História Separate Ways - Phobia - Capítulo 12


Escrita por: ~

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Categorias Supernatural
Personagens Castiel, Charlene "Charlie" Bradbury, Crowley, Dean Winchester, Hannah, Personagens Originais, Sam Winchester
Tags Drama, Phobia, Romance, Separate Ways, Sobrenatural, Supernatural
Visualizações 138
Palavras 4.217
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Canibalismo, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Spoilers, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, leitores e leitoras! Tudo bem?
Finalmente um capítulo novo, desculpem a demora e espero que gostem.

Enjoy!

PS: Depois de assistir Teen Wolf, percebi que o personagem Jimmy, irmão da Esther, é muito parecido (fisicamente e personalidade) com o Scott, e olha que eu nem conhecia a série quando comecei a escrever.

Capítulo 12 - Sr. Urso


Desliguei a TV após ver pela sexta vez o clipe The Lazy Song na MTV. Por algum motivo assistir ao Bruno Mars dançando com pessoas fantasiadas de macaco me alegrava um pouco.

Após a noite passada eu não consegui mais dormir, por receio de que algum outro sonho pudesse me despertar mais uma crise existencial ou algo parecido. Esfreguei os olhos, ouvindo ao longe um arrastar de pantufas.  

Você acordada tão cedo? — enfatizou Gordon enquanto descia as escadas com a cara amassada.

— Achei que deveria começar a aproveitar melhor o dia — menti com um sorriso forçado por cima do ombro, tendo plena convicção de que as olheiras marcadas no meu rosto me deixavam bem menos convincente.

— Estou desconfiado que um ET raptou a minha filha — o mesmo brincou enquanto passava por mim, dirigindo-se para a cozinha em busca do café da manhã.

Observei-o abrir a geladeira e pegar leite, queijo e ovos. Em seguida organizou a mesa com os pratos e talheres, impecavelmente. Depois de alguns minutos os ovos mexidos estavam prontos e para finalizar Gordon salpicou salsa na comida fumegante.

Por algum motivo a frase que Dean dissera sobre eu ter tido a memória apagada ficava rondando a minha cabeça. E se realmente fosse verdade? E se eu tivesse uma ligação mais profunda com aquele mundo sobrenatural e a minha realidade fosse uma fantasia?

Mordi a boca, descartando a hipótese. Gordon fazia o ritual do café desde que eu me entendia por gente, era inverossímil essa pontada lasciva de desconfiança de que nada disso pudesse ser real.  Era absurdo.

Meu nome era Esther, eu nasci e fui crida na cidade de Galveston, no Texas, com meus pais, Briana e Gordon, e meu irmão, Jimmy. Quando criança nossa mãe costumava medir minha altura na porta da cozinha com lápis de cera colorido e nosso pai nos contava histórias para dormir. Nossos tios e avós nos visitavam no Natal e nas férias nós os visitávamos de volta. No meu aniversário de seis anos eu pedi por pôneis cor de rosa e no meu aniversário de dezessete eu ganhei uma flanela verde musgo cinco tamanhos maior que eu, pois meus primos não sabiam escolher presentes.

Não há como algo fantasioso ser rico em memórias e sentimentos como os que eu tinha. E eu nunca poderia conceber que minha vida pudesse ser uma mentira.

Logo que entrei no estacionamento da faculdade, pude avistar de longe o Impala estacionado ao lado da vaga habitual do Chevelle, quase que de imediato minha pulsação acelerou em pânico ao ver que Dean estava sentado no capô do veículo com um dos joelhos arqueados, o cabelo loiro arrepiado de um jeito bagunçado.

Boa coisa não pode ser, pensei comigo mesma, parte de mim querendo rastejar pelo chão cautelosamente para longe daquele cara. Peguei meus materiais e tirei a chave do painel, respirando fundo antes de descer do carro.

