História Sobre garotos e monstros... - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Kai, Sehun
Tags Sekai
Visualizações 1.035
Palavras 2.519
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Olá, suas belezas! <3

Nem preciso dizer que este titulo de capítulo é uma referência ao meu sacro-santo Harry Potter, neah? Intão!

Capítulo 2 - O Menino Que Sobreviveu


 

Liberty City continua quente como se fosse o Inferno. As ruas perpetuamente úmidas soltam um bafo pegajoso com suas volutas de fumaça escapando das rachaduras no asfalto e envolvendo as pernas dos habitantes criando a impressão de se estar caminhando na névoa. Uma névoa malditamente quente. O pântano que cerca a cidade continua a expelir seu cheiro estagnado de folhas podres e carcaças de animais mortos, e os canaviais de onde Oh Sehun foi levado, ainda cantam com o vento quente e ocasional que passa entre suas folhas.

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Kim Jongin agora tem dezoito anos. Há um ano ele terminou o Ensino Médio na escola local e devido às suas boas notas foi recomendado para uma Universidade que o aceitou prontamente dizendo que seria uma honra recebe-lo. Ele não foi. Deu a desculpa de que a irmã caçula precisava dele, mas... todos sabiam, a razão era outra.

Ele não queria sair da cidade...

Não quer sair da cidade.

Se aos doze anos ele podia ser visto correndo à frente daquele menino de pele avermelhada pelas ruas de Liberty City, anônimo com seu sorriso magnífico e pele brilhante pelo suor, agora ele era conhecido como O Garoto Que Não Perdeu a Fé. Cada olhar na cidade o fita com uma espécie de pena ao ver seus esforços por aquele garoto perdido que, além da própria mãe, ninguém mais se lembra direito. O caso Oh Sehun entrou já há alguns anos em uma daquelas pastinhas de Casos Insolucionáveis que todo município, por mais pequeno que seja, tem e a polícia local chegou até mesmo a se irritar com o rapaz moreno que toda semana estaciona a bicicleta enferrujada contra a parede e vem lhes pedir informação. Eles não têm informação. Eles sequer se lembram direito de Oh Sehun e só não se esquecem completamente de seu rosto porque este rapaz, Kim Jongin, anda pelas poucas ruas da cidade com seu retrato, pregando-o em qualquer espaço disponível. Toda semana.

Kim Jongin lhes lembra diariamente de seu fracasso.

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Sehun havia se tornado a obsessão de Jongin. Há dois anos tentara se esquecer daquele garoto magro que fora, era, seu primeiro amor, mas não fora possível. Sehun se tornara parte de si, Sehun encarnara todos os seus sonhos e fugira com eles deixando Jongin vazio. Quando a mãe lhe perguntava se queria algo da vida, a resposta era imediata: Sehun. Queria Sehun. Nada mais. Ninguém mais. Se tivesse Sehun poderia começar a querer outras coisas, mas... sem ele... não havia nada.

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O policial se chamava Moreira. Ele provavelmente tinha um primeiro nome, mas quando se apresentou à mãe de um garoto desaparecido, disse que era Oficial Moreira e como Oficial Moreira ficou conhecido.

Se havia uma coisa que perturbava o policial em seus muitos anos servindo à Lei era aqueles casos de desaparecimento que haviam acontecido em Liberty City no final dos anos 90. Se tinha algo que ele se repugnava era com injustiças cometidas contra crianças. O pensamento de que muitos daqueles garotos poderiam ter acabado estuprados no canavial, os corpos frágeis lançados naquele pântano imundo (que mesmo tendo sido revirado nada tinha sido encontrado), suas carnes podendo ter sido digeridas pelo estômago poderoso dos crocodilos que viviam preguiçosamente em suas margens... esse pensamento sombrio o deixava passar  muitas noites em claro, atormentado.

Pesquisou exaustivamente os documentos, procurou evidências até mesmo nos lugares mais improváveis, caminhou e analisou cada recanto daquele pântano e daqueles canaviais, entrevistou cada habitante da pequena cidade e, por fim, acabou declarando sua incompetência em cuidar daquele caso.

