História Só vejo você - Capítulo 65


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Hentai, Lesbicas, Orange, Yuri
Visualizações 1.268
Palavras 5.081
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Hentai, Orange, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa noite, leitoras <3
Não me matem ainda, pois pretendo terminar a fic hahaha. Beijos!

Capítulo 65 - Coração Bipolar


Fanfic / Fanfiction Só vejo você - Capítulo 65 - Coração Bipolar

POV REBECA

Minha vida estava parecendo um sonho que eu não queria mais acordar, tudo tinha dado certo na entrevista de emprego e agora eu só precisava fazer um treinamento rápido para poder ficar na recepção e depois a própria empresa iria me pagar um cursinho de excelência em atendimento ao cliente. O cursinho seria durante o dia, mas como eu iria ser aprendiz, eu iria sair duas horas mais cedo todos os dias para poder realizar o curso. Primeiramente iria ser assim, mas outros cursinhos viriam e o melhor é que eu iria poder escolher qual me interessava mais e tudo isso só aconteceu graças a minha namorada, que desde que chegou em minha vida só alegrou os meus dias com a sua doçura.

Melissa era tão linda, não só na aparência, como também interiormente. Ela irradiava luz e sempre que eu estava com ela me sentia contagiada com seu brilho. Eu me sentia imensamente feliz por tê-la, era o melhor presente que a vida me deu e eu nunca queria perdê-la. Quando meu pai faleceu, minha mãe entrou em uma depressão profunda e agora eu conseguia entendê-la, minha mãe amou muito meu pai e perdê-lo foi como se ela tivesse morrido também, deixando-a sem rumo. Se um dia eu perdesse a Mel, provavelmente também iria morrer de tristeza alguns dias depois.

ㅡ Amor, no que está pensando? ㅡ Ouvi Mel e senti seu toque em minha perna.

Só então percebi que já estávamos paradas em frente ao mercado onde eu trabalhava, eu precisava passar por lá para pegar minha carteira de trabalho que eu havia deixado dois dias atrás, no mesmo dia em que pedi demissão, falei que tinha conseguido uma boa oportunidade de crescer futuramente e não podia perdê-la. Claro que fiz isso com dor no coração, pois tinha sido ali que conquistei meu primeiro emprego, foi ali que fui acolhida quando precisei, mas eu tinha vontade de mudar de vida e no mercado talvez eu nunca conseguisse isso.

ㅡ Eu pensava no quanto eu te amo. ㅡ Sorri e cobri a mão dela, pousada em minha perna, com a minha. Fiz um carinho com meu dedo polegar ㅡ Que eu não sei o que eu farei se eu te perder algum dia.

ㅡ Mas eu pretendo viver muito ainda, acha que vai se livrar de mim assim tão fácil? ㅡ Mel me fez rir, como se fosse mesmo a gente que escolhia a hora de morrer.

ㅡ Não acho e também não quero. Você está intimada a viver comigo por muitos e muitos anos, ouviu? ㅡ Soltei a mão dela e bati o dedo de leve na pontinha do nariz dela. Aproveitei que minha mão estava na altura certa e toquei em seu rosto com carinho, levando-a até a nuca e forcei ela a chegar mais perto e me beijar ㅡ Te amo e te proíbo de me abandonar.

ㅡ Bobona, acha mesmo que eu quero te abandonar. Só se eu estivesse louca para querer um absurdo desse. ㅡ Fez uma careta e voltou a me beijar.

ㅡ Bom mesmo! ㅡ Mordi o queixo dela e ela riu ㅡ Vamos lá pegar minha carteira que estou louca para te jogar na cama. ㅡ Dei uma piscadinha e ela mordeu o lábio inferior de um jeito sedutor conseguindo me provocar.

Sorri, hoje ela teria uma noite muito quente, pois como eu não trabalhava há dois dias, não estava cansada e iria amar Mel a noite inteira do jeito que ela merece.

