História Run For A Dream - Capítulo 14


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Personagens Originais, Rap Monster, Suga, V
Tags Amizade, Bts, Drama, Hetero, Incesto, Polêmicas, Romance, Taehyung
Exibições 103
Palavras 12.146
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Harem, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


E aí gente, sentiram minha falta? Nossa, sufoco pra conseguir postar.
As coisas não saíram como planejado e as consequências foram como imaginei: falta de tempo e muito cansaço. Estou/estive estudando (vestib, enem), e tb trabalhando com turismo em pleno fim de ano, então tá difícil pra atualizar mesmo. Pra completar meu pc tá quase indo, to sem net em casa pq a vizinha sei lá, cortaram kkkkkk Aí to roteando 2G do celular pro pc, e esperando ficar 3G pra apertar "enviar" aqui.
Manas, não me condenem mto pela demora e ao invés disso me mandem good vibes em massa. Sério, to precisando.
Tive que fazer um esforço tremendo pra conseguir me organizar pra postar esse cap, pra terem noção faz 5 dias q ele tá completo e revisado, e eu não consegui nem mesmo apenas enviar kkkkk. Olha que tenso. Pior do que isso tem a Hoshino, que faz os leitores de D Gray Man esperarem de três a seis meses por um cap de vinte páginas. Moral da história: sempre terá alguém sofrendo mais q você. Nossa, que foda esse argumento heim? kkkkkkkkkk /apanha.
Eu teria mais coisa pra contar e tal, mas acho que ler o capítulo novo é bem melhor, eu sei.
/fim da parte drama... (das notas, pq no capítulo tá cheio, sacomé kkkkk).

SOBRE O CAPÍTULO:
Eu gostei muito da proposta em si desse cap. O título, "Corações Secretos", ou "Corações Ocultos", como acharem melhor, tá bem empregado mesmo, bem fazendo jus ao cap. E se vocês tiverem essa sensibilidade, vão entender oq são esses corações e pq podemos chamá-los de "secretos".
Ah, espero que mais de 12k de palavras tb compensem um pouco a demora kkkkkkkk.
Boa leitura, manas! o/

Capítulo 14 - Hidden Hearts


Fanfic / Fanfiction Run For A Dream - Capítulo 14 - Hidden Hearts

 

— Eu estou bem — ela anunciou e respirou fundo, voltando a encará-los em seguida. — É só que... Eu quero contar o que aconteceu.

De fato, a garota sentia a necessidade de se livrar da angústia de guardar tudo aquilo para si. Queria "soltar pra fora", compartilhar com alguém, vomitar o embrulho nauseante que era manter o ocorrido em segredo. Ela poderia até chorar outra vez, mas ao menos seria ao lado de pessoas que ela amava e podia confiar. Já não seria uma troca cega de consolo, mas sim uma troca compreensiva e leal.

Não obstante ao seu enorme desejo de desafogar, havia um possível problema ali. Um problema crítico e bem previsível, tal qual não se é necessário pensar muito para deduzir.

Ao mesmo tempo, envolto na solidão de um corredor hospitalar silencioso, Park Jimin se surpreendia ao receber uma estranha mensagem de um número desconhecido em seu celular. Sentado no banco de espera enquanto conferia o conteúdo, ele se intrigou ao notar que se tratava de um arquivo de vídeo. E, na mensagem, havia também um sucinto e macabro enunciado:

 

"Veja isso se quiser ter o segundo maior choque da sua vida".

 

 


13
Hidden Hearts

 

 

Sentado ao seu lado no sofá, seu irmão a encarava numa mescla plausível de pavor e ansiedade. Num primeiro instante ela estava disposta a revelar tudo, mas bastou pensar uma segunda vez para rever sua decisão.

Ela confrontou o olhar temeroso de Taehyung e viu-o respirar fundo para disfarçar a tensão. Yun Soo foi tragada por cada emoção que o mais velho transmitia, e foi por isso que a garota hesitou.

Talvez não fosse um bom momento.

E tal conclusão não se baseava num mero instinto ocasional. Ela sabia identificar o estado emocional ou psicológico de seu irmão com tão somente observá-lo por alguns segundos. E vice-versa, como espelhos. Sendo assim, a jovem entendia a apreensão de Taehyung.

É porque, no fundo, ele naturalmente já imaginava o que seria dito por sua irmã mais nova. Era tudo uma questão de sentir. Um "sentir" tão forte, que fazia nascer entre eles uma complexa e silenciosa de comunicação emocional.

— Quer dizer — finalmente, ela recuou.

Yun Soo precisou desviar os olhos dos de Taehyung para prosseguir:

— Eu não lembro exatamente de tudo.

O rapaz ao seu lado soltou um suspiro pesado, mas não disse nada. Sentia-se afogado pelo próprio nervosismo.

Yoongi, quem tinha as costas arqueadas enquanto sentado no sofá oposto, manteve-se atento à atmosfera que engolia os dois irmãos. Durou pouco, porém, e ele acabou desviando o olhar para conter sua impaciência. Não por se ver incapaz de entender o que acontecia ali, mas sim por entender demais. 

Era tortuoso porque Min Yoongi temia que suas suspeitas estivessem corretas. Se estivessem, a reação furtiva de sua amiga era completamente compreensível. E é por isso que, com sua meticulosidade natural, ele apenas analisou a garota com cuidado e instinto — por querer captar qualquer sinal que ela poderia emitir sem perceber.

Em silêncio, em silêncio. Até que, num impasse, quando os olhos de Yun Soo falharam e desfizeram o contato visual que ela mantinha com o irmão, este sutil desvio fez com que o olhar da jovem se encontrasse com o de seu melhor amigo.

E os olhos dele estavam intensos de uma maneira inquietante. Ela viu o tipo de olhar que parecia atravessá-la por completo, como se conhecesse todas as rotas de seu coração confuso. Atingiu-a em cheio, num palpitar em seu peito, a sensação de ter sido pega em flagrante enquanto procurava algum modo de contar uma mentira.

Yoongi percebeu o desconcerto da garota e desviou seu olhar. Não apenas por esta razão, mas também porque Taehyung começava a notar aquele intrigante contato visual entre os dois amigos.

— Não se esforce, Soo — disse o rapaz mais velho.

No entanto, a jovem considerou que seria bom contar ao menos um pouco da história. A omissão parcial lhe pareceu melhor do que uma omissão completa ou alguma mentira. Aconteceram tantas coisas na noite passada, que ela poderia ao menos revelar um resumo, mantendo assim sua recente mentira de não se lembrar de tudo.

Infelizmente, ela se recordava de cada mínimo detalhe.

— Eu fui atropelada — ela disse. — Foi assim que consegui as contusões e torci o tornozelo.

— Atropelada? — Seu irmão se surpreendeu, Yoongi arqueou uma sobrancelha.

— Sim. E tenho certeza que alguém me empurrou. — Suas palavras soavam convincentes porque, afinal, a garota não estava mentindo. — Não consegui ver o gosto da pessoa a tempo, só me recordo da sensação da pessoa atrás de mim e de um vulto negro correndo depois.

Taehyung se encontrava abismado. A única pessoa em quem pensou foi no remetente anônimo das cartas. Min Yoongi, que cogitava o mesmo, fez a pergunta seguinte:

— E quanto aos inúmeros cortes?

— Ah... — YunSoo se deteve e tomou um respiro. — Isso foi antes.

— Antes?! — Seu irmão se indignou e elevou o tom de voz. — Então você se feriu ou foi agredida, e depois ainda tentaram te matar?!

— Acalme-se, Tae. Deixe ela continuar — pediu-lhe o mais velho.

— Foi no Village. Eu me encontrei com o... — Ela travou. Seu corpo se contraiu e seus olhos, assustados, fitaram um ponto qualquer do chão.

Yoongi respirou fundo e ficou tenso. Seu nervosismo podia ser percebido em seu olhar perturbado que, em silêncio, o rapaz desviou.

— O Jin? — indagou Taehyung. — Você ia se encontrar com o Jin, certo?

Ingenuamente, seu irmão proferiu aquele nome duas vezes. Para ela foram dois calafrios e duas pontadas no peito.

Seu melhor amigo, no sofá oposto, pousou um olhar espantado em Taehyung. Será que tantos abalos afetaram-lhe os neurônios? Era possível, mas Yoongi não podia se esquecer do fato de que, no quesito informações, ele estava a um ou dois passos na frente do mais novo. Conversara com JungKook na cobertura do hospital, e foi após isso que obteve quase a certeza de suas suspeitas. Tais suspeitas começaram ainda antes, logo após o jovem ouvir que SeokJin teria um corte diagonal na face — outra informação que ele preferiu não repassar para Kim Taehyung.

Sendo assim, era injusto culpá-lo por não ter a mesma linha de suspeitas naquele momento. Também era tudo delicado demais para escancarar. Ao tirar essas conclusões, Yoongi achou melhor se limitar a observar como a garota prosseguiria.

— Sim, nós conversamos. E depois eu... — Ela ficou confusa. O que deveria dizer a partir disso? Demorou alguns segundos antes de concluir, recriminando-se por se ver contando uma mentira. — Depois eu saí e vaguei pelo clube.

Yun Soo se calou, como se aquilo fosse tudo o que tivesse para dizer. Logicamente, tal história soou bem estranha e incompleta para seu irmão mais velho.

Taehyung pretendeu questioná-la, contudo, ao vê-la retraída e apreensiva, desistiu. Lembrou-se da importância de não pressioná-la e de que deveria ter paciência para lhe dar tempo e segurança. Por mais que se sentisse nervoso com a situação, a última coisa que desejava era fazê-la sofrer com perguntas.

— Soo? — ele a chamou num tom gentil; enlaçou suas mãos com as dela e a induziu a fitá-lo de perto, firmando um novo contanto visual.

O olhar de Taehyung era aflito, mas sua afabilidade acolhedora ocultava este detalhe. Yun Soo sentiu-se segura ao vê-lo sorrir — um sorriso brando, pequeno e até nervoso, mas verdadeiramente cálido.

— Descanse um pouco, ok? — ele continuou. — Vou te ajudar a subir as escadas até seu quarto. É minha vez agora.

