História San Monero - Capítulo 1


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Categorias Originais
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Palavras 4.624
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ficção, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Provavelmente o único capítulo que eu vou postar.
Esse é um projeto que eu to gostando bastante de fazer e queria saber como seria a reação das pessoas quando lerem

Capítulo 1 - Os Bons Dias Que Vieram.


O vento balançava levemente a chama que a vela possuía em sua ponta, em mais uma tarde ensolarada com uma brisa leve, temperatura agradável, céu limpo de nuvens e um belíssimo e suave som ambiente do vento batendo nas folhas das árvores, da água correndo no velho riacho bem cuidado com água cristalina, onde os primos brincavam de contar os peixes e dos pássaros que passavam de um lado ao outro no chalé um pouco desolado da cidade.

Ao fundo, acima de todas aquelas verdes e cintilantes árvores, se via o velho e bem-cuidado farol de San Monero, uma pequena e charmosa cidade praiana nas costas da Inglaterra. Mais longe ainda, se via as grandes e belas montanhas cobertas de vida. Mais abaixo, se via a praia, com sua areia amarela que brilhava com a luz do grande sol acima de todos os habitantes e a esquentava. A calmaria das ondas envolvia todos que por ali passavam e os deixavam entrar em um momento de paz.

O centro da cidade tinha uma grande fonte branca, cheia de flores ao seu redor, pequenos comércios e pessoas amáveis.

E nessa cidade, em um chalé desolado, se comemorava o dia 09/05, onde Mark Philsen completava seus 21 anos de vida. O rapaz não tentava esconder o largo sorriso que exibia com felicidade para todos os familiares que se fizeram presentes, ou seja, todos. Era alguém normal como todos os outros da pequena e querida San Monero, mas difícil de se esquecer. Tinha olhos e cabelos igualmente castanhos, uma leve barba ainda crescendo e uma marca de nascença escondida atrás de sua orelha, quase invisível. De primeira vista, extremamente esquecível, bastava jogar papo fora na rua ou em algum bar com ele por um certo tempo que se entendia por qual razão era tão famoso por simplesmente ser legal. Toda a cidade (ou grande parte) o conhecia e tinha muito zelo pelo rapaz, era provavelmente o mais querido e adorável do lugar inteiro.

 

Sem hesitações ou interrupções, ele soprou levemente a vela, e o seu fogo, dançando no ar, se apagou subitamente sem muito esforço.

Fechando os olhos, ainda conseguia sentir o calor aconchegante da vela que se contrastava com o vento úmido e gelado natural daquele dia. Os 21 anos dele eram possivelmente os mais bem vividos da Terra. Sua vida era muito boa, teve pais que sempre o cuidaram e amaram, não importasse a situação, Mark estudou em uma escola onde era admirado por todos, desde alunos até professores por sua inteligência maior do que a média, por ser sociável e gente boa e muito bom em muitos esportes, considerado o menino prodígio da escola. Gostava muito de arte quando criança e sempre fora incentivado para, o que o fez acabar trabalhando como um exímio desenhista em um prédio luxuoso e bem localizado no coração de San Monero. Em resumo, era um cara legal. Sempre levou uma vida feliz, repleta de amigos, sempre andando com um rosto que contagiava a todos.

Sempre teve uma vida simples, mas sempre a levava de uma forma rica, dormia ás 22:00, acordava ás 6:00, tomava sua refeição matutina normalmente em casa: um pão meio passado, uma manteiga que já vivia na geladeira por mais de um mês e um café quente, mas sempre feliz, de vez em quando, optava por uma cafeteria velha que dizia ter as melhores panquecas da região, e Mark confirmava. Então, quando o relógio batia ás 7:00, ele caminhava por 25 minutos pelo centro da cidade e nos seus 5 minutos finais corria até um prédio, onde tinha um emprego qual amava e se orgulhava muito de fazer: desenhar. Achava que era como dar vida a alguém, era algo surpreendente para ele quando seus rabiscos começavam a tomar forma e acabavam em um suspiro de felicidade no fim e uma criação nova. O dia chegava a sua metade, e metade da disposição de Mark também, e era nesse horário que sempre ia comer alguma coisa no restaurante do outro lado da rua, então voltava para o prédio. Quando o relógio batia as 18:00, rodava a cidade e depois voltava para casa em sua paixonite, um Cadillac Eldorado 1958, relaxava um pouco e ia dormir. Sabia que era uma vida rotineira normal, mas sentia que uma coisa faltava. Para ele, faltava um amor, uma pessoa que o fizesse bem, não importa qual situação.

