História Sobre memórias e diamantes - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Dragon Ball
Personagens Bulma, Vegeta, Yamcha
Exibições 45
Palavras 4.500
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia)
Avisos: Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Dragon Ball e seus personagens não me pertencem.

Essa história é bem antiga, e acho que num passado não muito distante, foi a primeira que postei aqui no site, num outro perfil, num outro momento. Gosto muito dela, apesar de que agora relendo, me pareceu sombria demais, embora eu adore um drama. Kelly, te dedico essa repostagem, você sempre me lembrou dessa história, quando até eu mesma havia me esquecido dela. E Yamcha, eu gostaria que o que foi escrito aqui tivesse sido verdade (e até pode ser, se a gente acreditar).

O que está em itálico, são pensamentos do personagem.

Capítulo 1 - Capítulo único


O bar na Cidade d´Oeste era um desses lugares que varavam noite e dia com as portas abertas, repleto de frequentadores desocupados atrás de bebidas, de companhia ou  de tempo pra gastar.  

 No canto mais escuro do balcão, o rapaz com cicatrizes no rosto ouvia a falação, enquanto era servido de cerveja preta.

- É claro que é legítimo, Misato! Vinte e quatro quilates! Ganhei mais cedo do Sr. Kaede, aquele velho que vem aqui sempre, o careca com nariz focinho de cachorro. Me pediu em casamento, imagina só! Obvio que aceitei, não podia deixar passar por nada, tem o rabo cheio de grana, ele. É agora que largo essa espelunca, vou virar madame! Hi, peraí que o patrão tá vindo...

 A garçonete escondeu o celular no avental sujo que vestia, fingiu que atendia os clientes com um sorrido bosta na cara, dando um jeito de mostrar a mão para quem tivesse olhos: o anel ornado em diamante, milionário, enorme e cafona.

 

Esse tipo de pessoa me faz gostar de frequentar essas espeluncas. É cada uma que a gente escuta, acaba valendo o dia. A garçonete tá lá, sorrindo tanto que deve tá com dor no maxilar, cantando em prosas àquela pedra brega piscando no dedo que mais parece um pedaço de gelo de drinque.  Lembrança do tal Sr. Kaede, velho  com focinho de cachorro, bom, pode ser...  Quem disse que as lembranças têm que ser de bom gosto, bonitas ou mesmo agradáveis?  As coisas mais bizarras também têm valor nas esquinas da memória.

 

O rapaz pegou uma caneta e um bloco na mochila, que também apoiara em cima do balcão, perdida por entre os copos suados. Tomou um gole grande da cerveja e deixou a mente rolar para trás. A conversa fiada fez tudo voltar a martelar na cabeça, se é que um por algum dia, ele sequer teve o cuidado de esconder sua visão daquilo tudo para baixo dos tapetes das lembranças.

Escreveria o que não podia ser falado pra ninguém: a forma mais rudimentar de se deixar registrado qualquer fato dos mais irrelevantes, e o que tinha pra ser relatado merecia respeito, ao menos no coração daquele homem cheio de certezas para nos contar.

“Os namekuseijins eram caras legais, ou seres legais, nunca sei direito como me referi a eles. Os dias em que estiveram aqui na Terra até que foram divertidos. Kuririn e eu os ensinamos  a jogar baralho, a tomar biritas, tiveram dois ou três bem ousados que até aprenderam alguns passos de danças, coisa do Mestre Kame, essa.  São seres pacíficos, respeitáveis e também cheios de truques rotineiros para nos ensinar. Aquele Saiyajin no meio deles é que se destacava da forma mais sombria. Arrogante, desconfiado, ficava tentando semear a discórdia entre qualquer um, de qualquer jeito. A maldade era tanta que chegava a feder. Nunca encontrei explicação para a permanência dele ali. O planeta dele já tinha ido pros ares fazia anos. Ele tinha vindo alguns meses antes exterminar a Terra.  Bulma, Goku e até o Gohan, que era só uma criança na época, tiveram que arriscar a pele saindo do planeta pra tentar reaver todos os problemas que ele havia causado. Cadê a lógica de colocar logo o Vegeta pra morar debaixo do seu teto? Esperar pelo Goku era problema dele. Ele que se virasse e arranjasse um lugar pra ficar no cacete à quatro das ruelas do espaço. O lugar dele não era aqui, nunca foi.