Fomos até o mercado e acabei ficando triste por lembrar que eu não iria mais trabalhar ali, assinei todos os papéis e me despedi do pessoal com um aperto no peito, todos os funcionários eram pessoas boas e apesar de alguns acharem estranho quando descobriram minha orientação sexual, nunca mudaram comigo, até porque todos ali sabiam que eu só tinha olhos para a minha namorada.

ㅡ Amor, que tal se a gente fosse lá naquela pizzaria, que faz a melhor pizza da cidade, comprar uma pizza gigante para comemorarmos seu novo emprego?

Mel falou radiante e como eu jamais seria capaz de desfazer aquele sorriso lindo, concordei e ainda sugeri que comprássemos um vinho para a comemoração ficar ainda melhor.

Ela me agarrou e me encheu de beijos dizendo que me amava. Mel estava feliz e confesso que também estava. Foi nesse clima gostoso e descontraído que fomos até a melhor pizzaria da cidade. Mel encontrou uma vaga para estacionar na própria avenida, coisa rara, pois era a avenida mais movimentada da cidade, e saímos do carro. Vimos de longe alguém descendo a avenida de skate e achei essa atitude muito corajosa, pois o fluxo de veículos por ali era muito grande.

ㅡ Amor, se você andasse de skate e descesse essa avenida eu ia te encher de tapas.

ㅡ Ainda bem que não ando ㅡ Dei risada, mas pensar nos tapas dela era interessante. ㅡ Eu nunca tive vontade de andar nisso, não tenho coragem de arriscar a minha vida dessa maneira. ㅡ Falei observando a pessoa no skate e vi que era uma menina, pois os cabelos esvoaçantes eram bem compridos e o corpo era delicado.

ㅡ Amor, essa não é aquela menina que a Bia namora?

ㅡ É ela mesma, você tem razão. ㅡ Deu pra ver que era ela quando passou por nós bem rápido, juro que se eu tivesse piscado não teria a reconhecido.

ㅡ Ela é muito corajosa, será que a Bia sabe que ela faz isso? ㅡ Mel me olhou e como eu não sabia o que responder apenas fiz um gesto como quem diz “não sei”. ㅡ Enfim, deixa pra lá, vamos pedir meio a meio, eu escolho um sabor e você outro.

Entramos na pizzaria e fizemos o pedido, como ia levar alguns minutos para ela ficar pronta, compramos um vinho e nos sentamos numa mesa, enquanto conversávamos coisas aleatórias. Como eu estava com a melhor companhia que existia, nem vi o tempo passar e até achei o preparo da pizza rápido. Pagamos e saímos da pizzaria e achamos estranho que de um lado da avenida estava completamente parado.

ㅡ Que estranho, o que será que aconteceu? ㅡ Perguntei tentando entender e vi que bem no final da avenida havia uma aglomeração de pessoas.

ㅡ Acho que foi algum acidente, olha uma ambulância chegando. ㅡ Mel respondeu. ㅡ Quer ir lá ver?

Respondi que não, eu não gostava de ver cenas de acidente, tinha pavor de sangue. A imagem do meu pai caído no chão com um tiro no peito eu lembrava até hoje, se eu fosse ver o acidente acho que ficaria em choque. Como não íamos conseguir sair da avenida tão cedo, pois o carro da Mel estava estacionado bem no lado congestionado, guardamos a pizza e ficamos ali na calçada mesmo. Um homem veio subindo a avenida e como eu estava curiosa, resolvi perguntar o que tinha acontecido.

ㅡ Um carro não parou no semáforo e atropelou uma menina de skate, acho que ela morreu, nem quis mais ver, tem muito sangue. ㅡ Ele falou desesperado e depois voltou a andar.

