História Shingeki No Ghoul - Capítulo 38


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Categorias Shingeki no Kyojin (Attack on Titan), Tokyo Ghoul
Personagens Annie Leonhardt, Armin Arlert, Beast Titan, Connie Springer, Daz, Dot Pixis, Eld Jinn, Eren Jaeger, Erwin Smith, Gunther Schultz, Hange Zoë, Historia Reiss, Ian Dietrich, Jean Kirschtein, Keith Shadis, Levi Ackerman "Rivaille", Marco Bott, Mikasa Ackerman, Mike Zacharius, Oluo Bozado, Personagens Originais, Petra Ral, Reiner Braun, Rico Brzenska, Sasha Braus, Ymir
Tags Ackerman, Armin, Asamoah, Attack On Titan, Balas Q, Bikaku, Connie, Emerick, Emerick Asamoah, Eren, Ghoul, Homem Trans, Kagune, Kakugan, Kakuja, Koukaku, Kyojin, Kyokin, Levi, Lgbt, Mikasa, Mikasa Ackerman X Sasha Blouse, Mikasa X Sasha, Quinque, Representatividade, Representatividade Lgbt, Representatividade Negra, Representatividade Trans, Rinkaku, Rivaille, Sasha Braus, Shingeki, Shingeki No Kyojin, Tokyo, Tokyo Ghoul, Trans*, Transgênero, Transmasculino, Transsexual, Ukaku, Yaoi, Yuri
Exibições 37
Palavras 4.830
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Canibalismo, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Spoilers, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Aviso de conteúdo: transfobia, violência, mutilação, assassinato

Capítulo 38 - Tudo o que Restou


Não preciso ter pressa.

O carro é capaz de percorrer a distância entre Rose, Maria e Sina e São Petersburgo em bem menos de um mês. Não passarei fome, portanto.

Ainda está de madrugada. Se passou uma hora desde que deixei o meu antigo grupo para trás. A primeira parte da missão foi concluída. Minha família não estará indefesa. Já São Petersburgo... é outra história. Mas antes de ir pra lá, tem uma pequena curiosidade que eu quero saciar: ver as ruínas do mundo antigo. Por mais que eu já tenha atravessado o continente algumas vezes, nunca vi nenhuma. Os livros dizem que a Europa, o continente onde estamos, era um dos grandes centros do mundo civilizado. Descrevem várias cidades com milhões de habitantes e construções chamadas de “arranha-céu”, e monumentos, e concreto, e pedra, e tecnologia, e ruínas de mundos ainda mais antigos, como a "Idade Média", o "Império Romano" e a "Grécia Antiga". Descrevem linhas de ferro, rotas de um material chamado “asfalto”, que atravessavam continentes inteiros e estavam por todos os lados. Mas, de alguma forma, eu nunca vi nada disso. Nem uma mera poeira.

Tomei mapas e indicações antigas. Durante o ano e meio em que treinei aqueles sete ghouls, todas as noites, sozinho em meu quarto, estudava aqueles mapas. Encontrei a localização exata das muralhas nele: um ponto no extremo oeste da Alemanha, próximo à fronteira com a França. No caminho para São Petersburgo, que possuía esse mesmo nome antes dos titãs e já era uma grande cidade, está Berlim. A capital da Alemanha, uma das cidades mais importantes do continente. Segundo um atlas geográfico datado de 2008 que lera em Toivoa, aos 11 ou 12 anos, naquele momento Berlim possuía 3,5 milhões de habitantes.

Eu preciso ir até lá. Preciso ver as ruínas dos tempos antigos. É simplesmente estranho demais que o continente descrito como “centro da civilização” nos livros e nas memórias dos pais e avós dos mais velhos simplesmente não tenha registro algum de sua história. Começo a pensar se isso não tem algo a ver com os titãs. Talvez eles possuam alguma racionalidade? Talvez tenham passado os últimos cem anos não apenas tentando destruir a humanidade, como também apagar todos os traços de sua história? Eu não sei. Acho que nunca saberei. Mas imagino que seja uma teoria tosca.

