História Saigo No Saigo Made - Capítulo 8


Escrita por: ~

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Categorias The GazettE, Versailles (Banda)
Personagens Aoi, Hizaki, Kai, Kamijo, Masashi, Reita, Ruki, Teru, Uruha, Yuki, Yune
Tags Aoiha, Reituki
Visualizações 68
Palavras 6.077
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Lemon, Policial, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Suspense, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Canibalismo, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


E AÍ, GENTE. Segurei o capítulo o quanto pude, mas sou ansiosíssima.
Fiz umas capinhas introdutórias para cada capítulo, como essa que vocês vêm hoje aqui. O motivo: não tem motivo, acho que sou desocupada e quis fazer umas ilustrações.
SEM MAIS DELONGAS. Boa leitura.

Capítulo 8 - Mãos de Acetona Sobre um Rosto Semi-morto


Fanfic / Fanfiction Saigo No Saigo Made - Capítulo 8 - Mãos de Acetona Sobre um Rosto Semi-morto

Finalmente, despertou. Foi abrindo os olhos vagarosamente, com alguma dificuldade, até que pudesse compreender onde estava. Sob o seu corpo, havia um colchão macio, mas não tão macio quanto o da sua cama luxuosa. As roupas de cama sobre as quais se deitava eram brancas, assim como eram brancas as paredes ao redor, o que também não condizia com o seu quarto. Papéis de parede importados não o rodeavam. Estava no hospital.

A sua mente era um emaranhado de informações, nada além disso. Haviam imagens, imagens que chegavam a Kouyou, mas ele não as compreendia.

Não, ele as compreendia. Compreendia, compreendia como ninguém. Gostaria de não compreendê-las, mas a realidade já não condizia com seus desejos.

- Aoi-san. Imagino que você saiba por que está aqui?

Vagarosamente, tornou a fechar os olhos cansados. Mal tinha despertado, queria voltar a dormir de novo, porque lembrava-se delas. Lembrava-se das correntes.

Correntes, correntes, correntes.

Correntes por todos os lados, mas elas não era visíveis. Correntes em torno de Yuu, correntes em torno de si mesmo. As correntes os ligavam, os prendiam a tudo aquilo que conheciam. Nada era livre ou espontâneo, tudo era acorrentado.

- Postura, Kouyou.

Mas havia uma diferença. Uma diferença básica, essencial. O tipo de corrente.

Correntes sanguíneas, psicológicas e agora profissionais o prendiam a Eiji. Correntes de ego o prendiam ao trabalho de estilista. Correntes financeiras o prendiam às parcerias profissionais, aos investidores, às empresas de publicidade. Mas a Yuu, as correntes que o prendiam eram…

- O único motivo pelo qual não te mato é porque não tenho permissão ainda, verme.

Fechou com mais força os olhos que agora se tornavam úmidos, mas não estavam úmidos de tristeza. Estavam úmidos de ódio. Ódio.

Um ódio puro, pesado, que ia descamando-o por dentro. O ódio palpável de uma adaga muito fina que ia esfolando o seu lado interno, e a dor não era apenas psicológica, era real. Já não havia revestimento por debaixo da sua pele, tudo era carne-viva.

As lágrimas se multiplicavam e Kouyou tremia com o ódio. Ódio de quê? De quem?

De Yuu? De Eiji?

- É porque já estamos apaixonados.

Quem era o filho da puta que o tinha salvado? Quem?

“Você sabe muito bem quem foi, Shima-chan”, disse a voz lá de dentro.

Não era Shima-chan. Há muito tempo, aquele apelido já não o definia. Não era Shima-chan, nem Kouyou, nem Uruha. Estava farto daqueles papéis. Estava farto das máscaras.

Kouyou era todos. Era os três. E ao mesmo tempo, não era nenhum.

Correntes.

As correntes que o prendiam a Yuu eram afetivas. Emocionais. Não eram correntes de necessidade, ou de ego. Não eram correntes financeiras, nem correntes profissionais, muito menos correntes sanguíneas. Eram correntes emocionais. Mas as correntes que prendiam Yuu a si, por outro lado, eram físicas.

Eram de ferro.

E quando o tapa daquele homem miserável estalava sobre o seu rosto machucado, Yuu se contorcia naquela cadeira, e as correntes faziam barulho, porque eram de ferro. De metal puro. Não eram correntes profissionais, nem emocionais. Ele estava lá porque queria se livrar das correntes. Kouyou, Uruha e Shima-chan eram as suas últimas correntes, e também a última condição para que se livrasse de todas as outras. O último desafio pelo qual ele precisava passar para enfim se libertar de um passado desprezível. Um passado cuja herança era um homem chamando-o de verme, de salgueiro, de nomes que o dicionário não explicava.

Aquele homem cujo tapa estalava no rosto de Yuu, Kouyou queria matá-lo.

Queria também matar Eiji.

Queria também matar Uruha.

Matar Shima-chan.

Matar a si próprio.

Mas acima de todas, todas as coisas na face da Terra, desejava matar aquele homem que o acorrentava e fazia estalar sobre o seu rosto o tapa que reverberava. E reverberava. E reverberava, seguido pelo eco das correntes.

