História Shingeki No Ghoul - Capítulo 24


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Categorias Shingeki no Kyojin (Attack on Titan), Tokyo Ghoul
Personagens Annie Leonhardt, Armin Arlert, Beast Titan, Connie Springer, Daz, Dot Pixis, Eld Jinn, Eren Jaeger, Erwin Smith, Gunther Schultz, Hange Zoë, Historia Reiss, Ian Dietrich, Jean Kirschtein, Keith Shadis, Levi Ackerman "Rivaille", Marco Bott, Mikasa Ackerman, Mike Zacharius, Oluo Bozado, Personagens Originais, Petra Ral, Reiner Braun, Rico Brzenska, Sasha Braus, Ymir
Tags Ackerman, Armin, Asamoah, Attack On Titan, Balas Q, Bikaku, Connie, Emerick, Emerick Asamoah, Eren, Ghoul, Homem Trans, Kagune, Kakugan, Kakuja, Koukaku, Kyojin, Kyokin, Levi, Lgbt, Mikasa, Mikasa Ackerman X Sasha Blouse, Mikasa X Sasha, Quinque, Representatividade, Representatividade Lgbt, Representatividade Negra, Representatividade Trans, Rinkaku, Rivaille, Sasha Braus, Shingeki, Shingeki No Kyojin, Tokyo, Tokyo Ghoul, Trans*, Transgênero, Transmasculino, Transsexual, Ukaku, Yaoi, Yuri
Exibições 47
Palavras 3.627
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Canibalismo, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Spoilers, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


como podem ver, Kalz é uma pessoa extremamente regular com o tamanho de seus capítulos, só que nunca.
isso pq vcs não viram o primeiro livro original q eu escrevi, tinha um capítulo lá com 20 páginas e outro de 1 página, um na sequência do outro.
#Kalz #rainhe #das #regularidades

aviso de conteúdo: violência física e psicológica, bullying, suicídio, assassinato

Capítulo 24 - Taco de Madeira


No final, a TV que Sun encontrara funciona. Entretanto, o único canal ao qual conseguimos conectar, é o canal de notícias do governo. Não é exatamente a melhor fonte de entretenimento, mas causou uma grande impressão nos primeiros dias. Afinal, somos um bando de ghouls fugitivos e agora estamos com um dos maiores artigos de luxo de Toivoa em mãos.

Nosso humano continua preso lá no depósito. Já nem sei mais há quanto tempo temos ele, e não fui visitá-lo nas últimas duas semanas. Cansei de brincar com seus sentimentos, mas ainda não pensei numa maneira boa o suficiente para matá-lo. Talvez eu deva soltá-lo no território dos titãs? Ou abrir seu abdômen e arrancar seus órgãos internos de pouco em pouco? Não sei. Isso tudo seria simplesmente físico. Não quero lhe dar uma dor física e deixar sua mente morrer em paz.
- O que você acha, Sun?
- Hm... Não sei... – meu irmão apoia a cabeça no braço enquanto assiste à TV, e se vira lentamente pra mim para terminar sua resposta – poderíamos simplesmente matá-lo. Desculpe, eu estou sem ideias.
- Aí, não teria graça.
- Sabia que você é o segundo ghoul mais procurado de Toivoa?
- Sim, eu já vi os cartazes – replico.
- A recompensa pela sua cabeça está em 80 vales de suprimentos diários e 150 créditos, atualmente – comenta meu irmão – eu mal apareço na lista. Só oferecem dois vales de suprimentos por mim.
- Caramba. Eles querem tanto assim me pegar?
- Você não viu o líder dos Hantzsch. Ele tem ordenado ataques a civis e caçadores quase todos os dias. Está liderando uma verdadeira revolução dentro da família. Estão oferecendo 200 vales de suprimentos e 500 créditos por ele – levanto as sobrancelhas.
- Caramba. Tudo isso?
- Parece que ele prometeu aos seus ghouls de reduzir os humanos à escravidão e cria-los como os humanos criam seus animais para abate. Eles não costumam matar suas vítimas, apenas sequestrá-las – explica Sun – os humanos estão apavorados.
- Agora, vejam imagens do grupo terrorista Leichtem Rücken... – a apresentadora do jornal anuncia.
- São eles! – Sun aponta para a televisão e aumenta o volume.