A minha raiva dele começa muito antes da coisa toda com a Bulma, começa lá atrás quando ele veio aqui pra nos matar. Gosto muito de viver, por isso nunca fui um cara muito polido. Respeito as pessoas, por isso nunca fiz mal à ninguém, bom, pelo menos sempre respeitei suas escolhas. Cada um sabe a vida que leva, eu por exemplo só quero seguir tranqüilo até quando Kami Sama achar que devo permanecer nesse mundo. Mas ele não. Ficava nos rondando carniceiro, só esperando a deixa certa para nos abocanhar, que nem abutre em carne podre, que devia ser a única coisa que ficava perto dele por aí.

Achei um falta de respeito sem tamanho colocar ele pra morar lá com a gente, como se fosse um semelhante. Pior foi quando os verdinhos foram embora e ele continuou lá. Sempre será um maldito de um assassino.  Essa história de redenção que tentam me enfiar goela abaixo não cola não. Podem se passar mil anos, as vidas que ele levou nunca poderão retomar seus destinos no mundo dos vivos. Quem ele matou não volta mais. Agora que ele resolveu brincar de casinha como se fosse humano, fazendo filho e fingindo ser pai de família todos resolvem ignorar isso, como se não tivesse importância. Pra quem tá vivo não tem mesmo não. Eu é que devo ser babaca demais pra me deixar sentir as dores dos injustiçados que não estão mais entre nós. Foi tudo carne que nem a nossa, não importa em que planeta. Pobres almas desgovernadas que foram cortadas do meio dos seus  caminhos, sem nenhuma explicação.

Yamcha efletia silencioso, ainda sentado ao balcão. Memórias eram importantes, tudo na vida parecia ser movido por elas. Até o ressentimento de mortos desconhecidos.

“O Saiyajin do futuro não tão distante daquele nosso passado tinha aparecido há algumas semanas.  Outra bizarrice: resolveram ignorar que além de estar coberto até os dentes de artefatos da Corporação Capsula, viajou numa máquina do tempo. Era um saiyajin e que viajou uma máquina do tempo. Mesmo que num mundo dominado pelo mal, onde tudo deve perder o sentido, me expliquem que saiyajin se prestaria a ser um mero empregado da Corporação, e mesmo que fosse: com quem arrumaria uma máquina do tempo? Quem nesse mundo haveria de criar uma máquina do tempo dentro da Corporação? E considerem que estamos falando de uma época em que somente dois ou três de nós sobreviveram, num mundo com escassez de tudo, num mundo de puro caos. Eu não era dos mais espertos, mas aquele moleque, por mais que bondoso, nunca teve um lugar certo nas minhas entranhas. Não, na época nem desconfiei que seria quem é, mas era um sexto sentido: exalava Vegeta e Bulma por todos os poros.

A tensão no ar era tanta que se quiséssemos, podia cortar com uma faca e arrancar pedaço, que nem se faz com queijo. Não sabíamos se pelos horrores das promessas sombrias assinadas pelos novos inimigos, que apareceriam dali mais ou menos 3 anos, ou se pela doença do Goku. Que garantia tínhamos de que aquele medicamento que também quebrou o tempo e espaço, para ser usado por nós, faria bem ao nosso amigo? Quem garantia que se o Goku sobrevivesse, conseguiria derrotar os Androides, mesmo sendo o guerreiro mais forte dentre os conhecidos? Tava todo mundo velejando naquele barco de incertezas.

Já não aguentava mais treinar, agora penso que teria sido inútil naqueles primeiros dias de espera se o tivesse feito, tamanho era minha falta de concentração nos movimentos. A única coisa que me restava foi o que fiz: extravasar. Viajei, saí pra longe daquele ar pesado. Sai um pouco da mansão.

