História Sob a Luz da Lua - Capítulo 6


Escrita por: ~

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Categorias Steven Universe
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Não me matem amiguíneos <3

Capítulo 6 - Morrigan, a guerra


A tensão crescente era palpável em toda a ilha.

            O corpo do bravo soldado fora queimado há pouco, e todas as sacerdotisas de Avalon compartilhavam de um sentimento que era misto de tristeza e impotência. Eu principalmente. Não fora capaz de salvar o mensageiro, e mesmo que Morgana afirmasse que nem todas as ervas sagradas juntas da ilha o curariam, eu me sentia culpada, afinal, o homem morrera em meus braços.

            E para piorar, não vira Jasper desde quando o soldado fora levado para a preparação da cremação, e eu me corroía de preocupação com ela.

            Jasper era honrada e orgulhosa, e todas essas semanas na Ilha Sagrada não haviam apaziguado sua alma de guerreira.

            A terrível noticia de que sua família havia se voltado contra o rei que sempre foram fiéis destruíra a cavaleira. Morgana, mesmo mantendo uma expressão tão plácida quanto as águas do lago, estava completamente sem chão.

            A guerra contra os saxões – que invadiam nosso litoral e tentavam conquistar a Bretanha frequentemente – havia finalmente estourado, Arthur Pendragon, nosso rei, corria risco de vida e a magia da Deusa era cada vez mais repreendida pelos padres do mundo comum.

            Eu sovava uma massa de pão sem perceber meus movimentos, no centro do salão comum de madeira simples onde as sacerdotisas consumiam as refeições, acomodada em um canto perto da rústica lareira que estalava com o fogo que aquecia um imenso caldeirão que borbulhava com a sopa da noite.

            - Cuidado para não empelotar a massa, Lápis – Gwendoline sussurrara com a cabeça abaixada, enquanto ela mesma fazia a forma dos pães a serem assados com sua massa perfeitamente sovada, na bancada que dividíamos.

            Parei o que fazia e avaliei meu trabalho. As preocupações não permitiam que eu executasse com o mínimo de maestria exigido das sacerdotisas de Ceridwen a tarefa de sovar uma simples massa. Estava seca demais, empelotando a farinha e soltando pedaços em minhas mãos.

            Não adiantaria nada fazer o pão no estado que eu estava, serviria apenas para engasgar minhas irmãs.

            - Perdoe-me, Gwen – sussurrei e sentei-me em um banco perto do fogo, aconchegando-me em seu calor, enquanto a tempestade desabava do lado de fora.

            O tempo havia fechado subitamente assim que voltamos das margens do lago e contamos a Morgana o que ocorrera. Desconfiava que era apenas os elementos respondendo ao humor da Senhora de Avalon, mas também poderia ser a aura mórbida que envolvia a todas nós que causara a tempestade.

            E não saber onde Jasper estava, e com todo esse dilúvio desabando lá fora, me colocava doente de preocupação.

            Justo quando Gwen abrira a boca para me responder, as pesadas portas duplas de madeira do salão abriram-se subitamente, e um vento gelado entrou com algumas gotículas de água, junto de Morgana.

            A senhora trajava um vestido simples de lã vermelha, com os cabelos negros presos em uma trança que evidenciava seus olhos escuros e misteriosos. Como sempre, sua expressão não deixava transparecer nenhuma emoção.

            A porta fora fechada suavemente com um aceno de sua mão pequenina e ela caminhou austeramente pelo salão, fazendo com que as noviças que ali executavam suas tarefas se curvassem em delicadas reverencias. A senhora parara a nossa frente, e eu me levantara para curvar-me.

            Morgana me impedira com um gesto e eu petrificara. Ela não era adepta a nenhuma quebra de tradição, mesmo que fosse uma pequena como o ato de curvar-se à Senhora do Lago.

            Meus instintos se eriçaram.

            - Gwen, minha filha, deixe-nos. – Gwen manteve o olhar no chão e se afastara rapidamente.

            Eu circundara a mesa que me separava de Morgana, e parei em sua frente, com o coração aos pulos e suando frio.

