História Skins - New Generation - Capítulo 8


Escrita por: ~

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Categorias Skins
Tags Nova Geração, Skins
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Palavras 3.500
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Festa, Romance e Novela, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - S08E08 - Yaz


Fazia muito frio naquelas ruelas de Bristol. O inverno já havia passado, mas o ar gélido continuava por lá... Especialmente à noite. E por isso eu estava tremendo, as mãos enfiadas completamente nos bolsos do meu casaco.

Ao longe, eu vi um contorno escuro avançar em minha direção. Suspirei. Já era tempo. Não estava mais suportando o frio daquele lugar.

Para adiantar as coisas, eu caminhei até ele, passando por baixo de postes cujas lâmpadas piscavam precariamente. Ouvi vozes alteradas de dentro de uma das casas, e imaginei porque seria aquele escândalo todo.

As pessoas são sempre tão... barulhentas.

Minhas mãos se fecharam em torno do pacote de dinheiro, no bolso. Estreitei os olhos para ver melhor quem se aproximava. E dei graças ao Buda por não ser Alexander Hill, e sim um dos seus capachos.

- Trouxe a grana toda? – quis saber o homem em voz baixa.

- Tá aí – coloquei o bolo de dinheiro em sua mão.

- Hill já estava ficando impaciente.

- É, mas agora não precisa mais ficar – resmunguei. – A propósito, não vou mais me envolver nisso...

- Vai abandonar o barco?

- Eu vou embora – eu disse, como se devesse alguma explicação. Não devia, na verdade, mas expliquei assim mesmo. – Vou para Nova York, no final de agosto.

- Sei... – o homem deu um sorrisinho zombeteiro. – Hill não vai ficar muito satisfeito com isso.

- E ele fica satisfeito com alguma coisa? – retruquei. – A grana tá aí. Não devo mais nada. Não vão mais me ver, okay? Até nunca mais.

E, com as mãos enfiadas nos bolsos, me afastei.

Não tinha medo de andar sozinha por aquelas bandas de Bristol. Já estava acostumada a isso, desde que cheguei à cidade e me envolvi com os traficantes – inclusive com Alexander Hill. Carregava sempre um punhal no cinto, só pra precaver. Poucas vezes tive de usá-lo... Geralmente eu me saía bem na luta corporal.

Peguei o metrô quase vazio da madrugada e enfiei os fones nos ouvidos. Puxei o gorro para as orelhas, tirei um cigarro do maço e o acendi, ignorando a placa que me proibia de fumar. Ao lado da placa, havia um cartaz já surrado com a foto de uma garota loura, os cabelos da altura dos ombros e olhos azuis saltados. Emma Dreschler, desaparecida há quase um mês.

Ah, Emma...

O seu desaparecimento deixou toda a cidade alvoroçada. As opiniões eram muito divergentes acerca do que podia ter acontecido. Alguns diziam que ela podia muito bem ter fugido. A mãe discorda, porque ela não levara nada de casa. Mas os cartões de crédito que ela carregava foram usados no dia em que ela sumiu, então, não era uma hipótese descartável.

Outros diziam que ela foi sequestrada. Existem “testemunhas” que afirmaram tê-la visto entrar em um carro branco, com um cara barbado e traços orientais – que preconceito! As câmeras do shopping afirmam a existência do indivíduo, mas não conseguiram identificá-lo.

Alguns outros diziam que alguém mandou matá-la, já que seu desaparecimento foi exatamente no dia em que ela assumira, publicamente, que havia colocado imagens na internet expondo várias pessoas: Gwen Cavendish, Chad Cooper, Felicia Griffiths, Liam Powell e Dwight Stumm. E, portanto, todos foram interrogados, durante as investigações. Inclusive eu, que havia dado uns pescoções na loura atrevida e, segundo “testemunhas”, a ameaçara.

- Provavelmente ela está bem e achando o máximo ter toda a atenção da cidade – foi o que eu disse, ao ser interrogada. – Quem já foi a melhor amiga dela também acha isso, e não há porque duvidar. Ela arrumou um namorado novo, fez compras, e fugiu dos próprios problemas. Quem nunca sentiu vontade de fazer isso?

 No fim de tudo, o desaparecimento de Emma ainda era um mistério.

Ainda com os fones nos ouvidos, senti o celular vibrar. Prendi o cigarro na boca, pensando no que poderia ser àquela hora da madrugada. Geralmente, mensagens àquele horário durante os dias de semana não eram coisas boas.

Meu raciocínio estava certo.

Meu avô acabou de falecer, Yaz. Não sei o que fazer”.

