História Sakura e Tomoyo: Finalmente Juntas - Capítulo 84


Escrita por: ~

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Categorias Sakura Card Captors
Personagens Sakura Kinomoto, Shaoran Li, Tomoyo Daidouji
Tags Autoridade, Comunidade, Espanha, Futebol!, Magia, Meiling, Orange, Organizações, Sakura, Tomoyo, Yuri
Visualizações 12
Palavras 4.362
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Bishoujo, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, FemmeSlash, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Musical (Songfic), Orange, Romance e Novela, Saga, Seinen, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Terror e Horror, Violência, Yuri
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Sakura passa mais um dia na Catalunha antes de voltar para Madrid e passa um pouco de raiva com Gotzone… Nos Pirineus, a Ordem do Dragão avança e Sakura descobre uma faceta de Eulália que jamais pensou em conhecer…

Capítulo 84 - Apenas um tempo a mais com você (Extra I)


Fanfic / Fanfiction Sakura e Tomoyo: Finalmente Juntas - Capítulo 84 - Apenas um tempo a mais com você (Extra I)

Era um dia quente de verão em solo catalão.

No pequeno estádio de futebol do Barça com capacidade para doze mil torcedores chamado miniestadi, geralmente destinado as atividades do time B ou do time feminino, localizado ao lado do colossal Camp Nou, as arquibancadas estavam lotadas, doze mil pessoas assistindo uma partida de futebol feminino. Uma conquista.

Nas arquibancadas, estavam Sakura, Tomoyo, Chitatsu, Kero e Plácida, a agente de modelos para Tomoyo e uma das grandes aliadas da estilista em solo espanhol. Todos eles estavam ali para ver Eulália jogar, a filha adotiva de Plácida que ela encontrara no Brasil quando era modelo e trouxera para a Espanha. Eulália jogava no time feminino do Barça desde que fora promovida pro time principal no começo daquele ano e tinha 19 anos.

Não era ainda a temporada regular, era apenas um jogo amistoso, mas não era bem um simples jogo amistoso. Era “o jogo amistoso”, de pré temporada contra já poderoso Real Madrid Feminino que começaria a jogar o campeonato espanhol a partir de setembro.

O Real Madrid contratara inúmeras jogadoras alemãs experientes para fazer parte do elenco galático que montara, jogadoras experientes, ganhadoras de ligas dos campeões femininas jogando por times como o Lyon e o Paris Saint-German que há muito tempo tinham seleções femininas de sucesso. Haviam três jogadoras japonesas no elenco e duas americanas também. Além disso, o Madrid contratara as melhores jogadoras da própria Espanha para não perder a identidade espanhola do clube e, particularmente, uma delas, trazia péssimas lembranças para Sakura.

Seu nome era Gotzone Bengoetxea.

Nascida em Donostia, país Basco, jogara na Real Sociedad antes de se transferir para o Madrid no começo do verão. Jovem, 20 anos, pele branquíssima, cabelos loiros lisos, quase brancos e belos olhos azuis-claros; chamava a atenção pela imensa beleza em campo. Tinha coxas rígidas e marcadas de atleta dedicada e seios fartos. Sakura pensava que as centenas de homens que também enchiam as arquibancadas e uivavam seu nome estavam mais interessados em sua beleza do que em sua habilidade com a bola.

O problema era que Gotzone era boa em tudo: usando bem os bustos fartos e a bola nos pés, mas nem tudo era um mar de rosas para ela:

– A bola agora tá com a Gotzone. Ela corre, se livra da marcadora, vem duas jogadoras do Barça botar pressão pra cima dela… Nossa, olha o que ela fez! Passou a bola por entre as duas, domina a bola com a coxa, dominou, bateu… e é Gooooooooooooooooooooooooooooooooooooool DO MADRID! Quatro para o Madrid, dois para o Barça. Agora já são quatro gols pro Madrid, dois na conta dela!

– É isso mesmo, cara, fora as duas assistências que ela deu pros gols! Já são dez gols na pré temporada, tá todo mundo dizendo que Goti é imbatível! Estamos feitos para o mundial feminino…

– Agora falando de imbatíveis… A bola agora tá com a Eulália, ela não é chamada de “Lionel de saias” à toa, olha o que ela vai fazer, ela pegou a bola no meio de campo… vixi! Pedalou pra cima de uma, de duas, de três, arrastou a quarta, deixou a quinta comendo grama no chão, tem quatro atrás dela, passou a bola por baixo dos pés da sexta, é ela e a goleira agora, vai arriscar… nossa! Limpou a goleira, bateu com gol vazio, é gooooooooooool do Barcelona! Quatro para o Barça, cinco para o Madrid!