            - O que houve, minha senhora? – meu sussurro doeu ao deixar a garganta seca, e eu deveria estar horrivelmente abatida.

            Morgana, parecendo subitamente imponente e lançando uma sombra alongada pelo salão iluminado por velas, cruzou as mãos na frente do vestido.

            A excitação das noviças estava começando a me contagiar, e senti-me ainda mais nervosa. Podia ouvir o sussurro velado das garotas, e até mesmo Gwen, uma das mais velhas e experientes das meninas, estava igualmente irrequieta.

            - Ela está esperando-a no píer das runas. – a voz de Morgana era calma e modulada.

            Não precisei perguntar quem era. Eu teria saído correndo se Morgana não tivesse me advertido a tempo.

            - Lembre-se, Lápis, que és uma sacerdotisa de Avalon, e deve servir a Deusa.

            Assenti, tremendo, não confiando em minha voz para responder Morgana.

            Com um gesto de sua mão, ela me liberara e eu voara pelo salão, rápida como uma gaivota, passando pelas minhas irmãs e saindo para a tempestade furiosa.

            A luz difusa do crepúsculo fora radicalmente diminuída pelas nuvens negras carregadas, a água gélida me açoitava meu corpo com violência e eu apertei o xale cinza em meu corpo.

            Meu cabelo voava com o vento enquanto eu parte corria e parte enfrentava a força da tempestade em direção ao píer. Um pressentimento péssimo tomava conta de minha alma, e eu andei mais rápido pela trilha de terra – que agora se transformara em barro, que manchara toda a barra de meu vestido claro.

            Eu a vi antes dela notar minha presença.

            Jasper estava de costas para a frondosa floresta que cercava a margem do lago, em pé sobre o antigo píer celta, parecendo-se mais com uma deusa guerreira do que com a garota que eu amava.

            Vestia a armadura dourada, e o machado atado às ancas. O cabelo louro preso firmemente em uma trança caía pelas costas, roçando seu quadril.

            Por que ela usaria a armadura? Meu lado racional se perguntara, embora minha intuição gritasse a resposta. Eu simplesmente não queria aceitar o futuro iminente.

            Aproximei-me delicadamente e me posicionei atrás dela, exausta.

            - Ainda me surpreende com sua chegada misteriosa.

            A voz dela estava dura feito pedra, e fria como a água que me açoitava o rosto. Ela não se virara.

            - Gostaria de ter tempo para acostumar-me.

            Sentia que minha respiração parara na garganta. Não suportaria aquilo por muito tempo.

            - Você não precisa ir. – consegui dizer depois de muito esforço, e senti as lágrimas quentes caírem de meus olhos.

            Ela finalmente se virara, e vi que ela segurava o elmo em sua mão. Ela já se decidira, e nada do que eu dissesse a demoveria de sua decisão.

            Os olhos dela estavam tão duros quanto sua postura, e me senti subitamente com mais frio.

            - Não, minha senhora, eu devo partir imediatamente. –ela dissera, e as brumas encantadas responderam a sua convocação, alastrando-se pela superfície do lago.

            Eu corri até ela e a abracei, apertando-me em sua fria armadura. Ela era muito maior que eu, então meu rosto ficara pressionado em seu abdômen musculoso, coberto de metal.

            Senti-a estremecer, mas ela não me envolvera com seus braços como fizera tantas vezes antes.

            - Leve-me com você –ouvi-me sussurrar –Eu poderei ajudar, sou uma sacerdotisa...

            Comecei a soluçar e a agarrei com mais força.

            - Lápis, isso é impossível – ela segurara meus ombros e tentara me separar dela, mas eu me agarrava a sua forma com todas as minhas forças – Eu vou para a guerra.

            - Controlo a água... Posso ajudar... – eu continuei balbuciando feito uma criança, sem dar ouvidos ao que ela dizia.

            Não poderia perdê-la! Eu a amava com todas as forças, não suportaria ver Jasper se arriscar na guerra.

            - Lápis... – ela sussurrara e envolvera meu rosto com suas mãos cobertas pela manopla. – Eu sempre vou ama-la.

            Eu sentia uma nova torrente de lágrimas deixarem meus olhos inchados quando ela tocara em meu colar com carinho.

