História Slytherin - Capítulo 5


Escrita por: ~

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Palavras 6.795
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Linguagem Imprópria, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Olaaaaaar, amores! Tudo bem com vocês?

Primeiramente, gostaria de pedir desculpa pela demora em vir atualizar a fanfic. Acabei perdendo a senha desta conta e não consegui acessar para poder atualizar minhas histórias :(

Felizmente consegui recuperar a conta, portanto posso prometer que os próximos capítulos dessa fic virão muito mais rápidos, ok?

Bem, estou muito, muito contente com todos os feedbacks que estou recebendo! Fico muito feliz que estejam gostando das modificações e, para os leitores novos, da história ♥

[observações importantes para o entendimento do capítulo]

—- Lily Evans é sonserina e sangue-puro, logo Petunia Evans também é bruxa e sangue-puro;
—- Na história, Beauxbatons possui um ano a mais de estudo, portanto o ensino é mais lento. Sendo assim, o sétimo e oitavo ano de Beauxbatons equivaleria ao sétimo ano de Hogwarts;
—- Os Sagrados Vinte e Oito é uma lista das famílias "totalmente" puras que a J.K. publicou sobre no Pottermore;
—- Moaning Myrtle é, na tradução, Murta Que Geme.


Capítulo 5 - IV - Quando as muralhas caem.


CAPÍTULO IV

Quando as muralhas caem (ou sobre conversas inesperadas e fantasmas do passado)

 

 [SÁBADO – 17 DE SETEMBRO, 1977]

James não sabia dizer como chegara até a Torre da Grifinória, pois, a única coisa que havia permeado sua mente por todo o caminho até lá foram os lábios de Evans sob os dele. Retribuindo seus beijos com tanta avidez quanto a dele. Parecendo tão afetada quanto ele.

Tão confusa quanto ele.

Todos os acontecimentos do dia pareciam enuviados em sua cabeça, acumulados uns sobre os outros, toldando seus pensamentos de forma que nada parecia fazer sentido... exceto a sensação do corpo dela contra o seu, a forma como os lábios dela parecia encaixarem-se à perfeição junto aos dele. E, como se não bastasse, antes do beijo, Evans rira e, por Merlin, fora verdadeiro. James pôde ver explícito em seus olhos verdes... verdes como nunca haviam sido para ele. E, pela primeira vez em muito tempo, conseguira lê-los, decifrá-los. E o que vira lá, beirando por sua íris, o surpreendera.

— James! — A voz conhecida o arrancou de seus devaneios e, ao erguer os olhos em direção às poltronas próximas à lareira (levemente surpreso por se encontrar dentro da sala comunal), suspirou ao encontrar Sirius, Remus e Frank acenando para ele, indicando que se aproximasse. Suprimindo um gemido, James se encaminhou até onde eles estavam, sabendo que teria de deixar a vontade de deitar em sua cama e organizar os pensamentos para depois se não quisesse que Remus ficasse com aquela expressão desconfiada pelo resto da semana.

— E aí? — Cumprimentou-os, atirando-se numa das poltronas vazias e deixando-se acomodar contra as almofadas confortáveis.

— Você ficou todo esse tempo no campo? — Remus perguntou e arqueou uma sobrancelha, curioso.

— Não. Eu caminhei um pouco. Tive algumas ideias táticas pelo caminho... vou colocá-las em prática no próximo treino.

Frank, com os olhos brilhando diante da informação, sorriu para James.

— Jones e Fenwick foram ótimas escolhas, James. A garota rebateu os balaços mais rápido que o Sirius! — Disse, fazendo com que Sirius bufasse.

— Ela é boa. — Sirius concordou, mesmo que as palavras parecessem ter um gosto ruim em sua boca. — Mas eu sou melhor.

— É claro que é. — Remus rolou os olhos para ele e então atirou algo em direção à James que pegou instintivamente antes de baixar os olhos e deparar-se com uma Cerveja Amanteigada. Arqueou uma sobrancelha.

— Vocês foram à Hogsmeade?

Sirius sorriu, maroto.

— Sirius foi. — Remus respondeu e então rolou os olhos. — Você sabe, parece que vai morrer se não ver a Rosmerta pelo menos uma vez na semana.

Rindo, James tomou um gole da bebida, sentindo-a descer quente por sua garganta, parecendo aliviar um pouco do peso que estava sentindo sobre seus ombros.

— Rosmerta sentiu sua falta, James. Estranhou eu ter ido sozinho e perguntou se você tinha se metido em encrencas. — Sirius sorriu, irônico. — Eu respondi que sim.

— Quando você for de novo, diga que mandei lembranças. — James disse e então passou as mãos pelos cabelos, sentindo o cansaço voltar para ele, a lembrança de que não poderia ir à Hogsmeade até o final do ano azedando o bom humor adquirido ao beber a cerveja amanteigada.

Como era possível que a mesma garota pudesse despertar nele tantos sentimentos controversos?

— Quando eu for de novo? — Sirius, franzindo o cenho, indagou. — Quer dizer que você não está pretendendo ir à Hogsmeade?

— Você sabe que ele não pode, Sirius. — Remus disse.

— Você não pode ir à Hogsmeade? — Frank indagou, voltando-se para James, confuso. — Por quê?

— Evans. — James disse simplesmente, sabendo que aquela era uma ótima explicação e então deu de ombros logo em seguida, sem querer dar muita importância para aquele assunto.

— Cara... — Frank meneou a cabeça e então suspirou. — Bem, levando em conta que foi a Evans que te deu detenção... o que você fez? O que ela disse?

