História Sob a Luz da Lua - Capítulo 5


Escrita por: ~

Postado
Categorias Steven Universe
Exibições 2
Palavras 2.223
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 5 - Brigit, a mãe


            As irmãs estavam silenciosas.

            Dispostas em um meio círculo, as sacerdotisas mais velhas de Avalon acompanhavam o desenho do templo de pedra.

            O céu estrelado brilhava sobre nossas cabeças, e a grande mesa de pedra estava a minha frente, apenas com o Cálice Sagrado encima.

            Eu carregava uma simples jarra de barro nos braços, mas seu conteúdo era tão mágico quanto o a água do poço de Draguta.

            O vinho encantado era feito das mais puras uvas selvagens que cresciam no limite entre Avalon e o mundo das fadas.

            Toda semana, uma sacerdotisa deveria servir uma taça do vinho encantado em oferenda à Deusa, para que nunca falte alimento a ilha.

            Eu tentava ao máximo me concentrar, mas minha mente desviava a todo o momento para o ocorrido da tarde.

            Morgana não permitira que a filha de lorde Orkney assistisse o ritual, e eu seria eternamente grata. As coisas já não estavam fáceis para mim, eu convivia com um profundo sentimento de culpa pelo que dissera no meu ritual de recebimento da pedra, e, mesmo que minhas companheiras não me culpassem, eu ainda me sentia responsável pela profecia terrível que Afaggdu enviara.

            E, se Jasper estivesse aqui hoje, eu temia que eu acabasse errando alguma palavra mágica, derrubasse o vinho, ou até mesmo me atirasse em seus braços.

            Nós passamos a tarde inteira escondidas entre a exuberante vegetação de Avalon, trocando beijos e carícias, e descobrindo uma a outra.

            Deveria agora afastar tais pensamentos. Deveria me manter pura, até que a Deusa decidisse o que fazer comigo.

            Claro que Morgana me libertara do papel de Donzela, então não possuía mais nenhuma obrigação de manter-me intocada. Mas minha vida toda fora dedicada a entregar minha virgindade aos desígnios da Deusa, e uma pequena parte de mim relutava ainda de desprender-me de tal obrigação.

            E estava sendo incrivelmente difícil ficar afastada fisicamente de Jasper.

            Eu sabia que era absurdo, pois nos conhecíamos há apenas dois dias, mas minha alma me arrastava para seus braços como se fôssemos amantes de outras vidas.

            Suspirei, arrumei a postura e caminhei solenemente pela relva, até a mesa de pedra.

            Ouvia o suave cântico das sacerdotisas as minhas costas, vi Rose entre uma grande pedra de olhos fechados e balançando suavemente.

            Precisava conversar com minha amiga.

            Ajoelhei-me no chão e ergui a jarra para o céu.

            A magia percorreu meu corpo como uma onda fresca.

            Eu amava a sensação de ter a magia pura correndo em minhas veias, não sabia o que seria de mim se tivesse sido criada no mundo comum, onde a magia não existe e a Deusa era considerada o demônio pelos clérigos da igreja que agora dominava a Bretanha.

            Meus cabelos eriçaram-se levemente, por conta da intensidade da magia que eu agora canalizava.

            - Grande Mãe Terra, receba nosso sacrifício – ouvi minha voz rouca dizer, entre o cântico das sacerdotisas. – Abençoe-nos, Mãe, com seus frutos!

            Ergui-me e enchi completamente a taça de prata sobre a mesa.

            O vinho – de um profundo tom de roxo – brilhou levemente, e algumas bolhas emergiram de sua superfície.

            Raven viera e tirara a jarra de minha mão silenciosamente, voltando para seu posto ao lado da mesa.

            Com a mão firme e fria, peguei a taça e derramei seu conteúdo inteiro na terra a meus pés, que logo absorveu o líquido.

            Estava feito.

            Enquanto sentia a magia deixar meu corpo, o cântico entoado pelas garotas morrera, e, em grupos ou sozinhas, elas voltavam à vila.

            Virei-me para seguir o mesmo caminho – nervosa como nunca, afinal, Jasper agora dormia em minha cabana – mas Rose me interceptara.

            Não a via a desde o lago, quando Jasper chegara à ilha, e me surpreendi com sua aparência.

            Ela estava igual, mas somente os olhos treinados de uma filha da deusa poderiam perceber as sutis mudanças em seu corpo. Seus olhos pareciam mais brilhantes, suas faces estavam saudavelmente coradas e seu quadril – já volumoso – parecia ter adquirido mais forma, atraindo os olhares para aquela parte de seu corpo.

            Rose jogou os grandes cabelos dourados pelos ombros e me encarou preocupadamente.

            - O que está havendo? – perguntei em um sussurro, embora as últimas garotas no círculo de pedra há algum tempo haviam voltado para a vila.

            - Estou preocupada com você, Lápis. Não conversamos há alguns dias, e a última vez que eu a vi você estava desmaiada.

