História Seis Peças de Um Quebra-Cabeça - Capítulo 2


Escrita por: ~ e ~Tahinha

Postado
Categorias Originais
Tags Drama, Original, Romance, Suspense
Visualizações 35
Palavras 4.668
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), FemmeSlash, Festa, Ficção, Romance e Novela, Slash, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Bem vindos de volta a apresentação de mais uma de nossas peças. Se acomodem e apreciem o lado de Chloe nesse quebra-cabeça.

Capítulo 2 - Peça Dois


Fanfic / Fanfiction Seis Peças de Um Quebra-Cabeça - Capítulo 2 - Peça Dois

Franca, (SP). Brasil, 2012.

                                                                                                                                                                                          09h23min

                                                      

Point of view Chloe Vittale

 

Um som ao fundo me incomoda, ele se intensifica a cada segundo, ainda não consigo identificar de onde vem. Não consigo abrir meus olhos. Esforço-me com dificuldade, minha mente não colabora, acho que são batidas na porta... Sim, agora ouço, são batidas desesperadas na porta, mas não quero me levantar, na verdade não consigo. Meu corpo está pesado, meus olhos não respondem meus comandos. Começo a ouvir algumas vozes, as batidas começam a me incomodar, tento erguer a cabeça, é inútil, mas meus olhos se abrem, tento descobrir onde estou; apenas uma fresta vinda da janela clareia parcialmente o ambiente. Em cima do meu peito à um braço me impedindo de levantar. Olho para o lado e um rapaz moreno, de cabelos negros e curtos, está agarrado em mim. Com muito cuidado retiro seu braço. Sento-me na cama ainda atordoada. Aos poucos vou reconhecendo o local... É meu quarto! Os moveis na cor preta e as paredes de tons claros me ajudaram na identificação.

– Graças a Deus estou em casa – Suspirei aliviada.

As batidas na porta haviam cessado. Tentei-me levantar e tudo rodou, tive que me deitar novamente, meu corpo doía e meu estomago revirava, ainda sentia o gosto da vodka na boca. Ascendi à luz do abajur no lado esquerdo da cama. Olhei mais uma vez para o rapaz nu, coberto apenas por suas tatuagens. Ele tem um corpo bem definido e as costas largas, mas não tinha ideia de quem era e muito menos seu nome. Nessa hora me arrependi de não conseguir me lembrar, pois as sensações davam indícios de uma noite bem animada, ainda mais devido ao fato de suas atribuições serem (não consigo encontrar outra palavra senão), enormes. As batidas voltaram a me atordoar, pareciam martelos pregando pregos em minha cabeça. Levantei-me com cuidado, caminhei em direção a porta, me desviando de alguns objetos e roupas espalhadas pelo chão. Vesti meu roupão preto que ficava atrás da porta, e a entreabri.

– Nossa até que enfim Chloe, eu estava ficando preocupada, achei que você tivesse morrido aí dentro – Seu tom era verdadeiramente preocupado.

– Oh me desculpe, eu não estava conseguindo me levantar. Acho que temos um problema – Falei abrindo totalmente a porta do quarto, olhando para o rosto espantado de minha melhor amiga, com um sorriso sem graça nos lábios.

Seus olhos percorreram curiosos pelo interior do cômodo, quando se deparam com o jovem rapaz, ela passou de branca a quase transparente, sua expressão incrédula me fez rir da situação.

– Quem é ele? – Perguntou baixinho.

– Esse é o problema, eu não faço ideia – Disse num tom divirto.

– Você precisa resolver isso, já estamos atrasadas – Logo se afastando.

– Atrasadas? Atrasadas para o que? – Perguntei confusa.

– Em que universo você está Chloe!? Acho que o excesso de álcool e sexo tá acabando com seus neurônios. Hoje é o dia do cerimonial de encerramento do Carlos, ele exigiu que a gente fosse. Você se lembra disso? Eu vim trazer seu vestido, até porque seria impossível encontrar algo que não fosse preto ou de coro no seu guarda-roupas e me arrumar como havíamos combinado, sua Avó me deixou entrar, meus pais vem nós buscar em uma hora.

– Wow, sim é verdade. Eu havia me esquecido. Nossa que bom que você existe Natasha. Agora me ajuda com isso aqui – falei envergonhada apontando para a cama.

