História Sobre garotos e monstros... - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Kai, Sehun
Tags Sekai
Visualizações 1.764
Palavras 2.641
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Boa tarde domingueira, menininhos e menininhas...
Estava órfã de uma história de sábado após o final de MACHO MAN, estava bloqueada com as demais histórias, e então... surgiu SOBRE GAROTOS E MONSTROS...
Espero que gostem. Eu certamente estou apaixonada por ela. hauhaua

Capítulo 1 - Vermelho como o Inferno


 

Tomorrow is another day

And you won't have to hide away

You'll be a man, boy !

But for now it's time to run,

it's time to run

[Woodkid – Run boy run]

 

Os risos combinados ecoam pela rua vazia enquanto os pés ágeis voam pelo asfalto pisando papéis de propaganda, migalhas de pão e folhas douradas que caem das árvores veranescas a cada segundo. O sol inclemente doura a pele amorenada do garoto que corre à frente e avermelha a pele pálida daquele que o segue com o riso triangular nos lábios e uma sacola de papel segura nas mãos. Contrariamente a cada habitante desta cidade extremamente quente que se esconde dentro de casa e hidrata seus corpos com jarras e jarras de limonada gelada, Jongin e Sehun enfrentam as condições climáticas adversas e o desconforto parece nem mesmo existir pelo simples fato de estarem juntos.

Neste dia de verão, nesta cidade sulista, interiorana e pantanosa, eles correm, entretidos como estão em suas próprias brincadeiras e sem atinar para as engrenagens de um Destino indiferente que apenas segue seu curso. As pernas jovens saltam as poças de água estagnada que sempre parecem surgir nas ruas desta cidade pequena e atravessam a rua sem se preocupar em olhar dos lados para ver se há algum carro. Não há nenhum. Não em Liberty City.

- Corre, Jong! Corre! – o garoto da pele avermelhada grita, feliz, e o amigo apenas estende a mão em um aceno rápido enveredando para a fachada decrépita de um velho teatro. Com alguns passos a mais, estão ambos à sombra cheia de frestas da marquise antiga que ameaça desabar a cada tempestade que cai sobre a cidade. Jongin apoia as mãos nos joelhos e abaixa a cabeça respirando com certa dificuldade e Sehun passa o braço sobre os ombros do amigo, tão ou mais cansado que ele.

Cuidadosamente iniciam a subida à escadaria vacilante e cheia de buracos, o único caminho ao lugar que eles elegeram como favorito. Eventualmente se imobilizam ao ouvir um guincho particularmente alto de algum animal que vive naquela escuridão úmida, e Jongin estremece com a simples possibilidade de ali haver ratos, afinal, além do óbvio nojo não poderia nem mesmo cogitar matar algum. Ratos eram grandes demais e chegavam até mesmo a ser bonitinhos. Não poderia matar um animalzinho que não tinha culpa de ser nojento. E também não deixaria Sehun matar.

- Não se preocupe, Jong. Eles devem estar com medo da gente também. – Sehun murmura para o amigo ciente como está do pavor do outro. Quase que imediatamente, a tensão no corpo de Jongin se desfaz. As palavras de Sehun são uma espécie de lei. De qualquer forma, é a única lei que importa.

Tateando as paredes estreitas e cobertas por teias de aranhas, os dois garotos finalmente chegam aonde desejam. O calor volta a chocar-se contra as peles úmidas, mas eles não se importam ocupados como estão em não pisar em falso.Segurando a sacola de papel, Sehun dá a mão a Jongin e este a segura com confiança. O primeiro o guia pelas tábuas soltas que rangem e reclamam a cada passo que dão e finalmente chegam ao palco semi destruído. Sentam-se na beirada sem se importar com a camada de poeira que lhes suja os shorts e as barras das camisetas.

- Qual é a história daquele lá, Sehunnie? – Jongin indica um cartaz amarelado que há anos se imobilizou entre os suportes do teto e o chão e que agora mostra apenas metade da figura fulgurante do Fantasma da Ópera. Este momento é um dos favoritos de Jongin, é onde Sehun dá vazão á sua imaginação vasta e cria mundos apenas para o deleite do melhor amigo.