— O de sempre, Frank. — Sirius respondeu e, usando um tom de voz fino, tentou imitar Evans: — “Detenção, Potter” e o James provavelmente disse algo como: “Mas por que, Evans?” e aí ela virou para ele, o distintivo de monitora-chefe brilhando no peito, e disse “Porque você respira, Potter”. — Rolou os olhos. — Pode até ter sido uma ou outra palavra diferente, mas a premissa é a mesma.

Bufando para o comportamento de Sirius, James forçou uma risada, percebendo os olhos de Remus sobre ele, atentos para a sua reação. E ele sabia que aquele não era um bom momento para que o amigo investigasse qualquer coisa. Não quando nem mesmo ele fazia ideia do que estava acontecendo.

James tinha ciência de que seus amigos jamais o deixariam em paz se descobrissem o que estava acontecendo entre ele e Evans. Que ele havia beijado Evans. Não apenas uma, mas duas vezes.

Não, eles definitivamente não precisavam saber daquilo.

— Agora serei obrigado a repensar meus planos para o próximo passeio, já que James está com medo demais para fazer qualquer coisa. — Sirius passou as mãos pelos cabelos, estreitando os olhos para James, deixando bastante claro que o culpava por ter sido pego.

— Sirius, você sabe que eu não posso ter mais tantas detenções. Eu sou o capitão do time e a Evans já deixou bastante claro que se precisar fazer alguma coisa para me tirar, ela vai. — Ele sentiu um gosto amargo ao dizer aquelas palavras, a irritação que sentira pela garota pareceu retornar levemente, embora não com a mesma intensidade. — E é o ano dos N.I.E.M.s. Eu deveria mesmo estar mais preocupado com a minha situação acadêmica.

— Meu Merlin! — Sirius estremeceu teatralmente. — Desde o ano passado isso vem acontecendo... você mudou, James... você finalmente... se transformou no Remus. — E colocou uma mão no coração, fingindo-se de sofrido. James rolou os olhos para ele.

— James tem razão. — Foi Frank quem disse. — Não podemos perder o melhor capitão que o time da Grifinória já teve. É o nosso último ano. A Taça precisa ser nossa.

— Exatamente.

— Bem, não posso discordar. — Sirius deu de ombros. — Quero poder esfregar a taça na cara do McLaggen. — Disse, estreitando os olhos ao pensar no artilheiro da corvinal. — Ele teve a ousadia de me dizer depois de você escalar a Gwen e o Fenwick que, para ele, a Grifinória nunca teve um time mais fraco.

— E Sirius deu um soco nele. — Frank adicionou, divertindo-se ao relembrar a cena. Também não havia gostado nada do comportamento do corvinal.

— É. O que nos leva novamente à Evans. — Sirius disse e então bufou.

— O que tem ela? — James sentiu o estômago apertar tão somente a menção do nome dela pairou em seus ouvidos. E xingou-se mentalmente por conta aquilo.

— Bem, ela estava passando por perto na hora. — Sirius deu de ombros, desinteressado. — E, por conta disso, tenho uma detenção amanhã, em pleno Domingo.

— E ela não parecia estar num bom dia. — Frank concordou. — Snape estava atrás dela, também com uma cara de poucos amigos.

— E ele tem alguma outra cara? — Sirius bufou. — Ninguém com um nariz e um cabelo daqueles têm amigos. Até mesmo a Evans parece ter percebido isso, já que, segundos depois de ela me dar uma detenção, começou a discutir com o Snape. “Será que você pode parar de me seguir como se fosse um pelúcio atrás de ouro? Não está vendo que é irritante, Snape?” — Ele voltou a imitá-la. Daquela vez, James não se importou com o fato de tudo parecer retornar para o assunto Evans. A verdade era que as palavras de Sirius sobre o que deveria ser o início do confronto que havia presenciado tinham atiçado sua curiosidade. — Suponho que Dorcas estava certa sobre o afastamento dos dois. Na verdade, desde o ano passado eles não têm andado muito juntos. — O garoto deu de ombros e rolou os olhos. — Já estava na hora da Evans começar a usar o cérebro.

— Ela é uma das melhores alunas, Sirius. Ela já usa o cérebro. — Remus disse.

— Bem, nós também somos, Remus. — Sirius bufou. — Mas sempre soubemos que o Snape não prestava. — Bateu em sua testa para dar ênfase.

— Falando em Snape... — Frank, que estivera se divertindo com as divagações dos garotos, lembrou de algo que queria falar há algum tempo, contudo havia esquecido. — Hoje, quando eu estava voltando do meu encontro com a Alice, o vi conversando com o Pettigrew. Como vocês eram amigos do Peter, pensei que deveria contar e, bem... não sei, mas achei meio esquisito.

— De novo? — James franziu o cenho, surpreso. Ergueu os olhos para Remus e Sirius, trocando um olhar cheio de subentendidos.

— É... — Sirius estreitou os olhos e estava prestes a comentar alguma coisa quando Emme Vance passou junto de Nicole, sua namorada, perto de onde estavam.

A garota acenou para eles e fez o sinal de positivo para James. Ele sabia que ela o estava parabenizando pelas escolhas para o time. James sorriu em resposta, feliz com o cumprimento.

Rindo, Remus deu um tapinha de consolação nas costas de Sirius que tinha fechado a cara.

— É, Sirius, parece que namorar com você fez a Emme desistir dos homens. — Meneou a cabeça em falsa tristeza, fazendo com que James e Frank caíssem na gargalhada.

— Cale a boca. — Sirius bufou e deu um soco fraco no ombro de Remus, fazendo-os rir ainda mais.

Após vários minutos, onde Sirius desferia xingamentos para eles enquanto choravam de rir, Frank ergueu-se de sua poltrona, espreguiçando-se logo em seguida.

— Bem, pessoal, eu não sei vocês, mas estou morto. — Bocejou. — Boa noite. — E então se afastou em direção aos dormitórios.