Quando ele disse “menina de skate” olhei para Mel e ela para mim, acho que pensamos a mesma coisa: a menina de skate só podia ser a namorada da Bia. Sem dizer nada, como se tivéssemos combinado, corremos até o local do acidente, tinha muita gente em volta, mas eu fui dizendo que conhecia a menina e nos deram espaço. Como eu já imaginava que iria acontecer, ver todo aquele sangue manchando o rosto dela, a roupa e o chão revirou meu estômago. Era realmente a namorada da Bia que estava ali caída, ela estava inconsciente, um dos braços estava bem torto e um bombeiro estava cortando a manga da blusa dela com uma tesoura, mostrando para todos que estavam ali, que o braço dela estava quebrado e que um osso do antebraço estava para fora. Ele gritou que o osso quebrado tinha rompido uma artéria e que por isso havia tanto sangue. Logo outro bombeiro se abaixou e apertou o braço dela acima da fratura com um elástico para tentar estancar o sangue. De maneira rápida e muito cuidadosos, eles imobilizaram ela e a colocaram numa maca. Um dos bombeiros verificou se ela não tinha documentos e ao constatar que não, perguntou se alguém a conhecia. Como eu ainda estava em choque por ter visto tudo isso, foi Mel quem falou que a conhecia e que só sabia o apelido dela, mas que iria avisar a namorada dela sobre o acidente o mais rápido possível. O bombeiro agradeceu e sem perder mais tempo, fechou a porta da ambulância e depois entrou na cabine, acionando a sirene para que abrissem espaço e eles pudessem ir até o hospital.

ㅡ Amor, vem, vamos sair daqui. ㅡ Mel pegou em minha mão e me conduziu até um local onde havia menos pessoas, virou-se de frente para mim e tocou em meu rosto. ㅡ Você está bem?

ㅡ Estou meio zonza. Não gosto de ver sangue desde que meu pai morreu, acho que fiquei traumatizada.

ㅡ Oh, amor, você não devia ter ido ver o acidente. ㅡ Deu um beijo em minha testa e me abraçou ㅡ Quer se sentar?

ㅡ Não precisa, já vai passar, precisamos ligar para a Bia.

ㅡ Mas como vamos dar uma notícia dessas para ela? ㅡ Mel parou de me abraçar e me olhou.

ㅡ Infelizmente não existe uma maneira legal de dar uma notícia ruim, mas deixa que eu falo com ela, vou tentar não assustá-la.

Mel concordou e peguei meu celular, nunca imaginei que ligaria para Bia para contar que a namorada dela sofreu um acidente, mas a vida sempre nos prega peças e agora eu não sabia nem como começar a contar sobre o acidente para ela. Digitei o número dela e enquanto esperava ela atender, fiquei pensando numa maneira que não fosse tão assustadora, mas essa era uma tarefa difícil.


 

POV BIANCA

Tinha tantos trabalhos acumulados para fazer, que não sabia nem por onde começar, só de pensar neles já me dava dor de cabeça e preguiça, mas eu não podia deixar acumular mais, precisava fazê-los. Escolhi os que eram mais fáceis primeiro e comecei a fazer pesquisas na internet. Me dediquei ao máximo nas pesquisas e consegui deixar dois trabalhos semi prontos, só faltando acrescentar alguns detalhes, quando meu celular tocou. Estranhei quando olhei para o celular e vi o número da Beka, ela só me ligava quando precisava de algo, será que ela precisava de alguma coisa?

ㅡ Oi, Beka! ㅡ Atendi logo.

ㅡ Oi, Bia, como você está?

ㅡ Eu estou bem e você? ㅡ Notei pela voz dela que ela estava acontecendo alguma coisa e comecei a ficar preocupada.

ㅡ Bem também… ㅡ Ficou quieta de repente e achei muito estranho ㅡ É… eu estou aqui no centro da cidade e sabe quem eu vi?

ㅡ Não, quem? ㅡ Franzi a testa sem entender o que ela estava querendo me contar.

ㅡ A sua namorada, é Rafa o nome dela, não é?

ㅡ É Rafa sim, mas ela não é minha namorada. ㅡ Agora que eu não estava entendendo mais nada mesmo, porque a Beka me ligou toda estranha para falar que viu a Rafa?