Era Dual. Imediatamente eu soube o que fazer. Perguntei onde ele estava, apenas para confirmar minha suspeita de que ele permanecia no hospital em que seu avô ficara internado no último mês, depois de uma grave piora. Então, não desci quando passamos pela estação em que deveria. Continuei no metrô até estarmos próximos ao hospital.

Eu conhecia Dual muito bem. Ele foi meu único amigo durante muito tempo, devido às nossas diferenças em relação à sociedade “tradicional”. O bissexual e a assexuada. Só que nos chamavam de o Bi e a Sapata. Eu pouco ligava pra esse tipo de apelido, e Dual também não era de se importar com essas coisas. Ambos nos importávamos mais com o que realmente nos era relevante e precioso. Dual, por exemplo, era muito ligado aos avós. E eu sequer podia imaginar a tristeza que ele estava sentindo, agora que seu avô finalmente perdera a batalha contra a doença que devorava seu cérebro.

...

 

Assim que a porta do elevador se abriu, ouvi o choro baixo de Dual. Meu coração estava disparado, porque seu sofrimento me preocupava. Meus olhos o encontraram sentado em um dos bancos azuis que ficavam nos corredores. Cabeça baixa. Os ombros envolvidos pelo braço musculoso de um assombrado Liam, que pareceu ligeiramente mais aliviado, em me ver chegar.

- Dual – eu sussurrei, abaixando-me ao seu lado.

Ele ergueu os olhos. Estavam vermelhos e inchados. Minha alma estremeceu diante daquela visão, e tudo que pude fazer foi abraçá-lo. Ele agarrou-se a mim com força, o choro subindo uma oitava. Por cima de seu ombro, Liam e eu trocamos olhares emudecidos. Só então percebi que Liam usava roupas de dormir, a chave da moto em uma das mãos.

Liam era uma boa pessoa para o Dual.

- Está tudo bem – eu sussurrei, baixinho, ainda abraçada a ele. – Está tudo bem, agora. Ele foi uma criaturinha murcha muito forte... Merecia descansar.

- Eu sei – choramingou ele.

- O que quer que eu faça por você, Dual? Estou aqui...

- Por enquanto... só me deixe chorar.

- Está bem.

Vi Liam engolir em seco e passar a mão pelo rosto, a preocupação nítida em seus olhos. Ele levantou-se, foi até o bebedouro e trouxe um copo com água para Dual. Ele bebericou um pouco, fungando.

- Obrigado – fungou mais uma vez, soltando um suspiro cansado. – Não sei como avisar minha avó, nem aos meus pais... Não sei como fazer nada, na verdade.

- A gente pode fazer isso pra você – sugeriu Liam, a voz cautelosa.

Dual assentiu, de leve.

- Obrigado.

...

 

Liam e eu ficamos encarregados de avisar aos parentes de Dual que seu avô falecera. Não foi uma tarefa nada fácil, nem para nós. Confesso que tive dificuldade em segurar as lágrimas, quando a Sra. Stumm caiu em um choro desesperado, ao telefone. Foi muito triste... Tipo, de amolecer qualquer coração de pedra. De qualquer maneira, antes que o sol estivesse no alto do céu, todos já haviam sido avisados e Dual estava apagado na minha cama, em meu apertado flat no subúrbio de Bristol.

- Que bom que ele tem você – comentou Liam, quando eu coloquei uma xícara de café fumegante na mesa entre nós dois. – Eu fiquei sem reação, quando o vi chorar daquele jeito...

- É, ele não é muito de chorar, mas... – suspirei. – os avós significam muito pra ele.

Coloquei os pés no banquinho em que estava sentada e beberiquei minha própria xícara de café. Fiz careta.

- Céus, que horrível... Não precisa beber, Liam.

- Não vou – ele ergueu as mãos, afastando-se do café, com um sorriso cansado.

Deixei minha xícara sobre a mesa e peguei o maço de cigarros. Ofereci um ao Liam. Ele aceitou. Fumamos em silêncio por algum tempo, cada um perdido em seus próprios pensamentos, no cansaço, no sono. A luz do sol entrava pela janela da pequena cozinha e contrastava com a fumaça pálida, que serpenteava no ar.

- Vai à escola? – perguntei, lembrando-me que tínhamos aula.

- Não, Dwight precisa de mim.

- Sim, ele precisa – eu sorri, inclinando um pouco a cabeça para observá-lo.