Somente quando os passos de Frank não eram mais audíveis provindos da escada é que James voltou-se para os amigos, o riso de segundos atrás completamente esquecido diante dos novos pensamentos que pairavam em sua mente. Lançando um olhar rápido para a sala comunal, não o encontrou.

— Já é a segunda vez que eles têm esses encontros essa semana. Snape e Pettigrew, quero dizer. — Passou as mãos pelos cabelos, sentindo-se irritado. — Eu não sei quanto a vocês, mas para mim isso cheira terrivelmente mal.

— E nada tem a ver com a falta de banho do Snape. — Sirius concordou e então aprumou-se, encarando-os com a expressão muito mais séria. — Eles estão muito quietos, não acham? Quero dizer, ano passado, essa época, estávamos cheios de panfletos ameaçando nascidos-trouxas e todas essas coisas.

James concordou, lembrando de todas as manhãs no início do ano letivo anterior, quando saía para os corredores e deparava-se com centenas de folhetos contendo mensagens de cunho xenofóbico contra os nascidos-trouxas e do pavor que se abateu sobre a escola.

— Mas eles têm se encontrado bastante. — Remus adicionou. — Pelo que o James e o Frank falaram, eles estão tendo mais reuniões do que no ano passado. É de se pensar que estão tramando algo grande.

— Se é assim, precisamos descobrir. Logo. — James disse, firme. — Antes que eles comecem os ataques.

— É esse o James que eu gosto. — Sirius brincou, o brilho de animação espocando em seus olhos.

[DOMINGO – 18 DE SETEMBRO, 1977]

Quando Lily acordou, seu pescoço parecia gritar em protesto pela noite mal dormida.

Não conseguia recordar o que havia sonhado, contudo sabia que não tinha sido um sonho bom. Lembrava-se de borrões de fumaça negra, choros, óculos e corações quebrados. O aperto em seu peito, apesar de ter despertado há vários minutos, continuava e ela não conseguia abrir os olhos devido à claridade esverdeada que cruzava por uma brecha na cortina que, por descuido, havia deixado entreaberta.

Resmungando como uma velha senhora, finalmente ergueu-se da cama – sentindo cada osso em seu corpo protestar – e então empurrou as cortinas para longe, fixando o olhar sobre a janela. A vista não estava bonita aquele dia: assim como todas as janelas da sala comunal da Sonserina, aquela também dava para o lago, contudo havia algumas algas acumuladas contra o vidro, não deixando muito para ser visto.

Após algum tempo, Lily franziu o cenho, estranhando a falta de movimento à sua volta. Afastando o olhar da janela, deparou-se com as cinco camas de suas colegas de quarto totalmente vazias.

Gemendo, Lily soube o que aquilo significava: havia dormido demais. Erguendo os olhos para o relógio que havia em cima de sua mesa de cabeceira, Lily xingou ao perceber que já era hora do almoço.

Impaciente, puxou uma roupa qualquer de dentro de seu malão, encaminhando-se rapidamente para o banheiro. Tomou banho gelado na tentativa de fazer o sono sumir – o que ajudou um pouco, embora continuasse bocejando bastante – e, assim que terminou de se vestir e tentar fazer alguma coisa com os cabelos, que simplesmente não pareciam capazes de ficarem no lugar, correu escadas acima para a sala comunal.

Ainda apressada, afastou-se em direção à saída, correndo pelos corredores de pedra, o estômago rosnando como um trasgo devido à fome, devaneando com as delicias que estaria comendo em alguns minutos.

Contudo, ao chegar perto do Salão Principal, Lily estacou, sentindo um nervosismo inexplicável se alastrar por toda sua corrente sanguínea. Ofegante, xingou-se pela reação, sentindo-se tola. Que diabos era aquilo, afinal? Estava com medo? Com receio? Envergonhada?

Talvez os três?

Céus, não era como se Potter fosse pular no pescoço dela ou qualquer coisa do tipo, certo? Então por que estava tão absurdamente nervosa somente ao pensar em vê-lo novamente?

— Ah, mas pelo amor de Merlin. — Resmungou, ignorando o fato de que estava repreendendo a própria mente. Algumas primeiranistas lufanas que passavam por perto a encararam esquisito, mas Lily sequer lhes prestou atenção.

Respirando fundo – e sentindo-se a pessoa mais idiota da face da Terra – Lily se forcou a adentrar o Salão Principal, sentindo um aperto indescritível no estômago ao fazê-lo.

Suas preocupações com relação à James Potter, entretanto, foram varridas de sua mente tão logo colocou os pés na sala. Ao erguer os olhos em direção à mesa dos professores, deparou-se com uma cena totalmente chocante: Minerva McGonagall e Albus Dumbledore encontravam-se parados em frente à mesa dos professores e, ao lado deles, o banquinho de seleção junto do Chapéu Seletor se encontrava.

Não que fosse incomum alunos serem transferidos para Hogwarts – claro que não. No ano anterior, Hogwarts tivera aderência de mais de dez alunos de escolas variadas da Europa após o início do ano letivo. O fato de que Dumbledore era diretor – o bruxo que Voldemort mais temia – pesava bastante na hora dos pais pensarem na segurança dos filhos. O que era incomum – e totalmente inesperado para dizer o mínimo – era quem estava ali, junto deles.

Todos os olhares do salão, que estava lotado, estavam sobre ela.

Seus cabelos loiros caíam como ondas até o meio de suas costas; os olhos azuis brilhavam em seu rosto, refletindo as nuvens do teto encantado. Sua pele pálida parecia feita de porcelana e suas bochechas levemente coradas faziam-na parecer uma boneca. Ela vestia o uniforme da escola, ainda sem qualquer brasão de alguma das casas, exatamente como os calouros.