            Abaixei minha cabeça e encarei a grama a meus pés. Estava sendo uma péssima amiga.

            - Oh, Rose, eu... Estou bem. – encarei seus olhos cinzentos relutantemente – Estou apenas preocupada, tantas coisas acontecendo.

            Levantei minhas vestes de algodão cru e sentei-me no chão, sobre a relva seca, e Rose se sentou a meu lado.

            - Aparentemente Morgana tem planos para mim – continuei, olhando as estrelas que nos iluminavam com sua luz fria – A senhora Rhaena também. – coloquei a cabeça entre os joelhos e gemi – Minha vida está uma bagunça desde o ritual... E agora tudo parece piorar...

            Rose me abraçou e eu não pude me conter. Nunca, jamais, ninguém vira uma sacerdotisa chorar. Éramos rígidas, contidas e rigorosas. Sentimentos nunca eram demonstrados em Avalon, mas ali, nos braços da minha mais antiga amiga, eu pude chorar em paz.

            - Eu entendo, querida... Eu entendo... – Rose me reconfortava enquanto eu tremia com as lágrimas – Sei que pode parecer parvoíce o que vou falar, mas sabes que não é, deves confiar na Deusa, Lápis. – ela dissera e limpara minhas lágrimas – Ela tem um plano para você.

            Funguei como uma criança e limpei o rosto na manga áspera do vestido simples. Ela estava certa. A Deusa nunca me deixaria na mão, mas seus caminhos eram demasiadamente difíceis para minha compreensão.

            - É só isso que a está afligindo? – Rose perguntou. Ela sempre fora perspicaz demais, e eu sabia que era uma questão de tempo até ela perceber que meu abalo emocional tinha muito a ver com a recém-chegada na ilha.

            Encarei-a por um segundo.

            Ainda não estava preparada para compartilhar com ninguém – mesmo minha melhor amiga – sobre minha intensa, bem, conexão, com Jasper de Orkney.

            - Sim – eu dissera e enrolara uma mecha de meu cabelo negro, azulado sob a luz das estrelas, em um dedo – É somente a incerteza do destino, Rose. – eu sorrira levemente – E tu? Parece que temos uma novidade.

            Ela corara instantaneamente e sorrira.

            - Você percebeu também? Flavina disse que pode ser, mas ainda é muito cedo para os sinais – ela levara uma mão ao ventre e fechara os olhos – Mas eu sinto Lápis. Eu sinto a vida. Estou diferente, minha magia está diferente – ela me olhara com uma genuína felicidade que foi impossível não retribuir seu sorriso.

            Aparentemente, Rose concebera em Beltane, e por ser uma senhora da terra, era esperado que sua percepção e magia ficassem muito aguçadas.

            - Parabéns Rose! – a abracei e nos levantamos da grama – Você irá contar para o cavaleiro? – perguntei em uma meia voz.

            Era comum as sacerdotisas mandarem seus filhos – se fossem homens – serem criados junto ao pai no mundo comum. As crianças tinham todo o prestígio que lhes era devido, pois um filho da ilha sagrada era como nobreza, mas com o avanço da religião cristã na Bretanha os filhos de Avalon começaram a ser tratados como simples bastardos pelas esposas de seus pais. Não sabia se Rose aceitaria mandar seu filho para ser criado fora dos costumes de Avalon, se a criança fosse um garoto.

            O olhar dela se tornara sombrio enquanto caminhávamos pela trilha iluminada com tochas de fogo fraco, e ela envolvera o ventre protetoramente.

            - Não sei – respondera perturbada – Se eu tivesse certeza de que é uma menina... Mas tenho quase convicção, e minha magia está me dizendo, que é um menino. Eu não vou suportar me afastar dele, Lápis, eu... Vou cria-lo, na tradição druida. Gregori não deve saber. – ela derramou uma pequena lágrima e logo a enxugou, e em um instante o sorriso estava de volta a seu rosto.

            Envolvi sua mão com a minha e sorri para ela. Juntas, caminhamos para a vila.

 

 

 

 

 

            O dia seguinte fora exaustivo – e a noite incrivelmente embaraçosa. Jasper fora apresentada aos Mistérios, e eu ficara encarregada de ensinar-lhe a magia básica dos quatro elementos.

            Ela era muito poderosa, e a cada vez que aprendia algo novo, executava o feitiço com exímia facilidade. Morgana estava satisfeita.

            A cavaleira agora participava de nossos rituais como a mais nova noviça, e aprendia tudo incansavelmente, com seus olhos de águia flamejando.

            Eu conseguira autorização para que ela não precisasse usar vestidos, e tinha que admitir, adorava ver seus músculos poderosos das pernas contraídos quando ela fazia algum esforço, caçando aves no lago ou escalando um precipício em busca de alguma erva.

            As coisas entre nós estavam cada vez mais intensas.