Parecem câmeras de segurança de algum lugar do governo, como um quartel de caçadores, ou talvez da mansão de algum rico. Afinal, não são muitos os que podem ter esse tipo de coisa. Um grupo de ghouls com as kagunes à mostra e vestindo roupas largas e capuz de cor cinza-claro entram em cena. A tela indica que são seis câmeras, e as imagens trocam entre elas de acordo com a situação. A maior parte das imagens são censuradas, mas é fácil entender o que está acontecendo: os 8 ghouls presentes lutam com um punhado de militares pegos de surpresa. Em vez de matá-los, os ghouls preferem mutilá-los, incapacitá-los ou simplesmente desarmá-los.

Um nono ghoul entre em cena: um bikaku, que em vez das roupas cinza-claro, preferiu pela cor vermelha. Um vermelho escarlate e bem forte contrastando com sua grossa kagune azul.
- Aquele ali é o chefe – esclarece Sun – sempre usa máscara, mas é fácil deduzir sua identidade.
- Existe alguém da nossa família no grupo dele, por acaso? – Sun encolhe os ombros.
- Havia. Lembra da Esther? – uma prima nossa, pouco mais velha, rinkaku, morta há poucas semanas; havia deixado nosso grupo no dia em que aquele bando de caçadores invadiu nosso esconderijo, sem dizer onde estava indo. Eu já desconfiava há algum tempo que havia algo de errado com ela. Mas meu primeiro pensamento havia sido em Agatha, que assim como Esther, se separou de nós. E se encontra com um rapaz da família Hantzsch regularmente.
- Como você descobriu? – pergunto.
- Você não sabe como ela foi morta? – nego com a cabeça – ela e alguns membros da Leichtern Rücken invadiram um bordel, mas era uma armadilha dos caçadores. A maioria dos ghouls conseguiu fugir, mas ela foi pega.
- O que essa babaca estava fazendo com os Hantzsch? – pergunto, um tanto irritado.
- Já houve pessoas das nossas famílias que se envolveram e se misturaram – lembra Sun.
- Sim, e todas acabaram indo para o lado deles – retruco – eles só nos trazem problemas. Fazem merda o tempo todo. Ninguém nunca teria notado a existência dos ghouls por aqui se eles não tivessem essa necessidade gritante de se mostrar pros humanos. Se queriam tanto chamar a atenção, deveriam colocar uma melancia na cabeça e sair dançando a conga por aí – Sun solta uma risada alta e repentina.
- Você não está errado – concorda meu irmão.

***

Eu e Sun voltamos da rua carregando um saco funerário com dois cadáveres dentro. Fora durante a noite, obviamente, senão não iríamos longe carregando corpos na rua, ou com a minha cara de segundo ghoul mais procurado da fortaleza.
- Chegamos! – anuncia Sun, batendo a porta atrás de si com uma mão enquanto segura a ponta do saco com a outra. Nosso primo Lucas é quem vem nos receber primeiro, correndo e gritando, cheio de animação. O garoto tem quase 11 anos, mas parece ainda ter 6 às vezes. E está com os olhos à vista de novo quando se joga em mim, me abraçando e falando algo sobre eu ser um “anjo guerreiro” ou alguma besteira do tipo. Ele costuma fazer isso quando está com fome e trazemos a comida.
- Sim, sim, Lucas – concordo, paciente – mas anjo não gostam de ser agarrados assim, lembra? Eu posso acabar... – faço cara de pensativo – quem sabe... te mandando pra um inferno cheio de humanos!
- Credo! Que horror! – o garoto simula estar assustado e ri – espera um pouco, mas aí seria comida infinita!
- Então imagina que você não tem dentes – adiciono, enquanto deposito os corpos sobre uma bancada. Mary e Hermann se juntam a nós em seguida.
- Ei, garotos – nosso tio, com aparência abatida. Viver numa guerra assim é demais para alguém como ele. O cara é quase um hippie.
- Ei, tio – eu e Sun, ao mesmo tempo, enquanto abrimos o saco preto – Martha Mannheimer, 27 anos, morta num acidente de trabalho. Thaddäus Germar, 56 anos, morto por causas desconhecidas. Não se preocupem, não foi de doença – informa meu irmão.
- Sim, olhem só isso – viro a cabeça do homem, mostrando um pequeno furo, quase imperceptível, na base de seu pescoço. A marca de todo assassinato político: eles são presos e envenenados. Se trata de um veneno que, de alguma forma, se dissolve no corpo em poucas horas, tornando uma autópsia bastante difícil. Por isso, todo morto político é marcado como “morto por causas desconhecidas”, embora nem todos os marcados assim sejam necessariamente mortos políticos. Hermann suspira, sacudindo a cabeça.
- Pobre bastardo – murmura.
- Pra mim, essa Martha é mais “pobre” do que ele – murmuro, dando de ombros, enquanto arranco o braço esquerdo da garota e me afasto do resto da família. Farejo o ar, silenciosamente, e sorrio de leve. Parece que, agora, está tudo pronto.