— O que está fazendo aqui? — indaguei desconfiada enquanto trancava as portas e conferia. Dean me fitou por segundos, como se buscasse as palavras em algum lugar distante. Aproximei-me dois passos, escorando-me na lateral do Chevelle e ajeitando a alça da bolsa enquanto equilibrava a pilha de livros junto à cintura, os cachos do meu cabelo eram jogados no meu rosto graças ao vento chuvoso de primavera.  

— Eu vim conversar. — o mesmo levantou as palmas.

— Eu tenho aula agora. — gesticulei com a cabeça para o prédio logo a nossa frente, depois da escadaria.

— Sua professora de finanças vai faltar hoje. — falou e eu arregalei os olhos, imaginando por um segundo o corpo da pobre Matilda jogado em uma vala qualquer, mas assim que percebeu meu espanto, o Winchester tratou de continuar — O Cass que contou, ele decidiu que era melhor ficar mais um tempo como professor até descobrirmos alguma coisa sobre o seu irmão ou a tatuagem. — acrescentou e eu respirei aliviada.

— Que maravilha. — dei um sorriso irônico, pensando em uma forma educada de me livrar de Dean o mais rápido possível. Acontece que eu não queria a interferência deles na minha vida, precisando ou não, pelo menos era aquilo que eu tentava me convencer — E ele entra e sai do corpo docente quando bem entende?

— Ele tem seus truques. — deu de ombros — Então... Podemos? — o mesmo pulou do capô do carro e eu olhei para o lado, constatando que o número de estudantes era grande na volta, sentindo-me mais segura. Recostei-me contra o Chevelle e cruzei uma perna em frente à outra, esperando que começasse, mas ao invés disso Dean deu um pigarro baixo de desconforto — Mas não aqui, suas amigas... — ele gesticulou de maneira discreta para o aglomerado de garotas que estavam paradas nas escadas do estacionamento. America mal fazia questão de disfarçar a “secada”. Olhei feio para ela e comecei a sair dali antes que a distração pudesse chamar mais a atenção dos estudantes e alguém reconhecesse Dean da minha desastrosa festa de aniversário.  

— A quadra aberta. — disse enquanto caminhava, ouvindo seus passos me seguirem. Fomos de encontro a vários alunos que encaravam o “sujeito novo no pedaço” como se estivessem prestes a defender o território e outros cochichavam mais discretamente com as mesmas caras feias. Era surpreendente o que o elevado nível de testosterona fazia com os garotos em determinada idade. 

Logo que chegamos, eu procurei um canto mais afastado e parei cerca de dois metros de Dean, por via das dúvidas, o vento as minhas costas fazia com que os meus cabelos esvoaçassem para frente juntamente com o tecido leve do vestido.

— Sobre o que você quer falar? — comecei e o caçador se escorou contra a parede de tijolos, fitando por algum momento a quadra cercada onde não havia uma viva alma.

— Talvez nós devêssemos falar mais sobre a sua tatuagem. — disse e eu me recostei na árvore que ficava indiretamente a sua frente, ouvindo a copa balançar e algumas folhas caírem no chão.

— Eu já disse tudo o que eu sei. — falei calmamente, eu já não sabia quantas vezes havia repetido a mesma história de que eu tinha acordado no píer depois de uma festa e esse símbolo esquisito estava na minha mão esquerda. Era a única coisa que eu sabia.

— Mas deve haver mais, digo, ninguém aparece com esse tipo de tatuagem sem motivo. — o loiro fez uma careta — Você já leu uma série de livros chamada Sobrenatural?

— Nunca ouvi falar. — balancei a cabeça em negativa e olha que eu já havia lido vários livros.

— Ok, hipótese descartada. — o mesmo gesticulou no ar — Você por acaso é sensitiva a coisas paranormais? — continuou e eu quase dei uma risada.

— Tipo As Visões de Raven? — questionei em sarcasmo — Eu nunca teria cruzado com vocês se eu fosse.