            Eu chegara ao ponto de saber as sensações que o corpo dela percebia, e algumas vezes ouvira sua voz em minha mente, um pensamento qualquer, apenas um eco de sua voz. Jasper também sentia o mesmo, ela agia como uma espécie de lua a minha volta, sempre perto, e quando nos distanciávamos – por conta de algum jejum sagrado ou porque ela passara algumas noites na floresta caçando gnomos – sentíamos como se um pedaço nos faltasse.

            Seguimos assim por uma volta de lua.

            Uma tarde estávamos sentadas a margem do lago, eu ensinava a ela a magia da água, quando tudo o que conhecia estava prestes a desabar.

 

 

 

            O vento brincava sobre a relva verde do verão, e minhas pernas cruzadas se arrepiaram.

            Estava sentada na margem do Lago Sagrado, com Jasper a minha frente, sentada imóvel e de olhos fechados.

            Eu estava ensinando a arte de manipular uma grande massa de água, mas Jasper estava com muita dificuldade para aprender.

            - Não se distraia – disse sem abrir os olhos, sentindo o olhar dela sobre minha pele desnuda – Foque na fluidez da água.

            Senti o corpo dela se retesar ao ser pega de surpresa, e sorri levemente.

            - Você sempre sabe tudo? – ela perguntou indignada.

            - Foco Jasper.

            O vento mudou de direção, trazendo para mim seu cheiro peculiar de madeira e Jasper. Forcei minha concentração em manter as águas do lago imóveis, mesmo com o vento. Ela mexia profundamente com meu controle, mas eu nunca a deixaria perceber.

            - Não é tão fácil assim. – ela disse e senti que desistira de controlar o lago – Não é você que está tendo uma das visões mais lindas da sua vida.

            Abri os olhos imediatamente e olhei em volta. O que ela vira? Alguma fada rara? Ou um unicórneo?

            Mas tudo o que eu vi fora a margem comum do lago, verde e com flores desabrochando esporadicamente, e o sol forte que feriu meus olhos.

            - O que é? – perguntei para Jasper, que me olhava com um sorriso satisfeito e um misto de sentimentos nos olhos que eu nunca sabia identificar.

            Ela se aproximou lentamente de mim, roçando seu cabelo louro em minha face e me fazendo corar, me prensou no chão com seu corpo musculoso.

            Estava muito quente, e meu vestido era da mais leve seda de Avalon, e não possuía muito pano. Jasper vestia o mesmo tecido, só que se recusava a usar saia, afinal, segundo ela, fora obrigada a vida toda a usar um vestido, e não via a hora de se livrar das saias.

            Nossas peles entraram em contato e uma onda de choque percorreu meu corpo. Perdera o controle sobre o lago há muito tempo. Jasper envolveu meu rosto com sua mão imensa e eu fechei os olhos quando seus lábios tocaram os meus.

            Entrei em chamas instantaneamente. Agarrei seus cabelos e gemi quando ela apertou minha cintura com força. Ela sempre era bruta.

            A barca cortou a névoa encantada justo quando ela descia uma alça do meu vestido.

            Rolei de baixo de Jasper e me levantei em um pulo, alisando o vestido e correndo para o píer. Jasper me seguiu, carrancuda e resmungando.

            O Barqueiro não disse uma palavra, como sempre, mas trazia em sua barca um estranho soldado vestindo uma armadura enferrujada e manchada de sangue. O pobre homem apertava o flanco direito com força, mas o profundo ferimento era visível entre os dedos cobertos pela manopla de ferro.

            - Minha senhora... – ela balbuciou ao sair da barca, praticamente caindo sobre mim.

            Ele teria me esmagado se Jasper não tivesse o erguido e o apoiado com seus braços fortes.

            - Senhor, como chamas? – perguntei preocupada, nunca vira ninguém do mundo comum chamar a barca – O que o trazes a Avalon?

            O rapaz tossiu sangue e empalidecera.

            - Minha senhora, ordenaram-me a vir a Ilha Sagrada... – ele apertou o flanco e gemeu. Jasper o deitou no chão e coloquei sua cabeça sobre meu colo.

            Era o dever das sacerdotisas atuarem como o Grande Corvo, aquele que ceifa a vida. Deveria reconforta-lo em sua viagem ao outro mundo.

            - Eles ordenaram-me... Falar com Morgana... – sua voz sumia, mas seu desespero o compelia a falar – A guerra chegou a Caerleon, Arthur abandonou a corte, os saxões atracaram no litoral...Senhora...

            - Acalme-se, minha criança. – eu dissera e limpara o suor de sua testa com a barra de meu vestido – Estás em Avalon agora, ficarás bem...

            - Não – o soldado me interrompera e usara suas últimas forças para dar o recado que lhe fora ordenado – Avise a Senhora do Lago que lorde Orkney traiu o rei.

            O rapaz morrera em meus braços.

 

           

           

 

           

 

 

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...