História Salve-me - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias The Seven Deadly Sins (Nanatsu no Taizai)
Personagens Arthur Pendragon, Ban, Diane, Elaine, Elizabeth Liones, Gowther, Hawk, Helbram, Jericho, King, Meliodas, Merlin, Personagens Originais
Tags Amor, Ban, Banlaine, elaine, Fluffy, Nanatsu No Taizai, Romance, Superação, The Seven Deadly Sins
Exibições 101
Palavras 6.935
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Festa, Fluffy, Josei, Mistério, Poesias, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Boa noite! Aí vai o segundo capítulo _ enorme pra alegria da Otaka123♥ _ de "Salve-me". Escrevi com muito carinho, espero que apreciem. Sem mais delongas, boa leitura! ❤
Obs: Obrigada pelo apoio. Tia ama vocês ♡ ♡ ♡

Capítulo 2 - Cartas à mesa, verdades expostas


Fanfic / Fanfiction Salve-me - Capítulo 2 - Cartas à mesa, verdades expostas

 

Capítulo 2 - Cartas à mesa, verdades expostas

Japão / Tóquio - 25 de maio de 2016

 

Detrás de uma das muitas estantes abarrotadas de livros até o topo, sob a luz ofuscante do sol que enebriava lá fora e iluminava o cômodo através da janela aberta, Elaine ficava na ponta dos pés e puxava um livro muito acima de sua cabeça pela lombada. A biblioteca de sua escola tornou-se sua segunda casa, onde ela passava todos os seus intervalos devorando livros e mais livros, vindo até mesmo algumas tardes com a desculpa de que teria de fazer um trabalho em grupo e que iriam se encontrar ali. Papo furado. Elaine queria mesmo saber se Capitu traíra ou não o pobre Bentinho _ duvida essa que permaneceu sem respostas mesmo depois da garota ter chegado a última página de Dom Casmurro.

Deitada em sua cama com o livro de física aberto sobre o peito, Elaine acabou pensando em Ban. Pensava se estava bem, se estava comendo as três refeições básicas, se estava indo trabalhar no bar de Meliodas, se estava bebendo mais que o comum. Em fim, se de alguma forma Ban estava tentando superar a traição, ou se por ventura estaria inconsolável. Talvez deitado em seu sofá, rodeado de garrafas de vodca e olhando a tela de seu celular, como se de repente o nome de Jericho surgisse e ele lhe dissesse, desesperadamente, que se equivocara em sua decisão precipitada.

_ Chega _ Elaine murmura se sentando no colchão e repousando o livro em sua frente. _ Ban não vai voltar atrás, sem chances. _ ela retira um lápis de dentro do estojo ao seu lado e encara as letrinhas da questão um, sem prestar realmente atenção no que elas diziam _ E mesmo se voltar, não tenho nada a ver com isso.

Mas não adiantava muita coisa repeti pra si mesma uma mentira. Por mais que você continue a repetindo na esperança que de repente você comesse a acreditar nela, é uma mentira.

Não vai deixar de ser. 

Elaine não tinha exatamente ciumes de Ban. Era preocupação. O imaginava nos braços daquela que lhe feriu sem sequer pestanejar, como um cachorrinho domesticado fingindo-se de morto. Fingindo que nada aconteceu, que Jericho não transou com outro e mentiu o tempo todo.

Não. é. da sua conta _ ela murmurou entre os dentes, irritada consigo mesma.

Antes de dormir checava o celular, mas não havia nenhuma ligação ou mensagem de Ban. Só de sua mãe lhe contando as maravilhas que estava vivendo com o amor de sua vida e que estava morrendo de saudades, claro. Elaine suspirava e digitava um "também sinto sua falta, mamãe. Estou cansada, amanhã tem prova de cálculo. Me deseje sorte". Mais mentiras pra sua coleção de lorotas.

E assim, maio se foi.

 

Elaine dormia segurando seu caderno. Havia adormecido enquanto resolvia uma questão de química, exausta da aula de educação física que tivera mais cedo. Como das outras vezes, estava no meio de um pesadelo rotineiro e acordou de repente, encarando o breu com os olhos arregalados. Alguns segundos depois, percebeu algo vibrando em sua nuca e, rapidamente, arremessara seu travesseiro longe, apanhando o celular e olhando a tela acesa.

_ Ban? _ murmurou completamente rouca. Estava descabelada, os olhos semicerrados tentando vê algo na escuridão que estava seu quarto. 

_ Oi, garotinha. Acho que te acordei, pelo seu tom de voz.

Elaine levantou-se da cama e caminhou à passos inseguros, tateando as paredes e finalmente achando o interruptor.

_ Você está bem? _ pergunta coçando um olho e fitando sua janela aberta. Já havia anoitecido e a brisa que invadiu o quarto arrepiou os pelos de seu braço.

_ To. Mais que bem, na verdade _ responde e em seguida rir baixo. Elaine engole em seco, já imaginando o motivo da animação. Ele voltou com ela e ligou pra me contar. Talvez só queira alguém pra dividir sua felicidade.

_ Hum... _ murmura caminhando até a janela e escorando os cotovelos no parapeito _ E qual a razão?

_ Jericho me ligou. _ solta de uma vez _ Conversamos e decidimos voltar. Eu também não sou perfeito, sabe... todos merecem uma segunda chance.

Elaine fecha os olhos e respira lenta e profundamente. Uma nova brisa lhe acerta em cheio, movendo seus fios armados, e ela fecha a janela rapidamente, apoiando o celular no ombro e o levando pra junto do ouvido pra responder.