— No dia que você acordou com a tatuagem... — começou e eu bufei alto.

— Eu já disse que eu não lembro o que aconteceu. — interrompi e o encarei por segundos. Eu não me convencia que o Winchester estava aqui para perguntar coisas que ele já sabia — Dean, o que você veio fazer aqui?

Ele emudeceu e observou o local, apertando os olhos para o céu nublado.

— Eu queria pedir desculpas. — soltou e minha vontade era de dar uma gargalhada de escárnio. Respirei fundo, tentando demonstrar educação. 

— Não me leve a mal, Winchester, mas você pedir desculpas não vai amenizar a situação. —falei sinceramente, porque era a mais pura verdade. Tudo que ele havia me feito passar não poderia simplesmente ser apagado com um pedido de desculpas, eu nunca me sentiria segura em sua presença e os impactos que ele me causara me marcariam pelo resto da vida. — Você me ameaçou, me machucou, matou pessoas na minha frente e quase matou o meu irmão. Eu não sou tão altruísta a ponto de esquecer tudo só porque você é humano agora.

O loiro suspirou enquanto me encarava, seu rosto não transparecia outro sentimento que não fosse culpa.   

— Eu entendo o que você diz, nem eu mesmo consigo conviver comigo no momento, acredite. — afirmou e eu acreditei. Não havia motivos para ele estar mentindo, mas por mais arrependido que estivesse, há coisas na vida que você não pode consertar com palavras. Deixei que o silêncio se estabelecesse vergonhosamente entre nós, por instantes somente o vento se fazia presente, até que eu pude encontrar algo para dizer.

— Você se lembra de tudo? — questionei intrigada. Minha pergunta tinha um fundo de constrangimento, caso a resposta fosse afirmativa havia coisas que eu preferiria que ele realmente esquecesse... Como a tentativa de manipular um mestiço de demônio com um beijo de uma garota bonita (que a propósito funcionou por um período).

— É estranho... — murmurou esfregando o rosto com uma risada nada divertida— Era como se eu estivesse em um piloto automático livre de emoções, culpa ou vergonha. Tudo o que importava era sucumbir às vontades — o loiro encarou as mãos, franzindo a testa — Mas eu me lembro de tudo.

Senti minhas bochechas ficarem vermelhas e fitei um ponto imaginário na parede de tijolos.

— Então você entende quando eu digo que não quero que você fique tentando consertar as coisas. — disse — Eu sei que não era totalmente você, mas a primeira impressão é a que fica e a sua me deu medo, Dean.

— Você ainda tem medo de mim? — questionou dando um passo a frente e ao ouvir o som de seus sapatos se aproximando meu corpo recuou automaticamente na defensiva. Ele parou, comprimindo os lábios, os olhos verdes escuros em contraste com o céu nublado — Eu sinto muito, Esther.

“Eu sinto muito”. Era incrível como aquela frase simples sempre me acompanhou de maneira intrigante, com um pesar muito maior que doze letras e mais sufocante que um coração apertado.

— Preciso ir agora. — disse rapidamente e dei a volta por ele, minha voz falhando com a sensação de angústia no peito. Saí da quadra aberta marchando rente às poças de água, passando por Christian que falou algo em tom casual e eu quase o atropelei pelo caminho.

Eu não sabia o motivo desse súbito sentimento frenético que me dava vontade de gritar a plenos pulmões.

Escancarei a porta da biblioteca, recebendo alguns olhares reprovatórios dos alunos que estavam utilizando seu tempo na escola para algo útil, tipo estudar um pouco. Andei a passos largos até o fim do corredor, encolhendo-me em uma mesa no fundo do cômodo, onde eu sabia que não seria incomodada. Na verdade não existia nenhum lugar dentro dessa faculdade que eu me sentisse tranquila, já que fui ameaçada nesse mesmo local por Logan, o homem misterioso que fazia ameaças e andava armado.