Aprendi muito mais sobre esse veículo, no tempo que passei com os russos: São Petersburgo desenvolveu formas de tecnologia que se abastecem de energia da forma mais independente possível. Normalmente, os veículos terrestres possuem placas de energia solar no teto e, no para-choque frontal, placas que transformam a energia do movimento do vento em combustível. Normalmente, a bateria dura algumas horas antes de acabar – depois de alguns testes, concluí que varia entre 6 e 8 horas de duração, e 4 horas para recarregar. Berlim fica a cerca de 750 quilômetros, enquanto o veículo russo mantém uma velocidade média de 100 quilômetros por hora quando estou em terrenos bons, chegando a 130 ás vezes. Bem mais que os melhores cavalos da Tropa de Exploração. Então, devo chegar lá com a bateria no fim, se eu fizer o caminho mais eficiente possível.

***

O céu está cinza. O tempo, ligeiramente frio – nada comparado a Toivoa ou mesmo São Petersburgo, no entanto. Não é possível ver o Sol, pois as nuvens o cobriram completamente, mas eu diria que estamos perto do meio-dia. Na teoria, eu devo estar bem próximo de onde antes era Berlim. Só não sei se haverá algo lá. Até agora, não vi nada. Suspiro, impaciente, enquanto diminuo a velocidade para prestar mais atenção nos arredores: deveria haver algo, por aqui. Tenho certeza de que fiz o caminho certo. Como uma cidade tão grande pôde sumir sem deixar o menor rastro em questão de cem anos?

Sinto algo inesperado no ar. Freio o carro repentinamente. Desligo a chave do contato e vou até a parte de trás do veículo, onde guardei três DMTs e dezenas de cápsulas de gás, além de duas sacolas de papel cheias de grãos de café, algumas garrafas de água e as quinques de sabre e machete que roubara de caçadores mortos, um em Toivoa e outro em São Petersburgo. Ao pisar na terra, sinto algo diferente: não parece terra normal. Termino de vestir o DMT antes de me ajoelhar e começar a cavar usando uma pedra mais ou menos do tamanho do meu punho.

Não preciso de muito esforço para que uma espécie de poeira cinza comece a aparecer na terra dura. “Mas que merda é essa?”, me pergunto, franzindo o cenho. Aproximo a terra manchada do nariz e inspiro aquele odor. Com certeza, a terra daqui está bem diferente. Esse pó cinza vem do tal “asfalto”? Não sei dizer. Me coloco de pé, tornando a me concentrar nos cheiros que me fizeram parar.

São humanos, no mínimo uma centena deles, comprimidos em algum ponto à minha frente. Vivos, sem dúvida. Olho ao redor: nenhum titã por perto. E há ghouls, também. Os ghouls estão espalhados, e são bem menos numerosos. Uns vinte ou trinta, talvez? Há um amontoado de árvores altas e de folhagens espalhadas mais a frente. O cheiro está depois dessas árvores. Deixo o carro onde está e sigo a pé. Sinto o cheiro de ghouls se movimentando ao meu redor. Pondero que devem ser capazes de me compreender, visto que esse território fazia parte da Alemanha. Então, talvez eu até pergunte o que há por aqui antes de matá-los.

Há oito deles agora, bem próximos de mim. Se movimentam rapidamente, formando um círculo ao meu redor. Devem estar tentando ser sutis. Sinto vontade de rir com o tamanho de sua falha. Acho que vou brincar um pouco com eles. Fingir que não consigo revelar minha kagune, talvez. Vai ser bem engraçado. Meus olhos já estão à mostra desde que saí do carro. Mantenho a machete e o sabre na bainha às costas, como se não tivesse percebido nada.