_ Que legal. Bom pra você. _ Por alguma razão desconhecida, até mesmo por ela, sua voz saiu amargurada e ressentida. Ela tossi ao perceber isso e trata de emendar algo _ Sabe como é, você que sabe. 

Um silencio se estende e Elaine começa a pensar nos possíveis motivos. Ban percebeu sua reação. Ban percebeu sua reação e está se perguntando o motivo dela. Ban percebeu sua reação, se perguntou o motivo dela e chegou a conclusões que Elaine não queria nem imaginar.

Uma gargalha irrompe a ligação, fazendo a loura franzi as sobrancelhas e segurar o aparelho, liberando o ombro ossudo. 

_ Você acreditou? _ pergunta uivando de rir.

_ Não era pra eu acreditar? _ balbucia sem entender mais nada.

_ Como você é boba, garotinha. Feliz primeiro de abril! _ Elaine fecha os olhos lentamente, os lábios apertados numa linha tensa.

_ Você é um imbecil. Você é o imbecil número um, e ah, isso não é uma piada de primeiro de abril. _ e encerra a ligação sem despedidas prévias. Caminha até seu banheiro, repousando o celular sobre a pia de mármore, e se encarando em seu grande espelho. Estava com a pele grudenta de suor, o vestido azul úmido colado ao seu pequeno e magro corpo.

Enquanto se afundava na água morna, ria mesmo sem querer. Idiota. E eu mais ainda de ter acreditado tão fácil. Eu acreditei tão fácil... Ban não é o tipo de cara que dá segundas chances. Ban é o que enche a cara até não saber os motivos que o levaram pro bar, que corre quilômetros pra estar exausto demais pra pensar em algo além de sua cama. Que vai morrer sangrando, mas não volta atrás de uma decisão que lhe machucou profundamente. Esse é o Ban, não um cachorrinho domesticado fingindo que não foi apunhalado pelas costas. 

Enquanto amarrava o laço que unia as laterais do busto de sua camisola branca, Elaine deu-se conta que, mesmo sem ter a mínima remota ideia, Ban interrompeu um pesadelo seu. Uma sensação de gratidão lhe acometeu, e mesmo sentindo-se uma idiota, deitou-se na cama de peito pra cima e começou a digitar uma mensagem. Desculpe... não gosto de brincadeiras idiotas _ por fim enviou. A resposta veio rápida e fez Elaine deduzir que Ban já estava com o celular na mão, esperando por aquilo. Tudo bem, garotinha. Meliodas tá muito chato pra eu fazer alguma piada com ele, por isso fiz com você. _ dizia a mensagem.

E assim, Elaine foi dormir três da madrugada conversando sobre os livros que leu até aquele presente momento, e ouvindo Ban contar sobre sua nova rotina _ que consistia em cem flexões ao acordar e mais cem antes de dormir. Ela também renomeou seu contato, preferindo "imbecil número um" ao "conselheiro amoroso". Não tem sentido mesmo _ pensou enquanto renomeava _ Não estou procurando amor pra precisar de conselhos nesse quesito.

 

*  *  * 

 

_ Cacilda, eu corri tanto que nem sinto minhas pernas! _ King comenta ao sentar na cadeira do refeitório. Está suado, com a regata da educação física colada ao peito magro. Ele estende a mão e apanha a garrafinha de suco de uva sobre a mesa, bebendo o líquido em grandes goladas ruidosas. Meliodas o fitava na cadeira ao lado com o semblante fechado, também com uma regata usada nas aulas de educação física. O tecido igualmente grudado em sua pele úmida, deixando visível os músculos sutis que o rapaz ostentava.

_ Para de drama _ murmura agarrando sua garrafinha, de suco de morango, e dando uma golada _ O professor nem pegou pesado hoje.

_ Tem borracha nesse seu estojo? _ Elaine pergunta de repente. Elizabeth permaneci em silencio, distraída observando o peitoral suado de Meliodas. _ Elizabeth! Para de comer seu namorado com os olhos e me responde. 

Meliodas rir presunçoso, enquanto a garota cora violentamente e abri seu estojo o mais depressa possível, entregando o que a outra pedi. A verdade é que Elaine ainda estava um pouco irritada com o episódio constrangedor, em que ficou sentada no sofá a ouvindo gemer no primeiro andar. Se fechasse os olhos e forçasse um pouco, ela ainda lembrava até o ritmo que a cama batia na parede.

Diane surge andando à passos saltitantes, fazendo alguns garotos virarem o pescoço para vê-la passar.

_ Bom dia! _ Diz ao larga-se ao lado de King, e em seguida, o puxa pela roupa e o beija. Os garotos que antes davam olhadelas furtivas desviaram o olhar, desanimados. Meliodas ficou encarando as bocas se moverem juntas, como alguém olharia pro cocô que sem querer pisou com seu sapato novo.

_ Vem, Elizabeth. _ ele levanta da cadeira puxando a garota pela mão _ Vamos pra algum canto que não tenha ninguém. _ ela assenti, ajeitado a franja sobre um dos olhos. Meliodas continua mais baixo, sorrindo sem mostrar os dentes e passando um braço em sua cintura _ Espero que não se importe de ficar um pouco suada.

Elaine rabiscava as respostas das questões de química fervorosamente, mas os ruídos dos beijos trocados por King e Diane já a tiravam do sério. Ela já estava ali, numa mesa do refeitório, por quê ir pra biblioteca teria o efeito de um alcoólatra que busca parar de beber num bar. Mas Elaine resolvi arriscar, bufando em seguida ao dar-se conta que Meliodas e Elizabeth deveriam ter ido para lá, onde apenas ela costumava ir aos intervalos.