Liam e Dual estavam assumidamente juntos há duas semanas. Depois do choque inicial, provocado pelas montagens que Emma espalhou pela internet, as pessoas ficaram ainda mais chocadas quando os dois passaram a andar juntos pelo Roundview College. Com o desaparecimento de Emma ainda recente, foram alvos de muitas críticas e revoltas. Me envolvi em duas ou três brigas para defendê-los.

- O que foi? – quis saber Liam, percebendo meu olhar.

- Nada – eu dei de ombros. – Só estava pensando... em como você veio parar aqui.

- Ah – Liam olhou por sobre o ombro, em direção à porta do quarto em que Dual dormia. – Às vezes também penso nisso e... sempre me surpreendo. Mas não me arrependo.

- Oh, que lindo! – exclamei, com uma vozinha afetada, levantando-me para abrir a janela e expulsar a fumaça da cozinha.  

- Não enche.

- Falei sério.

- Ele me deixa meio gay.

- Não imagino o porquê – revirei os olhos, contendo uma risadinha cansada. – Vou sair para comprar um café da manhã decente. Não vão embora até eu voltar. Por mais que ele insista!

- Sim, senhora.

Vesti meu casaco mais uma vez e adentrei-me nas ruas do subúrbio que eu conhecia muito bem. No caminho à padaria, disquei o número de Licey.

- Bom dia! – exclamou ela, assim que atendeu. – Já estou chegando... É que passei na loja de fantasias, para ver algumas opções para a festa de Gwen.

Puta merda. A festa de Gwen!

- Droga, eu me esqueci disso – exclamei, correndo pela rua para que eu não fosse atropelada por um motorista ignorante.

- Não tem problema, eu olhei algumas fantasias para você também.

- Não, Licey, é... – cocei a cabeça. – É que o avô do Dual morreu essa madrugada, e ele está muito mal.

- Sério?

- É... – suspirei. – Poxa, mas que droga!

- Ele está aí com você?

- Está lá em casa – eu respondi. – Com o Liam. Estou indo comprar café agora...

- Nossa... – Felicia hesitou um pouco. – Acha que devemos adiar a festa?

- Há como fazer isso?

- É claro. É uma festa surpresa mesmo... Estou indo pra aí.

- Obrigada, Licey – eu disse, profundamente agradecida.

Se eu tivesse uma opção sexual, provavelmente escolheria a em que eu pudesse namorar Felicia. Mas como sou portadora da rara “assexualidade” humana, e isso faz de mim alguém que não sente necessidade de namorar, beijar, transar e esse tipo de coisa normal em qualquer um, eu ficava satisfeita em apenas tê-la como amiga.

Não que minha condição tivesse nos impedido de trocar um ou dois beijos. Só não era tão divertido pra mim quanto pra ela...

Comprei uma quantidade generosa de donuts, pãezinhos de sal e iogurte na padaria que ficava há alguns quarteirões do meu flat, e estava fazendo o caminho de volta quando um carro preto parou bruscamente ao meu lado e dois brutamontes me enfiaram dentro dele, em plena luz do dia!

Nem devo dizer que esperneei como uma louca, mas isso não adiantou. Aqueles caras não eram os frangotes do colégio.

- Yazuko Shimizu – disse uma voz que eu tinha horror de ouvir.

Alexander Hill estava sentado à minha frente, o sorriso de ouro perigosamente arreganhado. Ele usava um terno azul escuro e a camisa aberta pela metade, revelando um pingente de brilhantes na corrente dourada. Ao seu lado, uma mulher loura, de uns trinta anos, estava nua da cintura para cima, e o beijava no pescoço num ritmo arrastado, alheia à minha presença e à dos brutamontes que me espremiam.

- Como vai? – perguntou ele, sem deixar o sorriso doentio.

- Bem.

- Ótimo, fico realmente feliz por isso.

Forcei um sorriso, percebendo que o carro deslizava devagar pelas ruas.

- Soube que quer ir embora – comentou ele, em um tom casual. – Mas... acredito que essa seja uma falsa informação, não?

- Vou para Nova York – eu disse, em tom firme.

- Vai?

- Vou.

- Vai mesmo? – ele deu-me uma piscadela, passando a mão pelo rosto da mulher que continuava a beijá-lo, visivelmente drogada.

- Vou – repeti, no mesmo tom firme.

- Melhor não, Yazuko. Melhor não... As coisas estão indo tão bem. Você é uma de meus melhores revendedores. Não quero perdê-la assim, tão facilmente.

- E eu não quero continuar – retorqui.

- Você precisa continuar. E vai.

Balancei a cabeça, negativamente.