Sua irmã assentiu. Tendo os ombros do mais velho como suporte, a garota subiu as escadas sem muita dificuldade.

Yoongi permaneceu sentado no sofá. Ele cerrou as pálpebras por alguns segundos e procurou ficar calmo. Inspirou, expirou, e repetiu esta sequência algumas vezes antes de se erguer do estofado e tomar o mesmo rumo que seus amigos. O rapaz subia degrau por degrau num ritmo lento, e sua expressão conotava a condolência em seu olhar distante.

Desejava estar enganado. Nunca desejou tanto estar enganado quanto naquele momento, onde cada degrau ultrapassado era um fio de esperança deixado para trás.

 

 

Mais cedo, na cobertura do Yongsan HC:

 

— Hyung!! — JungKook se aproximou do mais velho, que o esperava sentado num banco de cimento.

Aquela área era tranquila e simples — um pátio com plantas e bancos, de onde era possível avistar o heliporto na cobertura do outro bloco.

Yoongi se levantou em silêncio, mantendo a expressão séria ao fitar o rapaz que o abordava. 

— O que houve? — perguntou Kook, preocupado.

— A coisa é um pouco grave. — Além da seriedade inalterada, o jovem artista também exprimia um olhar direto. Seu tom de voz era um tanto ríspido. — É por isso que sentaremos aqui, neste banco, de onde você não sairá até me contar tudo o que viu e ouviu.

— Yah... Hyung? — O menor se sentia assustado. — Você quer me apavorar?

— Olha, cara, não vamos distorcer essa palavra. Desde a última noite eu tenho visto e sentido na pele o que é estar realmente apavorado — revelou Yoongi. — Taehyung sentiu mais ainda, e YunSoo...

 Embora soubesse como completar a frase, a pausa se firmou pela sensação de um nó trancafiado na garganta. Ele desviou a direção de seus olhos e, tão calmo quanto amargurado, prosseguiu:

— Pavor parece pouco pra definir. Bom, eu não posso querer descontar em você, é verdade. — Seu olhar sério e direto encarava novamente ao mais novo, quem se encontrava aflito e coagido ao escutar o amigo concluir. — Desde que você não me esconda nem mesmo um único detalhe.

E foi assim que, sentados naquele banco cimentado, os dois conversaram por cerca de uma hora. JungKook revelou tudo o que sabia, incluindo o estranho telefonema de Jimin, que o levou a encontrar SeokJin desmaiado e ferido numa das salas Vips.

— Diversos cacos de vidro e sangue acima da mesa. — Yoongi refletia sobre tudo o que lhe foi descrito. — E o celular da Soo estava atirado no chão com a tela trincada?

— Sim. Ele esteve comigo desde então. — Kook retirou o referido aparelho do bolso de sua jaqueta. — Aqui.

Um tanto lento e disperso, Yoongi recolheu o objeto. Sua atenção se pôs fixa no display, onde havia uma marca diagonal bem extensa. Ele notou também que um dos vértices do aparelho estava bem rachado, como se aquela parte específica tivesse se chocado contra algo maciço — uma parede, por exemplo. Ele criava um cenário de suposições em sua mente, sem desconsiderar nenhum detalhe do que ouviu.

No entanto, para Min Yoongi, a informação que mais lhe intrigou foi a responsável por fazê-lo pensar em algo absurdo. Sentiu um calafrio ao cogitar aquilo, e outro ao repetir o detalhe precursor de seu mal estar:

— Então, Jin tem apenas um corte diagonal na face esquerda — decretou.

Um pouco mais de suspeita e ele estaria prestes a bater o martelo enquanto proclamava um veredito. O outro rapaz ali percebeu que aquele ponto específico soou o mais crucial.

— Também achei estranho — dizia JungKook. — Já podemos supor que YunSoo se machucou com os cacos de vidro da mesa, tendo em vista que ela se feriu bem mais do que o Jin. E ele estava bem drogado, o que me surpreendeu. Mas é aí que eu fico pensando... Se alguém atacou os dois, como é que Jin acabou apenas com um corte no rosto enquanto a Soo se machucou tanto?  

— Você realmente não desconfia? — questionou Yoongi, sabendo que o moreno não era tão ingênuo.

— Bom... — Nervoso, Kook desviou o olhar. Ele chegou a entreabrir os lábios para proferir alguma coisa, porém, seu amigo o interrompeu.

— Espere. Tem algo que eu não te disse e que pode te ajudar a refletir. — Min Yoongi aparentava estar bem calmo, mas apenas aparentava. Precisou de um suspiro pesado para concluir: — A Soo está com um corte diagonal na palma da mão direita.

E fez-se um silêncio perturbador. JungKook demorou um pouco, mas entendeu e ficou pasmado, sem fala.  

— Um corte profundo, sabe? — prosseguiu o mais velho. — É como se ela tivesse agarrado fortemente algum caco. Então, eu me pergunto...

 

 

"Qual foi a circunstância, Soo?"

 

 

Yoongi mantinha essa questão em mente quando parou no último degrau da escada, onde se sentou e preferiu esperar — ou ele apenas se sentia desolado demais, precisando refletir cuidadosamente sobre o que fazer. Mais adiante, dentro do quarto da garota, Taehyung perguntava à irmã se ela desejava algo em específico, mas a jovem apenas negava enquanto lhe pedia para não se preocupar.

— Não acha um pouco cruel me pedir isso? — o rapaz se sentou na cama após fazer a irmã se recostar à cabeceira. 

Apesar de triste, ele sorria de leve. Yun Soo o fitou com pesar antes de responder:

— Você deve ter se assustado bastante. Desculpe, Tae, eu...

— Não é algo pelo qual você precisa se desculpar, Soo. — Ele a interrompeu, colocando-se pensativo em seguida. — É verdade que eu me assustei. Ou melhor, acho que cheguei a entrar em choque. Se não fosse Yoongi me fazendo reagir eu não sei o que teria acontecido. Por um momento eu pensei que...

Com um olhar aterrorizado, Taehyung não completou a frase. A mais nova compreendia; imaginou-se na mesma situação — na qual seria ela a encontrar o irmão ferido e inconsciente — e se apavorou até mesmo com a remota ideia. 

— Está tudo bem, Tae. — Ela moveu a mão esquerda para tocar-lhe a face. — Está tudo bem.

Porém, ao mergulhar nos olhos de sua irmã, Taehyung sabia que ela dizia aquilo numa árdua tentativa de convencer a si mesma. E assim, sem se conter, aproximou-se da garota num impulso singelo, envolvendo-a logo em seguida com um abraço terno e acolhedor. 

— Sabe, Soo, às vezes eu tenho medo do futuro — sua voz tinha um tom embargado. — Essa última noite me bastou para perceber isso. Eu não sei o que eu faria se o pior tivesse acontecido. É assustador pensar nisso... E então saber que um dia esse é o destino de todos nós.

— Eu sei. — Yun Soo se aninhou mais nos braços dele. — Você acaba orando por um desejo egoísta. "Tomara que eu morra primeiro", certo?

Sem desfazer o abraço, Taehyung não respondeu — embora seu silêncio tenha servido como afirmação. No fim, a garota também tinha o mesmo pensamento que ele. Eles cultivavam as mesmas inseguranças.

— Tae? — ela voltou a chamá-lo, despertando-o do breve devaneio.

Taehyung fechou os olhos e inspirou lentamente o aroma dos cabelos da mais nova. O perfume delicado e agradável o acalmava. Uma de suas mãos, por instinto, acariciou as longas mechas, distraindo-o sob um efeito quase hipnótico.  

— Hm? — sussurrou ele.

— Acho que dependemos demais um do outro — prosseguiu Yun Soo, quem também fechou os olhos para sentir melhor o calor e a carícia tão afável do irmão. — É por isso que temos esse medo. Crescemos juntos depois de superar algo como o inferno. Então, sem que percebêssemos, criamos esse elo tão forte. Não estamos relacionados por sangue, mas é como se fosse algo mais intenso do que isso.

— Por alma? — Taehyung murmurou, completando o pensamento.

— Sim. E coração. — A jovem sorriu por um breve momento até abrir os olhos numa expressão receosa. — Mas isso não soa carmático? Até que ponto será algo positivo em nossas vidas, Tae? Por causa desse vínculo nós nos tornamos mais fortes e conseguimos chegar até aqui. Porém, por mais forte que isso seja, também não lhe parece algo frágil?

— Entendo o que quer dizer, Soo. — O rapaz também exprimia um olhar preocupado. — Essa dependência que cultivamos mutuamente pode ser benéfica por um lado, mas prejudicial por outro.

— Sim. É como se o único oxigênio que tenhamos disponível para respirar esteja envenenado. — Yun Soo arriscava a analogia. — A gente sobrevive graças a esse oxigênio, mesmo sabendo que em algum momento ele pode ser fatal.

— Falando assim fica parecendo realmente carmático. — Taehyung riu de leve e retomou a seriedade antes de questionar a irmã. — Isso te assusta?  

— Any — ela respondeu com sinceridade. — Você disse que tem medo do futuro e eu às vezes também tenho. Por outro lado, Tae... Eu acredito que não podemos nos dar ao luxo de temer pelo amanhã. Vamos pelo menos acreditar que também somos fortes sozinhos. Por isso, se o pior tivesse acontecido comigo ontem... — A jovem hesitou um pouco ao notar o irmão se retrair, estreitando o abraço e se contendo para não impedi-la de completar a frase. — Tae, eu creio que o amor é algo muito maior e transcendente. É muito mais do que poder estar ao lado de alguém para sempre. É muito mais do que eu posso te dizer agora, mas... Eu simplesmente o sinto.

E ele compreendeu. Sua irmã soube disso ao perceber que, denunciado pelo silêncio, Taehyung disfarçava um choro contido. Imaginando que o rapaz deveria estar se segurando desde a noite passada, Yun Soo afagou-lhe os cabelos enquanto lhe dizia num tom acalmado:

 — Está tudo bem agora. Foi um grande susto, mas já passou...

 

 

 

Ela tentou me tranquilizar quando deveria ser o contrário. Ela chamou de "susto" o que eu sabia que era muito pior do que isso. Ao tê-la envolvida em meus braços, eu a sentia tão fraca; uma coisa pequena e frágil, que podia se quebrar a qualquer momento.