ㅡ Não? Eu pensei que fosse... É que ela estava se aventurando a descer de skate a avenida que tem aqui…

ㅡ Eu não acredito, eu falei para ela não fazer isso. ㅡ Mesmo sem entender nada, fiquei brava.

ㅡ Eu nem sei como te dizer isso, Bia, mas um carro furou o sinal vermelho e bateu nela.

ㅡ O que? ㅡ Meu estresse desapareceu e fiquei paralisada com o que ela disse, parecia que Beka tinha me jogado um balde de água fria. ㅡ A Rafa foi atropelada? ㅡ Gritei com o susto, meu coração pulsava muito forte, quase saindo do peito ㅡ E como ela está?

ㅡ Parece que foi feio, Bia, a ambulância acabou de levá-la para o hospital.

ㅡ Meu Deus, mas ela está viva? ㅡ Cada segundo que passava meu nervosismo aumentava.

ㅡ Ela estava inconsciente, mas está viva. ㅡ Respirei aliviada ao ouvir a palavra “viva” ㅡ Mas ela estava sem os documentos, e só sabem que o nome dela é Rafa, porque eu e Mel reconhecemos ela. Você precisa ir até o hospital.

ㅡ Eu vou, obrigada por ligar, Beka.

Ainda em choque, deixei o celular sobre a escrivaninha e segurei meu rosto com as mãos trêmulas, a Rafa foi atropelada, porque? Fiquei paralisada por alguns minutos olhando para a tela do computador, enquanto minha mente, sem controle, criava imagens da Rafa toda machucada. Balancei a cabeça tentando expulsar esses pensamentos e me levantei, coloquei um casaco e saí do meu quarto, ligando para meu motorista. Pedi que ele ligasse o carro, pois íamos sair em dois minutos.

ㅡ Vai para algum lugar? ㅡ Mary perguntou ao me ver descendo a escada apressada e afirmei com a cabeça.

ㅡ Minha amiga sofreu um acidente, vou para o hospital.

ㅡ Meu Deus, qual delas? ㅡ Perguntou após colocar a mão no peito com o susto.

ㅡ A Rafa, ela já veio aqui em casa, parece que o acidente foi feio, Mary. ㅡ Segurei as lágrimas, eu não conseguia parar de imaginar ela caída no chão, quase morta e com muito sangue em volta.

ㅡ Ela vai ficar bem, você vai ver. ㅡ Tentou me confortar com um abraço, mas de nada adiantou, pois quase chorei. Nunca quis que nada disso acontecesse com a Rafa.

ㅡ Eu preciso ir… ㅡ Falei com a voz embargada e me soltei do abraço. Evitei olhar para ela, odiava que me vissem chorando e fui até a garagem.

Como pedi urgência, assim que cheguei ao jardim, vi que meu motorista já estava ao lado do carro me esperando com a porta aberta. Entrei e pedi que ele me levasse para o hospital. Encostei a cabeça no vidro e voltei a imaginar Rafa toda machucada, derramando lágrimas sem perceber. Eu não queria acreditar que isso era verdade, mas infelizmente não existia outra menina louca que tivesse coragem de se arriscar assim com um skate, como a Rafa. Senti vontade de dar uns tapas nela por ter cometido essa loucura, se ela tivesse me ouvido nada disso teria acontecido.

Como o trânsito estava tranquilo, em dez minutos chegamos. Saí do carro correndo e entrei no hospital, mas como eu não sabia para onde ir, fui até a recepção.

ㅡ Senhora, minha amiga sofreu um acidente há pouco tempo, poderia me informar como ela está? ㅡ Falei muito rápido, tamanho meu desespero.

ㅡ E como ela se chama? ㅡ A mulher falou calma, já estando acostumada com essas situações.

ㅡ Rafaela Collins.

ㅡ Rafaela… ㅡ A mulher digitou, olhando para a tela do computador e me olhou ㅡ Não tem nenhuma paciente com esse nome, tem certeza que ela está nesse hospital?

ㅡ Eu não sei, me disseram que a levaram para o hospital, imaginei que fosse aqui.