_ Deem um tempo _ pedi ao virar a página do caderno com violência _ Tem alguém tentando identificar a nomenclatura de uma cadeia ramificada.

Diane deixa os lábios de King e faz bico.

_ Você é uma criança mal-criada, Elaine. Devia arrumar um namoradinho pra saber como é legal beijar.

_ Não, obrigada _ responde depois de fingir pensar com uma mão no queixo, e volta a rabisca a folha do caderno _ Beijar deve ser legal, mas os livros que ocupam as estantes da biblioteca não são devorados sozinhos.

_ Vai pra lá, então _ King sugeri, rindo. Ele tinha certeza que aquilo ia acontecer _ sua irmã sempre fora uma leitora alva. Ainda recordava-se de vê-la metida numa barraca feita com lençóis e pregadores, lendo com os olhos grandes e curiosos O pequeno príncipe.

_ Boa ideia _ responde o olhando, e em seguida batendo, na própria cabeça com o lápis _ Ah, é mesmo. Deve ter algum anão transando detrás de uma das estantes. 

King rir do que ela falou. Ali estava sua irmã: O sarcasmo em pessoa. Finalmente agindo normalmente _ pensou.

_ Eu espero que eles tenham camisinha. Imagina que cool deve ser responder pros netinhos que os pais deles foram feitos na biblioteca da escola _ Diz, e então percebi um garoto que a encarava fixamente por cima do ombro de King. O olhos num tom alaranjado, os fios verdes, aquele sorriso quase imperceptível nos lábios finos. Muito familiar.

King olha para atrás ao notar o olhar da irmã, e vira-se novamente, se ajeitando no assento. Elaine o encara com as sobrancelhas arqueadas.

_ Quem é?

_ Não lembra dele?

_ Não, mas acho que já o vi antes.

_ Ele era um amigo meu. _ King assoa o nariz e batuca a mesa com os dedos. O assunto o deixava inquieto visivelmente. _ Melhor amigo. Mas nos afastamos quando entramos no ensino médio.

Diane o observava falar enrolando a ponta de um dos lados da maria chiquinha.

_ Ah, é mesmo! _ Elaine exclama, finalmente recordando do garoto brincando no quintal de sua casa. Mas já fazia muito tempo, seu pai nem bebia tanto naquela época.

_ O que deu? _ Diane pergunta.

_ A gente tipo se apaixonou pela mesma garota.

Diane olha em volta, como se esperasse que a tal dita cuja estivesse em uma das mesas.

_ Não, ela não estuda aqui. A família era Britânica. Ela só passou as férias de verão na casa vizinha à minha.

_ E aí? _ Insiste querendo saber a história toda.

_ Eu me apaixonei por ela. Helbram também. Helbram teve coragem de falar primeiro, mas ela me preferia. Ele ficou irritado comigo e se afastou. No ano novo, ela voltou pra Britânia e nunca mais a vi. Satisfeita? 

_ Não fica irritadinho comigo não, hein! _ Diane bufa cruzando os braços _ Você ainda gosta dessa fulaninha aí?

_ Claro que não! _ King responde na defensiva _ Eu nem lembro do nome dela... Era algo com M. Maria, Marina, sei lá.

Elaine olha de um a outro, dando-se conta que aquela era a primeira briga dos dois.

_ Hum... _ murmura voltando a enrolar a ponta do cabelo.

_ Qual é! Eu não gosto de outra garota além de você. 

_ Mesmo eu sendo mais alta que mais da metade dos garotos da escola?

King rir, malicioso.

_ Isso não é problema, é vantagem pra você eu não precisar ajoelhar.

Elaine desvia o olhar pro seu caderno, voltando pras questões de química. Não queria entender o que aquilo significava, nem muito menos aquele sorrisinho traquina que a garota deu como reposta. Não queria saber mais nada além dos nomes das nomenclaturas das cadeias ramificadas.

 

[...]

 

_ Parabéns, Elaine! _ Elizabeth diz sorrindo enquanto caminham em direção ao jipe preto. A garota se referia ao comentário que o professor de história fez na última aula. Elaine ainda estava corada, desacostumada com tanta atenção sobre si.

_ Não faço nada além do meu dever, afinal das contas... _ responde apertando a alça da bolsa.

Antes de entrar pela porta traseira do jipe, ela olha para trás e percebi o garoto a encarando. Aquele olhar fixo de mais cedo, que não deixava duvidas que era para ela que Helbram olhava. Não era pra alguém atrás dela, ou pro carro, ou pro casal beijando-se no banco traseiro. Era pra Elaine.

Ela se enfiou depressa no automóvel e bateu a porta com força, encarando os dois ao lado como um leão prestes a rugir.

_ Parem! Que saco...

King se assusta com o tom de voz da irmã e a olha, assombrado.

_ Que foi, anjo? Tá com dor de barriga? _ Diane indaga com sua voz afetada.

_ Não, mas é possível eu ficar enjoada se continuarem nesse ritmo. _ ela desvia o olhar e vê Meliodas puxar a marcha, repousando a mão sobre a coxa de Elizabeth logo depois, e a deslizando pra parte interna delas. _ Deus, acho que vou na mala.

Todos riem e Diane abraça seus ombros miúdos, a chacolhando como faria à alguém que recebeu um noticia terrivelmente triste.