- Aquele maluco ali? – o garoto da pele avermelhada questiona, um meio sorriso adornando o rosto que começa gradativamente a perder os contornos da infância. –Aquele cara foi um conde mascarado que morava aqui em Liberty, Jong. Nunca te contei essa?

E pelas duas horas seguintes, Jongin arregala os olhos ante as peripécias do ser mascarado que se recusa a sentir calor e que com um botão mágico sob a máscara consegue fazer com que caia neve apenas sobre a própria cidade.

Sehun se empolga com a luz que se acende nos olhos de Jongin e até mesmo se levanta para encenar as partes mais importantes. Não pensa sobre o assunto, mas é uma verdade incontestável que faria qualquer coisa por Jongin. Qualquer coisa. Qualquer coisa por este garoto do sorriso largo e inocente que ama suas histórias, que coleciona fotos de cachorros e que tem medo de ratos.

Ao final, as palmas solitárias e aquele riso de puro contentamento são mais eficazes que uma plateia lotada e Sehun sente-se como um ator em noite de estreia. Volta a sentar ao lado de Jongin e abre o saco de papel retirando de dentro dele um pacotinho ainda lacrado de figurinhas para colar no álbum do Harry Potter.

- Tomara que desta vez venha dois Dracos Malfoy. Um pra você e outro pra mim. – Jongin murmura, o pescoço esticando-se até que seu queixo fique recostado contra o ombro magro de Sehun.

Sehun limpa os dedos sujos na camiseta e começa a abrir cuidadosamente o pacotinho. Coloca até a ponta da língua para fora da boca como se isso tivesse o poder de manter sua mão firme.

Não há dois Dracos Malfoy. Há apenas um e Jongin solta um suspiro de frustração. Sehun segura a imagem nas mãos e pensa por alguns segundos que seria realmente legal se aquele mini-Draco se movesse como se estivesse em uma revista mágica, mas logo a pressão do queixo de Jongin o faz erguer a mão até que aquela preciosidade fique à frente dos olhos do amigo.

- Toma. Esta é sua. – fala virando-se para fitar os olhos pretos que agora estão arregalados. Como Jongin não faz menção de pegar a figurinha coloca-a em suas mãos quentes e sorri.

- Não precisa, Sehun. É sua.

- Quero que fique com você... é meu presente de aniversário pra você.

Jongin hesita apenas alguns segundos antes de pousar os lábios na pele úmida da bochecha de seu melhor amigo e Sehun quase se esquiva ao sentir aquela onda de calor que sobe de algum ponto de sua barriga e explode em seu rosto. Há alguns meses que as coisas entre eles têm mudado quase que imperceptivelmente. Os toques de suas mãos, de suas peles tem se tornado mais frequentes e eles evitam pensar sobre o assunto. Estão com doze anos, o mundo começa a dar indícios de ser mais complicado do que era há apenas um ano, mas, de alguma forma tudo parece funcionar quando estão juntos.

Em Sehun esta complicação se mostra quando sente a frustração por estar longe de Jongin, por sentir falta do brilho dos olhos escuros, do sorriso largo de dentes regulares e brancos, do contraste maravilhoso que os cabelos lisos fazem ao tocar o canto dos olhos e o inicio da bochecha morena. Jongin é lindo. Jongin é “magnífico” (e ele nem mesmo sabe ao certo o que significa esta palavra, só pode inferir seu significado e sentir que ela corresponde aos seus sentimentos).

Em Jongin a complicação vem mais serena porque Jongin é serenidade. Inconscientemente, ele aceita tudo o que vem de Sehun e sobre Sehun, não se importa em pensar com mais frequência no amigo, nem mesmo nota que está pensando nele com mais frequência... Quando sonha alguma coisa estranha, quando encontra algum artefato diferente em seu caminho nas raras vezes em que anda sozinho... a primeira pessoa para quem corre a contar a novidade, é Sehun. Jongin não perde tempo pensando na complicação mesmo porque ainda tem pensamentos de criança, mas... para ele, é apenas natural querer, buscar e ter Sehun.