– Você tem certeza de que ele está vivo? Ele nem acordou com a nossa conversa! – Natasha é uma jovem alta, loira, robusta, de olhos castanhos e rosto expressivo. Ela ascendeu à luz do quarto, meus olhos se fecharam automaticamente, pegou a camisa que estava no chão e jogou no homem desnudo.

– Oh bonitão, você precisa pegar suas coisas e ir embora – disse em voz alta.

Ele custou abrir os olhos, mas quando conseguiu, levantou-se subitamente, nos dando uma bela visão de seus atributos. Já em pé me encarou e depois Natasha, em seguida olhou para onde eu fitava, nesse momento esperei que ele fosse se cobrir, ou ao menos tentar, mas não, apenas voltou a nos encarar com um sorriso safado no rosto e disse:

– O que está acontecendo?

– Você é gato e está na cama certa, mas na hora errada – Natasha exclamou agora já analisando o corpo do tatuado, virou-se para mim e continuou – Bela escolha Chloe, mas agora pede para ele colocar a roupa.

– Ei, eu ainda estou aqui! – ele afirmou.

– Estamos vendo – alarmei com o cenho franzido.

Natasha e eu nos entreolhamos com malicia, o moreno correu os olhos pelo quarto, numa esperança de se situar. Seus olhos negros se encontraram com os meus cor de mel, como um pedido mudo de explicações, sem sucesso e em um movimento de retomada de consciência ele começou a vestir sua calça, foi um alivio para mim, por que não conseguia me concentrar com ele nu na minha frente. Vestiu sua camisa branca e terminou de fechar o zíper da calça jeans, nesse momento Natasha e eu começamos a trocar sorrisos, essa situação não é totalmente inusitada; ela já me ajudou com isso, mas é sempre engraçado. O rapaz, agora vestido, pegou suas meias e sapatos, veio em minha direção, beijou-me nos lábios, foi um selinho rápido com gosto de vodka. Seguiu em direção a porta; sendo seguido por Nat, os dois pararam na entrada do quarto quando ouvi:

– É só você seguir até o final do corredor, encontrar a sala e lá vai estar a saída – Nat aponta para o corredor a direita.

– Se eu achar a saída sozinho, ganho outro beijinho?

– Espera o namorado dela chegar e pergunta pra ele – Nat mentiu tentando parecer seria.

O rosto dele passou de safado a espantado e seus olhos me procuraram dentro do cômodo, eu apenas assenti. Ele não pensou duas vezes e sumiu de nossas visões. Rimos juntas.

– Porque você gosta de torturar? – Perguntei fazendo uma careta.

– É cada um que você arruma – Natasha disse me encarando séria e continuou – Vá tomar um banho, eu quero me arrumar logo – terminou gesticulando com as mãos.

Sai do quarto em passos rápidos, adentrei o banheiro, fiz toda minha higiene; tomei uma ducha, queria ficar debaixo da água o dia todo, mas hoje tinha horário. Terminei e voltei para meu quarto, enrolada no mesmo roupão. Natasha, agora estava com um belo vestido vermelho; os cabelos com uma trança lateral, se maquiando em frente o grande espelho ao lado da cômoda preta.

– Está linda Princess – Meu sorriso era enorme.

– Cala a boca – soltou num falso tom sério.

– Nossa, adoro seu mau humor matinal – Revirei os olhos.

– A culpada é você, nos últimos meses só tem me dado dor de cabeça, cada noite um cara diferente, cada manhã uma resseca pior –  esbravejou realmente sério.

– Desculpa. Não está mais aqui quem falou – peguei meu vestido e abandonei o quarto dizendo  – Vou me trocar – terminei fechando a porta. Ouvir aquilo me dava um choque de realidade. Pergunto-me como cheguei até aqui? Na verdade sei exatamente a resposta, mas a pronúncia tornaria real.

Devidamente vestida e alinhada, com o belo vestido cinza e os saltos pretos, sai do quarto em direção à cozinha, encontrando minha Avó Teresa sentada à mesa, tomando seu café.

– Bom dia filha! Chame a Natasha e venham tomar café.

– Obrigado Vó, estamos atrasadas. Só vou tomar água, temos que ir para o cerimonial do Carlos.

– Eu sei, Natasha me disse quando chegou desesperada atrás de você. Eu disse que você estava acompanhada, mas ela não me deu ouvidos – Minha avó disse calmamente. As vezes me questiono se toda essa compreensão é adequada.