Eu queria fazer tantas coisas agora, como ligar para Sam e dizer para ele nunca mais deixar o irmão se aproximar de mim novamente, ir para casa me esconder embaixo do cobertor até que tudo volte ao normal, extravasar em alguma festa com minhas amigas ou conversar com alguém que pudesse me entender.

Se fosse a última opção, eu queria conversar com Castiel, provavelmente ele me diria algo sem nexo aparente, mas com fundos de verdade que me tranquilizariam no momento.

Será que anjos tinham número de telefone?

— Esther? O que está fazendo sozinha? — ouvi a voz de Marianne repercutir nas estantes de livros enquanto ela se aproximava do meu cantinho guarnecido.

— Só esvaziando a cabeça. — murmurei para a loira assim que a mesma parou a minha frente, o casaco leve azul celeste combinava com seus olhos.

— Não conversamos muito após a sua festa, digo, você deu uma sumida depois do tumulto. — continuou e eu gesticulei para que se sentasse na cadeira vazia ao meu lado.

— Meu pai não ficou muito feliz em pagar os estragos.

— É o assunto mais comentado das últimas semanas, sabe, teve até um ou dos jornais escolares sobre isso.

— É óbvio que Carla não iria perder essa. — revirei os olhos, imaginando as dez páginas com a minha foto estampada no pior ângulo possível — O que estão dizendo?

— A maioria comenta que foi uma rixa entre os grupos da faculdade — Marianne deu de ombros calmamente — Já outros dizem que começou quando aquele cara bonito beijou você na frente do Logan. A propósito, como ele está? Não o vi mais.  

Inspirei uma vez, lembrando-me que Dean havia copiado minha própria tática de persuasão para desencadear um tumulto, tendo como alvo o meu ex namorado que havia se mudado definitivamente para o Canadá depois daquilo.

— Ele provavelmente me odeia, Marianne. — suspirei com pesar, ao considerar que eu havia sido terrivelmente imbecil com Logan. Minha mania de tardar as coisas fez com que terminássemos de uma maneira um tanto quanto traumática, inclusive para os meus pais que tiverem o sonho do genro perfeito destruído. — Não é um assunto que eu queira falar.

— E você está apaixonada? — questionou e eu arqueei uma sobrancelha, perguntando-me qual parte do “ele me odeia” ela não havia entendido.  

— Acho que para mim foi mais um amor de verão, eu só fico triste por ele não achar isso. — dei de ombros, brincando com meus dedos sobre a mesa.

— Não. — ela balançou a cabeça com uma risada — Eu estou falando do loiro que estava com você no seu aniversário. Vi vocês dois indo para a quadra agora há pouco. Bom, todo mundo viu. — a loira mordeu o lábio de repente como quem fala demais. Que maravilha, além de todos acharem que eu fiz meu ex de idiota, eles ainda acham que eu sou a vadia traiçoeira.

— O Dean não é um cara legal. — murmurei após alguns segundos.  Sem contar que ele deve ter o quê? O dobro da minha idade, no mínimo.

— Ah, Dean. É canadense?  — perguntou com o tom de voz brilhante.

— Não é que ele não seja “um cara legal”, é que ele tem muitos problemas e eu não quero estar envolvida nisso. — continuei imersa em pensamentos, parando por um momento — Canadense?

— O nome dele. Parece algum estilo Canadense para Deanno. — reiterou gesticulando com o dedo. — O sotaque fica meio “Dino”, não acha? — perguntou de uma maneira engraçada.

— Eu não sei! — arregalei os olhos com uma careta do tipo “Alô, Terra, você está aí?”. — Você ouviu algo do que eu disse?

— O nome dele é Dean, ele é bonito e você fica nervosa quando fala nele. — repetiu dando de ombros e eu considerei nesse momento que Marianne tinha alguns problemas de concentração aguda. — Que seja, Esther.

Revirei os olhos e desisti daquela conversa.