Como se ela fosse uma caloura. Como se estivesse prestes a fazer o teste. Como se estivesse prestes a entrar para Hogwarts.

Vê-la ali, tão absurdamente linda como sempre, depois de tanto tempo, depois de todas as coisas pelas quais havia passado... após anos lutando para ter um pouco de paz, para ter o seu lugar... era como ver seu mundo ruir diante de seus olhos e não poder fazer nada sobre aquilo.

Lily sentiu-se ofegar, horrorizada. A vontade que tinha era a de se beliscar para ter certeza de que aquilo não era apenas outro pesadelo... mas sabia que não, oh não. Havia aprendido há muito tempo que pesadelos podiam virar realidade. E que não era possível fugir deles por muito tempo.

Fora ilusão de sua parte imaginar que conseguiria.

Que diabos ela estava fazendo ali? Se perguntava. Por que ela não estava na França? Continuava. Mas não possuía respostas para nenhum daqueles questionamentos.

Dumbledore adiantou-se, sorrindo para o salão.

— Boa tarde! Estávamos esperando vocês terminarem de encher a barriga antes de irmos para as novidades. — Sorriu mais um pouco enquanto os murmúrios no Salão pareciam se proliferar com a velocidade de um fogo de rastilho. — Hoje é um dia diferente: estamos recebendo uma aluna nova, transferida da Academia de Magia Beauxbatons. — Os murmúrios aumentaram. — Deem as boas-vindas à Petunia Evans! — E então bateu palmas, sendo acompanhado imediatamente por todos no salão.

Ou bem, quase todos.

As mãos de Lily, suadas, pareceram esfriar e seus dedos azularam devido ao frio repentino que não provinha de qualquer outro lugar além de dentro dela. Estremecendo, sentiu um calafrio perpassar por sua coluna ao ter os olhos azuis dela de encontro aos seus. Os lábios dela abriram levemente em um sorriso de reconhecimento.

Lily sabia que a Academia de Magia Beauxbatons, a renomada escola de magia da Europa, localizada em algum lugar da França, possuía um sistema de ensino mais longo que Hogwarts, assim como Durmnstrang. Lá eles “presavam a educação em todas suas fases”, ou seja, tratavam de cada assunto em todos os seus aspectos da forma mais demorada possível. O que era uma bobagem, na verdade, apenas para arrecadar dinheiro dos bruxos por um ano a mais. De qualquer forma, sendo o ensino de lá mais lento que o de Hogwarts, aquilo significava que ela seria sua colega no sétimo ano.

Petunia. Sua irmã.

Sem saber o que pensar ou como agir, Lily ficou parada, estática, ainda na entrada do Salão.

Era irônico até, para dizer o mínimo, pensar na sorte que era o salão estar ovacionando a nova aluna e, com isso, ninguém prestava atenção nela e em seu comportamento nada convencional e descontrolado. Lily conseguia ouvir os sussurros ao seu redor, contudo não os compreendia. Seus ouvidos pareciam estar cheios de água e, seus olhos, completamente congelados sobre a cena que se desenrolava à sua frente.

Uma parte de si queria correr para o mais longe possível dali, mas suas pernas não respondiam aos seus comandos. E, por conta disso, ficou ali, observando enquanto Petunia sorria para todos de forma convincente. Seus cabelos loiros ondulavam à sua volta como fios de ouro enquanto, seguindo as ordens de McGonagall, ela sentava no banquinho pequeno demais para o seu tamanho.

Lily não conseguia compreender o que a Professora estava falando, mas também não era como se fizesse alguma diferença.

Que tipo de pessoa ela havia se tornado se somente a visão da própria irmã lhe causava calafrios de terror? Se a sensação de a ter tão perto lhe causava repulsa? Se, de todas as coisas que mais queria no mundo, só conseguia pensar em estar o mais longe que pudesse dela?

O coração de Lily acelerou contra suas costelas, tornando cada batimento uma tortura.

Professora McGonagall aproximou-se, então, estendendo o Chapéu Seletor na direção de Petunia.

E foi somente ali, naquele momento, que Lily pareceu despertar.

Ela não queria ver aquilo. Não podia ver aquilo.

Ela sabia que Petunia iria para a Grifinória, assim como toda sua família. E ela iria honrar o nome dos Evans como Lily jamais havia feito. E, em cada mísero segundo que vivesse naquele castelo junto dela, sentiria a arrogância da irmã pairar sobre si, jogando em sua cara o fato de que, como sempre, ela era melhor.

Lily podia até mesmo imaginar sua mãe em uma das jantas familiares – que sempre pareceram à Lily muito mais como uma sessão de tortura psicológica do que uma convenção familiar – comentando sobre o quanto ela era perfeita e como estavam felizes e realizados. E, é claro, não perderiam a oportunidade de salientar o quanto a Grifinória era melhor do que a Sonserina enquanto desferiam a ela um olhar de reprovação.

Sentiu-se enojada somente com o pensamento.

Precisava sair dali. Não faria bem algum continuar no mesmo ambiente em que ela estava. Não que Lily tivesse muita escolha a partir daquele momento, afinal Petunia estava ali e ficaria ali, em Hogwarts. Na sua escola, em sua vida. E, mais uma vez, estragaria tudo.

As capacidades motoras de Lily pareceram voltar à ativa diante daquele pensamento e, então, de forma apressada, deu as costas para o salão, pretendendo sair dali o mais rápido que suas pernas trêmulas deixassem sem acabar parecendo desesperada demais.

Ou, bem, era o que queria fazer, contudo, ao voltar-se acabou dando um encontrão em alguém, sentindo a mão da pessoa segurá-la para que não caísse.