- Oh, vai sim – Hill levantou a borda do blazer e mostrou o cabo reluzente de uma arma. Naquele momento, senti minhas entranhas congelarem. – Você não vai me deixar, até que eu queira o contrário.

- Você não pode me obrigar.

- Ainda tem dúvidas? – ele ergueu as sobrancelhas. – O último que me contrariou virou comida de peixe. Se fizer qualquer coisa que ameace o nosso acordo, eu saberei, e você fará companhia a ele e àquela garota...

Franzi as sobrancelhas, minha mente levando um soco, ao ouvir as últimas palavras.

- Que garota? – perguntei, o medo em mim triplicando.

Hill apenas deu uma risada mórbida, trocando olhares com seus capangas ao meu lado. Aquilo, de alguma forma, fez com que minhas suspeitas aumentassem.

- Você matou Emma? Emma Dreschler?

- Não, é claro que não! – Hill assumiu uma expressão de choque fingido. – Nunca machucaria uma garota como ela... – posso dizer que fiquei mais aliviada ao ouvir aquilo. Mas apenas por um segundo, porque ele continuou: - Só matei o idiota que fez isso com ela. Foi uma pena, porque ele era assim como você... um ótimo revendedor de novas mercadorias. Mas era muito abusado e colocou todo o nosso sistema em risco, com o que fez àquela garota – todo o meu corpo parecia anestesiado diante daquela informação, mas ele não havia terminado: - Eu descobri e o eliminei. Eu sempre descubro tudo o que eu quiser... e não tenho medo de eliminar as pessoas que ameaçam o meu negócio.

- Onde ela está? – perguntei, a voz saindo com relutância.

- Quem?

- Emma.

- Ah – ele riu. – A essa altura, deve estar desmanchando-se no fundo do rio Avon. Como eu disse, virou comida de peixe...

- Seu desgraçado...

- Oh, oh, oh – ele inclinou-se para frente, fazendo a mulher loura despertar de seu delírio e me perceber. – Olha a boca, Yazuko – encostou o dedo indicador em meus lábios. Eu me afastei, a respiração cada vez mais ofegante. Com os olhos lacrimejando, o vi sorrir. – Se abrir a boca pra alguém, eu vou saber... Eu sei onde você mora, onde você estuda... Sei quem são seus amigos e, como eu disse, não tenho medo de eliminar quem se torna uma ameaça – dando-me uma piscadela, ele recostou-se mais uma vez no banco, e a mulher voltou a beijá-lo no pescoço. – Então, esse nosso encontro nunca aconteceu. Você não sabe nada a respeito da garota morta. E não vai mais a Nova York.

Senti meu queixo tremer, mas mantive a expressão dura.

Nunca odiei tanto uma pessoa como, naquele momento, odiava Alexander Hill.

- Estamos combinados? – perguntou ele.

Mantive-me imóvel, resistindo ao impulso de socá-lo.

O que aconteceria se eu fizesse isso?

- Estamos combinados, Yazuko? – ele escorregou a mão até o coldre em que ficava sua arma. Então, com muita dificuldade e raiva, engoli meu orgulho, e assenti minimamente.

- Sim? – insistiu ele.

- Sim – sibilei.

- Ótimo – sua mão afastou-se do coldre e se enfiou dentro da calcinha vermelha da mulher. – É sempre um prazer negociar com você, Yazuko. Não se esqueça: só faço isso porque você é muito importante para mim e para o meu negócio.

Minha vontade foi de mandá-lo ir se foder. Mas me contive.

- Acho que estamos há alguns quarteirões de seu flat – disse Hill, num ar descontraído. – Pegue suas mercadorias e saia logo daqui. Oh, posso pegar um donut? Adoro donut! – sem esperar pela mina resposta, enfiou a mão na sacola e puxou um donut açucarado.

Um de seus capangas enfiou um embrulho entre os meus seios bruscamente e eu o acotovelei, sem me preocupar com a consequência disso. Por sorte, não houve nenhuma. Abriram a porta do carro, e fui empurrada para fora.

- Estou de olho, Yazuko – disse Hill, antes de a porta ser fechada. – Nos veremos em breve!

...

 

Quando finalmente cheguei em casa, Felicia já estava lá. Tive de manipular muito bem minha expressão e meu comportamento para que não percebessem nada. Não foi uma tarefa fácil. Minhas mãos tremiam e as palavras horríveis de Alexander Hill martelavam em minha mente.

Em certo momento, Felicia percebeu.

- Está tudo bem? – perguntou ela, aproximando-se de mim, enquanto eu lavava as louças que sujamos durante o café.

- Estou – dei o meu melhor para abrir um sorriso que parecesse sincero.