Agora que as lágrimas rolavam com naturalidade pela sua face, Kouyou percebia: era por isso que não estava morto. Era para isso que tinha sobrevivido. Mataria todas as suas personalidades, todas as máscaras de si mesmo. Mataria todas as máscaras de Eiji e de todos os seus capangas desprezíveis. Mataria todas as máscaras de Yuu, a não ser por uma última. De Yuu, deixaria sobrar uma. Deixaria sobrar uma, não deixaria?

Não deixaria?

As mãos finas já não eram meticulosamente pintadas de preto. Alguém havia jogado sobre elas uma acetona, talvez para ter certeza de que a circulação sanguínea de Kouyou ainda estava eficiente.

Agora, sem esmalte, encarava as próprias mãos.

Há quanto tempo não via suas próprias mãos verdadeiras? Mãos sem esmalte.

- Meu… Deus - alguém sussurrou, talvez a sua própria voz.

Quem havia sido antes de alimentar Uruha? De onde tinha vindo?

Aquele dinheiro. Aquela riqueza. Aquela influência.

A Takashima Company era verdadeira? Suas memórias com ela eram verdadeiras? As memórias onde escutava, incessantemente, aquelas palavras…

- Postura, Kouyou.

- Você não quer ser perfeito, Shima-chan?

Lavagem de dinheiro. Política. Estratégia. Aquelas eram as suas origens. Nada do que tinha era seu. Nada do que tinha era…

Não. Havia algo, algo que era seu. As mãos sob o esmalte eram suas. E agora, não havia nada entre Kouyou e elas. Nada.

As lágrimas pararam de rolar em algum momento, e Kouyou não soube dizer quanto tempo havia se passado. Agora, aquelas lágrimas já estavam quase secas no seu rosto, também sem maquiagem. As suas roupas não eram de marca, mas apenas trapos brancos de um hospital caro. As paredes ao redor também eram brancas, o assoalho era branco.

Por muito tempo, escondeu-se atrás do preto, mas agora via com clareza.

Aquele homem. Aquele homem acorrentado sobre uma cadeira, sendo agredido por um desconhecido que lhe oferecia a liberdade, ele… Ele também se escondia atrás do preto. A origem de Kouyou não era melhor que a origem de Yuu, mesmo aquele homem tendo matado outras pessoas no seu passado mórbido. As suas origens eram... Iguais. Sujas. Manchadas.

Duas almas perdidas, escondidas atrás do preto, porque no preto não se enxergava. Mas por mais que o preto fosse quente e aconchegante, era no branco que estava a verdade. No branco daqueles paredes. Daquelas unhas descoloridas. Daquele vídeo terrível que havia assistido na noite anterior.

Não podia mais tomar remédios. Precisava sobreviver. Precisava sobreviver e lembrar de si mesmo. Lembrar de si mesmo antes de se tornar Uruha, antes mesmo de se tornar Kouyou, antes mesmo que alguma mulher maldita, à uma mesa de jantar maldita, o apelidasse de Shima-chan.

A sua garganta estava seca, e Kouyou precisava de água. Água, somente água. Desintoxicar-se daquela realidade frívola, superficial, fútil. Desintoxicar o seu sangue da genética nojenta de Eiji, e recomeçar. Recomeçar a partir do nada.

 

Então, percebeu. Ao longe, havia um som. Uma televisão ligada, provavelmente do quarto ao lado, ainda que as paredes parecessem grossas. Sim. Era uma televisão. E naquela televisão do quarto ao lado, uma repórter dizia:

“… Há aproximadamente quatro horas, quando foi encontrado por um parente no quarto de seu apartamento, desacordado. Apesar dos boatos de que teria sido uma tentativa de suicídio, o médico pessoal de Uruha informou que ele apenas vivenciou uma overdose de calmantes, visto que não conseguia adormecer…”

Arqueou as sobrancelhas loiras, pouco comovido. Yuki, que era praticamente a alma de seu marketing e publicidade, certamente tinha dado um jeito de subornar algum médico que tinha aceitado declarar que era apenas uma overdose de calmantes. O suicídio parecia realmente mau aos ouvidos do público, certo?

Nenhuma novidade. Aquele era o mundo podre em que viviam. Era até mesmo possível que a sua carreira fosse ainda mais aclamada depois do incidente; era o que chamariam de uma “jogada inteligente de marketing”.

“… E a legião de fãs que o seguem está muito abalada com a notícia. Devido à sua grande popularidade em torno do mundo, os fãs postam ainda fotografias e homenagens de apoio na internet, e Uruha está ainda nos Trending Topics de duas grandes mídias sociais, com a hashtag #PrayForUruha…”.

PrayForUruha.

O seu rosto bonito era agora uma massa amorfa e sem emoção.

Kouyou era lindo, mas apenas uma massa amorfa. Sempre havia sido uma bonita massa amorfa, nunca encontrando seu próprio formato. Agora, era a hora de encontrá-lo.