Ninguém nunca vai entender que o luxo em demasia cansa o tipo de gente a qual faço parte, a gente que nunca teve onde cair morta. Ter o que comer no dia já é um lucro pra mim. Nunca cuspirei pra cima do teto que me abrigou por quase 10 anos, mas ah, tudo naquela casa é em exagero. Exagero de quantidade, de tamanho, de valor. E de valor. Às vezes entro lá e sinto vergonha de me permitir pisar no tapete caro, felpudo e desnecessário, que nunca passará de um enfeite de chão de gente fresca pisar em cima.  Tanto desiludido com o estômago roncando por entre as beiras das cidades, sem um mísero migalho de pão pra tirar o gosto amargo da garganta.  Minhas origens de ladrão podem me vender como fanfarrão. Não se iludam:  já não aguentava mais brincar de ser rico. Não que a miséria me agrade, claro que não, a condição  mediana é o que me parece justo, é o que eu posso pagar. Não consegui fazer meus os hábitos de desperdício. Vai ver meu sangue azedo que não se mistura com o  dos  endinheirados. O sangue azul deles é diferente do dos plebeus.

Aquela viagem foi uma das mais memoráveis, olha que eu já viajei à beça nessa vida. Por três meses fique fora da Capital do Oeste. Resolvi fazer do modo convencional: nas estradas. Conheci muitos lugares novos, comi tanto e tantos pratos novos que passei mal inúmeras vezes. Bebi, joguei conversas fora deitado sobre céus descobertos, passeio frio em neve, escaldei em terras quentes... Conheci muita gente bacana, ouvi historias fantásticas que lembrarei até o meu fim. Por essas coisas se vale qualquer sacrifício pra continuar respirando. Namorei. E como namorei. Nada que me fizesse esquecer o lugar devido da Bulma. Ela sempre ficou guardada no peito, no lugar que nenhuma namorainha de uma noite só poderia sonhar em chegar perto. Mas a mente é de humano e a carne é fraca. Nunca fui santo.

Voltei pra casa naquela que foi minha última volta à Corporação, assim, como um lar. Dessa vez, quando fosse embora, era pra nunca mais morar lá.  O que a história oficial não conta  é que não foi por culpa só  daquele Saiyajin  miserável, que nunca merecerá uma gota do amor vem recebendo desde que saí de cena.  Se ele não tivesse aparecido em nossas vidas, é certo que ainda estaríamos tentando ser feliz até hoje, naquela relação morna pela qual nos arrastamos por tantos anos. Parece egoísmo pensar assim, vai ver é mesmo. Mas quem é totalmente feliz o tempo inteiro? O que tínhamos durou por tanto tempo porque sempre foi o normal de qualquer relação. Só que não posso negar que o que nos separou não foi bem o que caiu do espaço nos jardins da casa: o circo já estava armado, Vegeta foi só o intrometido que resolveu nos ajudar a chutar o pau da barraca e derrubar todos os nossos pequenos erros acumulados de uma vez. Ele ajudou.  Mas a culpa não foi só dele."

Matou o copo de cerveja parado na sua frente, com tanta urgência que foi inteiro de uma vez. Sentiu a garganta rasgar com a cevada gelada, se certificando de que ainda estava sentado no bar e não perdido em qualquer outra dimensão.

“Os olhares carregados de vontades, chegavam a dar nojo. O filho da mãe  sempre a desejou, do jeito mais ameaçador. Não do jeito que os funcionários dela a comiam com os olhos e nem do jeito que qualquer outro homem que honra o que tem entre as pernas olharia, esse tipo de cara olha por olhar mesmo, basta ser mulher. O corpão de tirar um do sério e aquele ar zombeteio dela só faz o tesão aumentar, todos nós sabemos.