— Ei! Olha por onde anda, Evans! — Sirius Black disse, arrogante como sempre. — Vai me dar outra detenção por ter ficado no caminho? — Indagou, sarcástico, mas Lily não lhe deu atenção, pois, naquele momento, o chapéu bradou:

— CORVINAL!

Sentindo-se pasma, de forma automática, Lily voltou-se em direção à mesa principal novamente, conseguindo absorver a expressão de Petunia assim que o Chapéu foi retirado de sua cabeça. Tão rápidos que quase não foram visíveis, Lily os viu: choque, horror, desespero e decepção. A conhecia bem demais, apesar de tudo, para saber que Petunia não conseguiria acreditar.

Nem mesmo Lily acreditava.

— Está tudo bem, Evans? — Black indagou, estranhando a expressão que tomou o rosto da garota. Entretanto, Lily não lhe deu atenção, desviando dele antes de finalmente se afastar do salão, imaginando que talvez nunca voltasse a sentir fome novamente.

Deveria ser algo bom que, pela primeira vez na vida, Petunia não tivesse conseguido o que queria. Contudo, Lily não conseguiu se sentir satisfeita ou minimamente realizada diante de tal acontecimento. Ela sabia bem demais a sensação de não poder ser algo que se quer muito. A decepção consigo mesma. A dor ao perceber que, pelo resto de seus dias, teria de lidar com aquilo. O desespero ao imaginar como as pessoas reagiriam à notícia.

E, por pior irmã que Petunia fosse, Lily não conseguia ficar feliz com a sua desolação. Não, ela simplesmente não conseguia. Ela era fraca demais para odiá-la. Ou talvez estivesse apenas muito cansada de tentar.

Sentindo-se exausta, como se não houvesse acabado de acordar, Lily caminhou à esmo pelos corredores, sem prestar muita atenção em seu caminho até que se deparou em frente ao espelho do banheiro feminino do segundo andar. Ela não havia percebido o grande aviso de interditado na porta, tampouco a água que molhava todo o chão, indicando que, muito provavelmente, Moaning Myrtle entupira outro vaso sanitário.

Suspirando, Lily encarou seu reflexo, deparando-se com sua pele extremamente pálida, o que fazia com que as sardas em seu rosto ficassem mais salientes do que o habitual, aumentando ainda mais a profundidade de suas olheiras.

Afastou aquela mexa rebelde que insistia em cair sobre seus olhos, suspirando novamente. Ela não era feia. Realmente, sabia que não era. Lily percebia o modo como os garotos – e até mesmo algumas garotas – olhavam para ela, admirados e, mesmo que não gostasse de admitir, sentia-se estranhamente lisonjeada com aquilo. O problema era que, após tanto tempo ouvindo as pessoas que mais amava dizendo que ela não era tão boa quanto a irmã, tornara-se cada vez mais difícil encarar-se no espelho e encontrar alguma coisa de que realmente gostasse.

O fato de que Petunia estava ali, tão perto, apenas aumentava seu desconforto, tornando tudo aquilo ainda pior. Tornando tudo mais difícil de suportar.

Fechando os olhos, sentiu uma maldita lágrima descer por seu rosto sem ser chamada. Sua cabeça latejou fortemente, deixando-a zonza. Suas mãos, que seguravam com força a beirada da pia, começaram a tremer. E então ela voltou a se encarar no espelho, percebendo que estava ainda mais pálida do que segundos atrás.

— Merda! — Resmungou, cerrando os punhos na tentativa de fazer o tremor diminuir.

Sabia que estava tendo uma crise, exatamente como àquelas que aconteciam toda vez em que Lily estava em casa e precisava aturar as afrontas de sua mãe.

Helena Evans não era alguém muito fácil de lidar, embora fosse ainda pior com ela..., entretanto, a mãe não estava ali, portanto Lily teria gostado de restringir aqueles ataques apenas para quando estava trancada em seu quarto, longe de tudo e todos e somente quando não conseguia aguentar. Normalmente, quando tinha aquelas crises, Lily ficava tão nervosa por guardar seus sentimentos por tanto tempo que acabava colapsando e, por conta disso, sua pressão baixava até o ponto no qual ela perdia os sentidos.

Mas ela não precisava ter um daqueles em Hogwarts. Ali sempre havia sido seu porto seguro. O lugar para onde ela fugia. Sua casa... então por que aquele tremor não passava? Por que sua visão estava ficando borrada e as lágrimas escapavam a cada instante mais volumosas pelo canto de seus olhos?

Foi quando ela compreendeu: não havia mais muralhas de pedra repletas de magia para protegerem-na de seu passado. Não mais existiam quilômetros de distância que impedissem sua vida de desmoronar. E, talvez, Lily estivesse sendo dramática. Entretanto, havia o fato contundente de que ela nunca era dramática, portanto, ela tinha total ciência de que estava certa.

Era quase engraçado, na verdade. Petunia chegara não havia nem mesmo uma hora e conseguira roubar até mesmo aquilo de Lily: o último lugar onde ela não precisava sentir medo.

Não saberia dizer por quanto tempo ficara ali, encarando seu reflexo, entretanto, depois do que pareceu ser uma eternidade, em meio a tremores e devaneios e, provavelmente alguns gemidos audíveis, vozes femininas soaram provindas do corredor, fazendo com que Lily se retesasse imediatamente.

A crise havia diminuído consideravelmente, embora ainda estivesse mais pálida que o Barão Sangrento. Contudo, Lily não queria que ninguém a visse daquele jeito, mesmo que duvidasse que alguém entrasse naquele banheiro interditado – ela não teria entrado se tivesse visto o aviso – portanto começou a se afastar em direção à um dos boxes só por precaução, entretanto, antes que conseguisse chegar perto de algum deles, a porta foi aberta e, por ela, duas garotas agitadas adentraram sem parecerem se dar conta de sua presença ou do piso molhado.