— E como estão as coisas com você? E as meninas? — troquei de assunto ajeitando meus livros em uma pilha perfeitamente alinhada.

— Meus pais estão se separando. — comentou com tristeza, virei o rosto para fitá-la. — Bem, é melhor assim, eles brigavam demais. America e Christian estão saindo e Carla está com um projeto beneficente.

Procurei algo que eu pudesse dizer para consolá-la naquele instante, mas minha mente apenas vagueou para longe, eu não era boa com conselhos, nem para mim mesma. 

— Desde quando fazemos projetos beneficentes? — franzi as sobrancelhas após alguns segundos.  

— É uma peça teatral para arrecadar fundos para o asilo da cidade. — explicou pegando um dos livros que estava escondido embaixo da bolsa e o colocando no topo da pilha.  

— Bom, pelo menos é útil. Como eu posso ajudar? — perguntei e Marianne franziu os lábios. 

— Carla disse que você seria vetada em qualquer teste que fizesse.

— Ela não pode me vetar assim! — exclamei um tanto quanto alto demais, quase derrubando os livros — Vocês concordaram com isso?

— O jeito dela é meio que... Uma ditadura. — apontou a garota.

— Ótimo! — bufei, totalmente insatisfeita. Desde que eu estudava aqui, a faculdade nunca havia feito um projeto externo sem que eu estivesse participando. Eu me sentia esquecida.

— Não fique chateada. — pediu a loira com uma careta.

— Com certeza. — respondi irônica, cruzando os braços e extremamente irritada. Ela ficou em silêncio por minutos até que se abaixou para mexer em sua mochila.

— Eu queria sua opinião. — Marianne trocou de assunto enquanto colocava a minha frente um ursinho de pelúcia branco com uma fita vermelha amarrada no pescoço — Comprei esse presente para o Jimmy, não sei se ele vai gostar.

— Um ursinho? É fofo. — fiz uma careta divertida, imaginando meu irmão colocando o presente sobre a cama e cerrando os lábios para não rir da cena.

— Acha mesmo? — ela sorriu — Você pode colocar na mochila dele durante o treino? Eu tenho prova nesse horário.  — indagou e eu assenti, pegando o objeto e o colocando no colo.

— Vocês estão namorando há quanto tempo, hein? — perguntei quando ela se levantou, quase me esquecendo que há dois minutos eu estava zangada.

— Somos só... — começou, jogando a mochila sobre o ombro e eu interrompi com ar de tédio.

— Amigos, sei.

— Tchau, Esther! — ela acenou com uma piscadela e eu dei uma risada. Coloquei o urso sobre a pilha de livros e o encarei.

— Como vamos esconder você sem que meu irmão perceba, hein, Sr. Urso? — questionei com o ar enigmático.

Isso é uma missão para a Super Esther! — respondi fazendo uma voz infantil e balançando o bichinho como se ele falasse.

Aproveitei o período livre na biblioteca e fiz alguns trabalhos pendentes, cronometrando o tempo para conseguir cumprir minha missão de última hora. Depois de terminar, guardei todos os meus materiais e os coloquei em meu armário, jogando o urso dentro da bolsa e fui de encontro ao campo. Percebi que o céu estava mais escuro e relâmpagos cortavam as nuvens densas, uma tempestade estava prestes a cair, então era melhor eu correr.

Esgueirei-me pelos corredores da faculdade, percebendo que a massa de jogadores já estava indo começar o aquecimento do dia. Eu sabia que meu irmão deixava a mochila dentro do vestiário durante os jogos e essa era a hora perfeita para esconder o presente. Passei pelo portão, tomando cuidado para não enfiar os pés na lama ocasionada pela chuva de ontem e tracei meu caminho por baixo da arquibancada, entrando no prédio apartado.

Lá dentro havia os bancos de madeira, toalhas jogadas nos cantos e mais atrás tinha os banheiros com chuveiros. Os cheiros misturados de relaxante muscular em aerosol e suor faziam cócegas no meu nariz.