E havia Kim Jongin.

Não se sentia confortável perto de Jongin e de seus olhos ternos de quem sofria em silêncio e sem perder as esperanças. Nunca, em todos os seus anos de trabalho, conhecera alguém com tamanho otimismo. Nem mesmo os próprios pais das crianças desaparecidas conseguiam se manter tantos anos com aquele empenho em achar suas crias, mas... Jongin... ah, Jongin era incansável.

O caso dos garotos desaparecidos de Liberty City foi então passado para os federais, não sem certa relutância por parte do Oficial Moreira. Tinha um sentimento de possessão sobre aquelas fotos daqueles garotos que julgava conhecer tão bem. Principalmente Oh Sehun. Tinha a impressão de conhecer intimamente aquela criança de pernas finas e sorriso triangular, tamanha a frequência com que Jongin falava dele. Inúmeras vezes o moreno havia descrito o amigo, falado de suas preferências musicais, de suas histórias criativas, da caixinha de memórias... Obviamente passara um longo tempo analisando aquela caixa de latão, mas encontrara apenas coisas de garotos ali e acabara por deixar Jongin devolver a caixinha no recanto oculto do teatro velho já que o garoto tinha a esperança de mostrar para Sehun quando ele voltasse.

O Oficial Moreira achara por bem lhe conceder essas pequenas alegrias. Jongin merecia.

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Uma chuva caía na cidade e evaporava antes de chegar ao chão no momento em que o Oficial Moreira recebeu um telefonema do FBI.

Oh Sehun havia sido encontrado.

Jongin está sentado no meio fio enquanto a chuva mansa cai sobre seus ombros fazendo com que o calor perpétuo desta cidade interiorana se amenize. Os cabelos pretos estão grudados na testa e os fios sedosos tocam o início da bochecha e também a base do pescoço. Com a ponta de uma pedra ele faz riscos invisíveis no asfalto enquanto observa as nuvens pesadas e cinzentas em seu contraste magnífico com o canavial esverdeado.

Ouve a mãe murmurar as letras de uma música das Dixie Cups (Iko Iko) e pensa em como a vida deve ser diferente nas capitais. Imagina como seria se estivesse na Universidade, cursando Veterinária. Provavelmente ninguém saberia quem eram as Dixie Cups, não saberiam como é morar numa cidade que é tão quente que parece a porta do Inferno, não compreenderiam a expressão corporal de seus cachorros e... sequer saberiam quem é Oh Sehun.

Jongin balança a cabeça porque sabe que não poderia viver num mundo onde as pessoas não saibam quem é Oh Sehun. Porque Oh Sehun é seu mundo. Sua obsessão.

Sente um focinho úmido e gelado em seu pescoço e se volta, sorrindo. Aretha Franklin está ao seu lado, e Robert Johnson vem logo atrás gingando o corpo roliço. São dois vira-latas de pernas compridas, pelo arrepiado e olhar inteligente que encontrou em uma de suas andanças pela cidade em um dia de sol. Ambos eram filhotes e estavam abandonados dentro de uma caixa quase morrendo de fome e sede. Sem nem cogitar a possibilidade de deixa-los para trás, levou-os consigo para casa e, após aquele dia... Jongin nunca mais foi visto sem que as duas sombras gêmeas estivessem fielmente atrás de si.

Dentro de casa a mãe volta ao início da música

“My grandma and your grandma

Were sittin' by the fire

My grandma told your grandma

‘I'm gonna set your flag on fire!’"

 

Um ronco suave que não vem das nuvens pesadas acima de sua cabeça, corta o ar parado e ele ergue o rosto. Um carro azul vem chapinhando as poças lamacentas que se formaram nos buracos da rua e de imediato ele reconhece o carro do Oficial Moreira. Uma alavanca de puro nervosismo é ativada em seu interior. É a primeira vez que o homem aparece em sua rua em alguns anos... geralmente ele o evita.