_ Acalme-se, santa portadora da pureza mundial. _ ela diz dramaticamente, fazendo os outros rirem ainda mais, e Elaine vira o resto pra janela, corada até os ombros.

_ Vão à merda.

 

 

 

Deitada respondendo uma tarefa de inglês, Elaine atendeu o celular na primeira vez que ele vibrou, o levou pra junto do ouvido apoiando o aparelho no ombro, e continuou  respondendo as questões enquanto falava.

_ O que quer, imbecil número um?

O riso ao fundo à faz rir também.

_ Oi, garotinha. Nada, só estou entendiado mesmo.

Elaine revira os olhos e bufa.

_ E aí me liga pra eu tirar seu tédio? 

Ban rir mais uma vez, mas de forma diferente. Sai como uma risada nervosa que você daria se seus pais lhe questionassem o por quê da nota vermelha em seu boletim.

_ Na verdade, eu não estou muito bem. 

Elaine fecha o caderno e senta no colchão, segurando o aparelho entre os dedos tensos.

_ O que houve?

Ban suspira pesadamente.

_ É a Jericho, sinto falta dela... nem fodendo que lhe dou uma segunda chance, mas ainda doí, sabe... doí muito.

Elaine entende embora nunca tenha sequer tido um namorado. Não importava se já fazia praticamente três meses, ainda doía. Doía muito. 

_ Topa me encontrar no Café Gowther? _ pergunta enrolando o dedo num fiapo do jeans.

_ Pode ser, pode ser. _ responde rápido.

_ Ótimo. Esteja lá às... _ ela verifica rapidamente a hora no celular e o ponhe de volta junto ao ouvido _  Às duas.

_ Às duas tá ótimo.

 

Elaine sentiu-se estranha. Não estranha como quando sua mãe lhe enfiou em um vestido rosa de babados e lhe apresentou para todas as suas amigas do salão de beleza. Estranha por agir como uma garota antes de um encontro.

Isso não era um encontro, era? Ela apenas iria no café servir de psicologa pra um amigo, apenas isso. E mais uma peça era jogada sobre a cama, recusada na prova de roupas.

Já era uma e meia da tarde quando Elaine vestiu o suéter rosa-bebê, a jardineira jeans, e enfiou algumas moedas no bolso. Calçou o par de sapatilhas brancas _ que achou ao erguer o cobertor da vovó e dar uma olhada debaixo da cama _ e enfiou o celular no outro bolso, amarrando o cabelo num rabo de cavalo baixo e discreto.

No banheiro, deu uma rápida escovada nos dentes e borrifou seu perfume doce sobre as roupas, repetindo pra si mesma que era pra caso suar demais, e não pra chamar atenção de Ban;

_ Onde está indo? _ King perguntou sem desviar os olhos da tevê. Ele e Meliodas jogavam Street Sighter sentados no sofá, os dedos apertando os controles tão fortemente que não seria surpresa um tendão rompido a qualquer momento.

_ Indo ver o Ban _ Elaine responde já passando pela porta de casa. Ela ouviu um grande e sonoro "como é?!" e em seguida correu até a esquina, voltando a andar normalmente a parte desse ponto.

Ao passar pela porta do Café, o sininho tocou chamando a atenção do homem sentando na ultima mesa. Ele observou Elaine se aproximar com as mãos nos bolsos e sorriu torto quando ela sentou à sua frente.

_ Está atrasada, garotinha. 

Elaine praticamente esfregou o celular na cara de Ban.

_ Duas em ponto. Garotão.

Ela o encara enquanto guarda o aparelho outra vez, e Ban abri o cardápio sem tirar aquele sorriso torto do rosto em nenhum momento. Um sorriso desafiador, intimidante.

_ Bolinhos de canela está bom? _ indaga sem desviar os olhos.

_ Bolinhos de canela está ótimo.

_ Gowther _ Ban chama, encarando o rapaz que o tempo todo esteve sentado no banco em frente o balcão.

 _ Hum? _ ele murmura ao virar-se e fitar o outro.

_ Não é hum, é "o que você deseja, querido cliente?"

Gowther desvia os olhos de Ban e abaixa os óculos pra mirar Elaine.

_ Quem é essa doce senhorita sentada na mesa de meu estabelecimento?

_ É uma cliente. Trás uma porção grande de biscoito de canela _ Ban responde com voz autoritária.

_ Tenho a estranha sensação de que já lhe vi, doce senhorita. Mas onde... 

_ Gowther. Biscoito de canela agora!

_ Ah, deve ter vindo outro dia. Desculpe nunca ter lhe notado, é um prazer tê-la aqui. Minhas garçonetes estão de folga, espero que elas tenha lhe tratado bem.

_ Vai buscar essa merda antes que eu vá e enfie onde doí.

Elaine olhava de um a outro como alguém observando uma peteca. Ela esticou o pescoço quando o rapaz sumiu na cozinha, e ao se endireitar no banco e fitar Ban, percebeu que ele lhe encarava.

_ Ele é gay _ avisou.

_ Ah, até estava cogitando tentar algo _ menti com sarcasmo. _ Por favor, Ban. Olhe bem pra minha cara e veja se pareço uma mulher desesperada por um homem.

_ Não, até por que você não é uma mulher. É uma garotinha _ responde pincelando o nariz arrebitado de Elaine e recebendo um tapa na mão como resposta _  E Gowther não é um homem. Sequer é um ser humano. Há um animal preso naquele corpo medonhamente afeminado: Uma cabrita saltitante que almeja saber até o porquê da bosta ser marrom.

Elaine rir e cruza as pernas.

