História Segredos - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Anjos, Drama, Fantasia, Lobos, Romance, Vampiros
Visualizações 3
Palavras 5.129
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Fantasia, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


É a primeira vez que publico no Spirit, espero que gostem e acompanhem a jornada de Kate em segredos!
Toda crítica construtiva é válida.

Capítulo 1 - Um novo começo


            Esperança. Essa palavra tão pequena que cria no ser humano expectativas infinitas, utopias perfeitas, sonhos enraizados. A esperança move o ser humano, mas existem alguns que a perderam depois de muito sofrimento e ausência, depois de ver sonho a sonho ser destruído, depois de perder todas as forças para acreditar. A esperança é uma força incomum, mas depois que ela se vai, não resta nada.

            Eu costumava ser uma garota cheia de sonhos, a esperança me causava borboletas e eu acreditava que eram sinais de que tudo era possível, de que o mundo poderia ser meu se acreditasse e me esforçasse o bastante para conseguir. Mas a esperança foi morrendo dentro de mim, sem ao menos eu perceber. Não era como se eu tivesse escolhido deixar de ter esperança, mas o sofrimento e as desilusões foram abrindo uma cratera em meu peito, que engoliu tudo, desmantelando cada fagulha de luz dentro do meu coração.

            Diante de mim está a minha nova vista, árvores... Árvores por todos os lados. É a terceira separação de minha tia Evelyn, e como sempre nos mudamos de casa, de vizinhança, de tudo. Dessa vez tia Evelyn radicalizou e nos trouxe para o Brasil, ela e minha mãe nasceram aqui, mas foram para os Estados Unidos para estudar, bancadas por alguém de que nunca ouvi o nome, e foi assim que meus pais se conheceram na faculdade. Bem, depois eu nasci, e eles se foram - cedo demais. Não é uma história bonita, mesmo sem contar todos os detalhes que nos trouxeram até aqui.

            Nossa nova casa fica no topo de uma pequena montanha em um bairro rural da cidade de Joinville em Santa Catarina. Quando Evelyn me disse que iríamos nos isolar por um tempo eu imaginava uma cidade pequena, mas nós viemos para o meio do nada, em uma cidade completamente desconhecida, se não fosse o fato de Evelyn ter um amigo que mora aqui. O lugar é tranquilo, e o cheiro de terra e vegetação é indescritível para alguém que nasceu em Nova Iorque, é como estar purificando a alma. Não me importo de estar em um lugar assim, na verdade pela primeira vez eu tenho uma sensação de paz e isso realmente significa algo.

            Desço as escadas e vou até a cozinha, onde tia Evelyn está desempacotando algumas louças, não trouxemos quase nada, mas nós duas já estamos acostumadas a viver com muito pouco.  Observo-a por um momento e é quase como se estivesse olhando para minha mãe, Evelyn tem os cabelos ondeados e negros, a pele clara, e os olhos verdes, o rosto afinado e os lábios delicados, tudo era uma descrição quase fiel de quem foi sua irmã mais velha.

            — Ei, você está ai. — Ela sorri para mim.

            Eu queria poder dizer o quanto sou grata por cada suor que ela derramou por mim, por ter deixado tantas coisas de lado apenas para cuidar de mim, mas eu mal posso controlar minhas palavras, e me expressar dessa forma é como me expor nua em frente a uma multidão.

            — Deixe-me ajuda-la. — Me aproximo dela e começo a desembrulhar os pratos.

            Ela me encara. Acho que talvez se lembre do passado ao olhar para mim. Não que eu seja um retrato de minha mãe, na verdade acho que nunca poderia ser tão bonita quanto elas. Meus cabelos castanhos avermelhados, meus olhos avelãs, minha pele pálida, nada em mim merece atenção.

            — Kate, prometo que essa será a última vez... Que... — Vejo que seus olhos estão lacrimejando.

            — Tia, está tudo bem. Não importa o que aconteça, nós sempre ficaremos juntas.

            Ela acaricia meu braço, desvia o olhar e volta às louças.

            Nós duas vivemos tantas coisas, ela é a única razão para que me mantem viva. Depois que meus pais morreram misteriosamente, minha avó cuidou de mim e da tia Evelyn, mas durou pouco, ela também se foi e nós duas tivemos de aprender a lidar com o mundo, sozinhas.  Tia Evelyn é alguns anos mais nova que minha mãe, que morreu quando eu tinha apenas dez anos, mas apesar de ser adulta ela nunca se sentiu segura, sempre precisava da minha mãe para apoiá-la. Não a condeno por isso, às vezes sinto que o passado delas é muito maior do que me contaram.