            Ouvi o som suave da barca deslizar pelas águas, e fechei meus olhos, implorando pela última vez.

            - Jasper, leve-me com você.

            Senti os lábios frios dela serem pressionados aos meus, e por um momento tive a esperança de que ela mudara de ideia. Mas no instante que seu toque se fora, ela também se fora de perto de mim.

            Quando abri meus olhos, vi sua sombra austera adentrar nas brumas, e o único som que se ouvira no Lago Sagrado fora meu pranto.

 

 

 

 

            - Oh! Ele chutou!

            As meninas se inclinaram e tocaram avidamente a barriga de Rose, que sorria lindamente.

            Raven tocou meus ombros e sorriu timidamente, e eu correspondi apenas com um erguer do canto da boca.

            Estávamos todas nós – Gwen, Raven, Katrina e eu – fiando na sala das rocas, e Rose costurava roupinhas de bebê.

            - Aqui – disse Raven, pousando uma bandeja de madeira repleta de romãs na mesa rústica no centro da sala.

            Rose atacara quase que imediatamente as frutas, desequilibrando-se por conta da barriga imensa de sete meses.

            Já fazia algum tempo desde que Jasper partira, e a vida seguira normal na sagrada ilha de Avalon. As luas mudaram, as vidas concebidas em Beltane desabrochavam e a Bretanha se tornara um caos.

            Os saxões controlavam agora a maior parte das estradas, e seu poder só aumentava com a ajuda de lorde Orkney, que traíra o rei sobre a promessa de comandar um próprio reino quando o Pendragon caísse.

            As poucas forças do rei que persistiam sofriam horríveis baixas, mas a notícia de que a terrível filhe do lorde traidor lutava ao lado do rei chegara até nós.

            E eu rezava todo dia – tanto que meus joelhos adquiriram feridas – para que Jasper fosse protegida.

            Eu sabia que ela era poderosa, e tinha a magia da Deusa a seu lado, mas era impossível sufocar o sentimento de terror ao imagina-la na guerra.

            Morgana havia enviado seu filho Mordred – que crescera com os druidas no condado de Terraverde – para auxiliar Arthur na guerra.

            Todas nós sabíamos que nossa religião – já ameaçada com o cristianismo – seria extinta se os saxões dominassem a Bretanha. Nossa única defesa seria afundar Avalon nas brumas encantadas, retirando completamente nosso mundo da realidade humana, e adentrando no mundo das fadas.

            Mas essas preocupações raramente ocupavam meus pensamentos.

            Eu tentara ver Jasper pelo espelho de Draguta, mas Morgana nunca mais permitira que nenhuma de nós utilizasse o espelho para ver o mundo comum. Era um sinal de que as coisas estavam realmente sérias.

            - Ela realmente disse isso? – fui trazida de volta a realidade pelo sussurro atormentado de Katrina.

            As garotas estavam subitamente sérias demais, e Rose era a mais sucinta de todas.

                - Sim – ela sussurrou, abraçando protetoramente o ventre inchado.

            Eu perdera a maior parte da conversa, e achei melhor não perguntar nada e apenas escutar, então me aproximei delas e sente-me aos pés de Raven, de frente para Roseline.

            - E você? O que respondeu? – a voz de Raven estava contida, mas todas ouvimos o medo velado por trás do tom calmo.

            - Ora – Rose se sobressaltara – Mesmo ela sendo a rainha das fadas, não pode ter tudo o que quer. Eu disse que ficaria em Avalon, e nunca me uniria a sua corte, ainda mais com meu bebê.

            Pelo que eu entendera da conversa, aparentemente a rainha Pérola chamara Rose para viver no mundo encantado. Não seria a primeira nem última humana a ser convocada pela rainha das fadas, e Pérola não desistia de algo que queria.

            - Ela não vai desistir tão facilmente – eu disse a Rose.

            Ela olhara para o chão de terra e estremecera.

            - Eu sei. – sussurrara tão fracamente que nós quase não escutamos.

            Naquele mesmo dia, na hora do crepúsculo, eu estava sentada sozinha na mesma pedra onde beijara Jasper pela primeira vez.