_ Engraçadinho. Muito engraçadinho. Sabe o que você é, garotão?

Ban dar seu sorriso predatório e espera que ela continue.

_ É o tipo de pessoa que quer algo, mas espera que os outros o consiga pra você. Olha tudo com ar superior e sempre de cima, mesmo se estiver por baixo. Você é a raposa que deseja as uvas, e quando não as consegue, as deprecia pra diminuir o peso de seu fracasso.

O sorriso de Ban se desfaz um pouco, como uma flor murchando. Ele desvia o olhar pra mesa e batuca os dedos em silencio.

_ Sabe? Você tem razão, garotinha. Sou exatamente assim. Veja, pus todas as minhas expectativas em Jericho. Eu realmente achei que iria casar com ela. Mas quando meu relacionamento não deu certo, eu pensei em coisas como "ela nem era tão bonita assim mesmo" ou "foi melhor assim, aquela mania de mascar chiclete é irritante". Mas bem, eu sinto tanta falta dela... 

Elaine engole seco e, sem pensar, toma a mão que estava sobre a mesa.

_ Não se martirize assim! Ela escolheu isso, o fim do relacionamento de vocês veio como consequência da escolha dela...

Ban encara a mão com unhas pintadas de azul apertando a sua própria. Elaine percebi o olhar e, lentamente, faz menção de deixa-la, mas Ban a segura com sua mão livre como um reflexo. A garota arfa com o toque, sentindo como a mão de Ban era quente. Não quente à ponto de ser incomodo, mas quente como um agasalho no frio. Quente de forma aconchegante, convidativa.

_ Aqui está _ Gowther diz ao pôr os pedidos sobre a mesa. Ele desci o olhar pras mãos e tomba a cabeça pro lado, franzindo as sobrancelhas. _ Fico me perguntando... o que estão fazendo?

Elaine puxa sua mão sutilmente, evitando os olhos de Ban.

_ Obrigada pelos bolinhos. _ agradeci sorrindo de forma doce. Gowther inclina o corpo em sua direção, a fazendo acreditar por um segundo aterrorizante que vá lhe beijar, mas ele apenas farejou e se afastou sorrindo.

_ Que perfume adorável a senhorita tem. Se eu sentisse atrações por mulheres, tenha certeza que lhe tomaria para mim.

_ É. Mas como todos sabem, você nasceu de cesariana pra passar longe. 

Elaine observou Gowther voltar pro seu canto e abrir novamente o livro que lia. Ban se esgueira sobre a mesa, fazendo ela sobressaltar-se ao virar a face e se deparar com a sua própria à poucos centímetros da do homem. Ele puxa o ar profundamente e então volta pro seu lugar, com seu sorriso torto.

_ Frutas vermelhas. _ Diz, e em seguida leva um bolinho à boca.

_ Não viemos aqui pra falar da sexualidade do Gowther ou do meu perfume. Continue contando o que senti. _ pedi e mordisca a massa macia.

_ Bem... é como eu disse. Sinto falta dela, mesmo depois de tudo aquilo. Eu passei três anos da minha vida com aquela mulher, é muito tempo... sabe o que é pior nisso tudo?

Elaine murmura mastigando a comida, o incentivando a continuar.

_ Não sei se a amo ou se só estou acostumado com ela... porra, isso dói. Há menos de um mês atrás eu estava cheio de planos... agora não tenho nada além de um punhado de lembranças e incertezas. Eu não sei nem mais onde vou pôr meus pés no passo seguinte, todo o meu futuro eu planejei com ela, e agora tenho que tomar um novo rumo, um novo futuro.

Elaine entende mais do que gostaria. Ela sentia-se exatamente assim. Desorientada, vendo-se forçada a planejar as coisas às pressas, tentando nadar contra a corrente antes que fique exausta demais e afunde.

_ Sei que parece um conselho idiota e clichê_ diz desviando o olhar pra vitrina e observando a rua praticamente deserta. _ Mas nesse caso, acho que tem que apenas deixar a vida levar. A vida se encarrega disso, as vezes precisamos apenas nos recolher e esperar o temporal passar.

Ban já devorava quase metade dos bolinhos de canela quando veio responder, de boca cheia.

_ Acho que tem razão, garotinha _ ele engoli a comida e limpa a boca com um guardanapo posto ao lado do prato. _ Não vou fazer nada com relação a isso, apenas vou continuar vivendo.

_ Um passo de cada vez _ instrui ainda olhando a rua.

O homem a observa em silencio. O nariz pequeno e arrebitado, o contorno dos lábios cheios e rosados, os cílios longos e louros que emolduravam os olhos cor de mel. A pele branca e de aspecto macio, coberta demais com os suéteres que Elaine aparentava gostar. Num ultimo momento de analise, Ban observou o busto da garota, e constatou que se usasse alguma blusa de tecido fino, seus seios surgiriam, mesmo que sutis. O suéter rosa-bebê lhe deixava ainda mais miúda e escondiam as possíveis curvas delicadas de Elaine.

_ Não sente calor? _ pergunta de repente. Elaine o fita confusa e ele continua, vendo-a mudar imediatamente _ Está sempre usando suéter. Não é incomodo? 

Antes pensativa e distante, agora inquieta e nervosa. Ban arqueou uma sobrancelhas ao vê aquilo.

_ Não mesmo... não gosto de mostrar muito meu corpo. _ responde fechando as mãos e sentindo suas unhas afundarem em sua palma.

_ E por que não?