– Será que dá pra empatar, cara?

– Não sei, cara, Gotzone e Eulália em campo são imprevisíveis, mas de uma coisa eu tenho certeza: temos as melhores jogadoras de futebol do mundo na nossa seleção!

Pode-se dizer que Eulália era a maior rival que Gotzone poderia ter encontrado durante os cinco anos que jogava futebol profissionalmente. Não era uma rival em beleza, mas Eulália não deixava de ser algo a ser levado em conta. Pele negra, cabelos encaracolados, ondulados, musculosa na medida certa e bustos de tamanho mediano. Ela era baixinha, usava a camisa dez e era um veneno com a bola nos pés. Gostava de driblar em média três adversárias antes de fazer o gol e era uma exímia cobradora de faltas. Cobrava-as como se fosse pênaltis e era uma tristeza na penalidade máxima: só acertava cinquenta por cento dos pênaltis que cobrava; por isso era chamada de “Lionel de saias”, apesar de não usar saias em campo, mas sempre era vista com uma saia fora deles, graças à Tomoyo que adorava vestidos e saias. Por outro lado, Gotzone era forte, veloz, feroz. Adorava fazer trocentos gols e de ser assistida pelas companheiras quase sempre, apesar de ser uma meio de campo, quase uma ala, com a camisa sete que usava. Era a que mais fazia gols pelo Madrid. Também a chamavam de “Ronaldo de vestido” para aumentar a tensão entre elas. Em inúmeras partidas, uma driblava a outra e ficavam se gabando desse fato depois que o drible resultava em gol para qualquer um dos lados. Os expectadores guardam cenas épicas desses duelos: Gotzone com a cara cheia de grama após um drible da rival, depois de ter caído e tombado tentando acompanhá-la, reclamando muito com as companheiras de time pelo drible e Eulália com a cara boquiaberta depois de tomar um elástico e uma bola debaixo das pernas, tudo ao mesmo tempo, num lance que resultou em gol para Gotzone ano passado. Eulália era a última defensora e, na foto do gol, estava de costas para a meta, sem acreditar que tinha sido driblada.

Nessa partida, nenhuma das duas tinha conseguido driblar uma da outra.

A juíza deu o apito final e as duas rivais se encararam no meio de campo com ambos os elencos atrás delas. Quando Sakura, Chitatsu e Kero pensaram que ia dar em briga aquilo, se assustaram quando viram as duas se cumprimentando e tendo uma longa conversa no gramado depois do jogo, agarradas, enquanto suas colegas se dirigiam aos vestiários. Tomoyo sorriu.

Todo mundo sabia que Gotzone e Eulália, pasmem, eram grandes amigas e tinham inúmeras fotos de infâncias juntas, durante o tempo que viveram em Madrid e nas férias de uma e de outra, seja em Donostia, seja em Barcelona.

Tomoyo levou Sakura para o gramado para cumprimentar as jogadoras e Chitatsu saiu do colo da mãe como um foguete:

– Goti! – O garoto saltou com tudo nos braços suados de Gotzone.

– Meu pequeno Sholonguinho! – Gotzone apertou o rapaz com tudo contra seus abençoados seios e encheu o rosto dele de beijos, para desgosto de Sakura, que não ia com a cara da Loira desde que se encontraram pela primeira vez na Ciudad Real Madrid.

– A gente não ganhou, Laly, mas você foi fantástica em campo. – Tomoyo cumprimentou educadamente Eulália, com beijos nos dois lados do rosto.

– Eu fiz o que eu pude… – Eulália coçou a cabeça e olhou para a amiga Gotzone.

– Mas eu fui melhor e sou a melhor sempre! Ainda vou trazer medalhas e troféus pra Espanha, esperem pra ver… – Gotzone apoiava Chitatsu em seu colo como se fosse a mãe dele e garoto respondia abraçando o pescoço dela. Ele gostava desse tom impulsivo de Gotzone.

– Nós duas vamos trazer, não é Goti? – Eulália deu um leve beliscão na camisa merengue de Gotzone.