— Vejamos, onde você guarda sua mochila... — comecei a procurar entre as bolsas jogadas pelo chão e em cima dos bancos, não encontrando a de Jimmy. Em seguida busquei nas grandes fileiras de armários de metal, dois modelos mais antigos que os da faculdade, dando de cara com pares de tênis enlameados, meias molhadas e camisinhas por todo o lado. Fiz uma careta de nojo e torci o nariz para aquela visão perturbadora.

Ouvi a entrada do vestiário se abrir e arregalei os olhos, a primeira coisa que me veio à mente foi me enfiar dentro do armário de materiais, que era maior, e rezar para não ser descoberta. Aguardei em silêncio, tampando a boca com a mão e espiando pelas aberturas da porta de metal. Respirei aliviada ao perceber que era apenas a faxineira da faculdade recolhendo as lixeiras. A mesma tinha os cabelos grisalhos um pouco molhados, o que indicava que a chuva já devia ter começado novamente e logo os jogadores iriam dar o treino por encerrado.

Saí silenciosamente do armário assim que ela terminou sua tarefa, tomando cuidado para não derrubar as bolas reserva e capacetes que estavam empilhados ali, começando a vasculhar em linha reta até encontrar a única porta que estava fortemente fechada. Arqueei uma sobrancelha para a tranca com quatro dígitos enferrujada. Por que tanto cuidado com uniformes e meias velhas?

Comecei a testar várias combinações que pudessem ter relação com meu irmão, coisas fáceis que pudessem ser lembradas, até que consegui destravar com a mais óbvia possível, sua data de aniversário. Meu irmãozinho podia ser forte, mas não tinha muita perspicácia para esconder suas tralhas. Ouvi o clique em confirmação e abri o armário.

Lá dentro havia fotos dos nossos pais, uma nossa no seu aniversário de quinze anos e uma de Marianne. Alguns livros de química, meias secas, desodorante e sua mochila preta com um chaveiro do Homem de Ferro.

— Bingo! — sorri vitoriosa, pegando-a pela alça e escoando no meu joelho, pronta para fazer a transferência do Sr. Urso com sucesso. Logo que abri o zíper precisei de dois segundos para que meu coração voltasse a bater quando dei de cara com a última coisa que eu pensei ver novamente na minha lastimável vida.

O inconfundível cabo de ossos entalhado como se fosse uma espinha cervical fez um arrepio percorrer meu corpo. A pergunta que não queria calar era: Por que Jimmy estava com a Primeira Lâmina?

Eu achei que esse objeto estivesse perdido para sempre, soterrado em pilhas de lixo em algum canto do Texas, bem longe de Dean e a Marca de Caim que ainda estava lá, esperando para ser despertada de novo. Apertei a mochila contra o peito, precisando me escorar na porta para permanecer de pé diante da vertigem repentina.

De repente sons de risadas e conversas começaram a se aproximar da entrada do vestiário. Dei um pulo, jogando tudo dentro do armário e o fechando com força.  

— Droga! — chiei baixinho, olhando alarmada para os lados e percebendo que não daria tempo de sair dali sem ser vista. Catei a minha bolsa e entrei para dentro do meu único esconderijo disponível.

Nas circunstâncias atuais eu estava ferrada por inúmeros motivos, um deles era ser pega escondida dentro do vestiário masculino, a outra era por estar fuçando a mochila alheia e a terceira era por ter descoberto a Primeira Lâmina, essa sim daria o que falar.

 Espiei pela fresta da porta enquanto o time entrava no local. Os jogadores sacudiam os cabelos molhados com os dedos e retiravam as ombreiras pesadas, esparramando tudo pelo chão enquanto conversavam coisas aleatórias e iam direto para o chuveiro.

E eu que pensei que fosse desorganizada, perto deles sou um exemplo de organização, murmurei para mim mesma.