            O sol está se pondo, resolvo dar um volta pelo lugar depois de desempacotar tudo que precisamos. Em frente à casa existe um pequeno jardim, ou pelo menos, onde um dia foi um  jardim, há uma fonte no centro e algumas flores remanescentes, tenho certeza que reconstruir o jardim será o passatempo perfeito para tia Evelyn durante um tempo. Mais a frente a estrada se estende e se perde em uma curva, e a oeste o tempo se perde entre as árvores e todas as criaturas que lá vivem. Olhando para a floresta me pergunto o que pode viver lá dentro, um calafrio passa por meu corpo e sei que é hora de entrar e me esconder em minha cama sob o cobertor.

            Não é fácil admitir que sua vida não faz sentido, bem... Às vezes é fácil alguém dizer isso depois de perder algo, mas só é válido quando você sente em sua alma, quando você sente que vive apenas para ocupar espaço no planeta e na vida de outras pessoas, quando você não tem sonhos, quando sua vida é um deserto sem oásis. Tia Evelyn tentou me convencer a ir a um psicólogo várias vezes, mas no fundo ela sabe que não existe ninguém no mundo capaz de mudar o que eu me tornei, e acho que ela deixou de se preocupar tanto depois que percebeu que não tinha intenção de tirar minha própria vida.

            Não há desespero, não há ansiedade, apenas o vazio, e isso faz com que eu sinta a necessidade de me esconder, seja lá do que eu esteja me escondendo, pois nesses momentos que o inseguro me invade é como se o buraco dentro de mim fosse me engolir. Eu nem ao menos choro, é tão irracional.

            — Kate? — Tia Evelyn bate à porta.

            Sento-me e tento agir normalmente.

            — Pode entrar tia.

            Ela está carregando uma bandeja com suco e um pedaço de pizza.

            —Espero que não se importe de comer pizza hoje. — Ela sorriu colocando a bandeja na mesinha de cabeceira.

            Eu balanço a cabeça e sorrio, ou pelo menos tento.

            — Bem, amanhã teremos muita coisa para fazer, tente dormir bastante. Sei que essa mudança é a mais maluca que já fizemos, mas... Eu não conseguia mais viver lá. — Ela engasga em suas palavras e angustias. — Mas André vai nos ajudar, ele disse que tem amigos em uma biblioteca da cidade e que irá te indicar para a vaga de auxiliar de bibliotecária, você só precisa levar um currículo e passar por uma pequena entrevista. Ele também disse que vai me levar até uma clinica que está contratando dentista. — Ela pausa e olha para mim.

            Vejo em seu rosto de 35 anos um cansaço que só quem passou por muito tormento pode transparecer. Eu a amo tanto, e queria poder trazer paz a ela tanto quanto eu queria ter esperança de novo.

            — Parece até um milagre que André seja tão bem engajado com a comunidade e possa nos oferecer tanta ajuda. — Ela continuou. — Vamos torcer para que tudo dê certo. Sei que auxiliar de bibliotecária talvez não seja o seu diploma em Letras mereça, mas é o bastante por um tempo.

            — É perfeito tia. — Digo entre respirações profundas. — Biblioteca é meu paraíso.

            O emprego é algo que eu preciso, já que minha insanidade não me permite realizar o sonho de ser escritora, e estar cercada de tantos livros é tão perfeito quanto eu posso imaginar. Ao menos eu terei vários mundos e vidas para conhecer enquanto estiver lá.

            — Boa noite anjo. — Tia Evelyn me beija na testa e sai.

            Fecho os olhos e espero o sono chegar. A noite foi longa, acordei diversas vezes com a sensação de ter escutado sons estranhos, e ainda fui agraciada com um sonho, bem, também poderia ser um pesadelo. Eu estava sozinha em uma espécie de labirinto e de repente minha mãe apareceu com uma expressão assustada – ela ainda tinha a aparência de quando eu tinha apenas 10 anos -, e depois meu pai aparece atrás de mim e estende a mão me chamando, de um lado tinha minha mãe sem reação além de sua expressão e do outro meu pai estendia a mão me chamando, eu não podia simplesmente escolher entre um dos dois. Meus pés começaram a afundar na terra, que era preta e estava molhada, olhei para os lados e meus pais não estavam mais lá, eu estava sozinha sendo engolida. Só acordei novamente com a luz do sol em meus olhos.