_ Bem, meio que não tem lá muita coisa pra mostrar. _ responde rápido, visivelmente desconcertada. _ Sinto-me melhor assim. As garotas costumavam pegar no meu pé, principalmente nas aulas de educação física.

_ Elas te xingavam?

_ É... _ Elaine volta a olhar a rua e suspira pesadamente _ Por que sempre fui magra demais e fui a única que não mudei. Todas as garotas cresceram, ou ficaram até baixas, mas mudaram em algo. Tipo algumas ficaram com os seios fartos, ou ganhou bunda, ou apenas engrossou as pernas... mas eu? Eu permaneci da mesma forma. Eu não mudei nadinha, nadinha mesmo. Isso foi muito constrangedor... e sempre que algum professor me elogiava, elas diziam que era sorte eu ser inteligente. Por que burra e sem graça já era um carma que eu tinha que pagar nessa vida.

_ Foi por isso que saiu da Austrália? 

Elaine morde o lábio inferior e encara Ban. Seus olhos ficam úmidos de repente, como se ela fosse chorar a qualquer momento. Mas as lágrimas nunca veio, Elaine desviou o olhar pros farelos no prato de porcelana e forçou um sorriso fraco, até um pouco trêmulo.

_ É, foi por isso mesmo. _ diz com o máximo de convicção que conseguiu.

_ Sinto muito, garotinha. Pegavam no meu pé também, sabia?

Elaine o fita surpresa. Ban não parecia alguém que sofreu humilhação no ensino médio. Era mais fácil de acreditar que era ele que humilhava os outros.

_ É, eu sei que não parece _ ele ri _ Mas eu nem sempre fui forte e intimidante. Também já fui um pivete magricela e inseguro, o que fez algumas caras do terceiro ano mergulharem minha cara na privada pra tirar o tédio. Porém, um belo dia, um anão do sexto ano me disse pra fazer algo. Então eu lhe respondi "o que diabos vou fazer? Já pedi pra pararem, sou fraco demais pra obriga-los a me obedecer". E aí ele disse "então pare de reclamar. Ou faça algo ou se conforme. Reclamar e pedir pra que parem não resolvi seu problema. Ficar forte e quebrar a cara deles, sim".

_ Meliodas? _ Elaine supõe, completamente centrada na história.

_ É. Foi com esse conselho de Meliodas que comecei a dar duro e me tornei esse amontoado de músculos. Na festa de confraternização, eu bati em todos eles e depois os mergulhei no mictório. _ Ele rir com os olhos distantes, recordando do momento em que fez os covardes provarem do próprio veneno _ Devem lembrar do cheiro de mijo até hoje.

Elaine pensa um pouco sobre aquilo. O que ela poderia fazer com aquelas garotas? Malhar como uma maluca e depois bater em todas elas quando estivesse forte o suficiente? Não. Elaine nunca gostou de brigas e não começaria a gostar por causa de meia duzia de meninas com falta do que fazer. Elaine também pensou sobre seu padrasto e as coisas que ocorriam quando sua mãe estava fora de cena. O que ela podia fazer com aquilo? Meliodas tinha razão, afinal. Se você tem um problema, ou você faz algo pra resolve-lo, ou você se conforma e para de reclamar. E foi o que Elaine fez. Sair da Austrália foi o que a loura achou como solução. Se exercitar e se vingar foi a solução de Ban.

_ Meliodas tem ótimos conselhos _ ela fala, finalmente.

_ É. Pros outros. Quando o assunto é ele, Meliodas sabe nem pra onde vai.

Elaine rir.

_ Deve ser tipo não saber cortar o próprio cabelo.

_ Na mosca, garotinha.

Os dois se encaram por alguns segundos, tempo suficiente pra o clima mudar. De repente o sorriso de ambos se desfazem, de repente ficou abafado demais _ como se tivessem ligado um secador. Elaine engoliu seco, Ban assobiou baixo, também sentindo as mesmas coisas, porém disfarçando melhor. Gowther observava os dois por cima dos óculos, completamente confuso sobre o que estava acontecendo.

_ O que significa essa troca de olhares? _ se perguntou _ Estão tentando se comunicar secretamente? Isso é o que o que dizem ser o amor? Uma comunicação silenciosa e que apenas duas almas perdidamente apaixonadas podem descodifica-las? _ o rapaz fecha as hastes do óculos e apoia o queixo na palma da mão, tombando a cabeça pro lado e continuando a observar, borbulhando de perguntas sem respostas.

 

*  *  *

 

Os pequenos flocos começaram a cair suavemente naquela manhã silenciosa. Quando Elaine acordou, abriu a janela de seu quarto e sorriu como uma criança que ganhou o que queria no natal. Mas não era natal, era junho. O inverno dava seus primeiros sinais de vida.

_ Bom dia, dorminhoco! _ Elaine diz ao pular na cama do irmão.

_ Me deixa dormir! _ King reclama, cobrindo a cabeça com o travesseiro. Elaine bufa e bate na nádega do garoto. _ Mas que diabos! _ resmunga rolando e caindo no piso, levantando-se em seguida e encarando a irmã _ O que você tem?

_ Tudo! _ responde ficando de pé sobre o colchão e começando a pular diante dos olhos semicerrados de King.

_ Isso por acaso tem haver com Ban está vindo pra cá de novo? 

Antes que Elaine lhe responda, antes mesmo que ela sequer abra a boca, a porta abri e sua pergunta é respondida.

_ O que ele tá fazendo aqui? _ sibila.

_ Vamos fazer bonecos de neve e guerra gelada. _ ela responde energicamente e em seguida, se joga pra cima de Ban quando ele chegou perto o suficiente. Ele lhe pegou sem dificuldades, apoiando-a num braço enquanto que com a mão livre subia a alça de sua camisola.