E esse foi seu pedido de aniversário.

Então, abriu os olhos novamente.

-E que venham mais 21 anos de felicidade! – Exclamava sua avó ao fundo, com doçura e felicidade. –O Mark é um bom companheiro, o Mark é um bom companheiro...

Ela começou o coral e seus outros parentes continuaram, e o sorriso se alargou ainda mais. O tio paterno, Thompson, começava com o “Com quem será”, logo interrompido pela sua irmã, o avô dava uma grande gargalhada e os primos roubavam alguns dos brigadeiros em cima da mesa que estavam dando sopa, enquanto seus amigos e colegas de trabalho os encaravam fazendo, e pediam um brigadeiro para não contarem a ninguém. E assim era a família dele, sempre animada e festiva e acolhedora.

 

A tarde se passou e aquele pedido não saía de Mark, continuava ecoando em sua cabeça a ideia de achar alguém que o amasse incondicionalmente. Pensou tanto que se perdeu no tempo e já haviam se passado quatro horas inteiras, e o céu já começava a ficar alaranjado e as nuvens rosas naquelas belezas de crepúsculos que apenas a cidade litorânea de San Monero poderia oferecer.

Depois que todos já tinham saído do chalé antigo onde viveram os avós de Philsen, o tédio invadiu e seguindo seus pensamentos, era hora de ir para casa. Mark entrou em seu Cadillac Eldorado 1958, colocou uma fita cassete no toca fitas que tinha pedido especialmente para o seu mecânico colocar, e a fita continha sua música preferida, Where Have You Been All My Life, de Kathy Mathia.

 E com a doce melodia invadindo seus tímpanos, seguiu até sua casa, passando na avenida considerada uma das mais bonitas da Inglaterra, Sandman Avenue, que em suas bordas esbanjava uma coleção de cerejeiras postas simetricamente por alguém que Mark tinha de dar um crédito, pois era um dos trabalhos mais bem-feitos que ele viu. Em seu asfalto, as pétalas caiam lentamente, e a cada acelerada, Mark as colocava para voar um pouco mais. Ele subia um morro pouco íngreme até sua casa, que era contornada por uma cerca branca. Estacionava o carro qual tanto se orgulhava andava pela “ruazinha” feita de placas de cimentos cantarolando e procurando as chaves, então voltando no carro e as achando depois de 3 minutos embaixo do banco. Passando ao lado de um pequeno jardim com rosas, girassóis, tulipas e orquídeas agora com a chave na mão, Philsen olhava sua casa laranja-amarelada, que ostentava uma grama verde bem cuidada.

A porta rangia com um charme estranho, e dava uma vista para a bela casa de Mark Philsen. Cozinha com um fogão (bem) sujo, um forno, uma geladeira e micro-ondas e um monte de armários com as mais variadas comidas e utensílios, mesmo quase sempre comendo fora no almoço. Sua sala abrigava uma estante, onde ele repousava sua televisão Trinitron, e acima dela, sua Polaroid Land Camera, qual tanto se orgulhava. Logo abaixo da estante, uma caixa cheia de VHS e fitas, e ao lado, um mural com suas melhores fotos tiradas no farol de San Monero ao pôr do sol, e um sofá central meio envelhecido. No seu quarto tinham mais algumas fotos, um guarda roupa quase sem roupas, um criado mudo e uma cama desarrumada, no banheiro, um chuveiro, uma pia e uma privada, óbvio. E mais algumas fotos de San Monero, mas o senhor Philsen não gostava de tocar no assunto. Ele chamava de prevenção. Se perder algumas, outras estão embaixo do papel higiênico, próximas a caixa de sabonetes, perto das escovas de dentes novas.