Repentinamente, quatro ghouls à frente e quatro atrás se revelam, com kagunes a postos: dois ukakus, dois bikakus, dois rinkakus, dois koukakus. Um bikaku de cauda grossa, pele clara, cabeça raspada, na casa dos 40 anos, se aproxima de mim a passos rápidos, fungando ruidosamente o ar.
- Ghoul? – pergunta, com uma expressão agressiva, enquanto segura meus dois ombros com força e cheira a base do meu pescoço. Eu poderia despedaçá-lo agora, mas vou me controlar para tornar a brincadeira mais interessante. Calculo que comer a carne 20 ghouls me daria um bom avanço na minha transformação. Não respondo nada, e mantenho a expressão inalterada.

Sinto a língua do bikaku percorrendo meu pescoço; uma pequena chama de fúria se acende dentro de mim.
- É. O gosto é mais ou menos – seu sotaque é bem bizarro. Parece puxar para vogais abertas e palavras oxítonas mais do que o normal – prendam a forasteira. Vamos servi-la no jantar de hoje.

Rio por dentro. Parece que hoje terei um banquete.
- Eu sou um homem – murmuro, entediado, enquanto um ukaku grandalhão de uns 20 anos e um rinkaku magrelo e velhote amarram meus braços com cordas grossas. O bikaku reage de imediato, virando para mim e me dando um tapa forte no rosto. Permaneço imóvel. Não emito o menor ruído. O bikaku sacode a mão usada para dar o golpe, como quem sente dor, e me xinga baixinho. Sorrio vagamente. O bikaku já perdera o sorriso quando machucou a própria mão tentando me bater, mas agora parece até um pouco assustado.
- Levem-na daqui, de uma vez!

***

Atravessamos a pequena floresta em menos dez minutos, até chegarmos ao que com certeza era uma ruína: um prédio bem alto, como alguns dos que vi em São Petersburgo; mas esse, quase completamente destruído pelo tempo e porcamente restaurado em vários pontos. A impressão que se tem é de que ele pode cair a qualquer momento. Ao redor, uma mistura de cabanas de madeira e casas de pedra e concreto. O chão aqui não é de terra, pedra ou concreto: é um material cinza, num tom escuro. Não possui demarcação alguma, mas ainda assim me lembra das fotos e imagens que vi das ruas de asfalto – exceto que esse trecho está num estado mil vezes pior, com vários buracos tampados por terra e madeira. De alguma forma, nesse trecho da cidade, e apenas nesse, ainda existem ruínas. “Isso não tem o menor sentido”, reflito.

Estou dentro do prédio, agora. No térreo, dentro de um quarto que aparentemente funciona como cela, junto com cinco humanos adolescentes. Estão todos nus, e não possuem pelo algum no corpo. Eles conversam entre si, mas o seu alemão parece quase deformado: é como se fossem estrangeiros tentando falar uma língua a qual pouco conhecem. Dos cinco, quatro parecem contentes e esperançosos. O último, no entanto, está bem pessimista. Me mantenho num dos cantos do quarto, fingindo não existir. Claro, fui orientado a não tocar nos humanos, e me ameaçaram. "Otários", zombo em pensamento.
- Papa escolher nós – retruca um dos confiantes ao pessimista – nós livre.
- Nós livre, não! – o pessimista grita na cara do companheiro, irritado. Sua voz é aguda e desafinada – eles comer nós! Leiteira ver!
- Leiteira mentira – um outro garoto confiante, menor que os outros, eu diria que na casa dos 14 anos – Leiteira morta.
- Nós, comida! Sem-raça, burro! Ghoul come sem-raça! – ele continua a gritar; lágrimas escorrem de seus olhos – vocês, burro! Eu odiar vocês! Burro! – um dos mais confiantes dá um forte tapa na cara do colega, que cai de cara no chão, choramingando. O garoto mais novo faz menção de se abaixar para ajudá-lo, mas o que dera o tapa o segura pelo pulso.
- Não ajudar, menino mau, Papa punição.

“Então”, reflito, “é assim que seria caso os ghouls submetessem os humanos à mesma condição que os humanos submeteram seus animais?”.