Foi o tipo de coisa que paira de homem para homem, mas não entre qualquer um. Só se percebe quando não se carrega na alma pudores e  nada a esconder – e se tem uma coisa da qual não posso fugir é que sei bem o que é canalhice, das mais sacanas, que jamais deixaria um rapaz que as conhecem chegar perto de uma filha minha, se um dia tiver uma. Percebo de longe qualquer intenção de sacanagem. Só eu podia enxergar que ele a queria, porque cansei eu mesmo de lançar aquele olhar cheio de planos sujos para cima dela, além do motivo mais banal de todos: Bulma estava comigo. Eu era seu rival.

Percebi nas vezes que ele ia a procurar nos laboratórios, nas  vezes que nos esbarramos na cozinha, nós três, e ele tratava de lamber ela com as ondas de luxúria que saiam daqueles olhos negros de horror.  Ele também era um pilantra safado, nosso ponto em comum. Vegeta sempre a desejou, nunca pôde me enganar e nem tentaria se pudesse. No início ela não percebeu isso. Só no início.

Os anos pesarão, velhinho vou  perder os cabelos grisalho, nunca vou deixar de admirar o Sr. Briefs. O que o velho safado tem de inteligente, tem de bom coração. Mas um aviso: não se deixem levar por aquela cara de pastel avoado, ela só faz você cair na lábia furada dele, deixando-o sempre na melhor posição.

Até hoje, me pergunto se tudo não foi uma grande armação, aquele gênio com tendências psicopatas, maquinando para mover nossos destinos como se faz com marionetes. Quando deixou de tratar direto com Vegeta dos assuntos corriqueiros de manutenção da nave, passando todo o fardo para Bulma, tive certeza que ele percebeu comigo que aquele príncipe de araque tinha algum fascínio sobre sua filha. Uma pontada de raiva me tomou ao pensar que ele estaria pondo-a à prova, o brutamonte era um assassino,  que certeza ele tinha da real intenção dele para com a Bulma, para com todos nós? Mas sempre existiria o outro lado da moeda, o néctar doce a qual ele bebe até hoje: teria o guerreiro forte e indomável, olha que paradoxo, domado pela sua cria. Para sempre ao seu lado, pra protegê-los de qualquer inimigo que possa vir aparecer. Como um capacho. Como um troféu pessoal. Será que tentar uni-los foi mais um dos seus excêntricos experimentos?  Olha que deu certo.”

 

Lembrar desses dias que passamos todos morando sobre o mesmo teto, é como ver uma imagem em sépia: tudo perdido entre sombras envelhecidas, que não são pretas  nem brancas, que se perderam num tom marrom que no fundo fica um alaranjado feio. Que por mais que dance entre todas as aquarelas, nunca deixará de ser  uma imagem perfeita que foi ajustada num efeito diferente, que no final se perdeu sem definição, sem cor nenhuma. Pra mim, não teve cor nenhuma. Pra mim, não teve graça nenhuma.

 

“ Uma das maiores burrices de um homem é acreditar que um sinal claro de que se está galhudo pelas têmporas é quando a companheira não quer mais ir pra cama com ele. Tudo balela. Eu mesmo já fui pivô com várias gatinhas. Montavam em mim, depois voltavam pra casa cheias de gás, prontas para voltar a montar nos namorados desavisados, que pensavam estar com as testas lisas só por causa das dondocas cheias de fogo nas ventas pedindo para seus machos  acalmar suas labaredas. Como se euzinho e qualquer outro  já não tivesse nos divertido naqueles incêndios inapagáveis.

Mulher é bicho triste, que não foi feito por Deus nenhum. Quando há de acordar as feras dentro delas, não se pode botá-las para dormir nunca mais. Quanto mais estão fazendo coisa errada, mais fogo elas têm, guardem isso, é importante e só se pode ser afirmando por alguém que já passou por uma intriga dessas, assim como eu.