As mãos magras e sem esmaltes, pálidas demais para serem de um idol, bem-cuidadas demais para serem de um sujeito comum, repousaram sobre um pequeno botão localizado à extremidade da maca confortável. Pressionou, e uma pequena luz vermelha acendeu-se na porta do seu quarto, que se assemelharia muito bem à suíte de um hotel luxuoso se não fosse absolutamente branco.

Em poucos segundos, duas enfermeiras apareceram à porta. Ia começar aquela chateação. A timidez, alguém balbuciando “U-Uruha-sama”, alguém perguntando se estava bem, se precisava da porra de alguma morfina ou de um cigarro, porque era daquilo que os ricos precisavam. Ninguém nunca entrava oferecendo um maldito copo d’água.

- U-Uru-...

- Eu não quero nada. Não preciso de remédio. Não quero ver médico nenhum - disse, sucinto. A sua voz outrora graciosa estava mais grave e mais desafinada. Os seus lábios colavam um pouco à gengiva, porque estava desidratado. Mas não queria nada daquela dupla. - Tem um homem aí fora, de roupas sociais. Por favor, tragam-no. Shiroyama Yuu.

Com expressões confusas, elas se entreolharam, como se não tivessem compreendido.

- Ah... Uruha-sama... Desculpe, mas... Não tem nenhum homem de roupas sociais. Pelo menos... Não agora - respondeu uma delas.

Uma fisgada no peito. Uma pontada de insegurança.

O cenho de Uruha se franziu em direção a elas, como se agora quem não compreendesse fosse ele.

- Tem um baixinho de capuz e um moreno muito quieto - explicou a outra. - Você quer alguma outr-...?

- O moreno.

 

A sala de espera daquele andar mais parecia ser uma sala de estar. Encolhido em uma poltrona, três copos descartáveis com restos de café de máquina à sua frente, Takanori fungava.

Costumava ser preocupado com o que os outros pensavam de si, mas agora não parecia preocupado com nada que não fosse o loiro do qual não tinha notícias há horas. Abraçado às próprias pernas, que estavam dobradas e repousadas também naquela poltrona, ele oscilava o corpo para frente e para trás, o crec-crec da madeira do móvel repercutindo pelo ambiente enquanto seus olhos castanhos permaneciam perdidos na mesa de centro.

Yuu, outrora um homem elegante em um terno sempre escuro, agora parecia um indigente. Com as costas apoiadas à parede branca, de pé, ele batia freneticamente um dos pés sobre o assoalho também branco. Pernas elétricas. Se antes não se reconhecia sem terno, ele agora estava vestido com uma calça de moletom preta e uma camiseta meia-manga que não combinava em nada com os quinze graus da meia-estação que assolavam a cidade naquela manhã.

Ele e Takanori não se encaravam. Havia uma suspeita mútua. Algo estranho e que não era falado. A julgar pela expressão do rosto, o baixinho estava em outra dimensão. Mas os olhos negros não estavam perdidos sobre a mesa de centro como os castanhos, não; ao invés disso, estava caído no corredor, onde enfermeiras iam e vinham a toda hora, mas nenhuma, nenhuma portando uma única informação que importasse.

Yuu gostaria de se lembrar da ordem dos acontecimentos da noite anterior, mas eles agora eram fragmentos. O trauma de arrombar a porta do quarto de Kouyou, encontrá-lo desacordado sobre aquelas pílulas no chão, enfiar dois dedos na goela na tentativa absolutamente inútil de salvá-lo, o número da ambulância, o grito ao telefone, aquele monte de repórteres e paparazzis estúpidos que só Deus poderia dizer como haviam tido aquelas informações...

O terror de perder Kouyou ia além de todo o terror que já tinha vivenciado ao longo da sua desafortunada existência. Há quantos anos não se via tendo algo a perder? Há quantos anos não se dava conta de que havia alguém de valor na sua vida?

- Shiroyama Yuu! - exclamou uma voz feminina ao fim do corredor, despertando-o dos seus devaneios. - Ninguém com esse nome? - questionou, como se já o estivesse chamando há vários minutos. - Ninguém? Bem, nesse caso...

Usando toda a força que havia no seu âmago, impulsionou-se na parede, voltando a ficar ereto. Takanori o olhou com desconfiança, apenas pelo canto dos olhos. Yuu ergueu a mão pálida no ar, dessa vez sem luva alguma. Os dedos carcomidos pela ansiedade podiam ser vistos ao olhar de qualquer um.

O olhar da enfermeira repousou sobre si, antes que ela dissesse:

- Oh, bem. Você está sendo requisitado.

Uma descarga de adrenalina. O seu coração voltou a funcionar, como por milagre.

Takanori descruzou as pernas e colocou-se de pé no chão, o olhar agora apavorado sobre o moreno, que assentia com a cabeça. Finalmente, Yuu abaixou as íris escuras e acompanhou aquela mulher, que o foi levando até o último quarto daquele mesmo corredor largo.

Também por aquela mulher, a porta foi aberta para si. Yuu entrou.

 

Era verdade, não estava de roupas sociais. A calça de moletom e a camiseta meia-manga falavam por si só: ele o havia socorrido de madrugada. Tinha sido ele. Só podia ser.