            Olho-me no espelho e vejo as sombras escuras por baixo dos meus olhos, que ótimo. Vou ao banheiro e relaxo na banheira por alguns minutos, apenas sentindo o calor vindo de fora e a água tocando minha pele. O dia será longo tanto quanto minha maravilhosa noite, espero que ao menos eu consiga um emprego e conheça um pouco mais a cidade. Espero também que tia Evelyn consiga o emprego, ela é uma excelente profissional e merece se estabilizar novamente. Talvez ela e André possam ficar juntos, eu não o conheço muito, mas Evelyn sempre fala dele com um ar apaixonado, ou talvez eu só queira que ela encontre alguém que possa cuidar dela da forma que precisa.

            Quando desço Evelyn já está vestida, está sentada lendo o jornal e tomando café. A matéria principal falava de estranhos desaparecimentos nos últimos meses, foi a única coisa que consegui ler antes de Evelyn jogar o jornal de lado e me forçar a tomar o café da manhã.

            — Você precisa se alimentar garota, está tão magra que pode desaparecer.

            — Eu estou bem... — Resmungo, mas pego uma fatia de pão e como.

            — André já deve estar chegando, nós vamos no carro dele hoje. — Evelyn olha seu reflexo na janela e arruma o cabelo.

            A última separação de Evelyn já faz um ano, o tempo que levamos para vir para o Brasil, acho que ela já está pronta para um novo romance. Ela lida incrivelmente bem com isso, e às vezes me pergunto se isso é um ponto positivo ou negativo. De qualquer forma espero que se André se envolver com ela seja o melhor homem possível.

            O carro de André estava parado próximo ao jardim na frente da casa, Evelyn foi ao encontro dele enquanto eu verificava as trancas das janelas e portas. André é um homem de quarenta e poucos anos, alto e moreno, os olhos são fundos e negros, ele tem uma aparência indígena, principalmente ao notar seus negros e lisos cabelos. Ele está colocando uma mecha de cabelo de Evelyn atrás da orelha dela quando chego ao carro.

            — Bom dia Kate, está pronta? — Ele me cumprimenta com a mão.

            — Sim. — Tento sorrir.

            E então pegamos a estrada. O chão de terra deixa um rastro de poeira por onde passamos, estou sentada no banco de traseiro olhando para trás enquanto nos afastamos cada vez mais de nossa nova casa. Há casas de tempos em tempos, e muito verde, montanhas e áreas planas apenas cobertas por uma espécie de grama, em alguns lugares existem pequenas flores compondo a paisagem. Passamos por alguns lagos e grandes fazendas antes de entrar na cidade, que aos poucos vai ganhando mais movimentação. Levamos pelo menos quarenta minutos para chegar ao centro, antes de irmos à biblioteca onde eu possivelmente irei trabalhar, André nos leva até uma unidade cultural da cidade, a Estação da Memória, o edifício é um dos marcos do desenvolvimento da cidade e da história ferroviária do Brasil, segundo o que André nos diz. O edifício com pintura rosa e arquitetura europeia se destaca no local, é bonito e me faz sentir como se estivesse em outro país.

            Depois de nossa curta passagem pela Estação da Memória seguimos para a biblioteca Rolf Colin, que foi reconstruída em uma antiga pizzaria. Segundo André o prédio data da década de 80. Quando chegamos ao local pude perceber o quão bonito era, em frente há um estacionamento e logo em seguida há várias entradas para o edifício.

                Uma funcionária do local nos recebe e faz um pequeno resumo sobre a história da biblioteca, que possui acervo com mais de 55 mil títulos. A funcionária se apresenta como Laura, aparenta ter uns 25 anos, tem cabelos loiros e olhos azuis, ela é bem gentil e animada, segundo ela está trabalhando no local a pouco mais de três meses e está amando a experiência. Ela nos leva até a coordenadora da biblioteca, que recebeu André com entusiasmo, então ela nos cumprimentou e me chamou para uma pequena entrevista.

            — Bom, Katherine, terminamos aqui. — A coordenadora diz após encerrar a entrevista. — Entraremos em contato em breve.

            Me despeço dela e de Laura, e então vou ao encontro de André e Evelyn.

            — Só tenho que esperar agora. — Digo a eles.