Se nunca fui santo, Bulma muito menos. Naquele tempo, estava insaciável, se é que é possível afirmar isso dentro do contexto insaciável ao qual ela sempre pertenceu. Hoje, consigo enxergar que, na maioria das vezes, era puro desespero. Vai ver ela pensava que dormindo comigo poderia esquecê-lo, ou o pior, que não gosto de pensar, mas que nunca poderá deixar de ser cogitado:  a hipótese de que fechava os olhos e saciava as cobranças do corpo, esquecendo que estava comigo, sonhando em estar com ele. Essa derrota seria demais pra mim, essa questão prefiro deixar guardava no buraco escuro onde sempre permanecerá trancada.  Também tenho orgulho, oras. Também tenho o que honrar.

A vida inteira, ela chutou qualquer coisa que tivesse que ser feita que não fosse trabalho, coitado das centenas de empregados que circulam na Corporação. Nunca vi Bulma pegar do chão nenhuma das peças das suas roupas de marca, que fazia questão de arrancar do corpo e jogar em qualquer canto, como se faz com lixo. Ela sempre foi mimada. Assim como o Sr. Briefs não se deixem levar por aquela belezinha de rosto: é uma esnobe. Não a julgo, nasceu numa condição melhor do que a maioria dos seres humanos e o que é que se pode fazer se além disso, é um gênio? Mais que merecido ter dezenas de serviçais abanando ela do calor, o que ela faria eles fazerem se fosse preciso, com a arrogância autoritária que vomita em qualquer um. Nunca me importei, nunca nos afetou; não era problema meu.

Imaginem minha surpresa quando a percebi literalmente uma escrava do seu próprio hóspede, fazendo todas as suas vontades, como se lhe devesse algum favor,  como se lhe devesse a vida. Era ele quem deveria lamber o chão pra ela passar, ora bolas. Ela o estava sustentando com alimento, conforto, materiais da mais alta – e cara – tecnologia e ele a tratava daquele jeito duro, como se faria com algum bandido impiedoso, e nos deparamos com mais um paradoxo: ele fazia com ela o que ela deveria estar fazendo com ele. Logo aquela cientista geniosa, se deixando guiar por um outro esnobe que nem ela, só que um esnobe que não tinha ética, carater, que não tinha nada a lhe oferecer a não ser uma bagagem de chacinas  e devastações das mais hediondas pesando nas costas. Bulma era escrava dos próprios desejos ocultos.

Quantas vezes peguei Bulma rolando na cama, tentando mirabolar o projeto perfeito para as vontades daquele sujeitinho. Quantas vezes a peguei se perguntando se ele estava se alimentando. Bulma preocupada. Sou um homem vivido, mas mesmo que não fosse, qualquer um que sabe contar até três enxerga o óbvio. Acho mesmo que nem ela percebia o que estava acontecendo.  A minha visão era mais clara porque estava vendo os passos daquela dança se formar do lado de fora. Nunca foi ciúme ferido da minha parte, não com aqueles dois:  me deram de sobra motivos palpáveis para acreditar que era eu quem sobrava ali no meio.”

De repente, a grandeza que existe dentro de mim se fez presente, e olha que nunca pensei que poderia fazer alguma coisa realmente boa nessa vida. Ando com a cabeça erguida por ter tido a coragem de fazer o que tinha que ser feito, para me liberar, para nos libertar. Protegê-la de qualquer acusação que poderiam lançar sobre eles. Devo admitir que também não foi só por nobreza, eu devia muito a ela em variados sentidos, resolvi pagar do jeito que podia. Ela me sustentou por anos, me amou por anos, o que é que eu podia fazer para lhe retribuir tudo? Ela haveria de sair imune de tudo aquilo que tinha armado sem perceber. Não tive muita escolha, mas de tudo não foi tão ruim: mataria dois coelhos com uma cajadada só."

 

É num momento crucial desses  que a gente percebe que não está sozinho. O mundo é uma cadeia de contas, nós presos uns nos outros, na alegria e na dor. O que a gente faz afeta nosso igual, o que ele faz nos afeta. E se insistimos em ser a conta inchada, grossa, manchada e ofendida pra sempre, o colar inteiro entorta bem onde estamos e todo o resto fica sem direção. Se não medimos nossos ato, todo mundo sofre em cadeia.