Se eu chorei, foi por perceber o quanto ela se esforçava para permanecer forte. O amor que ela citava, é claro que eu entendia. Eu me sentia da mesma forma. Porém, a mera ideia de uma vida sem Yun Soo era algo assustador e inimaginável.

É verdade que temos sonhos e planos de vida. Almejamos várias coisas num futuro incerto, como sucesso profissional e inúmeras viagens pelo mundo. Apesar disso, nós estamos sempre no topo das prioridades. Incluímos um ao outro em nossos sonhos e projetos, sempre.

Como protagonistas de uma única história, jamais pensamos em histórias separadas.

Então, eu compreendia a insegurança da minha irmã ao ver o estado tão sensível sob o qual eu me encontrava. Ela estava ali, aparentemente sã e salva, contudo... Eu continuava assustado. Muito assustado.

Porque, embora desconhecesse a razão, eu sentia a intensidade da dor dela. De um modo visceral, como se toda sua angústia queimasse em minha pele. Ali, em meus braços, queimando e queimando.

Eu não queria soltá-la. Nunca.

Neguei-me a desfazer aquele abraço até ter a certeza de que todo o meu ser já estava consumido. Que sua dor, incinerando tudo, queimou-me por completo até ficar satisfeita e trazer um pouco de alívio ao coração de YunSoo — e ao meu também, certamente.

Eu não queria soltá-la. Nunca.

Ficamos abraçados em silêncio, mas nossos corações gritaram e se acalmaram em compasso. Eu até poderia dizer que nossos batimentos entraram em sincronia.

Havia entre nós uma troca intensa de calor. Talvez houvesse calor até demais, mas a sensação era agradável, confortável e extasiante. Era tão bom que, realmente...

Eu não queria soltá-la.

Nunca.  

Kim Tae Hyung.

 

 

Foi Yun Soo quem se afastou minimamente, o bastante para poder mergulhar nos olhos de seu irmão. Olharam-se com ternura, sem nenhuma palavra a ser dita. Lentamente, cerraram as pálpebras e colaram as faces. Apenas sentiam um ao outro num roçar cálido e singelo, sem pretensão de avançarem para algo como um beijo.

Ele chegou a sentir o desejo de beijá-la, e Yun Soo igualmente o desejou. No entanto, imaginando que aquele não era um bom momento, Taehyung recuou. A distância ressurgiu entre eles assim que, contrariado e relutante, o mais velho se apartou da garota.

— Vou lá fazer algo pra gente comer — disse ele. — Tem algo específico que você queira?

Preocupada, a jovem o encarava sem muito interesse na pergunta.

— Não — respondeu-lhe. — Eu estou bem.

— Certo. — Taehyung se levantou da cama e rumou até a porta do quarto. — Farei algo leve que você consiga comer. Bom, ao menos tente, ok?

Yun Soo assentiu com um meio sorriso. De costas para ela, o rapaz já estava diante da porta quando foi interrompido por um comentário inesperado de sua irmã:

— Você tem bons instintos como sempre, Tae. — Yun Soo baixou o olhar, que agora exprimia a condolência que seu irmão mais velho não veria. — Você já sabe o que aconteceu mesmo que eu não tenha dito.

Chocado com a declaração, Taehyung se abateu por um súbito nervosismo que o impedia de se virar para trás e encarar a mais nova. É verdade que desconfiava, porém, ele preservava um fio de esperança em estar enganado.

Mas nada foi dito de modo explícito, então Taehyung procurou se convencer de que a garota se referia a qualquer outra coisa diferente do que ele imaginava — sua suspeita desde que a vira ser socorrida no hospital. Talvez houvesse um mal entendido ali, devia ser isso.

Foi sua tentativa estúpida de cegar a si mesmo.

— Vá. — pediu ela. — Preciso de um tempo pra pensar e ficar sozinha.

Em nenhum momento ele se virou. Como se houvesse parado de respirar por longos segundos, Taehyung respirou profundamente. Seus olhos estavam úmidos e suas mãos, cuja direita alcançava a maçaneta da porta entreaberta, tremiam incontidas.

Incapaz de reagir ou dizer alguma coisa, ele saiu abatido dali. Yun Soo finalmente se viu sozinha, sentindo o triste alívio de estar livre para chorar o quanto quisesse.

 

Yoongi permanecia sentado no último degrau da escada. Ele viu seu amigo passar por ele sem sequer notá-lo, descendo as escadas num ritmo lento e uma expressão desnorteada.

— Taehyung? — Preocupado, o mais velho se levantou com a intenção de segui-lo.

Ao notar o quanto Taehyung parecia submerso em pensamentos distantes, Yoongi preferiu deixá-lo sozinho. Do mesmo modo, concluiu que tampouco deveria ser um bom momento para conversar com Yun Soo. Sentia-se apreensivo com o clima tenso que se formava entre os irmãos, o que consequentemente o deixava receoso em deixá-los sozinhos naquela casa.

E se alguém aparecesse com a verdade de repente? E se o tal remetente anônimo daquelas cartas sinistras se aproveitasse que haveria um a menos ao redor de Yun Soo?

Era muito válido ressaltar esta terrível constatação: alguém realmente tentara assassinar sua melhor amiga? Ela corria risco de vida?

Cada pensamento intensificava sua preocupação até que esta se convertesse em desespero ou pavor. Apressadamente, Yoongi saiu da casa e percorreu toda a área externa em busca de qualquer brecha no que dizia respeito à segurança. O pátio traseiro junto ao jardim eram o que tornavam a residência mais vulnerável. As divisas do terreno eram simples muros de aproximadamente dois metros de altura — nem tão baixo, mas qualquer pessoa mais empenhada conseguiria pular.

E quanto à área frontal da casa? Os irmãos Kim viviam deixando os portões escancarados, e mesmo quando fechados não se utilizavam de nenhum cadeado ou algo do tipo. Pra completar, os portões eram silenciosos, dava facilmente para alguém passar por eles sem ser notado.

Havia uma conexão livre entre a frente e os fundos da casa, ou seja, nada mais que um extenso gramado que possibilitava que alguém se dirigisse até os fundos da casa após passar pelos portões da entrada. Por sinal, foi assim que ele conseguiu abordar os irmãos na noite passada, ignorando a porta da frente e indo direto para os fundos — pois estranhou o feixe de luz que oscilava naquela direção.

Min Yoongi não tinha outra opção que não fosse se certificar que estava tudo devidamente trancado. Checou as janelas e abordou Taehyung na cozinha, pedindo a ele que mantivesse a porta trancada. O rapaz, certamente, achou mais que plausível a precaução.

— Vocês sempre preocupados com que aquele fantasma ressurja para assombrar vocês. — Yoongi se referia ao pai de YunSoo. — Muito me surpreende não terem colocado cercas elétricas nesses muros e também alarmes.

— Você tem razão. Nunca nos preocupamos com ele querendo invadir aqui — respondia Taehyung enquanto separava alguns legumes sobre a bancada da cozinha. — Mas esse sujeito que envia as cartas... Sinto que não é aquele monstro covarde que desapareceu. Algo me diz que é outra pessoa, alguém que sabe sobre a nossa vida e pretende nos fazer mal. Mais do que isso, é alguém que tem enviado cartas para minha irmã pelos últimos quatro anos.

Com um olhar sério e sombrio, Taehyung encarou o mais velho antes de prosseguir:

— Essa pessoa está planejando algo minuciosamente. E não está blefando. — Ele fez uma pausa. — Veja só, alguma coisa de fato acabou acontecendo com a Soo no mesmo dia em que recebemos a carta.

— Você não desconfia de ninguém? Tem certeza que não é aquele sujeito? — indagou Yoongi.

— Eu duvido muito que ele tivesse capacidade pra tanto. Muito menos paciência para calcular tudo no decorrer de anos. — Taehyung respondia enquanto abria os armários onde ficavam as panelas. — Ele era estúpido e louco. Do tipo impulsivo e boçal, e suas reações eram sempre na base da força bruta. Muito me admira ele ter se formado como médico, creio que arrumou alguma forma ilícita de conseguir o diploma.

— Taehyung? — O mais velho exprimia um olhar analítico e desconfiado. Quando o amigo voltou a encará-lo, ele prosseguiu: — Vocês nunca falam muito sobre esse homem. Eu entendo que deva ser algo bem pesado pra vocês dois, mas eu sempre estive me fazendo essa pergunta... Quer dizer, será que eu posso perguntar?

Taehyung estranhou, mas não cogitou qualquer problema possível em pelo menos ouvir a questão.

— Pergunte — ele pediu.

— Ele podia ter ficado com a casa, e também ter dado um jeito de controlar o dinheiro de sua esposa falecida, o que acabou sendo feito pela tia de vocês. — Yoongi analisava com cautela. — No entanto, ele simplesmente sumiu sem levar nada. É certo que há a possibilidade de que ele tivesse outros planos na época, mas se esse homem é realmente como você descreveu... Não torna tudo mais estranho?

Disfarçando certo desconforto com o assunto, Taehyung se limitou a abrir a torneira da pia, onde terminaria de lavar e descascar os legumes que havia separado.

— E então? — Ele encarou Yoongi, quem continuou sem muito hesitar:

— Eu também sempre tentei imaginar como você se sentia, Tae. Até onde eu sei, pelo que ambos me contaram, a Soo era o único alvo de agressões. — Preocupado com o tom de suas palavras, o rapaz fez uma breve pausa e repensou. — Não posso me atrever a querer me colocar no seu lugar, mas deve ser algo terrível ser apenas um espectador que sempre sai ileso. Você viu sua irmã ser ferida e abusada diversas vezes, enquanto você não levava nenhum arranhão.

Finalmente, Taehyung acabou se afetando com o que ouvia. Ele fechou a torneira e respirou fundo. Em seguida, caminhou até um dos armários e abriu violentamente uma das gavetas. Yoongi ouviu o som de peças metálicas que se chocavam, reconhecendo que aquela era uma das gavetas de talheres.

— Onde você quer chegar, Yoongi? — o mais novo perguntou num tom frio. Seus olhos tampouco encaravam o amigo, mas mantinham-se focados no conteúdo da gaveta.