– Ela nunca ouve – Dei de ombros.

– Vê se não chega tarde, você não pode se esquecer de seus compromissos – Seu tom era autoritário.

– Pode deixar – Dei um beijo em sua testa e logo deixei a cozinha.

Segui pelo corredor chegando à porta do meu quarto, talvez Natasha estivesse de mau humor ainda e eu não devesse entrar, mas não tenho outra opção. Adentrei ao quarto e fui recebida com um pedaço de tecido preto no rosto.

– Que droga Nat, ficou maluca? – Meu tom era de pura indignação.

– Seu boy deixou um presentinho para você – Riu escandalosamente.

– Ah ótimo, mais uma para a coleção – Joguei  a cueca boxe em um canto qualquer – Você pode me maquiar agora?

– Claro marrenta, senta aqui – Indicou a poltrona onde estava sentada.

[...]

Já estávamos à mais de uma hora sentadas nas cadeiras brancas enfileiradas, num belo jardim repleto de verde e lindas flores. Os formandos do curso de artes estavam todos no grande palco, entre eles estava Carlos, que era pouco mais velho que eu, alto, cabelos loiros pouco acima dos ombros, olhos castanhos, forte e extremamente sorridente, esse sorriso às vezes me incomodava, mas ele é um bom amigo. Os minutos foram se tornando horas entre agradecimentos e apresentações de desenhos demonstrados num telão bem localizado na lateral do palco.

– Que horas começa o Buffet? Tô morrendo de fome – Eu disse baixinho no ouvido de Nat.

– Se eu não conhecesse você, até acreditaria que está realmente interessada na comida e não no rapaz forte de azul à nossa frente e nas garrafas de Chandon do lado de dentro do salão – Soltamos algumas risadinhas.

– Eu deveria ter trazido alguns M&M – Bufei

 – As moças podem se comportar!? – Pigarreou o senhor Domenes, pai de Carlos e Nat, chamando nossa atenção.

– Desculpa – Falamos em uníssono.

Mais alguns minutos se passaram e logo todos estavam a caminho da recepção do evento. Era tudo muito elegante, uma decoração bem retrô, cheia de fotos e desenhos, repleto de mesas e cadeiras de madeira cobertos por toalhas brancas. Todos se cumprimentavam, sorriam, parabenizavam os formados. A família de Carlos estava toda orgulhosa, eu também. Os sorrisos deles se rasgavam em admiração e eu os admirava com prazer, aquela família era linda. Desde que terminei o colegial no final de 2010, e vim morar com minha Avó, nessa cidade calma do interior de São Paulo, eles tem me acolhido como membro da família, Nat é uma grande amiga, apesar de ser mais nova, as vezes tem mais responsabilidade do que eu, está sempre me livrando dos impasses que me encontro. Carlos também, ele cuida de mim como cuida de sua irmã. Sinto saudades da minha vida antiga, principalmente do meu melhor amigo, eu adorava ficar olhando nos seus olhos verdes mesmo quando ouvia as inúmeras lições de moral ou de quando ficávamos horas assistindo seriados juntos; tudo isso me faz muita falta, “Até a próxima vida...” Uma movimentação em nossa mesa me tira de meus devaneios.

– Era só o que faltava – Revirei os olhos entediada.

João Miguel, o “namorado” de Nat havia chegado. Um homem negro de traços fortes, magro, cabelo sempre bem penteado que me dava ânsia pelo seu jeito todo indubitável. Nat levantou sorrindo e caiu nos braços do amado, trocando beijos e caricias. Ele se aproximou, cumprimentou a todos, meneei com a cabeça e continuei comendo meu prato de massa com molho a bolonhesa. A festa continuou por toda a tarde, nos divertimos muito; eu me diverti muito, mesmo com a presença do namorado da Nat.

– Eu ainda não sei porque você namora com ele – Minha cara era de nojo.

– Pare com isso Chloe! – Ouvi já  sentido um tapa em meu braço.

Sorri amarelo e logo já estávamos rindo de um casal que dançava todo desengonçado, mas extremamente sorridentes e felizes. Essa pequena imagem me fez pensar no moreno na minha cama hoje de manhã, tentei me lembrar da noite passada, como havíamos nos conhecido, pensamentos inúteis, a ultima coisa que lembro é de entrar num Bar movimentado na região central da cidade, mas logo voltei minha atenção para o evento.