            — Tenho certeza de que você irá conseguir, sua tia disse que você é boa em tudo que faz. ­ — André sorri.

            Eu sorrio sem graça. Tia Evelyn vê em mim coisas que eu desconheço como esse talento para tudo, na verdade a única coisa em que realmente sinto que sou boa é em me perder dentro de páginas de livros.

            Dez minutos depois e estamos em frente a clinica odontológica onde Evelyn irá trabalhar. Tudo parece estar caminhando de acordo com os planos, isso me deixa tranquila, mudar para outro país me deixou com medo de não conseguir nos inserir. De certo modo André tem sido um milagre em nossas vidas.

            — Sei que vocês ainda estão cansadas da mudança, mas gostaria de fazer um convite. — André disse enquanto retornarmos para casa.

            — Estamos ouvindo. — Evelyn disse sorrindo.

            — Queria levar vocês a uma festa... Bem, é mais uma reunião do que uma festa, mas meus amigos e familiares estarão lá, acho que vocês podem fazer novas amizades.

            Evelyn olha para mim com ar questionador. Sei que se eu disser que não quero ir ela também abrirá mão de uma noite divertida. Não posso negar isso a ela, mesmo que eu não me sinta atraída por me envolver com pessoas desconhecidas.

            ­— Acho que será ótimo. ­— Digo olhando para ela.

            Evelyn e André sorriem animados.

            Percorremos o restante do caminho em silêncio, embora eu sentisse que André queria falar algo para Evelyn todas as vezes que seus olhos se encontraram. Estive distraída com os dois que mal notei os cenários pelos quais passamos, só me dei conta que estava encarando-os por tempo demais quando já estávamos na entrada da estrada que levava a nossa casa. O carro forçou o motor para subir, o chão é ladrilhado mais próximo de nossa casa e as árvores nas laterais foram pintadas de branco entre a raiz e o início do tronco, elas estão enfileiradas coordenadamente o que indica que foram plantadas ali e não nasceram desorganizadamente como no restante da floresta que nos rodeia.

            Descemos do carro e nos despedimos de André, por algumas horas, até ele vir nos buscar para sua festa – reunião. Mais uma vez olho para dentro da floresta, o incerto lá dentro me causa uma sensação nova, mas o calafrio ainda me afeta, me obrigo a aguentar a injeção de correntes elétricas em meu corpo que me fazem querer correr para dentro do quarto. Há algo ali que me faz querer adentrar na escuridão, um convite insistente.  

            — Vamos entrar querida. — Evelyn me chama.

            — Acho que vou ficar mais um pouco, o ar puro aqui é muito bom. — Sorrio.

            — Tudo bem, então... — Ela entra e me deixa sozinha diante dessa provocação.

            Estamos no meio do nada, a única coisa que posso encontrar entre as milhares de árvores são animais ferozes como onças ou lobos, mas ainda assim tenho a sensação assombrosa de que há mais do que isso, algo pior do que alguns animais. Lembro-me de minha avó dizer que eu era a criança mais sensitiva que ela já conheceu, mas na época isso não fez muito sentido, quando meus pais morreram e todas as outras coisas ruins aconteceram eu pude pressentir cada uma delas, embora eu nunca tenha tido possibilidade de evitar o que estava vindo, então eu soube que ela tinha razão. Olhando para a floresta a sensação, embora assombrosa, não é nada parecida com os avisos de antes.

            Resolvo caminhar para dentro da floresta, passo pelas primeiras árvores, troncos caídos e todo tipo de vegetação. O ar entre as árvores é ainda mais puro e me permito absorver tudo. Posso escutar vários pássaros cantando, e o som das árvores e das folhas ao se moverem com o vento, e o resto é silêncio. Olho para trás e ainda posso ver a casa, estou muito perto ainda, posso caminhar mais para dentro e talvez encontrar uma clareira ou lago. Quando a casa começa a desaparecer de vista tiro a blusa de manga que estou usando e amarro-a em uma árvore, apenas por precaução, não sou muito boa em guardar caminhos. Ficar só de camiseta permitiu que o vento tocasse os pelos dos meus braços me causando leves arrepios.

            Olho para trás novamente e sinto que a distância já não é mais segura, tudo que encontrei até aqui foi mais do mesmo, com a diferença de que podia ouvir o som de uma cachoeira, mas não podia continuar agora. Eu voltarei com mais sinalizadores da próxima vez e irei até o fim.