Deixando o casaco jogado no sofá, notou que o dia estava perto de acabar, então fez a sua sina antes de se deitar: agarrou um copo de chá, assistiu 15 minutos de televisão e foi dormir. Sonhou com um belo céu, com ondas relaxantes e uma brisa suave que não trazia frio, nem calor, apenas amor, tal como a bela moça no qual sonhou viver por toda sua vida. Tinha a conhecido na praça, e a convidou para um café da manhã com sua base inteiramente em panquecas. Acordou na outra manhã e se sentiu inseguro. Sozinho. Mas seguiu sua rotina de sempre. Acordou ás 6:00 da manhã e foi comer as panquecas, para ao menos conseguir suprir a vontade de um dos tópicos de seu sonho e tentar deixar a vontade do amor de lado.

 

-Bom dia, Philsen! O de sempre? -Mark acenou com a cabeça sem falar. –Dia ruim ou algo assim?

Ele acenou novamente para a garçonete Thead Morpheus, que amenizou um pouco o sorriso e foi até a cozinha passar o pedido.

 

Mark esperou. E esperou. O tempo não passava. Ele já não sabia mais o que olhar, já tinha visto o relógio, o cozinheiro preparando a meia dúzia de panquecas, os bancos vazios e o velhinho assoprando o café e queimando a língua a cada gole. Mark não gostava de falar, mas estava segurando o riso. Cada mínimo gole que dava, já fazia uma careta diferente.

Esperando, Mark tentava fazer uma musiquinha legal batendo com a unha do indicador na mesa de madeira, cuja melodia foi interrompida por um prato com uma dúzia de panquecas e uma gota de café quente caindo na mão.

-Me desculpa! – A garçonete exclamou. –O de sempre, para você.

-Valeu, Thead. Só tente tomar cuidado como café, é a terceira vez na semana que você derrama um pouco na minha mão.

- Eu já pedi desculpa, Philsen.

-É a terceira vez na semana que eu te peço para parar de me chamar de Philsen, também.

-Desculpa, Philsen.

Fala Thead, voltando para a cozinha segurando a risada com o nariz e tentando esconder o sorriso de canto de boca.

 

Após 16 minutos e 42 segundos assoprando o maldito café que não esfriava de jeito algum, ele desistiu de tentar e começou a bebericar de pouco a pouco, queimando um pouco da língua e da boca, e parecia mais amargo que o normal. O dia, mesmo com o sol massivo acima de todos, brilhando lindamente e fazendo todos cerrarem os olhos ao o contemplarem, o dia estava friozinho, então, Mark brincava de bufar para ver sua junção de vapor com gás carbônico se dissipar lentamente no ar depois de engolir 5,2 ml de café por vez. Sua dúzia se reduziu a onze, então para oito, e daí para meia dúzia, e tal como o vapor, se dissipou e se perdeu melancolicamente do mundo, só seria achada de novo dentro de seis ou oito horas, e não retornaria de forma tão poética.

 

Cansado de não fazer nada, se levantou e jogou o dinheiro contado que sempre trazia consigo na mesa de madeira fria onde tinha sentado, colocou sua jaqueta cinza e deu um tchau para todos, saindo rapidamente pela porta e fazendo o sino se balançar por um tempo, em uma leve e bonita melodia.

 

Andava pelo centro e só via a mesma coisa, que o encantava sempre, o velho chafariz branco e sujo, mas de água cristalina, os pequenos comércios humildes e modestos, que vendiam as mais variadas coisas, os transeuntes que por ali deixavam suas marcas quando andavam pela bela cidade de San Monero e principalmente aquela moça de cabelo curto, com sardas, ostentando os olhos com uma íris de cor suave e aconchegante, que contrastava com o branco da sua esclerótica, era um azul-claro, um Azul Bebê Jujuba de Maçã Verde, sendo mais preciso. A achava muito bonita quando vestia aquele moletom cinza, com uma mão em um dos bolsos e a outra sempre segurando um copo de café, que muitas vezes, possivelmente nem continha café.  Mas naquele dia estava excepcional. O sol estava nascendo por detrás das montanhas, dando ao céu um aspecto alaranjado, e a leve brisa matutina da cidade levava o doce aroma de um provável cappuccino para suas narinas. Nunca tivera coragem para falar com ela, mas sentia que precisava, chutando, talvez fosse a única pessoa da cidade qual ele não conseguia dar um “Oi” todo dia. Provavelmente a mulher a odiava por causa disso, o que o encorajava ainda menos, mas o dia estava tão para baixo, que não estava pensando tanto assim nas consequências, apenas parou em um raio de 2 metros dela e falou gaguejando levemente:

-Oi, olá, bom dia, meu nome é Mark. Mark Philsen. Eu fico sem assunto facilmente e falo demais. Esse hábito não é um dos melhores, mas qual hábito que é bom? Eu tenho o hábito de dormir, onde perco metade da minha vida fazendo nada e já gastei muitas horas por causa do hábito de ter de ir ao banheiro, refletindo. O dia está bem parado e eu nunca tive uma chance de falar com você. Na verdade, nunca tive coragem. E, por favor, fale alguma coisa que eu estou ficando sem assunto. – Mark olhava para o lado com as sobrancelhas em tom curioso e com uma cara séria, meio desligada. – Eu tenho bastante certeza de que eu devia ter ido com um pouco mais calma.

-Mark Philsen? Já ouvi esse nome por aí, seguido de “um cara bem legal”. Se você for quem está afirmando ser, espero que seja como me contaram.

-Eu realmente não sei por que deste título ser meu. Eu aposto que tem gente mais legal que eu lá fora. – Dizia Mark, enquanto catava lixo que outras pessoas tinham deixado para trás para jogar em seu devido lugar enquanto atentamente ouvia todos os argumentos da mulher que ria levemente do fato do homem estar refutando seus próprios argumentos sem antes mesmo de acaba-los. –Espero que eu seja como me contaram.

-Provavelmente você é. Eu sou Ashley. Ashley van Eeden.

-Descendente de alemães?

-Lebenslangerschicksalsschatz.

-O quê?

-Única palavra que eu sei em alemão. Descendente de italianos. Só tenho esse sobrenome porque minha mãe achou bonito.

-Justo. Van Eeden é um sobrenome bonito, de fato.

Então, sem assunto, ele levantou sua mão e abanou, tentando ser simpático, escondendo a timidez estampada na sua testa, e a outra, continuava com o belo sorriso sorridente, simples e genuíno, que apareceu se querer, com os olhos quase fechados olhando para o cara qual tinha acabado de falar, parecia alguém sorridente, simples e genuíno, que apareceu sem querer.

Um andou para frente e a outra continuou ali. Os dois seguiram caminhos diferentes normalmente, até notarem que nem um nem outro conseguiam se ver, e do além, ambos estavam ofegantes e suando de nervosismo, e pararam de sorrir, dando espaço para uma gargalhada súbita, meio baixa, que foi seguida de uma mão na cara.

O sino da igreja tocou e interrompeu a felicidade de um certo homem risonho e feliz, que não lembrava que era um dia útil. Estava meia hora atrasado e o prédio onde trabalhava ficava uns dois quilômetros dali. Se levantou do banco, e começou a andar. E acelerou o passo. Então correu. E correu mais, empurrando todo mundo e tudo que aparecia em sua frente, mas todo a correria e o trabalho valeu para alguma coisa. Mais trabalho.

Se escondeu atrás de um vaso e foi para o outro, até chegar em seu cubículo e fingir que esteve ali desde o começo da manhã. Dava graças que tinha levado uns rascunhos consigo na maleta. A pegou, e colocou a combinação nas duas maletas de couro pretas, que eram 9/20/9/19/1 e 4/18/5/1/13, e jogou na mesa todos seus projetos de desenho, demonstrando seu feito.

Pegou seu lápis e começou a desenhar uma moça, com cabelos curtos e negros, com sardas em uma grande parte do rosto, com um sol reluzente e laranja espiando atrás da cabeça da mulher, sorrindo sem mostrar os dentes e com os olhos entreabertos, tais como o dele. Era uma felicidade que simplesmente havia brotado do fundo do seu coração, e essa felicidade se espalhou por ele até ser cortada por seu chefe, um jovem de 22 anos sério, menos quando estava bêbado. Ainda bem que ele normalmente estava.