– Sim… mas antes vou mostrar pra sem peitos aqui e pra peituda repolho roxo que o Madrid é o melhor sempre, melhor que o Barça dessa aí – Gotzone fez biquinho, apontando para Tomoyo.

Tomoyo fez cara de surpresa com o “elogio” e pôs a mão no rosto. Sakura já fechava a cara e apertava os punhos.

– Quem é a sem peito aqui, hein? – Perguntou Sakura.

– Você, senhora Sakura sem peito! – Gotzone tocou no seio de Sakura e empurrou ela com o dedo da mão livre várias vezes só pra incendiar o barril de pólvora. Sakura agitou freneticamente os braços no ar e Eulália fazia uma cara assutada, dessas que se faz quando fazemos uma traquinagem. Tomoyo tratava de sossegar o leão:

– Eu vou mostrar pra vocês quem é a “sem peito” aqui! Devolve meu filho! Sai daí, Chi!

Gotzone gargalhava e Chitatsu lhe fazia coro:

– Mamãe, como a senhora é estressada!

– Você ainda não viu nada, Sholong, nadinha!

Sakura sempre chamava o filho de Sholong quando ele aprontava alguma. Por bem, Gotzone pôs Chitatsu no chão e encarou Sakura cara a cara. Até mesmo Eulália se aproximou da leoa pra ela não esganar Gotzone:

– Sakura Kinomoto, hunf! Não sei como um gato daqueles do Shoran se casa com uma sem peito como você!

Sakura estava coçando pra dar um tapa na cara dela:

– Tudo bem! – Gotzone levantou as mãos para o alto por um tempo antes de baixá-las, como se estivesse se rendendo, fechando os olhos. – Eu não vou querer ter meu belo rosto estapeado por você, eu tenho um comercial pra gravar, fotos pra tirar, um encontro com Dom Ramon Bustos na sede da Autoridade mágica! Muitos compromissos que uma poderosa maga que prefere segurar corações gelados de transplantados não vai entender… não vai entender mesmo…

– O que é que você quer comigo, Gotzone? Fala logo antes de se juntar aquele bando de garotas fedidas naquele vestiário! – Gritou Sakura, apontando bruscamente para as escadarias.

Gotzone arregalou os olhos:

– Ui! Fala como se nunca tivesse fedido a suor, Tomoyo quem o diga do seu fedor quando teve o Sholonguinho, ela teve coragem de te beijar e tudo! – Gotzone agachou-se para apertar as bochechas do garoto. Sakura olhou para Tomoyo estranhando a amiga e a arquiteta só pode olhar para o chão.

– Gotzone, não preciso te lembrar que tem um limite os segredos que os leitores de mente podem acessar da gente, não é mesmo? Eu conheci pessoalmente Dom Ramon… – Gotzone interrompeu de súbito a fala de Tomoyo:

– Sabe gente, eu tentei, eu tentei mesmo ser sua amiga, Sakura, mas se quer ser a minha inimiga, você não sabe o que te aguarda! Não sabe mesmo!

– E eu posso te proibir de ver meu filho, sua cretina!

Chitatsu já suplicava aos pés da mãe pra ela não fazer isso.

– Tudo bem, tudo bem, tudo bem… eu vou pro meu vestiário, com as minhas meninas suadas… enquanto que você… – Olhou para Tomoyo, sussurrando no ouvido dela – Eu gosto de homem e já sou resolvida, mas sempre tive curiosidade de saber como deve ser o gosto de “lá embaixo”, hein? Toda melada, suada e fedorenta, já provou alguma vez? Nem mesmo com a… – Gotzone olhou para Sakura e as duas amigas entenderam a mensagem – …Fedida e suada?

Foi o pingo d’água que fez Tomoyo jogar com tudo a bolsa no chão:

– Eulália, segura a Sakura que eu vou matar essa cretina agora mesmo!

– Tomoyo, deixa um pouco pra mim porque eu cheguei primeiro, quero matar ela primeiro!

E Kero, que não tinha aparecido até agora, coube o papel de segurar Tomoyo enquanto Eulália sofria para conter Sakura.

Gotzone saiu correndo as escadarias do vestiário, saltitando, rindo, gargalhando, soltando beijos e piscadelas no ar para Chitatsu.