Tudo havia corrido bem, ao anoitecer voltamos para casa, isso graças à família de Nat, porque se estivesse sozinha é provável que não voltasse para casa, ou melhor, voltaria acompanhada; mas uma boa noite de sono era tudo que eu desejava agora.

[...]

Eu odeio essa sala de espera, das plantas bem cuidadas, os quadros com rostos de médicos famosos já falecidos e pendurados nas paredes extremamente brancas, do ar gelado, do cheiro horrível de remédios, até da máquina de refrigerante que tem sido de grande utilidade nos últimos meses, em todas minha visitas nesse hospital. Com tantas vindas já me tornei amiga das meninas da recepção. As vezes ando pelos corredores, converso com alguns pacientes, alguns visitantes e até mesmo familiares. Uma vez joguei xadrez com um senhor rechonchudo, acho que ele era italiano, tinha um sotaque engraçado e um grande bigode grisalho, não me recordo de seu nome, mas tudo aquilo me ajudava a matar o tempo por tantas horas. Hoje decidi caminhar um pouco do lado de fora, precisava de ar puro. O sol brilhava intensamente, no meu relógio marcava 10:32AM, ainda faltavam duas horas. Caminhei pelo estacionamento quase vazio, logo peguei-me pensando no quanto eu odiava minha vida atualmente, quando ouvi uma voz doce me chamar.

– Senhorita Vittale! Estamos prontos, poderia me acompanhar!?

– Ah sim, estou indo, obrigada Fernanda.

Caminhei em passos rápidos em direção a recepção, meu coração batia acelerado, a esperança de um diagnóstico preciso me deixava tensa. Entrei na sala do Doutor Belini, um senhor de meia idade, com excesso de prepotência, cabelos grisalhos, quase careca, tinha um cavanhaque, sua voz era extremamente grossa e seu olhar vago, nós conversamos por aproximadamente meia hora, muitas coisas foram ditas, mais nada definitivo. Sair desse lugar mais uma vez sem um resultado e com a certeza de um breve retorno me destruía como fogo em lenha seca. Algumas semanas se passaram e nada mudou na minha árdua rotina, meu semblante já se tornara derrotado e um tanto cansado.

 

[...]

 

– Eu tô cansada Nat, quero dormir, preciso descansar – Minha voz estava sonolenta.

– Mas Marrenta não nos vemos à semanas e é a nossa comemoração anual, você não pode faltar, ainda mais por ser aqui em casa, você faz parte da família – Seu tom era demasiadamente manhoso.

– Tudo bem Nat eu vou. Você venceu – Minha voz saiu um tanto derrotada.

Ouvi um gritinho entusiasmado do outro lado da linha, nem nos despedimos ela simplesmente desligou o telefone. Coloquei o aparelho de volta no gancho. Em pleno século XXI e eu estava a quase dois anos sem celular, foi necessário. As vezes descobria coisas interessantes pelas redes sociais de Nat, que adorava vasculhar a vida dos meus velhos amigos. Bom o jeito agora era me arrumar e pegar um táxi direto para a casa quase luxuosa dos Domenes.

O táxi me deixou na porta, paguei pelo serviço e peguei minha jaqueta de couro preta no banco do carro, descendo logo em seguida. Já do lado de fora a movimentação era intensa, a quantidade de carros estacionados no meio fio também. Caminhei vestindo minha jaqueta que combinava perfeitamente com meu jeans escuro, minha blusa branca de tecido fino e meus inseparáveis coturnos, cumprimentei alguns conhecidos e fui ao encontro da anfitriã da noite, que por sinal estava impecável, com os cabelos lisos, um vestido rosa bem alinhado e belos saltos.

– Meu Deus, princesas existem! Você está linda – Cumprimentei Nat que se assustou.

– Oh obrigada, você também está Bad Girl. Que bom que veio – Beijou meu rosto delicadamente.

– Como resistir aos seus encantos!? – Revirei os olhos – E eu preciso relaxar um pouco . O álcool vai me fazer bem – Havia animação em minhas palavras.

– "Juízo" marrenta – Semicerrou os olhos sorrindo.

– Você também Princess, não vi o seu príncipe encantado por aqui.