Afinal, Yuu tinha recebido a mensagem com os kanjis do seu nome. Provavelmente, percebeu que algo estava errado enquanto ainda descansava em casa, motivo pelo qual agora se apresentava em trajes tão simples. Os cabelos estavam agora soltos, e eram tão... Longos.

Sempre haviam sido escuros, mas agora pareciam tão longos, como dois filetes de uma cachoeira negra que escorria por ambos os ombros, displicentemente. A face que costumava ser tão inexpressiva agora carregava, sim, uma emoção: mágoa.

Os olhos negros sempre neutros estavam carregados por um peso sem igual, eles próprios não podendo se sustentar. As íris negras corriam pelas de Kouyou, como se ali buscassem uma explicação. Um motivo. Uma justificativa, por pior que fosse. Mas não encontravam... Nada.

Se o seu próprio olhar estava mudado, o de Kouyou também estava. Já não estava inalcançável, arrogante ou irônico como o de Uruha. Também não estava surpreso, ou autodestrutivo ou encantado como o de Kouyou. Estava apenas... Calado. Amargurado. Quase como...

... Quase como o seu próprio.

- Você me salvou?

Um pouco hesitante, Yuu assentiu com a cabeça baixa.

- Eu não queria ser salvo.

As palavras pareceram doer no homem que continuava parado à porta. Era difícil identificar emoções naquele rosto de pedra, mas Kouyou havia aprendido. E se antes os cabelos negros já eram suficientes para lhe causar uma dor de fisgada dentro do peito, agora também as microrreações da face, que indicavam uma mágoa verdadeira, aumentavam aquelas pontadas.

- Eu não podia deixar você morrer.

- E por quê?

Naturalmente, não houve e nem haveria resposta.

- Eu não dei ordem pra que você me salvasse.

- Eu não vivo pra seguir as suas ordens - gemeu, ressentido.

Então, houve uma mudança. Um riso incrédulo escapou aos lábios de Kouyou, mas não era um riso falso ou debochado como os de Uruha. Era um riso de surpresa e de glória, de alguém que finalmente tinha conseguido o que desejava.

- Finalmente você está sendo sincero - explicou, frente ao rosto ressentido de Yuu. - Já que me salvou, você pode ao menos me trazer um copo d’ água? Ou esse tipo de ordem você também não cumpre mais?

Com os olhos muito distantes, Yuu sugou os próprios lábios, em um ato de quem se arrependia do que havia sido dito. Como sempre fazia ao acatar pedidos, fez um breve aceno de cabeça e fechou os olhos, então se dirigindo a uma garrafa de água que estava na pequena geladeira do quarto.

Kouyou esticou uma das mãos e pegou um amontoado de copinhos de plástico que estavam na mesa de cabeceira, bem ao lado da maca. No tempo que havia ficado sozinho no quarto, puxou discretamente os pontos de soro que tinha nas mãos, porque não precisava daquele lixo. Ajeitou-se sobre a cama e sentou-se na beirada, um dos copos de plástico já destacados e estendidos, à espera do líquido mágico que sanaria a sua sede. Exceto, é claro, pelos fato de que não a sanaria.

Kouyou estava com sede, mas havia algo mais urgente. Tão logo a garrafa foi aberta à sua frente e Yuu se aproximou o suficiente para que sentisse aquele cheiro amadeirado, Kouyou deixou que suas mãos vacilassem, o copinho caindo no chão. Fingindo uma falsa surpresa, gemeu:

- Oh, desculpe, Yuu. Não foi de propósito. Deixa que eu pego.

- Não, você...

Algo estava errado. Muito, muito errado. Yuu deveria ter percebido, mas estava tão magoado pela tentativa calada de suicídio, tão ressentido pelo tratamento sarcástico, tão hipnotizado por aquele rosto bonito sem maquiagem, que deixou passar despercebido. Antes que se desse conta, Kouyou estava ajoelhado no chão, bem à sua frente.

O constrangimento o acometeu. Mas que porra era aquela? O patrão estava no chão, e ele estava de pé. Que raio estava acontecendo ali?

Fez menção de também se ajoelhar, mas era tarde. As mãos esbeltas se fincaram em torno de seu tornozelo. Ou melhor, em torno de sua tornozeleira eletrônica. Ela ainda estava coberta pela calça de moletom, mas eram impossível que o tato não fosse estranho às mãos de Kouyou.

Ele tinha percebido.

Ele ia perceber.

Ele ia...

 

Não. Ele já sabia. Fizera aquilo já sabendo. Era... Premeditado.

Sentiu seu rosto ficando frio. Pálido. Fez menção de puxar para si a própria perna, mas tamanha era a força que Kouyou empregava para segurar o maldito tornozelo, que não parecia ser a de um homem enfermo.

Em um ato de pânico e totalmente irracional, Yuu usou ambas as mãos para abaixar mais a barra da própria calça, no máximo retardando o inevitável. Poderia ter chutado Kouyou, mas a ideia nem sequer lhe passou pela cabeça, nem talvez tivesse adiantado. Era tarde.

Em uma fração de segundos, ali estava: a barra de calça arregaçada pelas mãos esbeltas, os olhos castanhos dele sobre o objeto que o castigava e que o lembrava diariamente de quem era. De quem sempre havia sido.

