História Sobre a corda bamba. - Capítulo 1


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Personagens Personagens Originais
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Poesias
Avisos: Drogas, Mutilação, Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Lamento.


Fanfic / Fanfiction Sobre a corda bamba. - Capítulo 1 - Lamento.

"Sentada em uma cadeira de madeira que peguei emprestada da cozinha da minha avó, olho a chuva cair através do vidro grosso. Meus braços estão cansados, meu corpo dói. Existem olheiras abaixo de meus olhos. Estou com aquele vestido que a minha mãe me deu no meu aniversário de 13 anos. Aquele que você detesta só porque não vai até os meus joelhos. Na verdade, agora nem chega a tapar metade das minhas cochas. 

Lembro perfeitamente de quando a mamãe me esticou o pacote de presente e eu, eufórica para saber o que ela tinha comprado, nem coloquei sobre a mesa. Você riu do jeito apressado com que eu tentava rasgar aquele papel laminado vermelho. Lembro que fiquei brava contigo. Eu não estava conseguindo abri-lo. Por que ninguém me ajudava?

Todos os convidados riram. Naquela época, eu tinha uma preocupação muito grande com o que os outros pensavam de mim e logo me encolhi. Senti uma enorme vergonha durante toda aquela noite. Quando estava perto da hora de dormir, você me chamou para sentar do seu lado do lado de fora de casa. Aquele banco de pedra continua lá. Os meus avós tinham planos para fazer uma horta e precisariam retirá-lo, mas eu não consegui deixar. A vó ficou chateada e meu coração dói ao lembrar do tom de voz que usei com ela.

Ela não precisava estar passando por isso. Ninguém precisava.

Eu poderia ter permitido, mas não sentia que era a coisa certa. Dentro do meu coração, era como se uma parte de você permanecesse ali. Foi só o assunto surgir na mesa de almoço para que sentisse uma tontura muito grande. O vovô ficou preocupado comigo. Na verdade, o vovô e a vovó. Eles perguntaram o que estava acontecendo, mas eu não consegui contar.

Um bom tempo se passou desde que você foi embora. Eu ainda não consigo aceitar. Todas as vezes que olho para o céu estrelado, lembro das noites em que nós corríamos pela casa apenas para fugir da hora de dormir. Lembra do quanto que a mamãe ficava furiosa? Porém, você sempre estava lá comigo.

Depois, começaram os medicamentos... Malditos medicamentos. Se não fosse por eles, talvez tudo fosse diferente. Você não tem noção do quanto eu queria conversar contigo sobre essas coisas, mas não queria te ouvir dizer que devemos aceitar as consequências dos nossos atos. Você sabe o que eu penso sobre o “destino”.

Apenas estou dizendo que “aquilo” não era necessário.

A chuva está realmente muito forte. Lembra de quando o Pablo posou em casa pela primeira vez? Ele não conseguia ir até o banheiro sozinho e você teve que ir junto todas as 5 vezes. Pelo menos deu para perceber que os rins dele funcionavam muito bem (ou que a bexiga dele não consegue conter líquido por muito tempo).

A gente se divertia tanto... Nos dávamos tão bem. Tínhamos uma sintonia perfeita, mas você teve que arruinar tudo.

Por que fez isso?

Eu não consigo te entender. Até hoje não consigo! Por que teve que ser assim?

Você sabia... Sabia que a mamãe só tinha eu e você. Por quê? Se tivesse deixado alguma carta, seria menos doloroso do que acordar no dia seguinte e ver que você não estava lá, do meu lado.

Você me deu um beijo na testa enquanto puxava a coberta até os meus ombros. Você disse que me amava mais que tudo e que sempre estaria lá. Então por quê? Eu sei que era difícil, mas eu estava contigo! Nós estávamos, mas mesmo assim você foi...

Todas as noites eu choro. Não aguento mais ficar dentro dessa casa. Depois que você foi embora, a mãe adoeceu muito. Foi questão de 2 meses para que ela se fosse também, no mesmo quarto, na mesma cama, na mesma posição.

Meu estômago embrulha todas as vezes que preciso passar pela frente daquela porta. Eu queria tanto poder me mudar daqui, mas não posso. Eu não consigo nem ficar de pé sozinha.

Como a vida pode ser tão injusta? Você, que sempre tinha um sorriso no rosto, terminar de uma forma tão trágica... Eu não consigo aceitar! Éramos como unha e carne. Acho que me apeguei mais do que devia em você. Depois que a mãe morreu, perdi as forças.