 

S&T:FJ

 

Pirineus Orientais, Alta Cerdanya, Fronteira entre Espanha e França.

 

– Você tem certeza que viu um homem com armadura roxa e asas de morcego por aqui? – perguntou uma mulher loira, jovem, olhos azuis claríssimos, usando blazer cor de trigo com fios de cabelos curtos e encaracolados. Ela segurava um báculo de cabo rosa, com uma estrela de cristal de oito pontas apoiadas por um par de asas brancas.

– Vi, vi sim, com certeza que vi sim, Akiho! Voou por aqui agora mesmo! Tava vendo ele quando eu via as estrelas pelos meus binóculos. – Respondia em bom catalão um homem alto, jovem, francês, de cabelos pretos, vestido de jaqueta preta, luvas e touca. – Faz ainda um pouco de frio nos Pirineus nessa época do ano, vocês deviam se agasalhar…

– Você é um mago ou um rato, Michel? Que espécie de mago é você que nem sequer usa seus poderes pra se aquecer? – Perguntou um homem de cabelos castanhos bagunçados, barbudo. Usava uma leve blusa branca de frio e estava impaciente.

– Eu sou daqueles magos que não gosta de me achar melhor que os outros por meus poderes fabulosos e nem gosto de assustar o Serge nem nosso bebezinho Elouan que não sabem de nada disso ainda! Ele é tão bonitinho e deixei a mamadeira no fogão só pra acompanhar vocês…

A mulher e o homem se entreolharam furiosos. Michel entendeu e seguiram em frente.

– O que me dá raiva são Magos que acham mais fácil falar que são umas bichas escandalosas e se negam a aceitar o que são de verdade… – Respondeu o homem castanho.

– Usar magia é pecado!

– E ser o que você é não é pecado não? Eu que nem vou na igreja sei disso…

– Mas usar magia fora da Igreja é coisa do demônio!

– Ah, vá pro inferno, seu fresco! – Esbravejou Enzo.

– Enzo, seu grosso e homofóbico, vou te denunciar! – Gritou Michel mais alto ainda em resposta.

– Dá pra parar os dois? – Gritou Akiho. – Vão estragar tudo, seus dois lesados!

Os três resolveram por bem se calar durante a longa subida nos Pirineus.

O chão debaixo de seus tênis era pedregoso, rochoso, empoeirado. Pouca vegetação crescia naquela parte das montanhas. O que crescia mesmo eram antenas e mais antenas, cheios de fios de transmissão das usinas nucleares. Muitos turistas visitavam aquela região para passar um tempo nos chalés longe de tudo e aproveitar a estação de esqui próxima durante o outono e o inverno.

Enzo e Akiho eram dois magos do serviço de inteligência da Autoridade mágica espanhola, Enzo era casado e tinha um casal de filhos; Akiho era solteira, sem filhos, filha de pai japonês e mãe espanhola, enquanto que Michel era um funcionário da manutenção das vias elétricas da Usina que vivia nos Pirineus com o marido que trabalhava na estação de esqui e com um filho recém-adotado por eles e se negava a aceitar que era um Mago, mas ia a igreja sempre que podia e rezava todo dia seu terço.

Os investigadores foram para os Pirineus analisar os estranhos incidentes que um grupo denominado “Ordem do Dragão” começara a aprontar desde julho daquele ano e foram testemunhados por Michel, que os denunciou. Ordens mágicas clandestinas existiam aos milhares e eram deixadas em paz quando não representavam um risco de quebrar a lei do sigilo mágico, mas a Ordem do Dragão se mostrava uma organização daquelas que deveriam ser podadas logo no começo antes de causar mais problemas.

O grupo chegou em um chalé de madeira meio que abandonado no topo da colina. Um estranho raio verde saiu da chaminé da casa e intrigou ainda mais o casal de investigadores. Michel ficou assustado, se encolheu e deixou que os investigadores tomassem a dianteira:

– Essa é a cabana pra onde o morcego fugiu?

– Essa mesma, Enzo. Tou me sentindo todo arrepiado só de estar aqui! – Michel retirou um terço de dentro da jaqueta.

– Nenhum mago experiente, que aceitasse os seus dons teria medo de uma cabana de madeira, medo de fantasmas… – Enzo baixara no solo poeirento a mala que carregava e começou a montar uma espécie de bastão, aumentando o tom de voz para assustar Michel e seu terço. Faíscas elétricas saíam da ponta do objeto. Akiho apertou com mais força seu báculo da estrela de cristal com mais força contra o peito.