 

" Tenho certeza de que ela sempre soube das minhas puladas de cerca. Elas nunca nos atrapalharam. Como a mulher inteligente que é, não deixou qualquer pingo de ciúme burro prejudicar nossa relação. Bulma sabia que era única pra mim e que todas as outras eram só diversão. Acho que nunca tentou me pagar essas escapulidas na mesma moeda. Acho que nada daquilo  foi de propósito, embora que eu nunca colocaria minha mão no fogo se me pedissem para garantir a fidelidade dela em todos os anos que estivemos juntos: como posso saber que assim como eu, ela não se divertia por aí entre uma  viagem minha para treinar fora e outra viagem dela à negócios? Não colocaria minha mão no fogo nem pelo meu próprio couro. Na nossa relação sempre houve buracos que nunca tentamos tapar. A vida é uma constante variável.

Na manhã em que soube que ela passou uma noite inteira velando aquele desgraçado desmaiado, por ter feito a graça de se explodir dentro da nave, engoli em seco. E mais uma vez afirmo, que assim como o Sr. Briefs, além de ter o rostinho enganoso, Bulma tem o coração bondoso. Resolvi inventar para os neurônios que ela fez o que fez como uma espécie de auto punição, por ter desenvolvido a nave, por ter confiado nele, de deixá-lo se aproximar tanto à ponto de que pudesse roubar a nave e a fazer sua. Tratei de procurar na memória alguma situação parecida, que ela me tivesse feito companhia por qualquer doença que ocasionalmente pudesse ter me acamado daquele jeito, olha que passamos dez anos juntos. Nunca se prestou. Tive de tudo, o melhores médicos, remédios e acordava só com os enfermeiros, nos quartos luxuosos. Aquela boa ação dela não era movida só pelo coração bom. Na época, ninguém comentou sobre isso. Era normal a anfitriã zelar pela saúde do convidado. Passaram vista grossa. Eu não".

 

 É bom lembrar das coisas, tem coisa que não se deve esquecer, por precaução.

 

Olhou para o copo que, sempre esvaziado, sempre enchido, naquele balcão movimentado, que parecia  parado àquele rapaz concentrado.

“ Bom, já estava feito. O destino quis que Vegeta tomasse uma importância maior do que merecia, maior do que merece. No meio dessa confusão toda, o coração dela já era dele. Só eu percebi isso, naquele inicio de tudo. Resolvi entrar em ação, por ela, por mim e pelo meu ego. Sairia por cima, protegeria Bulma e para o diabo com todo o resto. Já estava perdido e de saco cheio  naquele meio que não tinha mais espaço pra mim.

Bebi, sai, traí.  Tinha que fazer o que sempre fiz, só que dessa vez faria questão de esconder menos. E dessa vez, ela resolveu me chutar por ter dormido com uma ou duas pela rua, como se nunca tivesse feito antes. Como se ela já não soubesse que eu fizera antes. Esse é o nosso maior segredinho: ela sabe que eu sempre soube que toda aquela história de traição não passou da desculpa, que nós dois maquinamos às escondidas e simultaneamente, para botar fim naquele namoro que não tinha mais para onde crescer. As experiências que passamos foram únicas, hoje somos o que somos graças ao que fomos, juntos. De uma forma muito doida, sabia que ela iria entender esse plano todo e faria sua parte: me chutar. Ah Bulma, sempre demos certo de alguma forma e aqui, formamos o plano perfeito.

Quem saiu de corno na historia não fui eu. Mesmo namorando com uma mulher que resolvera colocar outro homem pra morar na mesmo casa que nós dois. Dizem que o amor é um sentimento que não deve ser apenas dito, deve ser nutrido com exercícios diários e olha,  se um dia deixei faltar,  ela nunca poderá dizer que não lhe foi dado por mim de algum jeito. Nesse ato foi doado à ela todo de uma vez,  junto com a minha dignidade. Ela saiu limpa, eu sai traidor mal carater. Hoje, a história conta que pelo mulherengo aqui que resolvemos destruir o castelo construído com pedras de açúcar que foi nosso relacionamento, mesmo nunca levando nenhuma outra mulher para morar entre nós. Olha como fomos espertos?”