Acabei adoecendo também. Se não fosse pela vó e o vô, provavelmente eu nem estaria aqui. Tive uma crise de choro muito forte quando vi que ela não estava mais ali comigo. Eu segurava na mão dela, tremendo. Nunca fiquei tão gelada em toda a minha vida.

Eu não fui o suficiente.

A vó e o vô saíram faz pouco tempo para fazer o rancho desse mês. Eles nem se despediram de mim. Acabei de ver o fuca antigo deles saindo da garagem. Fico surpresa com a vitalidade deles. Com mais de 70 anos, eu acho que nem levantaria da cama para tomar banho direito, mas eles vão de um lado para o outro, sempre juntos. Assim como nós éramos.

Estou com frio. Essa casa de madeira já está precisando de uma boa reforma. As paredes estão com cupim. A aparência não é muito boa, mas o piso continua bem lustrado. Sabe como a nossa vó é em questão de limpeza. Ela me lembra o seu jeito perfeccionista e até um pouco neurótico de enxergar sujeira até onde não tem.

A mãe também tinha esse jeito...

Sabe... faz muito tempo que ninguém entra naquele quarto. Não aquele que eu mencionei nessa mensagem. Estou falando do “local proibido”. Sim. Esse quarto.

Nem consigo acreditar que o proibiram por algo tão, desculpe a expressão, bobo. Eu sei o quanto que você acreditava em tudo o que falavam, mas a verdade é que nunca fui uma pessoa muito religiosa. Admito que debochava das suas crenças de uma forma desnecessária. Na minha cabeça, eu estava só brincando. Não imaginava o que tudo aquilo poderia acarretar.

Hoje, tenho medo. Bem que a mãe vivia dizendo que quando eu tomasse um susto, pararia de falar tanta besteira. Só que às vezes me pergunto se o que houve não foi um exagero.

Eu não consigo suportar mais. Eu te fiz uma promessa, naquela noite, antes de você cortar a própria garganta e morrer por perda excessiva de sangue, que eu não iria desistir. Eu te prometi que seria forte. Prometi que cuidaria da mãe, mas ela nem ao menos sobreviveu depois que te perdeu. Eu não sobrevivi.

Os mesmos medicamentos que faziam a mãe delirar, foram os mesmos que a mataram aos poucos. Eu não pude fazer nada. Não consegui salvar você e nem ela. O pior de tudo, como já disse, eu não pude mudar de casa. Parece que tem algo me puxando aqui para dentro. Eu não duvido que eu tenha o mesmo problema que a mãe.

Será que você não tinha? Você nunca me contou nada. A gente poderia ter se ajudado, mas você se foi, apenas deixando o seu celular do lado do travesseiro. Não havia foto alguma, muito menos histórico de pesquisa ou qualquer conversa. Você planejou tudo.

Levantar, todos os dias, é uma dor muito grande. Não consigo me abrir com os nossos avós. Faz 2 meses que senti uma dor muito grande no meu estômago e precisei ir para o hospital. Eu estou com câncer. Perdi todo o meu cabelo. Sou uma mulher de 23 anos, careca, esquelética, desempregada, sem terminar o ensino médio e com suspeita de esquizofrenia. Eu estou muito cansada.

Desculpe, irmã... Desculpe, mas não vou conseguir cumprir a promessa que te fiz. As vozes na minha cabeça estão me enlouquecendo. A dor é forte demais.

Eu quero encontrar você e a mãe, mas não sei se vou para o mesmo lugar que estão. Perdoe-me.

Quem sabe se eu não tivesse brincado com aquele tabuleiro e nem fizesse aquele desafio estúpido apenas para te provar que eu não tinha medo algum -esse orgulho idiota-, talvez nada disso estaria acontecendo. Eu não sei mais no que acreditar, mas me arrependo grandemente por tudo o que fiz.

Sei que não vai ler essa mensagem, mas é como se você fosse, a qualquer momento, visualizar e me responder no mesmo segundo, como nos velhos tempos. Obrigada por tudo e, inclusive, por não queimar o seu celular como fez com o resto das coisas. Ele está embaixo do meu travesseiro. Deixei ele lá durante todo esse tempo. Conseguia dormir mais tranquila sabendo da presença dele. Até agora.

Desculpe, mãe.

Desculpe, irmã.

Vô e vó, sejam fortes. Eu amo muito vocês e muito obrigada por tudo o que fizeram por mim. Vocês não tem culpa de nada. Nunca tiveram. Eu que sempre estive sobre a corda bamba."

 



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