– Fala baixo, Enzo! Eles podem nos ouvir!

– Ouvindo ou não, quero que se danem, Akiho! Já estamos aqui e vou até o fim com isso! Com certeza já chamaram reforços! – Enzo apertou o bastão nas mãos e andou até a cabana, mas bateu de frente com uma espécie de obstáculo transparente.

O obstáculo transparente explodiu e revelou a forma de uma armadura roxa com elmo em forma de naja e asas de morcego nas costas segurando um báculo dourado nas mãos:

– Onde vocês pensam que vão?

Os três ficaram apreensivos. Mais apreensivo ainda ficou Michel. Por trás do elmo de naja, via-se o rosto da figura de armadura:

– D-dom Miquel Tossel?

A barriga de Michel foi atravessada pelo báculo do cardeal. Uma poça de sangue surgiu no chão pedregoso do lugar. Michel ajoelhou-se, levou seu terço à boca e caiu de bruços no chão.

Enzo tentou reagir, deu uma estocada para a frente com seu bastão eletrocutado, mas apenas atingiu um borrão roxo à sua frente. O cardeal já tinha se esquivado. Quando parou, seu pescoço explodiu uma rajada de sangue. Sua cabeça rolou até parar entre as pedras. A ponta do báculo fez um corte vertical e limpo. O corpo caiu duro sobre o chão.

Akiho trincou os dentes, sacou uma espécie de carta por entre as dobras do blazer e fez uma conjuração:

– Oh, existência sem mestre, por esse báculo dos sonhos, eu te invoco! Aqua!

Uma rajada de vários feixes de água saiu da carta e atingiu o príncipe cardeal em todas as direções. Era como se ele não pudesse se esquivar do ataque e recebesse diversos socos molhados de uma vez.

O cardeal simplesmente bateu suas asas de morcego e se livrou do ataque mágico. Uma rajada de vento na cor vermelha circulava ao redor dele. Gotículas de água parecidas com chuva caíram do céu por um tempo.

Akiho, trêmula com a ineficácia do ataque e com as mortes dos companheiros, sacou outra carta da dobra da roupa:

– Reflect!

Asas de borboleta parecidas com um laço de tecido surgiram nas costas dela. A garota voou, voou, voou até não poder ser alcançada por Dom Miquel. Quando olhou para trás, tudo aquilo não passava de um borrão indistinto no meio da escuridão.

Uma voz ecoou perto de si como se fosse de alguém que a acompanhasse. Era a voz do cardeal:

– Pode fugir… Pode se esconder… Pode até tentar nos denunciar… Sempre vamos te encontrar… Porque a fonte do seu poder é uma só… E quando a hora chegar… O Dragão não vai pedir… vai te ordenar… Y viva la reina, Y viva España!

Dom Miquel voltou-se para o chalé e abriu a porta com um estrondo. Lá dentro, havia um homem com armadura igual à sua, cercado por quatro mulheres de túnica branca com um manto preto com o sol de dezessete raios, estampado em vermelho na roupa e uma quinta mulher de pele morena usando roupas comuns, blusa e calça jeans. Dom Miquel agarrou a goela do homem com as mãos nuas:

– Vicent, seu idiota! Quer chamar a atenção do conselho europeu antes da hora, quer? O que você pensa que estava fazendo?

Vicent soltou-se do estrangulamento com as mãos. Caiu no chão precisando de fôlego:

– Cardeal, Eu sou o subinterventor de Lleida! Eu sei o que estava…

Vicent foi interrompido por um forte tapa do cardeal:

– Idiota! Não me chame assim na frente delas!

– Mas todas elas são da Ordem! – Esbravejou o homem. Dom Miquel tornou a apertar o pescoço dele:

– Sabe por que você nunca vai ser meu gerenciador e, consequentemente, meu sucessor? Por conta de atitudes idiotas como essas que você toma! Achando que pode usar a Ordem ao seu bel prazer! – Dom Miquel voltou-se para a mulher morena. – Quem é essa daí?

– É… uma… é uma… amiga… minha… – Dom Miquel soltou Vicent. O homem massageou o pescoço dolorido com as mãos.