_ Que animação, garotinha. Parece que nunca viu neve.

_ E eu nunca vi _ conta fazendo bico _ Só pela tevê.

King observava a aproximação dos dois com os olhos estreitos, fixos naquela mão tão perto da nádega de Elaine.

_ Então, faremos o maior boneco de neve da história. _ E saem daquela mesma forma; Elaine apoiada num braço do homem, como se fosse uma bonequinha de pano.

King bufa e chuta o travesseiro que caíra no chão, batendo a canela na madeira dura da cama e uivando de dor enquanto pula numa perna só.

 

 

_ Acho que seu irmão ficou um pouco chateado _ Ban diz, passando os braços atrás da cabeça e deitando na cama tão bem arrumada. Tudo era tão bem organizado que Ban sentiu-se um porco por sequer dobrar as roupas antes de as pôr no armário.

_ Ele sempre fica quando você vem aqui! _ Elaine responde de dentro do banheiro. _ É normal, ele é ciumento. 

A menina anda de um lado a outro dentro do cômodo, procurando seu suéter amarelo. Estava quase pronta _ com sua legue preta, botas marrom sem salto de cano baixo, os cabelos soltos e partido ao meio e seu sutiã rendando cobrindo os pequenos seios. Ela bufou, finalmente lembrando que o havia esquecido, preso no cabide pregado na porta de seu quarto.

_ Ban? _ o homem ouvi a garota lhe chamar. 

_ Que foi?

_ Esqueci meu suéter aí. Pode pegar pra mim?

Ban permaneci fitando o teto branco até sentar e saltar da cama.

_ É esse amarelo? _ pergunta puxando o cabide e soltando-o da roupa.

_ É sim.

Ban caminha até o banheiro e para na soleira com o olhar baixo. Elaine vê sua sombra por baixo da porta e a abri lentamente, pondo apenas seu braço pra fora para que ele lhe entregasse o suéter. Mas ban não lhe entregou seu suéter amarelo, ele fez algo que nunca havia feito com Elaine. Algo que nas últimas semanas tinha lhe ocupado sua cabeça de tal forma, que ele andava malhando cada vez mais pra ocupar sua mente fértil.

 Começou devagar e sorrateiro, como um predador mirando sua pobre presa. O homem sequer notou aquele sentimento, até que ele ficara quase palpável. De repente Elaine não era mais a irmãzinha que ele sempre quis ter. De repente ele não queria ser mais seu conselheiro amoroso, embora em nenhum momento a garota tivesse demostrado interesse por alguém. De repente ele ficara curioso, querendo descobrir o que Elaine guardava com tanto zelo debaixo da camada grossa de seus suéteres.

_ Q-que merda tá fazendo?! _ ela gagueja dando passos pra trás e tropeçando no vaso sanitário. _ Não! Não se aproxime! 

Mas Ban não lhe dá ouvidos e tenta lhe erguer do piso, notando algo errado. A forma que Elaine tentava se cobrir... era mais que timidez. Era medo, ela tinha medo de Ban ver demais.

_ Ei! Sou eu, sou o seu Ban, garotinha. Não precisa temer _ diz ao abriga-la em seu peito, e ao passar as mãos pelas costas da garota, senti algo sutil. Listras finas e desregulares sobre a pele macia de suas costelas.

_ Não! Ban, por favor...

_ Eu não vou te repreender se tiver alguma coisa estranha em você. _ Ban promete, achando ser alguma marca deixada por suas agressoras. 

Elaine vira de costas, totalmente encolhida e trêmula. Ao sentir os dedos do homem tocar sua pele, senti uma corrente elétrica lhe percorrer. Mas não era algo incomodo, ela chegou a desejar que ele não se afastasse. No entanto, ela continuou quieta, esperado o veredito.

_ Foram elas que fizeram isso? _ indaga com voz neutra, deixando difícil pra Elaine saber o que ele sentia no momento. Mas ela foi incapaz de responde-lo. Não queria mentir, estava cansada de mentir o tempo todo sobre aquilo. "Estou bem, só estou cansada da educação física."  "Não gosto de mostrar meu corpo por que não o acho atraente". "Sair da Austrália por que sofria bullying". Tantas mentiras pra encobrir aquela única verdade, que ela simplesmente chegou ao seu limite, desejando berrar o que tanto escondia. _ Elaine, foram elas? Foram elas, não foi? Te cortaram com algum estilete?

Nada. A garota permaneceu de costas pra Ban, abraçando os joelhos.

_ Quem fez isso com você? _ dessa vez sua emoção é nítida. Ban estava contendo uma raiva que só crescia com aquele silencio. _ Elaine! Quem fez isso com você?! _ insisti a virando para encara-la e fitando os olhos marejados, incapazes de lhe encarar fundo. _ Não foram elas, não é? _ continua, diminuindo o tom.

Elaine nega com a cabeça e Ban a solta, sentindo-se uma chaleira à ponto de apitar.

_ Me desculpa... me desculpa, eu menti o tempo o todo! _ diz atropelando as palavras. _ Eu não vim para cá por causa das garotas... 

_ Quem te maltratava, Elaine? _ Ban questiona, seu coração batendo dolorosamente rápido. 

_ O meu padastro.

Foi como aterrissar do jeito errado. Como acorda de um sonho inquieto _ que no momento que você irá se esborrachar no chão, você acorda com o coração ameaçando saltar pela boca. Ban sentiu-se assim. Era tão obvio, era tão fácil de desvendar, mas ele sequer cogitou aquela hipótese. 

