Relaxa que eu não tô nem aí pra esse teu pinto pequeno – o outro brinca. – Oferece lá pro... Como que é o nome? Guilherme.

Minha mão aperta meu joelho com força. Como eu imaginava, não sou mais do que motivo de piada pra metade da escola. Por mais que eu queira abrir a porta e encará-los, já tenho uma advertência do diretor para não fazer nada precipitado.

– Vou nada, vai que ele aceita. O moleque já tem três, é mais que suficiente, eu acho.

– Não duvida, se desse pegava metade dos caras da escola, eu aposto.

Ouço o barulho baixo da porta abrindo.

– Não duvido não, tem até aquele cara loiro que vive atrás dele, que tem um nome estranho, acho até que é gringo. O viado que sempre usa uma jaqueta.

– Ariel – uma terceira voz se junta à conversa. É uma voz conhecida... É a voz de Ariel.

Um silêncio domina o banheiro, mas não consigo ver o que acontece do outro lado da porta. Só consigo imaginar os rostos congelados dos dois olhando para Ariel. O que ele vai fazer agora? Não duvidaria se ele simplesmente se juntasse à conversa para destilar veneno sobre mim.

– Então, pensei que estavam animados com a conversa, por que o papo parou? – Ariel comenta.

– Não é nada da sua conta, cara.

– Quando tem meu nome é da minha conta sim. Estavam falando sobre eu viver atrás de alguém. Quem é?

– É aquele viado que toda a escola tá pagando pau, Guil-

Antes que ele possa terminar de falar, parece se engasgar e um som seco ressoa, seguido de um forte barulho de baque acerta a porta do meu banheiro, me fazendo recuar. Pelo espaço de baixo da porta, vejo que um dos garotos caiu no chão.

– Cê tá louco, moleque? – o outro grita com raiva. – Quer morrer?

– Tem mais alguma coisa a acrescentar? – Ariel rebate. – Eu brigo desde criança, você não vai querer brigar comigo.

O garoto rosna e parte para cima dele, é o que parece pela pequena abertura. Ouço alguns sons secos e rápidos até que o outro garoto cai no chão também, com um filete de sangue escorrendo da boca. Ambos os garotos lentamente se levantam, mantendo distância de Ariel.

– Se quiserem falar mal de mim e espalhar rumores, eu não me importo, mesmo. Mas aquele cara já tem problemas demais pra ainda ter imbecis como vocês falando essas merdas. Da próxima vez que se sentirem incomodados com isso, venham falar comigo que eu resolvo – ele estala os dedos.

Os dois garotos saem quase que correndo do banheiro. Ariel segue em direção à pia e ouço o som de água. Ouço seus passos e a porta do banheiro fechar. Me pego olhando fixamente para a porta do banheiro e sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Ariel... Por quê?


Notas Finais


Povo Guiriel, acalmem o coração, por favor.


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