Nenhuma das faces era mais uma massa amorfa e sem emoções. Na de Yuu, havia o terror. Finalmente, finalmente uma reação. Olhos negros arregalados em direção ao loiro do chão, sem poder ver o rosto que encarava a sua maldição.

- K-Kouyou - sussurrou em tom quase inaudível, meneando a cabeça negativamente. Trêmulo, trêmulo como uma folha que era despedaçada ao vento. - Não é... Não é o que parece... Eu não...

Novamente, foi calado por Kouyou, que não o respondeu. Não falou nada, não gritou consigo, não lançou um olhar incrédulo para cima. Ao invés disso, abraçou aquelas pernas.

Abraçou, abraçou a ponto de desestabilizar o moreno, que tentou apoiar as próprias mãos sobre as roupas de cama, em absoluto choque. Todos os seus músculos se enrijeceram ao toque daquele homem. Agora, com as pernas abraçadas naquela cena bizarra, não sabia se as suas atenções  se voltavam ao próprio coração desenfreado, aos pêlos do corpo que se arrepiavam em terror ou à rigidez que ia sendo distribuída por todos os seus músculos, porque estava ficando tenso, tenso, e a tensão não era só de desespero.

Aquele homem no chão, abraçando as suas pernas. A respiração quente e desenfrada que batia sobre a sua pele, mesmo que entre elas houvesse uma maldita, maldita tornozeleira.

- Pelo amor de Deus.

De repente, haviam soluços. Soluços daquele homem que agarrava as suas pernas em um ato desesperado. Meneando a própria cabeça negativamente, os cabelos loiros e sedosos acidentalmente se esfregando no moletom escuro que encobria o resto dos seus músculos, Kouyou soluçava.

- Como... - sussurrou ele, tremendo sobre o seu corpo. - Como você pôde fazer isso comigo, Yuu?

As lágrimas ocupavam aquela face perfeita e molhavam o tecido da sua calça, algumas gotas acidentalmente umedecendo-lhe a pele. E conforme sentia o tremelicar sobre si, também o moreno tremia, o olhar apavorado tentando focalizar algo que fizesse sentido naquela cena.

Ele sabia.

Kouyou sabia.

Era por isso que tinha tentado o suicídio.

Mas como podia saber? Como? Como?

- Qualquer pessoa, Yuu... Qualquer pessoa, mas você...

- Não... Eu não...

- Você me viu no banheiro... - gemia, ainda meneando a cabeça negativamente, terminando de fincar no seu coração a lâmina invisível que ia dilacerando-o aos poucos.

O que tinha feito? O que tinha feito, meu Deus?

- ... Você me viu no chão! - murmurava agora, apertando mais aquelas pernas contra si. - ... Você me viu enfiando os dedos dentro da minha garganta! - e então se calou, somente os soluços escapando por entre os lábios durante algum tempo. - Eu achava... Por um momento, eu cheguei a achar...

- Kouyou...

O loiro mordiscou os próprios lábios e fechou os olhos. O seu próprio maxilar tremia tanto, que os seus dentes chegavam a machucar a pele fina daqueles lábios.

Sem soltar aquelas pernas, lançou um olhar para cima, os olhos castanhos e úmidos, avermelhados, inchados, finalmente encontrando os negros, que expressavam apenas o terror.

A vida não era somente um mar de desgraças, pelo menos não nos últimos três meses. Havia algo, algo de bom no mundo. Algo por que valia a pena viver, mas agora... A única coisa boa que havia estava desmoronando bem ali, à sua frente. Desmoronando bem ali, agarrada às suas pernas, olhos incompreendidos, silenciosos, direcionados a si como dois faróis que levavam luz onde não deveria existir luz alguma. Nas trevas, enxergava-se menos, e era por isso que as trevas eram tão melhores.

- Eu mostrei a você, Yuu - sussurrou, enquanto prosseguia na busca dentro daquelas íris. - Só pra você, eu mostrei quem eu era. E você... Você me enganou. Você não trabalhou para mim porque queria. Você... Você escondeu de mim por que estava lá. Você... - e pausou, a respiração irregular obrigando-o. - Você me viu frente a frente com o meu pai, e mesmo assim... Mesmo agora, você não fala nada. Você continua me vendo aqui, e mesmo agora...

Precisava dizer algo não precisava? Mas o quê? O quê?

Os olhos negros, antes indiferentes, continham agora traços, resquícios do que viriam a ser lágrimas. Mas não eram, porque Yuu não chegava a derramá-las. Havia desaprendido.

Tentava recolher os fragmentos de si para dar àquele homem uma resposta, mas não havia tempo. Não havia tempo.

Escutou a sua própria voz embargada de emoções irrompendo no ar, e o que ela pronunciou foi:

- Eu... - e as íris corriam pelo chão, tentando encontrar palavras. Frases. - Eu não tive escolha, mas Kouyou...

- Você mentiu pra mim.