Bebeu o fim de mais um copo de cerveja. Lembrava-se daqueles dias esquisitos, com tanta coisa acontecendo rápido demais. O bar já estava se tornando desconfortável, as pessoas iam e vinham e apenas ele permanecia ali, amuado num silêncio que só ele conseguia aproveitar.

“Nos afastamos. Ela engravidou. A vida inteira dormiu comigo e naqueles dias fatídicos, em que tudo que tínhamos era as incertezas de um futuro já prometido à pura maldade,  ela resolve engravidar dele. Sem mais nem menos. Depois dessa, qualquer centelha de qualquer sentimento de união que poderia vir a se estender entre nós se apagou. Sempre será uma amiga querida, meu amor eterno. Mas depois dessa, sinceramente? Deixei pra lá. Voltei a me afundar nos treinos pesados, ainda havia a ameaça dos Androides que no futuro alternativo tinham nos devastado em poeira. Tempos modernos: o filho deles nunca seria um peso para nós, mesmo que simbolizasse frágil e dócil, a profundeza da ligação em que aqueles dois tinham se metido. Sentado nesse bar, entendo que sobreviemos a todos os pequeno delitos que nos causamos porque na real, não esperávamos mais nada um do outro. Não nos éramos suficientes.

Trunks, adoro aquele nanico esperto, menino de ouro, gosto muito dele. Vegeta, bem, o diabo que o carregue. O que importa é que Bulma parece estar muito feliz. Da forma que eu nunca poderia fazê-la, nunca pude fazê-la, ao menos foi tentado. O que me conforta é saber que no final, essa felicidade toda teve a minha contribuição, por mais que nas entrelinhas que só nós dois podemos ler.

No inicio parecia um sonho. Além de viver com o meu amor, tinha tudo em abundância, luxo em todos as formas de excesso. No final, não mais.  Quando a gente sempre teve pouco e de repente tem demais, se perde no meio das coisas. Até os objetos mais finos vão perdendo o sentindo quanto se tem fácil. Tenho razão quando digo que muitas vezes, nas coisas mais delicadas e bobas se encontram as maiores importâncias desse mundo, e que nossos olhos às vezes, demora pra detectar. Quando a gente cresce, começa a dar ouvidos a nossa essência, aquela consciência chata que fica zombando nos nossos ouvidos até que um dia a gente resolva escutar. Dentro de mim, sempre haverá uma sede de mundo insaciável, que me faz um inquieto constante, sem conseguir parar em lugar nenhum. Tem tanta coisa boa por aí, não é verdade? Jamais conseguirei sentar num trono de rei conformado, pra esperar a morte chegar de braços cruzados, mesmo que esteja ornado em pedras preciosas.  Acho que por isso nunca andei muito certos nos trilhos: gosto de me desviar.  E sabe, de uma forma desconfortável, acredito que ninguém conseguirá me completar, não foi por falta de Bulma. O ser humano vai definhando com o tempo, mente e alma. Os anos passam e vamos perdendo mais a viscosidade da pele, a firmeza dos ossos, a sanidade. E se é pra afundar, que seja na gandaia.”

 

Memórias são como uma das minhas viagens sem rumo certo, um dos  experimentos malucos do Sr. Briefs, o filho mestiço da Bulma e como o diamante de noivado no dedo da garçonete: brilhantes e sem explicação,às vezes, mas cheio de sentidos subliminares. Se tivesse bebido mais um pouco dessa cerveja aqui, chegaria na belezinha alí e falaria: independendo do valor e do tamanho, mesmo que o casamento com o tal velho rico desça pelo ralo em menos de um ano e não lhe reste mais nada pra pôr no prego, guarda essa pedra no seu dedo, queridinha. Essas pequenas lembranças reluzentes, charmosas e sem explicação nenhuma que caem nas nossas vidas estão cheias de lições pra nos dar.

 


Notas Finais


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