            Volto para casa e ligo meu notebook. Entro no meu e-mail e vejo uma mensagem de Lucia, minha única amiga nos Estados Unidos, deveria ter verificado antes, pois a mensagem já foi enviada há uma semana.

            Kate,

Sei que você está envolvida com todos os detalhes da mudança e adaptação no Brasil, mas, por favor, me dê algum sinal de que está tudo bem e que minha amiga ainda me ama. Sinto muita falta de você e da Evelyn, será difícil ficar aqui sem vocês.

Espero receber notícias em breve e, por favor, tente ser um pouco mais moderna, nos comunicar apenas por e-mail é tão antiquado.

            Abraços e Beijos.

 

            Lucia entrou em minha vida logo após a morte dos meus pais e desde então tem sido mais do que uma amiga, ela foi uma irmã que me abraçou e ouviu quando eu sentia que ninguém mais poderia entender o que estava acontecendo comigo. Ela nunca me abandonou, nunca me julgou, ela me aceitou como realmente sou e me deu alguns valiosos momentos de alegria. Ela estava certa ao cobrar uma mensagem, eu devia isso a ela, mas até agora eu não tive um momento em que pudesse realmente me abrir para ela e contar todas as novidades.

            Lucia,

Nós já estamos instaladas na nova casa, e hoje fizemos nossas entrevistas de empregos. André é um ótimo amigo, nos convidou para ir a uma festa para conhecer seus familiares e amigos, isso provavelmente vai ser ótimo para Evelyn, então eu também irei.

Desculpe-me por não entrar em contato por tanto tempo, a internet foi instalada a pouco tempo e acho que em breve teremos um telefone também, então não serei mais tão antiquada. Eu não tenho muitas novidades, e ainda me sinto fora do eixo, não tinha muito sobre o que falar com você, mas eu te amo e sinto sua falta, Evelyn já brigou comigo por eu ser uma amiga tão insensível, ela sente muita saudade também.

Espero que de alguma forma a gente possa se encontrar de novo.

De sua amiga maluca,

Beijos e abraços.

 

Desligo o notebook e pego um livro para ler. Das coisas mais importantes que trouxe para o Brasil estava minha coleção de livros, felizmente consegui organizá-los em uma estante muito bonita que André fez para mim depois que Evelyn contou sobre minha paixão. O livro é A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Edgar Allan Poe.

            Só retornei à realidade quando Evelyn chamou por mim. Coloco o livro de volta a estante e  olho para o relógio sobre a mesinha de computador, já passam das seis horas da tarde. Vou até as escadas e aviso a Evelyn que irei me arrumar para a festa de André.

            Pego um vestido preto que Lucia me deu no meu último aniversário e desço para encontrar com Evelyn. Ela está incrível em um vestido vermelho com detalhes pretos, faz tempo que não a vejo tão impecável.

            — Você está incrível tia. — Digo lhe dando um abraço.

            — Obrigada querida. — Ela sorri. — Você também está belíssima. Me pergunto se estou exagerando no look...

            — Bem, nós não sabemos como será a festa, mas de qualquer forma aposto que será a mais linda do lugar.

            Ela sorri e percebo que está corada.

            Nós saímos da casa e resolvemos caminhar até a entrada. Antes de passarmos pela curva eu dei uma última olhada para a floresta, tudo estava como antes, estático. Quero encontrar a cachoeira o quanto antes, talvez eu faça de lá um lugar para fugir quando não quiser fazer Evelyn sofrer.

            O ar fresco faz parecer que o dia não estava tão quente mais cedo, e Evelyn parece saborear cada instante do silêncio e do frescor do início da noite. Queria dizer a ela o quanto estou desejando que dessa vez as coisas mudem, pelo menos alguém dessa família merece ser feliz o bastante por todos os outros que tiveram a vida roubada ou a esperança levada. O meu desejo pode não valer muito, já que não acredito mais em alegria, não em minha vida, mas quero acreditar que Evelyn possa ser recompensada por tudo.

            O carro de André aparece quando estamos na metade do caminho. Ele está vestindo camiseta – e pela primeira vez percebo os seus braços enormes -, e jeans, acho que estamos arrumadas demais afinal. Ele demora seu olhar em Evelyn e sei que ela também notou.

            — Acho que terei problemas para defender duas belas damas essa noite. — Ele diz sorrindo quase de forma maliciosa.

            — Esperamos que não seja necessário nos defender. — Digo, um pouco fria demais.