- Não. Tudo o que eu fiz nos últimos meses... Era verdade. O que eu fiz…

- Mentira - rosnou, por entre dentes, as lágrimas ainda deixando aqueles olhos de forma displicente, como se já nem pertencessem àquele rosto. - Tudo o que você queria... Era a sua liberdade. Servir ao meu pai... E aquela caixa estúpida... O que tem, Yuu? O que tem naquela caixa?

Encararam-se por alguns segundos, agora em silêncio.

- Se eu te contasse, você ouviria? - sussurrou em amargura, como se aquela possibilidade fosse inexistente. - Se eu te dissesse mesmo a verdade, e ela não fosse só isso que você pensa... Você acreditaria?

O loiro sobre o chão desviou o olhar para um canto qualquer, ressentido. Muito sutilmente, ainda meneava a cabeça. Talvez fosse tarde demais para ouvir qualquer coisa que fosse, mas ainda assim...

- Desde a primeira vez que te vi - murmurou ele, lá de cima.

O olhar castanho voltou-se em sua direção mais uma vez, considerando o que era dito. Quando o maldito, maldito Yuu murmurava daquela forma... Parecia ser verdade, não parecia? E mesmo agora, pela forma como proferia aquelas palavras...

Ele repetiu, em uma nova tentativa.

- Desde a primeira vez que te vi... - e pausou novamente, derrotado. Um sorriso fraco e triste se formou naqueles lábios, e Kouyou se surpreendeu. Era mesmo raro ver aquele sorriso, mesmo que fosse amargurado. Não era? - Você não entenderia, Kouyou. Eu... Sou... Uma sequência...

A voz de Kai ecoou dentro da sua cabeça, risonha. E risonha, ela dizia:

- Yuu, pobrezinho! Uma pobre, pobre sequência de eventos de desgraça! Seu fodido! E não dá até vontade de adotar?

E aquele rosto, pelo menos quinze anos rejuvenescido, se aproximava do seu.

- Era isso que eu devia fazer, Yuu? Adotar você?

- Yuu? - sussurrou a voz de Kouyou, lá do chão.

De repente, se deu conta. Seus olhos estavam agora perdidos no chão, distantes dos de Kouyou. Juntou-os de novo, ainda com receio.

- Por favor, Kouyou... Uma chance. Uma chance de te fazer entender a verdade.

O loiro piscou os olhos lentamente, observando o rosto grave que agora tinha à frente. Yuu também tinha os seus fantasmas, não tinha? Talvez, fantasmas tão horríveis ou até piores do que os seus.

Mesmo com aquela expressão desolada, ou talvez justamente por ela, Yuu ficava bonito. Tão bonito, visto de qualquer ângulo. Mesmo agora, sem roupas sociais. Mesmo agora, preso por uma tornozeleira eletrônica que estava bem à altura dos olhos castanhos.

Aquela face, quando mostrava resquícios dos sentimentos que tentava abafar, ficava ainda mais bonita do que quando os abafava. Era a segunda vez que Kouyou o via debaixo para cima, e era a segunda vez que, vendo-o de um ângulo diferente, acabava vendo mais do que pretendia. E mesmo assim, sempre queria ver mais.

Com aqueles pensamentos desconexos, aquelas emoções à flor da pele, balbuciou em mais um sussurro.

- Você... Você até... Que não fica mal assim, Yuu...

Dois pares de olhos se casaram, e casados permaneceram.

As mãos pálidas, carcomidas pelos dentes que já haviam puxado todas as cutículas em ansiedade, se estenderam em direção ao loiro, mas não foram pegas de primeira.

Kouyou lançou mais um olhar demorado à tornozeleira, e sobre ela passou o dedo indicador, tateando. Aquele objeto que quase tinha sido a causa da sua morte era também o objeto que tinha trazido Yuu a si, não era?

Cansado, encarou a mão estendida. Segurou-a com força e sentiu-se sendo puxado para cima, até que, de pé, recuperasse a vantagem dos poucos centímetros de altura que tinha a mais do que o moreno. Mesmo ambos de pé, mãos mantiveram-se unidas por algum tempo, olhos ainda fixos entre si, ainda que hesitantes e calados.

Tão poucos centímetros os afastavam, que chegava a ser constrangedor. Olhos nos olhos, respirações quentes que se interceptavam pelo caminho, mas Yuu não demonstrava mais ser a fortaleza sobre a qual se escondera nos últimos meses. A proximidade dava-lhe pânico. Aquela proximidade com aquele homem, os olhos profundos nos seus… Queria desviá-los, mas como? Parecia estar hipnotizado.

Olhos castanhos e oblíquos, mesmo sem maquiagem alguma. Não era preciso delineador para os olhos de Kouyou fossem felinos. Mãos nas mãos e olhos nos olhos, o tempo congelado, um ressentimento mútuo, mas um entendimento recíproco também. Kouyou já não sabia se aquilo era um outro homem, ou se então era um espelho, mesmo que a diferença física e comportamental fossem gritantes. Haviam alguns, alguns elementos que se repetiam.

A risada de Kai ainda ecoava em algum lugar dentro da mente do moreno, e se ela agora era mais baixa, era também mais assustadora. Em um mesmo dia, Kouyou jogava-se aos seus pés, abraçava as suas pernas; em um mesmo dia, aquela proximidade, respirações quentes que se tocavam.