O “acidente de trabalho” seria melhor descrito como um “homicídio por acidente”. Eu e Sun sempre checamos a causa da morte dos corpos que pegamos, assim como a idade. Corpos doentes não são a melhor coisa do mundo para se comer, embora não faça exatamente mal a nós, ghouls; e a idade muitas vezes interfere na consistência e no gosto da carne. O tempo pelo qual a pessoa está morta, também. Por isso, quanto mais fresco for o cadáver, melhor.

Na verdade, Martha fora a vítima acidental de um caçador, enquanto ele lutava com um ghoul. Invadiram a usina onde ela estava, durante a noite. Por ser a faxineira, era a última a sair, mas só depois de trancar tudo. Ao que parece, o ghoul se aproveitou da escuridão para se esconder. O caçador o estava procurando nos andares superiores, e ao ver a mulher indo em direção à saída, na escuridão, derrubou algumas peças fora de uso sobre ela: pedaços de engrenagem, correntes, etc. Por isso, o crânio da garota está quebrado, e um de seus ombros, deslocado. Soube disso através do boletim de ocorrência da polícia que estava anexado ao atestado de óbito.

Mais dois casos para a minha lista já infinita. Mais duas provas de que os humanos são incapazes de respeitar qualquer forma de vida na Terra; inclusive eles mesmos. Mais duas provas do quanto essa raça é egoísta, estúpida, cega e covarde.

Enfim. Está na hora de fazer o que tenho preparado nessas últimas semanas. Já devorei metade do braço de Martha quando abro a porta do depósito onde nosso aprendiz de estimação está. Sua expressão é abatida e ele sequer tenta dizer algo ao perceber minha presença. Me sento de frente para ele, terminando de comer, e jogo os ossos de lado. Trago uma mochila nas costas. Tenho alguns... equipamentos guardados.
- Você vai morrer hoje – anuncio, calmo – mas antes, eu queria te perguntar algumas coisas – o caçador levanta o rosto, como se tentasse me encarar, ainda que não tenha mais olhos. Mesmo de mau humor e em péssimas condições, sinto uma certa curiosidade emanando dele – você se considera uma boa pessoa?
- Melhor que você – retruca o caçador. Sorrio.
- Mas você se considera bom? Olhando tudo o que você já fez na sua vida, você acredita realmente que é um homem bom?
- Sem... – ele titubeia antes de completar a frase – dúvidas.

Abro um pouco mais o sorriso.
- É mesmo, Akseli Tuomainen? – e de repente, parece que os vários meses de fome, frio, tortura física e psicológica e isolamento pelos quais Akseli passou, não existem mais. Suas sobrancelhas se levantam, o cansaço desaparece de seu rosto, ele até tenta se levantar. Demora uns cinco segundos para que ele recupere a compostura.
- Como você sabe o meu nome, monstro desgraçado?
- Ao que me parece, você tem 24 anos atualmente. Entrou para a Academia Militar aos 13 anos, onde sempre teve um histórico de bom comportamento. Mas... – jogo a mochila aos meus pés e tiro um álbum de fotos ligeiramente empoeirado de dentro. Abro na primeira página e encaro as fotos da turma de formatura de seis anos atrás, fixando um rapaz de aparência magra e expressão triste – esse garoto, aparentemente, fez da sua vida um inferno e por isso foi punido várias e várias vezes. Um pouco estranho – reflito – afinal, ele não tinha amigos e era uns 15 centímetros mais baixo que você. Como um garoto tão fraco, fisicamente, e sem nenhum amigo consegue fazer um dos caras mais populares do colégio sofrer tanto? – sorrio, provocador.