— Eu não sou nenhum psiquiatra, Taehyung. Mas eu posso imaginar o quanto tudo o que acontecia nessa casa devia afetá-lo. E bom, como posso dizer isso? — Sentindo-se mais nervosos do que imaginava, Yoongi tentou forjar um sorriso descontraído. — Uma hipótese meio bizarra e assustadora passou pela minha cabeça de repente.

E ele viu Taehyung que, numa tranquilidade fria e peculiar, retirava da gaveta uma faca um pouco grande e aparentemente bastante afiada. Alguma luz alheia refletiu na lâmina, e o brilho atingiu os olhos de Yoongi por um relance de segundo, ofuscando-lhe a visão e também a linha de seus pensamentos.

 Em silêncio, o mais velho dos irmãos Kim agora tinha o olhar fixo na lâmina reluzente. Admirado ou pensativo demais, ou algo entre as duas coisas. De qualquer forma, Taehyung pareceu absorto de um modo que Yoongi estranhou.

Mais do que simplesmente "estranhar", o jovem observador começava a transformar suas dúvidas em certezas.

— Você tinha qual idade mesmo, na época? — ele quebrou o silêncio ao questionar.

— Quando o desgraçado sumiu? — Taehyung voltou para a bancada, onde começaria a cortar os legumes com a faca que acabara de escolher. — Eu tinha nove anos. Nove e meio, pra ser mais exato.

— Bom, é idade suficiente. — Junto à voz de Yoongi, soou o barulho de um primeiro corte preciso sobre a bandeja.

— Suficiente pra quê? — Com a pergunta de Taehyung, um segundo corte ligeiro no que logo seria um monte de pequenos cubos de batatas.

Soou o terceiro corte, e também o quarto logo seguido do quinto e sexto corte. Uma sequência rápida, mas que serviu como intervalo para a derradeira conclusão de Min Yoongi:

— Idade suficiente pra tentar matar alguém.   

 

 

 

xxXxx

 

 

"Veja isso se quiser ter o segundo maior choque da sua vida".

 

 

Jimin encarou a tela do celular por um longo instante. Imóvel e pensativo, com um péssimo pressentimento a respeito do vídeo que recebera.

Pensando na pessoa anônima que enviou aquilo, citar um "segundo maior choque" indicava o conhecimento sobre o "primeiro maior choque". Este último, por sinal, ocorreu quando Park Jimin tinha catorze anos de idade. Tratava-se de algo que ele jamais havia contado a qualquer pessoa — nem mesmo a SeokJin.

Na época, sem pretender, ele escutou uma discussão entre seus pais no quarto do casal. Seu pai tentava acalmar a mulher, quem parecia nervosa.

 

— Como que ele ressurge depois de tantos anos? E se ele for atrás do Jimin na escola? — ela dizia com enorme aflição.

— Acalme-se, querida. Ele sabe que não pode fazer isso, nós temos muito ao que recorrer para impedi-lo. — O Sr. Park procurava tranquilizá-la.

"Ele quem?", era o que o garoto se perguntava enquanto se mantinha encostado na parede do corredor. A porta do quarto de seus pais estava entreaberta. Naquela tarde de domingo, o casal acreditava que Jimin se encontrava na casa de seu vizinho e melhor amigo, SeokJin, ajudando-o a compor músicas ou apenas jogando diversos games sem ver o tempo passar.

— Será que é melhor contarmos a verdade? Acredito que ele já tem idade para compreender. — O garoto ouviu seu pai sugerir.

— Você enlouqueceu?! — Sua mãe reagiu com espanto. — Como posso fazer isso? Não vou conseguir!

A voz embargada da mulher se calou e, após certo instante, foi perceptível que ela começava a chorar.

— Ele sempre foi uma criança tão boa. Nunca nos deu nenhum trabalho, é um aluno exemplar, não desobedece nada. Eu também acho que ele tem maturidade suficiente para compreender, mas... — A Sra. Park fazia uma pausa longa. — Como posso dizer a Jimin que na verdade ele é fruto de um estupro?

E o casal ouviu o barulho da porta naquele mesmo instante. Surpreenderam-se ao serem abordados pelo filho que, com um semblante pasmado, tentava formular uma pergunta óbvia — pedir explicações.

Foi cruel demais para Jimin. Ele fora de fato uma criança exemplar, mas sua pré-adolescência se tornou um tanto problemática, cheia de revoltas e crises existenciais. De repente, o pai que ele tanto amava e idolatrava não era seu pai verdadeiro. Pior ainda, seu pai de sangue era um algoz que proporcionava memórias dolorosas para sua mãe.

O garoto questionou toda sua curta vida. Pensou se sua mãe não sofria ao olhar para ele — talvez encontrando em suas fisionomias os traços do sujeito que a violou. Quão terrível isso devia ser?

Seu odioso verdadeiro pai não era um homem qualquer. Um dia, tão simplesmente, ele fora alguém em quem sua mãe confiou. Existiu uma relação que durou anos, um namoro aparentemente saudável. No entanto, o homem era abusivo: excessivamente ciumento, manipulador, possessivo; tudo o que por si só já implicaria numa relação onde uma das partes seria abusiva, e a outra abusada.

Uma relação onde monstros crescem sem serem notados, quase ou totalmente invisíveis. E então, quando os monstros revelam suas formas aterradoras, normalmente eles já se encontram num estado catastrófico. O irreversível é um traço que existe desde o início, seja na mais sutil agressão verbal ou exigências que muitos consideram normais e até "fofas" — como, por exemplo, exigir que ambos compartilhem as senhas em redes sociais.

O monstro já é irreversível desde o primeiro momento em que o abusivo se sente no direito de verificar as mensagens no celular pertencente à parte abusada. Porque, furtivamente, é assim que esse monstro se alimenta e cresce; quanto mais cresce, mais fome possuí.

É um monstro capaz de devorar alguém lentamente, e sem que essa pessoa sequer perceba a tempo de evitar ser engolida por completa.

 

Uma relação abusiva.

 

Park Jimin estudou sobre o tema até se cansar. Pesquisou, leu livros, ouviu depoimentos, fuçou o assunto como um rato faminto até seus quinze anos de idade. E mesmo assim, anos mais tarde, foi incapaz de notar algo que acontecia bem diante de seus olhos.

Ele próprio poderia citar diversas vezes nas quais viu SeokJin ser invasivo com YunSoo. Cobranças discretas, chantagens indiretas, discussões que sempre terminavam com a garota se desculpando. Ele acreditou que não havia nada demais, já que todo o resto parecia muito bem.

É difícil até para uma pessoa de fora notar, imagine para quem está dentro, emocionalmente envolvido?

Ah, mas sua mãe era o exemplo de como a sociedade lidava com isso. A mulher, afinal, é quem foi tola demais por não ter "caído fora" antes da maior desgraça. Jimin ouviu relatos parecidos, dos quais leu acusações que diziam que mulheres gostavam de sofrer, ou algo como "ele é um homem horrível, mas pior ainda é ela, que continua com o cara mesmo depois de tudo". Os xingamentos tampouco eram menos frequentes.

Park Jimin tentava aceitar que a tragédia de uma mulher resultou em sua vida. Doía-lhe de maneira insuportável saber que, no passado, quando sua mãe reuniu força e coragem para colocar fim em seu relacionamento abusivo, ela foi estuprada por um homem que se sentiu no "direito" de fazê-lo. Na época, o trauma a deixou tão debilitada, que a jovem entrou num estado imediato de transtorno mental e depressão, distorcendo toda a realidade na qual vivia. Deduzindo que ela sofria por conta do término de um namoro, a família só foi descobrir o que houve quando uma gravidez se tornou evidente.

Cruel, porém fatídico. Jimin exigiu saber de tudo, e sua mãe não lhe escondeu nada. A verdade é que ele ainda lutava para superar o peso de sua própria origem. Ele sabia o quanto era amado por seus pais, não duvidava disso, mas ele ainda sentia ódio e nojo da parte poluída de seu sangue, correndo em suas veias.

E Park Jimin digeriu aquilo, ao longo dos anos, até ser capaz de conviver com os fatos. Ele se tornou um rapaz esclarecido, lúcido e inclusive sábio para a pouca idade.

Não aparentava nada disso. Ninguém jamais imaginaria a sombra que ele aturava em seu encalce.

Conviver com SeokJin o ajudou muito, tal como a decisão de se tornar um médico. Ele se encheu de sonhos e esperanças, planejou um futuro, vislumbrou um significado belo e útil para sua própria vida — para a existência que considerou medíocre.

Jin era seu vizinho, seu amigo de infância, seu melhor amigo, sua referência e admiração. Havia algo além, algum sentimento especial? Sim, havia. De nada adiantava tentar se convencer do contrário, não mais.

Apesar de preservar alguns segredos e cultivar problemas, Jimin se considerava feliz. Era nisso que ele pensava, entre devaneios, enquanto suas mãos se mantinham imóveis perante à tela do celular — o "play" do vídeo suspeito logo abaixo de seu dedo indicador.

Abateu-se por um medo absurdo de checar aquilo

Um segundo maior choque? Ele não queria. No entanto, Jimin temia mais ainda viver novamente com os olhos vendados. Viver na incerteza, na ilusão, uma vida de mentira.

Independente do que fosse visto no tal vídeo, o rapaz sentia a confiança de poder suportar. Já não era um garoto fraco, mas sim alguém que preferia verdades amargas a mentiras doces.

Foi através desta conclusão que, sem hesitar, ele plugou o fone de ouvido que levava num dos bolsos do casaco. Todavia Jimin precisou de mais dez segundos repensando até tomar coragem. Finalmente, após respirar fundo duas vezes, ele clicou sobre o terrífico play daquele vídeo. 

 

 

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O vermelho gotejou sobre o mármore branco da bancada. Yoongi não soube se aquilo ocorreu por um descuido do mais novo, ou se foi estranhamente proposital.

Tal como o próprio artista prodígio ali, Taehyung era bastante habilidoso com diversas tarefas manuais. Quebrar um copo era raro; cotar-se com uma faca, mais raro ainda. E é por isso que, num primeiro instante, Yoongi se surpreendeu. Chocou-se antes de se alarmar e perguntar ao amigo se estava tudo bem.