            Entramos no carro e seguimos para sabe-se lá onde.

            Percorremos um longo caminho para o norte, entramos e saímos de estradas escuras, cobertas por uma densa mata, passamos por lagos e por boa parte do tempo quase não passamos por nenhuma casa habitada. A noite é tão escura aqui, isso não me incomoda, mas é diferente para alguém que sempre viveu na cidade grande.

            — Kate, sua tia me disse que você aprendeu português desde pequena, fiquei feliz em saber que você não deixou se perder uma parte de sua herança. — André diz.

            — Sim, eu amo a língua portuguesa, e definitivamente não poderia deixar de aprender já que minha mãe e tia Evelyn sempre se dedicaram a me ensinar.

            — Sua vida será muito mais fácil aqui no Brasil, acredite. — Ele diz, colocando intensidade em sua última palavra.

            Eu acreditaria se já não estivesse acostumada à perde e ao sofrimento, no fundo eu quero acreditar, então finjo estar feliz. Me pergunto se é possível alguém com o meu passado recuperar alguma esperança, se é possível encontrar um sentido para viver.

            Uma hora de estrada depois e chegamos ao local da festa. É ainda mais afastado da cidade, mas há muitas luzes e tochas de fogo espalhadas, há muitas pessoas, todas são morenas e de aparência indígena como André, e isso me faz sentir muito inadequada em minha palidez e roupas estranhas, a maioria estava vestida de forma confortável, jeans, camisetas, vestidos de verão. A única coisa estranha na festa além de mim e tia Evelyn era o fato de não ter nenhuma criança.

            — Onde estão as crianças? — Evelyn parece adivinhar meu pensamento.

            — Hum... Geralmente não trazemos as crianças às nossas reuniões. — André ficou sério de repente.

            Evelyn me olha um pouco confusa e tento disfarçar minha curiosidade.

            As pessoas nos encaram enquanto passamos por elas, alguns cochicham ente si, isso me deixa irritada. Caminhamos até a entrada de uma grande casa, provavelmente os responsáveis pela festa. André cumprimenta um homem mais velho com barba longa e olhos enrugados, depois ele se dirige para uma mulher sentada próxima ao homem mais velho, ela é extremamente bonita e tem pelo menos a metade da idade do homem, mas ainda assim parecem ser um casal. Eles não falam com a gente, apenas falam algo inteligível para André que nos guia para uma fogueira.

            — Achei que faríamos amigos aqui, mas esse pessoal não parece muito receptivo. — Evelyn diz.

            Se fosse em outro momento eu iria me envergonhar de sua falta de tato, mas nesse momento a verdade nua e crua precisava ser dita. Já era difícil o bastante para eu vir até um lugar cheio de pessoas desconhecidas para ter que ser alvo de cochichos e nenhum “olá”.

            — Desculpe-me, os líderes não são muito comunicativos, mas prometo que logo todos irão se sentir a vontade para falar com vocês. — André diz enquanto chama alguém com o braço.

            — Líderes? Eles são tipo os responsáveis pela comunidade? — Evelyn pergunta.

            — São um pouco mais que isso, mas não importa. Eu as trouxe aqui, pois quero que todos as conheçam e saibam que são importantes para mim. ­— André diz.

            Algo em seu tom de voz me alerta. Por que precisamos ser apresentadas a tantas pessoas que parecem não se importar com nossas existências? E a forma de respeito que André transparece com os líderes está além do que considero normal.

            — Ei André, como vai? — O rapaz que André chamou chega até nós.

            Ele nos olha por um momento e sorri gentilmente, a primeira pessoa a ter uma reação assim desde que chegamos. Ele é tão bonito quando André e a líder. Tem braços fortes amostra, usa bermudas e chinelos. Os olhos são grandes, mas afinados, mais como olhos asiáticos do que indígenas, de cor castanha, os cabelos são mais claros, um tom de marrom dourado e a pele morena.

            — Meninas, este é Dylan, meu sobrinho, embora ele me trate como colega. Esse pirralho. — Os dois trocam socos amistosos.

            — E ai Dylan. — Digo. — Pode me chamar de Kate.

            — Katherine acha o nome dela muito velho. — Evelyn me provoca com um largo sorriso. — Sou Evelyn.

            — É um prazer conhecer vocês, meu tio aqui não parou de falar de vocês desde que soube que viriam para cá.

            André o empurra levemente.