Os dedos das mãos de acetona enfim soltaram suas mãos, mas não o liberaram. Ao invés disso, se posicionaram sobre o rosto torcido naquela expressão onde se lia a amargura ou o desespero. Talvez não houvesse diferença. Talvez nunca tivesse havido diferença, afinal.

- Yuu…

Os dedos de acetona agora corriam por aquele rosto pálido. Se a pressão de Yuu antes estava baixa, agora estava alta. Alta. Insuportavelmente alta. O medo das lembranças, o medo do que estava por vir, dedos imaginários que iam se fechando em torno da sua garganta, diminuindo a passagem de ar.

O rosto de Kouyou se aproximava, mas Yuu estava sufocando. Sufocando. E hipnotizado, não conseguia sair dali. Não conseguia começar ou encerrar nada. Os seus batimentos tornaram-se mais altos do que a televisão do quarto ao lado, e chão sob os seus pés estremeceu. Lábios macios colaram-se aos grossos, e o seu coração enfim parou.

Também o tempo parou, ou congelou. A morte podia não ser uma praia deserta, mas talvez fosse um beijo seco e frio, como aquele. Um beijo onde nenhuma língua pedia passagem. Um beijo em que não se podia dizer quanto tempo havia passado. Sem língua, sem toques, sem selos rápidos em sequência, nada. Apenas mãos de acetona sobre um rosto semi-morto e lábios imóveis em um toque terrível. Maravilhoso, mas também terrível.

O seu pau, ao invés de aumentar, pareceu diminuir, tamanho o terror por não conseguir bancar aquilo. Não podia, não conseguia sustentar aquilo. Não tinha condições de avançar sobre Kouyou. Aquele homem, aquele homem estava fora do seu alcance. Mas tão rápido o beijo se iniciou, também ele terminou.

O loiro se afastou, recuando alguns passos, caindo novamente sentado sobre a cama. Sentado, deu-lhe as costas.

- Uma chance - sussurraram os lábios macios, agora novamente distantes. - Saia, Yuu. Me traga Takanori.

 

O móvel da sala de espera ainda fazia crec-crec-crec, porque se antes Takanori já se balançava em ansiedade, ele agora o fazia mais depressa, porque Yuu estava dentro do quarto de Kouyou. As fungadas de choro tinham voltado à sua respiração irregular e a expressão do rosto era nenhuma outra, além da mais profunda tristeza.

Kouyou tinha tentado o suicídio depois de assistir ao vídeo que Takanori havia levado. A culpa era do vídeo, talvez de Yuu, mas antes de mais nada, a culpa era sua. Sua. Era um incompetente.

O que tinha acontecido à sua vida nos últimos tempos?

Como se não bastasse o encontro pavoroso com Reita no dia anterior, como se não bastasse ter recebido naquela mesma manhã uma mensagem informando que o próximo encontro seria naquela mesma noite e que Takanori não poderia falar sobre ele com ninguém - ninguém mesmo - agora Uruha tentara se matar.

Mais nada fazia sentido. Mais nada se encaixava.

A única possibilidade de ter um próximo encontro com Reita era seguindo às suas ordens e indo ao endereço recebido para aquela noite. Mas como poderia sair? Como poderia pensar em ver aquele homem, sendo que Kouyou precisava da sua ajuda?

Não merecia aquele curso. Não merecia sequer estar na presença de Uruha ou de Reita. Não merecia… Nada.

A culpa era sua. Era sua.

- Takanori - resmungou a voz abalada ao seu lado.

Ergueu os olhos grandes e puxados em direção a ele. Yuu parecia ter visto uma assombração. Takanori piscou, preocupado, e até pensou em perguntar o que tinha acontecido, mas a sua própria aparência também estava horripilante, não estava? Eram tempos difíceis.

- Ele quer você.

Yuu geralmente faria ligações, sairia correndo para um lado ou para o outro, gritaria com os enfermeiros incompententes, desceria no térreo para afastar os repórteres que se acumulavam como pombas no centro da cidade, mas… Não naquela manhã. Naquela manhã, cambaleante, depois de finalmente proferir aquela frase seca, Yuu jogou-se em um dos sofás da sala de espera. E ali ficou.

- Minha… Nossa - gemeu o baixinho.

Enfiou-se mais para dentro ainda do capuz e se levantou da poltrona. Com passos curtos e rápidos, enfiou-se pelo corredor, chegando finalmente ao quarto de Uruha.

Sem muita cerimônia, tirou o capuz. Não queria ser visto pelos enfermeiros, mas não era de bom tom se apresentar ao patrão daquela forma. Portanto, um pouco trêmulo, tornou a revelar o rosto entristecido. Finalmente, entrou.

Kouyou estava sentado sobre a cama. Bastava olhar aquele rosto pálido, sem maquiagem alguma, para que Takanori voltasse a fungar como uma criança. Antes, tão magnífico. Agora, tão desestruturado, e a culpa era sua. Era sua! Devia ter se negado a atender aquele pedido, devia ter se negado e…

- Taka.