Akseli não responde de imediato. Aproveito a deixa para me levantar, em silêncio.
- Pare de supor o que você não sabe – replica Akseli, enquanto ando em direção à uma mesa de madeira improvisada num canto e esvazio a mochila sobre ela. Mantenho um dos olhos fixos em Akseli. O humano estremece ao ouvir o barulho do metal caindo sobre a madeira.
- Eu fui atrás desse rapaz, sabe? – continuo, num tom quase banal – Markku Kuoppala. Mas ele morreu há três anos. Cometeu suicídio. O que tem a dizer sobre isso?
- Markku era problemático – o tom de Akseli soa bastante defensivo.
- Acalme-se, eu ainda não te acusei de nada. Enfim... eu falei com o irmão caçula de Markku. Ele se chama Anton, e tem 20 anos agora. Sabe o que ele me disse? – exibo um sorriso psicótico – ele disse que você humilhava Markku todo dia. O forçava a fazer seus deveres, roubava seu dinheiro, e até batia nele. E checando os registros da enfermaria da Academia Militar... – tiro um caderno com capa de plástico de dentro da mochila e folheio lentamente as páginas – parece que a única vez que você deu entrada lá, foi por conta de um tornozelo torcido durante um treino físico. Mas por alguma razão, Markku foi mandado para a enfermaria nada menos que 14 vezes nos cinco anos em que vocês estudaram juntos. E apenas uma delas possui justificativa – meu sorriso rasga ainda mais. Akseli está suando frio e visivelmente nervoso – “quebrou o braço no treinamento de defesa corpo-a-corpo”. Ironicamente, você era o parceiro dele. Mas foi o primeiro a socorrê-lo e chorou, arrependido. Se livrou de uma punição e de qualquer advertência, por ter sido um “acidente”. Me diga, como uma pessoa quebra o braço de outra num treinamento de kas-pin básico? – a expressão de Akseli é impagável. Parece a de uma criança pega no flagra. Sequer preciso ver seus olhos para saber como estariam agora.
- Eu não soube medir minha força... – começa Akseli, mas é imediatamente interrompido por minha risada ruidosa.
- Bela desculpa. Eu também não, sabe? – piso em seu joelho mais uma vez; o rapaz geme de dor – nossa, desculpa. Doeu? Tá tão difícil acertar o chão – piso mais algumas vezes, cada vez com mais força. Akseli lacrimeja de dor, até que escuto seu osso quebrar e ele grita, embora tente se conter – nossa, desculpa! Eu juro que é sem querer. Onde está essa droga de chão? – piso no outro joelho – ah, mas que saco! Desisto. Vou ficar aqui mesmo – e me mantenho de pé, equilibrado sobre os joelhos de Akseli.

Me mantenho sem falar nada por alguns minutos, apenas observando o humano agonizando em dor.
- Você não se tornou um caçador para “proteger a raça humana”, conforme citou no seu texto de admissão à Tropa de Caçadores de Ghouls, há dois anos. Assim como qualquer outro, você se tornou um caçador pelas grandes recompensas em dinheiro e pelo poder que conseguiria nessa carreira – acuso – você se tornou um caçador para conseguir privilégios em cima do nosso sangue. O sangue dos ghouls. 