- Eu quero guardar. – olha para Sehun com seriedade e o amigo ergue as sobrancelhas. – Quero que seja meu e seu.

- Tem certeza, Jong? Você não precisa se não quiser.

Jongin não responde, apenas acena com a cabeça. Ele tem certeza.

De um pulo eles já estão em pé e em direção ao fundo do palco onde está a escada estreita e embolorada que leva a uma salinha que um dia provavelmente serviu como uma daquelas pontes elevadas de onde os atores saltavam no meio das peças. Mantendo-se cuidadosos, eles descem e caminham com segurança até as fundações de madeira do palco onde, em um nicho perfeitamente secreto eles guardam seus maiores tesouros.

Sendo o mais alto, Jongin se coloca nas pontas dos pés e esticando os dedos, arrasta para si a caixinha de lata que um dia guardou um panetone de Natal que a mãe ganhou do patrão. Eles ficam alguns minutos apreciando o desenho bonito, uma casinha no meio da neve (e eles imaginam qual seria a sensação de morar em um lugar frio), guirlandas coloridas penduradas em pinheiros verdes e um gorducho e saudável Papai Noel segurando um saco de brinquedos.

- Um dia nós vamos morar em um lugar desses, Jong. – Sehun murmura o que seria seu primeiro plano para o futuro. E é apenas natural que seu futuro comece com Jongin.

- No Natal nós vamos colocar luzes coloridas nos pinheiros. – o garoto moreno concorda enquanto passa a ponta dos dedos pela imagem de sonho. – E vamos comer pipocas, e doces, e um monte de panetone...

- Sim. – Sehun o abraça pelos ombros enquanto aquela sensação esquisita volta a tomar seu corpo. Uma espécie de ansiedade, de vontade de algo...

Sem notar o que se passa com o amigo, Jongin abre cuidadosamente a tampa da lata e a entrega aos dedos trêmulos de Sehun. Mais uma vez, olham com carinho para suas preciosidades... um carrinho vermelho e sem roda que ganharam dos garotos da rua em uma competição, um saquinho com as burquinhas mais raras que puderam encontrar no mercadinho da cidade, um maço de cigarros que nunca cogitaram fumar, uma folha de propaganda de Singin’ in the Rain que encontraram neste velho teatro e que mostra uma foto de Gene Kelly com seu sorriso gigante convidando a todos os habitantes de Liberty City para assistirem ao filme nos cinemas. E agora... um Draco Malfoy.

Jongin deixa a figurinha cair sobre os outros tesouros cuidadosamente e inclina a lata em direção a Sehun deixando que o amigo coloque a tampa. Os dedos se tocam  processo e mesmo que o braço de Sehun ainda esteja nos ombros de Jongin, este toque é diferente... Jongin sente o tremor do corpo magro ao lado do seu e ergue os olhos encontrando os dele. Presos neste lugar impreciso entre a infância e a adolescência, eles não sabem ao certo o que fazer, o que pensar, ou qual é a natureza de seus sentimentos... de qualquer forma, trêmulos, ansiosos, inocentes... eles se inclinam um para o outro e no calor aterrador desta cidade pantanosa, deixam que os lábios se toquem em um beijo que é mais como um selar ingênuo vindo da necessidade, que outra coisa qualquer.

A mão de Sehun se move do ombro do amigo e os dedos pálidos tocam-lhe a face morna. Existem palavras em sua cabeça que a boca ainda não sabe pronunciar. Sorri para Jongin e há timidez e amor em seu sorriso. Neste momento, eles têm certeza absoluta de que nada nem ninguém ficará em seu caminho para aquela casinha no meio da neve... a única coisa que precisam fazer é arrumar uma bolsa, colocar um pouco de doces nela e também aquela lata de memórias e irem pelo caminho que os levará para fora desta cidade estagnada.

Eles quase verbalizam esta ideia, mas lá fora, a luz do dia começa a minguar e eles sabem que a qualquer momento os garotos maiores podem chegar para utilizarem o teatro como local de festas e eles tem que voltar para casa.