A noite chega e confirma o que penso: três ghouls com as kagunes à mostra vem nos buscar. Os cinco rapazes permaneceram afastados de mim, de vez em quando me lançando olhares curiosos e desconfiados; agora, os quatro confiantes de mais cedo correm para ser algemados, aparentemente bem contentes com isso, enquanto o quinto se encolhe num canto e grita em desespero, tentando resistir.
- Acho que a Leiteira andou abrindo a boca de novo – murmura um dos ghouls, agarrando o garoto por baixo dos braços e o forçando a ficar de pé, enquanto outro amarra suas mãos.
- Aquela velha não aguenta ficar quieta nem por um segundo – eles possuem um sotaque similar ao bikaku de hoje mais cedo.

Enquanto isso, o terceiro ghoul amarra meus braços e me coloca no final da fila indiana que foi formada. Ele me encara com uma curiosidade psicótica no olhar.
- Você é o terceiro ghoul forasteiro que aparece por aqui nos últimos cinco anos. Espero estar mais acostumado com o gosto, dessa vez – provoca. Sorrio de volta, confiante.
- Garanto que sou bem gostoso – provoco de volta, num tom de ânimo sarcástico. Em seguida, abaixo ligeiramente o tom de voz e assumo um tom bem mais macabro – vamos ver se você também é.

Ele me encara e ri, cheio de deboche.
- Infelizmente pra você, depois dessa noite você nunca mais vai poder ver nada.

Nos guiam pelas ruas iluminadas até entre as árvores, e após uns cinco minutos de caminhada, chegamos a uma entrada para o subterrâneo. Os três ghouls removem as amarras e nos instruem a esperar a porta se abrir para entrar “no palco”, usando a mesma linguagem simples dos humanos: “porta abre, sem-raça entra”, e nenhuma palavra a mais. Se afastam em direção às escadas por onde entramos, e grades metálicas sobem lentamente, nos prendendo aqui.

Meu DMT fora arrancado de mim, assim como minhas quinques, pouco após a minha “captura”. Mas tanto faz: não precisarei deles, por aqui. Sinto os cheiros de vários ghouls do outro lado. Conto com calma: 33. Nenhum humano por perto. Os únicos que consigo sentir o cheiro são os cinco adolescentes ao meu redor. Um deles se encolhe num canto, choramingando. Aquele que estava tentando alertar os outros sobre a natureza dos ghouls. Estralo o pescoço, pronto para o show.

Eu sei o que é, esse lugar. É inconfundível. Li nos livros sobre os tempos antigos: um “restaurante ghoul”. Mas antigamente, eles precisavam enganar suas vítimas para atraí-las até um. Hoje em dia, ao que parece, basta criá-los como gado. E finalmente, a porta cinzenta se abre. Os quatro adolescentes confiantes imediatamente avançam em direção à luz branca do outro lado. Eu venho logo atrás, observando a massa de ghouls com curiosidade. Eles portam máscaras. Sei que, antigamente, o faziam para esconder sua identidade. Hoje, devem ter continuado o costume pela mera tradição. Uma porta imediatamente à frente de nós se abre, e um outro humano sai de lá. Este tem a pele escura e um corpo exageradamente forte e musculoso. Carrega as minhas duas quinques, uma em cada mão. Sua expressão parece a de um louco ensandecido pela vontade de matar. Quando nos encara, leio uma obsessão sanguinária em seu olhar. Dois ghouls têm que descer da plateia para arrastar o último humano para o tal “palco”. Parece mais uma arena de gladiadores, do meu ponto de vista. Ao fecharem a porta por onde entramos, o garoto bate nela com força, chorando e soluçando, como se quisesse voltar lá pra dentro. Os dois ghouls voltam aos seus lugares, mas os outros quatro humanos já não conservam a mesma confiança de antes.
- Senhoras e senhores! – escuto uma mulher anunciar em um tom alto. No segundo (e último) andar, uns seis metros acima de nós, localizo a dona da voz: uma ghoul cuja a máscara completamente branca tampa apenas um lado do rosto, deixando apenas uma de suas kakugans à mostra. Seu tom me faz pensar que se trata de uma autoridade respeitada pelos locais. Os cinco humanos imediatamente se ajoelham, incluindo o que sabe que ghouls comem humanos, embora este continue chorando e tremendo.
- Papa! – os quatro mais confiantes falam juntos, bastante animados.
- Pa-papa... – o quinto se atrasa. Todos estão com as mãos juntas, como se fossem rezar. A mulher sorri, de um jeito até mesmo maternal, para os cinco que pretende devorar.
- No jantar de hoje, como podem ver, teremos um oferecimento especial de Rolf e seu grupo de guarda – por baixo da máscara preta de tecido que cobre completamente o rosto do homem ao seu lado, reconheço o cheiro daquele bikaku de mais cedo – como podem ver, capturamos um ghoul, provavelmente de origem africana – a mulher sorri, confiante, enquanto os mais de 30 ghouls presentes aplaudem e gritam em aprovação – uma garota de corpo forte e pele resistente, porém que não foi capaz de revelar sua kagune para se proteger dos nossos guardas. 1,65 de altura, aproximadamente 60 quilos. Em seguida, temos...
- Com licença – interrompo, calmo – eu sou um homem.