— Taehyung? — ele se aproximou da bancada onde o jovem cortava os legumes. 

O mais velho se sentiu culpado por alguns instantes, pois sua recente especulação poderia ter sido a causa do descuido de Kim Taehyung.

— Sim, você tem razão — pronunciou-se o rapaz que, com um olhar vago e compenetrado, olhava para o corte que sangrava em seu dedo indicador.

Yoongi se deteve sem dizer nada, mas bastante preocupado.

— Ver a Soo sendo ferida e abusada enquanto eu saía totalmente ileso... — Sem se importar com o sangue escorrendo e gotejando, Taehyung continuou. — Não sei descrever o quão terrível e inútil eu me sentia. Muitas vezes eu tentei tomar a dianteira no meio dos conflitos, esperando que aquele monstro descontasse tudo em mim e se esquecesse da Soo, mas...

Notando que Taehyung prolongou a pausa, Yoongi arriscou completar:

— Mas ele sacava o seu objetivo, e daí acabava descontando mais ainda na Soo. Estou certo?

Como resposta, ele viu algo além de sangue gotejar sobre o mármore. Discretamente, e talvez sem sequer perceber, seu amigo chorava.

— Até hoje eu não entendo o que ele queria. — Taehyung prosseguiu com a voz mais embargada. — O que ele tanto odiava, sabe? Quem ele realmente queria ferir e por quê? De onde surgiu tanta crueldade, e por que ele descontava apenas nela? A Soo era tão pequena e frágil... Eu tinha um medo enorme de um dia vê-la parando de respirar ou algo do tipo. Eu a vi desmaiar várias vezes e em todas elas eu temi o pior. Eu comecei a enlouquecer...

Taehyung arfou, recuperando o ar. Com a mão direita, que estava ilesa, ele secou as lágrimas e se recompôs. Havia alguns guardanapos sobre a mesa, e o rapaz alcançou uma das unidades para limpar e estancar o sangue — que persistia esvaindo do corte em seu indicador esquerdo.    

— Eu revivi esse sentimento ontem. Dessa vez, foi como se o mundo fosse o vilão. — Apreensivo, Taehyung tomou um respiro antes de continuar. — Novamente eu fiquei ileso. Ela desmaiou e sangrou... Eu mais uma vez temi que ela não fosse mais acordar. Foi como no dia em que você impediu que ela fosse morta, lembra? Ela foi esfaqueada por aquele monstro. Daquela vez também foi a Soo sendo ferida enquanto comigo estava tudo bem. Então, eu... Eu não sei se fico com ódio ou com medo, sabe?

— Tae, esse tipo de sentimento é pesado demais pra você cultivar. Você não tem que... — Yoongi foi interrompido.

— No passado, também foi o ódio e o medo que me encurralaram. Eu não sei o que você pensou agora pouco com esse papo de idade suficiente pra tentar matar alguém, mas vê se esquece, entendeu? — Taehyung o encarou num misto de pesar e irritação. — E nunca comente nada sobre esse assunto com a Soo. Até mesmo porque você está bem longe de ser o nosso psicólogo, Yoongi. Bem longe.  

O tom dele foi bastante ríspido e ofensivo, algo um tanto incomum vindo de Kim Taehyung. Seu amigo sabia disso, mas compreendeu. Devia assumir que, mesmo sem ter tido a intenção, ele foi mais invasivo do que deveria.

— Olha, eu te entendo, ok? Não vou te julgar, jamais — num tom cauteloso, o mais velho procurou amenizar o clima. — Quem sou eu pra isso, afinal? Sou eu, cara... Min Yoongi. Antes de tudo eu sou seu amigo.

Taehyung relaxou a expressão.

— Eu sei. — ele disse com mais calma. — Foi mal se eu te assustei.

— Não, eu que peço desculpas por ter falado demais — respondeu Yoongi. Em seguida, ele verificou se a chave do carro estava no bolso de sua calça. — Só quero que saiba que estou aqui pro que precisar, ok? Você e a Soo são um tanto autodestrutivos, além de todo o resto dos conflitos e tal. Não consigo deixá-los sozinhos. É um caminho sem volta.

Yoongi já estava de costas quando ouviu um último comentário de Taehyung.

— Você tem razão, não estamos sozinhos. — O jovem pausou brevemente antes de fazer uma complicada pergunta: — Você acha que eu posso confiar em todos? Digo, nos que hoje eu considero como amigos e irmãos. Vocês, que são a única família que eu e a Soo temos... Podemos confiar em todos?

E Min Yoongi agradeceu por estar virado de costas naquele momento. Ele emudeceu, sem resposta, fechando os olhos enquanto lamentava pela pergunta que ele mesmo estivera fazendo a si mesmo — sem encontrar a resposta.

Era possível confiar em todos?

Sua sorte se deu pelo toque de seu celular, que quebrou o silêncio perturbador que crescia no ambiente. O rapaz atendeu e desligou em seguida, virando-se para Taehyung antes de se despedir.

— A gente conversa melhor depois, tudo bem? Estou indo buscar a Hong.

Um pouco desconfiado, o mais novo apenas assentiu. Afirmou que trataria corretamente o ferimento no dedo, e que só então voltaria a cozinhar sem nenhum problema. Yoongi saiu pela porta da frente, sorrindo ao dizer que estava bastante ansioso pela refeição.

 

 

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Domingo. O tal do sétimo dia onde, reza a lenda, até mesmo Deus parou para descansar. É claro que o mundo em si não poderia funcionar desta forma, porém, Hoseok se dava ao luxo de dormir até mais tarde. Ele não abria a loja aos domingos, e normalmente passava o dia fazendo qualquer coisa que não fosse relacionada ao trabalho. Nadava em algum clube nas tardes quentes, dançava, jogava futebol ou outro esporte, ou até mesmo matava o tempo no clube Bangtan. As opções eram infinitas.

Apesar de tudo, ainda era bastante estranho e desagradável o sentimento de despertar num domingo sem se lembrar do momento em que foi dormir. As amnésias alcoólicas eram frequentes, mas isso porque, comumente, ele exagerava na dose.

O rapaz se revirou na cama, inquieto. O quarto estava claro demais, fazendo-o se recriminar por não ter fechado as cortinas na noite passada. Ele sentiu a cabeça estalar, arruinando qualquer intenção de voltar a dormir. Levantou-se abrupto, saiu da cama, e seus primeiros dois passos foram um tanto cambaleantes.

Ele usava uma calça moletom cinza e desgastada, assim como sua camiseta branca — que estava vestida ao avesso, deixando à mostra o selo azul e desbotado abaixo da nuca.

Após tomar um bom banho, trocou o modesto traje por outro mais casual: moletom verde musgo e uma camiseta preta com o logo da banda "The Neighbourhood" — uma simples casinha de cabeça para baixo envolta num círculo —, a qual ganhara de Yun Soo em seu último aniversário.

Ele secou um pouco o cabelo com uma toalha branca, saiu do quarto e caminhou pelo corredor até a sala — que estava ainda mais clara do que seu quarto. Assim que avistou as costas do sofá, ele reparou na inusitada existência de um pé alheio para fora, apoiado num dos braços do estofado.

Hoseok estreitou os olhos e estranhou. Ele havia trazido alguém pra casa? Quem? Com cautela, aproximou-se o suficiente para se deparar com um corpo todo coberto estirado no sofá. Inclusive o rosto da pessoa estava coberto, o que acabou não ajudando muito o dono da casa que, intrigado, puxou de uma vez a ponta do edredom bege.

A face adormecida foi revelada: Kim NamJoon, quem se remexeu levemente, coçou o próprio rosto, fungou e sorveu um fio de baba que escorria pelo canto de sua boca, mas não acordou — virou-se de lado, pretendendo continuar a dormir.

Hope fez uma careta.

— Aish, é só o NamJoon — resmungou ele ao largar o edredom de qualquer jeito sobre o amigo. — Também, quem diabos eu esperava que fosse?

Rindo sozinho, Hoseok se sentou no sofá menor. Ele observou melhor o cenário ao seu redor, notando a mesa de centro repleta de garrafas de soju e cerveja. Havia uma garrafa de um litro de água, a qual o rapaz alcançou e sorveu de uma vez o restante do conteúdo — pouco menos que a metade.

Após se sentir hidratado, ele finalmente começava a se lembrar da noite passada. Recordou-se de todo o sufoco com a Soo e o Jin desaparecidos — e também JungKook. Ele e NamJoon ajudaram até onde conseguiram, mas o que aconteceu depois?

Ah, sim. Eles saíram do Village, passaram em frente a uma loja de conveniência e ouviram um chamado. A voz vinha de dentro da loja, claro; soava fantasmagórica, mas sedutora. De repente, eram duas vozes simultâneas. Os dois foram vencidos pela "curiosidade" e entraram na loja, onde descobriram que os chamados se dispersavam de uma geladeira aos fundos daquele humilde local. As vozes pertenciam às garrafas de soju e cerveja, e os dois jovens as escutaram dizendo "tirem-nos daqui, queremos ir com vocês".

Não foram capazes de negar aquele pedido.

— Mas que merda de "crack fic" eu estou criando? — Hoseok falou a si mesmo enquanto encarava uma das garrafas vazias de soju.

Agora, ao sentir uma forte dor estalando em sua cabeça, ele podia imaginar perfeitamente a garrafa zombando da cara dele, dizendo algo como:

— "Toma trouxa, se fode aí" — ele pensou, literalmente imaginou a cena. — É, parabéns Jung Hoseok. Curta bastante mais esse dia de ressaca.

Porém, sentiu-se aliviado e agradecido ao se lembrar de que era domingo, ou seja, nada de precisar abrir a loja.  

Todavia este fato não amenizava sua preocupação com Taehyung, YunSoo e Jin. Ele não conseguia se sentir feliz num domingo que amanheceu após um infeliz — e confuso — incidente.

Agora que sua mente se aclarava, Hoseok se recordou que ele e NamJoon ficaram bebendo e conversando até o amanhecer. Estavam nervosos demais para dormirem, por isso acabaram optando por um porre. O mais velho falou muito sobre coisas como seu sonho de ir para os EUA, sua vida de produtor, e também sobre sua misteriosa namorada. Por certo, Hope descobriu que a mulher tinha o mesmo nome de sua mãe, e nessa ele acabou falando sobre sua desnaturada progenitora com NamJoon.