Ela nada disse, apenas piscou e saiu em meio a multidão. Caminhei um pouco admirando o local da festa, a iluminação era exagerada, seu irmão Carlos era o DJ da noite, aquilo combinava com ele, tinham algumas poltronas e quiosques espalhados pela enorme garagem, um mini bar continha o que mais me interessava ali, garrafas de Smirnoff cheias e pessoas vazias. Um drink verde foi minha companhia. Grupos de pessoas mantinham conversas entretidas. Todos tinham sorriso exagerados e comportamentos embalados pelo álcool, a pista de dança improvisada estava lotada. Eu tentava não pensar em nada naquele momento, apenas me concentrar no segundo drink da noite que agora já era Vodka pura.

Nem percebi quem era, mas se aproximou, puxando um assunto um tanto desprovido de benevolência, tentei não me envolver na conversa, que na verdade era de difícil entendimento, um pouco pelo som alto e pelo álcool que começava a fazer efeito, tomei mais um gole, sentido minha garganta se aquecer e minha cabeça girar. Concordava mesmo sem entender, na verdade eu nem me importava, só estava ali por Nat, que depois de trocar uma meia dúzias de palavras comigo, desapareceu em meio a festa. Mais dois copos e já ríamos descontroladamente, eu nem sabia mais o que bebia, as luzes já brilhavam com uma intensidade assustadora, tudo estava ficando lento e engraçado.

Minha cabeça latejava, minha respiração estava descompassada, meu coração batia acelerado, forcei meu olhos, procurava entender o que estava acontecendo, comecei a sentir frio; tinha água percorrendo meu corpo. A senhora Domenes tentava me segurar em pé no chuveiro, meu corpo estava mole, senti minhas pernas fraquejarem , alguém gritava exaltado ao fundo. Não conseguia entender, mas reconhecia a voz e com muito esforço compreendi algumas palavras, palavrões na verdade. Era raro Nat dizer esses tipos de palavras.

– Eu preciso vomitar – Pronunciei aquelas palavras quase num sussurro; sentindo meu estômago revirar. Virei-me em direção ao vaso sanitário, sentido tudo rodar, meu estomago parecia se descolar de mim, eu fazia muita força.

– Você não tem mais nada no estômago para vomitar querida. Tente respirar – Senhora Domenes falou num tom calmo.

Não sei como, mas agora estava no Corsa Classic prata, acho que a caminho de casa, não reconhecia bem o caminho; procurei Nat dentro do carro, mas não encontrei, éramos apenas eu e o senhor Domenes. Minha cabeça latejava, as frases “sua vadia bêbada” e “eu odeio você” ecoavam em meus ouvidos, fazendo meu estomago revirar novamente. O caminho todo foi silencioso e demorado. Já era de manhã quando ao estacionar na porta da minha casa, o senhor Domenes me fitou com olhar sério e esbravejou:

– O que vocês dois fizeram hoje foi uma sujeira inadmissível, eu não quero mais que você e aquele ominoso se aproximem da minha filha. Eu abri as portas da minha casa, te tratei como filha e você desmantelou tudo essa noite, eu não esperava isso de você, apesar de saber dos seus problemas nunca achei que seria capaz de tal atrocidade. Espero ter sido claro, não quero ter que tomar uma atitude mais drástica em respeito a sua Avó. Eu torço para que um dia você pare de beber, mas não conte mais conosco – Terminou ele olhando pra frente.

Eu nada disse, soltei meu sinto e sai do carro, entrei em casa, fui direto para o banheiro. Quando cheguei, sentei no chão encarando a privada. Lembrei-me dos palavrões de Nat, lembrei-me das palavras do pai dela. Não conseguia compreender o que eu tinha feito, mas com toda certeza não era nada bom. Encarei novamente a sentina, existia algo dentro de mim que precisava ser posto pra fora.

Uns comprimidos e minha cama foram as únicas coisas plausíveis para uma semana inteira de ressaca moral. Será que ainda poderia ficar pior? Eu já estava morando na cama nos últimos dias; remoendo as palavras do senhor Domenes, lembro-me de um rapaz sendo citado por ele e para piorar semana passada minha avó deixou escapar ao telefone que Nat não está mais namorando. Eu não quero acreditar nisso, mas no fundo sei que o rapaz que o senhor Domenes citou é João Miguel.

– Bom dia filha – A porta de meu quarto foi aberta – Como está a cabeça? – A voz de minha Avó era trêmula e preocupada.

– Vai melhorar – Falei sem encarar seus olhos. Não havia coragem.

