História Rosa Silvestre - Capítulo 1


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Categorias Originais
Tags Amor, Goethe, One-shot, Prova De Amor, Romance, Rosa, Tragedia
Exibições 38
Palavras 2.668
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Treinando one shots, aehuehe.

Boa leitura.

Capítulo 1 - Capítulo Único - Wyvern


Fanfic / Fanfiction Rosa Silvestre - Capítulo 1 - Capítulo Único - Wyvern

Os raios solares enxeridos que escapavam pelas frestas das cortinas esbranquiçadas deixavam os cabelos loiros da garota cada vez mais brilhantes. Ela, vaidosa, penteava sem muita pressa, organizando os fios dourados, querendo mostrar-se atraente — até demais.

Apesar de ser um ato comum — e belo — de qualquer jovem, a dona das madeixas não expressava nada além de desgosto. O que tanto atormentava a jovem Marceline? Ele. Aquele que dizia que lhe amava, porém, nada era recíproco. Marceline não pensava em casar, muito menos ter filhos — queria ser independente, uma mulher forte e solitária.

Mas eis que aquele infeliz apareceu para atrapalhar seus planos.

Viu-a na plantação de uva de sua família, quando estava somente de passagem pelo vilarejo o qual havia chegado de viagem no dia anterior. Apaixonou-se logo de primeira; aqueles cabelos dourados, a pele de porcelana, o modo em que ela segurava o vestido — para não sujá-lo — enquanto pisava com todas as suas forças nas frutas arroxeadas, parecendo estar com raiva de algo. E estava. Marceline já havia comentado com sua mãe, Aurora, que gostaria de ter um rumo diferente das demais jovens de sua idade: liberdade e independência.

Aurora abominou aquela ideia maluca.

Tu deverias parar de ler livros, Marceline. — a garota se lembrava das palavras insensatas de sua mãe. — Isso lhe deixa com pensamentos impróprios para uma moça de família.

"Moça de família", ela revirou os olhos.

Cansado de flertar e ser ignorado, o tal homem — que se chamava Ulisses Bernstein — partiu para o ataque: seguiu Marceline até sua morada e, então, sabia o que fazer. Ele era um homem bonito: seu rosto resplandecia um vibrante colorido saudável, ali mesclava harmoniosamente as cores branca e rubra. Tinha a boca pequena e de proporções corretas, além dos lábios vermelhos; perfeitamente alinhados. Nariz aquilino e olhos vivazes, mas também profundos, expressando não só alegria como também desejo (e ambição). Testa alta e elegante, e cabelos, assim como os de Marceline, louros, ondulados; entretanto, com a chegada de sua fase adulta, tornaram-se castanhos, medianamente claros.

Era um homem que, apesar da sua chegada ser tão recente, já era muito desejado pela região — também possuía uma grande herança de seu falecido pai. Marceline foi abençoada por Deus, por receber uma grande oportunidade de ter um marido charmoso e que lhe daria tudo que quisesse.

Menos liberdade.

Ulisses viu que sua futura noiva vinha de uma família simples, com um casebre velho e deveras desgastado. Percebeu também a plantação onde vira sua amada pela primeira vez, deduzindo que aquilo seria o ganha-pão da família. Seria mais fácil ainda conquistá-la. Ela não recusaria de jeito algum sua proposta de tirar sua família daquele lugarzinho mequetrefe.

E saíra tudo como planejado.

O homem fora bem recebido na família Lavric, causando certa inveja em Isadora, a irmã mais nova de Marceline. Já fazia um mês em que estavam noivos, e a data do casamento estava quase a chegar. Enquanto isso, Ulisses a enchia de rosas, joias e promessas de que, assim casados, mudariam-se para um fim de mundo que era a Escócia, onde morariam no maior e mais bonito palácio do mundo.

Aquilo resultou tamanha revolta na mais velha. Por isso seu semblante de desgosto, arrumando-se para seu noivo que a esperava no andar de baixo. Ouvindo duas batidas na porta, virou-se e falou timidamente — escondendo sua aflição — para que o algoz entrasse em seu quarto.

— Se demorares mais, irás se atrasar. — avisou Aurora, avaliando-a de cima à baixo, mantendo a postura. Marceline tinha um sentimento de culpa por até mesmo repulsar sua mãe. — Não queremos fazer Ulisses de besta, deixando o coitado esperando para sempre. Deixe para se atrasar somente no dia de teu casamento.

— Como eu gostaria de fazer isso... — murmurou agoniada. A mãe lhe lançou um olhar reprovativo.