Era raro o solitário rapaz se abrir assim a respeito do assunto "mãe". Chegou a fazê-lo apenas com Yun Soo, com quem se sentiu a vontade. Bom, é possível que seu amigo lhe houvesse proporcionado o mesmo sentimento de conforto e confiança.

Ele era um ótimo amigo, afinal. Talvez seu melhor amigo.

O estranho é que, se bem Hoseok recordava, NamJoon reagiu meio calado demais com seu relato. Ele achou engraçada a coincidência do nome das duas mulheres, mas depois, ao ouvir detalhadamente a história sobre a complicada Jung Seo Ra, o mais velho acabou ficando quieto demais — ou, quem sabe, desconfortável. Talvez ele tivesse achado a história chata demais, é uma suposição plausível. Ou estavam ambos muito bêbados, uma vez que acabaram dormindo logo em seguida.  

Tentando afastar os pensamentos confusos, Hoseok cogitou a ideia de ligar para Taehyung ou Yoongi. Levantou-se do sofá na intenção de pegar seu celular no quarto, porém, acabou se assustando com um toque que soou muito próximo de onde estava. O jovem olhou ao redor e se deparou com o aparelho de NamJoon, soando escandalosamente acima da mesinha de centro.

Ele olhou do objeto para o amigo adormecido, esperando alguns segundos para ver se o indivíduo semimorto despertava. Ao constar que a múmia sequer se moveu, ele mesmo recolheu o celular berrante e checou a tela — podia ser Taehyung, o que seria conveniente no momento.

Porém, surpreendeu-se ao se deparar com o nome "Seo Ra" no visor. Hoseok questionou a si mesmo por alguns segundos, refletindo se deveria ou não atender. Por fim, com um sorriso zombeteiro, ele decidiu atender à suposta namorada de seu amigo enquanto fingia ser o tal.

 Primeiro pigarreou um pouco, procurando engrossar a voz num tom semelhante ao do mais velho. 

— Alô? — ele finalmente atendeu, mas teve que segurar o riso ao constatar sua pavorosa imitação de Kim Namjoon. 

— Você disse "alô"? — o rapaz ouviu a mulher rir de modo espontâneo.

O sorriso dele se desfez. Hope sentiu uma péssima sensação de familiaridade.

— Desde quando você atende o telefone assim? — ela continuou. — E sua voz saiu esquisita também. Ah... Deve ser algum amigo do Nam, estou certa? Tem alguém ouvindo?

Este alguém do outro lado da linha permanecia mudo e pasmado. A cada palavra recém ouvida, Hoseok tinha a certeza de sua suspeita.

O choque o manteve sem palavras.

— Hey, avise seu amigo que eu liguei — prosseguiu Seo Ra. — Peça para ele me retornar apenas se já tiver uma reposta sobre o assunto "Estados Unidos". Ele saberá o que é. Bye!

— O... Omma?!! — Já era tarde demais para chamá-la. O pobre filho ouviu apenas o bipe constante de uma chamada finalizada.

Deitado no sofá, de costas para o amigo, a verdade é que NamJoon se encontrava desperto. Seus olhos pareceram lamentar profundamente, mas seu corpo não se moveu. Recriminou-se por fingir que dormia, por covardemente querer esperar por um momento mais oportuno — pelo qual se levantaria daquele sofá com um sorriso despreocupado no rosto, como se nada demais estivesse acontecendo.

Ainda abalado, Hoseok deixou o celular acima da mesa de centro. Seus olhos se mantiveram fixos em NamJoon, inerte e supostamente adormecido.

Seu suposto melhor amigo.  

 

 

 

Eu não soube o que pensar ou como agir. Não de imediato. Eu precisava digerir aquilo. Nunca fui do tipo explosivo e que age por impulso, mas confesso que, por um momento, desejei sê-lo.

Desejei tirá-lo arrastado daquele sofá e perguntar como diabos ele se envolveu justo com ela, minha mãe, quem vive ignorando minha existência.

Eu também tentei pensar que eu havia me enganado, mas era impossível. A voz dela estava gravada em minha mente, de tanto que eu a gravei através de cada mínimo recurso. Quer fosse revendo vídeos antigos, ou ouvindo incontáveis vezes sua voz na caixa postal, eu, com esta minha audição tão sensível de alguém que trabalha com música...

Como que eu não reconheceria a voz da minha mãe?

A mesma voz, o mesmo nome, não restavam dúvidas.

Mesmo assim, o que eu poderia fazer? Eu voltei a sentar no sofá oposto com essa pergunta em mente. Fitando meu amigo adormecido, eu apenas fiquei pensando e pensando.

Se aquela era realmente a situação... O que eu poderia fazer? Será que ele sabia? Será que a coisa entre eles era séria?

Céus, eu não sabia por onde começar. A única verdade que eu conhecia, naquele momento, era o meu sentimento mais ínfimo e inevitável: algo entre inveja e ciúmes. Meu medo sobre como seriam as coisas no futuro.

Que mundo mais injusto e irônico.

O medo de ficar sozinho — de ser abandonado — era uma sombra em meu encalce. Por causa desta sombra, que às vezes crescia até me engolir, eu vivia me acovardando.

Eu sabia que, mais uma vez, eu seria um covarde incapaz de gritar. Aquele que é omisso, que aguenta tudo quieto e se faz de cego.

Você é tão patético, Hoseok.

Jung HoSeok

 

 

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O repentino agito na casa dos irmãos Kim se devia a certa presença brilhante: Min Hong Bi.

Gritando pelo caminho, a menina correu por toda a residência até seguir em direção às escadas.

— UNNIE!! UNNIE!!

— Yah, HONG BI!! — Seu irmão tentava impedi-la. — Você me prometeu que não faria nenhum escândalo! Hong Bi!!?

— UNNIEEE!! — A garota já disparava pelos corredores.

Quando chegou até a porta do quarto de Yun Soo, a pequena a escancarou sem rodeios. A jovem havia acabado de despertar por conta da gritaria, mas não teve tempo de assimilar a situação.

Hong Bi subiu na cama e, aos risos, se enfiou debaixo do edredom.

— Oiiii unnieee!! — ela disse enquanto gargalhava. — Vou me esconder aqui do meu oppa. Não deixa ele descobrir, tá?

Oculta sob o edredom, ela se agarrou à Yun Soo e se encolheu o máximo que pôde.

— Yah, MIN HONG BI!! — Foi a vez de Yoongi invadir o quarto.

O rapaz se desconcertou ao dar de cara com o olhar atônito da amiga, quem bocejava ainda deitada.

— Ah, Soo... Nós te acordamos?

— Any! — ela sorriu.

O mais velho percebeu a presença da irmã sob o edredom. Ele pretendeu se aproximar para tirá-la dali, mas Yun Soo o impediu com um olhar cúmplice enquanto meneava a cabeça.   

— Aigo... Um jovem cavalheiro não devia invadir o quarto de uma dama assim. — Ela disse, e em seguida sibilou um "está tudo bem".

— B-bom... — Embora ainda estivesse preocupado, Yoongi entendeu. Ele sorriu antes de concluir. — Perdoe-me, senhorita. Se vir por aí uma pequena garotinha escandalosa, avise-me, tudo bem?

— Sim, monsieur. — A jovem lançou-lhe uma piscadela.

Assim que ouviu o som da porta se fechando, a menina saiu de seu esconderijo. Encostou a cabeça num travesseiro livre e acomodou-se confortavelmente ao lado da mais velha, aninhando-se como um gatinho furtivo.

— Você foi ótima, unnie! Será que ele reparou? — a pequena perguntou baixinho.

— Ele nem sequer desconfiou, Hong. — Yun Soo respondeu no mesmo tom da menor.

— Nossa, que idiota.

A jovem acabou rindo com o comentário.

— Hong Bi, não chame seu irmão de idiota.

— Mas ele é mesmo.

Yun Soo riu de novo. Mantendo um sorriso nos lábios, ela trocou a risada por um breve instante de silêncio, refletindo antes de dizer com um olhar distante e emotivo:

— Seu irmão é uma pessoa absolutamente incrível.  

Encolhidas sob o edredom, as duas conversavam despreocupadas e aos cochichos.

— Você acha isso? — Hong Bi sorriu. — Por que vocês não namoram?

— Nós somos amigos.

— E daí? Amigos não podem namorar?

— Você é muito novinha pra entender.

— Que coisa mais chata.

— Ora, sua...

 

Passando uma das mãos pelo próprio cabelo, Yoongi bagunçava as mechas platinadas em verde pastel. Ele parecia um tanto inquieto, mas, ao ouvir as risadas descontraídas das duas garotas, acabou por sorrir e se acalmar.

Preocupava-se porque havia imaginado que Yun Soo não estaria no espírito de ser importunada por uma criança hiperativa. No fim, acabou se surpreendendo. Sua melhor amiga aparentava estar melhor do que ele imaginava, levando-se em conta o turbilhão de coisas pelas quais ela havia passado. Ou talvez a companhia de uma criança, com toda sua pureza e honestidade, fosse capaz de proporcionar calor e segurança para o coração ferido de YunSoo.

Ao chegar na cozinha, deparou-se com Taehyung sentado numa das cadeiras ao redor da mesa — esta que já estava devidamente posta, com pratos, copos, hashis e colheres.  

No entanto, o jovem parecia ocupado com algo. Yoongi se aproximou um pouco mais e notou que se trava do aparelho celular de YunSoo.

— Você conseguiu ligar? — o mais velho perguntou, preocupado. — Eu não cheguei a tentar fazer isso.

— Está ligando sim. — Taehyung respondeu sem desviar a atenção da tela do aparelho. — Mas eu não sei a senha pra desbloquear.

De certo modo, Yoongi se sentiu aliviado com aquilo.

— Você sabe? — Ele foi surpreendido pela pergunta do amigo, que agora o encarava num misto de ansiedade com desconfiança.

— O quê? A senha dela? — Fez-se de desentendido. — A atual eu não sei. Eu sabia a antiga, mas...