            Eu havia me distanciado de minhas irmãs, e recolhi-me completamente dentro de mim. Fazia o que deveria fazer, e nunca deixei de servir a Deusa, mas nunca mais voltara a ser a mesma Lápis-lazuli.

            A falta de Jasper era como uma dor física, sempre presente e aguda. Eu aprendera a conviver com aquela dor, mas nunca pudera esquecê-la.

            O fato de estar proibida de ter um simples vislumbre dela pelo espelho era horrível. Afinal, eu poderia apaziguar aquela dor pelo menos um pouco, mas até isso me fora negado.

            Eu estava tão sozinha. As noviças faziam agora algum jejum preparatório, minhas amigas estavam em algum canto executando suas tarefas e Morgana partira durante a noite, sem deixar nenhuma explicação.

            Levantei-me imediatamente com um pulo. Eu estava sozinha. Ninguém me impediria caso resolvesse dar uma olhada no espelho!

            Corri pela trilha, passando pela vila e mal olhando ao meu redor. Se alguém percebera aonde eu ia, não falara nada para objetar.

            Entrei na floresta escura e logo pude sentir a magia pesada em volta do espelho.

            Aproximei-me levemente, com o coração aos pulos, e me ajoelhei na beira da água perfeitamente lisa.

            Fechei os olhos e enviei uma prece a Deusa.

            Quando olhei para o lago novamente, um turbilhão de luz me arrastara e eu me encontrei subitamente de pé no meio de um campo cheio de capim pisoteado.

            O dourado da planta fora transformado em um marrom sujo e estranho, e o céu estava cinza, com o som profundo de trovões ribombando ao longe.

            Que estranho, pensei, Pedi uma visão de Jasper...

            Girei meu corpo, a procura de minha amada, quando uma visão me petrificara.

            Não muito longe de mim, caída no capim e segurando o braço que sangrava horrivelmente, Jasper estava lutando com um saxão imenso e selvagem.

            Sua armadura dourada estava manchada de sangue, e o líquido escorria vermelho e viscoso por dentro da armadura de seu braço esquerdo. Graças a Deusa, ela lutava com o direito.

            Ela se erguera e com um grito gutural chocara seu machado com a espada do saxão.

            Eu assisti, em espírito, ela lutar com o soldado inimigo.

            Jasper era boa demais, e estava quase derrotando o guerreiro quando um homem muito parecido com ela surgiu atrás de si.

            Ele era louro, com os mesmos olhos dourados dela, mas infinitamente menor, tanto em altura quanto em músculos.

            O saxão havia finalmente caído, ela sobrevivera a batalha, e pude ter esperança de que em breve ela retornaria a mim.

            O homem que se aproximara erguera uma faca em suas mãos, e eu observei horrorizada enquanto ele prendia Jasper com os braços e colocava a faca em sua garganta.

            Eu corri para ela, tentando ao máximo tirar o homem e faca de cima dela, mas todas as minhas tentativas foram em vão.

            Meu corpo era pura névoa, e atravessava a carne e ferro quando eu tentava toca-los.

            Ele sussurrou algo no ouvido de Jasper, e ela grunhiu e tentou se livrar, mas o homem havia imobilizado-a muito bem.

            Eu chorei e puxei, mas foi em vão.

            Quando ele pressionara a faca na garganta dela, eu gritara e caíra no chão.

           

 

 

 

 

            Estava de volta ao espelho.

            Não sei quanto tempo eu ficara deitada e encolhida feito um animal no chão da floresta, mas fora o suficiente para organizar meus pensamentos.

            O espelho mostrava uma possibilidade do que poderia acontecer no futuro, então o que vira poderia muito bem não se concretizar.

            Se a visão realmente se cumprisse – algo que eu estava decidida a impedir – Jasper não deixaria este mundo sozinha. Eu a acompanharia ao Outro Lado, e juntas poderíamos começar uma nova vida pela Roda das Encarnações.

            Mas, antes que eu tomasse qualquer ação precipitada, eu protegeria minha amada com a magia mais poderosa que eu conhecia.



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