            Eles parecem bem próximos. Às vezes um completa a frase do outro, e em outros momentos se você fechar os olhos é quase impossível distinguir quem está falando.

            — E sua família aqui no Brasil, onde estão Evelyn? — Dylan pergunta.

            Uma nuvem negra cobre o rosto de minha tia. Eu já havia feito essa pergunta algumas dezes de vezes, e a resposta sempre foi a mesma:

            — Não sobrou ninguém.

            Todos ficaram quietos por um momento.

            — Vocês precisam conhecer a mãe do Dylan, minha irmã vai adorar vocês. — André diz para quebrar o silencio.

            — Com certeza ela irá adorar. — Dylan diz olhando para mim.

            André saiu para encontrar a irmã e nos deixou com Dylan. Ele e Evelyn falavam sem parar, ela estava começando a se sentir confortável e automaticamente eu também relaxei. Dylan contou que seu pai é coreano e veio para o Brasil depois de conhecer a mãe dele em um evento – do qual ele não deu muitos detalhe. Ele também disse que a aparência indígena não é apenas coincidência, a comunidade é formada por uma antiga civilização nativa dos Estados Unidos, a maior parte da população desconhece a origem deles, e mantêm isso em sigilo.         

           Não entendo porque Dylan está tão confortável em contar tantos detalhes sobre sua comunidade, se para os outros guardam segredos, como se protegessem algo, ao mesmo tempo em que toda essa transparência me deixa segura há uma parte de todos esses segredos que me deixam confusa.

            Um bom tempo passou até que André voltasse com sua irmã. Ela tinha uma expressão cansada, mas ainda era uma mulher bonita, alguns traços dela se perpetuaram em Dylan, como a cor da pele e os lábios volumosos. Anna, parece mais velha que André, e também tem uma áurea de sabedoria que só vi no líder da comunidade. Ela se apresentou e se sentou com a gente, embora não tivesse toda a alegria e animação de Dylan se dispôs a nos contar mais detalhes da comunidade.

            — É importante que você saibam disso já que André quer que vocês sejam protegidas por nossa comunidade. — Anna disse com o rosto apático.

            — Nos proteger de que? — Pergunto.

            Ela me analisa por alguns segundos e lança algumas folhas, que estava segurando, na fogueira.

            — De qualquer coisa. — André respondeu pela irmã.

            A resposta de André foi vaga demais, então continuo encarando-a, cobrando uma explicação melhor.

            — Nossa comunidade se protege, nós apoiamos a cada membro, pois somos uma família. Desde problemas na casa até problemas com vizinhança. Uma vez que você se torna parte da comunidade será assim. — Anna responde com ar cansado, como se tivesse repetido aquela frase milhares de vezes.

            — Vocês são as primeiras forasteiras a entrar para a comunidade. Devem se sentir orgulhosas. — Dylan sorri com ar natural e o clima ameniza.

            É tudo tão intenso, como se cada um deles estivesse disposto a morrer no lugar do outro só para proteger aquela comunidade, ou como Anna disse, aquela família. Eu e Evelyn nos olhamos e sei o que ela está pensando, nós não sabemos a sensação de ter uma família grande e unida, não sabemos como é fazer parte disso, e isso nos apavora depois de perdermos todas as pessoas que amamos.

            Levanto-me e saio para caminhar um pouco, as pessoas já não nos encaram mais e algumas até me cumprimentam quando passam. Alguns metros de onde minha tia e os outros estão sentados há uma plantação , do outro lado da estrada há uma entrada para o que provavelmente é outra fazenda. A casa dos líderes vista daqui não é tão grande, e só agora notei que é toda de madeira, a pintura branca na frente e a atitude nada receptiva não me deixou observar cuidadosamente o lugar.

            Olho para o norte e a estrada acaba apenas alguns metros de onde estamos, me pergunto onde estão as outras casas da comunidade e porque André mora na cidade quando tem sua família aqui. E o fato de terem nos aceitado também me surpreende, a influência de André é grande aqui também, concluo.

            Eu não sei o que virá na próxima manhã, não sei se eu e Evelyn vamos nos encaixar nessa comunidade, mas vou silenciar minha mente pelo menos por enquanto. Vou deixar todas essas perguntas para o futuro, quando as coisas começarem a fazer mais sentido e não parecer apenas um sonho onde várias coisas boas acontecem depois de muito tormento. Vou aproveitar só por agora o abraço de uma família que nunca tive.



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