O rapaz se ergue e espana as calças com as palmas das mãos, sentindo o traseiro úmido pelo contato com a calçada molhada. Aretha e Robert ficam sentados, sérios, observando o carro que se aproxima, as orelhas naturalmente caídas se movendo com atenção.

- Está tudo bem, Rob. – o rapaz murmura depositando um afago distraído na cabeça do cachorro que começou a rosnar.

Com um arquejo, o carro estaciona de mau jeito na rua e Jongin sabe que isso não tem importância já que a cidade tem apenas três carros. Dois além deste. Atabalhoadamente, o homem excessivamente grande para caber direito em um carro daquele desce, chapa o pé na água e nem parece notar, e caminha em direção a Jongin.

- Oi, oficial Moreira. Tudo certo? – Jongin pergunta, a garganta subitamente seca. A chuva agora não é mais que uma poeirinha úmida e quente que gruda em sua pele morena.

- Jongin... – o homem abre a boca para soltar as palavras. Olha para o rosto do rapaz que o observa ligeiramente tenso, e percebe que está emocionado, percebe que é tão incapaz de dar uma notícia boa a alguém quanto uma ruim. Sente lágrimas se acumularem nos cantos de seus olhos e simplesmente solta a notícia que vem sendo contida dentro de si a duras penas.

- Jongin... – recomeça – Encontraram... Oh Sehun foi encontrado.

O mundo para de girar, a água para de cair, o sol para de queimar...

- O quê? – Jongin pergunta e sua voz não é mais que um sopro.

- Sehun, Jongin! Sehun voltou! – o homem se aproxima e fecha as mãos maciças nos braços do rapaz e quando Jongin o abraça, sente contra si o corpo trêmulo e molhado do rapaz... e suas lágrimas.

Jongin não sabe ao certo como passou as últimas dezoito horas, estas parecem excessivamente  irreais. Não se lembra de ter comido, dormido ou feito qualquer coisa entre o momento em que o policial lhe deu a notícia e este exato momento enquanto anda de um lado para o outro no aeroporto de São Cristóvão, a cidade mais próxima de Liberty.

Não há pensamentos em sua mente além deste que se repete como um mantra: Sehun está de volta. Sehun está de volta. Sehun está de volta.

Quando vê seu reflexo no espelho de uma loja de conveniência, é que para pra pensar que deveria ter colocado uma roupa melhor e não a calça jeans desbotada e extremamente velha e a camiseta branca com o desenho do Pato Donalds. Nervosamente passa os dedos pelos cabelos pretos ajeitando-os de lado. Pensa em Sehun com uma sensação de absoluta irrealidade.

Sehun está de volta. Aquele garoto de pele avermelhada por queimaduras do sol, de sorriso triangular... um sorriso mágico... e pernas finas. Como estará Sehun? Qual será a primeira palavra a sair de seus lábios? Ele irá sorrir? O que terá lhe acontecido?

O medo indizível de não reconhecer Sehun lhe aperta ainda mais as entranhas e ele quase segura a região da barriga com as duas mãos. Está trêmulo, sente-se trêmulo e a um ponto do desmaio...  

O barulho ensurdecedor de um avião em pouso faz com que o estômago de Jongin se revire perigosamente. Sente o apelo que é a ideia de correr até o banheiro e vomitar tudo o que não ingeriu nessas dezoito horas. Bette, a mãe de Sehun, se levanta e segurando um lencinho entre os dedos com tamanha força que as juntas estão esbranquiçadas, se apoia contra o vidro transparente da sala de espera. Os olhos avermelhados pelo choro ininterrupto seguem o avião, desejosos. Desejando.

- Você está se sentindo bem, Jong? – sua própria mãe pergunta pousando a mão carinhosa em seu ombro e ele leva um choque, completamente esquecido dela.

- Estou... estou... – murmura, perdido. – Cadê a Louisa? – pergunta, subitamente alarmado pela ausência da irmã caçula.

- Ela ficou com a vizinha, lembra? – a mãe responde, mansamente.

Sim. Sim. Louisa ficou com a vizinha.