Os vários ghouls ao redor me vaiam, por quase um minuto, até que a líder consegue aquietá-los.
- Acalmem-se! Acalmem-se, meus irmãos e irmãs... – os sons cessam – continuando. Em seguida, temos cinco humanos do nosso rebanho, aos quais vocês já devem conhecer, mas vou apresentá-los mesmo assim: para a entrada, temos Sardento Quatro – o garoto menor se levanta, animado. Me pergunto se ele está entendendo que nesse jantar, ele não é um convidado, mas sim um prato. Não vi nenhuma sarda nele, também – como podem ver, ele possui pouca gordura no corpo e é bem leve. Para antes da refeição principal, apresento a vocês: Vareta, Rolador Dois e Corredor – os outros três garotos ao lado do menor se levantam: um alto e magro, que acertara a cara do chorão mais cedo, um pouco mais baixo e gordo e o terceiro, de pernas longas e pele excessivamente branca – e para o prato principal, teremos esse ghoul forasteiro e Sobe-Árvore.

O último humano se levanta, trêmulo, ao ouvir o próprio nome.
- E vocês já devem ter percebido que, hoje, nosso melhor garçom vai nos servir: Furioso! – o humano do outro lado solta um rugido de satisfação, enquanto levanta minhas duas quinques para o alto e exibe seus músculos enormes – Furioso? Começar.

O humano avança para nós a passos largos, pisando forte. E o humano menor, que fora designado como “entrada”, anda lentamente em sua direção, como se estivesse em transe.
- Liberda...! – começa a dizer, antes de ter a cabeça partida ao meio por um golpe da minha machete. O garçom despedaça o garoto e arremessa os vários pedaços para a plateia, de uma forma que a princípio parece aleatória, mas depois percebo: quatro pedaços em cada andar, um pedaço em cada direção, sendo elas frente, esquerda, direita e trás. Observo tudo com calma, apoiado à parede e com os braços cruzados, apenas esperando para começar o meu próprio banquete.

O humano massacra os adolescentes em poucos minutos, um a um. Após ver o mais novo sendo despedaçado, os outros três perceberam finalmente a enrascada em que estavam metidos, e tentaram fugir, correndo apavorados de um lado para o outro na arena, mas acabaram por ser capturados um a um. O último humano, que assim como eu foi designado “prato principal”, está paralisado pelo pânico, exatamente na mesma posição de quando o chamaram pelo nome. O gigante de quase dois metros usa meu sabre rubi para dividi-lo ao meio. Os ghouls da plateia vão ao delírio, embriagados pelo prazer de assistir ao massacre. Agora, é a minha vez.