Vi Christian e Jimmy virem mais atrás do resto dos garotos, o primeiro parou para apoiar o pé no banco de madeira e retirar os tênis pesados.

— Que tal um cinema na sexta? Tenho uma gata do primeiro ano que tem uma amiga que quer te conhecer — começou, olhando para meu irmão que tirava o uniforme em frente ao seu armário.

— Eu passo. — disse calmamente, embolando a camiseta e torcendo dentro da lixeira o excesso de água.  

— Ah, cara. Assim ferra o meu lado — Christian comentou com desgosto. Jimmy revirou os olhos e o amigo lhe jogou um dos tênis. Ele desviou no último segundo, observando o objeto bater na parede com tédio.

— Ah, tá de gracinha é? — o garoto abriu os braços, indo para cima de Christian que foi para trás do banco com as mãos levantadas e uma careta divertida.

— As meninas vão parar com a frescura? — ouvi a voz autoritária do treinador Robert no momento que entrou no corredor do vestiário, olhando de um para o outro com os seus imponentes dois metros de altura e expressão séria. Ele trazia uma bola de futebol americano em uma das mãos. — Quero vocês prontos para o jogo de sábado, tomem um banho e vão descansar, seus maricas.

— Pode deixar, treinador. — Assentiu Jimmy, indo em direção ao armário.

— Guarda isso aqui — o treinador jogou a bola com força contra Christian, que segurou o impacto com uma careta. Robert virou as costas, saindo dali e meu irmão assoviou.

— O treinador acabou com o seu cinema, hein. — comentou em zombaria.

— Que saco. — o moreno bufou, vindo em minha direção. Gelei, se ele abrisse a porta iria me descobrir. Olhei para os lados, pensando em uma maneira de me camuflar entre os capacetes, mas a essa altura eu estava ferrada.

— A gente compensa na final. — Jimmy piscou e puxou uma toalha das suas coisas, de repente agarrando o metal do armário com força.

Você, né. — Christian resmungou, arqueando a sobrancelha em frente à porta dos materiais e eu tampei a boca. O mesmo olhou por cima do ombro, observando o amigo que agora estava agachado com a mochila em mãos, o zíper aberto — O que foi?

Droga! Na correria eu tinha deixado rastros para trás e agora ele sabia que alguém tinha mexido na Primeira Lâmina.

— Alguém abriu meu armário — disse jogando tudo lá dentro e batendo a porta, que fez um estrondo sonoro tamanha a força.

— Roubaram alguma coisa? — indagou Christian enquanto meu irmão olhava para os lados como se procurasse alguma sombra escondida nos cantos.

— Nada de importante, mas eu já sei quem pode ter sido. — ele comprimiu os lábios, jogando a toalha no ombro e andando a passos pesados para o chuveiro. O outro encarou a cena com a expressão confusa, por fim desistindo de qualquer entendimento. Ele jogou a bola de futebol contra o banco de madeira e seguiu o amigo para a área dos chuveiros.

Eu contei dez segundos e sai rapidamente de dentro do armário de materiais, fechando-o e indo em direção a entrada do vestiário. Por um momento eu encarei a mochila de Jimmy, visível na porta semi aberta, e considerei a hipótese de roubar a Primeira Lâmina.

Aquele objeto, junto à Marca de Caim, fizera com que Dean se tornasse um demônio. Não havia nada de bom em ser seu portador, sem contar nos inimigos que viriam atrás dele por causa dela.  Eu deveria afastar o máximo possível o perigo iminente do meu irmão enquanto tinha a oportunidade ou confiar que ele daria uma explicação razoável para tudo isso?

Eram poucos segundos para decidir e muitas consequências a considerar.


Notas Finais


O Jimmy com a First Blade? Como assim, produção? O que será que ele quer com ela?
E quem será que ele "acha" que estava procurando a lâmina em seu armário?
E agora, Esther, rouba ou não rouba?

Vejo vocês no próximo! <3


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