— Por que estás usando esses trapos? Onde estão os vestidos que seu noivo lhe deu? — ela dava ênfase na palavra "noivo". Marceline nunca aceitava presente algum de Ulisses e, às escondidas, fazia doações às famílias pobres da cidade. — Tu vais parecer uma mendiga desse jeito.

— Se ele me ama, irá me aceitar de todos os jeitos. — rebateu e a outra engoliu seco. — Agora ande, ande. Não disse que estou atrasada?

Vencida, guiou a filha à sala. Esta última que viu o jeito tedioso e clichê — mas para os demais, encantador — que Ulisses conquistava a família. Isadora parecia comê-lo pelos olhos, e, internamente, Marceline suplicava para que o "amor" daquele desconhecido acabasse e ele começasse a nutrir sentimentos pela sua irmã.

Seu pai, Dante, ligeiramente se levantou assim que percebeu a presença da filha mais velha, que transbordava inocência e também beleza. Isadora fechou a cara e revirou os olhos discretamente. A inveja pulsava. Dante segurou ambos os ombros da filha e lhe deixou um cálido beijo na testa, como sinal de carinho e aprovação, para que os noivos pudessem passear pelo vilarejo. Fitou Aurora, que sorriu; Isadora, que fingiu esboçar algum tipo de felicidade e, por fim, Ulisses, o alegre e rico, Ulisses. Todos pareciam felizes, menos as suas próprias filhas.

— Juízo, minha pequena Marceline. — ele afagou as duas tranças que a garota fez como penteado, os olhos brilhando pateticamente. A dita-cuja abriu um sorriso amarelo, abraçando a única pessoa que tinha um pouco de afeição naquela casa.

— Terei, papai. — garantiu.

Marceline volveu o seu rosto para a direção de Ulisses; seu estômago revirou levemente, porém, insistia naquele teatro ridículo até que tudo estivesse feito.

— Por que gostas de me dar rosas, Ulisses?

O tom de voz era de dúvida e também escarnio. Em suas mãos, um buquê de camélias vermelhas e vívidas. As rosas eram bonitas, sim, mas repetitivas. Seu quarto mais parecia um velório por causa das flores de tudo quanto era tipo — e a pobre Isadora teve de dormir no celeiro, por causa da sua tempestuosa alergia à pólen. Ambas dividiam o mesmo quarto.

— Porque tu és tão bela quanto uma. — respondeu de bom gosto, deixando a voz aveludada e apaixonante.

— Que ridículo...

— O que dissestes? Não pude ouvir... — ergueu uma sobrancelha.

— Hã, nada, nada. — corou. — Mas, sabe, eu gosto mesmo é de rosas silvestres. — adicionou.

— Aquelas que nascem somente no topo da Colina de Wyvern? — perguntou ele, coçando a nuca. Ela assentiu em resposta. — Oh... Já viu alguma?

— Não, mas dizem que são belíssimas e raras. — explicou entusiasmada. Ele riu com aquilo. — E também dizem que: aquele que a pega e a entrega para a sua amada, é um homem fiel, que a ama ao ponto de se sacrificar para buscá-la.

Marceline segurou as mãos de seu amado, os olhos esverdeados mais claros ainda com a luz do sol batendo nas íris. Ulisses estava inebriado com tamanha juventude e beleza. Pela primeira vez, viu um sorriso singelo daquela boca cujo sempre quis provar — mas prometeu a si mesmo que somente o faria após uma aliança em cada dedo. Ele era fiel, não era? Ele faria tudo que ela quisesse!

— Tu queres ver a tal rosa silvestre, minha querida?

Ele havia mordido a isca.

— Quero sim, Ulisses. Mas... mas é muito perigoso... Homem algum voltou vivo e também são raras as vezes que alguém volta de lá. — abaixou a cabeça. — Eu te quero vivo e inteiro, não importa se verei ou não essa tal rosa.

Ele delicadamente levantou o queixo fino e pequeno de sua amada, forçando-a a vê-lo. Momentos fitando-o, Marceline sentiu um frio em sua barriga; aquele homem era realmente bonito. Tudo que fazia era somente para agradá-la. Era irritante, todavia, a loira reconhecia tudo.

"O que estou pensando?", ela fechou os olhos. "Eu não estou gostando dele, não estou?"

— Já está decidido: partirei amanhã logo de manhã à Colina de Wyvern. Buscarei a rosa que tanto queres ver. — falou confiante. — Olhe para mim. — ela o fez. — Mesmo que eu não volte com vida, tal ato marcará tua memória para sempre como uma prova do meu mais verdadeiro amor para com Marceline Bernstein Lavric.

— Mas...

Desespero.