Quando o humano avança para mim, esquivo sua primeira estocada com facilidade, bloqueio a segunda segurando seu pulso e revido com um poderoso golpe de kas-pin no tronco, fazendo-o cair de costas, sem ar. O júbilo dos ghouls ao meu redor se torna menos intenso por algumas frações de segundo; detecto algumas faces surpresas na plateia, de onde um pequeno “oh” em coro sobe. Levanto o rosto, sorrindo confiante.
- Eu e meu irmão já estraçalhamos mais de vinte humanos prontos pra nos matar sem esforço algum, e vocês acham que esse ser aleatório aqui vai ter alguma chance contra mim? – provoco, em voz alta.
- PEGA ELE, FURIOSO! – grita alguém da plateia.
- PEGA ELE!
- Furio-soooo! – uma voz feminina diz de uma forma meio cantada – mate esse ghoul malvado para a mamãe, sim?

Espero pacientemente os quase sessenta segundos necessários para que o humano se recupere do meu golpe. A plateia visivelmente não entende o que está acontecendo, gritando cada vez mais irritada para que ele se levante de uma vez. Cambaleante, o humano de nome “Furioso” tenta brandir meu próprio sabre contra mim, mais uma vez. Me esquivo de seu primeiro golpe impreciso e revelo a kagune, apenas na mão direita, no segundo seguinte. Bloqueio seu golpe com minha nova kagune em forma de espada, e sorrio enquanto uso a outra mão para agarrar o seu pescoço, apertando os ossos de seu maxilar até que estejam a ponto de quebrar. É quando revelo a outra espada, que atravessa o crânio do humano como se fosse uma almofada. O clima de festa entre os ghouls cessa imediatamente, enquanto deixo um pouco do sangue em minhas mãos escorrer para a boca e termino por revelar minhas magníficas asas.

O silêncio entre os 33 ghouls, que há dois minutos riam e comemoravam, é mortal. Sequer começaram a se mover, ainda. Levanto os olhos para a plateia, que observa, chocada. Não tanto pela morte de seu garçom, provavelmente: mas por realizarem que, na verdade, o “capturado” é um kakuja. Ou melhor, um meio-kakuja, mas não sei se conseguirão diferenciar.
- Trinta e três ghouls – falo, em voz alta, com um sorriso rasgado e apavorante – obrigado por organizarem o banquete por mim.

E, sem aviso prévio, agarro meus dois tentáculos que simulam o fio de um DMT no teto da estrutura, me içando em alta velocidade – embora não tão rápido quanto um DMT. Caio no segundo andar, de frente com a mulher que fora chamada de Papa. Sua expressão é claramente de medo, mas ela revela uma admirável cauda de bikaku, pronta para lutar – ou ao menos foi o que ela pensou. Sua cabeça deixa seus ombros tão rápido quanto sua kagune fora revelada. Os ghouls mais próximos, visivelmente apavorados, dão passos para trás, tentando manter distância, e logo desatam a correr na direção oposta. Ando tranquilamente atrás dos ghouls apavorados: todos seguem na mesma direção, provavelmente a única saída. Retalho qualquer um que fique ao alcance dos meus sabres ou asas. Alguns tentam resistir: um koukaku cujo a kagune similar a pétalas gigantes não é capaz de parar o fio dos meus sabres. Duas ukakus que tentam um ataque combinado rápido e que têm seus corpos divididos ao meio, traídas pela própria velocidade. Um rinkaku com um tentáculo único grosso e cheio de espinhos, que não teve agilidade o suficiente para evitar ser decapitado. Dois bikakus, uma rinkaku e uma ukaku que tentam me cercar e impedir meu avanço em direção ao resto da massa de fugitivos – conseguem me atrasar por quase cinco segundos.