– Olha filha, eu sei que você é maior de idade e responsável por seus atos, mais você precisa ouvir a sua velha aqui, quando seu Tio Roger mandar o dinheiro desse mês, eu quero que compre uma passagem e volte pro Rio, você ainda é jovem pra perder tanto tempo aqui.

– Mas temos as visitas ao hospital – Tentei argumentar um tanto confusa.

– Você não conseguirá manter as visitas se não estiver mais respirando – Tinha pesar em seu tom.

– Eu sinto muito – As lágrimas já rolavam de meus olhos.

– Não sinta querida, apenas siga meus conselhos, voltar pra sua vida vai te fazer bem, todos os dias vejo tristeza em seu olhar, eu vou ficar bem se você também estiver.

– Obrigada. Eu te amo – Minha voz saiu chorosa e trêmula.

Desestruturou-me ver minha Avó dizer aquelas palavras, com cuidado e zelo para não me magoar. Ela me abraçou sorrindo, um sorriso amarelo de tristeza e abandonou o cômodo. Era horrível decepcionar tantas pessoas. O que me faz ficar com mais raiva é o fato de não me lembrar. Sinto como se não tivesse controle. A melhor decisão seria acatar as ordens de minha Avó. Então no fim da semana com a chegada da quantia que nos era dada todos os meses pelo filho da mesma, aquele que me recuso aceitar o parentesco, para nos mantermos, já que ele não tinha coração e muito dinheiro, eu iria resolver tudo.

Hoje resolvi sair da cama, vesti um jeans claro, uma camiseta do metálica e um tênis; avisei minha Avó que iria sair e chamei um táxi, vou comprar minhas passagem de ônibus pra Ribeirão Preto e uma passagem aérea para o Rio de Janeiro. No caminho fizemos uma pequena parada, dei uma quantia em dinheiro e pedi para que o motorista permanecesse aguardando. Desci do carro e fui até o grande portão vinho de muros brancos. Fiquei parada por alguns minutos, decidindo se pressionava o interfone ou não. Quando finalmente decido apertar, uma voz me chama e não é qualquer voz, é justamente a voz que pretendia ouvir. Viro-me e encaro o rosto de João Miguel.

Uma hora se passou, depois de alguns gritos, faces carregadas de ódio e explicações complicadas. Já estou dentro do carro, com a cabeça encostada no vidro e com uma grande vontade de chorar. A conversa com João Miguel não foi nada amigável, nem poderia ser, nunca gostei dele, mas é como se ele não tivesse errado tanto quanto eu, não precisou de muito para que alguns flash daquela noite invadissem meus pensamentos...

Mais dois copos e já ríamos descontroladamente, eu nem sabia mais o que bebia, as luzes já brilhavam com uma intensidade assustadora, tudo estava ficando lento e engraçado. O rosto de João Miguel se fez presente, suas mãos tomaram meu corpo pra si, me pressionando contra o balcão, sua boca invadiu a minha com força, sua língua degustou o sabor desconhecido, uma mistura de álcool e saliva, nosso contato era quente, com passos apressados e alguns esbarrões, forcei meus olhos e já estávamos na porta de um dos banheiros, próximo ao quarto de Nat; o gosto era bom, me entreguei ao desejo momentâneo, caminhamos desajeitados perdendo peças de roupas pelo caminho; senti uma maciez incomum em minhas costas, estávamos numa cama, o mesmo beijo percorria agora meu pescoço, trilhando logo para o vale entre meus seios, as mãos apertavam os mesmo e logo abocanhou o direito; arrepiava-me. Senti-me molhada, estava nua; seu corpo pesado deitou-se sobre mim, senti sua mão percorrer a lateral do meu corpo e seu dedo encontrar meu clitóris iniciando uma massagem com uma força desnecessária, numa tentativa de aumentar a lubrificação. Não demorou muito para sentir seu membro adentrar meu sexo, seus movimentos eram lépidos e impetuosos, isso era prazeroso. O suor escorria por nossos corpos colados, a respiração estava descompassada, minhas pernas abraçaram seu corpo e minhas mãos arranhavam suas costas quando tudo se apagou.

Eu transei com o namorado da minha única amiga nessa cidade. Era isso que eu mais temia. Senti nojo de mim mesma. Como eu pude transar com cara que mais odeio. De repente sinto o carro parar, olho para fora e vejo que já chegamos ao real destino. Já de passagens compradas seguimos de volta para meu refúgio.