— Eu a amo muito. — das mãos ao rosto magricelo de Marceline, Ulisses timidamente se aproximou do rosto da garota, roçando os lábios e depositando um beijo no mesmo lugar onde seu futuro sogro havia deixado. — E prometi que faria tudo que quisesse.

... Poços fundos precisamos cavar...

... Se águas límpidas queremos ver. — completou. — Tu és minha água límpida. Se eu quero te ver, preciso fazer um sacrifício: cavar um poço fundo.

Ela sorriu.

— Eu... E-Eu não sabia que tu também gostavas de literatura.

— Muitas pessoas não sabem do que eu gosto.

Era como se Ulisses soubesse que Marceline nunca havia o amado, mas mesmo assim, insistia naquele coração petrificado, achando que algum dia iria amolecê-lo e receber o amor quente que ela guardava. E se ele não conseguisse, morreria satisfeito ao tentar, pela última vez, realizar um desejo de sua noiva.

— Ulisses, por favor, não faças isto... — Marceline esfregava a palma de suas duas mãos, trêmulas, no rosto do homem, como se fosse carinho, sentindo a barba bem feita espetá-la. — É burrice... Burrice!

— Não é burrice. É uma prova de amor, já disse. — insistiu carrancudo. — Já estou decidido. Tudo que tu queres; tudo tu terás. Assim foi e assim será.

No dia seguinte, a família Lavric estranhava a ausência de Ulisses — ele havia marcado de almoçar e logo após saíria para passear, novamente, com Marceline. Por isso mesmo Aurora havia gastado muitas libras com alimentos frescos e de boa qualidade. Isadora desconfiava um pouco da irmã mais velha estar cabisbaixa e com olheiras profundas abaixo de seus olhos.

— Será que Ulisses não vem mais? — indagou Dante, o tom de voz preocupado.

— Que coisa! Gastei tanto para nada! — resmungou Aurora. — Tu não sabes de nada, Marceline? — a garota nada respondeu. — Marceline? Filha?

— Ela parece que está no mundo da lua. — comentou Isadora, maldosa. Cutucou o ombro da mais velha, que disfarçou a derrota. — Deve ser o amor. — a mulher gostou do que ouviu. Pensava que a filha finalmente havia começado a gostar de Ulisses.

— O que houve?

— Tu não sabes de nada sobre teu noivo? — Aurora repetiu a pergunta do marido.

— Não sei, mamãe! Ele é um homem de negócios, pode muito bem ter acontecido um imprevisto em uma de suas fazendas. — deu uma desculpa qualquer.

Rindo com desdém, Isadora retrucou:

— Pare de mentir, Marceline.

— Olhe os modos como fala com sua irmã, Isadora. — repreendeu o homem. — Ela ainda é mais velha que tu.

— Não, papai. A sua querida Marceline é uma mentirosa de marca maior!

— Garota, onde está os bons modos que eu te ensi...

— Agora não, mamãe! Ouça-me! — interrompeu-a. — O motivo de Ulisses não está aqui entre nós é porque Marceline — virou bruscamente o rosto para ela, alguns fios castanhos rebeldes a acompanhavam no movimento — pediu que ele fosse à Colina de Wyvern para que o mesmo buscasse uma rosa silvestre!

Os pais estavam boquiabertos com tal revelação, e tudo o que Marceline fez fora esconder o seu rosto com as mãos — onde em um dos dedos estava o anel de noivado — e chorar pelo que fez e ordenou. Estava arrependida, pois não sabia que Ulisses poderia ser um ótimo rapaz, companheiro e, acima de tudo, fiel.

—... Eu segui os dois ontem à tarde, pois estava sem nada para fazer. — prosseguiu a menina. — Então ouvi a conversa. Ela praticamente o obrigou a buscar a rosinha. E ele, cego, aceitou, dizendo que morreria por ela.

— Tu fizeste isto mesmo, Marceline? Por vingança? Um homem tão bom, meu Deus! — lamentou Dante, balançando a cabeça negativamente.

— Fiz! — vociferou, levantando-se rapidamente. O rosto inchado e rubro por conta do choro; a garganta queimando. — E estou a-arrependida! Ele foi, sim, por minha vontade, b-buscar a rosa!

— Ele não merecia. — Aurora, já de pé, levantou o dedo indicador para Marceline, enfurecida, os olhos faiscando. — Precisamos encontrá-lo e fazê-lo desistir desta loucura!

— Isto não será possível. — murmurou Marceline, fazendo os demais pararem de andar e voltarem a olhá-la. — Ulisses partiu para a Colina logo de manhã cedo, quando o dia raiou.

— Ainda tenho esperanças. Coisa que tu deverias ter também. — finalizou a mãe, partindo logo em seguida.