O último ghoul vivo a ainda não ter conseguido fugir não passa de um adolescente. Um garoto de uns 14 anos, que por alguma razão qualquer leva uns 10 segundos a mais que os outros para chegar na porta do primeiro andar. Não revela sua kagune ao me ver: solta um gemido de terror e pula para dentro da arena, indo atrás das quinques. Sorrio.
- Você não consegue usar sua kagune? – pergunto, num tom calmo, antes de ir atrás dele. O garoto escolhe o sabre e o aponta para mim: é visível que não possui conhecimento algum de combate. Suas mãos tremem violentamente. Guardo a kagune – vamos lá. Pode me atacar. Vou usar só meus braços e pernas.

O garoto solta um longo grito de guerra antes de correr em minha direção e brandir a quinque de uma maneira quase aleatória contra mim. Me esquivo sem esforço.
- Oh, que difícil – ironizo – assim você vai me matar – acrescento, antes de me esquivar de um novo golpe do garoto e lhe dar um pontapé no tornozelo, fazendo-o cair de costas com um baque. Piso em seu pescoço. O garoto sufoca, agarrando meu pé com uma mão e tentando me golpear com o sabre usando a outra. Seguro a lâmina com a mão esquerda e a arranco de seus dedos. Enterro o sabre em seu abdômen, fincando-o no chão e prendendo o garoto como um inseto. Seu sangue se espalha rapidamente pelo solo e é visível que sente dor, mas ele acabou de comer, então não deve morrer agora.

Dou as costas ao adolescente enquanto caminho na direção do cheiro dos outros. Conto nove foragidos, todos indo na mesma direção: ainda estão dentro do meu raio sensível. “Quanta lentidão”, penso, com desprezo, antes de sair pela mesmo porta por onde fugiram.

Vou parar numa espécie de salão de entrada, onde encontro meu DMT. Visto calmamente, sem pegar nenhuma lâmina. Sempre quis fazer um teste. Segurando o gatilho que dispara a âncora, revelo a kagune de kakuja mais uma vez. Os tentáculos se estendem por sobre o fio do DMT, dando-lhes uma aparência escarlate e aumentando sua resistência. Com os sabres, tenho mais cuidado: abro caminho lentamente no metal do gatilho, tomando cuidado para não tocar no sistema de movimentação. Em poucos segundos, tenho uma DMT-kagune pronta para o uso, com lâminas escarlate e um meio-kakuja no comando.

Os nove acabaram de sair do meu rastro, mas posso alcançá-los facilmente. Deixo a sala e uso o aparelho para me movimentar pela floresta. Assim que o faço, no entanto, sinto um cheiro diferente: humanos. No mínimo vinte deles, correndo em minha direção. Há também um titã, mas está distante demais; provavelmente, não tem nada a ver com a situação. Em menos de dez segundos, estou passando por cima de um grupo de humanos nus e armados com foices, espadas e porretes. Sequer me percebem, uns dez metros acima. Já sinto o cheiro dos ghouls que fugiram, reunidos uns cem metros à frente, pensando estar em segurança. Em poucos segundos, pouso silenciosamente nos galhos de uma árvore acima de suas cabeças. Me proponho a escutá-los.
- A... a presidente está morta... – choraminga um.
- Calma. É um kakuja, mas é só um – outro.
- Sim. Ele nos pegou de surpresa, mas se todos nos unirmos, poderemos com ele – alguém acrescenta, confiante.
- Será que alguém mais fugiu?
- Não sei...
- Rápido, temos que decidir, fugir ou lutar?
- Os garçons não vão durar muito tempo – a voz de uma garota jovem treme ao dizer isso.
- Se fugirmos, morreremos de fome na floresta. Precisamos lu... –dou um rasante no grupo e, antes que um ghoul alto e de meia idade possa terminar sua frase, arranco a parte de cima de sua cabeça: apenas os lábios inferiores para baixo continuam conectados ao corpo, que ainda permanece de pé por quase um segundo antes de cair de costas. Quando isso acontece, já estou dando outro rasante, agora com as lâminas viradas uma para cada lado, como asas. Poucos ghouls têm tempo de reagir, e quatro deles são divididos ao meio. Não presto mais atenção ao que dizem: são palavras distantes, num tom alto e desesperado. Miro num galho alto e me impulsiono para cima, percorro uma trilha curta entre folhas e galhos altos apenas para me perder de suas vistas e logo miro meus ganchos na parte média de outro tronco, dando mais um rasante sobre os quatro ghouls restantes: todos de costas para mim, correndo. Não os condeno: mesmo se estivessem de frente, não teriam chance alguma. Aponto uma das lâminas para o solo e divido o corpo da garota jovem em lado esquerdo e direito. Ela me percebera no último segundo e tentara se proteger revelando suas asas de ukaku, as quais não lhe serviram para absolutamente nada. Sobram três. Faço praticamente a mesma manobra para despistá-los, mas em vez de completar o movimento com um novo rasante, prefiro pousar num galho alto e correr silenciosamente entre as árvores, observando os últimos sobreviventes.