Dom Miquel andou até a mulher. Ela tremia, encolhida em um canto.

– Tão sua amiga que te denunciou… denunciou sua posição…

O cardeal agachou-se até ficar com os olhos na altura da cabeça dela. A mulher tremia tanto que parecia que ia ter uma convulsão. Os olhos do príncipe ficaram vermelho luminoso:

– Não tem magia, não é? É enfermeira… fala três línguas… modelo internacional… interessante… nunca conheci uma enfermeira antes que falava suaíle… posso fazer bom uso disso. Dom Miquel apertou o topo do crânio dela com as mãos. A mulher guinchou de dor. Vicent e as quatro mulheres não se atreviam a fazer nada:

– Senhor… alteza… por favor… não me machuca… – A mulher voltou-se para Vicent como um animal prestes a ser abatido, chorando e soluçando muito. – Você me prometeu, Vicent, você me prometeu que ia me mostrar o dragão, ia me mostrar magia pra mim! Você me enganou só pra se deitar comigo!

Dom Miquel segurou o queixo da mulher e a fez virar os olhos para ele:

– Acontece, minha cara, que magia é uma coisa muito perigosa pra ser mostrada pras pessoas… assim, tão imprudentemente só pra ganhar uma noite de amor… você deveria saber disso, minha cara… temos leis para assegurar o sigilo mágico no mundo e no submundo da magia…

– Por favor… eu não vou contar nada, eu juro…

– Eu até poderia te libertar, minha cara, apagar sua memória e estaria tudo bem. – Dom Miquel voltou-se para Vicent e as quatro mulheres da ordem. – Mas acontece que preciso mostrar pros meus subordinados o que acontece quando eles colocam eles mesmos acima da nossa ordem.

Os olhos de Dom Miquel brilharam em vermelho intenso. Os olhos da mulher também. Ela tremeu, babou como se estivesse sendo eletrocutada e caiu dura e morta no chão.

– Agora vá limpar essa porcaria que você me fez fazer lá fora antes que alguém apareça!

 

S&T:FJ

 

Cemitério de Barcelona.

 

Estava um dia pálido e cinzento para o Verão, mas combinava perfeitamente com a ocasião. Nuvens cinza de chuva cobriam os céus da capital da Catalunha, indicando que em breve choveria. Uma multidão de homens e mulheres vestidas de preto estava distribuída sobre o gramado verde do cemitério, entre algumas lápides. Diante deles, dos homens de solidéu roxo e batinas verdes oravam ao lado de outros líderes religiosos:

– E disse o Senhor, em sua Segunda Carta do Apóstolo Pedro “E esperamos novos céus e uma nova terra”. E nossos irmãos mortos no terrível acidente da Germanwings no dia 24 de Março desse ano também esperam juntos conosco. Seja na vida ou seja na morte. – Disse o Arcebispo Dom Oriol Bosch, usando sua fita branca com cruzes pretas em volta do pescoço. Pedro também estava lá, aspergindo água sobre os presentes enquanto a lista de mortos era lida.

As primeiras gotas de chuva começaram a cair e alguns guarda-chuvas foram armados.

Uma mulher de meia idade tentava conter as lágrimas que vinham ao rosto com um lenço, mas não conseguia. Ela era abraçada por uma mulher negra de cabelos ondulados, encaracolados nas pontas. A primeira mulher era Plácida, agente de Tomoyo na Espanha, sócia e dona de uma agência de modelos que ajudava a divulgar as coleções da Daidouji. A mulher negra era Eulália, jogadora de futebol pelo Barça femení.

Sakura e Tomoyo também estavam no cemitério, dividindo o guarda-chuva, analisando os nomes e as fotos nas lápides do cemitério, ao lado daquelas duas mulheres:

“Luis Dutra Damasceno y Brito

Eusébia Damasceno y Brito

Prudêncio Damasceno y Garcia

 

Não nos esqueceremos”

 

A cerimônia religiosa terminou e começou a chover de leve. Os presentes começaram a se dispersar, mas Eulália e Plácida continuaram diante das lápides. As duas amigas se aproximaram delas. Plácida começou a falar com Tomoyo:

– Meu marido… meus filhos… meu menino, minha menina… eles só estavam indo passear um pouco na Alemanha quando aquele doido jogou o avião conta os Alpes… Só encontraram os ossos deles só agora? – Plácida começou a ter outra crise de choro. Seus olhos estavam úmidos. Tomoyo deu um abraço nela.