— É, eu também sabia. — Taehyung interrompeu, pensativo. — Jin se incomodou porque nós sabíamos a senha do celular dela e ele não.

— Exato. Então ele a fez mudar para uma senha que apenas ele e a Soo saberiam — completou Yoongi. — Acho que já faz uma semana isso.  

Calando-se por alguns instantes, o mais novo pareceu bastante incomodado ao se recordar de tal fato. Ele refletiu por alguns segundos até indagar num tom frio — o olhar indignado:

— Por que será que sempre deixamos o Jin fazer as coisas do jeito dele?

— Eu... — Voltando a se aproximar da mesa, Yoongi se sentou calmamente numa cadeira oposta ao lugar do amigo. — Não sei ao certo. Mas, pra ser bem honesto, acredito que seja por causa de sua condição. Porque sabemos que ele tem um coração fraco, a gente acaba tolerando tudo o que ele faz mesmo sem concordar. É lamentável dizer isso, mas devemos encarar a realidade.

— Atitudes banais, detalhes cotidianos... Eu não acho que as coisas passaram despercebidas — continuou Taehyung. — Por que não fizemos nada? E... Por falar nisso, eu nem ao menos sei no que deu essa história. Jin também está no hospital, inconsciente. É meio cruel da minha parte ficar pensando se a Soo conseguiu terminar com ele numa boa.

O outro rapaz chegou a formular o início de uma resposta, mas se deteve. Não diria nada além de pautas superficiais. A verdade é que ele tampouco sabia o que dizer a respeito de tal assunto. A conivência, o faz de conta... O ato involuntário de convencer a si mesmo de que estava tudo bem. Tapar a própria visão para tornar as coisas mais aceitáveis.

E tudo se distorceu, e distorceu. Até que, sem prévias ou sinais, rumou para algo irreversível. Naquele momento, Yoongi sabia disso melhor do que Taehyung.

— Não se culpe — disse ele com notável seriedade num olhar distante. — Poupe sua energia, Tae. Você vai precisar ser forte.     

— Sabe, eu tenho a estranha impressão de que... — o mais novo o encarava com desconfiança. — Você está um pouco adiantado.

— Adiantado? — intrigou-se Yoongi.

— Não sei. Só me ocorreu que... Bom, é como se você soubesse de algo que eu ainda não sei.

O outro rapaz não se surpreendeu; era óbvio que Taehyung acabaria se dando conta. Como imaginado, este evento deu início a uma situação delicada e desconfortável, mas que não poderiam evitar.

— Eu não vou dizer nada sem ter certeza — Yoongi declarou, suportando o peso de um olhar inquieto sobre si.       

Mais uma vez o clima entre os dois amigos acabou se tornando denso. Teria ficado sufocante se não fosse a interrupção da pequena Hong. Ela correu até a sala e se jogou no sofá, informando que estava na hora de um programa que ela acompanhava.

Taehyung se adiantou para ligar a TV, mas foi obrigado a entrar numa breve discussão com a menina, quem insistiu ser capaz de se virar sozinha.

Aproveitando-se do momento mais ameno, Yoongi julgou que seria prudente sair de cena e conversar com YunSoo.

— Vou ver se a Soo quer comer aqui embaixo — ele avisou antes de rumar às escadas.

Apressado, parou ansioso em frente à porta do quarto da amiga. Bateu duas vezes até ouvi-la dizer:

— Entre, Yoon.

Quando o rapaz entrou, lentamente, deparou-se com a garota andando com certo esforço ao redor da cama, a qual ela terminava de arrumar.  

— Como sabia que era eu? — questionou Yoongi com um sorriso nos lábios.

A jovem sorriu de volta e não demorou a responder:

— Intuição. — Fez uma pausa e desviou o olhar. — Na verdade eu escutei seus passos no corredor. Como posso dizer? Você e Taehyung possuem presenças e ritmos diferentes.

— Wow, isso é incrível. Você deve ter algum poder paranormal, tenho quase certeza. — Ele ironizou.

— Você veio aqui pra tirar onda com a minha cara? — Ela o encarou e acabou rindo, sendo acompanhada pelo riso descontraído de seu amigo.

— Vejo que está melhor. Acho que a Hong Bi te animou um pouco. — Yoongi se aproximou mais da cama, disposto a esticar uma das pontas desarrumadas do edredom. — Deixe-me te ajudar com isso.

— Sim, acho que você tem razão. — O olhar da garota pareceu nublado, mas não estava sombrio ou sem vida.

A cama — que era de casal — já estava devidamente arrumada, mas Yun Soo não demorou em se sentar sobre ela. Acomodou-se, cruzando as pernas numa quase pose de meditação, e logo convidou Yoongi a fazer o mesmo.

— A Hong Bi faz com que eu veja a mim mesma quando criança — ela prosseguiu. — Bom, ela tem cinco anos, quase seis. Até meus cinco anos de idade eu era muito parecida com ela, inclusive fisicamente. Mas eu também tinha essa mesma energia, a honestidade. Como ela, eu era esperta e teimosa.

— "Era"? — Yoongi já estava sentado na cama, de frente para a jovem e na mesma posição. — Eu acho você e a Hong Bi bem parecidas, assim, na atualidade mesmo.

Yun Soo riu de leve antes de refutar:

— Yah, você entendeu, né?

O rapaz lhe sorriu, assentindo sem dizer nada enquanto a esperava continuar.

— Eu gosto dessa sensação. Ver a Hong Bi sempre alegre... A vida dela também não é fácil, e ela com certeza sente tudo o que acontece ao redor. — A garota fez uma pausa, pensativa. Seus olhos eram mais sérios e condolentes agora. — Cuidar dela, mesmo que só às vezes, não sei como dizer, mas... É como se eu pudesse resgatar um pouco da pequena Soo. A inocência infantil, a alegria, a luz que irradia em tudo.

Sentindo a profundeza sentimental daquelas palavras, Yoongi compreendia perfeitamente. Ele viu a mais nova desviar os olhos trêmulos, contendo-se ao continuar:

— Agora pouco, quando disse pra Hong Bi que eu estava bem... Ela me olhou como se estivesse mergulhando em meus olhos e descobrindo tudo o que eu sentia. — Yun Soo fez uma pausa, respirando fundo e se esforçando para a voz não sair embargada. — Ela pareceu triste, mas não me perguntou mais nada. Ela apenas me abraçou com ternura, bem forte. E então, por um momento eu... Eu senti como se estivesse abraçando a mim mesma. Eu me senti consolada pela pequena Soo de um passado remoto, aquela garotinha que eu mantenho viva dentro de mim. Não sei como explicar e...

Ela se deteve pelo embargo, sem notar que Yoongi não precisava de nenhuma explicação a mais. Seu melhor amigo já havia entendido desde o princípio. É por isso que, com sua empatia e gentileza — ou com muito mais do que seria descritível —, ele se adiantou.

Yun Soo sentiu o aproximar cálido; o toque em seus ombros retraídos, um afago em seus cabelos e, por fim, o embalo carinhoso e aconchegante de um abraço.

Ela já havia se acostumado ao perfume dele há bastante tempo, porém, nunca deixaria de notá-lo ao inalar mais de perto. O aroma a tranquilizava, proporcionando paz e segurança. Era agradável, quente e acolhedor.

E é por tudo isso que, naturalmente, YunSoo conseguiu chorar sem se conter.

— Confesso que fiquei assustado. Muito assustado — Yoongi murmurava próximo ao ouvido dela. — Mesmo sabendo que a fênix é realmente uma fênix... Vê-la virar cinzas é desesperador. Não quero ver isso acontecer de novo. Nunca mais.

— Eu também não quero — a jovem respondia entre um soluço. — Mas, às vezes tenho a impressão de que...

— Shhh — ele a abraçou mais fortemente. — Que se dane qualquer impressão, Soo. Você vai ficar bem, tenha certeza disso.    

Sem que mais nada fosse dito, o silêncio se instaurou por alguns instantes. Ouvia-se apenas o pranto cada vez mais sutil de Yun Soo. Enquanto acariciava o cabelo da garota, entrelaçando mecha por mecha em seus dedos e deslizando por elas lentamente, Yoongi se distraía ao mergulhar numa árdua reflexão — o receio estava estampado em seu olhar.

Finalmente, ao notá-la mais calma, ele tomou o fôlego e a coragem para quebrar o silêncio. Coragem, sim, porque teria que fazê-lo através de palavras tão carinhosas quanto cruéis:

— Não vou permitir que ele te machuque de novo — disse convicto.

Sentiu a garota estremecer em seus braços. Ela se afastou minimamente, nervosa; seus olhos confusos e temerosos se encontraram com os do mais velho que, sem hesitar, completou:

— No que depender de mim, ele nem sequer voltará a aparecer na sua frente.   

— E-ele? De quem você...

— Kim Seok Jin. — Yoongi soltou de uma vez. — Não sei exatamente o que aconteceu, mas foi ele, não foi?

Yun Soo se espantou e emudeceu. Seu amigo já lamentava profundamente por ter perguntado.

— Soo, veja bem... Eu não quero que você...

— E você quer o quê? — A jovem mudou a expressão, revelando um olhar sombrio e impassível. — Quer que eu dê os parabéns ao grande detetive?

E Yoongi sentiu o baque que merecia. Ele soube disso, calado. Foi como ter sido atingido por um terrível golpe. Na verdade, um soco bem forte no estômago teria sido menos doloroso.

 — Soo...

Bem menos doloroso do que ver o olhar dela, e mergulhar em sua tristeza mesclada ao pavor. Ele quase perdeu o ar. O ímpeto de ampará-la foi sufocado, talvez prevendo uma plausível rejeição. Mesmo assim, ele tentou.

— Soo, eu... — Yoongi pretendeu tocá-la num dos ombros, mas a garota imediatamente o repeliu e se afastou.

— O Taehyung! — Yun Soo exclamou eufórica, quase entrando em pânico. — Ele também sabe?