Não era estranho Elaine vir pro Japão fazendo nem bem um mês que sua mãe havia casado? Que tivesse um comportamento esquisito, como uma criança que tem as mãos atrás de si, escondendo algo veementemente? Sem mencionar os pesadelos que King as vezes comentava.

_ Com o quê ele fez isso?

_ Com o canivete que sempre está em seu bolso.

_ Por que?

Elaine se encolhe, sendo puxada instantaneamente pra entre as pernas de Ban e envolvida por seus braços. Ela vira, recostando as costas no corpo quase três vezes mais largo que o seu.

_ Por que eu não cedia. 

Ele para, pensando no que seria não ceder. Não quer pensar no pior, mesmo sendo obvio que o pior havia acontecido.

_ Não cedia? Com o que você não cooperava?

Elaine morde o lábio inferior, não querendo pronunciar aquilo. Doía como se tivesse ocorrido à cinco minutos atrás.

_ Aquilo... entende?

Os braços fortes se fecham ao redor da garota, abraçando-a forte. Ban beija o ombro de Elaine, fazendo-a arfa baixo.

_ Ele conseguiu?

_ Não. _ ela lhe ouviu soltar um suspiro involuntário e encarou seu pequeno tapete em frente o boxe. _ Se tivesse acontecido... seus braços continuariam ao meu redor?

Ban roça seu nariz no pescoço desnudo _ que exalava aquele perfume doce que secretamente desejava sentir em suas roupas _ , fazendo-a arfar outra vez.

_ Sempre. Meus braços sempre estarão ao seu redor, até dizer que não os quer mais por perto.

_ Eu quero _ fala rapidamente, os apertando como se de repente ele fosse sumir. _ Ban? Você não senti mais nada pela Jericho, não é? Não senti mais falta dela, nem um pouco?

_ Por que esse assunto agora?

_ Eu só tenho medo. Se ainda gosta dela, não me faça promessas que não será capaz de cumprir.

_ Escute, Elaine. _ ele diz, aproximando os lábios da orelha coberta pelas mechas louras e sentindo-a arrepiar-se _ Você é minha única mulher, entendeu? A única que penso quando vejo comerciais piegas e casais se beijando.

Ela cora até os ombros. Era a primeira vez que Ban se referia ela como uma mulher.

_ Pensei que eu fosse uma garotinha _ murmura tentando desfaçar o constrangimento.

_ Você é a minha garotinha também. Você se tornou tudo, Elaine. Eu nem mesmo posso dormir sem que você invada meus sonhos.

Ela rir, virando e abraçando-o. Sentia-se mais leve, finalmente respirava e seu coração não doía _ pesado com tantas mentiras guardadas às sete chaves.

_ Obrigada... _ murmura em seu peito.

Ban é tomado por uma forte vontade de erguer a face miúda da garota e provar aqueles lábios que há muito admirava em silencio. E ele já havia baixado a cabeça, roçando o nariz na bochecha corada e quente de Elaine, mas batidas na porta o fez sobressaltar-se e se afastar.

_ Que merda tá fazendo aí?! Responde, eu sei que está aí, Ban! _ King o acusava, quase socando a porta do banheiro. _ Elaine, não se preocupe, eu irei lhe salvar!

Eles riem baixo, os hálitos se misturando. Elaine ajoelha-se e segura o rosto de Ban com as duas mãos. Ele a observa se aproximar, suspirando ao sentir os lábios cheios tocarem nos seus, segurando sua cintura fina com ambas as mãos e apertando-a veementemente, a trazendo pra perto com gemidos abafados por seus lábios.

_ Ban! O que está fazendo com minha irmã? Ela está chorando? Que som é esse?!

Elaine se afasta delicadamente, envolvendo o pescoço do homem com seus braços finos e repousando sua cabeça no ombro largo.

_ Vamos sair antes que ele descubra que a porta tá aberta _ ela sussurra.

_ Sim. E resolvermos seus problemas.

Ela estagna com os olhos arregalados, parando de respirar por alguns segundos.

_ Ban...

_ Não. Ele não pode fazer uma coisa dessas com você e ficar impune, garotinha. Vamos resolver isso.

Elaine quer dizer para esquecer aquilo, quer dizer que isso vai destruir a felicidade ingenua de sua mãe. Quer berrar que a culpa foi dela também, que deveria ser mais precavida, que deveria trancar a porta do banheiro antes de ir tomar banho, que não deveria acordar na calada noite pra fazer um chá. Mas ela está farta de se culpar por algo que, no fundo, ela sabe que nada teve culpa. Elaine se deixa ser embalada pela primeira vez, permitindo-se ser acarinhada e consolada. Sentiu-se bem, de uma forma que já não sentia-se há muito tempo. Ela sequer lembrava a última vez que sentiu-se tão leve, tão limpa. 

A menina finalmente parou de nadar contra a corrente e agarrou o bote salva-vidas que Ban estendia pra ela, seguindo o conselho de Meliodas. Ou eu faço algo sobre isso ou me conformo. Fugir não vai diminuir minha dor. Sentar com meu pai e meu irmão, e contar tudo, provavelmente.

Estava decidido. As cartas seriam postas à mesa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Notas Finais


O que acharam? Por qual razão Helbram observa Elaine? Quem será a ex-crush do King? Tá, essa última tá bem fácil kkkkkkkkkkkkkkkkk :P Espero que tenham gostado e até o próximo! ❤


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