O exército de Toivoa é dividido em várias seções: a Polícia Civil, responsável por lidar com a lei e a ordem na cidade, tomando conta dos civis humanos e com pouco preparo para enfrentar ghouls ou titãs; o Exército Interno, responsável por manter a vigia e a segurança nas fronteiras de Toivoa, com um preparo decente para lidar com titãs e possíveis invasões, mas não com ghouls; o Exército Externo, responsável por explorar o território além das fronteiras e especialista em lidar com titãs; a Tropa de Elite, responsável pela segurança de homens dos altos cargos, extremamente difícil de ingressar e o serviço mais bem pago de todos, mas mal-visto pela população por serem "mercenários". Costuma possuir especialistas em combates tanto contra ghouls quanto contra humanos e titãs; a Tropa de Choque, responsável por conter manifestações e protestos e caçar líderes da oposição ou de possíveis rebeliões, especializada em tortura, perseguição, pancadaria e homicídio de humanos; e a Tropa de Caçadores de Ghouls, que lida com os ghouls na cidade e, depois da Tropa de Elite, é o serviço mais bem pago, sendo entretanto a seção mais popular junto ao público, que os veem como heróis da humanidade. Ainda que apenas o Exército Externo tenha uma taxa de mortos maior, o apelo popular e o dinheiro chama muita atenção. Ninguém desse grupo realmente se preocupa em ser um herói, apenas em parecer com um aos olhos dos civis alienados e estúpidos. Agarro Akseli pelo pescoço, enforcando-o.
- Como foram seus anos no Exército Interno? – pergunto, com uma expressão mórbida. Não obtenho resposta imediata, então enterro minhas unhas na carne do humano, fazendo-o sangrar – eu te fiz uma pergunta.
- Muito bons – responde Akseli, engasgando em seguida. O solto e saio de cima de seus joelhos.
- E porque decidiu se tornar um Caçador? Achou que o dinheiro pagava sua vida? Está satisfeito com o resultado? E não me venha com frases heroicas, seu hipócrita nojento. Eu conheço seus crimes.
- Eu queria me consertar... – começa Akseli; respondo imediatamente com um chute frontal que lhe quebra o nariz e cobre seu rosto de sangue.
- Resposta errada, seu mentiroso do caralho – e outro chute, dessa vez no queixo – pare de tentar pagar de herói. Você não é um herói, é só mais um monstro qualquer. Aposto que não hesitaria em vender sua mãe por um pouco mais de poder. Eu quero ouvir A VERDADE.

Akseli expira, inspira e respira profundamente, várias vezes. Mantém o rosto virado para algum ponto à minha esquerda, como se observasse algo, exceto que ele não pode mais observar nada. Seu rosto coberto de sangue e sua expressão cansada me são prazerosas.
- Mas você já sabe. Qual é a diferença?
- Eu quero ouvir da sua boca – sibilo, baixinho – fale logo, humano de merda.
- Eu queria poder e dinheiro – murmura Akseli.
- Mais alto.
- Eu queria poder e dinheiro – torna a murmurar.
- Eu não estou ouvindo.
- Eu queria poder e dinheiro – agora, ele fala num tom comum.
- Eu mandei falar mais alto! – exclamo, autoritário, dando um passo em sua direção e me agachando para encará-lo de perto; ele respira pesadamente, e o cheiro do suor brotando de sua pele é cada vez mais forte.
- Eu queria poder e dinheiro!
- Mais alto!
- Eu queria poder e dinheiro! – Akseli já está gritando. Aproximo meu rosto do dele.
- EU MANDEI FALAR MAIS ALTO! – berro na sua cara.
- EU QUERIA PODER E DINHEIRO! EU QUERIA PODER E DINHEIRO, CARALHO! EU QUERIA UMA VIDA FÁCIL E CONFORTÁVEL! TODOS QUEREM! VAI ME JULGAR POR ISSO? – Akseli deve usar toda a potência de seus pulmões para este último grito. Deve ter sido possível ouvi-los lá do outro lado do quartel abandonado. Sorrio, dando-lhe tapinhas nas costas, enquanto o humano, suado e ofegante, deixa uma lágrima escapar e lhe molhar a face.
- Muito bem, Akseli. Doeu muito ser sincero, uma vez na vida? Deu admitir que você não passa de um ser humano hipócrita, nojento e assassino? – escuto passos do outro lado. Parece que ele ouviu o sinal, como previsto. Está só esperando que eu o mande entrar – você sabe o meu nome?
- Sei. Emerick – assim que ele termina de pronunciar a última sílaba, agarro a sua língua dentro da boca, a puxo o máximo que posso pra fora enquanto ele se debate, tiro uma tesoura do elástico da calça e a corto fora.