Os três revelaram suas kagunes: dois bikakus e um rinkaku. O rinkaku é um homem de meia idade e tórax largo, baixa estatura. Os dois bikakus são visivelmente gêmeos univitelinos: exatamente iguais. Loiros, jovens, altos, de corpo magro e franzino, sardas e olhos castanhos. Engulo em seco com a memória de Sun invadindo minha mente.
- F-f-f-f-fiquem frios, rapazes... – treme o mais velho – v-vamos p-pegar esse desgraçado.

“Awn, que peninha”, penso. “Acho que vou dar uma chance. Mentira, eles não vão ter chance nem assim”. Prendo o gancho no galho em que estou e desço tranquilamente até o chão. Ao chegar, guardo a kagune e deixo o DMT cair por terra. E sorrio, de um jeito falsamente amigável.
- Podem vir – desafio, levantando os punhos – não vou usar kagune. Seria fácil demais.

Os dois mais jovens não titubeiam: um ataca à distância, enquanto o outro corre em minha direção. Uso a árvore às minhas costas como ponto de apoio para me desviar da cauda longa do primeiro com um salto enquanto acerto uma voadora nos dentes do segundo. Com ele ainda caído no chão, dou mais uma pisada violenta em seu maxilar. Sinto seus ossos quebrando sob meus pés e ouço grunhidos de dor intensa. Só então o mais velho se junta ao ataque: seus dois tentáculos descoordenados não oferecem dificuldade extra alguma. Seguro um deles e o puxo para frente, fazendo o ghoul cair de cara no chão, e corro na direção do bikaku ao seu lado. Salto por cima de sua cauda e, quando entro no raio de alcance de seus braços, recebo um soco no abdômen que sequer é sentido, e respondo com uma cabeçada no rosto do bikaku, derrubando-o de costas e com o nariz sangrando. O rinkaku tenta se levantar, mas piso em suas costas e agarro seus tentáculos. Ele tenta me atacar com eles: piso com mais força e puxo sua kagune para cima. O bikaku já se ergueu, e tenta me perfurar com a cauda – me esquivo e, quando ela está ao lado do meu corpo, piso na cabeça do rinkaku sob meus pés com força enquanto solto sua kagune para agarrar a cauda do outro, visivelmente mais perigoso – não que faça alguma diferença. Ele liquefaz a kagune quando a agarro, escapando entre meus dedos, e tenta mais uma vez avançar no corpo-a-corpo contra mim, com uma série de socos pouco precisos aos quais evito facilmente, e revido com uma bicuda no joelho, derrubando o bikaku.

Sem aviso prévio, revelo a kagune-sabre do braço direito e transpasso o coração do bikaku.
- Cansei de brincar – sussurro, sarcástico, antes de decapitar o rinkaku e voltar para o outro bikaku. Ele está consciente, mas seus ossos ainda não regeneraram. Lacrimeja um pouco de dor. Parece nem sequer ter percebido a luta que se desenrolou. Suspiro com desprezo antes de enterrar minha kagune em sua testa.


Notas Finais


ficou meio longo esse capítulo, mas enfim -qqq


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