ㅡ Deve ser aquela que estava sem os documentos. ㅡ Um homem entrou na conversa ㅡ Eu a registrei como indigente, por não saber o nome dela.

ㅡ Deve ser ela, parece que ela estava mesmo sem os documentos.

ㅡ Um atropelamento, ela estava com um skate e usando boné? ㅡ Me perguntou e concordei com a cabeça, só podia ser ela. ㅡ Se for mesmo ela, deu entrada aqui no hospital com uma fratura exposta no braço direito, três costelas e a clavícula trincadas, além de várias escoriações. ㅡ Falou olhando para o computador ㅡ No momento ela está aguardando na UTI para a realização de uma cirurgia no braço enquanto recebe uma transfusão de sangue, mas se os pais dela ou responsáveis não vierem assinar uma autorização em até duas horas, ela poderá perder os movimentos do braço.

Ouvir tudo isso me deixou em choque outra vez, se ela podia perder os movimentos, porque eles não podiam fazer a cirurgia logo.

ㅡ Então porque não fazem a cirurgia de uma vez? ㅡ Perguntei perplexa.

ㅡ Ela perdeu muito sangue e está com os sinais vitais muito fraco, qualquer cirurgia colocaria a vida dela em risco. Você tem o telefone dos pais dela?

ㅡ Não, ela mora sozinha e os pais em outra cidade. ㅡ Respondi com a voz embargada, saber que a Rafa poderia não mexer mais o braço cortou meu coração.

ㅡ Então teremos que esperar, mas fica calma, a equipe médica sabe o que faz.

Queria mesmo acreditar nas palavras dele, mas não consegui e deixei uma lágrima escapar.

ㅡ Eu posso ver se é ela mesmo? ㅡ Pedi e ele afirmou, e me pediu para aguardar um momento num banco.

Fiz o que ele pediu, mas eu estava muito ansiosa e amedrontada, receber essas notícias foi muito forte para uma menina de 17 anos, eu não estava preparada. Sequei minhas lágrimas

quando um enfermeiro veio até mim e pediu que eu o acompanhasse. Pegamos um elevador e subimos até o andar onde ficava a Unidade de Terapia Intensiva. Passamos por um imenso corredor, todo branco, bem iluminado e muito silencioso e entramos em outro corredor onde ficavam os quartos para o pré operatório, todos tinham uma vidraça sendo possível ver o paciente sem precisar entrar no quarto.

Apesar de tudo indicar que era a Rafa que tinha sofrido o acidente eu ainda tinha uma pontinha de esperança de que a menina que estava internada ali não fosse ela, mas quando paramos em frente ao quarto e pude ver que era ela mesma, deitada naquela cama, coberta apenas com um lençol fino e branco, toda machucada, com uma máscara de oxigênio, uma bolsa de sangue pendurada que levava sangue até seu braço esquerdo e vários fios que saíam de um aparelho e paravam em seu peito, não consegui mais aguentar um nó que cada vez mais ia apertando a minha garganta e comecei a chorar.

ㅡ É ela, é a Rafa… ㅡ Falei quase sem voz, tocando no vidro, como se a estivesse tocando. Essa estava sendo a minha pior experiência, estava sendo horrível ver ela assim. Ela era tão pequena, tão magra e estava numa situação tão delicada, correndo risco de vida e eu ali, sem poder fazer nada.

ㅡ Como ela se chama? ㅡ O Enfermeiro perguntou e olhei para ele, ele segurava uma caneta e uma prancheta e nada disse sobre eu estar com o rosto inundado em lágrimas.

ㅡ Rafaela Collins ㅡ Falei e voltei a olhar para ela com o coração apertado. O aparelho indicava que ela estava viva, mas ela estava tão pálida e tão sem vida, que vê-la assim estava me dando medo que ela não pudesse resistir ㅡ Ela vai ficar bem?

ㅡ Estamos fazendo tudo o que é possível.