-Porra, Ma, nós precisamos de um vilão, e você fica me desenhando isso?

-James, eu já te disse que não deve ser saudável ficar tomando cerveja tão cedo. Tu sabe que eu não sou bom em fazer gente forte. Eu sempre erro a proporção do peito, ou fica parecendo uma mulher com o peito pequeno ou um galo pronto pra uma briga. Aliás, para que me chamar de “Ma”? Meu nome é Mark, não tem o que abreviar. Literalmente nada. São quatro letras, cara. É como se eu abreviasse o teu nome por “Ja”.

-É isso que eu quero, Marquete! Um galo pronto pra uma briga sangrenta! Quero que passe respeito! Medo! – Gritava o chefe de Mark enquanto dava socos idiotas no ar, fingindo ser um lutador profissional, e todos olhavam para o cubículo dele, o deixando com certa vergonha dele mesmo e de seu chefe. –Ja. Ja é um bom apelido. A partir de agora, todo me chamem de Ja! Ouviram? Ja! Somente e simplesmente Ja!- Berrava James, enquanto Philsen lentamente se encolhia na cadeira de escritório, que ameaçava ir para trás com suas rodinhas pretas de plástico - Falando sobre os desenhos, essa aí não é a que não faz nada?

Mark, confuso, perguntou:

-A que não faz nada? Como assim chefe?

-JA! É Ja.- Rosnou Ja, que logo se interrompeu em meio de sussurros de palavrões direcionados a ninguém em especial, tentando fazer Mark lembrar da mulher. Era impossível que ele nunca a tivesse visto, conhecia todos daquela cidade! Chegava até a ser meio assustador. -Aquela lá que tá sempre com o café lá. Sabe?

Então, na hora, Mark interrompeu seu chefe e deu a resposta sem pestanejar.

-Sei, a Ashley, né?

-Sei lá. Devo ter esquecido no meio de uma amnésia alcoólica. Você bebe? Já provou essa daqui? Essa é do Sul dos Lebenslangerschicksalsschatz, lá da Alemanha.

Lebenslangerschicksalsschatz. Todos se lembram dessa palavra. Se essa for a mais fácil do alemão, Mark não queria aprender tão cedo.

-Eu não bebo.

-Tu tá perdendo muita coisa, Ma.

-Eu? Você perde metade da memória todo dia.

Um silêncio súbito emerge. Meio desconfortável. Bastante desconfortável para falar a verdade. Ja encara Ma o mais sério que se pode enquanto se está levemente alcoolizado.

-Mais uma dessas e você está despedido.

Philsen se amedronta por um momento, e pensa consigo mesmo como seria bom se por ventura, o chefe também não lembrasse dessa última fala, enquanto pegava uma folha em branco para obedecer seu chefe.

Acabando de saborear sua cerveja alemã, literalmente nos seus últimos 2 goles e levando a folha A4 com o rascunho, ele deixava Mark continuar seu desenho da mulher e ia encher o saco de outra pessoa. E assim foi a tarde, James saía falando com outros funcionários até ficar sem assunto e partia para o próximo e Mark vadiava fazendo um desenho que possivelmente nem mostraria para Ashley.

O sol ia se abaixando e o relógio batia ás ¨18:00h, Mark dobrava a folha com o desenho que tinha trabalhado pela tarde inteira e colocou no bolso da calça. Talvez amanhã desse o desenho para Ashley, para ela se sentir melhor. Para falar a verdade, para ele se sentir melhor.