Com os dedos entrelaçados, eles sobem a escadinha e atravessam o palco. Descem a outra escada vacilante e logo estão na rua. O céu está da cor de um vermelho fogo e parece uma daquelas pinturas da Igreja que mostram o Inferno... Futuramente, Jongin se lembrará deste céu como aquele céu maldito do dia em que Sehun desapareceu... sentirá um arrepio profundo de medo e dor, uma dor que será tão forte que o fará se curvar sobre seu próprio corpo, e sentirá vontade de berrar, de sair correndo, de se extinguir para que tudo acabe e ele não sinta mais nada.

Quando chegam ao ponto no qual sempre se separam, aquela encruzilhada onde dizem que se fazem pactos com demônios, os dois sorriem um para o outro. Estão acalorados, estão sujos e há teias de aranhas em seus cabelos, mas... há alguma coisa nova, alguma coisa que é linda demais, preciosa demais e que deu um sentido totalmente diverso às suas vidas...

- Até amanhã, Jong. – Sehun murmura sem querer se despedir. Captura mais uma vez os dedos do amigo entre os seus e os aperta. Cora ligeiramente com sua ousadia, mas Jongin está lhe sorrindo e nada mais importa.

- Até amanhã. – o garoto da pele morena responde. Está tranquilo, está imerso na felicidade serena que é Sehun.

Sehun lhe vira as costas e Jongin se lembrará para sempre desta ultima imagem de seu melhor amigo e único amor indo embora. Sehun recortado contra o céu de fogo, uma silhueta pequena e magra que para ele significa todo o universo. O amigo se volta mais uma vez para lhe acenar...

É a última vez que Jongin o vê em muitos anos...

__

No dia seguinte, Jongin se levanta da cama e coloca os pés nus no chão que mesmo a esta hora já está quente. Coça os olhos sonolentos, passa os dedos pelos cabelos e se dirige ao banheiro. Antes que alcance a porta, se depara com a figura da mãe, a barriga proeminente pela gravidez, sentada em uma das três cadeiras da cozinha pobre, os olhos vermelhos, as mãos se apertando uma contra a outra e Jongin sente um arrepio que faz com que os pelos de seus braços se tornem eretos como mínimos fios de arame.

- O que aconteceu, mamãe? – se aproxima da mulher que nada responde, apenas estende os braços e o arrebata em umabraço estreito demais.

“Sehun”. É o primeiro e único pensamento de Jongin antes de sentir sua garganta se fechar com algo que parece dor.

Ele tenta se afastar dos braços maternos, mas a mulher apenas o estreita mais. Teme que a dor do filho vá aniquilá-lo e vai fazê-lo escorrer por entre seus braços. O garoto se esforça e ela o olha nos olhos... olhos escuros que já estão arregalados de pavor.

- Meu amor... o... Sehun... ele desapareceu.

__

Sehun desapareceu na quase-noite do dia em que beijou Jongin pela primeira vez. Quando atravessava os campos de cana à beira do pântano em direção à sua casa afastada, alguém o pegou nos braços. Seus membros fracos, excessivamente magros foram facilmente subjugados pela força do monstro humano.

A última coisa que ele pensou foi que era muito bom que Jongin não estivesse com ele.

__

Nas semanas que se seguiram ao desaparecimento de Sehun, Jongin alternou os períodos de delírio vindos da febre alta que o acometeu, com as longas caminhadas no calor absoluto para pregar as fotos de Sehun pela cidade.O garoto da pele morena e olhar avermelhado se tornou conhecido e vítima de pena popular... o que pouco ajudou na busca por Sehun.

Ninguém sabia. Ninguém tinha visto. Sehun desaparecera no ar.

Preso na dor absoluta, o nascimento de sua irmãzinha passou despercebido. Ao olhar nos olhos daquela criaturinha enrugada e vermelha, Jongin chorou. Sehun não estaria ali para vê-la.

A casinha de pinheiros, luzes e neve se afastava cada vez mais no horizonte.

__

E os anos se passaram.

_

Seis anos.

 


Notas Finais




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