Trêmulo, ergueu seu rosto em direção a ele, mas os olhos ainda estavam baixos. Dentro ainda do seu campo de visão, Kouyou se levantou da cama e veio vindo em sua direção, enquanto Takanori se encolhia a um canto, porque não conseguiria olhar naqueles olhos. Não conseguiria vê-lo tão triste por sua culpa.

- Kou no danna - sussurrou, quase inaudível. - Kou no danna, eu… Eu…

Não conseguiu proferir mais nada. Aquele homem alto puxou-o para um abraço calado.

Era a segunda vez que Kouyou agia daquela forma consigo. Chegando tão próximo, abraçando-o, confundindo o seu pobre e atrapalhado cérebro, porque não devia acontecer aquele tipo de coisa. Não devia! E mesmo assim, sentindo-se ser pressionado por aqueles braços e quase podendo jurar que algumas lágrimas silenciosas escapavam dos olhos oblíquos e molhavam seu capuz, também os olhos de Takanori voltavam a se umedecer.

- Obrigado - disse a voz grave, embargada pelo choro recente.

- Mas… O que aconteceu… A culpa…

- Não - respondeu Kouyou finalmente, afastando-se apenas para encarar os olhos tristes de frente. Mesmo perdidos na melancolia, os de Kouyou estavam seguros, e passavam a si aquela segurança. Estava oscilando, não estava? Estava em crises agudas alternadas com uma estranha calmaria. Só podia ser isso. Só podia ser isso… - Taka, você me ajudou. Você foi sincero comigo desde o começo, e me fez ver a verdade.

Sincero. Ao ouvir aquelas palavras, o baixinho assentiu com a cabeça, ainda tenso. Era verdade, era sincero com Kouyou, mas… O que aquilo queria dizer?

Sentiu os dedos do mais alto colocando carinhosamente algumas mechas do seu cabelo atrás da orelha. Kouyou sempre, sempre o encarava com carinho, mesmo que só fizesse burradas.

- Você me fez ver a verdade, e a verdade é sempre melhor. Agora, é a minha vez, Taka. Vou dar aquilo que prometi a você.

- N-Não, eu… Kou no dana - gemeu, fazendo agora um sinal negativo. - Eu… Eu não posso sair e fazer curso algum agora, você precisa de ajuda. Você precisa… Que eu esteja lá. Tudo o que faço dá errado, mas mesmo assim…

Sentiu um dedo frio cobrindo-lhe gentilmente os lábios, interrompendo a sua fala.

- Eu preciso de um tempo… A sós. A sós com Yuu, Taka. Eu preciso conversar com ele com calma. Eu estou bem. E depois do que você fez por mim, se Yuu ainda não tiver acertado o curso…

- Ele… Ele acertou. Quero dizer… Eles me ligaram, mas… Yuu não sabe. Isso é meio… Você sabe, m-meio… Secreto.

Kouyou arqueou as sobrancelhas loiras em sua direção, pensativo. Aquilo não era tão estranho, era?

Muitos famosos mantinham em segredo os cursos que davam, especialmente os particulares. Afinal, se viesse à mídia, todos os outros fãs e estudantes se sentiriam injustiçados. Os contatos eram tudo naquela vida, mas mesmo assim, a informação não era explícita.

- Então, você já foi?

Trêmulo, assentiu com a cabeça. Takanori sussurrou:

- Você… Promete não contar a ninguém?

Pela primeira vez naquela manhã, um sorriso verdadeiro se formou nos lábios bem desenhados. A sua vida material e emocional estavam um caos, mas Takanori tendo o que desejava no seu coração, aquilo já era alguma coisa. Uma melhora, mesmo que pequena.

- Mas eu não posso mais ir. Nós vamos começar o curso, mas com você assim…

- Você vai, Taka. Você vai, e eu juro, é o nosso segredo - agora, as mãos pálidas se posicionavam sobre os ombros do baixinho, enquanto o loiro prosseguia. - Quero que você foque as suas energias nisso, entendeu bem? O trabalho fica em segundo plano. O curso, em primeiro.

Mais uma vez, Takanori o olhou com incredulidade. Ele podia estar falando sério? Podia estar tratando a sua burrada de trazer o vídeo à tona como algo bom? Algo passível de… Um elogio?

- É uma ordem.

Um sorriso fraco se formou nos lábios de Takanori também. Lentamente, assentiu com a cabeça.

Kouyou sabia muito bem que não seria capaz de deixá-lo por um motivo egoísta. Takanori não era a alma mais pura do mundo. Tinha ambições, desejava o status, o reconhecimento, a glória. É claro que desejava, porque assim eram os humanos; às vezes, quando seu lado mais sombrio aparecia, parecia até mesmo haver uma ganância, mas... A existência de algumas, algumas pessoas o lembravam do seu lado bom. E o seu lado bom queria ser útil e verdadeiro para Kouyou, apenas para satisfazê-lo.

- Obrigado – gemeu, emotivo. – Obrigado, Kou no danna.


Notas Finais


A coisa não tá boa pra ninguém. Obrigada a quem leu.
Deixem uns comentários pra fazer uma pobre autorinha feliz <3


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