Estavam fazendo tudo, mas não operavam ela logo e tudo por causa de uma autorização boba. Não! Eu precisava fazer alguma coisa, era a vida da Rafa que estava em jogo. Determinada, parei de olhar Rafa e enquanto deixava a UTI, sequei minha lágrimas. Com passos apressados, saí do hospital e fui até onde meu motorista havia estacionado. Pedi que ele me levasse até onde a Rafa morava e logo eu me encontrava em frente ao pequeno edifício. Como eu não podia perder tempo, apertei logo a campainha e após o porteiro me ver, abriu um sorriso e destravou o portão, me deixando passar.

ㅡ Quanto tempo, nunca mais te vi por aqui ㅡ Falou animado e dei um sorriso sem vontade.

ㅡ É que andei ocupada.

ㅡ Entendo, veio ver a Rafaela? Ela não está no momento.

ㅡ Na verdade eu vim aqui para perguntar se você tem o telefone dos pais dela, é que ela sofreu um acidente e preciso falar com eles urgente.

ㅡ Meu Deus, um acidente? ㅡ Disse assustado e afirmei ㅡ Eu não tenho o telefone deles, só o dela mesmo.

ㅡ Mas será que no apartamento dela não tem? Você não tem alguma chave extra?

ㅡ Não tenho e mesmo se eu tivesse, eu jamais poderia te dar. Mas a Rafaela está morando com uma amiga, talvez ela possa te ajudar.

ㅡ Uma amiga? ㅡ Meu coração parou de bater de repente ㅡ Como disse?

ㅡ Uma moça toda estilosa, mas muito gente fina, ela está lá no apartamento agora, você pode ir até lá e perguntar.

“Uma moça toda estilosa” ㅡ Repeti em pensamento, deixando meu ciúmes ganhar vida. Só podia ser a tal da Tati, e além das duas estarem ficando, também estavam morando juntas. Minha vontade foi de deixar tudo para lá e ir embora, mas eu continuei seguindo até o apartamento, parei na porta, mas ao invés de bater, fiquei ali parada decidindo o que eu ia fazer. Se antes meu coração estava apertado por ver Rafa tão frágil naquela cama, agora ele estava em pedaços e, apesar de sentir vontade de chorar de novo, segurei essa vontade com todas as minhas forças e me decidi, eu ia contar para a namorada da Rafa que ela estava no hospital e iria embora. Dei três batidas na porta, respirando fundo para tentar acalmar meu ciúmes e ouvi ela gritando que já ia me atender.

ㅡ Eu sabia que você tinha esquecido a chave… ㅡ Tati parou de falar assim que me viu ㅡ Não pode ser, só porque a Rafa não está aqui… Ela vai ficar doida quando souber. Vem, entra. ㅡ Disse animada me dando espaço e entrei à contragosto.

ㅡ Desculpa incomodar, não precisa ficar com ciúmes. ㅡ Tentei explicar e ela fez uma careta.

ㅡ Com ciúmes? ㅡ Ela segurou uma risada e só não revirei os olhos por educação.

ㅡ Vocês não estão... ㅡ Gesticulei achando que ela iria entender, mas não deu certo e me senti muito idiota ㅡ Namorando.

ㅡ Eu e a Rafa namorando? ㅡ Ela soltou uma gargalhada ㅡ Nem em sonhos.

Fingi ter acreditado e apesar de estar muito mal humorada, me lembrei qual era o real motivo para eu estar ali.

ㅡ Você tem o telefone dos pais da Rafa? ㅡ Perguntei logo, querendo sair o quanto antes dali.

ㅡ Não tenho, porque? ㅡ Perguntou curiosa.

ㅡ A Rafa sofreu um acidente…

ㅡ A Rafa o que? ㅡ Arregalou os olhos com o susto.

ㅡ Sofreu um acidente, ela estava andando de skate numa avenida e um carro bateu nela. Ela quebrou o braço e precisa fazer uma cirurgia, mas sem a autorização dos pais os médicos não podem começar a cirurgia.