Liam havia levado café para Dual, no quarto, e ficou por lá; portanto, estávamos sozinhas na cozinha.

- Pareceu tão distante, o tempo todo.

- É o cansaço – suspirei, enxugando as mãos em sua blusa, tentando ser descontraída. – Fui de madrugada para o hospital... E não dormi, até agora.

- Imaginei – afagou meu braço delicadamente, a expressão cheia de pesar. – Talvez eu deva ir embora, já que... já vi o Dual, e você precisa descansar.

- Não há necessidade disso – revirei os olhos.

Ficamos em silêncio por alguns minutos e pudemos ouvir a conversa baixa e tranquila de Liam e Dual, no quarto. Felicia deu uma olhadinha furtiva em direção ao som das vozes e encolheu os ombros.

- É tão estranho – sussurrou ela.

- Já disse, o sono me deixa estranha...

- Você é sempre estranha – brincou ela, dando-me um empurrãozinho. – Estava falando de tudo o que está acontecendo. É como se o mundo estivesse de pernas pro ar... Eu nunca me imaginei sem o Ben, e agora sequer sinto sua falta. Liam assumiu um relacionamento homo afetivo e Emma, que sempre esteve em toda parte, marcando presença, está desaparecida...

Fiquei tensa, à menção do nome de Emma.

-... quero dizer, eu cresci com eles, e é difícil me acostumar. Principalmente com a ausência de Emma. Sei que não é muito fã dela, mas fomos melhores amigas até meses atrás. Por mais que ela fosse uma vadia, na maioria das vezes, eu sinto falta dela. E estou começando a me preocupar, tipo, de verdade com o que pode ter acontecido.

- É...

- Você... – Felicia estreitou os olhos pra mim. – Você está mesmo bem, Yaz? Você...

- Acho que preciso mesmo descansar – tentei tranquilizá-la, fechando os olhos com força e passando a mão úmida pela testa. – Vou me deitar... Pode ficar à vontade, okay?

Abri os olhos e percebi que Liam e Dual estavam se aproximando. Dual parecia bem melhor. Bem mais controlado, pelo menos.

- Hey – eu disse, para amenizar o desconforto gerado pela minha conversa com Felicia.

- Vou até a minha avó – anunciou Dual. – Ela deve estar preocupada... E precisando de mim.

- Tudo bem – cruzei os braços sobre o peito, dando um meio sorriso. – Qualquer coisa, é só chamar. Estou aqui pro que precisar...

Dual abriu um sorriso entristecido. Aproximou-se de mim e me deu um abraço forte, beijando minha testa, como gostava de fazer.

- Eu sei, criaturinha de olhos puxados – disse ele. – Obrigado por tudo.

Respirei profundamente, sentindo seus braços se afrouxarem em torno de mim. Atrás dele, Liam acenou com a cabeça, tanto para mim quanto para Felicia. Aquilo pareceu tão másculo quanto a situação permitia.

- A gente se vê – disse ele.

- Até logo...

Assim que eles saíram, encaminhei-me até o quarto e desabei na cama. Tanta tristeza, tanta informação, tanta pressão e opressão... Juntando isso ao cansaço, logo adormeci, com a ajuda de Felicia que se deitou ao meu lado, fazendo cafuné no meu cabelo.

...

 

À noite, vesti um blusão preto, calça leging e passei uma maquiagem mais escura nos olhos. Aguardei. Felicia me buscou às sete. Gwen já estava lá dentro, muito diferente de como a conheci, meses atrás. Desde o acampamento em que sua “identidade secreta” fora revelada, e seu padrasto a baniu de seu convívio para “toda a eternidade”, suas roupas eram mais comuns e ela mantinha um visual atraente.

 Chegamos ao funeral.

Havia um número bem maior de pessoas do que eu havia suposto. Todos vestidos de preto, prestando condolências ao Dual e à sua avó, que parecia bem mais conformada que o neto.

O padre fez lá suas rezas e suas leituras.

Percebi que a aproximação e a troca de carícias entre Dual e Liam chamavam a atenção da maioria dos presentes, que lançavam a eles olhares indiscretos, cheios de indignação, perplexidade e até um pouco de desprezo.

Todavia, percebi também que, para uma pessoa específica, Dual e Liam ou o defunto que estava sendo enterrado não eram dignos de atenção. O reconheci com o mínimo de esforço. Era um dos capangas de Alexander Hill... E seus olhos estavam fixos em mim, como se eu fosse sua presa.

Bem... grosseiramente falando, eu era.

E talvez continuasse sendo por um bom tempo. 



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