Jongin volta sua atenção para o avião que, após dar a volta na pista, agora está imóvel. A porta se abre, uma aeromoça surge em seu campo de visão... e então a gritaria começa.

Aturdido, o rapaz se volta e vê uma dezena de fotógrafos e jornalistas correrem para as portas do desembarque. Sehun... todos vieram por Sehun... o Harry Potter do mundo real... O Menino que Sobreviveu a sabe-se lá quais infortúnios.

__

Através do vidro, Jongin observa os passageiros saírem do avião. Lentos demais. Lentos demais para que a ansiedade dentro dele seja minimizada. Leva a mão aos lábios e sem perceber os dentes começam o processo de trituração de suas unhas já excessivamente curtas.

Em cada rosto ele procura ver Sehun, sua mente tendo trabalhado naquelas fotos de projeções que a polícia atualizava a cada ano... uma espécie de “Sehun provavelmente tem esta aparência aos dezessete anos”... mas, nenhuma das expressões que passam pela porta estreita e desce as escadas lhe parece familiar.

Vê um garoto de pele vermelha e nariz arrebitado demais. Vê outro louro demais. Vê um de olhos redondos demais... nenhum deles é Sehun e ele começa a se desesperar. Em sua mente, Sehun mantém aquele sorriso mágico e triangular que faz com que seus olhinhos se fechem em adoráveis meia-luas... ainda tem aquele cabelo sedoso e castanho que lhe cai displicentemente contra os olhos... Sehun deve ser lindo. Sehun sempre foi lindo.

As últimas pessoas saem do avião e Jongin começa a se mover em direção às portas do desembarque. Sente as próprias pernas como se elas fossem pedaços gigantes de gelatina que não sabem qual sua função no corpo humano. Sua mente manda que elas se dirijam para uma direção e elas quase tomam outra... Quase.

A turba eloquente e barulhenta de fotógrafos e jornalistas se alvoroça ainda mais e câmeras são erguidas ocultando de Jongin a figura que está no centro. O Oficial Moreira segura a mãe de Sehun por um braço e Jongin pelo outro enquanto abre alas com um grito poderoso de “Saiam da frente! Polícia!”.

Jongin sente membros, câmeras e bolsas se baterem contra seu braço, mas está em estado de choque e nem se importa. Alguém à frente, possivelmente com mais poder político que o Oficial Moreira, dá algum tipo de ordem e, como o Mar Vermelho da Bíblia... a turba se divide...

O primeiro pensamento de Jongin é que Sehun não é nada parecido com o que imaginou em sua mente ao longo dos anos.

__

Sehun tem pernas longas, mais longas que as de Jongin, e que estão vestidas em calças jeans escuras, a barra meio rasgada amontoando-se sobre o all star sujo. Veste uma camiseta preta com uma foto da Rainha Elisabeth II ostentando o bigode memorável do Freddie Mercury, e seus cabelos estão loiros. Com uma mecha cor-de-rosa na franja.

Não há sorriso. Não há reconhecimento nos olhos puxados... não há emoção quando a mãe se joga em seus braços imóveis, chorando sua dor, seu alívio, seu tormento de seis anos acumulados... Por cima dos cabelos da mãe, Sehun olha para Jongin com seus olhos de gelo.

Jongin começa a se mover até ele. Este Sehun não é o que esperava, mas este Sehun é Sehun... o seu Sehun... e seu amor e sua felicidade são tão grandes que não podem ser contidos... Seus olhos embaçados não veem a mãe de Sehun se afastar... seus olhos embaçados estão focados em Sehun e espera que a qualquer momento o melhor amigo abra aquele sorriso mágico mostrando que não se esqueceu...

Mas... Sehun está quebrado... Sehun não sabe mais sorrir.

Jongin laça seus braços mornos em torno do corpo magro do amigo, apertando-o com força, querendo dilui-lo dentro de sua própria pele para que ele nunca mais possa fugir...

Sehun permanece imóvel... os olhos indiferentes, enquanto é abraçado por Jongin.

 

 


Notas Finais




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