ㅡ Não pode ser, agora a pouco ela estava aqui sentada te desenhando… Me diga que isso é uma brincadeira.

ㅡ Infelizmente é verdade, você não tem mesmo o telefone deles, é urgente.

ㅡ Tenho o número de um primo dela, espera. ㅡ Tati pegou o celular do bolso e procurou o número com as mãos trêmulas. Após deslizar o dedo várias vezes numa lista de contatos que parecia não ter mais fim, ela encontrou o número que procurava. ㅡ É esse, quer que eu ligue para ele?

Eu disse que sim, pensei que se eu ligasse, talvez ele não me atendesse, mas como os dois já se conheciam, a chance dele atender a ligação era maior, eu tinha pressa, apesar de estar despedaçada por dentro.

Tati começou a conversar com ele, falando sobre o acidente e pedindo o número dos pais dela, mas como ela não sabia da gravidade do acidente, me passou o celular e conversei com ele. Expliquei tudo o que aconteceu, tanto no acidente, como no hospital, e ele disse que ia dar um jeito, pois era advogado e ia conseguir a autorização de qualquer jeito, me agradecendo por ter ligado.

Devolvi o celular para Tati e agora que eu já tinha feito a minha bondade diária, me senti perdida, sem saber o que fazer. Eu devia ir para casa e esquecer a Rafa de uma vez por todas, mas ao invés de fazer isso, fiquei ali parada, olhando em volta, recordando de tudo. Era o nosso cafofo.

ㅡ A Rafa vai sair dessa, você vai ver, ela é uma tampinha, mas é mais forte do que imaginamos. ㅡ Tati falou e concordei, eu precisava sair do apartamento o mais rápido possível, ele estava me deixando muito nostálgica.

ㅡ Eu preciso ir, obrigada pela ajuda.

ㅡ Espera, acho que você devia ver isso… ㅡ Tati falou depressa e, curiosa, esperei. Ela foi até a cama, se sentou e me chamou. Meio à contragosto fui até lá. ㅡ Olha esses desenhos que a Rafa fez, você já tinha visto eles? ㅡ Indagou pegando uma pasta bem grande.

ㅡ Eu nunca vi essa pasta antes. ㅡ Respondi sem saber onde ela queria chegar e como ela me entregava a pasta, a peguei, mas como ela era muito grande, coloquei sobre a cama e a abri, tendo outro mini infarto naquele mesmo dia. Era eu, naquele desenho e nem parecia uma pintura, parecia uma fotografia. O desenho estava tão lindo que tive vontade de levar para casa, olhei a data e fiquei surpresa ao ver que ela o fez quando ficamos pela primeira vez (quando eu não estava bêbada), ela me conhecia tão pouco e já conseguiu tamanha proeza. Com um sorriso ao pensar nisso, virei a primeira tela e, apesar de ficar constrangida, minha admiração pelos desenhos da Rafa só aumentou. Eu estava no papel outra vez, de corpo inteiro e completamente nua, mas o desenho era tão bonito, que ignorei completamente a presença de Tati. Fui olhando todos, nem eu e nem a garota estilosa dizíamos nada, eu apenas sentia, admiração, carinho. Quando parei para olhar o último desenho, meu coração errou uma batida, Rafa tinha me desenhado com ela e apesar dos traços serem tão reais, tinha uma mistura de fantasia que deixava o desenho magnífico. Sorri olhando e, sem me dar conta, acabei tocando o rosto de Rafa no desenho. Meus olhos percorreram por toda a tela e quando vi que a data indicava que eu e ela já havíamos brigado quando ela o fez, me senti triste. Porque Rafa tinha que ser tão infantil e estragar tudo mexendo com o dinheiro do meu pai, o dinheiro que ele ajudava tanta gente, dando emprego, e o mais importante, administrando a minha família, me dando de tudo. Quando ela quis se vingar, pensou apenas em mim, sendo que por trás envolvia muita gente. Quase ela estragou tudo por um capricho infantil.