"Deus, não me falhes agora... Serei Teu servo até a hora de minha morte, mas não me deixes sem Marceline..."

Com sacrifício e repetindo orações em pensamentos, Ulisses continuava a arduamente escalar — e já estava anoitecendo. Passara o dia inteiro naquele monte, parecia que "andava" em círculos: a paisagem toda era igual. A rosa era a única coisa que tinha em mente após começar a suplicar para que Deus e os Céus lhe presenteassem com um milagre.

Suspirou cansado, faminto e com frio. Arfava e aquilo fazia com que sua respiração se transformasse em um tipo de fumaça, quando saía de seus lábios. Os cabelos mortos, as feições sofridas. O belo príncipe se transformara n'um sapo — por ela. E ele não se importava. Tudo que ela quer, ela terá.

Já no topo da Colina, avistara algo resplandescente: era a rosa. Tremeu de felicidade. Só precisava, agora, escalar um pouco mais e, assim, arrancá-la do cume mágico e voltar satisfeito para sua amada. Seria perfeito.

Tão perfeito se ele não escorregasse em uma pedra e esta quebrasse.

Mesmo assim, conseguiu puxá-la com o tico de forças que lhe restava.

Um grito estridente que saiu de sua garganta deixou que todos soubessem: ambos a rosa e o homem estavam caindo no chão.

Marceline e sua família ouviram o barulho — e ela começou a se desesperar mais ainda. Apressada, empurrou a mãe, o pai e a irmã; puxou a barra de seu vestido com uma mão enquanto a outra estava ocupada com uma tocha flamejante, iluminando seu caminho.

— Marceline! Espere! Esta estrada é muito perigosa, principalmente à noite! 

Mas ela os ignorou.

Correu, correu e correu, à direção de onde podia ouvir aquela voz. "Ulisses!", gritava ela. O peito apertando, a angústia lhe consumindo. Pouco tempo depois, o som cessou — perdida e sem esperanças. Escorou-se n'uma árvore, descansando e com a respiração ofegante. As lágrimas já escorriam dos olhos às bochechas. Não se perdoaria nunca caso alguma coisa acontecesse com o seu...

—... A-Amor.

Escutou um barulho por trás de alguns galhos que estavam atrás de si. Receosa de ser um animal selvagem, mas ao mesmo tempo valente e destemida, Marceline deu passos cautelosos. Respirou fundo e então moveu as folhas, deparando-se com Ulisses, já sem vida ao chão. Uma poça paposa de sangue fresco ao redor da sua cabeça, a pele gelada e tão branca quanto o usual, sem as duas bolinhas vermelhas das maçãs do rosto.

Contudo, olhando-o de perto, ainda continuava belo. Mesmo com o nariz todo ensanguentado. Mesmo com a boca toda rasgada, arroxeada e seca. Mesmo com aqueles olhos que, antes tão vivazes, naquele momento, opacos e sem vida alguma. Mesmo com o coração, que pulsava de excitação e paixão; parado e sem nenhum ritmo.

Marceline gritou por socorro, chamando pelo pai e a mãe. Atirou-se ao chão e, aos prantos, tocou com a ponta dos dedos, o gelo que era o corpo cálido do ex-noivo. Agarrou a rosinha que estava pouco afastada do cadáver e, antes de levarem-no, aproximou seus lábios rosados aos de Ulisses, realizando, assim, um último desejo dele, como se fosse um agrado por ter pegado a rosa.

Obrigada. — e agradeceu tímida, do fundo de seu coração. As lágrimas caíam no rosto do que já a amou.

Como se aquele simples "obrigada" fosse fazê-la esquecer do remorso que teria para o resto de sua vidinha amarga.

 

Um menino viu uma rosa,
Sobre a terra a rosinha,
Como a manhã era amorosa,
A criança correu ansiosa,
Inquieto à rosa vinha.
Rosa, rosa, rosa rubra,
Sobre a terra a rosinha.

Ele disse: “vou colher-te!”
Sobre a terra a rosinha.
Ela disse: “vou morder-te,
Que a mordida sempre alerte
Que eu não quero dor mesquinha.”
Rosa, rosa, rosa rubra,
Sobre a terra a rosinha.

Mas a criança cruel pegou
Sobre a terra a rosinha;
Ela reagiu, mas fraquejou,
Sem sorte, seu fim chegou,
Deixa cumprir-se a sina.
Rosa, rosa, rosa rubra,
Sobre a terra a rosinha


Johann Wolfgang von Goethe — Heidenröslein (1771)


Notas Finais


A one-shot foi baseada no poema que jaz no final da fanfic.

Até a próxima!


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