Entrou no seu carro, e foi até a biblioteca municipal pegar um livro estrangeiro, ainda não sabia qual. Italiano talvez? Precisava treinar um pouco sua. Lá no balcão bateria um papo com Victor, um descendente de franceses muito arrogante e egoísta de primeira vista, de segunda também, mas era um cara bem legal na visão de Mark. Ambos compartilhavam uma mesma paixão, gostavam demais do clima da biblioteca no final da tarde, normalmente tocavam um suave jazz baixo e relaxante e era por volta desse horário que os livros emprestados voltavam para lá e as pérolas da literatura ficavam por uma semana em sua posse. Todo dia, depois de procurar um pouco seu cartão da biblioteca, Mark batia um papo furado com o bibliotecário sobre dúvidas que ele tinha sobre francês, como o significado de Je t’encule e/ou Connard, e questionava ao simples funcionário se Omelette du Fromage era a frase mais sexy da França até alguém entrar no estabelecimento Com o rádio desligado e com o carro aos seus 40kmh, contemplando a beleza do pôr do sol, mergulhando nas águas cristalinas da praia de San Monero, deixando o céu colorido, mudando de cor a cada minuto, laranja, roxo, rosa, e por fim, um azul da cor dos olhos de Ashley.

 Estacionou o carro em sua garagem, colocou as mãos no bolso, procurando pela chave, achando no bolso traseiro esquerdo e foi até a porta, onde entrou na cozinha, onde pegou uma taça e olhou para um vinho que tinha ganhado de aniversário aos 19 anos.

-Tudo tem uma primeira vez, né? –Falou ele, sozinho. Essas palavras ecoaram por toda a casa e chegaram novamente aos seus ouvidos.

“Tudo tem uma primeira vez. ”

Agarrou suavemente a taça, colocando pouco a pouco a bebida, vendo como o líquido se comportava, se importando com as ondas vermelhas que formava e as gotas quase invisíveis que pulavam para fora, levou o vinho a boca e o degustou por um segundo, fingindo ser um sommelier.

-Hum. – Uma pausa se estabeleceu, e uma expressão também. Uma expressão indiferente, não fazia seu trabalho de esboçar uma expressão. Era simplesmente e completamente vazia. Uma pausa de 12.4 segundos, até o veredito final.  –Meh.

Meh.

A resposta para todas as perguntas.

Somente e simplesmente, Meh.

 

Engoliu com um certo desgosto o resto da bebida e foi até a cama, onde olhou para o teto, mesmo com olhos cansados, fixamente, e pensou sobre várias coisas, que sumiram e deram espaço a oito horas de sono com o sonho de ontem.

 

Não tão revigorado, acordou, mesmo assim, naquele dia 12/05, ás 6:07 A.M. na cidade de San Monero, no morro que passava pela Sandman Avenue, em um dia com o sol aparecendo sorrateiramente por entre as montanhas e se instalando na areia da praia, com algumas poucas charmosas nuvens no céu começando a ficar claro, enquanto um homem em uma casa laranja-amarelada pensava em o que dizer para uma mulher que literalmente só tinha falado com uma vez. Naquele dia em especial, estava totalmente e completamente feliz, sentia como se pudesse fazer tudo, até mesmo ter uma conversa civilizada com a única “desconhecida” da cidade. Colocou seu tênis de corrida, sua camisa e seu moletom e começou a caminhada matinal, se esquecendo até mesmo de tomar café, provavelmente deixado de lado enquanto tentava correr/caminhar ao mesmo tempo, para tentar soar o mais casual possível ao chegar e menos suado possível também.

-Bom dia! –Gritava Mark, ofegando o mínimo possível –Como vai?

Ashley, que olhava para o sol nascente, virava a cabeça em um momento interminável. De começo, uma expressão de confusão e meio irritada, mas depois de ver que era Philsen, ela se acalmou e um sorriso se abriu.

-Bom dia, Mark.

Sabe, tem certas coisas na vida que você se arrepende de falar. Eu te amo, não vai dar nada se eu descer esse morro sem freio, essa rodada eu pago e sim, você fica meia gordinha com esse vestido. E bom dia, como vai, também é um caso desses se você não tem assunto, o momento fica levemente triste e vergonhoso. Duas pessoas que ficam procurando palavras no fundo da mente que se encaixam em uma frase de fácil entendimento para continuar a conversa de maneira ordinária.

-O dia.... O dia tá bonito, né?

E você nunca acha um assunto bom.

-Sim, está mesmo.

E a resposta sempre é pior do que sua pergunta.