ㅡ Você não acha que a Rafa te ama? Só de olhar para esses desenhos eu vejo o amor. ㅡ Tatiane quebrou o silêncio e então me lembrei que ela estava ali ㅡ E também estou vendo que você gosta muito dela.

ㅡ A Rafa estragou tudo sendo infantil, eu nem devia estar aqui. ㅡ Passei a mão nos cabelos e endireitei minha coluna pronta para ir embora.

ㅡ Espera, leva um desenho com você.

ㅡ Para quê? ㅡ Não sei porque eu estava estressada, tudo estava me irritando, até olhar para Tatiane.

ㅡ Eu e a Rafa não estamos namorando, não sei de onde você tirou isso, eu só estou aqui porque ela não estava nada bem quando terminou com você, eu só estava ajudando ela a enfrentar essa barra.

ㅡ Transando com ela? ㅡ Perguntei sem pensar. ㅡ É realmente uma ótima ajuda.

ㅡ Ai, Bia… ㅡ Tati começou a rir e fiquei ainda mais irritada ㅡ Eu adoraria que a Rafa olhasse para mim como ela te olha, mas infelizmente ela só vê você dessa maneira. Depois que ela te conheceu nunca mais ficamos juntas.

ㅡ Mentira, eu vi você e ela abraçadas outro dia na rua e pareciam um casal. Estavam se divertindo, pensa que sou boba?

ㅡ Olha, eu te juro que se você nos viu abraçadas, foi só isso, a Rafa te ama. ㅡ Ela estava me dizendo tudo com tanta sinceridade, que eu estava quase acreditando. ㅡ A Rafa estava muito depressiva quando a encontrei outro dia, muito para baixo e nem mesmo quando ela me contava sobre os pais dela ela ficava assim. Ela me contou que ela quis se vingar de você e tal, mas também disse que se arrependeu e tentou voltar atrás, mas tudo fugiu do controle e acabou se tornando uma bola de neve e deu no que deu. Mas cara, abra os olhos, a tampinha te ama, vai me dizer que você nunca ouviu dizer que o ódio e é o amor são muito parecidos? A Rafa confundiu as coisas e você ajudou nessa confusão quando a perturbava na infância.

ㅡ Olha, eu não sei de nada. ㅡ Tentei desconversar, eu só queria fugir de toda essa conversa. ㅡ Eu preciso mesmo ir…

ㅡ Está bem, leve esse desenho, notei que ele mexeu com você.

Olhei para as mãos dela e vi que ela me entregava o desenho que eu e Rafa estávamos juntas. Decidi pegá-lo e, sem dizer mais nada, fui até a porta e saí.

Não sei porque eu tinha pressa e precisava sair do prédio de uma vez. Respondi o porteiro apressada que tinha dado tudo certo e corri até meu carro. Pedi que o motorista me levasse para casa, mas durante todo o caminho eu não conseguia parar de pensar em tudo o que Tatiane tinha me falado e para completar, em minhas mãos estava aquele desenho tão lindo, tão perfeito, que toda vez que eu parava para admirá-lo, meus olhos se enchiam de lágrimas. Eu estava odiando todo esse momento sensível que eu estava tendo hoje, já tinha até perdido as contas de quantas vezes tinha chorado e mais uma vez, ali estava eu, com o rosto todo molhado. Olhei mais uma vez para o desenho e não pude evitar pensar em Rafa e em como ela estava, eu nem ao menos tinha anotado o número do telefone do primo dela, como é que eu iria ter informações de sua recuperação se eu tinha esquecido desse detalhe tão importante? Ele já devia estar no hospital, eu precisava ir para lá.

ㅡ Volte para o hospital. ㅡ Pedi ao motorista.

ㅡ Mas, senhorita, estamos quase chegando na mansão.

ㅡ Faça como que eu pedi.

Sem reclamar mais, ele fez como ordenei e deu meia volta, me levando novamente para o hospital. Se eu precisava de uma desculpa para enganar meu consciente e assim não me culpar tanto por querer estar perto da Rafa, agora eu tinha.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...