— Entra aqui e se acalma, pelo amor de Merlin! — A garota de cabelos escuros disse, praticamente empurrando a outra para o centro do banheiro.

— Ugh! — A loira resmungou, parecendo furiosa. Lily a reconheceu, assim como a menina que a acompanhava. Eram do mesmo ano que ela, embora fossem da Grifinória. Dorcas Meadowes e Marlene McKinnon. — Você viu a cara dela quando eu falei que meu pai é trouxa? Por Merlin, parecia como se ela tivesse acabado de ver algo extremamente nojento grudado no chão. Vaca dos infernos...

— Dorcas, calma... — McKinnon disse, colocando uma mão sobre o ombro da garota, tentando acalmá-la, embora a outra obviamente não parecesse querer ser acalmada.

— E ainda ficou dando em cima do Lupin! — Meadowes se afastou da outra, dando dois passos para longe enquanto jogava os braços para o alto.

— Ele é monitor-chefe, Doe, só estava auxiliando-

— Ele estava auxiliando, mas aquele sorrisinho dela... ah, por Merlin, Marley! Ela estava flertando! Descaradamente ainda por cima. E, como se não bastasse, ela também ficou sorrindo toda boba para cima dos outros dois. — Bufou. — Como se aqueles garotos precisassem de mais algum incentivo para se sentirem os reis do mundo, francamente!

— Dorcas, escuta- — McKinnon ia começar o que deveria ser um discurso calmante, contudo seus olhos encontraram com os de Lily, fazendo-a se interromper. — Evans. — Cumprimentou-a, sem qualquer emoção.

— McKinnon. — Lily retribuiu o cumprimento, reprimindo um suspiro ao ter sido percebida. — Meadowes. — Inclinou a cabeça para a outra que havia se voltado rapidamente em sua direção.

— Está tudo bem, Evans? — Meadowes perguntou, rapidamente, encarando-a de forma analítica. — Está pálida.

Lily franziu os lábios ao ouvi-la dizer aquilo, xingando-se por não ter sido capaz de se esconder antes que elas entrassem. Tudo o que não precisava era de pessoas avaliando sua aparência naquele momento.

— Tudo ótimo. — Respondeu, concisa e então fez menção de se mover em direção à saída, porém, mais uma vez, antes que conseguisse fazer o que queria, foi impedida pelo risinho de Myrtle que ecoou de um dos boxes próximos de onde ela estava.

A fantasma deslizou pela porta entreaberta, baixando seus olhos lacrimosos para Lily, encarando-a cheia de uma diversão satisfeita.

— Ooh, você não está nada, nada bem, querida. — Myrtle disse e então piscou para Lily antes de voltar-se para as outras duas, prosseguindo de forma teatral: — Ela esteve tremendo o tempo inteiro desde que chegou aqui. Chorando até. Pelo que a ouvi murmurar, tem algo a ver com a caloura... — E riu ainda mais ao escutar o resmungo irritado de Lily.

— Myrtle, cale a boca!

— Você entra aqui, no meu banheiro, e acha que pode me mandar calar a boca? — Myrtle disse, franzindo o cenho em irritação. — Interrompe o meu choro com as suas lamúrias e me manda calar a boca. Oh, pobre Evans, tão coitadinha. — E, cantarolando, esvoaçou em volta de Lily, sorrindo de forma marota para as outras duas garotas antes de voltar para seu boxe.

O som provindo do vaso sanitário e a enxurrada que atingiu os tornozelos de Lily, McKinnon e Meadowes logo em seguida, era indicativo de que a fantasma havia sido irritada o suficiente para inundar o banheiro novamente.

Frustrada – e mais irritada do que antes – Lily bateu os pés, praticamente correndo em direção à saída. Estava prestes a abrir a porta, quando McKinnon a chamou.

— Evans.

Suspirando resignadamente, Lily voltou-se para as duas garotas, encarando-as com a expressão neutra.

— Sim?

— Está tudo bem? — O olhar de McKinnon deixava bastante claro que sua pergunta era séria, o que foi extremamente desconcertante para Lily que sentiu as bochechas corarem devido à intensidade.

— Sim. — Murmurou em resposta, embora não tenha parecido nem mesmo perto de estar bem como gostaria de demonstrar. Por algum motivo que não conseguia compreender, seus olhos começaram a coçar, fazendo com que ela precisasse lutar contra as lágrimas.

— A novata te fez alguma coisa? — Meadowes deu um passo para a frente, indagando-a cheia de uma curiosidade preocupada. — Ela esteve falando algumas estupidezes, mas eu não lembro de ter te visto por lá, então...

— Não, ela não fez. — Não diretamente. — Ela é minha irmã. — As palavras escaparam da boca de Lily, fazendo com que até mesmo ela se surpreendesse com a sinceridade.

De onde, diabos, viera aquilo? Por Merlin, ela não precisava responder àquelas garotas sobre qualquer coisa referente à sua vida. Mesmo que aquele não fosse um segredo, afinal, Petunia também era uma Evans, portanto logo as pessoas começariam a unir os pontos e imaginar que elas deveriam ter algum parentesco.

— Sua... irmã? — Meadowes repetiu, franzindo o cenho e parecendo completamente confusa.

— Petunia Evans! — McKinnon foi rápida ao fazer a ligação, agindo como Lily havia acabado de prever que as pessoas agiriam. — É claro...

— Mas vocês são tão diferentes! — A loira interrompeu, olhando Lily de cima abaixo como se estivesse tentando compará-la com a imagem mental de Petunia. Sentindo-se incomodada com aquilo, Lily retesou-se sob suas roupas.

— Bem, ela puxou a parte bonita da família. — Lily rolou os olhos, tentando parecer fria, mesmo que seus olhos continuassem a marejar. Céus, ela só queria ir para longe dali, antes que começasse a dar um show de horrores.