– Tem certeza que quer voltar pra Madrid? Você viveu vinte anos em Barcelona…

– Eu preciso me reconstruir… reconstruir minha vida… essa cidade tá tão cheia de lembranças da gente…

Plácida começou a soluçar e não conseguiu falar mais. Tomoyo levou-a para o carro. Eulália continuava a fitar a lápide dos irmãos e padrasto mortos, com o rosto seco de lágrimas e bastante sério, sem dar importância às lágrimas da mãe. Tomoyo disse a ela que estava partindo e Eulália pediu mais tempo, coisa que Plácida consentiu. Sakura olhou curiosa para a jogadora e aproximou-se lentamente dela:

– Eu sei que… deve ser difícil perder o seu pai… os seus irmãos de forma tao cruel… eu sei o que é isso… eu também perdi a minha mamãe e…

– Você não sabe nada, Sakura, capturadora de cartas. – Disse Eulália em tom seco, quase ríspido, sem olhar para ela. Sakura pensou que ouviu mal.

– Eles eram seus irmãos… seu pai…

Eulália voltou-se para ela. O rosto dela estava sério, duro. Eulália levantou a mão esquerda e apontou para as costas da mão:

– Você nunca viu uma mulher negra antes, Sakura, da cor do ébano… Meu “pai” e “irmãos” eram loiros, castanhos, brancos como leite… não são meus irmãos e passaram a vida inteira me assegurando disso, me lembrando que eu era uma brasileira desgarrada que só estava ali graças à solidariedade deles… passei a minha vida toda tentando mostrar o contrário; só na frente da minha mãe, eles eram meus irmãos e meu pai. Se eu devo alguma coisa é pra Plácida, minha mãe e não pra eles…

Eulália cuspiu na lápide deles. Sakura não sabia se ficava chocada ou com raiva do gesto:

– Eles são seus irmãos! Eles são seus pais! Você é tão espanhola quanto eles! A Tomoyo-chan também é espanhola!

A jogadora olhou de início desconfiada para Sakura, mas logo fechou os olhos e tirou a cara carrancuda. Em vez disso, mostrava uma expressão de profunda decepção. Tocou nos ombros da cardcaptor e olhou fixamente para ela:

– O que você sabe sobre mim, Sakura? Minha vida? O que você sabe da Tomoyo?

Sakura bem que desejou nessa hora saber ler mentes como Gotzone. Tudo o que pode fazer era uma cara de hesitação diante dos olhos negros da mulher enquanto seus cabelos eram penteados pelo vento da chuva. Hesitante, respondeu:

– Nadinha…

– Nada. Exatamente isso… Você não sabe nada, Sakura. Pode ser que um dia, você saiba quem eu sou e daí, quando você me compreender, eu estarei aqui para ser sua amiga, da mesma forma que a Tomoyo sempre foi gente boa comigo…

Eulália deu as costas para ela e andou pela trilha de pedrinhas do cemitério. Sakura apenas continuou a olhar para ela, sem reação, espantada. Depois, se arrependeu e correu para tentar alcançá-la antes que a silhueta dela desaparecesse:

– Eulália! – Gritou Sakura enquanto corria pelo cemitério.

Correu, correu, correu, tentou sentir a presença dela, mas tudo o que encontrou foram lápides e lápides a circundá-la.  

Continua… 


Notas Finais


Por trás do báculo: A cena com a Gotzone eu achei muito engraçada mesmo. A Goti é um personagem com muitas facetas aqui e estou ansioso por mostrar cada uma delas. Mas essa faceta provocadora é a principal delas. Interessante apresentar ela com a Eulália, a amiga dela e mostrar como cada uma delas é diferente… a Eulália é introspectiva e guarda uma coisa muito grave e muito séria dentro dela enquanto que a Gotzone não tem mistérios e é muito explosiva.

A Ordem do Dragão aprontando mais uma e o “Cardeal” Miquel Tossel mostrando as caras. Eu podia ter posto outra pessoa para fazer o serviço sujo, mas o Cardeal e Dom Tito são muito importantes aqui para serem deixados de lado assim do nada e eles tem muito serviço sujo pela frente… ah se têm… mas por incrível que pareça, eles tem seu lado bom também que logo, logo vou tratar…


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