-Eu fiz isso daqui ontem no trabalho. – Disse Mark mostrando o papel dobrado para Ashley, que olhava curiosa e com o sorriso ainda em crescimento. –Ontem estava meio parado, daí eu desenhei isso.

O papel desdobrando fazia um barulho que incomodava um pouco os tímpanos dele, mas talvez, se ela gostasse, valesse a pena. Com a folha toda a mostra, ela começou a examinar o desenho rabisco por rabisco.

-Essa daqui sou eu? –Se indagava Ashley. Mark não fazia ideia se a pergunta era retórica ou não. –Ficou muito bom. Muito bom mesmo.

Conforme ela falava, ele ficava mais orgulhoso e confiante, de que talvez, somente talvez, tivesse uma pequena chance de ela dizer “sim” para sua proposta.

-E o tempo né? Frio! Bem frio!

Parece mais fácil em filmes falar com alguém. Você perde o sono pensando no que falar, vendo todas as possíveis perguntas e suas respectivas respostas, você pensa em todas as variáveis, leva em conta o tempo, o local, o horário, a beleza do local, a pessoa, tudo. Mais de duas vezes. E quando a aula para de ser teórica, tudo some como em um vendaval de um dia frio. Bem frio.

-Meh. – Ashley não conseguiu definir melhor seus sentimentos no momento. - Meh.

O silêncio sucumbiu do além e se posicionou, com cada braço envolvendo o pescoço de cada um, como um amigo chato que sempre encerra as conversas.

-Eu não queria fazer isso, mas vamos direto ao ponto. Pode falar tudo o que quiser.

-Eh... Eu, eu gostaria de perguntar se você gostaria de amanhã ir ao café, para... Para nós conseguirmos falar melhor um com o outro, ou coisa assim.

-Então o desenho foi para me amolecer?

-Não! Não! De jeito algum! Foi genuíno! Eu fiz no trabalho!

-Se acalma, Philsen. Você é um cara legal. Sim, eu quero

Mais alguns minutos de conversa fiada e Mark vai finalmente comer.

O sino bate com sua melodia pequena, que ecoa por todo o café, chama atenção de Thead.

-Atrasado, Philsen. – Dizia a garçonete, levando uma xícara de cappuccino ao velhinho de chapéu sentado na cadeira giratória de metal que rangia.

-Eu tenho um horário para chegar aqui?

-Na verdade, tem sim. Ás 6:35.

Mark parou um tempinho, em silêncio, e certos devaneios passaram por sua cabeça no momento.

-Eu sou tão previsível assim?

-Meh.

Meh já estava enchendo um pouco o saco de Philsen, nem parecia uma resposta de verdade.

-Tanto faz. Na verdade, eu só queria saber, qual o café mais caro?

-Importado do Brasil, $9,99.... Vamos lá, você nem gosta tanto de café, para que hoje quer isso?

-Na verdade é para amanhã, me dá uma média. Bem barata. Tem que economizar.

-O que tem amanhã que eu não sei?

A sobrancelha direita da garçonete levantava lentamente, em tom curioso. O espírito de fofoqueira de salão de Thead subia. Mais uma quentíssima para a próxima vez que fosse cortar o cabelo.

-Uma garota.

Os ouvidos de Mark doíam. Muita dor. Não queria ficar surdo um dia antes de um “encontro”. Ele não sabia que mulheres tinham tanta força para gritar. Um grito estridente e fino de 1.6 segundos, mas não dava para sentir raiva, ela era como uma mãe orgulhosa de seu filho, e o olhava com um teor de orgulho.

-Finalmente, Philsen! – Continuava, com a voz engrossando conforme falava – Pensei que isso nunca iria acontecer!

-Não grita, Thead! Todo mundo vai ouvir!

-Mark, só tem aquele senhor ali.

Apontando para o senhorzinho tentando não olhar para os dois e visualmente um pouco confuso, tentando se focar apenas no seu café amargo e barato. Procurando em si, Philsen achou uma paz interior e falou calmamente para a mulher da qual ele começava a se indagar se é tão legal assim ser amigo dela.

-Amanhã vai ser um bom dia.

 


Notas Finais


Meh.


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