— Então sua família deve ser inteiramente bonita, porque você não é de se jogar fora, Evans. — Meadowes retrucou, tão naturalmente, que fez com que Lily ofegasse. A garota, contudo, não pareceu se incomodar com a reação, voltando a observar Lily como se ela fosse algo muito interessante. — Eu quis dizer que vocês são diferentes porque desde que ela chegou ficou se pavoneando pela escola, enquanto que você parece ser legal demais para agir tão patética desse jeito. — Deu de ombros.

Foi a vez de McKinnon ofegar.

— Doe! Elas são irmãs! — Disse e então ergueu os olhos para Lily num claro pedido de desculpas.

— Tudo bem. — Lily deu de ombros, sem se importar com o comentário. — Para falar a verdade, Petunia sempre gostou de chamar atenção. Não imagino porquê seria diferente agora. — E, mais uma vez, as palavras escaparam de sua boca.

— Você não parece ser muito fã dela. — McKinnon comentou, arqueando as sobrancelhas, surpresa.

Lily deu de ombros, imaginando que, depois de tudo o que havia dito, concordar com mais alguma coisa não faria diferença. Até porque não era como se ela estivesse correndo para os braços de Petunia na primeira oportunidade, tentando reconstruir os laços familiares. Não. As pessoas perceberiam que, apesar de serem irmãs, elas não eram amigas.

Portanto não havia porque negar.

— Nós não temos um relacionamento exemplar, não.

— Isso é... ruim. — Meadowes não sabia o que dizer, portanto elas ficaram lá, apenas se encarando por vários instantes, até que Lily se sentiu desconfortável demais diante de seus olhares perscrutadores e, por conta disso, mais uma vez, voltou-se para a saída.

Caminhando de forma apressada, murmurou um feitiço de secagem para os pés antes de sentir-se zonza novamente. Suspirando, pensou que talvez devesse dar uma passada pela cozinha para comer alguma coisa antes de retomar suas atividades. Somente naquela tarde, tinha uma detenção para ministrar e uma reunião com os monitores para a qual deveria se preparar.

Só precisava estar viva até lá.

— Ei, Evans! — Novamente, a voz de McKinnon a chamou. Ao voltar-se, percebeu que as duas garotas se encaminhavam até ela.

— Sim?

— Está indo almoçar? — Foi Meadowes quem perguntou, encarando-a cheia de uma expectativa que Lily não soube identificar.

— É...

— A gente te acompanha então, estávamos pretendendo voltar para o Salão antes do horário de almoço acabar... falta apenas meia hora agora. — McKinnon comentou, baixando os olhos para um relógio de bolso. — Fomos almoçar muito tarde e, bem, acabamos não conseguindo por que a Doe aqui acabou se estressando além da conta. — Acrescentou, indicando a amiga e rolando os olhos logo em seguida.

— Não foi sem motivos. — Meadowes suspirou e então franziu o cenho. — Escuta, Evans, a sua família não gosta de nascidos trouxas?

— O... quê? — Pega de surpresa pela pergunta, Lily encarou-a, perplexa.

A garota deu de ombros.

— Sua irmã não pareceu muito simpatizante depois de eu comentar que meu pai era trouxa.

Ah, Lily percebeu, então era daquilo que elas estavam falando quando chegaram ao banheiro.

— Não... — Lily disse e então meneou a cabeça, lembrando da própria mãe e da forma como ela parecia totalmente alheia aos nascidos trouxas, principalmente porque tratava muitos deles, sendo ela uma medibruxa renomada e, por conta disso, aparentemente desprovida deste tipo preconceitos... exceto que, toda vez que Petunia decidia sair com algum deles (o que acontecia frequentemente durante as férias, principalmente quando elas viajavam para a praia), Helena Evans bufava, furiosa e, com apenas uma encarada, Petunia simplesmente desaparecia com os pretendentes. Ao lembrar-se disso, franziu o cenho, percebendo que nunca havia tocado naquele assunto enquanto esteve junto de seus pais.

Não que ela conversasse muito com eles, obviamente, mas, percebeu, grande parte de suas convicções perante os nascidos trouxas e trouxas provinham das várias horas em que conversara com sua avó, Ellen Carter, e de suas próprias experiências de vida e não dos ensinamentos de seus pais.

Lily sempre achara um desperdício desmedido julgar alguém por causa de seu tipo de descendência, principalmente quando haviam outras coisas mais importantes para serem avaliadas, tais como o caráter e a índole. O fato de uma pessoa ter ou não pais bruxos era simplesmente irrelevante diante disso.

Entretanto, agora que havia parado para pensar, conseguia perceber certa implicância por parte de sua mãe, principalmente. Lily era sangue puro, sendo os Evans – por parte de pai – provindos do País de Gales enquanto que os Carter – por parte de mãe – haviam migrado dos Estados Unidos para a Inglaterra não muitos anos atrás. O fato de que eram uma família pequena e desconhecida, fazia com que eles não fossem importantes o suficiente para estarem entre os Sagrados Vinte e Oito – algo que Helena sempre comentava em um tom levemente irritado quando não estava em seus melhores dias, embora Lily sempre tivesse se sentido grata por não ter qualquer parentesco com a família Black (o que era basicamente oitenta por cento da população mágica da Grã-Bretanha).