[...]

Aqueles meses se passaram mais rápido do que eu poderia imaginar, já era fevereiro de 2013, as malditas convenções sociais, tais como, natal, ano novo e meu aniversário foram basicamente puladas por nós duas, com jantares silenciosos, visitas periódicas ao hospital, noites frias regada a muito álcool, numa tentativa falha de amenizar a dor; e provavelmente mau dormidas por minha Avó. Com relação a Natasha, não nos falamos desde o acontecido e eu nem tentaria como seu pai havia me pedido, não havia perdão para a insanidade que eu havia cometido, ainda mais agora sabendo de toda a verdade e com a decisão de ir embora já tomada, ela faria apenas parte de uma passado perdido no tempo, eu sentia meu coração ser esmagado, mas aprenderia a conviver com aquilo, era o preço a ser pago pelo erro.

Eu arrumava minhas malas, dando uma breve revisada nas gavetas onde minha coisas ficavam, quando vi Dona Tereza encostada na porta.

– Eu vou sentir sua falta – Anunciou se fazendo mais presente.

– Eu também vou, apesar de todas os erros, eu sempre me senti bem ao lado da senhora – Tentei não chorar.

– Então se apresse o táxi já está a sua espera – Saiu indo em direção a sala.

Olhei mais uma vez para o quarto parcialmente vazio agora, suspirei um tanto aliviada na verdade. Caminhei para a saída, abracei minha Avó na porta, entrei no táxi e deixei toda uma história pra trás mais uma vez.

Eu usaria toda esse tempo de viagem para descansar minha mente, não queira mais pensar na minha Avó sozinha, em Natasha e na sua família, muito menos em João Miguel, eu iria me desligar.

[...]

Quando cheguei no aeroporto Tom Jobim, fui surpreendida por sua presença excepcional. Eu sabia que iria revê-lo, mas não imaginava que seria logo no aeroporto. Ele estava com com um sorriso exultante nos lábios e uma plaquinha com os dizeres “Até a próxima vida”. Isso era coisa dele, a pessoa mais amável que ainda não desistiu de mim. Ele era Ravi!

Corri frenética ao seu encontro e me joguei em seus braços, deixando tudo pra trás, até minhas malas, pois eu me sentia segura em seu abraço. Perdi as contas de quantos minutos ficamos nos abraçando. Foi a melhor sensação que senti nos últimos meses. Só depois de estarmos com os braços já cansados que nos soltamos.

– Como você sabia que eu chegaria hoje Ravi?

– Eu sempre saberei te encontrar Chloe – Riu – Sua mãe me pediu pra te buscar – Deu uma piscadela.

– Típico da família Vittale – Revirei os olhos.

Ele me ajudou com as malas até entramos em um café do aeroporto, sentamos numa mesinha aconchegante, o ar era fresco, tinha muito barulho vindo dos televisores, das chamadas de voo e as inúmeras pessoas se reencontrando e se despedindo. Ouvir o sotaque carioca novamente, me fez sentir-me em casa. Eram um vai e vem enlouquecedor, lembrei-me de como é a cidade grande, mas logo me concentrei no Ravi e em seus mágicos olhos verdes. Conversamos como se não houvesse um enorme espaço de tempo entre nós, era natural. Evitei contar os acontecimentos dos últimos meses; não seria justo com ele; não agora, não queria que ele se assustasse e principalmente não queria ouvir sermão, porque sei que ele o faria. Lembrei-me de que ele estava num possível relacionamento, mais não vi sinal se aliança, fiquei na dúvida sobre perguntar ou não, devido ao meu desligamento a tudo no Rio não tinha nenhuma oportunidade antes, mais não queria deixar espaço para seu questionamento sobre os últimos dois anos que não estive presente.

– Eu vi por redes sociais que você estava com um cara – Eu disse com um sorriso dissimulado e continuei – Quem é ele, aliás, cadê ele? – Questionei não me importando com sua cara franzida e continuei – Vocês estavam tão fofos nas fotos!

 – Era o Dylan – Disse seco, não correspondendo ao meu sorriso.

– E como vocês estão? – Indaguei.

– Dylan e eu terminamos.


Notas Finais


Desde já agradeço!!!! Em breve voltaremos com mais uma das SEIS peças.


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