Akseli chora de dor, enquanto sua boca é inundada por sangue e ele se encolhe, puxando os braços acorrentados violentamente, provavelmente um movimento instintivo para tampar a boca.
- Pode entrar – anuncio para a porta, que se abre assim que dou a autorização. Um rapaz jovem, pequeno, de ombros finos, pele clara, cabelos pretos, curtos e repicados e olhos pretos é quem entra na sala. Anton Kuoppala, o irmão de Markku. Sua expressão ao ver o homem ensanguentado é de ódio, nojo e prazer, tudo ao mesmo tempo. Akseli, embora ainda esteja agonizando de dor, percebe a presença do irmão de Markku e tenta levantar os olhos na nossa direção, mesmo estando cego, e ainda sangrando como uma fonte. Sua expressão é de puro terror. Imagino que esteja se perguntando quem está ali.
- Ele sofreu bastante? – pergunta Anton, com sua voz de adolescente cheia de dor, angústia e raiva. Não faço ideia se Akseli chegou a conhecê-lo para identificar o dono da voz.
- Sim.
- Obrigado – agradece Anton.
- Use qual arma você quiser – ofereço, apontando para a mesa onde espalhara o conteúdo da mochila: foices, facas de cozinha, tesouras de jardinagem, uma motosserra, um cano com a ponta quebrada e afiada, uma garrafa de vidro e outros objetos bastante letais. Anton vai direto para o taco de madeira com pregos na ponta e se coloca de frente ao agressor de seu irmão.
- Seu hipócrita desgraçado – sussurra Anton. Akseli sacode a cabeça, como quem suplica um “não” – eu lembro da sua cara quando eu e meu pai íamos buscar Markku no colégio. Eu lembro da sua cara naquela reunião de pais e mestres. Eu lembro das suas lágrimas falsas. De você se aproveitando da fragilidade física e emocional do Markku. Eu lembro do quanto você era um verdadeiro saco de bosta.

Me concentro em observar a cena. Anton conversa longamente com Akseli sobre todas as coisas ruins que ele fizera com seu irmão, sobre como ele próprio e seus pais tentaram dar todo o suporte possível ao jovem destruído mentalmente ao fim dos estudos, mas como nada funcionou, e como ele amanheceu morto por uma overdose de remédios num certo dia. Como tudo isso foi desencadeado por pessoas como Akseli. Pelo próprio Akseli. Por essas pessoas que clamam ser heroínas e buscam os holofotes para elas, enquanto ostentem sorrisos hipócritas e varrem seus crimes para algum canto escuro. Enquanto se proclamam defensoras da humanidade, sem deixar de fazer os humanos "menos iguais" sofrerem. Um discurso de quase quinze minutos. Mas Anton não cede às lágrimas. Até que eu gostei desse humano.
- Apenas morra, seu merda – insulta Anton, descendo seu primeiro golpe contra a cabeça do aprendiz de caçador. Não é um homem muito forte, mas golpe após golpe, ele faz um belo estrago. Akseli chora e grunhe, se encolhe como pode e tenta a todo custo se defender dos golpes seguintes de Anton. Seu taco, suas mãos e suas roupas já estão cobertas de sangue: mas ele continua. Akseli já não respira depois de cinco minutos de espancamento consecutivo, mas Anton continua. E xinga e deprecia o homem já morto em sua frente. Há apenas ódio e raiva em sua voz e expressão. Não vejo lágrimas. Não há arrependimento. Apenas o doce sabor da vingança fria.

Quando ele finalmente termina, se deixa cair de joelhos. Larga o taco coberto de sangue. Fecha os olhos. Sua respiração é profunda, ainda que rascante; e se acalma rapidamente. Não há lágrimas. Não há nenhuma lágrima. Não há sofrimento.

Não há arrependimento algum. Há apenas a paz. A paz que a vingança lhe trouxe. Aos poucos, um sorriso sutil se desenha no rosto do rapaz. Um sorriso de alívio.


Notas Finais


nan sei bem o q falar sobre esse capítulo, eu tinha um comentário em mente mas pode ser que seja um leve spoiler, então não vou fazê-lo -qq


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