— Acalme-se, Soo. Seu irmão não sabe, eu suspeitei disso sozinho. — Yoongi tentou tranquilizá-la, mas a jovem permanecia dispersa e aflita. — Soo, preste atenção. O Tae sabe apenas que o Jin está ferido, mas não sabe onde é o ferimento. Assim que ele souber, será só uma questão de tempo até ele chegar à mesma conclusão que eu, entende? Também em breve ele vai acordar no hospital e o Tae com certeza vai querer vê-lo.

A mais nova permaneceu muda e distante. Ela demonstrava dificuldade para assimilar toda a informação, e seu abalo repentino já resultava em desconfortos físicos — sentia calafrios, seu peito doía e a respiração pesava.

— Soo, tente se acalmar, por favor. — Yoongi se preocupou, prosseguindo com mais cautela. — Está tudo bem, ok? Eu não direi mais nada. Soo, me desculpe...

— Eu estou bem. — Ela o encarou brevemente, baixando o olhar em seguida. — Justo agora, por um momento eu desejei que o Jin não acordasse tão cedo. Pensei que não seria tão ruim se ele ficasse em coma por algum tempo. Eu sou horrível, não sou?

— Claro que não, Soo. — Contendo seu instinto de tocá-la, o rapaz buscou o olhar dela. Queria tentar acalmá-la tanto quanto tentava acalmar a si mesmo. — Claro que não.

 

Instantes mais cedo, Taehyung ouviu o som de um aparelho vibrando. Percebeu rapidamente que se tratava do celular de sua irmã, que estava acima da mesa na cozinha. Ele correu até o objeto e o pegou. Como não sabia a senha de desbloqueio, tudo o que teve foi uma prévia da notificação, que só indicava o recebimento de um vídeo. Algum número desconhecido o havia enviado. Taehyung arrastou a notificação para fazê-la sumir e, logo em seguida, o aparelho recebeu uma segunda mensagem do mesmo número. Intrigado, ele pôde ler apenas uma pequena introdução do texto: "Vamos brincar de pique-esconde? Ache-me ou este vídeo..."

 

— Aish! — Taehyung resmungou e correu dali, preocupado com a mensagem suspeita.

Subiu os degraus apressadamente, mas, assim que alcançou o corredor, ele diminuiu o ritmo ao ouvir a voz de Yun Soo num tom intranquilo.

— O Taehyung! Ele também sabe?

Alarmado, Taehyung se aproximou da porta entreaberta do quarto de sua irmã. Ele se deteve antes que pudesse ser notado e, como pretendido, conseguiu ouvir o restante daquela estranha conversa.

— Acalme-se, Soo. Seu irmão não sabe; eu suspeitei disso sozinho. — Ao notar pela voz, Yoongi parecia aflito. — Soo, preste atenção. O Tae sabe apenas que o Jin está ferido, mas não sabe onde é o ferimento. Assim que ele souber, será só uma questão de tempo até ele chegar à mesma conclusão que eu, entende? Também em breve ele vai acordar no hospital e o Tae com certeza vai querer vê-lo.

Houve um instante de silêncio, Taehyung pensou em entrar no quarto para questioná-los, contudo, interrompeu-se ao ouvir seu amigo continuar:

— Soo, tente se acalmar, por favor. — Ele abaixou o tom de voz, mas ainda era possível escutá-lo. — Está tudo bem, ok? Eu não direi mais nada. Soo, me desculpe...

— Eu estou bem. — YunSoo finalmente se pronunciava. A voz dela, porém, entoava certa amargura ou angústia. — Justo agora, por um momento eu desejei que o Jin não acordasse tão cedo. Pensei que não seria tão ruim se ele ficasse em coma por algum tempo. Eu sou horrível, não sou?

Taehyung estremeceu, sentindo-se tão surpreso quanto confuso. Por que sua irmã desejaria que SeokJin não acordasse?

— Claro que não, Soo. — Yoongi parecia consolá-la. — Claro que não.

No entanto, agora era Kim Taehyung quem não estava nada calmo. Foi quase algo involuntário sua reação abrupta de adentrar o quarto.

A princípio, silêncio. Os olhos inquietos do rapaz se depararam com dois pares de olhos espantados. Yun Soo titubeou, desesperando-se com a presença inesperada do irmão.

— T-Taehyung?

— Do que vocês estão falando? — Ele foi direto, deixando transparecer sua ansiedade e nervosismo.

— Primeiro fique calmo, cara — pediu Yoongi. — Não entenda errado.

— Acho que não tem como entender errado. — O mais novo devolveu. — O que tem o Jin? O que diabos eu não posso saber?

— Espere, Tae, eu... — YunSoo tentou reagir, mas elas sentiu novamente um mal estar. Esforçando-se, respirou fundo e fitou o irmão. — Eu vou te dizer, mas só quando eu achar que consigo. Ou melhor, quando você puder ouvir sem me dar a impressão de que irá surtar.    

Yoongi pousou o olhar na amiga, preocupado, e em seguida mudou sua atenção para o jovem ainda de pé perto da porta, notando-o bastante nervoso e confuso. O silêncio durou apenas poucos segundos.

— Ah, claro... — dizia Taehyung.

A troca de olhares entre os irmãos se tornou tão intensa, que o turbilhão de emoções era praticamente algo sólido, denso e palpável. No entanto, de tão frágil, acabaria se quebrando caso fosse tocado. Era como um fio esticado demais, suportando uma tensão que poderia fazê-lo se romper a qualquer momento.

Após essa tortuosa pausa, Taehyung engoliu seco e respirou fundo antes de se explicar:

— Bom, você estava falando sobre isso agora pouco com o Yoongi. Eu apenas achei que não esconderíamos mais nada um do outro.

— Olha, Tae, eu acho que não é um bom momento pra — O mais velho foi interrompido.

— Eu sei, droga! — Taehyung se alterou. Ele fechou os olhos e puxou o ar novamente, procurando com muito esforço se acalmar.

Naquele mesmo instante, o celular em sua mão direita vibrou outra vez — ele havia até se esquecido das estranhas mensagens.

— Droga... Sinto que vou enlouquecer — ele soltou, nervoso.  

— Este é meu celular? — indagou YunSoo.

— Sim. Chegaram algumas mensagens suspeitas, mas eu não sei a senha — seu irmão explicava ao lhe entregar o aparelho.

Agora com o objeto em mãos, a jovem fitava a tela trincada, lembrando-se do momento em que Jin o arremessou contra a parede.

— Então ainda funciona — ela murmurou, pensativa.

Sem hesitar, Yun Soo desbloqueou o celular e conferiu a mensagem. Primeiro, um vídeo qualquer e sem imagem de preview. Após isso, um texto que dizia: "Vamos brincar de pique-esconde? Ache-me ou este vídeo será publicado e compartilhado em toda a rede. Você tem uma semana."

Posto que ela ainda não sabia do que se tratava o vídeo, a última mensagem foi mais impactante:

 

 

"Vamos nos encontrar novamente em breve. Longe de avenidas e carros velozes, por favor."

 

 

— O que é, Soo? — Taehyung se aproximou, preocupado com a expressão da irmã. — O que tem o vídeo?

— Vídeo? — questionou Yoongi.

— Sim, parece que há um vídeo. — o outro rapaz respondeu. — Achei bem estranho e por isso vim aqui. 

Mas Yun Soo hesitava.

— Acho que quem me mandou isso foi a mesma pessoa que me empurrou na avenida — ela esclareceu.

— O que? — Yoongi pareceu confuso, assim como Taehyung.  

— Estou com um mau pressentimento — disse a garota em voz baixa. O receio dela em abrir o vídeo era notável.

Seu irmão compreendeu, dispondo-se a conferir em seu lugar.

— Quer que eu veja? — perguntou ele.

— Não, está tudo bem. — Ela negou sem desviar o olhar das mensagens. — Não deve ser nada demais.

Porém, Yun Soo permaneceu insegura. Ela acabou demorando mais alguns segundos até o crucial momento em que, finalmente, abriu o vídeo.

 

 

 

E sim, eu me arrependeria daquilo na mesma hora.

Eu apertaria o "play" para imediatamente dar "stop".

Ou talvez eu atirasse o celular para longe, como se ele fosse queimar minhas mãos — e meus olhos, minha alma.

O resto de sanidade em meu irmão.

Sabe, eu estava me sentindo péssima com tudo. Não queria que me olhassem daquele modo, com pena ou aflição. Esses olhos faziam com que eu me sentisse ainda mais lamentável.

Ouvir perguntas silenciosas; confrontar o excesso de preocupação; notar nos outros um desespero que posso garantir ser menor do que o meu, mas que consegue ser mais notável. Não posso fugir do desespero deles como estou tentando fugir do meu próprio.

Seus olhos são lâminas afiadas. Não quero vê-los. Não quero ouvir nem falar nada. Não quero me sentir como se estivessem esfregando na minha cara o quão deplorável eu me tornei da noite pro dia.

Cadê aquela garota super forte? Também estou procurando por ela, mas é óbvio que faço isso sozinha.

Querem tanto saber o que aconteceu? Sabe, faz parecer que isso é mais importante. A tragédia passada e desconhecida é mais preocupante que a tragédia atual. E alguém sabe qual é a tragédia atual?

Eu. Inteiramente eu.

E acho que não vão notar isso se eu não gritar com todas as letras. Não quero remoer o que aconteceu, eu desejo esquecer. Preciso de paz e tempo. Também preciso de amor. Nada mais.  

Não quero que façam da minha tragédia um estopim.

Porém, aquilo apareceu. Aquela coisa monstruosa em minhas mãos.  

E eu me pergunto se tudo isso terá um fim, mas acabo entrando num paradoxo: ao mesmo tempo em que desejo esse fim...

Eu tenho um medo terrível dele.

Kim Yun Soo.

 

 

 

 


Notas Finais


É isso, manas! Espero que tenham gostado. Sei que a escrita desse cap não ficou grandes coisas e se pá tem alguns erros, mas relevem kkkkkk oq importa é que foi feito com muito carinho.
Algumas coisas tensas ainda vão acontecer.
Vários bafos, enfim, tudo que garanto é que vou continuar fazendo o possível pra postar o quanto antes. Torçam por mim e quando menos esperarem eu já estarei de volta nas notificações de vocês! /amém.
Quem quiser deixar algum coment pra animar a autora aqui, não faça cerimônia e vamos nos amar! <3
Até o próximo! ;**


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