Ao avaliar aquilo, Lily sentiu o choque se alastrar por seu corpo ao perceber que, embora ela não fosse preconceituosa, sua mãe não era a maior simpatizante com os mestiços e trouxas que conhecia, embora sua profissão não lhe desse muita abertura para protestar. Era surpreendente perceber que, da mesma forma que estivera cega com Snape, Lily não conseguira observar que sua mãe não se comportava muito diferente até o momento em que Meadowes a perguntara, muito embora a mulher fosse extremamente arrogante e inclinada a pensar que era melhor do que os outros – mesmo que não fosse fanática como os projetos de comensais ou pretenciosa o suficiente para apoiar alguém tão vil como Voldemort. Helena ainda sustentava aquele “orgulho grifinório”, o que fazia com que certas coisas simplesmente não se encaixassem a ela, apesar de que pudessem se ela tivesse uma visão de mundo minimamente diferente.

— Sabe de uma coisa, Meadowes, pode ser que eles sejam, sim. — Lily murmurou, sentindo-se constrangida ao afirmar aquilo. — Me desculpe por isso, não acho que seja justo.

— Não é. — Meadowes comentou, mas então deu de ombros. — Mas você não parece concordar com esse tipo de coisa.

— Porque não faz sentido. — Lily deu de ombros, rolando os olhos logo em seguida. — Julgar alguém por causa da descendência é simplesmente ridículo. Existem pessoas babacas e sangues puros (muitas, na verdade) e existem pessoas incríveis e nascidas trouxas. Ou somente trouxas. Não existe diferenciação entre a gente, exceto a magia, certo? Quero dizer, se nos colocarem ao lado de um trouxa sem uma varinha, qual é a diferença? — Sua voz continha o tédio que sentia ao pronunciar aquelas palavras. Quantas vezes havia repetido aquilo nos últimos anos para Snape? Tentando fazê-lo enxergar a razão, tentando fazê-lo compreender... em vão.

Entretanto, McKinnon e Meadowes – diferentes de Snape – pareciam bastante impressionadas com as palavras de Lily, encarando-a como se a estivessem vendo pela primeira vez.

— Você... tem um bom ponto. — McKinnon finalmente disse, assentindo para ela embora seus olhos estivessem levemente arregalados. — Surpreendentemente bom.

— Você não imaginou que uma sonserina pudesse dizer essas coisas? — Lily indagou, embora não estivesse sendo sarcástica. Estava apenas curiosa, afinal as pessoas tendiam a pensar coisas bastante ruins sobre sonserinos, mesmo que sem querer. Era o mesmo tipo pensamento dos puristas com relação aos trouxas: julgamento prévio, sem maiores aprofundamentos. Embora que, diferente dos puristas, eles não estivessem de todo errados, afinal alguns sonserinos davam bastante motivos para as represálias.

Não que aquilo fosse algo de que Lily se orgulhasse.

— Culpada. — A garota respondeu e suas bochechas ficaram levemente coradas ao ser pega fazendo exatamente o que Evans havia dito.

Lily simplesmente deu de ombros, sem se importar realmente. Estava acostumada com aquele tipo de coisa. Quase sete anos sendo uma sonserina, tendo de aguentar a própria mãe, que simplesmente detestava a casa, falar que ela era abominável só por estar ali, fizeram-na se importar muito pouco com aqueles pré-julgamentos.

— Como... você consegue? — Meadowes interrompeu o silêncio incomodo que havia se abatido sobre elas e, pela sua expressão, tomada de um alívio nervoso, parecia finalmente ter perguntado algo que a corroía.

— Consigo o quê? — Lily perguntou, franzindo o cenho em confusão diante do questionamento.

— Ser tão... fria e altiva... e tão certa de si. — Meadowes respondeu e seus olhos azuis brilharam levemente ao voltarem-se para Lily, que se movia levemente desconfortável diante de tal observação. — Não parece dar importância para o que os outros falam sobre você e, bem, sempre está assim — apontou para ela — inatingível. — Arqueou as sobrancelhas. — Como você consegue? — Repetiu.

— Eu minto bem. — Novamente as palavras escaparam da boca de Lily, parecendo preencher o ar em volta delas, ecoando por ali, fazendo-a querer se encolher ao dar-se conta do que havia dito.

— Imaginei que sim. — Meadowes disse simplesmente, sorrindo para ela como se houvesse acabado de desvendar o maior enigma de sua vida.

Lily sentiu-se atordoada diante de toda aquela sucessão de acontecimentos. A conversa estranhamente amigável com aquelas duas não estava ajudando em nada para descansar sua mente, fazendo com que ela se sentisse mais confusa a cada instante. Tudo o que ela queria era um pouco de paz e sossego.

Estava prestes a dar uma desculpa para se afastar das duas e sair dali o mais rápido possível, quando a ouviu e, mesmo depois de tanto tempo, Lily ainda era capaz de reconhecer muito bem o tom de voz absurdamente teatral de sua irmã.

— Petunia. — Ela murmurou, contrafeita, voltando-se na direção em que a voz havia soado, só para surpreender-se ao ver ao lado de quem Petunia estava vindo.

Parecendo tão surpresos quanto Lily, Sirius Black, Remus Lupin e James Potter caminhavam despreocupadamente ao lado da garota, olhando de uma para a outra, esperando pelo que estava por vir.

Lily percebeu quando os olhos castanho-esverdeados dele buscaram os dela, contudo, ela fez questão de manter o olhar longe do dele. Tinha medo do que o garoto encontraria caso a encarasse naquele momento. Ela não precisava desmoronar mais uma vez diante dele.

Ou era o que ela tentaria fazer. O que precisava fazer.

Embora, percebeu, ao ver o sorrisinho cínico bordar os lábios da irmã, não conseguisse ver como sairia daquele corredor tão inatingível quanto Meadowes havia comentado que ela era.


Notas Finais


E aí, amores, o que acharam? Espero que tenham gostado do capítulo!

Não esqueçam de me contar o que estão pensando sobre a história, sim? É sempre um prazer enorme vê-los por aqui ♥

Pretendo postar o próximo ainda essa semana, portanto... até logo!

Beijinhos ♥


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